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16/11/2020

Vovô Jake: imortal, até morrer

          Com 100 anos e um dia de idade, vovô Jake despertou na manhã seguinte para um doce dia de primavera. Sentou-se na varanda com uma garrafa do Velho Sussurro da Morte para ajudar a tirar o furador de gelo que sentia dentro de seu cérebro desde a noite anterior, e, quando se sentiu pronto para mais 100 anos, preparou um grande ensopado de carne de veado com pãezinhos para o jantar. Depois do jantar, ele e Miúdo repartiram o último pedaço do bolo de aniversário que tinha sobrado da festa. Observou e deu conselhos, enquanto Miúdo esboçava algumas de suas ideias para os entalhes dos postes, e então foi dar sua caminhada noturna.
Quando voltou, tomou mais uns dois goles extras de uísque para enganar o frio, tirou as roupas até ficar só de ceroulas, foi para a cama, leu um artigo numa velha Argosy sobre um mercenário no Amazonas que fora adotado por uma tribo de caçadores de cabeças, casara-se com as graciosas filhas gêmeas do cacique, tivera cinco filhos e andava pelado até os missionários chegarem, e com eles o inferno e todas as nossas escapadas ousadas do fogo eterno. Não achou a matéria muito ruim, mesmo que fosse besteira. Apagou a luz e adormeceu.
Estava sonhando com as adoráveis irmãs gêmeas se aconchegando no seu corpo quando a lua cheia se ergueu sobre o rio, ofuscante e limpa. Ouviu um choro abafado, uma criança no outro quarto, anos atrás, e aí ouviu seu nome sussurrado, talvez Miúdo tentando acordá-lo, ou uma das belas filhas do cacique murmurando seu nome no sono. Escutou atentamente na escuridão, uma concentração que parecia tirá-lo de si mesmo em uma suspensão vazia. Escutou o próprio coração parar de bater, o último encher de pulmões deixá-lo em um silêncio luminoso. Esperou, totalmente quieto. Escutou seu choro suave retornar em sua carne, desvanecendo-se em direção à lua. E então um sussurro de asas enquanto era erguido.
Podia sentir, pelo jeito como era levado, que não se tratava de anjos, não podia conceber que fossem anjos, tinha tanta certeza de que eram patos, que nem se incomodou em abrir os olhos. Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:
Ora, com os diabos, fui imortal até morrer.
Esperou, mas não houve mais respiração. Sucumbiu por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem.

Jim Dodge, in Fup

29/09/2020

Relembrando Fup e Cerra-Dente

E após esse único gole, vovô, como que saboreando, não tomou outra gota sequer por uma semana. Miúdo não trabalhou nas cercas. Tinham ido enterrar os restos de Cerra-Dente antes que os pássaros atacassem e, apesar de ambos acharem que devia ter desaparecido, o corpo ainda estava onde o deixaram, agora completamente rígido, as tripas infestadas de moscas. Enterraram os restos na orla de um velho carvalho branco. Até vovô teve vez com a pá; violava sua regra fundamental de nunca suar antes do meio-dia.

A maior parte daquela semana, passaram sentados na varanda da frente, observando a primavera desabrochar e conversando sobre o que tinha acontecido. Miúdo contou diversas vezes a vovô que tinha matado Fup acidentalmente, como esta fora despedaçada, aparentemente tentando proteger um porco que, ao que supunha, devia odiar, e como depois, conforme vovô testemunhara, tinha se desenrolado, totalmente crescida e empenada, de dentro do corpo do Cerra-Dente, voando para longe. Ele queria saber como isso podia ter acontecido.

E a cada vez vovô Jake lhe respondia essencialmente a mesma coisa:

Não tenho a menor ideia. Mas posso pensar nas razões: ela viu que ele estava morrendo e queria que você respeitasse sua morte, o deixando morrer sozinho; ou não o queria ver levar um tiro estando preso na cerca; talvez achasse isso desonroso; ou talvez tenhamos suposto tudo ao inverso, que o Cerra-Dente estivesse tentando tirá-la daquele buraco para fazer sua merenda da meia-noite, quando na verdade podia estar tentando salvá-la, ou, pelo menos, ela achasse isso. Pode ser tudo isso e mais ainda, ou nada disso. E de que jeito foi parar daquele porco, e fora, eu não sei direito. Algumas coisas não é possível explicar, talvez até a maioria das coisas. É interessante pensar nelas e fazer alguma especulação, mas o principal é que se tem que aceitar as coisas tal como são, e seguir em frente com aquilo que se entende.

Quando Miúdo voltou ao trabalho, no fim daquela semana, começou a cortar largas passagens em todas as linhas das cercas, e depois disso começou a partir sequoias para fazer postes de porteiras. No final da semana, os postes se encontravam nos lugares, e ele estava para colocar a primeira porteira quando decidiu que, para fazer um trabalho realmente bom, os postes precisavam ser entalhados. Consultou vovô, que manifestou total acordo quanto a um dos postes ter a figura de uma cabeça de porco entalhada na parte de cima, e talvez um outro ter uma truta-arco-íris saltando, e outro – isso era fundamental – ter um pato, um pato voador, em memória de Fup, e na entrada principal, que levava à casa, ficariam muito bem uns ursos gêmeos, e no lado norte, que dava naquela linda campina, um veado com chifres de três pontas, como o que ele matara ali em 1964. seria perfeito… e sim, sim, pensou, achava ser uma boa ideia, pois afinal as cercas eram tão boas quanto seus portões. Naquela tarde, quando Miúdo deu o primeiro golpe com o martelo e o cinzel, sentiu a vida se transformando em suas mãos. Observou enquanto a imagem surgiu na madeira.

E no final da semana de abstinência, quando vovô Jake começou a beber, ele o fez lentamente, de modo apenas gradual, acumulando energias para a festa de seu 100º aniversário, três dias depois, na qual ele, Miúdo, e um terço do pessoal das redondezas ficaram tão bêbados que mal podiam grunhir ou apontar, muito menos parar de rir.

Jim Dodge, in Fup

01/09/2020

Morte e ressurreição de Fup



Na manhã seguinte, Miúdo e Fup saíram de casa à primeira luz. Tomaram um atalho no topo da bacia de Rifkin e de lá foram descendo ao longo da cerca sul, que Miúdo construíra quando tinha 16 anos. Pararam por um minuto para deixar que o dia clareasse, e então, com Fup à frente começaram a seguir a cerca à margem do denso matagal de carvalhos, em direção à nascente lamacenta onde o Cerra-Dente gostava de chafurdar. Não haviam percorrido 100 metros quando Fup começou a farejar o rastro como um cão de caça de pedigree; em poucos instantes estava grasnando de excitação. Miúdo equilibrou a espingarda 243, deslizou o dedo para o dispositivo de segurança. Não conseguia enxergar abaixo da linha da cerca do seu lado, pois um pequeno bosque de arbustos de louro lhe bloqueava a visão. Fup mergulhou direto nos arbustos, o pescoço totalmente esticado para a frente como um cobra, ainda grasnando de modo selvagem, e Miúdo foi atrás dela, fazendo um estrondo através dos arbustos. Quando afinal saíram das moitas, ambos pararam em silêncio durante uma repentina fração de segundo: o Cerra-Dente estava estirado a uns seis metros de distância, de barriga para cima, olhando para eles, a pata traseira esquerda presa à tela torcida do arame da cerca.
Miúdo ergueu a arma até o ombro, a atenção toda voltada para o animal. Fup grasnava incessantemente a seus pés, estridente, histérica. Miúdo centralizou a mira diretamente entre os olhos resolutos do porco. Era o Cerra-Dente, tinha certeza, mas parecia velho ou doente, sem presas, as orelhas esfarrapadas, os pelos pretos como breu ao longo da coluna adquirindo uma tonalidade cinza pálida. Miúdo deu uma aspirada profunda, tentando calar o grasnado maníaco de Fup; expirou lentamente, mantendo a mira firme entre os olhos do Cerra-Dente, e começou a apertar o gatilho. Fup, batendo as asas freneticamente a seus pés, viu seu dedo se encolher e mordeu-lhe a perna, o mais forte que pôde.
É o Cerra-Dente, o Cerra-Dente! – gritou Miúdo, chutando-a. Grasnando ferozmente, ela saiu correndo pela direita, para fora de seu alcance. Sem prestar atenção nela, Miúdo refez a mira, parando firmemente entre os olhos de Cerra-Dente. Enquanto ele apertava o gatilho, Fup arremessou-se em direção ao cano da arma, fazendo o rapaz perder o equilíbrio. Ele tropeçou para trás, Fup à frente da boca do cano enquanto a arma disparava. A explosão e o choque da bala a dilaceraram.
Miúdo não conseguia respirar. De quatro, engatinhou até os restos despedaçados. Ofegando, estendeu-se para juntá-la em suas mãos, recolher e reunir-lhe os pedaços, mas suas mãos se recusaram a fazer isso. Quando afinal tocou numa asas destroçada e o sangue fumegou na ponta de seus dedos, ouviu, ao longe, um grito imenso e dilacerante arrebentar de seu corpo. Sentou-se de cócoras e chorou.
Depois parou. Sentiu o Cerra-Dente fitando-o; virou-se de pronto. A cabeça do bicho estava estendida na horizontal, pousando sobre as patas dianteiras. Seu olhar era direto, amplo e totalmente indiferente. Lentamente, os olhos começaram a se embaçar, a se cobrir de uma película, a se perder por trás de um verniz prateado e opaco; da cor do céu antes de chover, tal como a parte de trás de um espelho.
Miúdo ficou de pé, foi até o corpo do porco, pegou a ferramenta no seu bolso de trás e, cortando a cerca, soltou o pé do animal. O corpo, imenso e malicento, rolou de lado. Miúdo ajoelhou-se ao lado dele e, delicadamente, tocou-lhe o olho esquerdo, deixando uma impressão digital leve e sangrenta sobre a superfície enevoada. O porco não piscou. Miúdo moveu sua mão para baixo e apertou a palma firmemente nas costelas do porco, bem atrás do ombro. Não sentia o coração bater debaixo das cerdas duras e ásperas sob sua mão úmidas. Por um instante, pensou sentir um movimento interior, uma pulsação abafada, mas não tinha certeza. Talvez uma última convulsão nervosa; o ligeiro movimento muscular involuntário que dura além da morte. Então, tornou a sentir, dessa vez com certeza, e cuidadosamente começou a mover as mãos sobre o corpo do animal, procurando a fonte da pulsação.
Um palmo acima do pênis, na parte inferior das costelas, sentiu um movimento regular. Pôs as duas mãos na barriga nua e apertou suavemente. Sentia nas mãos uma pulsação regular, não os espasmos esporádicos das tripas. Rolou o Cerra-Dente de costas, suas pernas já se enrijecendo, salientando-se desajeitadamente para o ar, e então encostou a cabeça na barriga. Sentiu a pulsação regular ressoando nos ossos do seu rosto.
Apoiando o corpo do porco em sua perna, pegou o canivete e abriu a lâmina longa e fina que usava para destripar animais. Começou o corte pelo osso pélvico e prosseguiu ao longo da parte ao lado do pênis, e para cima, até o esterno, com sangue espirrando no caminho. Quando deixou o porco a tornar a cair de lado, as tripas se esparramaram, livres. Entre os espirais das tripas quentes, havia um saco membranoso, fino, liso, laranja-sangue, latejando. Habilmente, usando apenas a ponta da faca, Miúdo fez uma incisão e abriu.
Dentro, divisou o que sua mãe tinha visto brilhar no fundo do lago: um ponto de luz – intenso, intenso, regular e denso. Dividia-se em dois. Em quatro. Oito. Começou a rodopiar enquanto instantaneamente se multiplicava através da trajetória ofuscante da forma em direção a alguma nova coerência, o arco de energia transformada em matéria, o papel branco de um pergaminho se desenrolando, brilhando ao sol.
A luz rodopiante, como que consolidada ou absorvida, desvaneceu-se na forma de um patinho. Fup se sacudiu, libertando-se da membrana pegajosa, abanando as asas molhadas enquanto uns poucos e leves grasnados experimentais. Crescendo a cada momento, continuou a adquirir penugem sob o olhar atônito de Miúdo; crescida, emitiu uma rajada triunfante: QUAQ-UAQ-UAQ-UAQ-UAQ-UAQ-UAQ.
Quando Miúdo tentou tocá-la, Fup explodiu num voo, direto para cima, como seria de se esperar de um pato de lagoa, numa explosão de água e asas. Miúdo berrou. Fup estabilizou o voo e convergiu para o leste, grasnando alegremente. De modo abrupto, surpreendentemente graciosa para o seu volume, fez uma curva, saiu do vento, e iniciou o caminho de volta.
Fup! Fup! berrou Miúdo para ela, acenando-lhe com os braços enquanto ela passava.
Ela fez uma manobra ascendente e curva, e voltou circulando ao seu redor. De repente, dobrou-se como se tivesse levado um tiro e mergulhou alguns metros antes de tornar a abrir as asas, grasnou freneticamente enquanto fazia uma curva, precipitando-se, e então parou de emitir ruídos e começou a se elevar por cima dele, num espiral perfeito que se abria. Miúdo ficou parado, arraigado ao chão, apalermado, contemplando-a enquanto desaparecia no céu.
Vovô Jake, acordado de supetão pelo tiro, dera um pulo e saíra correndo, de ceroulas, seguin do os gritos de dor de Miúdo até uma colina acima da cerca. Chegara ao topo da colina no momento em que Miúdo tinha acabado de destripar o Cerra-Dente, e permanecera ali, pregado ao chão, enquanto Fup aparentemente ressuscitava de dentro do corpo do porco e começava sua ascensão em espiral. Jake olhou, em transe, murmurando consigo mesmo, sem parar:
Puta que pariu, não acredito e no entanto acreditava de verdade.
Quando a ave desapareceu no céu, ele começou a gritar para Miúdo, mas este estava de gatinhas no chão, procurando os restos de Fup. Tinham desaparecido: nem uma pena chamuscada, nem um fragmento de carne. Não havia traço dela.
Dividido entre a gratidão e o terror, Miúdo deu um giro e correu para a cerca. Parou em frente a uma estaca de sequoia, travou as mãos num só punho e golpeou, com todo o seu peso. O golpe rompeu a estaca ao nível do chão mas seu talento de construtor de cercas era tal que a tensão dos arames a segurou, fazendo-a vibrar sem sair do lugar. Puxou violentamente o arame até as mãos ficarem escorregadias de sangue, gritando:
Aí está você! Vai, passa. Vai. Vai, passa… até que a dor se reduziu o suficiente para se lembrar da ferramenta, e então usou o cortador para seccionar o arame, cada fio retesado sibilando ao passar por ele, como o estalar de um nervo rompido.
Quando cortou o último fio, a estaca suspensa chicoteou para o outro lado, quase atingindo vovô, cuja presença ainda não notara, e chegando bastante perto para que o velho tivesse que mergulhar na direção contrária, por puro reflexo. Ainda no chão, vovô berropu:
Com os diabos, Miúdo, chega disso. Veja se recobra o juízo, filho. Podia ter-me cortado feito ovo cozido.
Ouvindo sua voz, Miúdo largou a ferramenta e correu, soluçando, levantou o avô e o abraçou fortemente, as pernas magras de Jake metidas nas ceroulas, chutando o ar. Abraçaram-se por um bom tempo. Miúdo chorando, vovô Jake consolando-o:
Está tudo bem, filho, tudo, bem; pode chora e ao mesmo tempo lhe batia levemente nas costas com os braços ossudos, e então caminharam de volta para casa, a fim de tomarem um gole de uísque: um gole que, segundo vovô, tinha um destino glorioso, pois era totalmente necessário e merecido até a última gota.
Jim Dodge, in Fup

12/08/2020

Vovô Jake e esse negócio de imortalidade

[…] após concluir que um pato feliz seria melhor aluno que um pato rancoroso, ele aboliu a dieta de Fup, e até lhe deu um pouco mais que as rações normais, já por si opulentas, a fim de fazer as pazes. Logo recuperou suas boas graças, e Miúdo ficou tremendamente aliviado.
Com a afeição e o respeito recobrados, ele planejou as premissas e a mecânica, e então começou por aquilo que a razão lhe dizia ser o início: para se voar, era preciso bater as asas.
Assis, todas as tardes, exceto aos domingos, cara a cara na varanda, vovô Jake tentava ensinar Fup a bater as asas. Não era fácil. Ela as estendia como que arejando as axilas e às vezes tentava batê-las numa agitação incoerente, mas não parecia interessada em fazê-lo com continuidade. Ele persistiu. De pé na varanda, descalço, malhando o ar com os braços ossudos, prometia-lhe, a cada batida de asas, os êxtases do voo; prometia que era melhor do que gozar a noite inteira com uma gostosinha de 16 anos das fazendas do interior de Iowa; melhor que pão francês com manteiga derretida; melhor que o luar banhando os pinheiros prateados e as folhas de baunilha; melhor que uma explosão de botões de flores no âmago do cérebro – o voo era tudo o que se podia comer, tudo o que se podia querer, uma liberdade imensa e um divertimento enorme. Uma hora por dia, até os braços doerem e a cara assumir uma cor roxa embaçada, e ainda assim continuava, discursando, excitado, sobre os segredos de um êxtase que, mesmo sem conhecer, tinha a fé ou a burrice de prometer.
Um dia, após dois meses de ensino obstinado, Fup começou a bater as asas, em conjunto com vovô, que malhava o ar loucamente. Vovô Jake regozijou-se.
Quando Fup aprendeu a bater as asas de cor e salteado, vovô concluiu que o passo seguinte era a decolagem e, a fim de praticarem, mudaram-se para o quintal da frente. Jake deu algumas corridas curtas pelo quintas, a meia velocidade, para demonstrar a técnica básica. Fup entendeu entendeu imediatamente, e logo os dois estavam mandando ver, ladeira abaixo, em direção ao laguinho, os respectivos braços e asas golpeando o ar numa tentativa de decolagem – no entanto, embora o voo sussurrasse para seus corpos, acenando, nenhum dos dois chegou a deixar o chão nas duas primeiras tentativas. Na terceira, quando Jake deu tudo o que tinha, as pernas bambeando, os braços batendo loucamente, sentiu o primeiro tremor da ascensão se libertar dentro de si; como qualquer bom professor faria, olhou para trás para ver se Fup já estava no ar, e naquele instante de atenção dividida deu de cara na nogueira e caiu duro, mais frio que o zero absoluto.
Quando voltou a si, estranhamente calmo, Fup estava gingando a seu redor, grasnando de preocupação. Estendeu a mão para confortá-la, sentou-se e começou a fazer o balanço dos danos – um ato, pensou, que estava começando a ocorrer com uma regularidade deprimente. O nariz estava quebrado, ou pelo menos bem solto. O lábio superior tinha um corte feio, mas não tanto quanto no dia em que Alma May, sua terceira ou quarta mulher, lhe batera com o espremedor de batatas por ele ter sugerido trapar à moda dos cachorros na mesa da cozinha. O lábio, como o nariz, ia sangrar. Mas o que o deprimiu foi descobrir que tinha perdido os dois últimos dentes que se juntavam, e enquanto passava a língua nas cavidades salgadas e sensíveis sentiu uma fadiga melancólica infiltrar-se em seu sangue. Passar a eternidade desdentado era uma perspectiva lúgubre, mas, quem sabe talvez após umas duas centenas de anos as gengivas ficassem bastante duras para aguentar o confronto com uma porção de costeletas. Só tinha que ficar quieto e ter fé, esse era o fator principal. Não havia razão para desistir. Mas estava contente porque o dia seguinte era domingo e não que dar aula de voo para Fup. Sentia-se fatigado. Tinha uma necessidade enorme de descansar. Andava levando porradas violentas ultimamente e precisava pensar no assunto, entender o que, com os diabos, andava acontecendo. Havia alguma coisa, isso era certo. Mas também tinha certeza de que provavelmente jamais entenderia o que era, e isso contribuía fortemente para que se sentisse exausto. Era um quebra-cabeça em que nem todas as peças cabiam. Sabia que era melhor acostumar-se com isso, se fosse levar a sério esse negócio de imortalidade. Estava perto de 100 anos, agora. Quase sem dentes e perdendo fôlego; e, pensou consigo mesmo, se as coisas continuassem desse jeito, não levaria muito tempo até precisar de um corpo novinho para acompanhar-lhe o espírito.
Jim Dodge, in Fup

16/07/2020

Fup aprendendo a voar


Uma tarde, ele estava sentado na varanda, deixando a mente vaguear como de costume, tomando um gole aqui e ali, pondo um pouquinho no pires de Fup, quando de repente tomou consciência de que já se estava entediando com a imortalidade. Precisava de uma tarefa, uma tarefa que não somente desafiasse sua sabedoria, mas a ampliasse: precisava ensinar algo que não sabia. Um aluno, felizmente, estava logo à mão. Inclinando-se e acariciando seu pescoço liso, disse persuasivamente:
Fup, acho que você devia aprender a voar. Faria milagres pela sua vida social. Diabos, talvez você pudesse arranjar um marido ou pelo menos dar uma escapadinha rápida nas tábuas com algum macho de cabeça cor de esmeralda. Miúdo e eu temos falado em te arranjar um companheiro, mas a verdade é que não tenho nada de cafetão em mim… e, de qualquer maneira, seria um insulto pra tua boa aparência.
Fup olhou para ele sem emitir qualquer som e, enfastiada, enfiou a cabeça debaixo da asa.
Poxa, benzinho – insistiu vovô –, pense no assunto. Você podia voar pro México, ficar planando nos ares, olhando tudo de cima e dar um grande e belo quac!
Fup tirou a cabeça do refúgio embaixo da asa e, numa forte voz, decidida e sem uma ponta sequer de mofa, respondeu:
Quac… quac… quac – E então assoviou um pouco e deu umas pisoteadas. Vovô Jake tomou isso como uma concordância por assédio.
Mas não concordou de modo algum com a dieta. Miúdo só concordou com muita relutância, observando corretamente:
Ela não vai gostar.
Se quer voar – argumentou vovô –, tem que fazer sacrifícios. Como é que ela vai sair do chão com todo aquele peso?
Ela sé é grande pra idade – defendeu Miúdo. – Tudo é proporcional.
Miúdo, ela não é só grande pra idade dela, meu filho; ela é enorme mesmo para um pato maduro. Eu vi milhões deles no meu tempo, e Fup não só um pouquinho maior, ou um tiquinho maior, ou a metade, ou o dobro: ela é umas sete vezes o tamanho de qualquer pato dos grandes. Agora, eu não acho que ela seja grotescamente gorda ou coisa assim. Ela é simplesmente um pouco pesada demais pra voar, só isso. Inferno, a gente vai continuar dando de comer pra ela, só que não tanto.
Mas Fup queria aquele tanto, e quando não recebia ficava amuada. Examinava as porções como se forçasse a vista para enxergar, e aí, avistando a comida engolia tudo num frenesi de falsa gratidão, dava as costas e cagava no prato. Continuava sua rotina diária, em parte mantida pelas guloseimas extras que Miúdo lhe passava no trabalho, mas fazia beiço e enlanguescia a cada oportunidade. Nas menores oportunidades, Jake gostava de contar a qualquer um que estivesse ao alcance de sua voz os três grandes segredos de como proceder quando não se tem a mais vaga ideia do que se está fazendo. Esses segredos, na ordem em que invariavelmente os listava, eram: intuição, razão e desespero. Sua intuição como instrutor de voo o persuadiu de que seria melhor simplesmente agarrar Fup, levá-la a um lugar bonito e bem aberto e arremessá-la para o ar. Ele provavelmente se surpreenderia no início, mas o instinto faria com que, sem dúvida alguma, abrisse as asas, e desse ponto em diante ela com certeza captaria a ideia.
Fup, sem a menor abanada de asas, chocou-se contra a terra como um saco de cimento, moveu-se desajeitada e fracamente uma ou duas vezes e depois ficou quieta, deitada. “Cruz-credo, eu a matei”, pensou vovô consigo mesmo enquanto corria até ela, mas, à sua aproximação, ela se pôs instintivamente de pé, o bico abrindo e fechando com um som semelhante ao de um viciado em bolinhas tocando castanholas; mirou direto no vovô Jake e então atacou. Este, protegendo as gônadas com as duas mãos em concha, tomou o ângulo mais agudo até a varanda, mas não foi suficientemente rápido: Fup o atingiu como quem passa uma rasteira proposital e rasteira, um golpe baixo e forte. Enquanto ele se levantava, ainda tonto, xingando o solista lunático que estava tocando os gongos em sua cabeça e pensando que de fato andava apanhando do reino animal ultimamente, Fup deu um giro e começou de novo. Imediatamente, e com sabedoria, vovô Jake se rendeu.
Obviamente, a abordagem intuitiva, se por acaso estivesse funcionando, não o estava muito bem. Portanto, sem esforço algum, Jake mudou para a razão e as belezas mecânicas da lógica. Não ficou nem um pouco perturbado pelo fato de sua intuição ter dado errado: a intuição frequentemente falhava, às vezes de modo espetacular, mas, quando funcionava economizava tanto tempo que o espírito dava um salto adiante… e, é claro, não havia motivo para se negar o prazer essencialmente humano de acertar da primeira vez. A razão era a mais fidedigna, embora lenta. Mas, também, a paciência não é propriamente um luxo para os imortais. Há tempo de tentar até dar certo.
Jim Dodge, in Fup

05/07/2020

Vovô Jake enfrenta Cerra-Dente


Jake caminhara com ele até o topo da colina para se despedir e, pouco antes de partir, Sete Luas apontara para um pedaço de chão recentemente escavado, obra de um porco-do-mato, dando um sorriso estupendo:
Ah, aí vemos alguma esperança; o domesticado se tornando selvagem. Os porcos são muito graciosos. Seus corpos são feitos para segurar o céu. Eu não me importaria de ser um porco, alguma vez… um velho porco, louco e grande. Seria ótimo.
Vovô Jake não conseguia tirar isso da cabeça, até que finalmente contou a Miúdo o que achava, isto é, que o Cerra-Dente era o espírito reencarnado de Johnny Sete Luas, e que talvez ele devesse pensar no assunto antes de se fixar demais em matá-lo.
Miúdo sacudiu a cabeça, inflexível.
Simplesmente não é verdade, vovô – replicou quase implorando. – Quando as pessoas morrem, elas se vão. Se vão. E isso é tudo.
Assim, vovô Jake não voltou ao assunto. Não havia por quê. Sua opinião não era tão forte quanto as necessidades de Miúdo. Disse o que precisava dizer e desse modo cumpriu o que sentia ser sua responsabilidade, tanto para com o neto quanto para com seu velho amigo índio. Johnny Sete Luas, em qualquer forma que seu espírito tivesse tomado, teria que cuidar do próprio traseiro.
O mesmo valia para Miúdo, aonde quer que seu espírito o tivesse levando.
Algumas noites depois, tendo saído para sua caminhada noturna, vovô Jake deu com o Cerra-Dente na vellha trilha de cavalos que levava aos Claybourne. Encontraram-se por puro acaso no topo de uma subida; ambos recuaram por um instante e depois atacaram. Vovô foi jogado para cima, bem alto, deu uma meia cambalhota torta e caiu na terra que a chuva amaciara, como se fosse um monte de tripas no chão de um matadouro. Felizmente, a única coisa que quebrou foi a garrafa do Sussurro da Morte no bolso do casaco, e apesar de o Cerra-Dente ter dado algumas investidas de estalar as mandíbulas, açoitando as costelas de Jake, os vapores de uísque derramado logo deixaram o porco-mamute cambaleando, as bochechas raiadas de lágrimas saindo dos olhos em brasa, o muco borbulhando nas fuças destroçadas. Pulou para a moita, deixando vovô Jake fazer o balanço dos danos à sua pessoa. Ele se apalpou por toda parte, metodicamente, achando que devia estar todo fodido, sangrando, mas tudo que encontrou foram dois riachos de baba ao longo do lado direito dos eu corpo. E então, com o choque, lhe veio a imagem: a visão do Cerra-Dente surgindo por cima dele, dando guinadas no escuro com a cabeça imensa, mas velho, bem velho, a pele murcha, as costelas ondulando, duas presas faltando, arrebentadas à altura da linha do queixo, ou talvez simplesmente caídas.
Maldito seja – resmungou vovô, cambaleando para se pôr em pé. – Ainda bem que foi uma luta justa. Acho que não conseguiria sair dessa se ele já não estivesse tão gasto quanto eu.
Raspou a lama o melhor que pôde na escuridão, e então se dirigiu para o Claybourne. Estava satisfeito por não ter prosseguido a conversa com Miúdo, tentando fazê-lo ver que Cerra-Dente talvez fosse o Sete Luas, pois agora já não tinha tanta certeza disso. Johnny Sete Luas, lembrou, teria parado para lamber o uísque derramado.
Não contou ao Miúdo. Depois de pensar no assunto por três tardes, matutando com aquela meticulosidade lenta e voluptuosa que é a recompensa de uma vida tranquila, Jake reafirmou sua neutralidade. Não contaria ao Miúdo a respeito de Cerra-Dente. E não contaria ao Cerra-Dente a respeito do Miúdo. Decidido isso, voltou a atenção para outros assuntos importantes, como ensinar Fup a voar.
Jim Dodge, in Fup

18/06/2020

Johnny Sete Luas


Apesar de nunca ter dito nada, e de usar sua necessidade de sono e de bons sonhos como desculpa, vovô Jake não gostava da caça ao porco das manhãs de domingo – não gostava nadinha. Ficava aborrecido pelo fato de Miúdo estar se tornando obcecado por matar o Cerra-Dente. Caçar era uma coisa, matar era outra, e a obsessão, de qualquer forma, era, ela experiência de vovô, altamente traiçoeira; não se pode nascer sem se soltar, e muito pouca gente conseguia soltar uma obsessão.
A constância do lampejo tenso e excitado nos olhos de Miúdo o perturbava. Abençoava Fup por acompanhar Miúdo, pois, apesar da impetuosidade, ela era lenta, e os dois juntos só cobriam cerca de um oitavo do território que Miúdo conseguiria cobrir se fosse sozinho ou com cachorros. No fundo do coração, vovô não queria que o Cerra-Dente fosse morto; acreditava piamente que ele era a reencarnação de seu velho amigo Johnny Sete Luas. Essa crença constantemente o surpreendia já que em geral afirmava que essa coisa de reencarnação era um monte de bosta de cavalo com dois metros de altura.
Johnny Sete Luas fora o único homem, além de vovô, a tomar uma dose do Velho Sussurro da Morte sem vacilar Vovô o encontrara pela primeira vez ogo depois de ter desistido do jogo em favor de uma vida mais estável e sossegada. Estava sentado na varanda de frente, experimentando sua quinta bagatela, quando viu um velho índio chegar e cruzar o quintal, usando um chapéu de cowboy bem surrado e uma espécie de cachecol preto, típico de sua gente. Apesar de nunca o ter visto antes, vovô Jake o reconheceu pelas histórias como sendo o Johnny Sete Luas, um velho índio pomo que perambulava pelas colinas do litoral, aparentemente sem ter casa ou fonte de renda. Segundo algumas histórias que tinha ouvido, Johnny Sete Luas tinha sido treinado como pajé antes de o esmagamento imposto pela civilização branca desintegrar os costumes tribais. Johnny Sete Luas era suspeito de ter sabotado amplamente as cercas e o equipamento pesado dos agricultores locais, e em geral não era bem-vindo na área. No entanto, sempre se falava nele com um estranho respeito – ele era polido e manso no falar, e o seu passado de xamã sugeria certos poderes… nada específico… só uma sensação.
Vovô sentira isso antes mesmo de Johnny Sete Luas chegar à varanda perguntando se podia trabalhar em troca de algo para beber, de preferência uísque. Sentaram-se na varanda e ficaram bebendo uísque por dois dias, e até a tardinha do terceiro. Vovô Jake o achou um excelente companheiro, pois durante todo esse tempo Johnny Sete Luas não emitiu uma palavra. Ficou sentado, tomando uns goles na garrafa, contemplando o dia, a noite, calmo e extremamente quieto.
Na terceira noite, ele deu uma respirada profunda, virou-se para Jake e disse:
Deixa eu te contar sobre meu nome, Sete Luas. Acrescentei o Johnny quando o homem branco chegou, pois achei que soava jovem e sexy, mas não parecer ter ajudado muito. Agora eu acho ruim inventar nomes, mas o mantenho pra me lembrar que a gente precisar viver com os próprios erros. Recebi o meu nome, Sete Luas, quando fui treinado para pajé. Saí por aí, sozinho, procurando meu nome numa visão. Perambulei e procurei, sem comida, por três dias, uma semana. Não aconteceu nada. No sétimo dia, quando o sol tocou o mar, dei com um grupo de moças de outra aldeia, colhendo junco e bagas. Era uma noite morna de outono. Elas estavam acampadas ao longo de um pequeno córrego cozinhando um salmão gordo, e tinham um pão de bolota de carvalho e frutas silvestres. Você já reparou como a fome chega ao máximo quando se está bem perto de satisfazê-la? Eu me juntei a elas e comemos bem. Naquela noite, enquanto a lua cheia viajava pelo céu, fiz amor com cada uma delas, e com cada uma senti a lua cheia se queimando no meu corpo, uma luz grande, cor de pérola, explodindo na minha cabeça. Sete Moças. Sete Luas – fez uma pausa, sorrindo na penumbra. – Teu uísque… quatro luas, talvez cinco.
Desde essa primeira visita e até ele morrer, seis anos mais tarde, Johnny Sete Luas aparecia na casa de Jake mais ou menos a cada dois meses, e Jake, ao mesmo tempo em que gostava de sua silenciosa companhia, adorava suas raras elocuções. Sete Luas, por reverência ou desconfiança da linguagem, nunca falava muito, mas, quando o fazia, sempre dizia alguma coisa. Jake se lembrava de algumas vezes em particular. Uma vez, enquanto olhavam o sol se pôr no mar, Sete Luas dissera com o doce enfado do deslumbramento constante:
Sabe, eu vi o sol se pôr 30 mil vezes e não consigo me lembrar de duas que tenham sido iguais. Que mais é possível desejar?
Numa outra vez, varreu a mão pela paisagem e disse:
Arg, vocês brancos fizeram muito pra tirar isso da gente, mas nada pra merecer. Vocês querem domar tudo, mas, se ficassem quieto e sentissem por um momento, saberiam que tudo anseia por ser selvagem – deu uma cuspida – E tosa essa gente com cercas, cercas, cercas. Afinal, o âmago da questão não é se deixar nada dentro e nada fora? Mas sei que você compreende isso, Jake, porque você não tem cercas e dedica sua vida a fazer uísque e ficar sossegado, e essas atividades nobres que valorizam o espírito de um homem.
Essa declaração veio assombrar Jake quando Miúdo começou a construir as cercas. Mas quando Miúdo transformou a caça ao Cerra-Dente num ritual obsessivo, o que assombrava Jake até o fundo era a lembrança das palavras que Sete Luas lhe dissera da última vez.
Jake caminhara com ele até o topo da colina para se despedir e, pouco antes de partir, Sete Luas apontara para um pedaço de chão recentemente escavado, obra de um porco-do-mato, dando um sorriso estupendo:
Ah, aí vemos alguma esperança; o domesticado se tornando selvagem. Os porcos são muito graciosos. Seus corpos são feitos para segurar o céu. Eu não me importaria de ser um porco, alguma vez… um velho porco, louco e grande. Seria ótimo.
Jim Dodge, in Fup

05/06/2020

Caça ao porco Cerra-Dentes


O drive-in era divertimento. A caça ao porco no domingo de manhã era trabalho sério – ao menos para Miúdo e para Fup. Como saíam ao nascer do sol, vovô não ia com eles, não vendo razão alguma para perturbar seus sonhos ou, segundo alegava, para se exibir. No entanto, oferecia palpites sem fim.
Havia discussões consideráveis entre as pessoas do lugar a respeito de Fup ser realmente um pato-de-porco, no sentido em que Patrão fora um cão-de-porco. Com seu bamboleio de serpente, o bico trabalhando o chão como o nariz de um cão de caça traçando uma trilha recente, ela parecia estar caçando. Mas não encontrava muitos porcos, embora os farejasse ou desse com eles por acaso, frequentemente parecendo saber o que fazia. Para Miúdo, que a seguia tendo nos braços sua 243, não havia dúvida. Quando ele topava com uma trilha fresca, começa a grasnar para si mesma e, quando a trilha ficava mais quente, o volume e a intensidade aumentava. Ele considerava isso prova de que ela estava de fato na trilha, e não somente esquadrinhando. Também estava convencido de que ela tinha excelente olfato e, mesmo que ninguém concordasse, além de vovô Jake, acreditava que Fup era capaz de seguir o rastro de qualquer porco que quisesse. Mas ela estava atrás de um porco em particular: o Cerra-Dente. Miúdo tinha certeza de que os porcos que ela farejava, quando não se tratava do próprio, eram-lhe diretamente relacionados, talvez alguma cria com cheiro parecido. Não o podia provar, é claro, e isso o frustrava. Vovô lhe disse que não havia necessidade de provar nada, que a maior parte das coisas fala por si mesma, mas que também não devia presumir que todos os seus raciocínios fossem necessariamente corretos. As razões das coisas, advertiu vovô, eram complicadas.
Em 32 domingos de caça, encontraram o Cerra-Dentes duas vezes. Na primeira, o grasnar louco de Fup o assustou cedo demais, e Miúdo só teve tempo para um único tiro, a 250 metros. Ao som da espingarda, Cerra-Dentes saiu rolando colina abaixo. Mas, quando Miúdo e Fup conseguiram chegar até o local onde o tinham visto cair, não havia sinal dele. Nada de corpo, nada de sangue. Fup pegou o rastro imediatamente, mas o perdeu no final da descida que dava no riacho Mckensie. Subiram e desceram o riacho, dos dois lados, até bem depois do meio-dia, mas não encontraram sinal algum. Fup estava tão exausta que Miúdo teve que carregá-la para casa.
Na segunda vez que avistaram o Cerra-Dentes, ele os viu primeiro, fez a volta sobre as próprias pegadas, deitou-se num emaranhado bosque de castanheiros para esperar e, quando passaram, investiu contra as pernas de Miúdo; não acertou, mas derrubou-o e literalmente passou por cima de Fup e esmagou tão seriamente um dos seus pés palmípedes que foi preciso que Miúdo a carregasse de volta para casa. Mas Miúdo dera uma olhada clara – se bem que rápida – no Cerra-Dentes, pouco antes de cair de bunda no chão, e assegurou a Fup, enquanto a carregava, que aquele porco não poderia durar para sempre, que parecia estar ficando mais vagaroso, um tiquinho mais magro, perdendo uma presa, e definitivamente tinha agora um par de buracos de 243 em cada orelha, para combinar.
Vovô foi encontrá-los na porta da cozinha.
Nem precisa me dizer que viu aquele porco… sei que você viu.
Como é que você tem tanta certeza? – perguntou Miúdo.
Por que toda vez que o vê, você volta para casa carregando a Fup.
Fup Vaiou.
Miúdo fez uma carranca e depois sorriu.
Vovô soltou um uivo.
Cerra-Dentes, cansado do esforço, tomou seu caminho do riacho até o emaranhado de raízes expostas de sequoias, onde gostava de tirar suas sonecas nas tardes quentes. Deu uns poucos grunhidos profundos no caminho, ressoando sua satisfação. Ser perseguido a cada sete dias por um pato enorme e estranho e um menino gigante era um aborrecimento, mas não oferecia muito perigo. É claro, como diria vovô Jake, nada é muito perigoso para um imortal. Eles sobrevivem por definição, de um jeito ou de outro.
Jim Dodge, in Fup

17/05/2020

Os filmes favoritos


Miúdo e vovô Jake eram ambos fãs de bangue-bangues, especialmente quando havia pistoleiro enfrentado um xerife bem intencionado. Vovô, em geral já na segunda garrafa do dia, torcia descaradamente pelos fora-da-lei e outras forças contrárias à ordem, muitas vezes se inclinava pata fora da janela a fim de berrar uns palpites para a tela.
Não, não, seu burro de merda. Não espere ele na rua… arme uma emboscada pro filho-da-puta por detrás do bebedouro.
Também era altamente crítico quanto à escolha das armas do atirador, vociferando para Miúdo e para Fup:
Puta que pariu, por que sempre querem usar essas malditas pistolas? Não dá para atingir merda nenhuma com elas além de dez metros. Uma situação como essa exige uma espingarda de cano cortado, calibre 10, e nove ou dez bananas de dinamite. Idiotas! É claro que nunca vão ganhar!
Silenciosamente, Miúdo torcia pelo Xerife.
Fup era geralmente indiferente aos bangue-bangues, exceto em determinadas cenas, quando ela granava de excitação. Levou uns cinco meses para Miúdo e vovô perceberem que o que todas as cenas tinham em comum eram cavalos. Depois de discutir o assunto, resolveram comprar um potro para lhe fazer companhia, quando a égua de Bill Leland parisse, o que estava previsto para a primavera seguinte. Quando chegaram em casa naquela noite, Miúdo começou a esboçar a planta de um curral de estacas de madeira partida, com três metros de altura.
Os filmes favoritos de Fup eram os romances, fossem estes leves e divertidos ou trágicos e cheios de crimes. Ela assistia a eles atentamente de seu poleiro, atrás do assento, curvando a cabeça ocasionalmente para grasnar em solidariedade aos problemas que assolam o amor. Não tolerava os comentários zombeteiros e constantemente obscenos de vovô, e depois de quase lhe arrancar a orelha várias vezes, ele acabou cedendo com um resmungo. Miúdo via tudo isso sem comentários.
Vovô Jake gostava de filmes de terror, tanto quanto de bangue-bangues. Achava-os hilariantes. Miúdo e Fup não gostavam de maneira alguma. Miúdo fechava os olhos nos momentos críticos. Fup andava de um lado para o outro no assento, às vezes sibilando para o monstro ou grasnando freneticamente a fim de prevenir uma vítima desavisada que, em geral, estava muito inocentemente explorando uma caverna radiativa ou perambulando e apertando botões em um laboratório numa noite de relâmpagos.
Considerando-se as limitações de seus gostos, era sorte que o Rancho Deluxe sempre passasse dois filmes. No intervalo, atravessando o asfalto cheio de obstáculos, Miúdo a até as bancas comprar alguns petiscos. A encomenda era geralmente a mesma: dois pedaços de carne-seca para o vovô se ocupar, oito saquinhos de amendoim salgado e duas root-beers grandes para si próprio, e, para Fup, um saco de pipocas amanteigadas, tamanho família, de 2,99 dólares, mais um copo duplo de laranjada. Petiscavam enquanto começava o segundo filme.
Jim Dodge, in Fup

06/05/2020

Fup no drive-in


Cerca de uma hora antes do pôr-do-sol, vovô Jake se levantava, esticava-se e ia para dentro de casa começar a fazer o jantar, enquanto Fup bamboleava até o tanque e boiava graciosamente ao crepúsculo, às vezes grasnando baixinho para si mesma. Tinham construído um tanque para ela no primeiro mês após sua recuperação. Era na mesma escala da caixa de areia de Miúdo. De acordo com Pipi Stranton, que fizera o buraco, o tanque ra mais propriamente um pequeno lago, ou pelo menos bastante grande para fornecer água para a maior parte dos animais criados entre Santa Cruz e Petaluma.
Por algum tempo, Miúdo e vovô Jake tinham tentado ensinar Fup a jogar damas, todo dia depois do jantar, mas depois de alguns meses desistiram. Não foi porque não compreendesse a natureza do jogo – e até mesmo, talvez, suas nuanças; é que simplesmente não gostava quando tentavam tirar uma de suas peças do tabuleiro. Bem que gostava quando comia uma peça deles e a pegava com o bico, deixando que caísse no chão, mas quando uma das suas peças era comida, ela pulava – para cima e para baixo no tabuleiro, com seus pés palmípedes pisoteando selvagemente e espalhando as peças de tal maneira que tinham de dar o jogo por empatado e começar outra vez. Coletivamente, acabaram desistindo.
As únicas exceções à rotina diária eram parte de um acordo mais amplo. Os dois desvios principais eram filmes no drive-in, na sexta-feira à noite, e a caça ao porco, no domingo de manhã.
Todos eles gostavam de cinema. O mais próximo (uma descrição mais iria dignificá-lo) era o Drive-in Rancho Deluxe, perto de Graton, a uns 60 quilômetros e duas horas de distância. Fup ia na cabina, entre Miúdo, que guiava, e vovô Jake, de co-piloto.
Na primeira vez que levaram Fup, a ruiva robusta da bilheteria se inclinou para dentro da cabina da caminhonete, deu uma mascada no chiclete e perguntou:
O que é isso?
Um pato… uma pata, melhor dizendo – respondeu Miúdo. – E o meu avô.
Essa danada é a maior pata que já vi.
Sim senhora… e a gente nem se importaria de pagar extra por ela, apesar da placa lá fora dizer dois dólares por carro.
Fup abaixou a cabeça e soltou um som sibilante e esganiçado.
Não, não tem que pagar extra, não. Ela faz parte da carga. Podem entrar. Eu falo com o gerente e se tiver algum problema de regulamento ou coisa parecida ele vem falar com vocês.
Vovô inclinou-se no assento.
Se tiver algum problema, são dois problemas. Morou?
Ela suspirou e mascou o chiclete.
É. Deu pra sacar.
O gerente, homem baixo, severo, de terno barato metido a fino, uma risca de bigode que lhe dava um toque de camundongo, viu Miúdo assomando no assento do motorista e cometeu o erro de escolher o lado da caminhonete em que estava vovô.
Quando vovô abaixou a janela, o gerente olhou para dentro, confirmou a presença de Fup com uma olhada e perguntou:
Que é que esse pato está fazendo no meu estabelecimento?
Ela quer ver o filme – disse Miúdo amigavelmente, interrompendo vovô, que já estava começando a espumar.
Não queremos nada fora do comum – disse o gerente com firmeza, embora sem referência direta.
Vovô entrou em erupção:
Bem, isso realmente simplifica muito a merda da sua vida, né? Acontece que esta é uma Pata de Ataque Kug-Fu, especialmente criada pela Sociedade Tong. Deixaríamos em casa, mas ela anda matando todos os coiotes.
Isso não é realmente verdade, seu gerente – disse Miúdo logo em seguida. – Nós a achamos num buraco de estaca e a criamos. Ela é parte da família.
Escute, disse o gerente, erguendo as mãos com exasperação–, queremos ser razoáveis, mas…
Eu não – rosnou vovô Jake rangendo os dois dentes que se juntavam. – Se você não for embora e nos deixar em paz para desfrutar a nossa noite nesta espelunca de merda que faz de conta que é drive-in, amanhã voltamos com a traseira da caminhonete cheia de porcos-do-mato e um par de tinas cheias de mingau de milho fermentado, e se isso não convencer a tua inteligência, a gente volta na noite seguinte e meu filho Miúdo te arranca os braços e te soca a cabeça com eles ate que você entenda isso.
Eu só faria isso se estivesse realmente muito puto – assegurou Miúdo.
Fup enfiou a cabeça debaixo da asa.
]– Não quero saber de ameaças – estrilou o gerente.
Não, você quer é se machucar – prometeu vovô. E então acrescentou, ainda em tom agudo mas já um pouco mais brando: – Uma pata. Uma pata. Que porra de diferença pode fazer pro teu coração atrofiado ou pro mundo em geral?
Tá bem, tá bem – o gerente afrouxou, recuando. – Mas deixe ela no carro. E se houver qualquer coisa fora do normal, a gente bota vocês pra fora. E sem devolver o ingresso.
Depois disso, não houve mais problemas na entrada do drive-in.
Jim Dodge, in Fup

30/04/2020

Fup e o Velho Sussurro da Morte



Desde as primeiras semanas em que esteve com eles, Fup demonstrou rígida paixão pelo equilíbrio e pela ordem no cotidiano doméstico. Dormia numa almofada grande de espuma, no corredor, equidistante dos quartos de Miúdo e de vovô Jake. Acordava Miúdo precisamente uma hora antes do nascer do sol, saltitando no seu peito para cima e para baixo. Comia um balde cheio de milho como pré-refeição, enquanto Miúdo cozinhava ovos, linguiça e panquecas para o desjejum que repartiam meio a meio, Fup comia lá fora na varanda, Miúdo acompanhava nas manhãs amenas. Depois do desjejum, ao nascer do sol, partiam para o dia de trabalho nas cercas. Fup ficava olhando Miúdo, acrescentando aqui e ali um comentário quacal. Às vezes ajudava, examinando o prumo de uma estaca com o olho meio torto, tangendo o fio de arame para testar a tensão, ou ocasionalmente segurando a ponta da arena; com a mesma frequência, porém, fuçava por toda parte, espetava um inseto errante, ou descansava. Quando Miúdo cavava buracos para as estacas, ela enfiava a cabeça debaixo da asa.
Exatamente entre o nascer do sol e o meio-dia, eles faziam um intervalo de meia hora para o sanduíche e o chá gelado que Miúdo preparava na noite anterior. Depois do intervalo, continuavam o trabalho até o meio-dia, e daí voltavam para casa, para o almoço. Miúdo começava a refeição enquanto Fup acordava vovô mordiscando-lhe os dedos do pé. Depois do almoço, Miúdo voltava para o trabalho nas cercas enquanto Fup acordava vovô mordiscando-lhe is dedos do pé. Depois do almoço, miúdo voltava para o trabalho nas cercas enquanto vovô e Fup se refugiavam na varanda para bebericar um pouco do Sussurro da Morte, ficar de papo pro ar e meditar sobre o fluxo das coisas em geral. Fup bebia num pires raso; Jake, direto da garrafa. Agradava profundamente a vovô o fato de tanto Miúdo quanto Fup apreciarem seu uísque. Miúdo ele sabia, usava a bebida para enfrentar a insônia e acalmar os sonhos. No caso de Fup, estava convencido de que a gota de emergência do Velho Sussurro da Morte lhe salvara a vida e, tinha certeza, ela continuava a usá-lo em homenagem aos seus poderes revitalizantes. Ela bebia cerca de três colheres de sopa por dia, e raramente mais que cinco, a não ser que o dia estivesse frio ou nebuloso. Sua única reação evidente ao uísque era bater o bico nas canelas de vovô quando queria mais.
Jim Dodge, in Fup

12/04/2020

O andar e a fala de Fup



Nas primeiras semanas de recuperação, ficou evidente que Fup era uma pata diferente. Recusava-se a comer ou cagar na casa. Bamboleava até a porta, piando freneticamente e batendo o bico como um pica0pau deformado, até que alguém a deixasse sair.
Seu apetite era onívoro e imenso. Panquecas, queijo, milho, carne de veado, cascas de cebola, o que lhe dessem era devorado. E como comia, crescia. Em quatro meses pesava dez quilos. Vovô Jake, partidário de excessos de qualquer tipo, ficou tão impressionado que convidou os vizinhos para vê-la.
Puta que pariu – murmurou Willis Hornsby enquanto Fup engolia meio quilo de linguiça e começava a enfiar para dentro uma lata de cevadinha.
Não há problema com o comedor dela, né – vovô sorriu radiante. – Vai atrás de comida como um aspirador de pó empenado.
Willis sacudiu a cabeça:
Nunca vi coisa igual.
Me faz achar que devia chamado ela de Electrolux – opinou Jake. – Ou, diabos, melhor ainda, Dolly P.
Dolly P.? Perguntou Willis. – Parece nome de arco de pesca.
Hã. Dolly Pringle. Uma ruivona com quem eu rodava lá em Coos Bay. Uma mulher de talentos incríveis. Conseguia chupar uma bola de golfe através de 25 metros de mangueira de jardim. Vi ela chupar até gasolina com sifão ladeira acima. Você talvez não acredite, mas ganhei uma aposta de mil dólares de Dave Stevens, o Grandão, numa noite em que saímos com a Dolly pro estacionamento e ela chupou todo o cromado da bola de engate de um trailer em 14 minutos e 32 segundos.
Vovô suspirou com um amor desamparado.
Só de pensar naquela mina, meu velho pau estremece.
Melhor esperar que a pata não te veja – murmurou Willis, observando Fup atacar as últimas migalhas de cevada.
Foi um aviso sensato, pois Fup provou ser tão feroz quanto esfomeada. Antes, quando ainda dava para ser pesada em gramas, tinha se aventurado a acompanhar vovô numa tarde de bebericos na varanda. Buster, um cão de caça geralmente comatoso, acuou-a para baixo do sofá verde esfarrapado onde ela, disparando, procurou abrigo. Quando o cachorro finalmente se rendeu a vovô, que lhe socava a cabeça, e se arrastou até a varanda choromigando para adormecer, Fup, com um único QUUUAAAAAA de camicase, atacou de seu esconderijo e apertou o bico, como alicates eternos, nos testículos de Buster, segurando-os ferozmente enquanto o cão uivante girava em círculos tentando abocanhar o animalzinho de 250 gramas que se balançava no seu saco. Vovô gargalhou tanto que teve de engatinhar até a varanda da frente e bater com a cabeça no chão para parar.
Além do apetite e do mau humor, Fup se distinguia pelo andar e pelo falar. Seu andar era bobamente gracioso, um gingado meio curvado ara a frente que mal a sustentava em pé, um bamboleio contínua e precariamente equilibrado pelo pescoço estendido para a frente, a cabeça balançando como uma serpente encantada: um movimento como que entre um rastejar sem jeito e uma busca hipnótica. Era desajeitada e, ainda assim, sem esforço algum, prosseguia com seu bamboleio inabalável. Impulso movido pela massa, porém, seus pés palmípedes, de um laranja vivo, não eram feitos para tal velocidade, e, apesar de seu progresso ser certo, sempre parecia duvidoso, e sempre carregava uma melancólica contradição entre a biologia e o terreno. Não mostrava absolutamente inclinação alguma para voar.
Seu falar era direto, se por falar se queira dizer uma resposta sônica ou somática ao meio ambiente. Seu vocabulário era pequeno, mas rico. Um quá indicava concordância. Dois, relacionamento. Três significavam aprovação sincera. Quatro ou mais emitidos em séries agudas e excitadas: qua-uaq-uaq-uaq-uaq-uaq indicavam a concordância total e alegre. Se abrisse o bico sem fazer som algum, gesto mais ou menos entre um bocejo entediado e uma tentativa de vômito, significava discordância profunda; se isso fosse acompanhado de um som baixo e sibilante, com a cabeça abaixada e as asas levemente abertas, indicava discordância profunda e ataque iminente. Se enfiasse a cabeça debaixo da asa, você, o assunto e o resto do mundo enfadonho estavam dispensados.
Jim Dodge, in Fup