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24/02/2024

Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra | Capítulo vinte e dois



A última carta

Sou como a palavra: minha grandeza é onde nunca toquei.
Avô Mariano

Estou deitado sob a grande maçaniqueira na margem do Madzimi. Aqui o rio se adoça, em redondo cotovelo, num quase arrependimento. Esta é a árvore onde o Avô Mariano vinha espraiar preguiças. Chamo-lhe "Avô" e sei agora que ele é meu pai. Para mim, Dito Mariano será sempre meu avô. E é assim, antigo e eterno, que o recordo deitando-se sob as ramadas da maçaniqueira. Recostado sobre o tempo, o velho Mariano ajudava a ensopar o poente. Consoante ele dizia: a tarde é o sonolento bicho, necessita de lugar macio e húmido onde cair. O enterro do sol, como o do vivente mal-morrido, requer terra molhada, areia fecundada pelo rio que tudo faz nascer.
Sob a grande sombra não me dói a ausência do mais-velho dos Marianos. Sinto falta, sim, da nossa secreta correspondência. Aquelas cartas me fizeram nascer um avô mais próximo, mais a jeito de ser meu. Pela sua grafia em meus dedos ele se estreava como pai e eu renascia em outra vida.
As cartas instalavam em mim o sentimento de estar transgredindo a minha humana condição. Os manuscritos de Mariano cumpriam o meu mais intenso sonho. Afinal, a maior aspiração do homem não é voar. É visitar o mundo dos mortos e regressar, vivo, ao território dos vivos. Eu me tinha convertido num viajante entre esses mundos, escapando-me por estradas ocultas e misteriosas neblinas. Não era só João Celestioso que tinha ultrapassado a última montanha. Eu também tinha estado lá.
Já não me importa esclarecer o modo como Mariano redigira aquelas linhas. Eu queria apenas prolongar esse devaneio. Deitado sob a maçaniqueira, a brisa se faz audível nos ramos que me dão sombra. Cai uma larga folha sobre o meu peito. Toco-a como se acariciasse as mãos do Avô. Aos poucos, o verde se entontece e a folha empalidece, tombando num desmaio. Apanho-a do chão. Já não é folha mas papel. E as nervuras são linhas e letras. Nos meus dedos estremece a última carta de Dito Mariano:

Meu neto, Agora sabe onde me há-de visitar. Já não necessito de lhe escrever por caligrafada palavra. Falaremos aqui, nesta sombra onde ganho dimensão, copo renascendo em outro copo. Você, meu neto, cumpriu o ciclo das visitas. E visitou casa, terra, homem, rio: o mesmo ser, só diferindo em nome. Há um rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e desagua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida. Esta é a última visitação. Desta vez já não háverá mais cartas. Não careceremos de nos visitar por esses caminhos. De assim para sim: nesta sombra que, afinal, só há dentro de si, você alcança a outra margem, além do rio, por detrás do tempo.
Todos necessitam de grandes causas, precisam de ter pátria, ter Deus. Eu não. Me bastou ter esta árvore. Não é dessas de se domesticar em jardim. Esta árvore, tal como eu, não tem cultura ensinada. Aprendeu apenas da embrutecida seiva. O que ela sabe vem do rio Madzimi. Longe do rio, a maçaniqueira morre. É isso que a faz divina. Foi por isso que sempre rezei sob esta sombra. Para aprender de sua eternidade, ganhar um coração de longo alcance. E me aprontar a nascer de novo, em semente e chuva.
Venha aqui e se deite. Verá que o dormir, nesta berma, se faz da mais funda indolência. Agora, eu já durmo além do sono. Dormir é um rio, um rio feito só de curva e remanso. Deus está na margem, vigiando de sua janela. E invejando o irmos, infinitos, vidas afora. Vem daí o cansaço de Deus. Esse Deus do Padre Nunes se consome na desconfiança. Há séculos que Ele deve controlar a sua obra, com seu regimento de anjos. O nosso Deus não necessita de presença. Se ausentou quando fez a sua obra, seguro de sua perfeição.
Lhe contei tudo sobre sua família, desfiei histórias, desfiz o laço da mentira. Agora, já não arrisco ser emboscado por segredo. O caçador lança fogo no capim por onde vai caminhando. Eu faço o mesmo com o passado. O tempo para trás eu o vou matando. Não quero isso atrás de mim, sei de criaturas que se alojam lá, nos tempos já revirados. Por fim, me libertei dessa sonolência que me prendia ao lençol da mesa grande. Não acredita como me cansava aquela sala, como me fatigavam os visitantes que não paravam de chegar, fingindo tristezas. Onde estavam quando eu ainda era todo vivo e careci de amparo? Por que se juntaram, agora, em mostruário de choros e rezas? Não lhe parecia muito meio para pouco fim? Eu lhe respondo: o medo. É por isso que vieram. Tinham medo não da morte, mas do morto que eu agora sou. Temiam os poderes que ganhei atravessando a última fronteira. Medo que eu não lhes trouxesse as boas harmonias. Foi isso que troquei consigo, meu neto. Chamo-o assim de “meu neto” mas é uma fraqueza de expressão. Você é meu filho. Meu maior filho pois nasceu de um amor sem medida. Por isso, não o escolhi para cerimoniar a minha passagem para a outra margem. Você se escolheu sozinho, a vida escreveu no seu nome o meu próprio nome.
Nestes manuscritos me fui limpando de mim. Esses que me velavam sofriam de um engano: aquele, em cima do lençol, se parecia comigo. Mas não era eu. O morto era outro, em outro fim de vida. Eu apenas estou usando a morte para viver. Você, meu filho, você disse o certo: a morte é a cicatriz de uma ferida nunca havida, a lembrança de uma nossa já apagada existência.
Nestes dias, deitado naquela sala sem telhado, fui contemplado por luas e por estrelas. Às vezes, me descia um frio sem remédio. Me chegavam visões de uma fundura: o abismo que nenhuma ave nunca cruzou. E eu tombando, tombando sempre. Da rocha para a pedra, da pedra para o grão, do grão para a funda cova do nada. Mas depois eu sentia-o chegar, meu filho, e a minha cabeça dedilhava em sua mão: e você escrevia as minhas cartas. Me sustinha a simples certeza: a mim ninguém, nunca, me iria enterrar. E assim veio a suceder. Fui eu, por meu passo, que me encaminhei para a terra. E me deitei como faz a tarde no amolecido chão do rio. Mais antigo que o tempo. Mais longe que o último horizonte. Lá onde nenhuma casa alguma vez engravidou o chão.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

14/05/2023

Capítulo vinte e um | A chave de chuva


Eis o que eu aprendi nesses vales onde se afundam os poentes: afinal tudo são luzes e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo, nós somos suas breves incandescências.
Fala de João Celestioso ao regressar do outro lado da montanha –

Desde o funeral que não pára de chover. Nos campos, a água é tanta que os charcos se cogumelam, aos milhares. Poeiras brancas ondulam à tona de água. Parece que a terra vomita esses pós brancos que, por descálculo, Juca Sabão teve a fatal ideia de semear. Quem disse que a terra engole sem nunca cuspir? Sob a chuva, vou percorrendo a Ilha. As roupas, molhadas, me pesam tanto que parece que elas é que me usam a mim. Uma estranha força me conduz, fosse eu pela mão de um destino. Meu rumo é certo: vou a casa de Miserinha. Espreito pela janela: ela lá está, a fingir que vai costurando, no mesmo velho cadeirão. Reconheço o pano: é o pedaço de mortalha que ela rasgou na última visita a seu amado Mariano. Dessa porção ela pretende refazer o todo. Até de novo se deitar nesse lençol e marejar em infinitas ondas.
A gorda parece ter dado por minha presença. Pergunta "quem está?" e eu, para não a desassossegar, me apresento. Ela sorri e manda que eu entre no penumbroso quartinho.
Você está com o passo mais leve – comenta. – Isso é um caminhar de anjo.
E se inclina para retirar algo por baixo do assento. É o lenço colorido que ela trazia quando a encontrei na viagem de barco para Luar-do-Chão.
Esse lenço tinha caído no rio. Como é que está aqui) Miserinha?
Tudo o que tomba no rio é arrastado até mim.
Não diga que quem arrasta é o crocodilo?
Qual crocodilo? – pergunta Miserinha soltan do uma gargalhada. E acrescenta, sem interrupção: – Você já está a acreditar de mais nessas histórias da Ilha...
Espreito o lençol em suas mãos. As linhas se cruzam num confuso emaranhado. Ao fim e ao cabo, pouco diferindo do seu viver. Agita o lenço que me oferecera para protecção dos espíritos: – Você já não mais precisa do serviço deste pano) Marianito.
Conversamos ninharias, apenas para o tempo nos dar importância. À despedida, Miserinha me agradece o ter-se reconciliado com a casa grande e despedido de Mariano. Quando se referiu ao Avô ela disse: “o meu Mariano”. E fica repetindo “meu Mariano” enquanto dedilha a costura no pano, fosse uma cicratiz em sua memória. Transponho em silêncio a porta, deixando a velha senhora entretida com suas sombras.
Passo pela varanda de Fulano Malta. Hei-de sempre chamar esse homem de “pai”. A casa está vazia. Onde teria ido o antigo guerrilheiro? Me aproximo da gaiola. Ainda imagino dentro um passarinho: a porta aberta e o bicho ali, por sua vontade e risco. Cumprindo-se o sagrado e apostado. A gaiola convertida de prisão em casa, a ave residindo sem perder asa.
Ruídos me alertam, no quintal. Meu antigo pai surge das traseiras com sua velha farda de guerrilheiro. Rimo-nos.
Está treinando, pai?
Esta farda já não me serve. Veja lá... Encolhe a barriga a ver se ainda há ajuste, redondo no redondo.
Está celebrar o quê?
Celebrar? Só se for celebrar a vida.
Senta-se no degrau. Desaperta os botões do casaco para se estender melhor.
Lembra-se daquela vez em que lhe visitei lá na cidade? Admite que me tenha causado vergonhas. Mas eu deveria entender: ele nunca tinha vivido. A cidade era um território dos outros que ele muito invejava. E que lhe dava a suspeita que o tempo era um barco que partia sempre sem ele. Na margem onde ele restava já só havia despedidas.
O pai não me envergonhou. Eu até fiquei aguardando que voltasse.
E rimo-nos. Vejo que ainda faz tenção de me abraçar mas, no último instante, corrige o gesto. Anuncio a partida, sacudindo as calças com as duas mãos.
Espere. Não vá sem levar isto! Fulano Malta levanta-se e vai buscar um saco de pano. Arrasta-o pelo chão, a mostrar que ali se esconde volume e peso.
O que é isso, pai?
Abra e logo verá.
Puxo o atilho e abro o saco. Eram os livros, meus desaparecidos livros de estudo. Há anos que ele os guardara. Há anos que suportara culpa dessa mentira que ele mesmo criara: os meus manuais nunca tinham sido lançados no rio Madzimi.
Agora, pai, quem os vai atirar ao rio sou eu. Ele acha graça. Mas seu riso esvanece e o lábio se encurva em desenho triste. Sabia o motivo de eu estar ali. Era a despedida. Por fim, ele me abraça.
Agora que você me estava a ensinar...
Ensinar o quê?
A ser pai.
No desabraço, o casaco dele tomba. Ainda me debrucei para o apanhar. Mas ele me segura o gesto. Que deixasse, aquela era a última vez daquela farda.
Ainda olho para trás. Fulano esperava, certamente, que eu o fizesse. Pois ele está acenando a chamar-me a atenção. Pega na gaiola e lança-a no ar. A gaiola se desfigura, ante o meu espanto, e se vai convertendo em pássaro. Já toda ave, ela reganha os céus e se extingue. Não mais me dói ver o quanto aquilo se parece com esse pesadelo em que a casa levanta voo e se esbate, nuvem entre nuvens.
Regresso a Nyumba-Kaya. A cozinha se enche de luminosidade e, junto ao fogão, estão sentadas a Avó Dulcineusa e a Tia Admirança. Estão contemplando o álbum de família.
Venha, Ma ria no, venha ver.
Desta feita, o álbum está cheio de fotografias. E lá está o velho Mariano, lá está Dulcineusa recebendo prendas. E no meio de tudo, entre as tantíssimas imagens, consta uma fotografia minha nos braços de Admirança.
Olha nós dois, Mariano.
Levanta o braço para me dar a mão. Quero falar mas reparo que não consigo chamá-la de “mãe”.
Abraço-a como se fosse agora que eu chegasse a casa. A Avó nos interrompe: – Deixem-se disso, nem parecem tia e sobrinho. Ma ria no, veja mas é o que seu Avô Mariano me deixou.
E estende a mão. Num dedo um anel ganha brilhos de astro. O anel é tão evidente que, por instante, seus dedos quase parecem recompostos, finos e completos. Dulcineusa sente que estou de partida e me ordena: – Não esqueça de regar a casa quando sair.
A casa tinha reconquistado raízes. Fazia sentido, agora, aliviá-la das securas. Admirança se levanta, me segura as mãos e fala em suspiro como se estivesse em recinto sagrado.
Já falámos com Fulano, ele vai-se mudar para aqui, para Nyumba-Kaya. Ficamos guardadas, fique descansado. E a casa fica guardada também.
Pega-me nas mãos e inspecciona-me as unhas. Nelas carrego terra, a areia escura do rio. Mesmo assim, Admirança me beija as mãos. Tento retirar os braços do seu alcance, salvando-a das sujidades.
Deixe, Mariano. Essa terra é abençoada.
Mãe?
Não, sua mãe morreu. Nunca esqueça.
Beijo-a na testa, em despedida. Vou, de vago, como que em errância de nenhum caminho haver. Outras visitas devo ainda cumprir. A caminho de casa de meu tio mais velho. O percurso se abre à minha frente como se obedecesse a uma torrente interior e a paisagem se irrealizasse em cenários sobrenaturais. Me encaminho para casa de Abstinêncio. Pela janela vislumbro o que parece ser uma festa. Escuta-se música. O Tio regressou às vidas? Espreito e sorrio. Afinal, não é uma dessas suas costumeiras orgias. Não há senão um par rodopiando na sala. Abstinência está dançando, afivelando a parceira num abraço firme. Dança com quem? Me empino sobre os pés para descortinar quem emparelha com meu tio. É quando enxergo: não há ninguém senão ele. Abstinêncio dança com um vestido. Esse mesmo: o velho vestido de Dona Conceição Lopes.
Retiro-me pé ante pé para não roubar sonho. Mas Abstinêncio vê-me pela janela e sai à porta. Chama-me.
Meu sobrinho, estou feliz. É que Dona Conceição está aqui comigo, mudou-se para Luar-do-Chão.
Já vi, já vi!
Conceição está tão orgulhosa de mim!
Ai sim, Tio?
É que eu não aguentei, contei-lhe tudo.
Contou o quê?
Que fui eu que lancei fogo no barco de Ultímio. Fui eu.
Um dedo nos lábios me pede cumplicidade. Abstinêncio me segreda ainda mais: havia falado com seu irmão Fulano Malta e iriam todos morar na Nyumba-Kaya. Agora, ele já poderia sair, visitar o mundo. Estava de bem consigo, aplacados seus medos mais antigos. Um riso de menino lhe serve de desculpa para ter que reentrar. Lá dentro, ele é esperado. O expediente de um gesto mal medido serve de adeus.
E é por esse mundo, agora já aumentado, que vou prosseguindo. Nunca a Ilha me pareceu tão extensa, semelhando ser maior que o próprio rio. Desço a encosta até que vejo Ultímio sentado no paredão do cais. Está olhando a outra margem do rio. As faixas que lhe cobrem as queimaduras parecem amarfanhá-lo por dentro. Dir-se-ia que esperava por mim, falando de costas, sem se virar: – Estou à espera do barco. Vou para a cidade.
Vai sair, Tio?
Vou. Mas volto logo para tratar da compra de Nyumba-Kaya.
O Tio não entendeu que não pode comprar a casa velha?
Pois, escute bem, eu vou comprar com meu dinheiro. Essa casa vai ser minha.
Essa casa nunca será sua, Tio Ultímio.
Ai não? E porquê, posso saber?
Porque essa casa sou eu mesmo. O senhor vai ter que me comprar a mim para ganhar posse da casa. E para isso, Tio Ultímio, para isso nenhum dinheiro é bastante.
A minha reacção causa-lhe espanto. E é legítimo. Se eu mesmo não me reconheço, enfrentando assim com todo o peito um parente mais velho. Ultímio estala a língua no céu-da-boca, a revelar o quanto está contrariado.
Você pensa que somos a geração da traição. Pois você verá a geração que se segue. Eu sei o que estou a falar. . .
Isso que chama de geração, eu também sou dessa geração.
Enquanto me afasto, ele permanece sentado, olhar abatido nas águas do rio. Vou a uns passos, quando me chama: – Mariano!
Diga, Tio.
Seu Avô teve razão em escolher a si. Você é um verdadeiro Malilane. Um tractor se aproxima. Quem o conduz, para meu espanto, é o coveiro Curozero Muando. Quando me vê tem alguma dificuldade em travar o veículo e mais ainda em desligar o motor. A máquina resvala na berma e imobiliza-se de encontro a uns arbustos. Do alto daquele improvisado trono o coveiro fala: – Já viu-me? Agora, trabalho para seu Tio Ultímio! O meu abastado tio lhe dera emprego, acrescido de mil promessas. Ele deveria comandar o abate das árvores, em troca receberia boas vantagens. Nem sei o que pensar, este Curo zero Muando que parecia ser tão digno, com a memória triste do assassinato de seu pai, aceitava agora ser mandado por Ultímio. Curo zero se defende: – Você já sabe, Mariano: cabrito come onde está amarrado.
Você é uma pessoa. Não é um cabrito.
Quem sabe até atiro abaixo aquela maçaniqueira onde o seu Avô adormeceu? Aquilo ainda deve valer uns cobres, não? Ri-se. Que estava a brincar, me diz. Então? Já perdi o humor?, me pergunta. Vira e revira o volante em infantil diversão. Depois me fita, todo sério. Eu não entendera o alcance. No intervalo dos carregamentos das madeiras, quanto negócio poderia ele fazer, em privados biscates? Tudo em informal segredo. Os maiores privatizam o pedaço menor. Uns são comidos pela pobreza, outros são engolidos pela riqueza.
Cansado, interrompo: – E sua irmã Nyembeti? Era ela quem o iria substituir no cemitério. A irmã, durante anos, aprendera os segredos da profissão. Tinha sido preparada, no corpo e na alma.
Vá lá, ao cemitério. Por acaso, ela até perguntou por si.
Perguntou?
Quer dizer, você sabe como ela diz coisas sem falar nada.
De novo, põe em marcha o tractor. E ganda-ganda-ganda, o tractor se afasta nesse compasso que lhe deu nome na língua de Luar-do-Chão. O ruído do ganda-ganda se vai tornando longínquo enquanto me afasto rumo ao cemitério. Antes me afligia o não haver cidade, esquina com esquina, o ângulo recto dos caminhos. Agora onde lanço o olhar só quero ver o mato. Nada de relva, canteiros, ajardinados. Só quero é o arbusto espontâneo, a moita silvestre, a árvore que ninguém semeou, o chão que ninguém pode sujar nem pilhar.
Chego ao cemitério. Um arbusto se agita, ruidoso. Salto, assustado. Um pássaro-martelo levanta voo. Passa por mim rondando, curioso. Espreito-lhe o bico a certificar se vai carregado. A lenda diz que o pássaro retira ossos das sepulturas, que voa carregado de panos, unhas e dentes. E até uma tíbia lhe serve de travesseiro. Mas esta ave vai limpa e se afasta cantando. Até que o céu dissolve o bicho voador.
O cemitério está deserto. Grito por Nyembeti. Escuto a sua voz, num abafo. Olho em volta, não se vê ninguém. A voz dela vem do fundo da terra. A bela moça se converteu numa raiz? Ou, pior: numa alma depenada? Vou andando entre as campas até que descubro: Nyembeti está no fundo de uma inacabada sepultura. Está cavando, a uns dois metros de profundidade.
Como é, Nyembeti, a terra já não está fechada?
Ela acena afirmativamente e, para reforçar, esfarela areia por entre os dedos. Essa era a grande notícia. O chão se abrira, o céu se desabotoara. Razão tinha a ave pressageira.
Essa sepultura é para quem? Nyembeti encolheu os ombros. Nem ideia fazia.
Quem sabe para ela mesma, triste e só? Lhe apetecera escavar, assim, para desvanecer melancolias. Sem mais razão.
A coveira pede-me que chegue à berma do grande buraco. Quando me aproximo sou atacado de vertigem, uma zonzura me escurece e me apercebo vagamente que me despenho nos abismos. Já longe da claridade sinto que a coveira me puxa para o fundo da sepultura e ali, sob a areia que tomba, ela se lança sobre mim. Estou deitado de costas, Nyembeti se recorta em contraluz. O céu é um escasso rectângulo. Parece a falha no telhado de nossa casa grande. É isso, então: aquela é a minha derradeira residência e aquele buraco lá em cima é o ausentado tecto por onde a casa respira. E não vejo mais. Estou cego, o escuro toma conta de mim, as trevas penetram em meus ouvidos e em todos os meus sentidos. Ainda sinto a nudez de Nyembeti se ajustar sobre o meu corpo. A última coisa que confirmo: não há quente como o da boca. Não há incêndio que chegue à febre dos corpos se amando.
Acordo, sem consciência de quanto tempo estive ausente. Nyembeti está sentada e me passa um pano molhado pelo rosto. Sorrio. Uma vaga lembrança de um riso de menino se desenha, em névoa: eu brincando no fundo da cova com uma outra criança. A recordação não refaz o rosto e eu estou demasiado cansado para retocar esse fantasma.
Estendo o pano e Nyembeti espreme-o sobre o peito. Vejo a água se encarreirar, em missangas, sobre o peito dela. E me pergunto: estarei condenado a amar aquela mulher apenas na vertigem do sonho? Afinal, entendo: eu não podia possuir aquela mulher enquanto não tomasse posse daquela terra. Nyembeti era Luar-do-Chão.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

24/04/2023

Capítulo vinte | A revelação


Cada um descobre o seu anjo tendo um caso com o demónio.
Avô Mariano –

Onde é que encontrou essa boina? Desde que eu visitara meu pai, me esquecera do boné enterrado na cabeça. A Avó Dulcineusa espreita o adorno com desconfiança. Reconhecia-o?
Encontrei isto no quarto de arrumos.
Que quarto de arrumos?
Esse que eu chamava de quarto de arrumos há muito que estava vazio, aberto aos ratos. – Como não há quarto? Se a Avó me entregou as chaves, eram até as únicas chaves que serviam.
Depois sou eu que estou louca?! Esse quarto nem porta tem, nem soalho nem nada.
Como eu teimasse, ela me conduziu ao lugar. Dulcineusa, afinal, estava certa. Não existia porta e as tábuas do chão haviam sido arrancadas. Umas traves soltas, como ossos descarnados, era tudo o que restava. Meus olhos zonzearam pelo corredor a reclamar certeza. Só podia ser aquele o compartimento onde eu ardera de amores, onde desencantara roupas e lembranças de roupas.
Mas, Avó, eu tenho a certeza...
Venha, meu neto. Venha, que lhe faço um chá.
Bate-me com a mão na testa, como que em consolo de uma tonteira. Espontaneia a larga e bem fermentada gargalhada. Há muito que não via Dulcineusa tão satisfeita. Cantarola e dança pelos corredores. Só um nome floresce em sua boca: Mariano, Mariano, Mariano. Reclama que se tem encontrado com ele, me agradece o ter adiado o funeral do desfalecido marido.
Nem imagina, Marianinho! Tem sido melhor que antes, quando éramos vivos.
A Avó é viva, não esqueça.
Eu estou como ele, nem a meio nem a metade. Só sei que ele agora é meu, só meu.
E Miserinha? Há um tempo que não a vejo.
Miserinha foi, voltou para casa dela.
A nossa visitante se despedira uns dias antes. A gorda chegou à sala e anunciou a intenção de abandonar Nyumba-Kaya. Se arrastou para a sala fúnebre e ali, com permissão de Dulcineusa, beijou o Avô na fronte dizendo: – Obrigado, Mariano. Lhe agradeço. Mas fico melhor no meu escuro, lá no meu canto! Depois, rasgou um pedaço do lençol onde o A vá jazia. Levou esse pano rasgado para costurar e recosturar lembranças em sua casa.
A saída de Miserinha acabava reconfortando Dulcineusa. Ela estava sozinha, sem competir com a sua antiga rival. A Avó redescobrira os amores exclusivos do seu Mariano.
Depois do chá, saio para a lagoa Tzivondzene. É lá que estão enterrados os líquidos restos de minha mãe e meu pequeno irmão. Na borda da água nada assinala o local do enterro. Sentei-me ali, no calado da tarde. E relembro minha mãe, Dona Mariavilhosa. Agora, eu sabia a sua história e isso era como que um punhal em minha consciência. Como pudera eu estar tão desatento ao seu sofrimento? A vida de Mariavilhosa se tinha infernizado desde que lhe sucedera o nado-morto. Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para não espalhar sua sina pela vila. O menino desnascido era um ximuku, um afogado. É assim que chamam aos que nascem sem vida. Meu irmãozito nascera sem dizer nada, trouxera um segredo que levara com ele.
Minha mãe ficara em estado de impureza. Meu pai se opusera ao completo exercício da tradição. Todavia, dentro dele havia ainda alguma resistência a virar página sobre os antigos preceitos. Mariavilhosa estava interdita de pegar em comida. Evitava entrar na cozinha. O simples segurar de um prato a obrigava a purificar as mãos. Dizia-se que devia “queimar” as mãos. Aquecia os braços numa chama da fogueira para que os laivos da desgraça não conspurcassem os alimentos. Devido a essa exclusão da cozinha eu não me recordava dela, rodopiando com as demais mulheres junto ao fogão. Até no falar ela seguira o tradicional mandamento. Mariavilhosa falava baixo, tão baixo que nem a si se escutava. Não mais ela ajudou nos campos. Sua impureza podia manchar a terra inteira e afligir a fecundidade das machambas. Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.
Um pássaro-martelo rodopia sobre mim. Pousa e se aproxima, sem medo. Fica-me olhando, sereno como se eu lhe fosse familiar. Me apetece tocar-lhe mas me guardo, imóvel. Ele se anicha em seu próprio corpo, parece adormecido. Fecho os olhos, afrouxado naquela quietude. Quando me levanto e, pé ante pé, tento despertar o pássaro, ele se conserva imóvel. Estaria adoentado, ainda me ocorreu. Um pássaro adoece? Ou desmorona-se logo na morte, sem enfermidade pelo meio? Encorajado pela atitude da ave acabo tocando-lhe, num leve roçar dos dedos. É então que do corpo do mangondzwane se libertam dezenas de outras aves semelhantes, num deflagrar de asas, bicos e penas. E o bando, em espesso cortejo, se afasta, rente ando o rio Madzimi, láonde minha mãe se converteu em água.
Volto a casa, já anoitece. Procuro Dulcineusa, quero-lhe contar o sucedido com a ave dos presságios. Não está no quarto nem na cozinha. Surpreendo-a na sala deitada no escuro com o Avô. Está de costas, ainda meio despida. A blusa está desabotoada e as costas nuas luzem, gotejadas de suor. Parecem ter acabado de ter relações. A Avó ainda está ofegante. Receio que fique ali, ao rigor do frio e da cacimba. Chamo-a, com carinho: – Avó Dulcineusa! Lentamente ela se vira. Um choque quase me atira ao chão. Não é Dulcineusa. É minha Tia Admirança! E sua ofegação não resulta de cansaço. Ela estáchorando. Mãos nas mãos, dedos num entrelaço cego. Chora junto de Mariano.
Esse homem, você não sabe quanto eu o amei!.. Quanto eu o amo.
O Avô?
Esse homem não é seu Avô, Mariano.
Ergue-se e sai chorando. Fico no escuro, vazio de ideia, deserto de sentimento. Mariano não era meu avô? Teria eu escutado bem? Ou a Tia estaria já contaminada pela morte que pairava em casa? A sombra do pássaro-martelo atravessa o chão da minha alma.
Regresso ao quarto e sento na mesa. À minha frente, olho a folha em branco. Nada está nela escrito. Alguma vez terá havido realmente qualquer palavra escrita? Seguro a caneta. O desejo arde em minhas mãos mas, ao mesmo tempo, o medo me paralisa. É um receio profundo de que qualquer coisa esteja desabando. Começo escrevendo, a mão obedece a uma voz antiga enquanto vou redigindo: Desculpe sua Tia. Mas eu careço de lhe fazer uma revelação: Admirança foi a mulher em minha vida. Não foi Dulcineusa, nem Miserinha, nem nenhuma. Foi ela, minha Admirança. Ela é muito mais nova que a irmã Dulcineusa. Quando casei, ela estava longe de ser mulher. Era menina, a mais nova das irmãs de Dulcineusa. Depois, foi completando formas, enchendo-se de redondeada polpa. Não imagina como ela detinha belezas! Vivia connosco, em nossa casa, e Dulcineusa nem suspeitava como sua irmã recheava meu coração e apaladava meus sonhos.
Dimira, assim eu lhe chamava. Minha Dimira que eu sempre tanto desejei! Em miúda, ela se costumava meter numa canoa e subir o rio. Nas noites sem luar, Admirança empurrava a embarcação até quase não ter pé. Depois saltava para dentro da canoa e, à medida que se afastava, ia despindo suas roupas. Uma por uma, as lançava na água e as vestes, empurradas pela corrente, vinham ter à margem. Desse modo, eu sabia quando ela já estava inteiramente nua. Sucedia, porém, quando eu deixava de vislumbrar a canoa, perdida que estava na distância. Não vendo, eu adivinhava a sua nudez e prometia que, um dia, aquela mulher me pertenceria. E era como se, naquele instante, uma luz abrisse o ventre da escuridão. Eu era o acendedor das noites.
Não houve lua nova que eu não ficasse na margem espreitando sua invisível presença, entre as ne blinas do rio. Certa vez me alertaram: um crocodilo fora visto no encalço da canoa. O bicho, assim me disseram, seria de alguém. Imaginava mesmo de quem seria: de Miserinha. A mulher detinha poderes. Por ciúme destinava a morte na sua rival Admirança, nos remansos do Madzimi. Esbaforido corri para junto de Miserinha. E lhe dei ordem que suspendesse o feitiço. Ela negou. A dizer verdade, nem me ouviu. Estava possuída, guiando o monstro perante a escuridão. Não consegui me conter: lhe bati na nuca com um pau de pilão. Ela tombou, de pronto, como um peso rasgado. Quando despertou, me olhou como se não me visse. O golpe lhe tinha roubado a visão. Miserinha passou a ver sombras. Nunca mais poderia conduzir o seu crocodilo pelas águas do rio.
Pensei que Miserinha me passaria a odiar. No dia seguinte, ela se despediu de nossa casa. Puxou-me para um canto e me perguntou: – Está com medo de minha vingança? – Eu sei que a senhora tem poderes...
Não receie, Mariano. Um homem que ama assim só pode inspirar respeito nas outras mulheres! Naquela noite regressei ao rio e encontrei Admirança ainda no bote. Ela acreditou que eu vinha para propósitos de corpo e beijo. Mas eu, mal entrei na embarcação, me prostrei como que de joelhos e lhe pedi se podia dormir ali com ela. Dormir, sem mais demais. Que eu nunca havia dormido com mulher nenhuma. Ela me olhou, espantada, como se a ausência do luar me escangalhasse o juízo. E estendeu a mão, ajudando-me a deitar, todo estendido no barquito. No embalo da ondulação acabei adormecendo.
Admirança, entretanto, foi mandada para Lualua, onde havia uma missão católica. Nós nos encontrávamos lá, não havia mês que não o fizéssemos. Foi assim que ela engravidou. E não podia. Pensei, rápido, num modo de sanar o pecado. Pedi a Mariavilhosa, sua mãe, que fizesse de conta que estava grávida. Se ela fingisse bem, os xicuembos lhe dariam, mais tarde, um filho verdadeiro. Sua mãe fingiu tão bem, que a barriga lhe foi crescendo.
Sua mãe aumentava de um vazio. Seu pai sorria, todo saciado. E até ela mesma acreditava estar dando guarida a um novo rebento. Na missão de Lualua, entretanto, nascia um menino do ventre de Admirança. Trouxemos o pequeno bebé na encobertura da noite e fizemos de conta que se dava um parto na casa grande, em Nyumba-Kaya. Até seu pai chorou, crente de que o vindouro era genuíno fruto de seu sangue.
Mas com o tempo o menino cresceu, foi ganhando feições. Admirança definhava só ao pensar que esse moço ia revelando a identidade do pai verdadeiro. Ela me suplicou que deixasse esse seu filho sair da Ilha. Ele que crescesse fora, longe das vistas. E longe de sua culpa. E o menino foi mandado para a cidade. Lá se fez homem, um homem acertado no sentimento. Esse homem é você, Mariano. Admirança é sua mãe.
Foi esta mentira que fechou a terra, fazendo com que o chão negasse receber-me. Mas não foi apenas esta impostura. Há outro assunto, outra vergonha em minha vida. Quase nem me resta coragem para confessar. Mas sei que devo fazer) colocar tudo isso em letra que seja sua. Só assim lavarei sombras da minha existência.
E prossigo na ordem dos tempos. Como sabe) Fulano Malta) esse que se acredita ser seu pai) voltou da guerrilha trazendo duas pistolas. Ele as guardava como lembrança de um tempo. Aquilo tinha valor de vida sonhada. Uma noite encontrei o esconderijo dessas armas) por baixo de umas velhas tábuas. Fui lá e rapinei uma pistola. O que fazer com essa arma) eu não sabia. Mas tinha a certeza que ela me traria dinheiro para urgentes precisões. Falei então com meus netos) os filhos de Ultímio. Nessa altura) eles ainda viviam na cidade) foi antes de partirem para o estrangeiro. Me haviam dito que eles se entortaram para maldades) assaltavam carros e casas lá na cidade. Chamei-os a Luar-do-Chão e lhes vendi a arma mais as respectivas munições. Eles me pagaram pronto) tudo fechado) sem boca nem ouvido. Segredo de sangue) assunto de família.
Sabe o que suspeito? Que essa mesma arma foi a que matou meu amigo Juca Sabão. Com certeza ele foi desensaboado com ajuda de minha ganância. Pois aconteceu que) ao lado do corpo de Sabão) encontraram a arma) a mesma arma que era de meu filho Fulano. Levaram a pistola para a esquadra. Nessa noite eu não apanhava o devido sono) devorado pelo pensamento. Podia deixar cair suspeita sobre os meus próprios netos? Ou sobre Fulano) dono da arma? Trairia minha própria família para que se fizesse justiça sobre o meu amigo? Não fiz outra coisa: assaltei a esquadra e apanhei a arma) de escondido. Lancei-a no rio nessa mesma noite. Sucedeu) porém) o que eu nunca poderia prever: em lugar de se afundar, a Pistola ficou flutuando, animada por um rodopio como que em infernoso redemoinho. E de repente, como se houvesse um invisível dedo percutindo o gatilho, se deflagraram tiros apontados às nuvens. Relâmpagos ainda sulcavam os céus quando regressei, em debandada, para Nyumba-Kaya.
Todo este tempo me condisse uma benzida ignorância sobre quem matou. Preferia assim: acreditar no que disseram os tribunais, ficar de bem com as aparências. Mas essa ilusão nunca me apaziguou. Nem a mim nem aos meus antepassados que residem no chão do tempo. A terra não aceita o espinho dessa mentira. Agora, deito esta mágoa na folha, como se rasgasse o silêncio em que guardei essa má lembrança.
Pergunto-lhe, meu filho Mariano: matei Juca, também eu? Talvez. Ou, quem sabe, todos nós ajudámos nesse crime, por consentimento de silêncio? O que eu devia ter feito era vencer o medo e sair pelo mundo a relatar o testemunhado. Entregar-me como ocultador de provas. Mas não. Mandado fui por minhas inferioridades. Você sabe: homem cobarde transpira mesmo dentro da água. Dobrei-me sob o peso desse rebate de consciência. Lembre de mim essa vergonha e cresça por cima de minha fraqueza. Como um degrau que, para si, desenhei em minhas costas.
Depois disto, sim, eu posso, em estreada vez, assinar de pulso aberto e por extenso: Dito Ma ria no, seu pai PS: Me leve agora para o rio. Já chegou o meu tempo. Peça a Curozero que lhe ajude. Não quero mais ninguém lá. Nem parente, nem amigo. Ninguém. Lembra onde foram enterradas as águas de sua mãe e o corpo de seu pequeno irmão, o pré-falecido? junto à lagoa que nunca seca. Pois eu quero ser enterrado junto ao rio. Pergunte ao coveiro Curozero, ele lhe dirá. É lá que deverei ser enterrado. Eu sou um mal-morrido. já viu chover nestes dias? Pois sou eu que estou travando a chuva. Por minha culpa, a lua, mãe da chuva, perdeu a sua gravidez.
Sabe, Marianito? Quando você nasceu eu lhe chamei de “água”. Mesmo antes de ter nome de gente, essa foi a primeira palavra que lhe deitei: madzi. E agora lhe chamo outra vez de “água”. Sim, você é a água que me prossegue, onda sucedida em onda, na corrente do viver.
Já passou o meu momento. Você está aqui, a casa está sossegada, a família está aprontada. já me despedi de mim, nem eu me preciso. Vai ver que, agora, se vão desamarrar as águas, lá no alto das nuvens. Vai ver mais como a terra se voltará a abrir, oferecida como um ventre onde tudo nasce.
Já sou um falecido inteiro, sem peso de mentira, sem culpa de falsidade.
Me faça um favor: meta no meu túmulo as cartas que escrevi, deposite-as sobre o meu corpo. Faz conta me ocuparei em ler nessa minha nova casa. Vou ler a si, não a mim. Afinal, tudo o que escrevi foi por segunda mão. A sua mão, a sua letra, me deu voz. Não foi senão você que redigiu estes manuscritos. E não fui eu que ditei sozinho. Foi a voz da terra, o sotaque do rio. O quanto lembrei veio de antes de ter nascido. Como essa estrela já morta que ainda vemos por atraso de luz. Dentro de mim, até já esse brilho esmoreceu. Agora, estou autorizado a ser noite.
Depois disto, vá chamar Curozero Muando. E levem-me para o, rio. Aproveitemos a madrugada que é boa hora para se nascer.
Lá fora, a noite está perdendo espessura. Salto o muro da casa, olho para trás e, não cabendo em meu espanto, o que vejo? O telhado da sala já refeito. A casa já não se defendia do luto. Nyumba-Kaya estava curada da morte.
Uma azulação no horizonte revela o amanhecer. Encontro Curo zero Muando saindo de sua casa. Com uma pá às costas ele caminha na minha direcção: – Eu sabia, eu sabia que você me vinha chamar! Vamos rápido que, agora, ninguém nos pode ver.
No segredo do escuro, trazemos o falecido para o rio. Me assombra como não tem peso o Avô Mariano. Levamos o corpo para o rio, enrolado em seu velho lençol. Lá onde o Madzimi se encurva, quase arrependido, Curozero fez paragem.
É aqui!
Vamos deitá-lo na corrente? Não. O Avô vai ser enterrado na margem, onde o chão é basto e fofo. Curozero levanta areia às pazadas com tais facilidades que seu acta perde realidade. Começa a chover assim que descemos o Avô à terra. Conservo as cartas em minhas mãos. Mas as folhas tombam antes de as conseguir atirar para dentro da cova.
Curozero, ajude-me a apanhar esses papéis.
Quais papéis? Só eu vejo as folhas esvoando, caindo e se adentrando no solo. Como é possível que o coveiro seja cego para tão visíveis acontecências? Vou apanhando as cartas uma por uma. É então que reparo: as letras se esbatem, aguadas, e o papel se empapa, desfazendo-se num nada. Num ápice, meus dedos folheiam ausências.
Quais papéis? – insiste Curozero.
Respondo num gesto calado, de mãos vazias. O coveiro salpica com água as paredes do buraco. Cobrimos a sepultura de terra. Muando, descalço, pisoteia o chão, alisando a areia. Em seguida, por cima da campa espalha uns pés de ubuku, dessas ervas que só crescem junto ao rio. No fim, entrega-me um caniço e ordena que o espete na cabeceira da tumba. Foi um caniço que fez nascer o Homem. Estamos repetindo a origem do mundo. Afundo a cana bravia na areia. Como uma bandeira, o caniço parece envaidecido, apontando o poente.
Agora lavemo-nos nas águas do rio. Mergulhamos nas águas. Não sei do que nos lavamos. Para mim, o rio, de tão sujo, só nos pode conspurcar. Todavia, cumpro o ritual, preceito a preceito. Limpamo-nos no mesmo pano. Em seguida, Curozero segura um pedaço de capim a arder e o agita apontando os quatro pontos cardeais.
Seu Avô está abrindo os ventos. A chuva está solta, a terra vai conceber.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

16/04/2023

Capítulo dezanove – A farda devolvida

Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue.
Sem foz nem nascente.
Lenda de Luar-do-Chão –

Em Luar-do-Chão não se bate à porta, por respeito. Quem bate à porta já entrou. E já entrou nesse espaço privado que é o quintal, o recinto mais íntimo de qualquer casa. Por isso, à entrada do quin tal de meu pai eu bato palmas e grito: – Dá licença? Estou visitando Fulano Malta por mando do Avô Mariano. Em poucas linhas ele me instruiu: vá ao quarto de desarrumas e procure uma caixa preta que está na prateleira de cima. Leve essa mala a meu filho Fulano.
Eis-me, pois, sobraçando a mala, esperando que meu pai me acene da varanda. E lá vem ele, limpando o rosto na manga da camisola. Franze os olhos, esgravatando na luz a ver se venho sozinho. Entro no quarto, meus pés escolhendo entre a desarrumação da sala. Antes de me sentar, passo a mala para seus braços sonolentos.
Foi o Avô que mandou entregar.
Não parece espantado pelo póstumo daquela ordem. Sua intriga é com o conteúdo. Toma o peso, chocalha o conteúdo.
Vou abrir! O anunciar do acto é sinal que está indeciso. Pretende a minha cumplicidade. Abre. Dentro está uma farda, a sua velha farda de guerrilheiro. A sua reacção é violenta, levanta-se, todo esbravejado: – Não quero isso. Não quero mais essa porcaria.
Pronto, pai. Não fique assim.
Onde é que ele arranjou isso? Encolho os ombros enquanto ele avoluma a reclamação. O que iria fazer com aquilo? Negócio com o Museu da Revolução? Reclamar privilégios, apropriar-se de terras? Fazer o quê? E quem me mandou abrir armários, desses onde se guardam os passados? Devia, sim, ter aprendido com ele que não esventrava gaveta. Porque ele, Fulano Malta, estava avisado: há armários que se abrem e saem de láestremunhados vapores, cacimbos cheios de agouros.
Mantenho-me calado, esperando que ele esfrie. Assim sucede. Fulano senta-se, de olhar vazio no uniforme derramado pelo chão. Olha para mim como se eu fosse estranho.
Seu Avô não me queria deixar partir para a guerrilha. Agora, manda-me isto de volta?! Fazia trinta anos que meu pai anunciara que iria fugir e juntar-se à luta de libertação. Eu ainda não era nascido. A reunião foi a três: meu pai, minha mãe e o Avô Mariano. Minha mãe fungava, em resignação. A reacção do mais-velho foi de descrença. Que esses que diziam querer mudar o mundo pretendiam apenas usar da nossa ingenuidade para se tornarem nos novos patrões. A injustiça apenas mudava de turno.
Não é que eu não tenha fé na humanidade. Deixei foi de acreditar nos homens. Entende?
E falou. O velho Mariano falou, argumentando tudo por extenso. Que o mundo não mudaria por disparo. A mudança requeria outras pólvoras, dessas que explodem tão manso dentro de nós que se revelam apenas por um imperceptível pestanejar do pensamento.
Se quer mudar o mundo tem um mundo inteiro para ser mudado aqui, em Luar-do-Chão.
Eu vou, pai.
E a razão da sua decisão estava ali consumada num simples panfleto que ele tirou de um saco, todo enrodilhado. Aproximou-se da luz do xipefo e leu, tudo soletrado: – “Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” – Esse que escreveu isso é um homem bom. Mas está sozinho.
E Fulano prosseguiu, puxando a corda da razão. Que os descontentes todos se haviam unido e estavam movendo o mundo para um outro futuro.
Tenho medo desse futuro, meu filho. Um futuro feito por descontentes?
O Avô se erguera, confiante em suas razões. Ele já tinha visto os homens. E aqueles não eram diferentes dos que ele conhecera antes. Começamos por pensar que são heróis. Em seguida, aceitamos que são patriotas. Mais tarde, que são homens de negócios. Por fim, que não passam de ladrões.
Nem todos são assim, pai.
A maior parte, meu filho. A maior parte...
Para mim basta que haja apenas um que seja puro.
Falaram assim há trinta anos. Meu pai lembra o episódio como se ainda medisse contas com seu velho pai. Tudo aquilo recorda em voz alta. Mas não fala para mim. Dirige-se para a farda, derramada no chão. Tento aliviar tristeza, ofereço ombro para repartir peso.
O Avô é assim, o senhor já sabe.
Isso é verdade. Esse Ma ria no, ninguém aguenta zangar-se com ele.
O pai acredita que ele morreu ao tirar a fotografia?
Ora, ele morreu?
Bem, que tenha ficado assim, como está...
Não tinha certeza. Talvez esse findamento tivesse início antes, na véspera do fatídico retrato. Entre os maneirismos de Mariano havia esse que era ele nunca usar o guarda-fato para pendurar o seu único fato escuro. Pendurava-o num gancho do tecto como se faz com as roupas nas palhotas, lá no campo. A todos nós aquilo fazia espécie: com armários embutidos na parede, varões e cabides a descontar pelos dedos, que sentido fazia manter roupa suspensa do tecto? – É que, assim, evito dobra e previno amarrotos.
Ora, pai!..
Além do mais, dessa maneira, o fato apanha as brisas.
Nenhuma roupa pode ficar imóvel, envelhecendo no escuro. Exposta à luz, aquela indumentária se animava pelas aragens. Quando isso sucedia, o Avô ficava embevecido a olhar o movimento do vestuário, em fantasmagórico balanço. E ele, então, dizia: – Lá vão minhas vestes passeando.
Quando nessa tarde o velho Mariano pediu que o ajudassem a despendurar o fato lá do prego, um susto calafriou a família. Vestiu-o à frente de todos. E nunca mais o tirou.
Então, pai, não se desabotoa?
Amanhã vamos tirar a fotografia, com a família toda. Assim, já se ganha tempo.
E dormiu vestido. O arrepio cresceu pela casa inteira. Como se soubéssemos que ele se estava despedindo, já envergando suas indumentárias finais. Porque o usual nele, nestes últimos tempos, era o desleixo. Às vezes, até saía para a rua de pijama. A Avó muito se afligia. Mas ele respondia: – Se a morte é um sono então eu já vou trajado nas conveniências.
Meu pai sorri, encantado com a lembrança. Poderíamos ficar ali uma eternidade evocando episódios do mais-velho. Mas faz-se tarde e Fulano Malta já me acompanha à porta. Traz na mão a boina de guerrilheiro, com uma estrela vermelha costurada.
Quer? Antes que eu responda ele lança-me o barrete militar. Ajeito-o na cabeça, por ironia. Meu pai nem sequer sorri. Olha para mim, mas não me vê. Está ausente, levado pela tristeza. Ele que tanto lutara por criar um mundo novo, acabou por não ter mundo nenhum.
Minha tristeza, lhe confesso, é nunca ter sido pai.
Não me teve a mim?
Ah, sim, claro. Não ligue…

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

09/04/2023

Capítulo dezoito | O lume da água

Olhamos a estrela como olhamos o fogo.
Sabendo que são uma mesma substância, apenas diferindo na distância em que a si mesmos se consomem.
Tia Admirança –

Estou na margem do rio, contemplando as mulheres que se banham. Respeitam a tradição: antes de entrar na água, cada uma delas pede permissão ao rio: – Dá licença? Que silêncio lhes responde, autorizando que se afundem na corrente? Não é apenas a língua local que eu desconheço. São esses outros idiomas que me faltam para entender Luar-do-Chão. Para falar com minha mãe, que vai fluindo, ondeada, até ser foz.
As mulheres me olham, provocantes. Ou provoquentes, como diria o Avô. Parecem não ter pudor. Os seios desnudados não são, para elas, uma intimidade com merecimento de vergonha.
Não se estão apenas divertindo. Estão cumprindo a cerimônia que o nganga ordenou para que a terra voltasse a abrir. A maldição que tombara sobre a nossa Ilha sô podia ser vencida por esforço de todos. Em todo lado, os ilhéus enviavam sinais de entendimento com os deuses.
À volta da cintura as mulheres trazem atado um cordel benzido. Só nesta margem lhes é permitido banhar. No outro lado, foi onde se deu a tragédia. O rio, nessa orla, ficou interditado para todo o sempre.
O sucedido infortúnio surge já distante, apagado pelos risos das mulheres que se vão peixando na corrente. Vou amolecendo naquela mornança quando um clamor nos sobressalta a todos. As mulheres saem correndo, algumas esquecidas de se cobrir com as capulanas. É meu Tio Abstinêncio que surge, correndo em pânico. Engole umas lufadas e grita: – Venham) aconteceu uma coisa grave! Há um incêndio no cais! Corremos pelos trilhos, embalados pela inclinação da colina. Junto ao cais, a multidão se agita, em efervescência. Uma embarcação carregada de troncos estava ardendo no cais. É o barco de passageiros em que viajei. Está todo ateado, dir-se-ia constituído só por chamas.
Há feridos?
Só o Tio Ultímio.
Ultímio? Ele estava no barco?
Queimou-se quando tentava apagar o fogo.
É grave?
Não se sabia. Tinha sido levado para casa, estava sendo tratado por Amílcar Mascarenha. Meu pai me fez sinal que esperasse enquanto ele ia examinar a ocorrência.
Quem sabe ainda se carecesse de ajudas? Fico sentado no cais a assistir ao reflexo das chamas na água, num silencioso desdobrar de luz. Abstinêncio se aproxima e se acomoda junto a mim. O suspiro lhe vem quase do chão: – Foi bem feito! Essa era a sua certeza: o incêndio era punição, vingança divina. Estavam desmatando tudo, até a floresta sagrada tinham abatido. A Ilha estava quase dessombreada. O administrador tinha mão no negócio, junto com o Tio Ultímio e outra gente graúda da capital. Usavam o barco público para privados carregamentos de madeiras e deixavam passageiros por transportar sempre que lhes aprouvesse. Às vezes, até doentes ficavam por evacuar. No tempo colonial Mariavilhosa não tinha tido acesso ao barco por motivos de sua raça. Hoje excluíam-se passageiros por outras razões.
Mas, Tio, a companhia de navegação não é do Estado?
E então? Abstinêncio tinha sido advertido por reclamar separação de negócios privados e actividades públicas. Foi despedido quando exigiu maior clareza nos dinheiros.
Aproveito a ausência de meu pai para esclarecer as denúncias que ainda há pouco escutara.
Tio, me diga uma coisa: meu pai falou de um caso de drogas e do assassinato deJuca Sabão. Ele disse que isso explica tudo o que aqui está passando.
Seu pai está delirando. Esses gajos que mataram Juca foram presos. Foram julgados e estão cumprindo penas.
Mas não é verdade que desapareceu uma pistola da esquadra?
Isso é verdade. Mas o que é que isso prova? Os culpados confessaram, eram tipos cadastrados.
Mas, então, porquê meu pai mantém essa versão?
Ele sempre desejou dar uso à arma. Aquilo lhe ficou das guerras. Seu pai acha que tudo se resolve assim.
Fulano Malta achava que o mundo estava tão torto que para um homem ser bom não podia ser justo. Abstinêncio tinha outra explicação, sem enredo sinuoso: o que se passava agora era outra coisa.
Vê aquelas chamas espelhadas no rio? Acha que aquilo é apenas um barco que está a arder? Tudo está sendo queimado pela cobiça dos novos-ricos. É isso que sucede em sua opinião. A Ilha é um barco que funciona às avessas. Flutua porque tem peso. Tem gente feliz, tem árvore, tem bicho e chão parideiro. Quando tudo isso lhe for tirado, a Ilha se afunda.
A Ilha é o barco, nós somos o rio.
Somos interrompidos por meu pai que regressa do cais, trazendo uma mão cheia de cinzas que recolheu dos restos do incêndio. Vai espalhar esses pós sobre a terra, ainda penso. Mas não. Fulano esfrega as palmas das mãos nos meus cabelos. Resisto. O que era aquilo? Por que me untava a cabeça de cinza? Meu pai diz que é para meu bem, para afastar maus espíritos.
Depois, ainda ficamos olhando o cais. O incêndio está agora completamente esmorecido. Como tudo se consome num pestanejar, penso em voz alta. Fulano Malta parece adivinhar-me o pensamento: – O que perdemos acontece depressa.
Não sei se estou de acordo – argumenta meu tio.
Veja um filho. Sem darmos conta, um filho nos sai de casa.
Decidimos voltar para Nyumba-Kaya. Ultímio está cheio de dores. Rodeamos a cama, seguindo os movimentos do médico. Abstinência decide quebrar o silêncio. Dirige-se a meu pai: – Sabe, Fulano? Assim, em redor desta cama e com Ultímio sofrendo, sabe o que me faz lembrar?
É verdade, mano. Eu estava sentindo o mesmo.
Ultímio não se recorda. Era ele ainda criança quando sofreu um acidente grave e a família passou a noite em claro, vigiando o seu estado.
Você esteve mesmo na berma da morte.
Ultímio tombara sobre ferros pontudos enquanto pescava na plataforma, junto ao cais. Quase se esvaíra, tanto o sangue que perdera antes de ser recolhido.
Sabe quem o salvou? Ultímio não tem ideia. Abstinência martela palavra a palavra, num lento versar: – Foi um branco, meu irmão.
Quem o salvou foi um indivíduo de raça branca, um anónimo que passava pela Ilha. Foi ele quem lhe deu sangue, sangue em quantidade para reabastecer o inteiro corpo, como se fosse um segundo nascimento.
Metade do seu sangue é de branco.
Ultímio nega, ajuntados os pés, cruzados os de dos. Primeiro ri-se. Depois, se faz sério e pede a Abstinência que confirme: – Você, o mais velho, comprova? – É verdade, sim, Ultímio.
Não acredito. Isso me dizem agora, que estou traumartirizado.
E fica rezingando até que Fulano, Abstinência e Amílcar se retiram. Combinámos que eu permaneceria no quarto até amanhecer, tomando conta do tio. Me enruguei todo numa cadeira, olhando o luar lá fora. Nunca na cidade a lua ganha tais curvas e requebros. Já me amolento, meio emborcado em sono, quando as palavras de Ultímio me surpreendem: – Gostava que você fosse meu filho, Mariano.
Até as pernas me tombaram. Nunca esperei que tal frase pudesse provir daquele meu tio. Não me acode palavra nem pensamento. É o Tio que regressa às falas: – Não sou pessoa feliz, sobrinho. Meus filhos, eu nem sei onde eles foram buscar aquelas maneiras.. .
Eles não costumam vir aqui, pois não?
Meus filhos não podem voltar a Luar-do-Chão. Nunca mais podem voltar.
Não podem, porquê?
Lembra Juca Sabão? Pois há quem pense que foram meus filhos que o balearam.
Silêncio. Apenas se escuta a ventoinha no tecto.
E o Tio o que é que pensa?
O que eu penso? Eu sou pai, Mariano. Um pai que gostaria de ter um filho como você.
De novo, o rodopiar da ventoinha é o único e solitário ruído. Parece que o próprio tempo vai girando de encontro ao tecto. Como se o futuro ali se enroscasse, sem saída. Às tantas, Ultímio se queixa, dolorido. Faço-lhe chegar um copo de água mais os prescritos remédios. Ele se acalma, gemendo progressivamente mais baixo. Aos poucos, ambos adormecemos.
Pela manhã, o médico vem mudar os pensos. Fico sentado, a assistir. Enquanto Amílcar Mascarenha se ocupa dos curativos, Ultímio vai falando: – Esta noite nem dormi com essa história do sangue. É verdade, doutor, que me deram sangue de branco?
Não sei o que é isso.
Não sabe o que é o quê?
Sangue de branco.
Ultímio se arruma melhor na cama, soerguendo-se sobre as almofadas. Recusa a ajuda do médico, recupera o fôlego e, de novo, se dirige a Mascarenha: – Eu gosto de si. Mas o meu ódio por si é muito mais antigo que eu.
Está falar de mim ou de minha raça?
Lamento, doutor, mas, para mim, você é a sua raça.
Não se preocupe, Ultímio: eu vou voltar para a capital. Você pode ficar descansado.
Você vai embora?
Vou, sim.
Ultímio volta a remexer-se no leito. Qualquer coisa se quebrou no fundo dos seus olhos. A sua voz parece ter perdido todo o brilho: – Não, não vá. Fique. Eu lhe peço, Mascarenha.
Já não é de um médico que vocês precisam.
Mas fique, eu peço.
Mascarenha faz que não ouve e arruma os seus apetrechos numa caixa. Entretanto, Ultímio rectifica o tom implorativo e readquire os ares de mandador: – Aliás, você, Mascarenha, nem pode partir,agora que o barco ardeu.
Um outro barco há-de haver.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra