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15/11/2023

Brasil | Cazuza, George Israel e Nilo Romero, 1988


Escrita no calor da hora, como um desabafo contra os desmandos e ladroagens dos políticos naquele final conturbado dos anos 1980, “Brasil” continua mais atual do que nunca. O país pouco avançou em questões éticas e morais, a sua cultura política apodreceu e os escândalos se sucedem, cada vez maiores.
Talentoso, original e abusado, Cazuza foi o porta-voz da indignação nacional do momento, falando grosso e debochando das nossas misérias e da nossa impotência contra os vilões de sempre. Coloquial como se estivesse numa roda de bar, ele se colocava à margem da sociedade, barrado na “festa pobre” e condenado a consumir “a droga que já vem malhada / antes de eu nascer”.
Com uma sucessão de imagens agressivas e dramáticas, montou um mosaico em que desencanto e deboche se juntam numa declaração de amor e ódio ao país, um retrato amargo de uma “grande pátria desimportante” que, apesar de tudo, ele não pretendia trair.
Parceria com o baixista e produtor Nilo Romero (1960) e com o saxofonista George Israel (1960), “Brasil” foi lançada no terceiro álbum solo de Cazuza, Ideologia (1988), quando ele já tinha sido diagnosticado como soropositivo e estava com as emoções à flor da pele, expressando seus sentimentos com a raiva e a liberdade dos que estão marcados para morrer.
Na sua fase final, a celebração dos excessos e do hedonismo foram trocados por reflexões amargas e desilusões contundentes sobre o Brasil, como na faixa-título do disco, em que pedia “uma ideologia, eu quero uma pra viver”, ou na antológica “O tempo não para” (com Arnaldo Brandão):
Tua piscina está cheia de ratos / tuas ideias não correspondem aos fatos / O tempo não para.”
Regravada por Gal Costa, “Brasil” foi usada como tema de abertura da novela Vale tudo, da Rede Globo (1988), e levou dois troféus do Prêmio Sharp (que depois se tornou o Prêmio da Música Brasileira): Música do Ano e Composição Pop-Rock do Ano, e ainda o de Álbum Pop-Rock do Ano por “Ideologia”.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

25/09/2023

Pro dia nascer feliz | Cazuza e Frejat, 1983


Lançada pelo Barão Vermelho em 1983, “Pro dia nascer feliz” dormia esquecida no segundo disco do grupo carioca até, meses depois, chegar às rádios a sensacional versão de Ney Matogrosso. Grande amigo de Cazuza, Ney tinha ouvido a canção numa fita, antes de a gravação do Barão chegar ao mercado, e insistiu para regravá-la no álbum …pois é, que saiu no fim do ano.
O impacto nas rádios deste rock cru, de letra hedonista, na voz de Ney foi tão forte que despertou o interesse de alguns programadores pela versão original do Barão. Relançada em single pela Som Livre, essa gravação, mais rascante e suja, também começou a ter grande execução, chamando atenção para a nova banda e dando o primeiro de muitos hits à dupla Frejat e Cazuza.
Rebelde e amoroso, sensível e debochado, cronista agudo de seu tempo, falando de sexo e drogas com uma linguagem original em que amores adolescentes do rock se cruzam com dramas passionais do samba-canção, Cazuza (Agenor Miranda de Araújo Neto, 1958-1990) encontrou em Roberto Frejat (1962) o parceiro ideal. O guitarrista encharcou de rock e blues aquelas crônicas cariocas de uma vida sem rédeas, levada às últimas consequências, como celebraram em “Pro dia nascer feliz”, autorretrato do artista como um assumido vagabundo em busca do prazer, “nadando contra a corrente só para exercitar / todo o músculo que sente” e sempre querendo mais.
Influenciados pelos Rolling Stones, e incentivados pelo produtor Ezequiel Neves, eles se tornaram os Jagger & Richards do rock brasileiro. Durante cerca de quatro anos, os dois produziram muito, emplacando vários sucessos, como “Bete Balanço”, “Por que que a gente é assim?” e “Todo amor que houver nessa vida”, até Cazuza sair para a carreira solo em 1985.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

26/04/2012

Segredos de liquidificador


Rebelde, romântico, escandaloso, tímido, debochado, doce, ácido, sincero, aprendiz; travesso, boêmio, praiano, irreverente, solidário, egoísta, sensível, despudorado; burguês antiburguês, índio americano, viciado em amar errado. Anjo e sedutor, pão e vinho, silêncio e berro. Samba, blues, bossa, fossa, rocknroll. Exagerado. Na identidade, Agenor; entre os amigos, Caju. Mas foi pelo codinome Cazuza que ficou marcado na história da música brasileira. De sua vida fez sua obra e com ela manteve-se vivo. Através de suas composições mostrou sua cara, desenhou uma geração, pintou um país.
Ao som da canção “Codinome Beija-flor”, de repente, uma imagem salta para encher-se de significados e organizar o presente trabalho. Paradoxal e enigmática, a metáfora “segredos de liquidificador”10 possibilita diversas leituras. A princípio, quando são ditos segredos de liquidificador, o que se quer é trazer calor para uma “orelha fria”, fazê-la entender que o bom do amor não deve ser contido, indolor nem aguado. A aceitação desse segredo decerto é dilacerante, turbulenta e trituradora. E explode seu escarcéu internamente e em silêncio.
Passando a uma atmosfera ainda mais sensual, é possível chegar a duas situações. A primeira diz respeito àquilo que é dito ao “pé do ouvido” na hora do sexo – os íntimos sussurros que acabam sendo escutados pelo prédio inteiro. A segunda – explicada pelo próprio Cazuza – evoca a língua que gira acelerada mergulhando no ouvido, em um gesto intensamente erotizado, embora temperado por um ar de brincadeira de criança travessa. Tais explicações deixam a imagem ainda mais deliciosa. E mais cazuzeana.
Todavia, esgarçando as possibilidades de interpretação, chegamos a uma visão ainda mais ampla da imagem. Veja-se que o liquidificador é o utensílio doméstico que converte – de forma bastante barulhenta – determinado conjunto de ingredientes em uma mistura silenciosa. Às vezes, até, elementos que parecem não combinar unificam-se sob a mesma cor, instigando através do paladar o interesse pela misteriosa receita. Mas afinal, não é da própria poesia que se está falando? Todo poeta/compositor bate dentro de si elementos biográficos, interesses artísticos, posicionamentos ideológicos, diálogos musicais e literários. A poesia é sempre um mistério, é sempre uma mistura. E, por vezes, a chave daquele está na descoberta desta. É preciso penetrar surdamente no reino das palavras.
Rafael Barbosa Julião, in Segredos de liquidificador: um estudo das letras de Cazuza. Dissertação de Mestrado em Letras Vernáculas. Faculdade de Letras – UFRJ, Rio de Janeiro.