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17/12/2015

As galinhas de Zé Vieira

Quem viu os São Joões da cidade de Ouro Velho, entre os anos de 80 e 90, organizados por Toinho de Nêgo Gago, e hoje contempla verdadeiras multidões aplaudindo essas chamadas bandas de “forró eletrônico”, vai ficar sem entender porque “involuímos” tanto e ficamos tão pobres em relação a entretenimento, principalmente nas pequenas cidades do interior, onde as opções de lazer estão restritas à vontade soberana de prefeitos desonestos, inimigos da chamada cultura de raiz.
Quem fosse para um São João em Ouro Velho ia ter a oportunidade de ver a Super Oara dando um verdadeiro concerto de música nordestina e brasileira da melhor qualidade.
A cidade era tomada por gente de outras localidades, que praticavam ali um turismo produtivo, e não predatório como se vê com tristeza nos eventos atuais.
Os bares e bodegas, além das barracas, lotavam, transformando a atmosfera da cidade que era só alegria.
No meio desses bares, estava o de Zé Vieira, um caboclo de pele escura, rosto redondo, atarracado, características de descendentes muito próximos de tribos indígenas que povoaram aquela região, num passado remoto.
Gente alegre e sem “covardia” com nada, ainda é assim o caboclo Zé Vieira com o seu pequeno estabelecimento, meio bar, meio restaurante, na avenida principal da cidade, onde ainda assa na brasa de carvão de lenha a melhor carne de sol do planeta.
Nas festas de São João, com o bar completamente lotado, Zé Vieira mal tinha tempo pra abrir uma cerveja ou botar uma “lapada” de cana, tal era o volume de clientes comendo e bebendo do bom e do melhor do seu bar. A essa altura, os mais conhecidos já iam ao freezer pegar a cerveja por conta própria, uns pagando, outros não.
Numa noite dessas, chega Marconi com uma proposta irrecusável pra Vieira:
– Zé, eu tô com uma galinha gorda lá em casa, pra te vender.
E Zé:
– Quanto?
– É 15, eu te faço por 10.
Zé topou na hora, Marconi recebeu e foi buscar a galinha.
De fato, trouxe a penosa viva.
– Boto onde, Zé?
– Tô muito ocupado aqui, dá pra tu levar lá atrás no quintal e soltar no chiqueiro junto com as outras?
– Ôxe, agora, Zé!
Só que, quando Marconi solta a galinha, percebe que uma parte do muro, que era uma das paredes do chiqueiro de varas, estava roída de salina pelos bebinhos que vinham descarregar por ali.
Marconi, sagaz, teve uma ideia: iria pelo outro lado do muro, faria um buraco e, daí, ia tirando as galinhas que subiam numa varinha estirada por ele pra dentro do chiqueiro e dali saíam direto prum saco que ele levava pra não despertar desconfiança.
Agora, era só dar a volta, entrar de novo no bar e vender mais uma “quase de graça” ao ingênuo e ocupado Zé Vieira, que deve ter comprado a mesma galinha pelo menos umas cinco vezes ao velho Marconi, que descolou ali, sem muito esforço, toda a grana de que precisava pra “brincar” naquela grande festa, que era o São João de Ouro Velho.
Zelito Nunes, (Histórias de beradeiro), in www.luizberto.com

06/09/2012

Fogo Pagô

Beatriz Aragão foi professorinha primária por toda a sua vida. Aposentada, mora hoje na cidade de São José do Egito e é irmã de Antonio de Catarina, bebe umas caninhas, por que ninguém é de ferro, e sempre gostou de forró, para dar vazão à sua alma  festeira.
Uma vez, chegando num lugarejo chamado Ponta Direita, perto do Bomfim, distrito de São José do Egito, estava havendo  lá um autêntico forró de sala de reboco, com direito a sanfona de fole rasgado e batuque de melê.
O sanfoneiro, um dos piores da região, só conhecia uma música que se intitulava “Fogo Pagô”, grande sucesso do nosso cancioneiro regional, de um compositor chamado Rivaldo Serrano, gravada na época pelo inesquecível Luiz Gonzaga.
A música tratava da trágica morte pelas mãos assassinas de um menino malvado, de um tipo de rolinha que habita os pés-de-serra e que os sertanejos chamam de cascavel porque quando levanta vôo suas asas emitem um barulho igual ao guizo da temível serpente. Chamam também de  Fogo-Pagô, por causa do seu canto triste.
Os versos  diziam mais ou menos  assim:

"Teve pena da rolinha
que o menino matou
mas depois que torrou a bichinha
e comeu com farinha, gostou…”

O sanfoneiro repetia sempre a mesma coisa pela noite à dentro, quando Beatriz, já impaciente, mandou parar a sanfona:
– Ô, meu amigo, quer dizer que se esse menino não tivesse matado esse passarinho, não ia ter forró aqui hoje?
Zelito Nunes – Histórias de Beradeiro, in www. Bestafubana.com.br

24/01/2012

Um "Causo" de Zé Quebra Panela de Tabira


Uma vez num bar em Tabira, camarada chamado Nezinho chegou bêbado e, numa discussão besta, meteu a mão no toitiço de Zé.
Isso na frente de todo mundo.
 A turma do “deixa disso” correu pra apartar e Zé ameaçou:
- É, isso não vai ficar assim não!
Um gaiato ainda disse:
-Vai não Zé , isso ainda vai inchar e doer que só a peste!
Zé não aceitava a desmoralização e prometia:
- Vou dar uma facada em Nezinho! Nem Deus empata.
No outro dia, a mulher de Nezinho preocupada foi procurar Zé pra pedir desculpas:
- Seu Zé, deixe isso pra lá, Nezinho é assim mesmo, quando bebe, tem o costume de dar nos outros, é porque ele fica muito “neuvoso”.
Zé ainda injuriado, desabafou:
- É, mas meu pé de ouvido não é calmante não!

Zelito Nunes, na coluna Histórias de Beradeiro, no Besta Fubana