Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

02/12/2025

A mestra e os alunos

Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores.
Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.

Mário Quintana, em Caderno H

25/10/2025

Página de história

De uma História Universal editada no Século XXXIII: “Os homens do Século Vinte, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se inconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato da natureza; mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insetos — mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.”

Mário Quintana, em Caderno H

07/02/2021

As histórias importam. Muitas histórias importam

          Sempre senti que é impossível se envolver direito com um lugar ou uma pessoa sem se envolver com todas as histórias daquele lugar ou daquela pessoa. A consequência da história única é esta: ela rouba a dignidade das pessoas. Torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade em comum. Enfatiza como somos diferentes, e não como somos parecidos.
E se, antes da minha viagem ao México, eu tivesse acompanhado o debate sobre a imigração de ambos os lados, tanto o americano quanto o mexicano? E se minha mãe tivesse dito para nós que a família de Fide era pobre e trabalhadora? E se tivéssemos uma rede de televisão africana que transmitisse histórias africanas diversas para o mundo todo, naquilo que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama de “um equilíbrio de histórias?”.
E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Muhtar Bakare, um homem extraordinário que largou seu emprego num banco para abrir uma editora? O senso comum dizia que os nigerianos não liam literatura. Ele discordava. Sentia que as pessoas que sabiam ler leriam se a literatura estivesse disponível e acessível para elas.
Pouco tempo depois de Bakare publicar meu primeiro romance, fui a uma emissora de TV em Lagos para uma entrevista. Uma mulher que trabalhava lá me abordou e disse: “Gostei muito do seu romance, mas não gostei do fim. Você precisa escrever uma continuação, e é isto que vai acontecer...” — então começou a me dizer o que escrever. Fiquei não só encantada, mas muito comovida. Lá estava aquela mulher, parte da massa de nigerianos que supostamente não é leitora. Ela não só tinha lido o livro como tinha se apropriado dele e se sentido à vontade para me dizer o que escrever na continuação. E se a minha colega de quarto soubesse da minha amiga Funmi Iyanda, uma mulher destemida que apresenta um programa de TV em Lagos e está decidida a contar as histórias que preferimos esquecer? E se ela soubesse do procedimento cardíaco que foi feito no hospital de Lagos na semana passada? E se soubesse da música nigeriana contemporânea, com pessoas talentosas cantando em inglês e pidgin, em igbo, iorubá e ijo, misturando influências que vão de Jay-Z a Fela, de Bob Marley até seus avós? E se a minha colega soubesse da advogada que recentemente foi aos tribunais da Nigéria contestar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento do marido para renovar o passaporte? E se soubesse de Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes dificuldades técnicas, filmes tão populares que realmente são o melhor exemplo de nigerianos consumindo o que produzem? E se minha colega soubesse da mulher maravilhosamente ambiciosa que trança meus cabelos e que acabou de abrir seu próprio negócio para vender apliques? E dos milhões de outros nigerianos que empreendem e às vezes fracassam, mas continuam a acalentar ambições? Sempre que estou no meu país, sou confrontada com as fontes de irritação comuns à maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura falida, nosso governo falido. Mas também com a incrível resiliência de um povo que prospera apesar do governo, e não graças a ele. Dou oficinas de escrita em Lagos todo verão, e para mim é maravilhoso ver quantas pessoas se inscrevem, quantas estão ansiosas para escrever, para contar histórias. Meu editor nigeriano e eu acabamos de fundar uma organização sem fins lucrativos chamada Farafina Trust e temos grandes sonhos: construir bibliotecas, reformar as que já existem e doar livros para escolas públicas que não têm acervo, além de organizar diversas oficinas de leitura e escrita para as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias.
As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.
A escritora americana Alice Walker escreveu sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte quando apresentou a eles um livro sobre a vida que haviam deixado para trás: “ficaram sentados, lendo eles próprios o livro, me ouvindo ler o livro, e uma espécie de paraíso foi reavido”.
Eu gostaria de terminar com esta ideia: quando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca existe uma história única sobre lugar nenhum, reavemos uma espécie de paraíso.
Obrigada.

Chimamanda Ngozi Adichie, in O perigo de uma história única

13/02/2019

Quebrando a lei da selva

O terceiro segmento das boas notícias é que as guerras estão desaparecendo também. No decorrer da História, para a maior parte dos seres humanos a guerra era algo certo, garantido, enquanto a paz era um estado temporário e precário. As relações internacionais eram governadas pela Lei da Selva, segundo a qual, mesmo que duas políticas convivessem em paz, a guerra permanecia como uma opção. Por exemplo, embora em 1913 houvesse paz entre a Alemanha e a França, era óbvio que uma poderia cair no pescoço da outra em 1914. Quando políticos, generais, homens de negócios e cidadãos comuns faziam planos para o futuro, sempre deixavam em aberto a possibilidade de uma guerra. Da Idade da Pedra à era do vapor, do Ártico ao Saara, cada pessoa na Terra sabia que a qualquer momento os vizinhos poderiam invadir seu território, derrotar seu exército, chacinar seu povo e ocupar sua terra.
Durante a segunda metade do século XX, a Lei da Selva finalmente foi quebrada, se é que não foi suspensa. Na maior parte das regiões, as guerras eram mais raras. Enquanto nas antigas sociedades agrícolas a violência humana foi a causa de 15% de todas as mortes, durante o século XX a violência provocou apenas 5% dos óbitos, e no início do século XXI foi responsável por cerca de 1% da mortalidade global. Em 2012, aproximadamente 56 milhões de pessoas morreram no mundo inteiro; 620 mil morreram em razão da violência humana (guerras mataram 120 mil pessoas, o crime matou outras 500 mil). Em contrapartida, 800 mil cometeram suicídio, e 1,5 milhão morreram de diabetes. O açúcar é mais perigoso do que a pólvora.
Mais importante ainda, é perceber que, para um segmento cada vez maior da humanidade, a guerra se tornou inconcebível. Pela primeira vez na História, quando governos, corporações e indivíduos privados avaliam o futuro imediato, muitos não pensam na guerra como um acontecimento provável. As armas nucleares tornaram uma guerra entre superpotências um ato louco de suicídio coletivo e com isso forçaram as nações mais poderosas da Terra a encontrar meios alternativos e pacíficos de resolver conflitos. Simultaneamente, a economia global abandonou as bases materiais para se assentar no conhecimento. Antes, as principais fontes de riqueza eram os recursos materiais, como minas de ouro, campos de trigo e poços de petróleo. Hoje, a principal fonte de riqueza é o conhecimento. E, embora se possam conquistar poços de petróleo na guerra, não se pode conquistar conhecimento dessa maneira. Desde que o conhecimento se tornou o mais importante recurso econômico, a rentabilidade da guerra declinou e as guerras tornaram-se cada vez mais restritas àquelas regiões do mundo — como o Oriente Médio e a África Central — nas quais as economias ainda são antiquadas, baseadas em recursos materiais.
Em 1998, fazia sentido para Ruanda tomar e pilhar as minas de coltando vizinho Congo porque era grande a demanda por esse mineral metálico para a fabricação de smartphones e laptops, e o Congo contava com 80% das reservas mundiais. Ruanda ganhava 240 milhões de dólares por ano com o coltan pilhado. Para um país pobre, como é o caso de Ruanda, era muito dinheiro. 24 Em contrapartida, não faria sentido a China invadir a Califórnia para tomar o Vale do Silício, pois, mesmo que os chineses pudessem ser bem-sucedidos no campo de batalha, não existem minas de silício para pilhar no Vale do Silício. Em vez disso, os chineses ganharam bilhões de dólares como resultado de sua cooperação com gigantes da alta tecnologia, tais como Apple e Microsoft, comprando os softwares dessas empresas e fabricando produtos para elas. O que Ruanda ganhou num ano inteiro de pilhagem do coltan congolês, os chineses ganharam num único dia de comércio pacífico.
Em consequência, a palavra “paz” adquiriu um novo significado. As gerações anteriores pensavam na paz como ausência temporária de guerra. Hoje a vislumbramos como a implausibilidade da guerra. Em 1913, quando se falava que havia paz entre a França e a Alemanha, o que se queria dizer era que, “no presente, não há uma guerra entre esses países, mas ninguém sabe o que nos aguarda no próximo ano”. Quando hoje se afirma que há paz entre a França e a Alemanha, sabe-se que é inconcebível, em quaisquer circunstâncias previsíveis, eclodir uma guerra entre essas duas nações. Uma paz assim prevalece não apenas entre a França e a Alemanha, mas entre a maioria (conquanto não todos) dos países. Não existe um cenário para que uma guerra séria ecloda no ano que vem entre a Alemanha e a Polônia, entre a Indonésia e as Filipinas, ou entre o Brasil e o Uruguai.
Essa nova paz não é apenas uma fantasia hippie. Governos sedentos de poder e corporações gananciosas também contam com ela. Quando a Mercedes-Benz planeja suas estratégias de vendas na Europa Oriental, descarta a possibilidade de que a Alemanha conquiste a Polônia. Uma corporação que importa mão de obra barata das Filipinas não está preocupada com a possibilidade de que a Indonésia invada as Filipinas no ano que vem. Quando o governo brasileiro se reúne para discutir o orçamento do próximo ano, é inimaginável que o ministro da Defesa do país se levante de sua cadeira, dê um soco na mesa e grite: “Esperem um momento! E se quisermos invadir e conquistar o Uruguai? Vocês não levaram isso em consideração. Temos de reservar 5 bilhões de dólares para financiar essa conquista”. Claro que há uns poucos lugares nos quais o ministro da Defesa ainda fala coisas do tipo, assim como há regiões em que a Nova Paz não conseguiu assentar raízes. Falo disso com propriedade, pois vivo em uma dessas regiões. Mas estas são exceções.
Não há garantia, é claro, de que a Nova Paz se mantenha indefinidamente. Assim como as armas nucleares a princípio a tornaram possível, da mesma forma desenvolvimentos tecnológicos podem criar um cenário para formas inéditas de guerra. Em particular, uma guerra cibernética pode desestabilizar o mundo ao conceder a pequenos países e grupos não estatais a capacidade de lutar com eficácia contra superpotências. Quando os Estados Unidos combateram o Iraque em 2003, levaram o caos a Bagdá e a Mossul, mas nem uma única bomba foi lançada sobre Los Angeles ou Chicago. No futuro, no entanto, um país como a Coreia do Norte, ou o Irã, poderia utilizar bombas lógicas para interromper a transmissão de energia na Califórnia, explodir refinarias no Texas e fazer trens colidirem em Michigan (“bombas lógicas” são códigos de software maliciosos plantados em tempos de paz e operados à distância. É altamente provável que esses códigos já tenham sido contaminados em redes que controlam instalações vitais de infraestrutura nos Estados Unidos e em muitos outros países).
Contudo, não se deve confundir capacidade com motivação. Embora introduza novos meios de destruição, a guerra cibernética não cria necessariamente incentivos para que sejam usados. Durante os últimos setenta anos a humanidade quebrou não apenas a Lei da Selva, como também a Lei de Tchékhov. É famosa a declaração de Anton Tchékhov de que, se uma arma aparece no primeiro ato de uma peça, é inevitável que seja disparada no terceiro. E, no decorrer da história, se reis e imperadores adquiriam alguma arma nova, mais cedo ou mais tarde, seriam tentados a usá-la. Desde 1945, entretanto, a humanidade aprendeu a resistir à tentação. A arma que apareceu no primeiro ato da Guerra Fria nunca mais foi disparada. Estamos acostumados a viver em um mundo de bombas que não foram lançadas e de mísseis que não foram disparados e nos tornamos especialistas em quebrar tanto a Lei da Selva como a de Tchékhov. Se essas leis alguma vez funcionarem conosco, a culpa terá sido toda nossa — e não de nosso inexorável destino.
O que dizer então do terrorismo? Mesmo que governos centrais e Estados poderosos tenham aprendido o que é contenção, os terroristas podem não ter escrúpulos quanto a usar armas novas e destruidoras. Essa é uma possibilidade certamente preocupante. No entanto, o terrorismo é uma estratégia de fraqueza adotada por aqueles que carecem de acesso ao poder de fato. Ao menos no passado, seu funcionamento era resultado mais da disseminação do medo do que de danos materiais significativos. Terroristas normalmente não têm o poder de derrotar qualquer exército, de ocupar um país ou de destruir cidades inteiras. Em 2010, enquanto a obesidade e doenças relacionadas a esse mal mataram cerca de 3 milhões de pessoas, terroristas mataram 7697 indivíduos em todo o mundo, a maioria deles em países em desenvolvimento. Para um estadunidense ou europeu mediano, a Coca-Cola representa um perigo muito mais letal do que a Al-Qaeda.
Como, então, terroristas conseguem dominar as manchetes e mudar a situação política em todo o mundo? Provocando nos inimigos uma reação desmedida. Na essência, o terrorismo é um show. Os terroristas encenam um tenebroso espetáculo de violência que captura nossa imaginação e nos transmite a sensação de estar escorregando de volta ao caos medieval. Em consequência, os Estados frequentemente se sentem obrigados a reagir ao teatro do terrorismo com um show de segurança, orquestrando imensas exibições de força, como a perseguição a populações inteiras ou a invasão de países estrangeiros. Na maioria dos casos, essa reação exacerbada representa um perigo muito maior a nossa segurança do que aquele decorrente de atentados terroristas.
Terroristas são como uma mosca tentando destruir uma loja de porcelanas. A mosca é tão fraca que não é capaz de deslocar uma única xícara de chá. Então ela encontra um touro, entra em sua orelha e começa a zunir. O touro fica louco de medo e de raiva — e destrói a loja de porcelanas. Foi isso que aconteceu no Oriente Médio na última década. Os fundamentalistas islâmicos jamais conseguiriam, sozinhos, derrubar Saddam Hussein. Em vez disso, enfureceram os Estados Unidos com o ataque de Onze de Setembro, e os Estados Unidos destruíram a loja de porcelanas médio-oriental para eles. Agora os fundamentalistas florescem nas ruínas. Sozinhos, os terroristas são fracos demais para nos arrastar de volta à Idade Média e restabelecer a Lei da Selva. Podem nos provocar, mas, no fim, tudo depende das reações que apresentamos. Se a Lei da Selva entrar em vigor novamente, não será por culpa de terroristas.
Yuval Noah Harari, in Homo Deus: Uma breve história do amanhã

06/02/2019

Armas invisíveis

Depois da fome, o segundo maior inimigo da humanidade era representado pela peste e pelas doenças infecciosas. Cidades fervilhando de gente, conectadas por um fluxo incessante de comerciantes, funcionários e peregrinos, eram ao mesmo tempo o fundamento da civilização humana e o terreno ideal para a proliferação de agentes patogênicos. Em consequência, as pessoas na antiga Atenas ou na Florença medieval viviam suas vidas conscientes de que poderiam adoecer e morrer em dias, ou que subitamente poderia irromper uma epidemia e destruir toda a sua família numa única investida.
A mais famosa dessas irrupções, a chamada Peste Negra, ou peste bubônica, teve início na década de 1330, em algum lugar da Ásia Central ou Oriental, quando a bactéria Yersinia pestis, que tinha a pulga como hospedeiro, começou a infectar os humanos que eram picados por esse inseto. De lá, montada num exército de ratos e pulgas, a peste espalhou-se rapidamente pela Ásia, Europa e pelo norte da África, levando menos de vinte anos para chegar às margens do oceano Atlântico. Entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas morreram — mais de um quarto da população da Eurásia. Na Inglaterra, quatro em cada dez pessoas pereceram, e a população caiu de 3,7 milhões antes da peste para 2,2 milhões depois dela. A cidade de Florença perdeu 50 mil de seus 100 mil habitantes.
As autoridades eram completamente impotentes diante da calamidade. Além de organizar orações em massa e procissões, não tinham ideia de como interromper a propagação da epidemia — e muito menos de como curá-la. Até a era moderna, a culpa pela doença foi atribuída ao ar viciado, a demônios maliciosos ou a deuses raivosos; não se suspeitava da existência de bactérias e de vírus. As pessoas acreditavam facilmente em anjos e fadas, mas não conseguiam imaginar que uma pulga minúscula ou uma simples gota d’água contivesse um exército completo de predadores mortais.
A Peste Negra não foi um evento singular, nem mesmo a pior peste registrada na História. Epidemias mais calamitosas assolaram a América, a Austrália e as ilhas do Pacífico na sequência da chegada dos primeiros europeus. Exploradores e colonizadores, sem saberem, trouxeram consigo doenças infecciosas contra as quais os nativos não tinham imunidade. Como resultado, até 90% das populações locais morreram.
Em 5 de março de 1520, uma pequena frota espanhola deixou a ilha de Cuba a caminho do México. Os navios levavam novecentos soldados espanhóis, além de cavalos, armas de fogo e alguns escravos africanos. Um dos escravos, Francisco de Eguía, transportava uma carga muito mais mortal. Francisco não sabia, mas, em algum lugar de suas trilhões de células, uma bomba-relógio biológica tiquetaqueava: o vírus da varíola. Depois que ele desembarcou no México, o vírus começou a se multiplicar exponencialmente em seu corpo e mais tarde irrompeu por toda a sua pele em erupções terríveis. O febril Francisco foi acomodado na casa de uma família nativa na cidade de Cempoallan. Ele infectou os membros da família, que por sua vez infectaram os vizinhos. Em dez dias Cempoallan virou um cemitério. Refugiados espalharam a doença de Cempoallan para cidades vizinhas e, à medida que, uma após a outra, elas sucumbiam à peste, novas ondas de refugiados aterrorizados carregavam a doença para todo o México e além dele.
Na península de Yucatán, os maias acreditavam que três deuses do mal — Ekpetz, Uzannkak e Sojakak — voavam à noite de aldeia em aldeia, infectando pessoas com a doença. Os astecas puseram a culpa nos deuses Tezcatlipoca e Xipe Totec, ou talvez na magia negra do povo branco. Sacerdotes e médicos foram consultados. Eles aconselharam as pessoas a orar e tomar banhos frios, além de esfregar o corpo com betume e lambuzar as feridas com besouros negros esmigalhados. Nada disso ajudou. Dezenas de milhares de cadáveres jaziam nas ruas apodrecendo, sem que ninguém ousasse se aproximar e queimá-los. Famílias inteiras pereceram em poucos dias, e as autoridades ordenaram que as casas fossem demolidas, soterrando os corpos. Em algumas povoações, metade da população morreu.
Em setembro de 1520 a peste tinha alcançado o vale do México e, em outubro, atravessou os portões da capital asteca, Tenochtitlán — uma magnífica metrópole com 250 mil habitantes. Em dois meses pelo menos um terço da população havia perecido, inclusive o imperador asteca Cuitláhuac. Em março de 1520, quando a esquadra espanhola chegou, o México abrigava 22 milhões de pessoas; em dezembro do mesmo ano apenas 14 milhões ainda estavam vivas. A varíola foi apenas o primeiro golpe. Enquanto os novos senhores espanhóis estavam ocupados enriquecendo e explorando os nativos, ondas letais de gripe, sarampo e outras doenças infecciosas, uma após a outra, varreram o país, até que em 1580 sua população fora reduzida a menos de 2 milhões de pessoas.
Dois séculos mais tarde, em 18 de janeiro de 1778, o capitão James Cook, um explorador britânico, chegou ao Havaí. Essas ilhas eram densamente povoadas por cerca de meio milhão de pessoas, que viviam em total isolamento tanto da Europa como da América. Portanto, nunca tinham sido expostas às doenças europeias e americanas. O capitão Cook e seus homens introduziram os primeiros patógenos de gripe, tuberculose e sífilis no Havaí. Visitantes europeus subsequentes acrescentaram o tifo e a varíola. Em 1853, só restavam ali 70 mil sobreviventes.
Epidemias continuaram a matar dezenas de milhões de pessoas em pleno século XX . Em janeiro de 1918, soldados nas trincheiras do norte da França começaram a morrer aos milhares de um tipo especialmente virulento de gripe, denominado “gripe espanhola”. A linha de frente da guerra era o ponto final da mais eficiente rede de suprimento global que o mundo tinha visto até então. Homens e munições jorravam da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Índia e da Austrália. O petróleo era enviado do Oriente Médio, grãos e carne chegavam da Argentina, a borracha vinha da Malásia, e o cobre, do Congo. Em troca, todos receberam a gripe espanhola. Em poucos meses, cerca de meio bilhão de pessoas — um terço da população global — foi infectado com o vírus. Na Índia ele dizimou 5% da população (15 milhões de pessoas). Na ilha do Taiti, 14% dos habitantes morreram. Em Samoa, 20%. Nas minas de cobre do Congo, um em cada cinco trabalhadores pereceu. No total, a pandemia matou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas em menos de um ano. A Primeira Guerra Mundial matou 40 milhões de 1914 a 1918.
Além desses tsunamis epidêmicos que atingiram o gênero humano a cada poucas décadas, houve ondas menores, porém mais regulares, de doenças infecciosas que todo ano matavam milhões. Crianças com baixa imunidade eram particularmente suscetíveis, daí a frequente designação de “doenças infantis”. Até o início do século XX, cerca de um terço das crianças morria de uma combinação de desnutrição e doença.
Durante o último século, a humanidade ficou ainda mais vulnerável a epidemias, graças à combinação de dois fatores: aumento da população e meios de transporte mais eficientes. Uma metrópole moderna, como Tóquio ou Kinshasa, oferece aos patógenos um terreno de caça mais rico do que a Florença medieval ou a Tenochtitlán de 1520, e a rede global de transporte é hoje mais eficiente do que em 1918. Um vírus espanhol pode chegar ao Congo ou ao Taiti em menos de 24 horas. Seria de esperar, portanto, que vivêssemos num inferno epidemiológico, com sucessivas pragas letais.
No entanto, tanto a incidência como o impacto das epidemias decresceram dramaticamente nas últimas décadas. Particularmente, a mortalidade infantil global é a mais baixa de todos os tempos: menos de 5% das crianças morrem antes de chegar à idade adulta. No mundo desenvolvido, a taxa é de menos de 1%. Esse milagre se deve às conquistas sem precedentes da medicina no século XX, que nos proveu de vacinas e antibióticos, com higiene e infraestrutura médica muito melhores.
Por exemplo, uma campanha global de vacinação antivariólica foi tão bem-sucedida que, em 1979, a Organização Mundial da Saúde ( OMS ) declarou que a humanidade tinha vencido, e que a varíola fora erradicada. Foi a primeira epidemia que os humanos conseguiram varrer da face da Terra. Em 1967, a varíola havia infectado 15 milhões de pessoas e matado 2 milhões, mas em 2014 não houve uma única pessoa infectada ou morta por essa doença. A vitória foi tão completa que a OMS já parou de promover a vacinação contra a varíola.
De tempos em tempos ficamos alarmados com a irrupção de uma nova praga potencial, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (na sigla em inglês, Sars) em 2002-3, a gripe aviária em 2005, a gripe suína em 2009-10, e o Ebola em 2014. Mas, graças a contramedidas eficientes, esses incidentes resultaram, até agora, num número comparativamente menor de vítimas. A Sars, por exemplo, suscitou de início temores de uma nova Peste Negra, mas provocou a morte de menos de mil pessoas no mundo inteiro. A irrupção do Ebola na África Ocidental pareceu a princípio uma espiral fora de controle. Em 26 de setembro de 2014 a OMS a descreveu como “a mais grave emergência na saúde pública vista em tempos modernos”. 14 Contudo, no início de 2015 a epidemia tinha sido refreada e, em janeiro de 2016, a OMS a declarou erradicada. O Ebola infectou 30 mil pessoas (e matou 11 mil), causou enormes perdas econômicas em toda a África Ocidental e enviou ondas de choque de ansiedade para o mundo, mas não se espalhou além daquela região da África, e sua taxa letal não chegou nem de longe à escala da gripe espanhola ou da epidemia de varíola mexicana.
Até a tragédia da aids, aparentemente o maior fracasso da medicina nas últimas décadas, pode ser vista como um sinal de progresso. Desde sua primeira irrupção, no início da década de 1980, mais de 30 milhões de pessoas morreram de aids, e mais dezenas de milhões sofreram debilitação física e danos psicológicos. Essa epidemia foi difícil de entender e de tratar por ser uma doença singularmente tortuosa. Enquanto uma pessoa infectada com o vírus da varíola morre em alguns dias, um paciente HIV positivo pode parecer perfeitamente saudável durante semanas e meses e continuar infectando outros sem saber. Além disso, o próprio vírus HIV não mata. Em vez disso, destrói o sistema imunológico e, em decorrência, expõe o paciente a inúmeras outras doenças. São as doenças secundárias que efetivamente matam as vítimas da aids. Em consequência, quando essa síndrome começou a se espalhar, foi especialmente difícil compreender o que estava acontecendo. Em 1981, quando dois pacientes foram admitidos num hospital em Nova York, um ostensivamente morrendo de pneumonia, e o outro, de câncer, nada evidenciava que ambos eram vítimas do vírus HIV, que pode tê-los infectado com meses, até mesmo anos, de antecedência.
No entanto, apesar dessas dificuldades, depois que a comunidade médica tomou ciência do novo e misterioso mal, só levou dois anos para que os cientistas o identificassem, compreendessem como o vírus se disseminava e sugerissem meios efetivos de desacelerar a epidemia. Mais dez anos, e novos medicamentos fizeram com que a aids se transformasse, passando de uma sentença de morte para uma condição crônica (ao menos para aqueles saudáveis o bastante para serem tratados). O que teria acontecido se a aids tivesse eclodido em 1581, e não em 1981? Muito provavelmente ninguém naquela época teria imaginado o que causava a epidemia, como se transmitia de uma pessoa a outra, ou como poderia ser detida (muito menos como curá-la). Em tais condições, essa síndrome poderia ter matado proporções muito maiores da raça humana, igualando e talvez até superando a Peste Negra.
Apesar do horrendo dano causado pela aids, e a despeito dos milhões que morrem a cada ano de doenças infecciosas há muito estabelecidas, como a malária, as epidemias representam uma ameaça muito menor à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. A imensa maioria das pessoas morre de enfermidades não infecciosas, como o câncer e doenças cardiovasculares, ou simplesmente de velhice. (A propósito, o câncer e as doenças cardiovasculares não são, é claro, doenças novas — elas remontam à Antiguidade. No passado, contudo, era relativamente reduzido o número de pessoas que viviam tempo bastante para morrer por causa delas.)
Muitos temem que essa vitória seja apenas temporária e que algum primo desconhecido da Peste Negra esteja nos aguardando na próxima esquina. Ninguém pode assegurar que pragas não tornarão a acontecer, mas há boas razões para acreditar que, na corrida armamentista entre médicos e germes, os médicos estão na frente. Novas doenças infecciosas estão aparecendo principalmente como resultado de mutações eventuais nos genomas dos patógenos. Essas mutações permitem que os patógenos pulem dos animais para os humanos, superem o sistema imunológico humano, ou resistam a medicamentos como os antibióticos. É provável que no presente as mutações ocorram e se propaguem mais rapidamente do que no passado em face do impacto do homem sobre o meio ambiente. Mas na corrida contra a medicina, os patógenos, em última análise, dependem da mão cega da sorte.
Do outro lado, os médicos contam mais do que meramente com a sorte. Ainda que a ciência tenha uma dívida enorme com acasos felizes, não se trata simplesmente de jogar diferentes substâncias químicas num tubo de ensaio na esperança de que daí saia um novo medicamento. Ano após ano os médicos acumulam mais e melhores conhecimentos, que utilizam para conceber e projetar medicamentos e tratamentos eficazes. Em consequência, embora não se tenha dúvida de que em 2050 vamos ter de enfrentar germes muitos mais resistentes, a medicina naquele ano estará capacitada a lidar com eles com mais eficiência do que hoje.
Em 2015 os médicos anunciaram a descoberta de um tipo novo de antibiótico — a teixobactina —, ao qual as bactérias ainda não têm resistência. Alguns estudiosos acreditam que a teixobactina pode ser um aliado na luta contra germes super-resistentes. Os cientistas também estão desenvolvendo novos e revolucionários tratamentos, que funcionam de modo radicalmente diferente de quaisquer outros que os precederam. Por exemplo, alguns laboratórios de pesquisa já trabalham com nanorrobôs, que um dia poderão navegar em sua corrente sanguínea, identificar doenças e eliminar patógenos e células cancerosas. Microrganismos podem ter 4 bilhões de anos de experiência acumulada lutando contra inimigos orgânicos, mas sua experiência é nula no combate a predadores biônicos — portanto, será duplamente difícil desenvolver defesas eficazes contra eles.
Assim, mesmo sem a certeza de que algum surto de um novo Ebola ou uma linhagem desconhecida de gripe não possa assolar o mundo e matar milhões, não vamos considerar que se trata de uma calamidade natural inevitável. Ao contrário, vejamos nisso uma indesculpável falha humana e peçamos as cabeças dos responsáveis. No fim do verão de 2014, durante algumas semanas terríveis, pareceu que o Ebola estava levando a melhor sobre as autoridades encarregadas da saúde global. Foi quando se criaram apressadamente comitês de investigação. Um relatório inicial publicado em 18 de outubro de 2014 criticava a OMS por ter reagido de maneira insatisfatória à eclosão do vírus; a culpa pela epidemia recaiu sobre a corrupção e a ineficiência do ramo africano dessa agência de saúde. Mais críticas foram dirigidas à comunidade internacional como um todo por não ter reagido com rapidez e energia suficientes. Essas críticas partem da premissa de que a humanidade dispõe do conhecimento e dos instrumentos de prevenção; se mesmo assim uma epidemia sai do controle, isso se deve mais à incompetência humana do que à ira divina. Da mesma forma, o fato de que a aids continuou a infectar e matar milhões na África subsaariana anos após os médicos terem compreendido seus mecanismos é corretamente considerado um resultado de falhas humanas e não de um destino cruel.
Assim, na luta contra calamidades naturais como a aids e o Ebola, a balança pende em favor da humanidade. Mas, e quanto aos perigos inerentes à natureza humana? A biotecnologia nos capacita a derrotar bactérias e vírus, porém simultaneamente faz com que os próprios seres humanos se tornem uma ameaça sem precedentes. As mesmas ferramentas que capacitam médicos a identificar e curar rapidamente doenças novas podem também capacitar exércitos e terroristas a arquitetar doenças ainda mais terríveis e patógenos apocalípticos. Portanto, as grandes epidemias vão continuar a pôr a humanidade em perigo no futuro se, e somente se, a própria humanidade as criar, a serviço de alguma ideologia brutal. A era na qual a humanidade se via impotente diante de epidemias naturais provavelmente chegou ao fim. Mas ainda poderemos ter saudades dela.
Yuval Noah Harari, in Homo Deus: Uma breve história do amanhã

28/01/2019

História e eternidade

Por que eu deveria continuar a viver na história, a dividir os ideais de minha época, a preocupar-me com a cultura ou com os problemas sociais? Estou cansado da cultura e da história; é quase impossível que, de agora em diante, eu participe dos tormentos do mundo e das suas aspirações. Devemos ultrapassar a história: só atingimos tal estado assim que passado, presente e futuro não têm mais qualquer importância - quando nos é indiferente saber onde e quando nós vivemos. Em que vale mais a pena viver hoje do que no Egito antigo? Nós seríamos perfeitos idiotas se lamentássemos a vida daqueles que viveram em outras épocas, ignorando o cristianismo ou as invenções e descobertas da ciência. Como não saberíamos hierarquizar as concepções de vida, todo mundo tem razão - e ninguém a tem. Cada época constitui um mundo em si, fechado em suas certezas até que o dinamismo da vida e a dialética da história conduzam a novas fórmulas tão limitadas e insuficientes quanto as anteriores. Pergunto-me como é que certas pessoas podem ocupar-se exclusivamente do passado, de tanto que a história me parece nula em sua integralidade. Que interesse pode ter o estudo dos idos ideais e das crenças de nossos predecessores? Por mais que as criações humanas tenham sido magníficas - desinteresso-me delas completamente. A contemplação da eternidade não me concede, na verdade, um apaziguamento muito maior? Não homem/história, mas homem/eternidade - eis uma relação aceitável num mundo que não vale nem mesmo a pena que nele respiremos. Ninguém nega a história por simples capricho; se o fazemos, é sob a pressão de imensas tragédias, das quais poucos suspeitam a existência. Imaginemos que você tenha pensado a história abstratamente antes de negá-la pela razão - neste caso, sua negação resultaria, na realidade, de um profundo abatimento. Quando nego o passado da humanidade em sua totalidade; quando me recuso a participar da vida histórica, sou tomado por uma amargura mortal, mais dolorosa do que se poderia imaginar. Estes pensamentos vêm, acaso, renovar e intensificar uma tristeza latente? Sinto em mim um sabor amargo de morte e de vazio, que me queima como um violento veneno. Fico triste a ponto de que tudo “aqui embaixo” me pareça totalmente despido de charme. Como eu ainda poderia falar de beleza e envolver-me com a estética, se estou triste de morte?
Eu não quero mais saber de nada. Ultrapassando a história, adquire-se uma espécie de subconsciência capital para a experiência da eternidade. Ela nos leva, na verdade, em direção a uma região em que as antinomias, as contradições e as incertezas deste mundo perdem seu sentido - em que se esquece da existência e da morte. É o medo da morte que anima os amadores da eternidade: a experiência desta tem, na verdade, como única vantagem real o fato de nos fazer esquecer a morte. Mas o que é que há quando a contemplação acaba?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

07/07/2018

Saltador de touro minoico (1700-1450 A.C.)

O touro e o saltador são de bronze e juntos têm cerca de cinco centímetros de comprimento e treze centímetros de altura, representando um touro e uma figura humana saltando por cima do animal encontrada em Creta, onde foi feita há mais ou menos 3.700 anos. O touro está galopando – pernas estiradas e cabeça erguida –, e a pessoa pula por cima em um grande salto mortal em arco. Trata-se provavelmente de um jovem. Ele segurou os chifres e jogou-se por cima do touro, de forma que o vemos em um momento no qual o corpo está todo virado. As duas figuras arqueadas são reflexo uma da outra: a curva exterior do corpo do rapaz encontra resposta na curva interior da espinha dorsal do touro. É uma escultura de grande dinamismo e beleza e nos conduz à realidade – e, não menos importante, ao mito – da história de Creta.
A imagem é a representação literal de algo que para a maioria das pessoas é hoje apenas metafórico: “segurar o touro pelos chifres” é o que todos nós pretendemos fazer diante dos grandes problemas morais da existência. Entretanto, a arqueologia sugere que há mais ou menos quatro mil anos uma civilização inteira parece ter sido fascinada pela ideia e pelo ato de enfrentar o touro.
Neil MacGregor, in A história do mundo em 100 objetos

10/02/2018

Não acabou

Nem a história chegou ao fim, nem se acabaram as revoluções. Meu otimismo se limita a essas certezas. O restante são apenas dúvidas. Como? Quando? Onde? Isso eu não sei, mas que acontecerá, não tenho dúvida.
José Saramago, in As palavras de Saramago

05/10/2017

Toda a História é História contemporânea

Eu entendo a História num sentido sincrônico, em que tudo acontece simultaneamente. Por conseguinte, o que procura o romancista — ao menos é o que eu tento fazer — é esboçar um sentido para todo esse caos de fatos gravados na tela do tempo. Sei que esses fatos se deram em tempos distintos, mas procuro encontrar um fio comum entre eles. Não se trata de escapar do presente. Para mim, tudo o que aconteceu está a acontecer. E isto não é novo, afirmava Benedetto Croce ao escrever: “Toda a História é História contemporânea”. Se tivesse que escolher um sinal que marcasse meu norte na vida, seria essa frase de Croce.
José Saramago, in As palavras de Saramago

02/10/2017

História e Literatura

Evidentemente que aquilo que nos chega não são verdades absolutas, são versões de acontecimentos, mais ou menos autoritárias, mais ou menos respaldadas pelo consenso social ou pelo consenso ideológico ou até por um poder ditatorial que dissesse “há que acreditar nisto, o que aconteceu foi isto e portanto vamos meter isto na cabeça”. O que nos estão a dar, repito, é uma versão. E creio que, dizendo nós a toda a hora que a única verdade absoluta é que toda ela é relativa, não sei por que é que, chegando o momento em que determinado escritor passaria por certo fato ou episódio, deveria aceitar como lei inamovível uma versão dada, quando sabemos que a História não só é parcial como é parcelar. Noutros termos: por que é que a literatura não há de ter também a sua própria versão da História? De qualquer forma, a literatura não é nada que se sobreponha completamente à História, porque não pode, porque tem que alimentar-se até de versões opostas ou contraditórias, assim construindo, à luz de um tempo ou de um entendimento diferente, a sua própria versão.
José Saramago, in As palavras de Saramago

28/09/2017

História

A nossa relação com o tempo se faz por intermédio de algo a que chamamos História e a História é algo que se escreve como consequência da escolha de dados, datas e circunstâncias que vão ser organizadas pelo historiador para que todo esse maço de informações seja coerente consigo mesmo. A História não seria mais que a tentativa de introduzir coerência no caos dos fatos múltiplos de todos os dias.
José Saramago, in As palavras de Saramago

04/11/2014

A História

“Nenhuma realidade é mais essencial para a nossa auto certificação do que a história. Mostra-nos o mais largo horizonte da humanidade, oferece-nos os conteúdos tradicionais que fundamentam a nossa vida, indica-nos os critérios para avaliação do presente, liberta-nos da inconsciente ligação à nossa época e ensina-nos a ver o homem nas suas mais elevadas possibilidades e nas suas realizações imperceptíveis.
Não podemos melhor aproveitar os nossos ócios do que familiarizando-nos com as magnificências do passado, conservando viva essa recordação e, ao mesmo tempo, contemplando as calamidades em que tudo se subverteu. A experiência do presente compreende-se melhor refletida no espelho da história. O que a história nos transmite vivifica-se à luz da nossa época. A nossa vida processa-se no esclarecimento recíproco do passado e do presente.
Só de perto, na intuição concreta e sensível, e prestando atenção aos pormenores, a história realmente interessa. Filosofando procedemos a considerações que se mantêm abstratas.”
Karl Jaspers, in Iniciação filosófica