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16/03/2022

O som do rugido da onça | XVIII


Depois de algum tempo Iñe-e não pôde mais escutar o rio e suas histórias. As paredes do castelo, o frio, os ruídos daquele mundo se tornam por demais imperativos e impedem que a voz da água encontre tradução nos seus ouvidos. De um modo que não compreende bem, a menina sente falta do rumorejar de Isar. Sente terrível falta da maloca, do cotidiano que havia sido partido como um galho na tempestade e, principalmente, da pele morna da mãe. Um buraco claro como um relâmpago se abre dentro dela e cresce. Não sente fome, sono, vontade de nada. No castelo do rei tudo é assustadoramente longe dela mesma. Aquele sentimento, ela sabe, é outro nome para doença.
Logo nos primeiros dias após sua chegada, as filhas mais novas do rei elegem Iñe-e e o menino Juri como seus novos brinquedos. Iñe-e sente-se cansada e tudo aquilo a molesta. Além do mais, as filhas do rei possuem bonecas, filhas que não se mexem, meninas em tudo iguais a elas, de peles muito pálidas, de cabelos e olhos claros, mas muito pequenas. Meninas cujas peles parecem de barro branco cru, cujos olhos não piscam nunca e de cujas bocas não saem palavras. Iñe-e imagina que podem estar vivas e presas naquela paralisia, e um tremor a atravessa quando as vê nos braços das duas meninas pela primeira vez. As filhas do rei tratam essas bonecas com muito carinho e suas vozes se tornam mais finas quando falam com elas. Uma coisa assombrosa. Iñe-e sente medo das bonecas e das vozes melífluas das meninas. As bonecas, ela sabe, têm outro tipo de vida, então é preciso respeitá-las, não aborrecê-las, cuidar para que não se zanguem.
As filhas do rei tratam Iñe-e como tratam suas bonecas, puxam-na pelos braços, insistem em pentear seu cabelo e repetem palavras incansavelmente com aquelas vozes adocicadas, talvez na esperança de que Iñe-e lhes responda de algum modo. Como as bonecas, entretanto, a menina não reage. Quando se aborrecem com Iñe-e, a abandonam por alguns momentos, trocando-a pelo menino Juri, que às vezes se mostra mais receptivo e até responde a elas com risadas e olhos muito espertos. Mas nem sempre.
Ao fim da primeira semana, as duas crianças serão batizadas em uma cerimônia oficiada por um padre sonolento. Causará espanto aos fiéis que o menino não tenha retirado o chapéu em sinal de respeito a Deus ao entrar na igreja. São sempre impressionantes as coisas que as pessoas escolhem para se escandalizar. Mas o incidente será rapidamente resolvido, e se desculpará a natureza ingênua e selvagem do pequeno bárbaro.
Isabella e Johann são os nomes escolhidos para a nova vida que os brancos pensam dar a Iñe-e e ao menino Juri sob os desígnios do rei, que, a propósito, se chama Maximiliano I da Baviera. É curioso que a um rei se possa destronar, guilhotinar ou até executar ante a salva dos fuzis, mas que seu nome ninguém retire. Mesmo que deixe de ser rei, seu nome composto de vários outros nomes, em uma teia labiríntica de ascendentes, será sempre uma marca do privilégio que recebeu ainda em berço. Isso, claro, se for um rei branco. O menino Juri, por exemplo, que sucederia a seu pai em algum momento de sua vida na floresta, tem seu nome negado. O certo é que para seus captores só interessa saber que ele é Johann, do povo juri, e ela, Isabella, do povo miranha. Ou tão somente Miranha e Juri, dois rostos sem corpo, dois nomes sem história.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

07/03/2022

O som do rugido da onça | XVII

A história é mestra do futuro, mas também do presente, sussurra Martius para o combalido Spix, a quem abraça, emparelhando-o ombro a ombro. Muito embora exaustos, sentem-se de novo integrados, pertencentes a um mundo que os compreende e acolhe a delicadeza. São homens diferentes estes que regressam, sabem bem, mas ainda cabem naquele lugar que os nutriu e viu crescer. O ajuntamento de pessoas em seu redor configura-se quase como um círculo iluminado, é no que Martius acredita. A história é mestra do futuro, mas também do presente, repete a si mesmo mentalmente, enquanto o passado retorna em cores muito vivas. Não lhe ocorre, porém, que o presente e o futuro possam iluminar o passado. A visão de Iñe-e e do menino Juri entre os nobres é como um detonador de um sentimento que não consegue distinguir. Tem a sensação de que algo possa estar fora de lugar, mas credita isso aos anos de Brasil, percorrendo o sertão e os igarapés, desacostumado da corte.
Relembra a terça-feira de 14 de julho de 1817, quando aportou no Rio de Janeiro de carona com a comitiva da princesa Leopoldina. A cidade, aquele enclave ilógico, simultânea e rapidamente se configurara como um recorte de civilização e cultura bem-comportada e avançada ao modo europeu, só que em fricção contínua e incômoda com a barbárie. Se num primeiro momento a cidade parecera a conjunção perfeita entre natureza e civilização, oh, Deus, quanta beleza pode invadir nossos olhos!, o turbilhão de negras e negros impertinentes com sua existência ruidosa nas ruas da capital brasileira, vendendo suas cocadas e frutas, dando conta de existir aos gritos e gargalhadas, invadindo os limites dos corpos com seus suores, seus pregões, seus torsos nus, ofereciam aos seus olhos um espetáculo extravagante e, por que não dizer, selvagem.
Os diferentes idiomas da multidão dessa gente, de todas as cores e vestuários, se cruzam; o vozerio sempre interrompido e sempre repetido com que os negros levam de um lado para o outro as cargas sobre varas; o chiado de um tosco carro de bois de duas rodas em que as mercadorias são conduzidas pela cidade; os frequentes tiros de canhão dos castelos e dos navios de todos os países do mundo, que entram, e o estrondo dos foguetes com que os habitantes quase diariamente e já de manhã cedo festejam os dias santos confundem-se num estardalhaço ensurdecedor.
Por um instante, Martius como que volta àquele passado, ao alarido, ao olhar que se inaugurava naquela terra. Somente quando saiu do Rio para a região de São Paulo é que se deu conta da grandiosidade daquilo em que se metera. Em noventa quilômetros de viagem, uma amostra do céu e do inferno. Três guias, uma tropa de mulas, ele, Ender e Spix em seus cavalos rumo a São Paulo, atravessando a serra do Mar. Lembrava palavra por palavra o que fora colocado no relatório ao seu rei:
Diante de tanta riqueza de formas, não temos mãos e olhos suficientes para realizar nosso trabalho.”
A luz amarela do desenho de Ender, pintor que acompanhou a comitiva em seus primeiros passos, retratando o início da viagem, agora lhe parecia pálida demais, uma idealização solar das durezas e provações heroicas, sim, por que não?, pelas quais ainda passariam ele e Spix. Do quanto ambos estavam despreparados para as gentes e a natureza do Brasil. De quanto fantasiara um país sem existência cabível no real e de como, ainda agora, o Brasil lhe parece fugidio, inapreensível.
Se a história é uma mestra, qual é a sua face? Ela é a configuração do passado apenas? Martius volta ao salão da festa, o braço de Spix apoiado em seu ombro, e tenta afastar a excitação, perguntas e lembranças que o invadem. No entanto, relembra a água salobra das cacimbas quase secas do sertão baiano que lambia desesperado como o bicho que não era e que terminantemente se recusava a ser. Aperta os olhos como modo de sufocar o incômodo que o invade. Então toma ar e respira fundo, porque agora tudo deve ser celebração pelo regresso, prestação de contas e, é claro, um pouco de glória.
Mas neste momento, por um átimo, seu olhar cruza com o de Iñe-e. E uma sombra anuvia seu pensamento.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

23/02/2022

O som do rugido da onça | XVI

É fato que reis constroem castelos, além de pontes. O castelo está para o rei como os afogados estão para os rios. Entretanto, os rios não necessitam de afogados em suas torrentes para que tenha sentido sua existência; os afogados lhes são indiferentes, é a verdade, ao contrário dos reis, que, sem castelo, parecem ter diminuída sua potência. Assim, quanto mais castelos e pontes e mesmo conventos em pilares sólidos e alicerces estruturados, tanto maior o poder do rei, tenha ele qual nome tiver. Ah, e as guerras, é claro! E a ciência, que coloca as guerras em movimento, com suas sempre novas tecnologias de matar. O poder de um rei, embora dito natural, não é fluido; necessita de mecanismos, arruelas e encaixes. Nada é simples.
O castelo, embora possa ser lar e fortificação, casa e posto de combate, universo que se ergue para fora da caixa de mogno talhada com adornos de marfim da rainha, ou, o contrário, ajuntamento de pedra e carne que penetra em dobras e quinas no interior aveludado e rubro da mesma caixa, é, também e sobretudo, a marca da ruína. O castelo de Chillinghan, por exemplo, na fronteira entre Inglaterra e Escócia, a meio caminho dos dois territórios, se um dia se torna risível em portais de notícias como um dos lugares mais assombrados do mundo, é porque ainda ontem, ou centenas de anos atrás, como queira, foi palco de torturas de combatentes das duas nações, iniquidades contra as vítimas de sempre, pobres em geral, mulheres, crianças, soldados caídos em desgraça. Ou o palacete da ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, que, depois do baile de 9 de novembro de 1889, 250 contos de réis gastos, quase uma tonelada de camarões, meia tonelada de perus e pouco menos que uma centena de faisões, revela sua natureza de palco para o tombo do imperador Pedro II, incidente que lhe machuca as ancas e que de quebra faz com que perca o império. Após o baile, o espólio: 37 lenços, 24 cartolas e chapéus de senhoras, treze coletes femininos, dezessete cintas-ligas, oito raminhos de corpete e militares com espadas em punho sobre seus cavalos brancos e pardos, assumindo o poder dali em diante, e, mesmo quando fora do poder, suas lâminas e armas de fogo sempre a postos, pairando ao longo dos tempos sobre a cabeça do povo. A ruína tem muitas configurações. Ademais, todo castelo guarda em si túmulo e prisão.
Iñe-e e o menino Juri são levados em comitiva a uma grande e compacta construção, o castelo em que mora aquele rei que encomendara aos cientistas todo um pedaço, um recorte de sua terra, o mesmo que lhes deu ordens e meios para saírem a saquear a terra alheia. Como que brotado do chão da cidade, o castelo se ergue denso, prepotente. Seus aposentos resplandecem ouro, rubis e uma longa história de conquistas e sangue. Nesse dezembro, a boa nova anunciada pelas inúmeras portas e janelas da casa do rei é menos o menino Jesus a ser celebrado em data próxima que essas outras crianças vindas da inaudita floresta, singulares, desconhecidas, anômalas em sua simplicidade.
A imensa construção parece aos olhos de Iñe-e um lugar que guarda muitas espécies de erro. Os brancos, presentes em todos os lugares, ora caminhando de um lado para o outro, ora paralisados em pedra muito polida e até mesmo em metal. Há ainda as gentes presas em quadros nas paredes e as que surgem ameaçadoras nos afrescos, brotando de paredes e teto. A lâmina translúcida dos espelhos a multiplicar os corpos avisa do perigo de lhes reter a alma. Tapetes, estofados, almofadas, o ruído dos saltos dos sapatos contra o piso, os poucos animais que transitam com alguma liberdade, cães e gatos, toda a solenidade daquele mundo guardando enorme risco.
Apartados de Martius e Spix, Iñe-e e o menino são conduzidos a um aposento sombrio por uma mulher de bochechas coradas e cabelo entre o branco e o amarelo. Ali, são limpos rapidamente com um pano áspero e úmido e têm suas roupas trocadas. Uma mulher os leva a uma cozinha e tenta fazer com que comam um mingau grosso e um tanto repugnante. Tanto Iñe-e quanto o menino Juri recusam o que lhes é oferecido. Estão enjoados. Depois de algum tempo de sossego e vigilância, são conduzidos à sala do trono, onde um ajuntamento de gente os olha com curiosidade ou ferocidade, Iñe-e não consegue distinguir o que os move exatamente. Mas lhe parece que todas aquelas pessoas se agregam em uma única e gigantesca cabeça de boca aberta a fazer um ruído que ela mesma não sabia até ali que pudesse ser feito por gente, articulando uma boca faminta por engolir a ela, ao menino, aos bichos e às plantas ali colocados em exibição. Uma boca ansiosa por saber deles a fibra e a consistência, e que, possuindo muitos e dessemelhantes olhos que variam de cor, ora azuis, ora verdes, e também escuros e amarelados, tem o poder de devassar todos os corpos, deixando à mostra estômagos, corações, tripas, sem, no entanto, devorá-los como deveriam. Só desperdício. Era um festejo bárbaro, e ela e os outros, o butim.
Ao contrário do menino, naturalmente curioso e vivaz, Iñe-e evita olhar os brancos diretamente. Espreita-os de soslaio, o suficiente para intuir quem são. Um homem de casaca negra berra algo para os cientistas, e é extremamente desagradável. De sua boca respinga cuspe, e seus dedos pegajosos como o caucho ora tocam a mão de Spix, ora tocam o ombro de Martius e, ao tocá-los, seus dedos se desmancham, elásticos, em uma calda grossa. Para seu horror, o homem se aproxima dela e, então, ela sente as mãos dele primeiro em seu cabelo, depois escorrendo para o queixo, abrindo sua boca, enquanto os olhos como uma luz maligna examinam-lhe os dentes. Relembra o dia no navio em que acordara com as mãos do capitão entre suas pernas. Depois o homem toca seus ombros, bate em suas costas e por fim lhe golpeia as pernas como se quisesse saber se são firmes. Essa coreografia de gestos ela já conhece e detesta, porque a machuca de muitas maneiras. Quando o homem termina de examiná-la e passa a investigar o menino, Iñe-e sente ainda o visgo dos seus dedos moles em cada lugar dela que ele tocou.
Quando finalmente o rei aparece, vem acompanhado da rainha e dos filhos. O rei tem o péssimo hábito dos brancos de deixar cabelo crescer na cara, o que a enoja. Talvez entre eles seja sinal de que é um grande chefe, mas, para ela, trata-se de um sintoma de fraqueza de caráter. A mulher tem olhos muito penetrantes, e acima deles suas sobrancelhas são como duas lagartas escuras que, embora muito próximas, parecem prestes a se arrastar em diferentes direções. Ela olha para Iñe-e com curiosidade, talvez algum horror, e diz algo ao ouvido do marido sem desviar os olhos da menina. Os filhos maiores também comentam coisas entre si e as filhas pequenas saltitam como macaquinhos. Logo cercam Iñe-e e o menino Juri, e Iñe-e pensa que, se tivesse, poderia lhes oferecer um punhado de tucumãs, que elas se afastariam aos pulos, contentes, satisfeitas. Toda aquela festa e ajuntamento de curiosidades a enfadam. O cansaço que sente tem o peso de muitos fardos.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

14/02/2022

O som do rugido da onça | Capítulo XV

O rei me vê como um traço verde rasgando a paisagem. Ou como um pedaço de pano retorcido. Sobre um papel pardo, um risco. Qualquer rei me vê assim, e nenhum percebe bem as dobras e ondulações, nenhum sabe que sou profundo verde. Essencial e denso verde. Para o rei posso ser estorvo, caso perca uma batalha às minhas cercanias, ou posso ser promessa de mais ouro, caso encontre novas formas de lucrar com a minha existência. E foi assim que, sobre as minhas margens, o rei ordenou que se erguesse uma ponte. Acima de mim, o céu. Abaixo de mim, a pulsação da terra impelindo meu caminho.
Para erguer uma estrutura que servisse de passagem e ligamento, foram necessários braços fortes, a tração das pernas de homens e animais, todos juntos na mesma canga. Foi preciso a conjunção de carnes e forças e, sim, muitos nomes que servissem de cimento. Jörg não tinha pai nem mãe e estava na frente de trabalho a serviço da ponte e do rei, ao lado dos tios. Era um rapaz forte, e os músculos de suas pernas, braços e costas se retesavam quando se fazia necessário rolar as toras de madeira que serviriam de arcabouço para o desejo do rei.
O rei, para ser rei, precisa ser, necessariamente, um homem incomum. É o que se costuma dizer e acreditar. Esse a que me refiro era neto de Henry, o Negro, filho de Henry, o Orgulhoso, e ele mesmo um Henry, rosto e corpo continuado dos seus ancestrais, o mesmo levantar de sobrancelhas quando se mostrava curioso, o mesmo esgar que contraía o quadrante superior esquerdo dos lábios quando algo o irritava, a mesma tendência para a retenção de líquidos que se alojam nas pernas, logo abaixo dos joelhos e nos tornozelos.
Esse rei, em outro ponto da história que não este, em que nos deparamos com Jörg e seus tios cingidos por cordas feito mulas, encontrará, a caminho da Terra Santa, um leão em luta com um dragão. É de fato incomum presenciar batalhas entre bestas tão memoráveis, mas, qual um são Miguel em peleja com o diabo, Henry, filho de Henry e neto de Henry, se coloca ao lado do leão e o auxilia a vencer. Precisamente por isso entrará para a história como Henry, o Leão. O leão, por sua vez, cão domesticado, fiel ao favor real em sua batalha, seguirá Henry sem coleira ou grilhões que indiquem sua submissão. O mundo é um pasto de maravilhas para quem tiver olhos de ver e alma para crer.
Eu em nada creio, sou um rio. Eu vou e volto, conheço o chão e o céu, compartilho a língua comum a todas as águas. Atravesso o tempo. Morro e renasço. Engulo e regurgito. Sei dos animais tristes que são os homens.
Jörg, por sua vez, Jorge sem nenhum dragão que o notabilizasse, comia as batatas que o velho monge Hans oferecia. Jörg e seus tios não raro se alimentavam das sobras do mosteiro quando iam auxiliar os religiosos em trabalhos que exigiam mais corpo do que fé, e esses monges, em particular, eram detentores dos segredos da construção de pontes. O mosteiro que se erguia às minhas margens naquela ocasião não tinha nenhuma imponência. Era um assentamento simples de pedras sobre o sangue dos homens, seja o sangue das mãos que as empilharam umas sobre as outras, seja o sangue das costas machucadas pelo cilício.
Sobre o cilício, sabe-se que João Batista, o pregador do deserto, primo de Jesus, fez uso dele, assim como Thomas More, o filósofo mártir, que, por baixo da camisa de seda muito alva, usava uma camisa de cilício para mortificação da carne e elevação do espírito, assim como o velho irmão Hans, quando não soube distinguir, a mirada azulada e turva, a mente confusa, se o corpo de Jörg era corpo de homem ou de mulher. Nem o tocou, é verdade, porém a atrapalhação em si exigiu o pagamento da carne, como sói ser.
O desejo do rei era que a ponte, mais que passagem entre uma margem e outra, possibilitasse um trânsito mais seguro para as pessoas e injetasse ânimo para o povoamento da cidade. Estes verbos são parte querida do vocabulário dos governantes: injetar, transitar, possibilitar. O rei sabe, porém, que nem todo desejo que habita o coração humano floresce no mundo, neste mundo de poeira e assassinatos, de saques e contendas, o que não impede que o desejo se transforme em braços, em cordas, em toras de madeira, em pernas distendidas, em gritos, em suor escorrendo.
Mas nem tudo um rei pode saber, por mais extraordinário que seja o seu retrato. Um rei, no final das contas, é um homem cujos dentes também apodrecem e cujas pernas pesam com seu inchaço. Um rei caga e vomita. Um rei não muito raramente fica cansado e tem pesadelos que, quase sempre, coloca na conta de traições e perfídias que lhe tramam pelas costas.
Mas, calma, não nos apressemos: Henry, o Leão, ainda demora a entrar em contenda com Frederick Barbarossa, e não é agora que ele é despojado de seus domínios e mandado em exílio para a Inglaterra. E, a bem da verdade, isso pouco nos interessa. Há uma ponte sendo construída, e sobre sua estrutura se equilibra um rapaz.
O céu da manhã de sábado não promete chuva, diz um monge, e passa, segue seu caminho, muito embora eu saiba da chuva que está por vir. A ponte em vias de conclusão não se figura como algo grandioso, um tabuleiro simples sobre um cavalete, mas eficiente em sua função. Uma mulher, ao longe, escarra no chão e se encolhe por baixo de um xale grosseiro. Jörg come um resto de pão velho e nada mais. Corta o dedo em uma aresta formada na caneca e um dos tios, o mais velho, o repreende:
Você está distraído, Jörg.
O garoto não responde, faz uma careta, e o tio continua a provocar:
Está me afrontando, menino? Não sabe responder? Olha que te parto em dois.
Não é nada, responde Jörg a contragosto, e essas são suas últimas palavras.
Tempestades são rios, você sabe. Toda água é, a linha azul que caminha nos mapas, o trajeto do sangue no corpo. Quando a tempestade encontra Jörg no alto do tabuleiro, algo acontece, e o menino se deixa derrubar sobre o meu lençol violento e revolto pelos ventos. Pode não parecer, mas as minhas cheias são verdadeiramente ferozes. Sinto o corpo dele simultaneamente duro e macio atravessando minha pele, sua carne tenra e jovem que conheço desde que estava no ventre da mãe. Jörg, muito embora bom nadador, não faz nenhum movimento de resistência que possa, quem sabe, até salvá-lo.
Ao tio mais velho, que o espicaçara ainda de manhãzinha, parece que durante toda a queda estivesse já paralisado, os olhos como que de vidro, numa abertura incomum, muito embora o outro tio, o mais novo e esguio, que também está próximo da cena, não tenha visto senão o corpo despencando e se perdendo no meio da água, sem que nada nem ninguém pudesse fazer algo sob a grossa pancada de chuva. O que sei é que seu coração parou antes mesmo que eu fechasse sua laringe, encharcasse seus pulmões.
Os homens, as mulheres e crianças que passeiam às minhas margens, que me atravessam de um lado a outro brincando nos lugares de pouca fundura, apreciando a beleza do céu bávaro sobre a cidade de Munique, como a turista vestida à francesa, a saia branca com duas listras azul-marinho, blusa também listrada, o chapéu de palha cor de tabaco graciosamente pendido para o lado, os pés em sapatilhas delicadas que em dado momento ela descalça e passa a carregar numa das mãos enquanto a outra segura a mão de um rapaz jovem de queixo proeminente, mas ainda assim de certa beleza, não sabem nada sobre Jörg nem sobre aqueles que ergueram essa e as outras pontes, e menos ainda que o vai e vem dos rios atravessa a história, que ela, a história, está sempre em movimento, que não existe nada estagnado. Desconhecem que tudo é fluxo e que dentro de mim há outras cidades, muitas da mesma cidade; que, abaixo da ponte, a ponte que Jörg ajudou a construir a mando de um rei há muito falecido, existe outra ponte; ignoram que, nas margens abaixo do rio em que refrescam os pés, outras pessoas, as pessoas da água, vivem sua vida, levantam suas pedras, fazem compras, piqueniques, beijam seus filhos antes que peguem a condução para ir à escola, derrubam reis, inventam máquinas, morrem de fome, de peste ou de frio, e são em quase tudo iguais a eles, que vivem fora do rio, nos muitos tempos que se desdobram nas margens da superfície. Quando o Allianz Arena estremece com um gol do Bayern, as pessoas da água sentem ondulações sob seus pés. Quando é primavera e as crianças da terra correm alegremente sobre a relva do Jardim Inglês, nas muitas cidades espelhadas é possível sentir uma brisa muito leve a agitar as folhas das árvores. Quando as coisas se tornam violentas, o desequilíbrio é mútuo.
Porém, minha condição não é exclusiva. Não se trata de um privilégio porque venho dos Alpes, como um braço do Danúbio, paisagem tão bela e paradisíaca estampada em um calendário engordurado numa parede de uma cidade distante e quente do hemisfério Sul. Na verdade, todos os rios abrigam sua gente da água, todos os rios abrigam todos os tempos. Mas isso nenhum rei, nem mesmo um que fosse aliado de um leão, poderia saber. Tampouco o casal de turistas em seu passeio ao fim da tarde. Os povos que habitam as florestas sabem, mas Jörg só soube quando caiu. E a primeira coisa que viu na margem abaixo da margem foi outro mosteiro, com outros monges, pessoas, animais, plantas, tudo igual e diverso. Ele não sabia. Mas soube, e então morreu.
Jörg paira por sobre a água. Ele sabe quem vocês são. Suas peles morenas, seus olhos repuxados, o coração aos saltos. Sabe que estão assustados como um pássaro na boca de um gato. Sabe que vocês olham um para o outro como quem procura se agarrar a algo conhecido. Sabe que é inverno e que vocês sentem frio.
Então Iñe-e vislumbrou Jörg com os outros fantasmas, como que a esperar por ela e seu companheiro. E seu corpo todo estremeceu.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

07/02/2022

O som do rugido da onça | XIV


Depois dos dias de viagem pelas terras desconhecidas daquele continente singular onde as mulheres não riam e os homens se escondiam em brutos capotes, das cidades e dos povoamentos pelos quais passaram, das montanhas pintadas de branco, dos rostos estranhos que se acumulavam por trás dos olhos já cansados de tantos novos rostos e tantas novas paisagens, os cientistas os levaram a conhecer o rio da cidade. Era um rio magro e singular. Iñe-e nunca tinha visto um rio como aquele. Nele, somente navegação pequena, em jangadas, mas não em todos os trechos. Em alguns lugares seria possível até atravessá-lo a pé; em outros estava congelado.
Entre ela e o filho do chefe dos juris, havia um mundo de silêncio. O mundo de palavras suas, aquelas com que a mãe e seus familiares lhe proveram, gravitava ali apenas em torno dela mesma. As palavras que outrora ecoavam dentro e fora da maloca ressoavam na memória com pesar: niik-a uu, i-hi, híniba, íígai, hii. Cabeça, boca, lábios, dentes, saliva: o que se precisa para falar, além do sopro que enche peito e barriga e que anima a palavra. Porém as vozes queridas iam perdendo a nitidez. E cabeça, boca, lábios, dentes, saliva, aquilo que é necessário para se comer. E tudo pesava sobre sua existência. Às vezes acordava com o coração acelerado, havia esquecido o tom e o timbre da voz de alguém.
O menino Juri sentia coisas parecidas, e por habitarem agora em um mundo de palavras que ignoravam ambos se tornavam, de certo modo, irmãos. Estranhos irmãos, inimigos desde antes de nascerem, que asco um do outro tantas vezes sentiam por inimigos que eram desde os ancestrais, mas que ora paridos pela mesma sina naquela outra vida, ninguém diria que irmãos não fossem. As palavras de seus sequestradores e as palavras que suas mães, suas tseehi, lhes ofereciam, como os bolos de comida amassados na palma da mão, não encontravam as coisas que poderiam nomear nem ouvidos que as pudessem entender. Era certamente um enorme desencontro aquele, mas, sob essa pena, se olhavam e um tanto se reconheciam. Se sabiam ora tristes, ora apavorados, ora saudosos, ora enraivecidos. Seus olhos se espantavam e envelheciam com as mesmas paisagens, seus corpos estremeciam e adoeciam sob os mesmos calafrios. Depois de tanto tempo juntos, de algum modo era como se em certos momentos pudessem ser um só.
Embora pouco mais velho, o menino Juri já era um homem para seu povo quando fora levado por Martius. E, se sua família não tivesse caído em desgraça na guerra contra os miranhas, ele teria sucedido ao pai na liderança. De pequeno, fora provado na dor como era costume entre os seus. Estava pronto para a guerra quando fora capturado. E embora na ocasião não tivesse ainda cortado a cabeça de nenhum inimigo, era exímio em arrancar os dentes aos cadáveres, com os quais se faziam os colares dos guerreiros. Era um menino forte. E talvez por isso mesmo tenha sobrevivido aos dias que passaram sobre o mar. Iñe-e também o era, e em seus corpos essa força se inscrevia como a história dos seus povos.
Fazia frio no dia em que foram levados ao passeio. Tanto o menino quanto a menina prefeririam se manter em local mais aquecido, mas Spix os convencera a sair, certo de que o ar fresco e a natureza próxima lhes dariam algum ânimo novo. Spix se tornara como que um amigo, e ambas as crianças passaram a vê-lo desse modo, porque os acalmava e falava com eles com olhar ao mesmo tempo firme e complacente. Contemplando o rio, Iñe-e e o menino sentiram, cada um ao seu modo, um sentimento assombroso de não estarem no lugar certo e ficaram ambos tão agitados que o passeio fora encurtado. Mas por maravilhoso que fosse, o rio de algum modo soube compreender Iñe-e, porque todos os rios sabem todas as línguas do mundo, e desde aquele dia sua voz inaudível à maioria chegava, não obstante, aonde quer que ela estivesse.
A menina, entretida no silêncio que era seu, começou a perceber a voz densa do rio, apurando os ouvidos, colocando-os entre as conchas das mãos, para escutá-lo melhor, tentando entender o que dizia. A voz atravessava distâncias, grossas paredes, massas de ar gelado. No começo, não havia nenhum som que pudesse distinguir como palavra, fluss-fluss-fluss, era o que ouvia, som comum de correnteza. Mas não demorou para que as águas se fizessem minimamente inteligíveis.
Pode me chamar de rio, odo, Fluss, river, rivière, flumine, fluxo de água rasgando a terra como a trajetória de sangue em um corpo animal. Pode me chamar de água. E água é tudo e está em tudo que compõe este mundo. Aqui, neste lugar, me chamam Isar, Isar Fluss. Esse nome significa torrente, e por ser torrente um nome de mulher eu sou Isar, rio-fêmea. E, embora os homens pouco atentem a isso quando nos nomeiam, há outros rios fêmea como eu, como o seu Paranáhuazú. Fossem as mulheres a dar nomes às coisas, cidades, rios, passagens, montanhas, talvez percebessem melhor que nem tudo no mundo é definido como macho. Mas de fato pouco importa o nome que me dão, porque Eu sou. O Espírito pairava sobre as águas, escreveu a mão áspera deslizando o cálamo sobre o papiro. Kneph enroscado em um vaso de água, o ovo cósmico chocado em minha superfície.
O rio Isar trazia notícias de tempos, lugares, pessoas, coisas que Iñe-e nunca conhecera. E dava notícia de animais impressionantes, de guerreiros e inimigos que há muito tinham morrido, de cidades desconhecidas e de homens santos e dos milagres que contavam deles. Isar falava incessante, como é da natureza das águas. E a menina não conseguia conceber a ideia de um leão, sua cabeleira dourada como um sol, seu corpo de onça sem pintas, seus olhos de rapaz jovem. E ela se iluminava de espanto com a ideia de que um homem que, sem ter sido tocado pelo olhar de Yurupari, pudesse andar por sobre o mar pisando a superfície líquida como se pisasse o chão cotidiano. Mas confundia o homem que andava sobre a água com as estátuas que vira ao longo das margens tanto do Reno como do Isar, no dia em que a conhecera, ex-votos de Nepomuck, o santo homem que fora atirado de uma ponte a mando de um rei e a quem os marinheiros saudavam retirando o chapéu da cabeça.
O certo é que Iñe-e desentendia Isar na maior parte das vezes em que ela lhe falava sobre a história e os costumes dos brancos, mas compreendia melhor quando o rio falava com as vozes dos rios de sua terra e, assim, contava da sua mãe, do seu irmão, do velho avô e dos parentes. Era uma fala nebulosa que a levava a lugares cada vez mais distantes, cada vez mais sem feições, com tom de voz e temperatura dos corpos nunca vistos. E quando se sentia mais extraviada do que nunca, a menina se contorcia sob uma grande força que parecia apertar seus ossos. Nesses momentos Isar como que silenciava. E só depois de algum tempo recomeçava a falar. Os rios são assim, sabem de tudo, e não silenciam por muito tempo. E Isar voltava falando coisas das quais a menina só conseguia entender o essencial. Os barrancos de areia, as pequenas ilhas, e que Isar e os cientistas eram velhos conhecidos, por exemplo. Essa lenga-lenga lhe fora repetida várias vezes, falava de reis, do menino que Martius fora, do pai cirurgião de Spix mostrando com que destreza se abre um corpo a bisturi. E Isar parecia uma velha a dar voltas em torno da mesma coisa, o que às vezes enfadava a menina. Mas ela compreendia que o rio desejava que ela conhecesse melhor aqueles homens. Parecia haver um propósito no rumor de suas águas.
Uma noite, porém, Isar contou uma história verdadeiramente assombrosa, a história da cidade e do fantasma que paira acima dela. Pelas noites seguintes Iñe-e não conseguiu dormir direito. Seus olhos abertos vislumbrando o espírito do menino que espreitava aquela terra, nas noites muito frias e escuras, lembrando que cada construção ali fora erguida sobre sangue inocente.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

04/02/2022

O som do rugido da onça | XIII

Os cientistas pisam o chão de sua terra como se fosse a primeira vez em um sábado, 8 de dezembro de 1821. Estavam na Europa desde agosto, e, depois de tanta mata sibilando e trovões e insetos zunindo, tanto desconforto, aquele chão parecera por muito tempo um lugar de sonhos, um chão que desvanecia a cada dia, que feito de nuvens desaparecia a cada passo. Era possível perceber a felicidade deles pelo regresso, uma felicidade contida, nada ruidosa, mas que parecia emanar dos seus corpos como uma espécie de calor. Essa ventura, no entanto, não contagiava os companheiros da longa viagem, as crianças, os bichos e menos ainda os espíritos dos mortos que os acompanhavam. E, por mais que parecesse brotar de suas peles, ainda assim não tinha o poder de faiscar nos olhos de Spix. Ele parecia pressentir que pisava de novo aquela terra que era sua para morrer, sem que as glórias prometidas e sonhadas pudessem resgatá-lo. Como as crianças e os bichos, ele estava exausto. O sertão e a floresta minaram sua saúde. Era um morto que andava.
A intenção era que a Europa pudesse admirar aquele deslumbre de vida que há muito perdera. A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte da juventude, novíssima pedra filosofal. Quando Martius comprara crianças, não pensara nos escrúpulos de Spix, que desaprovara a ideia com uma frase ríspida: Não somos traficantes. Pensara que para a ciência toda consciência deveria ser relativa. E pensara em Goethe, que certamente haveria de gostar de receber uma daquelas crianças exóticas para observações. O poeta, sempre tão generoso, havia sido para Martius um alento nas noites da floresta em que, atenção voltada ao céu do hemisfério Sul, se sentira ao mesmo tempo maravilhado e oprimido pela solidez da mata, que muitas vezes se apresentava escura como o inferno, emaranhada como o caos, irritante e maligna em sua formação natural. Goethe, ao contrário, iluminara como um farol de luz segura e certa o seu trabalho de recortar numa coleção lógica um assombro medido, uma inteligibilidade no meio da perturbação. Trouxera consigo, na aventura de desbravar o Brasil, além do violino, o primeiro volume do Fausto, pressentindo que para atravessar aquele outro mundo, e a ele sobreviver, seria necessário, de algum modo, ser pactário. Trouxera também um exemplar de A metamorfose das plantas, que lhe inspiraria não só o fazer científico, mas também a feitura de seus próprios poemas.
Obnubila-te, amada, a mistura de milhares de formas dessa multidão de flores sobre o jardim;”
A voz jovial e grave de Martius imprimia uma entonação clara à Metamorfose engendrada por Goethe. Sua voz, num crescente, enchendo o quarto, o paço, o sertão, a floresta, qualquer lugar em que se pusesse a recitar e recordar a língua que era sua. O cientista se considerava um homem feliz na grande aventura de sua vida. Feliz naquela terra assustadora e pródiga, nunca igual ou monótona. Bem-aventurado entre suas amadas palmeiras, os seres que considerava os mais perfeitos de toda a criação. E ainda afortunado por proporcionar ao amigo Goethe, o grande poeta, sim, alguma felicidade com seus relatos, com as novas que lhe enviava de tempos em tempos nas cartas, com o presente que levaria para ele, uma lembrança de como sua obra, seu apoio, foram importantes naquela expedição, dando-lhe renovadas forças diante do misterioso sertão, perante a assombrosa floresta. Mas nem tudo saíra como o planejado, é certo.
Quando Iñe-e pisa o chão de Munique, ela não olha para o céu nem para as construções dos brancos, que a tornam simultaneamente arrogante e feia, como toda cidade dos inimigos se figurava para ela, fosse Belém do Pará ou Lisboa, Barcelona ou a Vila de Ega. O frio lhe vergava as costas. E ela se sentia doente de estar longe, debilitada por tantos caminhos.
Por que Iñe-e, que era livre, agora tinha donos? Tivesse se tornado onça naquele dia já distante em que a pegaram e a levaram de casa, ali nem estaria. Teria matado a todos. Ela, Tai-tipai uu, assomada e translúcida fera de palavras, rugidos, garras e dentes. Ela, não mais Iñe-e, uma menina-jaguar, mataria, sim. Mataria os cientistas que se faziam de donos. Primeiro arrastaria os dois pelo cangote, depois partiria suas colunas a dentes. E, na raiva que sentia, teria matado até mesmo o próprio pai, que a trocara como inimiga junto aos filhos dos inimigos. E mataria os frades e também o homem que colocou a todos numa fileira, cingidos por cordas. E mataria aquele que a agarrou quando ela quis fugir. Só pouparia as crianças, as mulheres, as avós e os avôs gerais. Nenhum outro homem ficaria de pé, porque bem sabia que o macho pertence à guerra do mesmo modo que a guerra pertence ao macho. Na ocasião de seu extravio, bem que tentou chamar a onça, como tentava agora, adentrando em Munique. Primeiro gritando, entre dentes, depois convocando baixinho e, por fim, invocando dentro de si mesma o animal que ali habitava,
Tai-tipai uu! Tai-tipai uu!
Mas nada acontecera daquela vez nem agora, Tipai uu não aparecera, Tai-tipai uu não a tomara, não fizera aparecer a jaguara debaixo de sua pele, saltando para fora com seu pelo lustroso, seus olhos solares, suas garras e dentes pontiagudos como arma da melhor qualidade. Talvez porque não dera tempo, talvez porque não fosse dado a crianças virar sequer jaguatiricas, e, sem a Onça Grande lhe permitir que onça saísse de dentro da vida dela, sua pena, ao que parecia, era se amofinar.
Não olhe o céu!, ela diz para si mesma ao pisar o chão de Munique, e acabrunha a cabeça em direção ao peito, se escondendo dos olhos curiosos dos brancos. Sente medo deles. O coração em corrida apavorada, coração de caça dentro do mato, o caminho de folhas e cipós e raízes, corredeiras, as picadas se abrindo e se fechando, os paus estralando, zagaias e, ali dentro, tão quente e úmido, até que o frio, as mãos dos caçadores chegaram e o encurralaram.
Não olhe o céu, Iñe-e! E assim ela permanece, a boca entreaberta, os olhos no chão, a dor pesando em cada fibra, carne cheia de dor e lamento pisando aquele chão sem nenhuma felicidade, um chão que parece mais duro que qualquer outro.
Alheios aos sentimentos da menina e vencidos pelo cansaço e pelo avançado da noite, Spix e Martius consideram que por ora é mais prudente se instalar em uma hospedaria. No centro da cidade, na Weinstrasse, se acomodam na Pousada Galo de Ouro, que logo começa a receber curiosos que anseiam por ver os dois exóticos trazidos pelos cientistas.
Quanto sucesso que nem imaginamos existe pelo imenso mundo. Serão criaturas de Deus?, pergunta a estalajadeira.
Deixemos que os apreciem por cortesia, Martius. Não considero correto que cobremos ingresso para exibi-los. Somos homens da ciência.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

25/01/2022

O som do rugido da onça | XII

O corpo de Raoni ocupa o centro da tela, seu cocar de penas amarelas e borda escura permanece como um corpo celeste em rotação. O círculo do sol é uma perfeição que não se extingue, e uma flama alaranjada bem ao centro aponta para o cosmos. O que o olho não vê é que o corpo de Raoni Metuktire é azul como o céu é azul em dias sem nuvens. Raoni fala.
Ouça, branco, preste atenção. Quando eu era deste tamanho, e Raoni faz um gesto com as mãos mostrando o quanto era pequeno, eu costumava dormir com a cabeça no braço do meu pai, assim, e ele dobra o braço em direção ao próprio tronco e quase se torna possível vê-lo ainda menino, repousando sobre o corpo do pai.
Ouça, branco, preste atenção. Quando eu era deste tamanho eu costumava dormir com a cabeça no braço do meu pai, assim. E ele me contava: você vai crescer diferente dos seus irmãos. Eles brigam muito, você não. Você se dá bem com as pessoas. Você vai ser amigo de todo mundo. Você vai manter nosso povo unido. Um dia, no futuro, um outro povo vai chegar aqui, um povo diferente, um povo desconhecido, e eles serão capazes de exterminar a gente. É você quem vai manter nosso povo unido. Então desde pequeno eu já sabia. Então, branco, branco começou a matar. E foi aí que começou a guerra.
Os braços de Raoni se configuram como duas jiboias. Suas cabeças sobem e descem, elas deslizam às margens do rio que não é possível ver além da tela, mas que está lá. Elas, as jiboias, bailam. O rosto de Raoni, por sua vez, toma a aparência do witawató, o pássaro gigante, uiruuetê.
Eu vi o desenho das barragens. São várias delas. Vão afetar as terras kaiapós. Existem muitas aldeias na beira do rio. Os outros caciques têm que saber disso. Eu vou contar do meu conhecimento. A água não pode ser barrada. Se o chefe de vocês continuar com o plano de fazer barragens, eu vou à guerra com ele. Os homens nascem livres e com direitos iguais.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

19/01/2022

O som do rugido da onça | X

A travessia do mar para os prisioneiros era uma coisa totalmente diferente do que era para os cientistas, muito embora para uns e outros fosse conflitiva. Para Spix e Martius, se transportava um jardim de maravilhas, um terrário preparado com cuidado e que transplantavam, fervorosos, reverentes, para deleite dos homens e das mulheres e crianças do seu povo. Para regalo próprio, de outros estudiosos e do seu rei. Para as crianças e os animais, levados contra a vontade, ao contrário, tudo aquilo era um rasgo profundo, inflamado. Gritos aflitos pareciam ecoar nos trovões que despencavam bolas impossíveis de fogo e água por sobre a embarcação. Adoeciam. Passavam fome e sede. Por ordens expressas do capitão, toda água e toda ração eram restritas a porções ínfimas, muito embora as provisões dos cientistas tivessem sido pagas e levadas por eles mesmos para seu próprio consumo, das crianças, dos animais vivos e das plantas.
O capitão, um bruto. Homem ruim. Yurupari o cegue com o seu raio, Yurupari o devore e o vomite, desejava a menina, e não apenas ela.
O capitão gritava com Martius, que reclamava do severo racionamento. Martius gritava com o capitão e teria ímpetos de matá-lo, se isso não custasse a sua própria vida. Com Spix mais enfraquecido do que ele, era seu o dissabor do embate com aquele sujeito tosco, que definitivamente não alcançava a importância de preservar o tesouro que tinha sob seus cuidados. Ao capitão, por feroz e desalmado que fosse, e era, só interessava chegar, sem motins, sem homens com facão em seu pescoço ou sua carne dada de comer aos monstros do mar. Se para isso fosse necessário deitar fora o que considerasse excedente, paciência. Entre dedos e anéis, preferia os dedos.
Os bichos foram os primeiros a morrer. Em seguida, as crianças. O caminho do mar transformado em uma vala comum e inconstante. Crianças e bichos, todos tombados na água sem nenhum ritual, como duras tábuas de madeira despencadas em túmulo semovente. Longe de suas famílias, nunca encontrariam o caminho para qualquer terra sem males onde pudessem se reunir com seus ancestrais.
Yurupari encontraria seus espíritos e os resgataria daquelas águas estranhas e vorazes? Iñe-e não sabia responder àquilo, apenas esperava o dia em que fosse também jogada já sem vida àquele pasto de peixes e criaturas assombrosas, e sentia que morria em cada morte que testemunhava. Perdia o chão deste mundo, aquele chão instável do assoalho do navio, em cada companheiro seu que expirava. Morreu com a menina pequena que murchou em dois dias, o sangue saindo em jatos de sua boca. Morreu também com o menino do seu tamanho que se foi agarrado ao irmão menorzinho, os dois gemendo e se contorcendo de dor por toda a noite até que, mal raiando o dia, se fez silêncio e frio dentro e fora deles. Morreu com todos, porque lhe faltava a palavra. E embora respirasse e sentisse o tum-tum do coração dentro da caixa do peito, a certeza era de que morta estava. E uma a uma as crianças foram falecendo, até que sobrassem de pé apenas ela e o menino Juri. E, ao sobreviverem, tanto ela quanto ele sabiam que estava lançada a sua falta de futuro e esperavam, desse modo, apenas a sua hora de também tombar e serem jogados na impiedosa e voraz boca da grande água.
O que, no entanto, só ela sabia, é que no momento em que crianças e bichos morriam, seus espíritos começavam a se desprender dos corpos, como uma lagarta que lentamente deixava para trás o casulo que até pouco tempo antes a continha. Mas, diferente das borboletas, que, tão logo secam suas asas, partem para sua vida de borboleta, os espíritos dos mortos daquelas embarcações passaram a pairar no alto, azulados, como pandorgas que estivessem de algum modo presas aos mastros. Ou como os balões de gás que, atados a fios muito finos e delicados, eram impedidos de ganhar o céu. E assim os espíritos continuaram acompanhando o comboio. Não eram Desencantados, porque neles não havia rigidez, imobilidade; eram matéria fina, inflada, com olhos enormes e a tudo atentos. Muito embora parecesse, não era aos barcos, galeras e escunas que aqueles espíritos estavam presos. Eles estavam mesmo atados aos cientistas, que, sem saber, arrastavam os fios daquelas almas aonde quer que fossem ou estivessem. Iñe-e não os via, mas os pressentia espreitando os dias dos vivos, se esforçando para pedir alguma coisa que ela não sabia o que era ao certo, mas imaginava.
Quando a caravana aportou em Lisboa, os espíritos dos mortos continuaram a segui-los, e se alguém pudesse de fato vê-los talvez se espantasse de que acima do adormecido Spix, que descansava em uma cama de madeira escura, em um quarto cheio de móveis e bibelôs, na noite do dia 6 de outubro de 1820, havia ao menos uma menina, um menino, três serpentes e um macaco a observar seu sono, todos colados ao teto, todos com seus grandes olhos que nunca se fechavam.
Sobre Martius pairavam uns outros tantos, como se dividissem entre si a função de vigiá-los. E assim seguiam, mortos e vivos dia após dia, noite após noite, pelos corredores, pelas salas de jantar dos palacetes, pelos gabinetes, pelas ruas da cidade, os espíritos observando os modos como aqueles homens andavam, como se despiam, como suavam à noite entre febres por baixo das cobertas. Incansáveis, não abandonavam seus postos, e continuaram atados aos homens quando a caravana seguiu seu rumo, saindo da capital portuguesa para Madri, de lá para Valência, Tarragona, Barcelona, por entre os Pirineus, Perpignan, Lyon, Alsácia, entrando em Estrasburgo pelo Reno até que chegassem, finalmente, à capital da Baviera, a cidade dos monges.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

13/01/2022

O som do rugido da onça | IX


Uma pessoa sabe que está morta quando não consegue mais escutar a voz dos animais, dos espíritos, das árvores, dos rios. Cada ente tem sua palavra, sua entonação própria e vocabulário. A paca fala de uma maneira, o tabaco fala de outra. A anta tem um acento, o jacaretinga tem outro. Tem palavras que só as onças usam e que não é dado a nenhum outro animal dizê-las. Do mesmo modo toda a diversidade de reinos dos bichos e das plantas.
Tururu etê turuliu caa nañaña u eê sapi, gritam os macacos quando entram em guerra.
A voz do peixe, em geral, é em torvelinho; mas a fala da inaai é tal qual a fala de gente, mas com um acento muito mais estrídulo. A voz da árvore tem semelhança com a voz da nuvem, e a voz da pedra é em igual tom ao da voz dos espíritos, uma fala muito clara e cortante. Só quem está vivo consegue escutar a voz do mundo, entender sua linguagem, seu rumor, os ermos e luminescências de suas palavras, e por estar vivo é que consegue responder.
Antes de ser vendida e levada embora, Iñe-e deslizava pelas águas dos rios como quem vive. Não pensamos na respiração quando estamos vivos, não nos ocupamos em entender os movimentos de encher os pulmões de ar ou de esvaziá-los; não lembramos de sentir o calor do sopro passando pelas narinas, mornamente, nem de sentir seu torpor quando está frio, muito frio. Mas Iñe-e descia aquelas águas em uma igara, que escorregava como a palma de uma mão deflui sobre o verde de uma folha muito lisa, e ela não se dava conta, porque era o seu natural, mas aquilo era a beleza de estar viva. E Iñe-e escutava.
No dia em que Iñe-e deixou a vida que conhecia para trás, ela ouviu a voz do rio, contínua e tornada escura pela fricção com as pedras, com as raízes e com a pele corrediça dos peixes. Pôde sentir sua teimosia e agastamento, e perceber as tentativas de impedir a sua partida. Assim, o rio jogou barrancos de areia no caminho, enviou troncos para atingir as canoas, assoprou nuvens de insetos. E esbravejava Vamos impedir nossas águas revoltosas vão impedir os troncos de madeira rolando pelas águas vão impedir os piuns já se ajuntam vão impedir nossa gente não sabe chorar trovejar da minha língua vamos impedir toda a arte de vocês é criação da morte vamos impedir [nós] a exibirmos nossa plumagem e nossa tristeza nossas cores e nossa selvageria sabemos lutar cuidado! as zarabatanas de água também mordem vamos impedir.
Mas de nada adiantou a arenga das corredeiras. Os homens são tenazes em suas pilhagens e, assim sendo, nada é realmente eficaz em impedi-los. Desse modo, a menina foi levada para a cidade dos brancos, onde ficou por tantos meses que chegou a pensar que ali seria o seu destino final. Quando começaram os aprontamentos para a nova viagem, não se deu conta. Vivia sobressaltada, esperando por algo que ela mesma não conseguia conformar em ideia clara. Morava nela o desejo de que, de uma das viagens que os cientistas faziam, sua mãe ou alguém conhecido pudesse ser trazido junto, para que não fosse mais tão solitária quanto era, muito embora cercada das outras crianças e de todos os que viviam no entorno da casa e das palhoças. Não conseguia pensar em outra coisa senão na vida e nas pessoas que deixara para trás, e esses pensamentos enchiam sua cabeça, sua alma.
Nada sabia sobre o mar ou sobre as terras que ficavam além dele. Sobre o movimento ao seu redor, achava que os cientistas e os outros homens se preparavam para um novo saque e que seria deixada mais uma vez ali com os outros, como os animais de criação que os brancos tinham certeza de que eram. No entanto, quando foram levados ao porto com uma infinidade de animais, entendeu que nunca mais regressaria. E do porto saíram em comboio de cinco monstruosos barcos, as brancas velas enfunadas por um vento sem vontade, em direção a um destino sombrio, desconhecido. E quando finalmente chegou ao alto-mar, Iñe-e não conseguia entender o que aquele imenso cobertor de água lhe dizia.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

25/12/2021

O som do rugido da onça | VIII

O papel suporta qualquer coisa que se deseje. Martius sabe. Suporta o desenho e o poema, o sonho de liberdade e o medo, a cobrança e o pagamento da dívida. A palavra escrita permanece, eis no que acredita, e por sua permanência está convicto de que ela se confirma como superior à voz, que se dissipa, que se perde tão logo é proferida. É preciso ter, portanto, cautela com o que se escreve. Medir cada palavra, encontrar as vestes que lhe cabem com exatidão, corrigir, reescrever, remendar as falhas. Então, Martius escreve primeiro para suplantar a limitação da memória, a evaporação da voz, depois pela obrigação com o rei e principalmente para se convencer e convencer aos outros. Como se não tivesse ido ao porto dos Miranhas negociar pessoas em desacordo com Spix, ele documenta o seu desejo de verdade.
Sem dúvida, o tuxaua não atribuiu a minha vinda aqui com outro motivo que negociar prisioneiros; custou-lhe, portanto, a compreender, quando lhe ofereci pelo ornamento de penas, pelas armas e por uma bela samambaia, tantos machados e facas. Ele acrescentou agora a esses presentes mais cinco jovens índios, duas raparigas e três meninos. Desses desgraçados, que aceitei das mãos do desumano, com tanto maior empenho, quanto sabia que, ficando aqui, eles se destinavam sem cuidados à morte certa, visto já estarem todos atacados da febre; a mais velha das moças, levamo-la para Munique, duas outras entreguei-as ao sr. Videira Duarte, comandante militar de Ega, e ao sr. Pombo, ouvidor do Pará, e os outros dois, que já traziam o germe da morte, faleceram de endurecimento do fígado e hidropisia durante a viagem.”
Martius rasura. Omite o destino do menino. Precisa apagar rastros, estabelecer o lugar do corte entre o vivido e aquilo que gostaria que tivesse acontecido. Ou dar apenas aquilo que as pessoas precisam saber, parca ração da verdade. Toda rasura é uma edição. Sem dúvida o ato é em si mesmo um fracasso, e o cientista sabe disso, mas como se perceber aos olhos dos outros sem a marca do heroico incontestável? Expurgar, desviar, eliminar a variação torna-se um hábito para quem escreve ou reescreve a história, especialmente a história dos outros, mas toda raspagem ou borrão, toda nuvem de breu que cobre o desenho ou o primeiro escrito deixa sua marca, seus vestígios. Dizem que onça não tem faro igual ao de cachorro. Mas onça fareja a seu modo. Descobre resquício de passagem da presa. A presa é, em geral, inepta para encobrir o próprio rastro.
Eu, afortunadamente, vim para Manacapuru, ali Juri, da família Comá-Tapüjaa, juntou-se a nossa tripulação, acompanhou-nos a Munique.
Quando regressei de Japurá para Manacapuru, a corte de Zani (ele permanecera ainda doente em Ega), o capataz me mostrou os índios sob o comando do seu senhor, dos quais me foi permitido escolher um, que me atrevi a mostrar na Europa e educar à humanidade europeia. Na manhã antes da nossa partida, os índios homens apareceram enfileirados no pátio na frente da casa. Apontei para um belo menino Juri, o capataz o tirou da fila. Era filho do líder de uma horda indígena que morrera em combate.”
Martius recorda. Tem boa memória, mas, passados dez anos da primeira linha à revisão da obra, já não confia na imagem das mulheres que trataram sua febre na maloca, na pasta escura e pegajosa que o xamã passou nas tumefações de seu corpo. Prefere confiar na irritação que sentiu com a festa que o povo fazia enquanto seu amigo, o capitão Zani, tremia de impaludismo.
Martius escreve, coloca Iñe-e como prisioneira dos miranhas. Parece-lhe amoral, ao tomar essa decisão diante da folha em branco, o fato de ter aceitado como presente a filha de um tuxaua. Parece-lhe melhor ter salvado a menina de um horrível cativeiro. Parece-lhe melhor pintar o chefe como um demônio. Como não seria se oferecia a filha a um desconhecido? Palavras podem ser animais dóceis.
Assim que anoiteceu, vimo-nos cercados por várias centenas desses homens. Expôs-se ao meu olhar horrorizado uma cena mais do inferno que humana: uma dança de antropófagos depravados, exaltados pelo gozo do triunfo e pela sensualidade. No meio desses filhos do apetite bestial desenfreado, passamos as noites receosos e sem dormir: só de manhã, quando eles se recolhiam às redes, ou iam para o banho, podíamos também descansar. Durante o dia, poucos eram os que víamos desses endemoninhados, pois estavam dispersos pela mata e em cabanas remotas; mas logo ao cair da tarde surgiam eles de todos os lados e enchiam a praça, entre o rio e as cabanas, com um monótono sussurro, até ficarem bêbedos; então prorrompiam em berreiro feroz e, finalmente, soavam seus discordantes instrumentos, e começava o estrondo das canções e danças. Ainda se me confrange a alma, quando me lembro da horrível degeneração desses brutos. Devo supor que, durante a minha estada de algumas semanas entre esses selvagens, todas as manifestações de sua vida desleixada passaram-me diante dos olhos; mas senti tão dolorosa impressão da sua vizinhança, que, se eu contasse as particularidades nas quais se manifesta a característica dos mais rudes aborígenes brasileiros, também causaria a mais penosa impressão aos meus leitores. Fiquei persuadido de que esses selvagens não tinham ideia alguma do
Deus bondoso, pai e criador de todas as coisas; que somente domina nos seus destinos um ente mau, transformando-se em cada fatalidade, caprichoso e implacável, ao qual se sujeitam em cego e inconsciente medo. A alma desses homens primitivos decaídos não é imortal; ela apenas se manifesta na existência, não conscientemente, e só a fome e a sede lhes lembram as necessidades da vida. Justamente por isso, a vida não é considerada por eles um grande bem, e a morte lhes é indiferente. Com ela, tudo se acaba; só sobrevivem o ódio e a vingança como espectros atormentadores. O laço do amor é frouxo; em vez de ternura, cio; em vez de afeição, necessidade; os mistérios da geração, profanados e às claras; o homem, por comodidade, meio vestido; a mulher, escrava nua; em vez de pudor, vaidade; e o casamento, um concubinato que se desfaz segundo o capricho; a preocupação do pai de família é seu estômago; quando cheio este, crua concupiscência; seu passatempo, glutonaria e ócio apático; sua ocupação, irregularidade; o trabalho das mulheres, cego e sem finalidade; os seus prazeres, repugnante lascívia; as crianças, fardo dos pais e, por isso, evitadas; a afeição paternal, somente cálculo, e a maternal, somente instinto; o pai de família, descuidado e sem autoridade; a educação, brincadeira, imitativa da mãe, cega despreocupação do pai; em vez de obediência filial, medo; emancipação recíproca ao alvitre; para a velhice, em vez de respeito, desafio; em vez de amizade, camaradagem; lealdade, enquanto não há tentação; relações subordinadas ao egoísmo vacilante; em vez de direito, a voz do egoísmo; em vez de patriotismo, inconsciente confiança nos parentes da mesma língua; ódio hereditário contra as tribos estranhas; mutismo, por pobreza de ideias; indecisão, por falta de discernimento; o domínio do tuxaua, por inaptidão dos demais, porém todos incapazes da verdadeira obediência moral, assim como do comando: — eis como vive o aborígene destas selvas! No mais primitivo grau da humanidade, é deplorável enigma para si mesmo e para o irmão do Oriente, em cujo peito ele não se anima, em cujos braços desvanece, tocado por humanidade superior como de mau sopro, e morre. A 12 de fevereiro, deixamos o porto dos Miranhas, lugar de cuja sombria impressão na minha alma só me senti curado depois do regresso à Europa, à vista da dignidade e grandeza humanas.”
Martius esquece o que escreveu. Ou não esquece, mas quer esquecer. Deliberadamente, rasura. E a rasura também é um método. Agora contempla o retrato de Iñe-e gravado na pedra. Para que contemple essa imagem, foi preciso antes existir uma pedra, que foi lixada em movimento infinito, em lemniscata, o universo em eterna repetição. Depois as feições da menina desenhadas em ponta de lâmina, o seu cabelo liso riscado ao meio, pelos ombros, sua cabeça pendida, os olhos tristes e amendoados, os lábios unidos, estampando sua resignação. Só depois o breu pulverizado, a tinta, a impressão. A pedra colocada na superfície da prensa, a manivela girando cuidadosamente para que a pedra não se espatife sob a compressão. Martius escreve e raspa o que escreveu e faz uma nova tentativa de verdade. Agora coloca na legenda a menina como pertencente a M. J. do Paco, governador do rio Negro. Para ele não há nome anterior a Isabella Miranha. Para ele, ela não tem história.
O papel suporta tudo, Martius bem sabe. Já velho, escreve em seu diário:
Eu apontei para o belo rapaz juri, o capataz o retirou da fila e o pai do menino não o acompanhou; em vez disso, seguiu-me com um olhar fixo: era uma pergunta ou era raiva? Eu não me esqueci desse olhar.
Letras são animais que, depois de domesticados, apenas obedecem, ele acredita.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

18/12/2021

O som do rugido da onça | VI

Quando o velho avô, no centro da maloca, reunia os mais novos para que escutassem os ensinamentos, ele sempre começava dizendo o quanto a palavra era importante para o povo.
Sem palavra não poderíamos ser gente. Nosso povo recebeu a palavra de vida do criador, e isso nos diferencia dos bichos. A dos bichos é a outra palavra.
Quem não tem a palavra está morto, foi o que Iñe-e e os outros aprenderam. Os mais velhos mascavam a palavra nas folhas de hiibii, a coca, e os mais jovens esperavam que chegasse a sua vez de mascá-la e receber a linguagem do sumo das folhas. Porém, para Iñe-e, o certo é que esse tempo não chegaria nunca. Colocada em uma fila com os órfãos de povos inimigos, de nada adiantaram os pedidos e lamentos da mãe, a briga do avô em sua defesa. Iñe-e foi levada, e a mãe ficou para trás como um bicho tristonho, cabisbaixa e andando em círculos. O avô se entristeceu de morte. Tsittsi se embrenhou na floresta. Sabiam que nunca mais voltariam a ver a menina. Iñe-e se tornara presa do desconhecido.
A travessia do rio foi confusa e dolorosa, as lembranças da vida que ficara para trás deixava o corpo da menina como que dormente, e ela se perguntava se saberia como voltar para casa, porque de algum modo imaginava que conseguiria regressar. Mas, até lá, o que seria dela, sem a mãe, sem os parentes, sem a vida que conhecera? Seu coração se fechava como a noite se fecha sobre a floresta, trazendo medo, uma sensação sombria e aterradora de que ela se extraviara e que daquela vez não haveria uma onça para protegê-la até que estivesse novamente em segurança. Sem proteção, ela sentia que a escuridão a engoliria.
Duas das crianças mais novas choramingaram a viagem inteira. As demais, embora imersas em si mesmas, em silêncio, estavam visivelmente abaladas. Martius, por sua vez, parecia feliz. Ele as olhava como que maravilhado, e seus olhos claros pareciam verdadeiramente os de alguém que fosse bom, e esse era precisamente o engano, sabia a menina.
Como pode ser bom alguém que compra outras pessoas? Que as leva para longe dos seus parentes? Eram as perguntas que Iñe-e remoía dentro de si mesma.
Antes de todos aqueles eventos, é certo que ela não pensava nos inimigos e em seus filhos como iguais, e parecia correto o costume de serem vendidos ou trocados. Era a natureza da guerra. Apenas quando se viu entre eles, dentro de uma canoa cercada de estranhos, rio afora, é que começou a perceber que não havia afinal muitas coisas que os separassem; que se, afinal, dividiam o mesmo destino, outras coisas também poderiam aproximá-los. Estavam todos amedrontados, cansados, confusos. E seus pensamentos não eram exatos como o curso do rio antes da cheia; eram sentimentos que se depositavam uns sobre os outros como cascas de coquinhos amontoadas, coladas pelo grande espanto de que aquilo estivesse mesmo acontecendo.
Sem falar o nheengatu ou o português, apenas as línguas que aprenderam com suas mães, só conseguiam falar entre si as crianças pertencentes ao mesmo povo, de modo que nenhuma delas falava com os homens ou poderia compreendê-los para além dos gestos irritados com que eram tangidas. Iñe-e e um menino do povo juri não tinham com quem falar.
Tão logo chegaram à barra do rio Negro, a menina percebeu que havia outro chefe além de Martius. Spix era seu nome. De olhos claros e cabelo encaracolado, o homem tinha um aspecto quase infantil, mas a infância que restava nele era sem dúvida uma infância fragilizada, abalada por um sofrimento físico intermitente que o deixava todo opaco, como algo novo que se vira precocemente inutilizado. Spix, um homem claramente doente e combalido, tanto que ela pôde enxergá-lo morto antes mesmo que assim estivesse, recebeu-os com uma expressão de espanto e mesmo reprovação. Acariciou a cabeça do menorzinho de todos, um afeto que espantou as outras crianças. Iñe-e não se impressionou com nada, estava cansada e irritada.
Ambos os cientistas eram homens considerados muito sábios pelo povo dela, coisa que Iñe-e não sabia nem conseguiria entender. Entre os seus parentes era preciso ser bem mais velho e experiente para ser considerado alguém com ciência das coisas deste e de outros mundos, o mundo das plantas, dos bichos, dos espíritos e encantados. Aqueles dois, porém, não figuravam aos olhos dela como capazes de grande sabedoria. O juízo que fazia deles não a impediu de perceber que os dois eram gentis, diferentes da maioria dos brancos que conhecera até ali, estúpidos, violentos. Esse era um fato até desconcertante para ela. No entanto, apesar das amabilidades e dos modos suaves, Iñe-e tinha em mente que não passavam mesmo de inimigos impuros.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

12/12/2021

O som do rugido da onça | V

 


Na sala, a TV ligada transmite a imagem de um cacique de cabelo longo. O cacique olha para a câmera e diz:
Não sei o que vocês vão fazer com a minha imagem. Eu não aprovo isso. Vocês mentem. O homem branco não liga para nós. Eu odeio todos vocês.
Josefa tem uma xícara de café entre as mãos e um xale nos ombros. Do lado de fora do apartamento, a tempestade parece falar de um outro mundo, um mundo grandioso, de ventos cortantes, de folhagens largas se agitando em um diálogo que se avoluma intraduzível, um mundo que não parece aderir ao tempo que se impõe entre as paredes do apartamento, sob a luz que emana da televisão e o desenho do corpo do rapaz que, a seu lado, também tem uma xícara entre as mãos, os dedos arqueados contra a cerâmica quente, as unhas roídas. Por um instante, como se adentrasse num estado de sonho, é como se ela mesma pudesse estar dentro e fora, como se fizesse parte da chuva que cai com todos os seus ruídos sem deixar de ser uma mulher sentada ao lado de um homem. Os barulhos do mundo de fora abafam o som da televisão por um instante, quando na tela surge outro cacique, Raoni, trazendo a cabeça adornada por um cocar de penas amarelas, coroa refulgindo ao sol, ou quem sabe o próprio sol, advertindo que quem é da guerra na guerra morre.
E eu vou matar vocês, diz Raoni com sua voz de jaguar.
A chuva forte escorre pelas ladeiras do espigão paulista, trovões e relâmpagos restrugem e iluminam a noite com tamanha potência que tornam as luzes da metrópole diminuídas, insignificantes, o rio Xingu ameaçado pela construção da hidrelétrica e suas barragens parece pulsar para além da TV na chuva que se estilhaça, violenta, pelo asfalto.
Que tempestade!
É, são as ruas querendo voltar a ser rio. Outro dia morreu um rapaz afogado, você imagina?
Ah, eu ouvi falar. Lá na Cardoso de Almeida, não é?
A imagem de alguém morrendo afogado no meio da rua de uma grande metrópole parece perturbar os dois, e a conversa morre abafada pela zoada da chuva, e as vozes dos caciques, ativistas e antropólogos tornam-se de novo inaudíveis. Os corpos jovens e perfeitos de guerreiros numa luta corporal tomam a tela, os adornos coloridos em torno das cinturas os metamorfoseiam como que em jiboias ou jaguares, ou mesmo troncos de árvores que por algum desvio da natureza pudessem estar simultaneamente plantados e se movendo uns contra os outros. Uma menina pequena com um colar de vários fios azuis, que uns diriam azul-real e outros azul cor da plumagem da arara-canindé, dança no terreiro.
Iñe-e é perscrutada pelo olhar de Martius. Ele investiga o tom marrom-pálido, isabelino, como diz, da pele dela, o brilho do cabelo negro, as sobrancelhas finas e salientes, o repuxado dos olhos. No peito de Iñe-e começam a despontar seios em dois pequenos brotos. Eles latejam, às vezes, como se fagulhas a habitassem por baixo da pele. A menina resplandece sob o sol, contra o verde da paisagem. É vivaz. Um pouco antes, no terreiro, corria com os companheiros, e nenhum a alcançava. Martius agora a examina. Com os dedos ergue seu queixo. O contorno da boca é elegante, uma pequena depressão se insinua logo abaixo dos lábios inferiores. A menina se incomoda, seu desconforto se traduz nas mãos que torce nervosamente, nos pés que pesam o peso de uma montanha, quando tudo o que quer é fugir. Fosse onça, modularia um grunhido de advertência, um grunhido sibilado, o ar saindo pelas laterais da boca, as presas se erguendo e se mostrando, inequívocas. O homem lhe diz alguma coisa, mas ela não entende. Não quer ouvir. Quando ele se afasta um pouco, Iñe-e recobra os sentidos e corre, indo se esconder na maloca, entre as pernas da mãe. Martius anda pelo descampado, observa outras crianças e jovens. É um homem magro e abatido, curtido de sol e febre, rosto e mãos cobertos de abscessos das picadas dos insetos, braços feridos por espinhos. Um homem quase envergado pelo sertão e pela floresta. Iñe-e o detesta.
Josefa se levanta, arruma o xale, olha pelo vidro da janela o rio que a chuva fez descendo borbulhante ladeira abaixo. Mais tarde, enquanto a madrugada impõe um ritmo mais compassado para as águas em queda, e o corpo de Tomás cercado de sombras e de pequenas claridades se figura como um animal adormecido, ela rememora lugares do seu passado. Primeiro, a rua de sua infância, a casa da avó em Belém, os meninos de bicicleta rondando a entrada, esperando que estivesse desacompanhada para disparar pequenas obscenidades, se aproximando demais do meio-fio se ela estivesse desacompanhada no jardim. Um dia dois deles pararam e um perguntara, em tom jocoso, se ela não queria ser montada por ele, como a bicicleta, ao que o outro observara que era possível, pois ela já tinha peitinhos. Não soube de imediato o motivo pelo qual a insônia remoía aquela memória distante, que ia e voltava entre outras lembranças desconexas e urgências dos próximos dias, algumas contas por pagar, decidir se se inscreveria em um programa de pós-graduação, finalizar um frila. Depois lembrou a discussão que tivera com um médico em uma emergência em que aguardava atendimento quando não tinha mais que dezesseis anos. O homem achara de destratar uma mulher franzina e com a aparência exausta e pobre, cujo filho estava queimando de febre, porque esta ousara sugerir: será que é coqueluche, doutor? A tia, que a acompanhava, ficara mortificada por ela haver pedido que o médico tivesse mais educação e respeito. De repente identificou nesse episódio aquilo que era capaz de lhe roubar o sono, o retorno do olhar entre mortificado e acusatório da tia, que a culpava pelas injúrias dos meninos, por ela não se refrear diante da autoridade, um olhar que a afirmava ora como sonsa, ora como estúpida. Do que a culpava mesmo? De ser bugra demais, se bem lembrava. Aquele sentimento, quando difuso, era um carrapato inchado de sangue. Mas quando posto a descoberto, murchava. E foi então que ela conseguiu algum sossego, o que naquela madrugada avançada se traduziu num sono incapaz de ser reparador.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça

28/11/2021

O som do rugido da onça | IV

A vida é o tempo que segue correndo, Iñe-e aprendeu. Até que se deu a chegada daquele homem desconhecido. Ele viera em uma grande comitiva como se fosse um grande chefe. Havia três montarias, um pequeno séquito de escravos, caçadores e pescadores a seu dispor, e muitos outros homens, entre eles um parente e um outro branco já conhecido do povo miranha. Esse branco, sempre com as armas postas na cintura, era muito animado, falador, conhecedor da floresta e das gentes de origem dela. Uma comitiva de muitas canoas fora anunciada dias antes pelos vizinhos, mas a embarcação do desconhecido, que era a principal, veio coberta de folhas de tamarica, para protegê-lo do sol, e só isso já indicava sua importância. Doze homens remavam para ele, uns da nação dos coerunas e outros da nação dos macunás. O homem que era como um grande chefe tinha um aspecto lastimável, por estar doente parecia que houvesse sido banhado na tintura rubra do achiote. Picadas dos carapanãs formavam calombos em seu corpo, e Iñe-e achou que aquele era um homem muito feio.
O alvoroço do povo reverberava no estampado das chitas, no chiado das miçangas, no tilintar dos troços de metal. Algumas crianças que de primeiro foram arredias agora cercavam os visitantes com seus olhos curiosos, admirados, e a presença daqueles homens monopolizava o cochicho das mulheres, ao mesmo tempo que dobrava a ocupação delas no preparo das comidas. Os homens agora tocavam os trocanos em resposta aos moradores adjacentes, anunciando que os brancos chegaram bem, que o principal deles repousava por causa da febre, que os subordinados estavam comendo, que todos eles estavam dançando, que vieram interessados em fazer negócios lucrativos.
O homem de aspecto lastimável é cuidado com beijus, sopa de yuca, água fresca e frutas até que a moléstia dê uma trégua a seu corpo. O velho avô faz o seu trabalho de cura com as ervas. E tão logo o branco se recupera, aqueles se tornam verdadeiramente dias de festa. Inaugurando um novo costume, a mãe de Iñe-e e Tsittsi recentemente havia sido repudiada e trocada por uma mulher mais jovem e mais alta pelo seu pai, o tuxaua. Temerosa do que poderia significar aquela perda de posição, recomendara, desde a chegada dos estrangeiros, com voz trêmula, que a filha mantivesse distância daqueles homens, especialmente quando estivessem tratando com o pai. Suas mãos trançando o fio de buriti em exato movimento de dedos em dança; seu coração, porém, palpitando, bambo. Igual recomendação lhe fez o avô, que por sua vez parecia mais encarquilhado e até tristonho.
Alguns dias depois de sarado, o branco partiu para as cachoeiras do Araracoara, e o pai se embrenhou com os guerreiros em busca dos escravos que o homem encomendara. Quando o tuxaua regressou, trazia alguns poucos homens, muitas mulheres e várias crianças. Eram crianças que aquele branco queria, Iñe-e ouviu o avô dizer a outro velho. Porém, na noite em que o tuxaua e o branco negociavam, Iñe-e ficou mais próxima do centro daquelas transações do que deveria. Ouviu o pai rir muito alto. Ouviu a voz do branco vexada, vacilante. Antes era costume que seu povo trocasse com os brancos apenas os inimigos e os órfãos dos inimigos por mercadorias variadas e ferramentas de trabalho. Mas, desde que esses negócios com os estrangeiros se haviam tornado mais constantes, muitas coisas tinham mudado, e alguns dos seus modos e hábitos começaram a se entranhar no tuxaua, o pai de Iñe-e, que se barbeava como eles e que passara mesmo a usar calça comprida e até uma casaca que a menina achava esquisita e feia. Ocasionalmente o pai até dizia palavras na língua dos brancos, a maioria das quais ele mesmo desconhecia o significado. Em uma de suas viagens fora batizado por um frade e desde então exigia ser chamado de João Manoel.
Iñe-e escutara uma vez as mulheres, sua mãe entre elas, dizendo que o pai pegara a doença dos brancos e que estava se tornando um estrangeiro em sua própria nação. Mas os guerreiros mais velhos e mesmo os jovens pareciam estar todos de acordo com ele, e o povo miranha se congratulava pelas trocas que o chefe se empenhava em realizar. Foi assim que nos últimos tempos as crianças órfãs e mulheres do seu povo haviam virado moeda também, e por isso a mãe e o avô de Iñe-e temiam as visitas dos brancos, especialmente por causa dela, e tentavam escondê-la dos olhos do pai, como se isso o fizesse esquecer de sua existência. Mas todos os esforços se revelaram inúteis. Não havia nenhum esconderijo a seus olhos, nada e nem ninguém que o impedisse.
Uma manhã em que o sol se levantou do mesmo jeito que sempre se levantava, e em que a mata falava sua língua do mesmo modo com que sempre falava, nada denunciava o que estava por acontecer. O pai de Iñe-e e o estrangeiro, que atendia pelo nome de Martius, firmaram acordo sobre a venda de sete crianças. Mas o homem branco deixaria o porto dos Miranhas levando consigo oito vidas. Iñe-e lhe fora dada como presente.

Micheliny Verunschk, in O som do rugido da onça