Mostrando postagens com marcador velhice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador velhice. Mostrar todas as postagens

12/12/2024

O eterno amamentado

No gênero asilo de velhos, o que existe ainda não serve para a maioria das pessoas. Por enquanto, ao que sei, a escolha se limita a uma alternativa: ou o asilo de favor, mendicância e caridade, ou, segundo me dizem, o de luxo, bem pago. Mas onde caberá o velho pequeno-burguês? Ser velho é ficar com dois ou três hábitos, depuração de uma vida inteira, e não vejo muito como uma pessoa que se fez e foi feita de um jeito vá de súbito espaventar-se com coisa nova. Achar-se, por exemplo, entre os velhinhos que foram os grandes aventureiros das ruas e cujas histórias naturais inquietam o velhinho acomodado que agora só quer da vida mastigar o que é seu: na hora de ser velho não é mais hora de se receber lição de coisas, já é tarde para outras verdades. E é o que aconteceria com o velho pequeno-burguês se entrasse no asilo de pobres.
Ou então, como imaginá-lo no abrigo de luxo? Entre as velhas que sustentam o pescoço com presilhas de brilhante e tomam o chá que tomaram em criança? Ser velho também não é hora de ser humilhado, de ficar como barata tonta entre etiquetas e faustos mortos. O nosso velho ia se sentir garoto desajeitado, sempre cometendo gafes, fazendo barulho ao mastigar, alegrezinho na hora errada.
Devia haver várias espécies de abrigos para a velhice.
A pessoa, em plena vitalidade, iria visitando uns e outros, se familiarizando, passando mesmo uns fins de semana ora numa casa ora noutra. Mesmo porque em plena vitalidade, não se pode adivinhar que espécie de velho se vai ser. O homem ainda moço de hoje – como saberá ele desde já se não vai se transformar num velho que só se dignifica se tiver bengala e uma campainha para chamar? Como é que a tranquila senhora de hoje, cumpridora de seus deveres, respeitadora de tudo o que é ordem, como sabe ela se, na velhice, de repente não lhe dará uma liberdade irônica, um modo de sorrir que intriga os moços, e não vai virar uma velha que não penteia o cabelo, que deixa o cigarro no canto da boca, e constrange a família toda com sua nova sabedoria?
Quem diz que o austero senhor de hoje não precisará dizer sem-vergonhices para manter seu interesse pela vida?
Velhice é a última chance das reivindicações, e estas, quase sempre mantidas secretas, desabrocham como surpresa. Ninguém sabe, pois, de que tipo de asilo precisará.
Sem contar que, mesmo com asilo bem escolhido, ainda restam tantas incertezas. Arruma-se bagagem para uma instalação de dez anos na velhice, e um ano depois talvez não se precise mais.
Ou então é o oposto, como me contaram um dia desses de uma velhinha. Entrou no asilo de pobres com cento e sete anos. O tempo foi passando. Ela o enchia, ao tempo, vivendo. Não tinha outra coisa mais a fazer. E lá está ainda hoje – com cento e quinze anos. Cada vez menor, cada vez mais sucinta. Cento e quinze era muita idade: “tem certeza de que ela não está enganando ou mentindo ou que já não pensa bem?”, indaguei. A pessoa disse que também tivera dúvidas, mas lhe haviam afiançado que, embora sem documentos, era isso mesmo. E uma das provas estava no fato da presença, neste mesmo asilo, de um velho de oitenta e dois anos, conterrâneo da velhinha de cento e quinze. E que fora por ela amamentado... A mãe do velhinho não tivera leite, ele fora nutrido pela velhinha, então farta e jovem. E ali, no mesmo asilo, está o amamentado que não me deixa mentir.
Se velhice é retorno à infância, pelo menos este caso conheço de real retorno ao ponto de partida. Se o velho de oitenta e dois anos ficou feliz com o encontro, é o que não se pode adivinhar. Pois contaram que a velhinha de cento e quinze se considera com direitos adquiridos, ralha com ele à toa. Inesperadamente, num asilo de pobres, voltou ele a um ambiente de família. Resta saber se família era o que ele queria. Quem sabe uma velhice solitária e despreocupada era o seu ideal, quem sabe se ele estava querendo sua liberdadezinha, seus – amamentado e dominado a vida toda – resmungos sem palavras, uma vida de pardal pousado em banco de praça.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

09/08/2024

A arte de ser velho

É curioso como, com o avançar dos anos e o aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie de pudor de que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima. Pelo menos entre nós, latinos da América, e sobretudo, do Brasil. E talvez seja melhor assim; pois se esse sentimento nos subtrai em vida, no sentido de seu aproveitamento no tempo, evita-nos incorrer em desfrutes de que não está isenta, por exemplo, a ancianidade entre alguns povos europeus e de alhures.
Não estou querendo dizer com isso que todos os nossos velhinhos sejam nenhuma flor que se cheire. Temo-los tão pilantras como não importa onde, e com a agravante de praticarem seus malfeitos com menos ingenuidade. Mas, como coletividade, não há dúvida que os velhinhos brasileiros têm mais compostura que a maioria da velhorra internacional (tirante, é claro, a China), embora entreguem mais depressa a rapadura.
Talvez nem seja compostura; talvez seja esse pudor de que falávamos acima, de se mostrarem em sua decadência, misturado ao muito frequente sentimento de não terem aproveitado os verdes anos como deveriam. Seja como for, aqui no Brasil os velhos se retraem daqueles seus semelhantes que, como se poderia dizer, têm a faca e o queijo nas mãos. Em reuniões e lugares públicos não têm sido poucas as vezes em que já surpreendi olhares de velhos para moços que se poderiam traduzir mais ou menos assim: “Desgraçado! Aproveita enquanto é tempo porque não demora muito vais ficar assim como eu, um velho, e nenhuma dessas boas olhará mais sequer para o teu lado...”
Isso, aqui no Brasil, é fácil sentir nas boates, com exceção de São Paulo, onde alguns cocorocas ainda arriscam seu pezinho na pista, de cara cheia e sem ligar ao enfarte. No Rio é bem menos comum, e no geral, em mesa de velho não senta broto, pois, conforme reza a máxima popular, quem gosta de velho é reumatismo. O que me parece, de certo modo, cruel. Mas, o que se vai fazer? Assim é a mocidade-ínscia, cruel e gulosa em seus apetites. Como aliás, muito bem diz também a sabedoria do povo: homem velho e mulher nova, ou chifre ou cova.
Na Europa, felizmente para a classe, a cantiga soa diferente. Aliás, nos Estados Unidos dá-se, de certo modo, o mesmo. É verdade que no caso dos Estados Unidos a felicidade dos velhos é conseguida um pouco à base da vigarista; mas na Europa não. Na Europa vêem-se meninas lindas nas boates dançando cheek to cheek com verdadeiros macróbios, e de olhinho fechado e tudo. Enquanto que nos Estados Unidos eu creio que seja mais... cheek to cheek. Lembro-me que em Paris, no Club St. Florentin, onde eu ia bastante, havia na pista um velhinho sempre com meninas diferentes. O “matusa” enfrentava qualquer parada, do rock ao chá-chá-chá e dançava o fino, com todos os extravagantes passinhos com que os gauleses enfeitam as danças do Caribe, sem falar no nosso samba. Um dia, um rapazinho folgado veio convidar a menina do velhinho para dançar e sabem o que ela disse? - isso mesmo que vocês estão pensando e mais toda essa coisa. E enquanto isso, o velhinho de pé, o peito inchado, pronto para sair na física.
Eu achei a cena uma graça só, mas não sei se teria sentido o mesmo aqui no Brasil, se ela se tivesse passado no Sacha's com algum parente meu. Porque, no fundo, nós queremos os nossos velhinhos em casa, em sua cadeira de balanço, lendo Michel Zevaco ou pensando na morte próxima, como fazia meu avô. Velhinho saliente é muito bom, muito bom, mas de avô dos outros. Nosso, não.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

01/08/2024

As máximas

Tenho à mão as Máximas do nosso Marquês de Maricá. Leio: “Mocidade desbragada, velhice achacosa.” Discordo e emendo: “Mocidade desbragada, velhice anedótica.” Pois os velhos que souberam estragar a mocidade, como têm coisas para contar à gente!
Quanto aos outros, são uns sujeitos tão chatos agora como deviam ter sido há cinquenta anos atrás.

Mário Quintana, em Porta giratória

23/07/2024

Alegrias da Velhice

Até ficar velho, operação antigamente simples e natural, resumível na venerável sentença “quem não morre fica velho”, está se tornando cada vez mais complicado, a ponto de, receio eu, causar algumas crises de identidade nesse cada vez mais vasto contingente da população. Acho que vou sugerir a criação, nas faculdades de Filosofia, de um curso de epistemologia da velhice, porque a confusão, pelo menos entre os menos ilustrados, como eu, aumenta a cada dia. Talvez até os próprios geriatras se beneficiem desse estudo, porque tenho praticamente certeza de que, entre eles, há divergências sobre o conceito de “velho”.
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase “lide com preconceito extremo”, que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como “boa idade”, “melhor idade”, “feliz idade” e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa “o sistema caiu”, por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem — sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: “Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.” Teve outra, saquem agora o tremendo furo: “Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.”
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc. etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais — besteira, esse negócio de “nunca é tarde demais”, costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, frequentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranquilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Rousseff é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

14/07/2019

Aprender sempre

“‘Envelheço aprendendo sempre’, Sólon, na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia dizê-lo também na minha; mas é bem triste o conhecimento que, desde há vinte anos, a experiência me fez adquirir: a ignorância ainda é preferível. A adversidade é, sem dúvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas lições e muitas vezes o proveito que delas se tira não vale o preço que custaram. Aliás, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido.
A juventude é o tempo próprio para se aprender a sabedoria; a velhice é o tempo próprio para a praticar. A experiência instrui sempre, confesso, mas não é útil senão durante o espaço de tempo que temos à nossa frente. É no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que tão tarde e tão dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paixões alheias de que ele é o fruto? Não aprendi a conhecer os homens senão para melhor sentir a desgraça em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas, não me permitiu evitar nenhuma delas. Porque não permaneci nesse estado de confiança, insensata mas ditosa que durante tantos anos fez de mim a presa e o joguete dos meus ruidosos amigos, sem que tivesse a mínima suspeita de todas as tramas em que estava envolvido? Troçavam de mim e eu era vítima deles, é verdade, mas acreditava que me amavam, e o meu coração deliciava-se com a amizade que eles me tinham inspirado e pensava que sentiam por mim uma amizade igual. Essas doces ilusões estão destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão me revelaram, ao fazer-me sentir a minha infelicidade, permitiu-me ver que não havia remédio e que não me restava senão resignar-me. Por isso, para mim, na minha situação atual, todas as experiências da minha idade não têm utilidade presente nem proveito futuro.
Ao nascermos, iniciamos uma luta que só termina com a morte. De que serve aprender a conduzir melhor o seu carro quando se está no fim da estrada? Então, já não resta senão pensar em como sair dele. O estudo de um velho, se é que ainda tem algo a estudar, consiste unicamente em aprender a morrer, e é precisamente o que menos se faz na minha idade, em que se pensa em tudo menos nisso. Os velhos estão mais agarrados à vida do que as crianças e saem dela com mais má vontade do que os jovens. É que, como todos os seus trabalhos se destinaram a essa mesma vida, ao chegarem ao fim, veem que os seus esforços foram inúteis. Todos os seus cuidados, todos os seus bens, todos os frutos das suas laboriosas vigílias, tudo abandonam quando partem. Em vida, não pensaram em adquirir algo que pudessem levar consigo quando morressem.
Jean-Jacques Rousseau, in Os devaneios do caminhante solitário

08/03/2019

Saudade inexplicável

Velhice é saudade. Isso explica que haja jovens e mesmo crianças que, tendo vivido só um punhadinho de anos, já são velhos. É que a saudade pode florescer já nas manhãs... Percebi, então, que a velhice não era coisa nova. Ela tinha morado sempre comigo. Eu tinha saudade sempre, mesmo sem saber do quê. Saudade sem saber do que pode parecer contrassenso, pois a saudade é sempre saudade de alguma coisa: de um rosto, de um lugar, de um tempo passado. Você nunca sentiu isso? Uma saudade inexplicável de algo que não sabe o que é? A saudade aparece, então, como tristeza no seu estado puro, sem objeto. Quando você sentir isso, não se aflija. É que os seus olhos estão andando pelos bosques misteriosos onde nasce a poesia. São os bosques da saudade. Todos os poetas já nascem velhos.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

01/03/2019

Sobre a criança na velhice

Um amigo que está sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e fez esta pergunta: “O que fazer para permanecer jovem? O que fazer para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?”. Acho que essa é pergunta mais dolorosa que fazem aqueles que se veem envelhecer. É o tema do filme Morte em Veneza, baseado no livro de Thomas Mann: um homem maduro, na fronteira da velhice – seus bigodes já estão grisalhos e as rugas marcam o seu rosto –, num hotel de Veneza, vê um jovem adolescente que brinca na praia. Aquela imagem de juventude se apodera dele com uma força insuportável. A imagem do jovem o atormenta e ele dele se enamora. Não tem nada a ver com homossexualidade. Não é isso que está em jogo. Na imagem do jovem ele vê a sua própria juventude perdida. O espelho é um sofrimento. Especialmente quando o espelho são os olhos de uma jovem que se levanta e, com um sorriso, nos oferece o seu lugar no metrô... Continuar a ser jovem sendo velho? Eu acho isso é possível. O apóstolo Paulo, sentindo a mesma coisa, disse: “Embora o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova dia a dia”. Claro, há coisas que são perdidas, definitivamente. A pele, por exemplo: as rugas, a flacidez, a secura. Mas, com a perda, há ganhos. Na juventude, a pele é a face exterior da musculatura. Ela nada revela, a não ser os músculos. Na velhice, a pele deixa de ser a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície exterior da alma. Os músculos podem ser obstáculos à manifestação da alma. Na velhice, a pele é o meio através do qual a alma se torna visível. Especialmente o rosto. Livre das intermediações da musculatura, a alma pode então realizar sua função artística de esculpir o rosto. Ela aparece no rosto. Acontece, então, a ocasião para que se realize o prometido pelo evangelista João: “... e o Poema se faz carne”. Tudo, então, vai depender dos poemas que estão guardados na alma. Pois a alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. E o rosto vai então revelar uma beleza que a juventude não deixava ver. Ou, quem sabe, o inverso, uma feiura que a juventude não deixava ver. Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles. E a criança, como disse Zaratustra, é “inocência e esquecimento, um novo início, uma brincadeira, um moto­-contínuo, um primeiro movimento, um ‘Sim’ sagrado...” . As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam o seu barco e se entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz. Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira: “Pugno, ergo sum” – luto, logo existo. É preciso que haja sempre uma batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do “Sítio do Vovô”) logo se transforma num charco de água parada. A segurança é a mãe do tédio. E no tédio as serpentes chocam seus ovos. “Homens velhos devem ser exploradores, não importa onde... Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais alta, de uma comunhão mais profunda... Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia: o grito das ondas, o grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: no meu fim está o meu início” (T. S. Eliot). Nikos Kazantzakis é um autor que precisa ser lido. Dentre todos os seus livros, todos eles maravilhosos, o que fala mais perto do meu coração é Zorba, o Grego ... Quem viu só o filme nada viu. Tentei ver o filme, pensando que seria igual ao livro, e não consegui chegar ao fim. Acontece que há certas sutilezas na escrita que não podem ser transformadas em imagens. Está relatado que Zorba, velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto, levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente, o mundo maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: “Um homem como eu deveria viver mil anos!”. Ditas essas palavras ele caiu morto... Zorba morreu criança.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

17/02/2019

Velhice

Ela já viveu 96 anos. A saúde está perfeita, glicemia, colesterol, pressão. Há os lisos cabelos brancos, as pernas trôpegas, a bengala. Nunca ouvi dela uma lamentação pelas limitações da velhice. Pelo contrário, ela goza intensamente os prazeres que lhe restam, especialmente os prazeres da mesa, os prazeres dos olhos e o prazer dos cachorros. A vida inteira ela amou os cachorros. Um dos seus prazeres moleques é dar secretamente para os cachorros que se assentam ao seu lado pedaços de pão mergulhados no café com leite. Extasia-se com as cores das flores das árvores. Durante a florescência dos ipês-rosas, ela não se cansava de repetir: “Como são bonitos!”. Hoje ela viu a lua cheia, enorme, quase branca, redonda. Quando o entusiasmo é demais, ela diz seus sentimentos em alemão. “Wie die Welt ist doch so schön, aber Ich muss scheiden...” – como o mundo é belo, mas eu tenho de partir…
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

12/06/2018

Velhice

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exatidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.
Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim

26/03/2017

Você


Você que trabalhou, batalhou, criou os filhos, envelheceu... Os filhos cresceram, saíram de casa, você se aposentou... E agora o tempo se estende vazio à sua frente, pouco importa levantar-se cedo ou tarde, não faz diferença, os dias ficaram todos iguais, não há batalhas a travar, ninguém precisa de você... Cada dia é um peso, é preciso matar o tempo, descobrir um jeito de não pensar, pois o pensamento dói, e vem uma vontade de beber, uma vontade de esquecer, uma vontade de morrer...
Chegou o momento da inutilidade, e é isso que você não suporta, pois lhe ensinaram (e você acreditou) que os homens e as mulheres são como as ferramentas, que só valem enquanto forem úteis. Um serrote velho, uma enxada gasta, um alicate torto, um fósforo riscado, uma lâmpada queimada, não prestam para nada. Não merecem ser guardados. Só ocupam o espaço e devem ser jogados fora. Pois é, ensinaram-lhe que você é uma ferramenta que merece viver enquanto puder fazer. E agora que o seu fazer não faz mais diferença, você se coloca ao lado dos objetos sem uso. À espera de que a morte venha colocá-lo no devido lugar, pois nada mais há que esperar. Você está sem esperança.
Você aprendeu bem – a prova disso é o seu rosto triste e cansado de viver. Mas lhe ensinaram mal, muito mal. Pois nós não somos ferramentas. Não vivemos para ser úteis. Dizem os textos sagrados que Deus trabalhou seis dias para plantar um jardim. Terminado o trabalho, já não havia nada mais para ser feito. E foi justamente então que Deus sentiu a maior alegria. Terminado o tempo do trabalho, chegara o tempo do desfrute. E o Criador se transformou em amante: entregou-se ao gozo de tudo o que fizera. Com as mãos pendidas (pois tudo o que devia ser feito já havia sido feito), seus olhos se abriram mais. Olhou para tudo e viu que era lindo. Pôs-se a passear pelo jardim, gozando as delícias do vento fresco da tarde. E, embora os poemas nada digam a respeito, imagino que o Criador tenha também se deleitado com o gosto bom dos frutos e com o perfume das flores – pois que razões teria ele para criar coisas tão boas se não sentisse nelas prazer? Se há uma lição a ser aprendida desses textos, lição que você deve aprender com toda a atenção – esquecendo-se de tudo o mais que lhe ensinaram – é que não somos como serrotes, enxadas, alicates, fósforos e lâmpadas que, uma vez sem o que fazer, são jogados fora. A nossa vida começa justamente com o advento da inutilidade. Pois o momento da inutilidade marca o início da vida de gozo. Nada mais preciso fazer. Travei as batalhas que tinha de travar. Nada devo a ninguém. Estou livre agora para me entregar ao deleite.
E você me pergunta, então, onde está a escola em que se ensina essa sabedoria esquecida... Não, não há escolas para isso. Todas as escolas só nos ensinam a ser ferramentas. Será preciso que você procure mestres que ainda não foram enfeitiçados por elas. Você deve procurar as crianças. Somente elas têm o poder para quebrar o feitiço que o está matando ainda em vida.
As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!
Entregue-se, sem vergonha e sem sentimentos de culpa, às delícias do ócio. Aprenda a andar sem ter de chegar a lugar algum, simplesmente gozando o mundo que nos cerca! Faça o fantástico turismo gratuito dos livros. Você irá a tempos e lugares aonde avião algum pode chegar; ao Japão dos samurais; ao Macondo do Cem anos de solidão; ao mundo jagunço do Riobaldo; e poderá mesmo voar na passarela do padre Bartolomeu de Gusmão, com o Saramago. Para isso não é necessário dinheiro, só imaginação. E, se a imaginação lhe falta, veja o vídeo As aventuras do Barão de Munchausen. Há também o mundo maravilhoso da música. Lembro-me do senhor Américo, que nos seus 85 anos descobriu a beleza da música clássica e a ela se entregou até a morte, como se ela fosse uma amante. Por fim, leia estas palavras de Hokusai, pintor japonês (1760-1849), escritas depois dos setenta anos:
Desde os seis anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinquenta anos publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver oitenta anos, terei realizado mais progressos, aos noventa penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.

Vamos! A vida é bela. Pare de namorar a morte! Beba a taça até o fim!
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

21/02/2017

Sobre a criança na velhice



Um amigo que está sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e fez esta pergunta: “O que fazer para permanecer jovem? O que fazer para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?”. Acho que essa é pergunta mais dolorosa que fazem aqueles que se veem envelhecer. É o tema do filme Morte em Veneza, baseado no livro de Thomas Mann: um homem maduro, na fronteira da velhice – seus bigodes já estão grisalhos e as rugas marcam o seu rosto –, num hotel de Veneza, vê um jovem adolescente que brinca na praia. Aquela imagem de juventude se apodera dele com uma força insuportável. A imagem do jovem o atormenta e ele dele se enamora. Não tem nada a ver com homossexualidade. Não é isso que está em jogo. Na imagem do jovem ele vê a sua própria juventude perdida. O espelho é um sofrimento. Especialmente quando o espelho são os olhos de uma jovem que se levanta e, com um sorriso, nos oferece o seu lugar no metrô... Continuar a ser jovem sendo velho? Eu acho isso é possível. O apóstolo Paulo, sentindo a mesma coisa, disse: “Embora o nosso homem exterior se corrompa, o nosso homem interior se renova dia a dia”. Claro, há coisas que são perdidas, definitivamente. A pele, por exemplo: as rugas, a flacidez, a secura. Mas, com a perda, há ganhos. Na juventude, a pele é a face exterior da musculatura. Ela nada revela, a não ser os músculos. Na velhice, a pele deixa de ser a superfície exterior dos músculos e passa a ser a superfície exterior da alma. Os músculos podem ser obstáculos à manifestação da alma. Na velhice, a pele é o meio através do qual a alma se torna visível. Especialmente o rosto. Livre das intermediações da musculatura, a alma pode então realizar sua função artística de esculpir o rosto. Ela aparece no rosto. Acontece, então, a ocasião para que se realize o prometido pelo evangelista João: “... e o Poema se faz carne”. Tudo, então, vai depender dos poemas que estão guardados na alma. Pois a alma é apenas isso: o lugar onde os poemas estão guardados. E o rosto vai então revelar uma beleza que a juventude não deixava ver. Ou, quem sabe, o inverso, uma feiura que a juventude não deixava ver. Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles. E a criança, como disse Zaratustra, é “inocência e esquecimento, um novo início, uma brincadeira, um moto-contínuo, um primeiro movimento, um ‘Sim’ sagrado...”. As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam o seu barco e se entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz. Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira: “Pugno, ergo sum” – luto, logo existo. É preciso que haja sempre uma batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do “Sítio do Vovô”) logo se transforma num charco de água parada. A segurança é a mãe do tédio. E no tédio as serpentes chocam seus ovos. “Homens velhos devem ser exploradores, não importa onde... Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais alta, de uma comunhão mais profunda... Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia: o grito das ondas, o grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos: no meu fim está o meu início” (T. S. Eliot). Nikos Kazantzakis é um autor que precisa ser lido. Dentre todos os seus livros, todos eles maravilhosos, o que fala mais perto do meu coração é Zorba, o Grego... Quem viu só o filme nada viu. Tentei ver o filme, pensando que seria igual ao livro, e não consegui chegar ao fim. Acontece que há certas sutilezas na escrita que não podem ser transformadas em imagens. Está relatado que Zorba, velho e doente, ao ver que a morte já estava dentro do seu quarto, levantou-se da cama, foi até a janela, e por longos minutos contemplou com sorriso e silêncio os cenários que se abriam à sua frente, o mundo maravilhoso, ao fundo as montanhas. De repente, pôs-se a relinchar como um cavalo, agarrou-se à janela e disse: “Um homem como eu deveria viver mil anos!”. Ditas essas palavras ele caiu morto... Zorba morreu criança.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

30/08/2016

Não temer a morte

https://saudenastermas.files.wordpress.com/2010/10/mente-jovem1.jpg 
Google Imagens 

Veem-se pessoas de idade oprimidas pelo medo da morte. Entre os jovens, tal sentimento é justificado, pois temendo com justa razão serem mortos na guerra têm o direito de se amargurarem, ao pensamento de frustração, diante de que a vida pode oferecer de melhor. Mas, no homem velho, que conheceu as alegrias e os sofrimentos humanos, e realizou sua obra de acordo com as próprias possibilidades, o medo da morte parece um tanto abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo, ao menos pelo que me parece, consiste em alargar progressivamente seus centros de interesse, recuando aos poucos as fronteiras do eu, até confundir sua vida pessoal com a vida universal. Uma existência individual é como um rio, pequeno em sua nascente, a correr estreitamente entre as margens, precipitando-se nos rochedos, recaindo em cascatas. Devagar, o rio se alarga, as margens desaparecem, as águas se acalmam e, no fim, sem ruptura aparente, elas se confundem com o mar e perdem insensivelmente a existência própria. Aquele que, na velhice, pode encarar assim o seu destino, não temerá a morte, porquanto sua obra será continuada. E, ao aumentar sua fraqueza, o pensamento do repouso ser-lhe-á suave. Eu gostaria de morrer no trabalho, sabendo que outros tentarão alcançar o mesmo objetivo que busquei, satisfeito com a ideia de que foi realizado o que era humanamente possível.”
Berthand Russell, in A arte de envelhecer

01/03/2016

Velhice X mocidade

A tragédia da velhice não consiste no fato de ser velho, mas no de haver sido moço.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

13/09/2014

A vida, na juventude e na velhice

 “A jovialidade e a coragem da vida, características da juventude, devem-se em parte ao fato de estarmos a subir a colina, sem ver a morte situada no sopé do outro lado. Porém, ao transpormos o cume, avistamos de fato a morte, até então conhecida só de ouvir dizer. Ora, como ao mesmo tempo a força vital começa a diminuir, a coragem também decresce, de modo que, nesse momento, uma seriedade sombria reprime a audácia juvenil e estampa-se no nosso rosto. Enquanto somos jovens, digam o que quiserem, consideramos a vida como sem fim e usamos o nosso tempo com prodigalidade. Contudo, quanto mais velhos ficamos, mais o economizamos. Na velhice, cada dia vivido desperta uma sensação semelhante à do delinquente ao dirigir-se ao julgamento.
Do ponto de vista da juventude, a vida é um futuro infinitamente longo; do da velhice, é um passado bastante breve. Desse modo, o começo apresenta-se-nos como as coisas ao serem vistas pela lente objetiva do binóculo de ópera; o fim, entretanto, como se vistas pela ocular. É preciso ter envelhecido, portanto ter vivido muito, para reconhecer como a vida é breve. O próprio tempo, na juventude, dá passos bem mais lentos. Por conseguinte, o primeiro quartel da vida é não só o mais feliz, mas também o mais longo, e deixa muito mais lembranças, sendo que cada um poderia contar muito mais coisas sobre ele do que sobre o segundo quartel. Como na primavera do ano, também na da vida os dias acabam por tornarem-se incomodamente longos. No outono de ambos, tornam-se mais breves, porém mais serenos e constantes.”
Arthur Schopenhauer, in Aforismos para a Sabedoria de Vida

27/11/2012

A juventude e a velhice

“A juventude quer divertir-se, a velhice, trabalhar. Ninguém se casa só para ter filhos, mas, uma vez que os tem, eles o modificam e, no fim, ele percebe que tudo, com efeito, acontecera somente em função deles. Isso prende-se ao fato de que a juventude, sem dúvida, gosta de falar da morte, mas nunca pensa nela. Com os velhos, dá-se o contrário. Os jovens julgam que vão viver eternamente; daí, poderem reportar a si mesmos todos os seus desejos e pensamentos. Ao contrário, os velhos já perceberam que, num ponto qualquer, existe um fim e que tudo o que alguém tem ou faz só para si mesmo, acaba por cair no vazio e por ter acontecido em vão. Assim, necessitam de outra eternidade, bem como da crença de que não estão trabalhando unicamente para os vermes. Para isso existem mulher e filhos, atividades e cargos e pátria: para saber-se por quem é, afinal de contas, que suportamos a lida e o desgaste e as aflições cotidianas."
Hermann Hesse, in Gertrud

07/11/2012

Juventude e velhice: contrastes

“Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não veem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar.
Não há quem se case para ter filhos, mas quando chegam, modificamo-nos, e acabamos por perceber que tudo aconteceu por eles. Da mesma forma, a juventude gosta de falar na morte, mas nunca pensa nela; com os velhos acontece o contrário. Os jovens acreditam ser eternos e centram todos os desejos e pensamentos sobre si próprios. Os velhos já perceberam que o fim vai chegar e que tudo o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num buraco e de nada valeu. Para isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar que não trabalhou apenas para os vermes. Por isso existe a mulher e os filhos, o negócio ou o escritório e a pátria, para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades têm um sentido.”
Hermann Hesse