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20/02/2023

A terra prometida

Maldormidos, nus, machucados, caminharam noite e dia durante mais de dois séculos. Iam buscando o lugar onde a terra se estende entre juncos e taquaras.
Várias vezes se perderam, se dispersaram e tornaram a juntar-se. Foram virados pelos ventos e se arrastaram amarrando-se uns em outros, golpeando-se, empurrando-se; caíram de fome e se levantaram e novamente caíram e se levantaram. Na região dos vulcões, onde não cresce erva, comeram carne de répteis.
Traziam a bandeira e a capa do deus que tinha falado aos sacerdotes, durante o sono, e tinha prometido um reino de ouro e plumas de quetzal: Sujeitareis de mar a mar todos os povos e cidades, havia anunciado o deus, e não será por feitiço, e sim por ânimo do coração e valentia dos braços.
Quando se aproximaram da lagoa luminosa, debaixo do sol do meio-dia, os astecas choraram pela primeira vez. Ali estava a pequena ilha de barro: sobre o nopal, mais alto que os juncos e as palhas bravas, estendia a águia suas asas.
Ao vê-los chegar, a águia humilhou a cabeça. Estes párias, apinhados na margem da lagoa, imundos, trêmulos, eram os eleitos, os que em tempos remotos tinham nascido da boca dos deuses.
Huitzilopochtli deu-lhes as boas-vindas:
Este é o lugar de nosso descanso e nossa grandeza – ressoou a voz. – mando que se chame Tenochtitlán a cidade que será rainha e senhora de todas as demais. México é aqui!

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

03/08/2016

O fio da fábula

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cb/Edward_Burne-Jones_-_Tile_Design_-_Theseus_and_the_Minotaur_in_the_Labyrinth_-_Google_Art_Project.jpg/574px-Edward_Burne-Jones_-_Tile_Design_-_Theseus_and_the_Minotaur_in_the_Labyrinth_-_Google_Art_Project.jpg 
Theseus and the Minotaur in the Labyrinth (1861), de Edward Burne-Jones


O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este afundasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como quer Dante, o touro com cabeça de homem, e lhe desse morte e pudesse, já executada a proeza, destecer as redes de pedra e voltar a ela, a seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que em algum lugar prefixado estava Medeia.
O fio se perdeu; o labirinto se perdeu também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ao azar. Nosso bonito dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontramos e o perdemos em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
Jorge Luis Borges, in Os conjurados