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01/08/2025

A aventura de Johnnie Waverly



O senhor não pode entender os sentimentos de uma mãe — disse mrs. Waverly possivelmente pela sexta vez.
Ela lançou um olhar suplicante para Poirot. Meu pequeno amigo, sempre simpático aos sentimentos maternos em apuros, fez um gesto de assentimento.
Mas é claro, claro, entendo perfeitamente. Tenha fé no papa Poirot.
A polícia... — começou mr. Waverly.
Sua esposa descartou a interrupção com um gesto.
Não quero mais nada com a polícia. Nós confiamos neles e veja o que aconteceu! Mas eu ouvi falar tanto de monsieur Poirot e das coisas maravilhosas que fez, que sinto que ele poderia nos ajudar. Os sentimentos de uma mãe...
Poirot conteve agilmente a reiteração com um gesto eloquente.
A emoção de mrs. Waverly era obviamente genuína, mas não combinava com suas feições inteligentes e muito severas. Quando fiquei sabendo mais tarde que era a filha de um proeminente industrial siderúrgico que subira na vida de auxiliar de escritório até sua eminência atual, percebi que ela havia herdado muitas qualidades paternas.
Mr. Waverly era um homem grande, corado, de aparência jovial. Estava de pé com as pernas bem abertas e lembrava um proprietário rural.
Suponho que sabe tudo sobre esse caso, monsieur Poirot?
A pergunta era quase supérflua. Nos últimos dias, os jornais estiveram repletos do rapto sensacional do pequeno Johnnie Waverly, o filho de três anos e herdeiro de Marcus Waverly, proprietário de Waverly Court, Surrey, e membro de uma das famílias mais antigas da Inglaterra.
Os fatos principais eu conheço, claro, mas me relate a história inteira, monsieur, eu lhe peço. E com detalhes, por favor.
Bem, imagino que o começo da coisa toda foi há cerca de dez dias quando recebi uma carta anônima: coisas agressivas, de toda sorte, sem pé nem cabeça. O escritor teve a impudência de pedir que eu lhe pagasse 25 mil libras... 25 mil libras, monsieur Poirot! Se não concordasse, ele ameaçou raptar Johnnie. Claro que eu joguei a coisa na cesta de lixo sem muito barulho. Achei que fosse alguma brincadeira cretina. Cinco dias depois, recebi outra carta. “Se não pagar, seu filho será raptado no dia 29.” Era o dia 27, Ada estava preocupada, mas eu não conseguia levar a coisa a sério. Que diabo, estamos na Inglaterra. Ninguém sai por aí raptando crianças e pedindo resgate por elas.
Não é uma prática comum, com certeza — disse Poirot. — Prossiga.
Bem, Ada não me deixava em paz, então eu, me sentindo um pouco tolo, levei o assunto à Scotland Yard. Eles não pareceram levar a coisa muito a sério, inclinados para a minha opinião de que era alguma brincadeira cretina. No dia 28 eu recebi uma terceira carta. “Você não pagou. Seu filho lhe será tirado amanhã, dia 29, ao meio-dia. Vai lhe custar 50 mil libras para recuperá-lo.” Lá fui eu à Scotland Yard de novo. Desta vez eles ficaram mais impressionados. Eles se inclinaram à opinião de que as cartas foram escritas por um lunático, e que, com toda probabilidade, uma tentativa de algum tipo seria feita na hora estipulada. Eles me tranquilizaram de que tomariam as devidas precauções. O inspetor McNeil e uma força suficiente viriam até Waverly pela manhã e se encarregariam do caso.
Fui para casa mais aliviado. Mas nós tínhamos a sensação de estar num estado de sítio. Dei ordens para nenhum estranho ser recebido, e para ninguém sair da casa. A noite transcorreu sem nenhum incidente adverso, mas, na manhã seguinte, minha esposa estava seriamente indisposta. Alarmado com o seu estado, mandei chamar o doutor Dakers. Seus sintomas pareceram intrigá-lo. Embora hesitando sugerir que ela havia sido envenenada, pude perceber que era o que ele tinha em mente. Não havia nenhum perigo, ele me tranquilizou, mas demoraria um dia ou dois para ela ficar em forma de novo. Retornando ao meu quarto, fiquei sobressaltado e chocado ao descobrir uma nota presa com alfinete no meu travesseiro. Era na mesma caligrafia das outras e continha apenas três palavras: “Às doze horas”.
Tenho que admitir, monsieur Poirot, que fiquei furioso. Alguém na casa estava metido na coisa... um dos criados. Eu convoquei todos eles, insultei-os de todas as maneiras. Eles não se desuniram. Foi miss Collins, acompanhante de minha esposa, que me informou que tinha visto a enfermeira de Johnnie se esgueirar pelo passeio naquela manhã bem cedo. Eu cobrei-lhe isso e ela desmoronou. Havia deixado a criança com a babá e saído às escondidas para se encontrar com um amigo seu, um homem! Belas andanças! Ela negou que tenha pregado a nota no meu travesseiro, e pode ter dito a verdade, não sei. Senti que não poderia assumir o risco de a própria enfermeira da criança estar envolvida na trama. Um dos criados estava implicado, disso eu tinha certeza. Eu finalmente perdi a cabeça e demiti o bando todo, enfermeira e tudo. Eu lhes dei uma hora para embalarem suas coisas e saírem da casa.
O rosto de mr. Waverly ficou dois tons mais vermelho apenas com a lembrança de sua ira.
Isso não foi um pouco precipitado, monsieur? — sugeriu Poirot. — Por tudo que sabe, o senhor pode ter feito o jogo do inimigo.
Mr. Waverly o fitou.
Não vejo assim. Mandar todo mundo embora, essa era a minha ideia. Telegrafei para Londres pedindo para enviarem um lote novo naquela noite. Nesse ínterim, só haveria pessoas em que eu podia confiar na casa: a secretária de minha esposa, miss Collins, e Tredwell, o mordomo, que está comigo desde que eu era um garoto.
E essa miss Collins, há quanto tempo está com vocês?
Apenas um ano — disse mrs. Waverly. — Ela tem sido útil para mim como secretária e acompanhante, e também é uma administradora doméstica muito eficiente.
A enfermeira?
Ela está comigo há seis meses. Veio com referências excelentes. Mesmo assim, nunca gostei dela de verdade, embora Johnnie fosse muito apegado a ela.
Mesmo assim, deduzo que ela já havia partido quando a catástrofe ocorreu. Talvez, monsieur Waverly, faria a bondade de continuar.
Mr. Waverly retomou sua narrativa.
O inspetor McNeil chegou por volta das dez e meia. Os criados já haviam partido a essa altura. Ele se declarou muito satisfeito com os arranjos internos. Ele postou vários homens no parque, guardando todos os caminhos de acesso à casa, e me tranquilizou de que se a coisa toda não fosse um trote, nós seguramente agarraríamos meu misterioso correspondente.
Eu estava com o Johnnie ao meu lado, e ele, eu e o inspetor fomos juntos para a sala que chamamos de câmara do conselho. O inspetor trancou a porta. Havia um grande relógio de parede ali, e quando os ponteiros estavam se aproximando do doze, não me importo de confessar que fiquei nervoso como um gato. Alguma coisa zumbiu, e o relógio começou a bater. Eu agarrei o Johnnie. Tinha a sensação de que um homem poderia cair do céu. A última badalada soou, e quando isso aconteceu houve uma grande algazarra do lado de fora, grito e correria. O inspetor levantou a janela com força, e um guarda chegou correndo.
Nós o pegamos, senhor”, ele disse ofegante. “Estava se escondendo nos arbustos. Trazia um equipamento completo de dopagem com ele.’’
Nós corremos para o terraço onde dois policiais estavam segurando um sujeito com aparência de malfeitor trajando roupas surradas que se retorcia e virava em vão no esforço para se desvencilhar. Um dos policiais estendeu um pacote aberto que eles tinham arrancado à força de seu cativo. Ele continha um chumaço de algodão e um frasco de clorofórmio. A visão disso fez meu sangue ferver. Havia também uma nota, endereçada a mim. Eu a abri. Ela trazia as seguintes palavras: ‘Devia ter pago. O resgate de seu filho agora lhe custará 50 mil. Apesar de todas suas precauções, ele foi sequestrado no dia 29 como eu havia dito.’
Eu soltei uma gargalhada, a gargalhada de alívio, mas enquanto o fazia ouvi o ronco de um motor e um grito. Virei a cabeça. Era um carro cinza baixo e comprido correndo numa velocidade furiosa pelo passeio na direção da guarita sul. Fora o homem que o guiava que havia gritado, mas não foi isso que me causou um choque de horror. Foi a visão dos cabelos loiros de Johnnie. A criança estava no carro ao lado dele.
O inspetor soltou uma imprecação: ‘A criança estava aqui não faz um minuto’, ele gritou. Seus olhos passaram por todos nós. Nós estávamos todos ali: eu, Tredwell, miss Collins. ‘Quando o viu pela última vez, mr. Waverly?’
Eu tentei reconstruir o passado, procurando lembrar quando o policial nos havia chamado, eu saíra correndo com o inspetor, esquecendo-me completamente de Johnnie. — E aí veio um som que nos sobressaltou, o soar de um relógio de igreja do povoado. Com uma exclamação, o inspetor sacou seu relógio. Eram exatamente doze horas. Como se de comum acordo, nós corremos até a câmara do conselho; o relógio marcava meio-dia e dez. Alguém devia tê-lo alterado deliberadamente, pois ele jamais havia adiantado nem atrasado. É um relógio perfeito.”
Mr. Waverly parou. Poirot sorriu e endireitou uma pequena esteira que o pai aflito havia enviesado.
Um probleminha agradável, obscuro e encantador — murmurou Poirot. — Eu o investigarei para vocês com prazer. Ele de fato foi planejado à merveille.
Mrs. Waverly olhou para ele com ar de censura.
Mas o meu garoto — ela choramingou.
Poirot recompôs rapidamente seu rosto e parecia de novo a imagem de uma sincera simpatia.
Ele está a salvo, madame, está ileso. Fique tranquila, esses canalhas tomarão o maior cuidado com ele. Então ele não é a perua... não, a galinha... dos ovos de ouro?
Monsieur Poirot, estou certa de que só resta uma coisa a ser feita: pagar. Eu fui absolutamente contra no início... mas agora... os sentimentos de uma mãe...
Mas nós interrompemos monsieur em sua história — exclamou Poirot apressadamente.
Imagino que conheça muito bem o resto pelos jornais — disse mr. Waverly. — Claro, o inspetor McNeil foi imediatamente ao telefone. Uma descrição do carro e do homem circulou por toda parte, e no começo pareceu que tudo daria certo. Um carro, conferindo com a descrição, levando um homem e um garotinho, havia passado por vários povoados, aparentemente a caminho de Londres. Em um lugar que eles haviam parado, notaram que a criança estava chorando e obviamente com medo de seu acompanhante. Quando o inspetor McNeil anunciou que o carro havia sido parado e o homem e o menino detidos, eu quase passei mal de alívio. Você sabe a continuação. O garoto não era Johnnie, e o homem era um motorista fogoso, afeiçoado a crianças, que havia apanhado uma criancinha brincando nas ruas de Edenswell, um povoado a uns 24 quilômetros de nós, e estava gentilmente oferecendo-lhe um passeio. Graças à presunção desastrada da polícia, todas as pistas haviam desaparecido. Se eles não tivessem seguido persistentemente o carro errado, poderiam ter encontrado o menino a essa altura.
Acalme-se, monsieur. A polícia é uma força corajosa e inteligente. Seu erro foi muito natural. E, no geral, foi um plano inteligente. Quanto ao homem que eles apanharam nos jardins, ouvi que sua defesa consistiu de uma negação persistente. Ele declarou que a nota e o embrulho lhe foram dados para ser entregues em Waverly Court. O homem que os deu para ele entregou-lhe uma nota de dez xelins e prometeu-lhe outra se fossem entregues exatamente às dez para as doze. Ele devia se aproximar da casa pelos jardins e bater na porta lateral.
Não acredito em uma palavra disso — declarou mr. Waverly veementemente. — É tudo uma enfiada de mentiras.
En vérité, é uma história rala — disse Poirot pensativamente. — Mas até agora eles não a abalaram. Ouvi, também, que ele fez uma certa acusação.
Seu olhar interrogou mr. Waverly, que avermelhou de novo.
O sujeito teve a impertinência de fingir que reconhecia em Tredwell o homem que lhe dera o pacote. “Só que o sujeito raspou o bigode”. Tredwell, que nasceu na herdade!
Poirot sorriu de leve com a indignação do velho cavalheiro rural.
E, no entanto, o senhor suspeita que um ocupante da casa colaborou no sequestro.
Sim, mas não Tredwell.
E a senhora, madame? — perguntou Poirot, virando-se subitamente para ela.
Não poderia ter sido Tredwell que deu a esse vagabundo a carta e o embrulho, se é que alguém o fez, o que eu não acredito. Aquilo lhe foi entregue às dez horas, ele disse. Às dez horas, Tredwell estava com meu marido no salão de fumar.
Conseguiu ver o rosto do homem no carro, monsieur? Ele se parecia de alguma forma com Tredwell?
Ele estava longe demais para eu ver seu rosto.
Tredwell tinha algum irmão?
Ele teve vários, mas eles estão todos mortos. O último foi morto na guerra.
Ainda não tenho clareza sobre os terrenos de Waverly Court. O carro estava seguindo para a guarita sul. Há outra entrada?
Sim, a que nós chamamos de guarita leste. Ela pode ser vista do outro lado da casa.
Me parece estranho que ninguém tenha visto o carro entrando no terreno.
Há uma via pública cruzando a propriedade e dando acesso a uma capelinha. Muitos carros passam por ela. O homem pode ter parado o carro num lugar conveniente e corrido até a casa quando o alarme foi dado e a atenção atraída para outro lado.
A menos que ele já estivesse dentro da casa — ruminou Poirot. — Existe algum lugar onde ele possa ter se escondido?
Bem, nós certamente não demos uma busca completa na casa antes. Não parecia ser necessário. Imagino que ele poderia ter se escondido em algum lugar, mas quem o teria deixado entrar?
Chegaremos a isso mais tarde. Uma coisa de cada vez... sejamos metódicos. Não há nenhum esconderijo especial na casa? Waverly Court é um lugar antigo, e à vezes há “esconderijos de padre”, como são chamados.
Caramba, um esconderijo de padre. A entrada é por um dos painéis no vestíbulo.
Perto da sala do conselho?
No lado de fora, ao lado da porta.
Voilà!
Mas ninguém sabe da sua existência exceto minha esposa e eu.
Tredwell?
Bem... ele poderia ter ouvido falar disso.
Miss Collins?
Eu nunca o mencionei para ela.
Poirot refletiu por alguns instantes.
Bem, monsieur, a próxima coisa é eu ir a Waverly Court. Se eu chegar esta tarde, isso lhes convém?
Oh, o quanto antes, por favor, monsieur Poirot! — exclamou mrs. Waverly. — Leia isto mais uma vez.
Ela enfiou em suas mãos a última missiva do inimigo que havia chegado aos Waverly naquela manhã e que a enviara a toda pressa a Poirot. A carta dava orientações claras e explícitas para o pagamento do dinheiro, e terminava com uma ameaça de que o garoto pagaria com a vida se houvesse alguma traição. Estava claro que o amor pelo dinheiro se digladiava com o amor de mãe de mrs. Waverly, e que este último estava pelo menos ganhando o dia.
Poirot deteve mrs. Waverly por um minuto atrás de seu marido.
Madame, a verdade, por favor. Compartilha a confiança de seu marido no mordomo, Tredwell?
Não tenho nada contra ele, monsieur Poirot. Não consigo ver como ele pode ter se envolvido nisso, mas... bem eu nunca gostei dele... nunca!
Outra coisa, madame, pode me dar o endereço da enfermeira da criança?
Netherhall Road, 149, Hammersmith. Não imagina...
Eu jamais imagino. Apenas emprego minhas pequenas células cinzentas. E, às vezes, só às vezes, tenho uma ideia.
Poirot voltou até onde eu estava depois que a porta se fechou.
Então, madame nunca gostou do mordomo. Interessante isso, hein, Hastings?
Recusei-me a provocação. Poirot já havia me enganado tantas vezes que agora eu vou com cautela. Há sempre uma pegadinha em algum lugar.
Após completar um elaborado toalete ao ar livre, partimos para Netherhall Road. Tivemos sorte de encontrar miss Jennie Withers em casa. Era uma mulher de trinta e cinco anos, de feições agradáveis, competente e altiva. Eu não pude acreditar que ela estivesse envolvida no caso. Ela estava fortemente ressentida com a maneira como havia sido demitida, mas admitiu que fora a culpada. Estava noiva para se casar com um pintor e decorador que por acaso estava na vizinhança, e saíra para se encontrar com ele. A coisa parecia bastante natural. Eu não conseguia compreender Poirot muito bem. Todas as suas perguntas me pareceram absolutamente irrelevantes. Elas giravam em torno, sobretudo, da rotina diária de sua vida em Waverly Court. Fiquei francamente entediado e contente quando Poirot resolveu partir.
Rapto é um trabalho fácil, mon ami — ele observou, enquanto parava um táxi na Hammersmith Road e ordenava-lhe que seguisse para Waterloo.
Esta criança poderia ter sido raptada com a maior facilidade em qualquer dia nos três últimos anos.
Não vejo em que isso nos faz avançar — observei friamente.
Au contraire, ela nos faz avançar enormemente, enormemente mesmo! Se você precisa usar um alfinete de gravata, Hastings, ao menos que seja no centro exato de sua gravata. Neste momento ele está pelo menos alguns centímetros demais para a direita.
Waverly Court era uma casa antiga excelente e fora restaurada recentemente com bom gosto e cuidado. Mr. Waverly nos mostrou a sala do conselho, o terraço, e todos os demais pontos associados ao caso. Por fim, a pedido de Poirot, ele pressionou uma mola na parede, um painel deslizou para o lado, e uma pequena passagem nos levou até o esconderijo do padre.
Está vendo — disse Waverly. — Não há nada aqui.
O minúsculo recinto estava completamente vazio, sem nem sequer a marca de uma pegada no chão. Eu me juntei a Poirot onde ele estava curvado examinando atentamente uma marca no canto.
O que você deduz disto, meu amigo?
Havia quatro pegadas próximas umas das outras.
Um cachorro — gritei.
Um cachorro muito pequeno, Hastings.
Um lulu da Pomerânia.
Menor que um lulu.
Um griffon? — sugeri sem convicção.
Menor até que um griffon. Uma espécie desconhecida do Kennel Club.
Olhei para ele. Seu rosto estava iluminado de excitação e satisfação.
Eu estava certo — murmurou. — Sabia que estava certo. Venha, Hastings.
Quando saímos para o vestíbulo e o painel se fechou atrás de nós, uma jovem dama saiu de uma porta mais distante da passagem. Mr. Waverly fez as apresentações.
Miss Collins.
Miss Collins tinha cerca de trinta anos, modos ágeis e alertas. Ela tinha cabelos louros muito foscos. E usava pince-nez. A pedido de Poirot, passamos para uma saleta matinal e ele a interrogou cuidadosamente sobre os empregados, em particular sobre Tredwell. Ela admitiu não gostar do mordomo.
Ele é muito intrometido — explicou.
Depois eles entraram na questão da comida ingerida por mrs. Waverly na noite do dia 28. Miss Collins declarou que havia compartido os mesmos pratos no primeiro andar, em sua sala de estar, e não havia sentido nenhum efeito pernicioso. Quando ela estava saindo, eu cutuquei Poirot.
O cachorro — sussurrei.
Ah, sim, o cachorro! — ele deu um largo sorriso. — Existe algum cachorro por aqui, madamoiselle?
Há dois cães de caça nos canis lá fora.
Não. Quero dizer um cãozinho, um cãozinho de estimação.
Não... nada assim.
Poirot a dispensou. Depois, tocando a campainha, ele observou para mim:
Ela mente, essa madamoiselle Collins. Eu possivelmente também o faria no lugar dela. Agora, o mordomo.
Tredwell era um indivíduo digno. Ele contou sua história com perfeita desenvoltura, e foi essencialmente igual à de mr. Waverly.
Ele admitiu conhecer o segredo do esconderijo do padre.
Quando finalmente se retirou, pomposo até o fim, eu encontrei os olhos perplexos de Poirot.
O que deduz de tudo isso, Hastings?
O que você deduz? — eu me defendi.
Como você foi cauteloso. As células cinzentas nunca, nunca funcionarão se você não as estimular. Ah, mas não vou provocá-lo! Vamos fazer nossas deduções em conjunto. Que pontos nos chocaram por ser especialmente difíceis?
Tem uma coisa que me choca — eu falei. — Por que o homem que sequestrou a criança saiu pela guarita sul e não pela guarita leste onde ninguém o veria?
Este é um ponto muito bom, Hastings, excelente. Vou igualá-lo com outro. Por que advertir previamente os Waverly? Por que não raptar simplesmente a criança e pedir um resgate?
Porque eles esperavam conseguir o dinheiro sem precisar agir.
Seguramente era bastante improvável que o dinheiro fosse pago ante uma mera ameaça.
Eles também queriam concentrar a atenção nas doze horas, para que, quando o vagabundo fosse apanhado, o outro pudesse sair do esconderijo e fugir com a criança sem ser notado.
Isso não altera o fato de que eles estavam tornando uma coisa perfeitamente fácil numa coisa difícil. Se não especificam a hora ou a data, nada seria mais fácil do que esperar sua chance, e levar a criança num carro um dia que ele tivesse saído com sua babá.
Si...im — admiti, sem estar convencido.
Na verdade, há uma encenação deliberada de farsa! Mas vamos abordar a questão de outro ângulo. Tudo conflui para mostrar que havia um cúmplice dentro da casa. Ponto número um, o envenenamento misterioso de mrs. Waverly. Ponto número dois, a carta espetada no travesseiro. Ponto número três, o adiantamento de dez minutos do relógio... todos serviços internos. E um fato adicional que você pode não ter notado. Não havia pó no esconderijo do padre. Ele fora varrido com uma vassoura.
Pois bem, temos quatro pessoas na casa. Podemos excluir a enfermeira, pois ela não poderia ter varrido o esconderijo do padre, embora pudesse satisfazer aos três outros pontos. Quatro pessoas, mr. e mrs. Waverly, Tredwell, o mordomo, e miss Collins. Tomemos primeiramente miss Collins. Não temos muito contra ela, exceto que sabemos muito pouco sobre ela, que é obviamente uma mulher jovem inteligente, e que só está aqui há um ano.
Ela mentiu sobre o cachorro, você disse — eu o lembrei.
Ah, sim, o cachorro — Poirot deu um sorriso peculiar. — Passemos agora a Tredwell. Há vários fatos suspeitos contra ele. Primeiro de tudo, um vagabundo declara que foi Tredwell quem lhe deu o embrulho no povoado.
Mas Tredwell pode apresentar um álibi sobre esse ponto.
Mesmo assim, ele poderia ter envenenado mrs. Waverly, espetado a nota no travesseiro, adiantado o relógio, e varrido o esconderijo do padre. Por outro lado, ele nasceu e cresceu no serviço dos Waverly. Parece improvável no mais alto grau que fosse ser conivente com o rapto do filho da casa. Isso não se encaixa no quadro!
E então?
Devemos proceder logicamente... por mais absurdo que possa parecer. Consideraremos brevemente mrs. Waverly. Ela é rica, o dinheiro é seu. Foi seu dinheiro que restaurou esta herdade arruinada. Não faria sentido ela raptar seu filho e pagar o dinheiro a ela mesma. O marido, não, está numa posição diferente. Ele tem uma esposa rica. Não é a mesma coisa que ser ele próprio rico, aliás, tenho uma pequena ideia de que a dama não gosta muito de dividir seu dinheiro, exceto por um pretexto muito bom. Mas mr. Waverly, pode-se notar de imediato, é um bon vivant.
Impossível — balbuciei.
Absolutamente. Quem demitiu os criados? Mr. Waverly. Ele pôde escrever os bilhetes, drogar a esposa, adiantar os ponteiros do relógio, e estabelecer um álibi para seu fiel serviçal Tredwell. Tredwell nunca gostou de mrs. Waverly. Ele é devotado ao amo e está disposto a obedecer a suas ordens implicitamente. Havia três pessoas envolvidas. Waverly, Tredwell, e algum amigo de Tredwell. Este é o erro que a polícia cometeu, eles não investigaram melhor o homem que dirigiu o carro cinza com a criança errada. Ele era o terceiro homem. Ele pega a criança num vilarejo próximo, um garoto de cabelos loiros. Entra pela guarita leste e atravessa para a guarita sul no momento exato, agitando a mão e gritando. Eles não conseguem ver nem o seu rosto nem a placa do carro, e, portanto, não conseguem ver o rosto da criança tampouco. Aí ele deixa uma pista falsa para Londres. Nesse meio tempo, Tredwell fez sua parte arranjando para o embrulho e o bilhete serem entregues por um cavalheiro de aspecto rude. Seu amo pode oferecer um álibi no caso improvável de o homem reconhecê-lo, a despeito do bigode falso que usou. Quanto a mr. Waverly, mal começa o alvoroço e o inspetor sai apressado para fora, ele rapidamente esconde a criança no esconderijo do padre, e o acompanha para fora. Mais tarde no mesmo dia, despois que o inspetor foi embora e quando miss Collins está fora do caminho, será muito fácil levá-la a algum lugar seguro no seu próprio carro.
Mas e quanto ao cachorro? — perguntei. — E a mentira de miss Collins?
Isto foi uma brincadeirinha minha. Perguntei a ela se havia cachorros de estimação na casa, e ela disse que não. Mas seguramente há alguns, no quarto da criança! Percebe, mr. Waverly colocou alguns brinquedos no esconderijo do padre para divertir e acalmar Johnnie.
Monsieur Poirot... — mr. Waverly entrou na sala — descobriu alguma coisa? Tem alguma pista sobre para onde o menino foi levado?
Poirot estendeu lhe um pedaço de papel. — Eis o endereço.
Mas é uma folha em branco.
Porque estou esperando que você o escreva para mim.
O que... — o rosto de mr. Waverly ficou púrpura.
Eu sei tudo, monsieur. Dou-lhe vinte e quatro horas para devolver o menino. Sua engenhosidade fará jus à tarefa de explicar seu reaparecimento. Caso contrário, mrs. Waverly será informada da sequência exata dos fatos.
Mr. Waverly desabou numa cadeira e enterrou o rosto nas mãos.
Ele está com minha velha ama, a dez milhas daqui. Está feliz e bem cuidado.
Não tenho dúvida disso. Se não acreditasse que no fundo é um bom pai, não estaria disposto a lhe dar uma nova chance.
Um escândalo...
Exatamente. Seu nome é antigo e honrado. Não o coloque em risco de novo. Boa noite, mr. Waverly. E, a propósito, um pequeno conselho. Nunca se esqueça de varrer os cantos!

Agatha Christie, em Três ratos cegos e outros contos

17/07/2025

O caso da empregada perfeita



Por favor, madame, será que eu poderia falar com a senhora um momento?
Daria para pensar que esse pedido chegava às raias do absurdo, pois era Edna, a criadinha de miss Marple, que estava falando com sua patroa nesse momento.
Reconhecendo o linguajar, porém, miss Marple disse prontamente:
Com certeza, Edna, entre e feche a porta. O que é?
Fechando obedientemente a porta, Edna avançou para o interior do quarto, dobrou a ponta do seu avental entre os dedos, e engoliu uma ou duas vezes.
Fale, Edna — disse miss Marple para encorajá-la.
Oh, por favor, madame, é a minha prima, Gladdie.
Ai, ai — disse miss Marple, com sua imaginação saltando para a pior, e mais comum, conclusão. — Ela não... está grávida?
Edna se apressou em tranquilizá-la:
Oh, não... madame, nada disso. Gladdie não é esse tipo de garota. É só que ela está preocupada. Sabe, ela perdeu o emprego.
Ai, ai, lamento ouvir isso. Ela estava no Old Hall, não é, com a miss... as misses.. Skinner?
Sim, madame, é isso mesmo. E a Gladdie está muito preocupada com isso... muito preocupada mesmo.
Mas Gladys já mudou de emprego muitas vezes antes, não foi?
Oh. Sim, madame. Ela vive mudando, a Gladdie. Ela nunca parece se assentar de verdade, se entende o que eu quero dizer. Mas foi sempre ela que pediu a conta, entende!
E desta vez foi o contrário? — perguntou miss Marple secamente.
Sim, senhora, e isso preocupou demais a Gladdie.
Miss Marple pareceu levemente surpresa. Sua lembrança de Gladys, que ia ocasionalmente tomar chá na cozinha nos seus “dias de folga”, era a de uma garota robusta e risonha, de temperamento invariavelmente imperturbável.
Sabe, madame, é a maneira como aconteceu... a maneira como miss Skinner olhou — Edna prosseguiu.
Como — inquiriu miss Marple pacientemente — miss Skinner olhou?
Desta vez Edna avançou bastante em seu boletim noticioso.
Oh, madame. Foi um choque tão grande pra Gladdie. Sabe, um dos broches de miss Emily estava desaparecido, e fizeram uma tempestade sem igual sobre isso, e claro, ninguém gosta que uma coisa assim aconteça; é preocupante, madame, se me entende. E a Gladdie ajudou a procurar por toda parte, e lá estava miss Lavinia dizendo que ia procurar a polícia sobre o caso, e aí ele reapareceu tirado do fundo de uma gaveta do toucador, e a Gladdie ficou muito agradecida.
E no dia seguinte mesmo, como sempre acontece, um prato se quebrou, e miss Lavinia pulou na mesma hora e deu aviso prévio pra Gladdie. E o que a Gladdie sente é que pode não ter sido o prato, e que miss Lavinia estava só usando este como uma desculpa, e que deve ter sido por causa do broche e elas acham que a Gladdie tirou ele e o colocou de volta quando falaram da polícia, e a Gladdie não faria uma coisa dessas, ela jamais faria, e o que ela sente é que isso vai ficar circulando e falando contra ela e é uma coisa muito séria para uma moça, como sabe, madame.
Miss Marple assentiu. Embora não tivesse particular apreço pela saltitante e presunçosa Gladys, tinha certeza da honestidade intrínseca da moça e podia imaginar perfeitamente que o caso a devia ter preocupado.
Imagino, madame, que não há nada que possa fazer sobre isso — Edna disse esperançosamente. — A Gladdie nunca esteve tão atacada.
Diga para ela não ser tola — disse miss Marple concisamente. — Se ela não tirou o broche, e estou certa de que não tirou, então ela não tem com que se preocupar.
Vão comentar — disse Edna desanimadamente.
Miss Marple retrucou:
Eu... bem... vou passar naquele caminho esta tarde. Vou dar uma palavrinha com as misses Skinner.
Oh. Obrigado, madame — disse Edna.

Old Hall era uma mansão vitoriana rodeada de bosques e áreas verdes preservadas. Como ela se mostrara impossível de alugar e invendável do jeito como estava, um especulador imobiliário a havia dividido em quatro apartamentos com um sistema de água quente central, e o uso em comum dos “terrenos” pelos inquilinos. O experimento fora satisfatório.
Uma velha senhora rica e excêntrica e sua criada ocupavam um apartamento. A velha senhora tinha uma paixão por pássaros e dava de comer a uma multidão emplumada todos os dias. Um juiz indiano aposentado e sua esposa alugaram um segundo. Um casal muito jovem, recém-casado, ocupava o terceiro, e o quarto fora alugado havia dois meses, apenas, por duas senhoras solteiras de sobrenome Skinner. Os quatro conjuntos de inquilinos tinham relações muito distantes entre si porque não tinham nada em comum. O senhorio disse que isso era excelente. O que o apavorava eram as amizades seguidas de desentendimentos e as queixas subsequentes.
Miss Marple conhecia todos os inquilinos, embora não os conhecesse bem. A miss Skinner mais velha, miss Lavinia, era o que pode se chamar de o membro trabalhador da casa; miss Emily, a mais nova, passava a maior parte do tempo na cama queixando-se de várias coisas que, na opinião de St. Mary Mead, eram, em grande parte, imaginárias. Somente miss Lavinia acreditava piamente no martírio e na paciência, na aflição da irmã, e prestimosamente levava recados e andava para cima e para baixo do povoado atrás de coisas que “minha irmã de repente desejou”.
Era opinião de St. Mary Mead que se miss Emily sofresse a metade do que dizia sofrer, ela já teria chamado o doutor Haydock há muito tempo. Mas miss Emily, quando isso lhe era sugerido, fechava os olhos com altivez e murmurava que seu caso não era simples — os melhores especialistas de Londres tinham se desconcertado com ele — e que um novo médico maravilhoso a incluíra em um plano de tratamento dos mais revolucionários, e que ela realmente achava que, agora, sua saúde ia melhorar. Nenhum clínico geral prosaico poderia entender seu caso.
E a minha opinião — disse a desbocada miss Hartnell — é que ela é muito sábia de não chamá-lo. O caro doutor Haydock, com aquele seu jeito despreocupado, lhe diria que não há nada de errado com ela e para ela se levantar e não criar caso! Isso lhe faria muito bem!
Na falta desse tratamento arbitrário, porém, miss Emily permanecia recostada em sofás, cercada de estranhas caixinhas de comprimidos e recusando-se a quase tudo que havia sido cozinhado para ela, pedindo sempre algo diferente e, em geral, difícil e inconveniente de fazer.

A porta foi aberta para miss Marple por Gladdie, parecendo mais deprimida do que miss Marple teria julgado possível. Na sala de estar (um quarto da antiga sala de visitas que fora dividida em sala de jantar, sala de estar, banheiro e guarda-louça), miss Lavinia levantou-se para cumprimentar miss Marple.
Lavinia Skinner era uma mulher alta, magra e ossuda de cinquenta anos. Ela tinha a voz rouca e modos bruscos.
Como vai — disse. — Emily está deitada — sentindo-se mal hoje, coitada. Espero que ela a veja, isso a animaria, mas tem dias que ela fica sem vontade de ver qualquer pessoa. Pobrezinha, ela é uma paciente maravilhosa.
Miss Marple respondeu polidamente. Empregados domésticos era o principal tópico de conversa em St. Mary Mead, por isso não foi difícil levar a conversa nessa direção. Miss Marple disse que tinha ouvido que aquela boa garota, Gladys Holmes, estava de saída. Miss Lavinia assentiu.
Próxima quarta-feira. Quebrou coisas, sabe. Assim não dá.
Miss Marple suspirou e disse que todos precisavam tolerar certas coisas hoje em dia. Era tão difícil conseguir moças dispostas a ir para o campo. Miss Skinner achava realmente que seria bom ficar sem Gladys?
Sei que é difícil conseguir empregadas — admitiu miss Lavinia. — Os Devereux não conseguiram ninguém, mas nesse caso, não me espanta. Sempre brigando, jazz ligado a noite inteira, refeições a qualquer hora, aquela moça não sabe nada sobre cuidar de uma casa. Tenho pena do marido! Os Larkin, então, acabaram de perder sua empregada. Claro, com o gênio indiano do juiz e seu pedido por chota hazri, como ele o chama, às seis da manhã e mrs. Larkin sempre fazendo estardalhaço, isso não me espanta, tampouco. A Janet de mrs. Carmichael é garantida, claro, embora, em minha opinião, ela seja uma mulher muito desagradável e atormente de modo terrível a velha senhora.
Então não acha que devia reconsiderar sua decisão sobre Gladys? Ela é mesmo uma boa moça. Conheço toda a sua família; muito honesta e direita.
Miss Lavinia negou com a cabeça.
Tenho minhas razões — ela disse com ares importantes.
Você perdeu um broche, eu compreendo... — miss Marple murmurou.
Ora, quem andou falando? Imagino que a moça. Francamente, estou quase certa de que ela o pegou. E depois ficou assustada e colocou de volta. Mas, claro, não se pode dizer a menos que se tenha certeza — e mudou de tema. — Venha ver a Emily.
Miss Marple a seguiu obedientemente até onde miss Lavinia bateu numa porta, foi convidada a entrar, e conduziu sua visita para o melhor quarto do apartamento onde venezianas em meia altura filtravam a maior parte da luz. Miss Emily estava deitada na cama, aparentemente apreciando a penumbra e seus próprios e indefinidos sofrimentos.
A luz fraca mostrava uma criatura magra de olhar arisco, com bastos cabelos grisalhos amarelados enrolados precariamente em torno da cabeça e irrompendo em cachos, a coisa toda parecia um ninho de pássaro do qual nenhum pássaro de respeito se orgulharia. O quarto cheirava a água-de-colônia, biscoitos velhos e cânfora.
Com os olhos semicerrados e uma voz fina e fraca, Emily Skinner explicou que aquele era “um de seus dias ruins”.
O pior da má saúde — disse miss Emily, melancólica —, é saber o fardo que somos para os que nos cercam. Lavinia é muito boa para mim. Lavvie querida, eu detesto muito dar trabalho, mas minha garrafa térmica poderia ser enchida da maneira que eu gosto, cheia demais ela fica muito pesada para mim. Por outro lado, se não estiver suficientemente cheia, ela esfria imediatamente!
Desculpe-me, querida. Me dê aqui. Vou esvaziá-la um pouco.
Talvez, já que está fazendo isso, ela possa ser enchida novamente. Não há roscas na casa, imagino... não, não, não tem importância. Posso passar sem elas. Um pouco de chá fraco com uma rodela de limão... não tem limões? Não, mesmo, eu não poderia tomar chá sem limão. Acho que o leite estava levemente coalhado esta manhã. Isso me indispôs contra o leite no meu chá. Não importa. Posso passar sem meu chá. Só me sinto tão fraca. As ostras, dizem, são nutritivas. Fico pensando se não poderia conseguir algumas? Não, não, é incômodo demais consegui-las tão tarde no dia. Eu posso jejuar até amanhã.
Lavinia saiu do quarto murmurando alguma coisa incoerente sobre ir de bicicleta ao povoado.
Miss Emily sorriu debilmente para sua visitante e observou que odiava dar qualquer trabalho a alguém.
Naquela noite, miss Marple disse a Edna que temia que sua embaixada não tivesse obtido sucesso.
Ela ficou bastante preocupada ao saber que os rumores sobre a desonestidade de Gladys já estavam se espalhando pelo povoado.
Na agência postal, miss Wetherby abordou miss Marple:
Minha querida Jane, eles lhe deram uma referência por escrito dizendo que ela era prestativa, e sóbria, e respeitável, mas sem dizer nada sobre honestidade. Isso me parece muito significativo! Ouvi dizer que houve algum problema com um broche. Acho que tem alguma coisa aí, sabe, porque não se deixa uma empregada ir embora, hoje em dia, a menos que seja alguma coisa bastante grave. Elas vão ter a maior dificuldade de encontrar outra. As moças simplesmente não irão a Old Hall. Elas ficam ansiosas para voltar para casa em seus dias de folga. Você verá, as Skinner não encontrarão ninguém, e aí, talvez, aquela horrível irmã hipocondríaca terá de se levantar e fazer alguma coisa!
Foi grande a mortificação no povoado quando se soube que as irmãs Skinner haviam contratado, de uma agência, uma nova empregada que, segundo todos os relatos, era um perfeito paradigma.
Uma referência de três anos a recomendando calorosamente, ela prefere o campo, e, aliás, pede menos salário do que a Gladys. Sinto que tivemos muita sorte.
Excelente — disse miss Marple, a quem esses detalhes eram transmitidos por miss Lavinia na peixaria. — Parece bom demais para ser verdade.
A opinião de St. Mary Mead passou a ser então que o paradigma recuaria no último minuto e não iria.
Nenhum desses prognósticos se verificou, contudo, e o povoado pode observar o tesouro doméstico, por nome Mary Higgins, atravessando o povoado no táxi do Reed para Old Hall.
Era preciso admitir que ela tinha boa apareência. Uma mulher das mais respeitáveis e muito bem vestida.
Quando miss Marple tornou a visitar Old Hall, com o pretexto de recrutar cuidadores para as barracas na quermesse do vicariato, Mary Higgins abriu a porta. Era de fato uma empregada de aspecto excelente, aparentando quarenta anos de idade, com cabelos pretos bem penteados, maçãs do rosto coradas, uma figura roliça discretamente vestida de preto com avental e touca brancos, “bem o tipo da boa empregada ao velho estilo”, como miss Marple explicou posteriormente, e com a voz apropriada e respeitosa, tão diferente das inflexões altas, mas anasaladas de Gladys.
Miss Lavinia parecia bem menos esgotada que o normal e, apesar de lamentar não poder cuidar de uma barraca por causa de sua preocupação com a irmã, ela fez uma bela contribuição em dinheiro, e prometeu produzir um lote de limpadores de canetas e meias para bebês.
Miss Marple comentou sua aparência saudável.
Sinto realmente que devo muito a Mary, sou tão grata por ter tido a determinação de me livrar da outra moça. Mary é realmente preciosa. Cozinha muito bem, serve lindamente e mantém nosso pequeno apartamento escrupulosamente limpo... os colchões são virados todo dia. E ela é realmente maravilhosa com Emily!
Miss Marple inquiriu rapidamente sobre Emily.
Oh, pobrezinha, ela tem estado muito indisposta ultimamente. A culpa não é dela, claro, mas isso dificulta um pouco as coisas às vezes. Querer que se cozinhe certas coisas e aí, quando elas vêm, dizer que não pode comer agora... e aí querê-las de novo meia hora depois quando tudo já estragou e tem que ser refeito. Isso dá um bocado de trabalho, mas felizmente a Mary parece não se importar absolutamente. Ela revelou que cuidava de inválidos, e os compreende. É tão confortante.
Ai, ai — disse miss Marple. — Você tem sorte.
Tenho mesmo. Sinto que Mary nos foi enviada em resposta a uma prece.
Para mim — disse miss Marple —, ela é quase boa demais para ser verdade. Eu seria.... bem, seria um pouco mais cautelosa se fosse você.
Lavinia Skinner não percebeu o motivo dessa observação. Ela disse:
Oh! Eu lhe garanto que faço tudo que posso para deixá-la confortável. Não sei o que faria se ela saísse.
Não espero que ela saia antes de estar pronta para sair — disse miss Marple e fitou com olhos duros sua anfitriã.
Quando não se tem preocupações domésticas — miss Lavinia disse —, isso tira um peso da cabeça, não é? Como a sua pequena Edna está se saindo?
Está se saindo muito bem. Não tem muita cabeça, é claro. Não como a sua Mary. Mas eu sei tudo sobre Edna porque ela é uma moça do povoado.
Quando saía para o vestíbulo, ela ouviu a voz da inválida se elevar, com irritação:
Deixaram esta compressa ficar muito seca... o doutor Allerton disse para a umidade ser mantida continuamente. Vá, vá, deixe. Quero uma xícara de chá e um ovo cozido, cozido três minutos e meio apenas, lembre-se, e chame miss Lavinia para cá.
A eficiente Mary saiu do quarto e, dizendo para Lavinia: — miss Emily está chamando a senhora, madame — prosseguiu para abrir a porta para miss Marple, ajudando-a a vestir seu casaco e entregando-lhe seu guarda-chuva da maneira mais irrepreensível.
Miss Marple pegou o guarda-chuva, deixou-o cair, tentou apanhá-lo, e deixou cair a bolsa, que se abriu. Mary recuperou polidamente várias bugigangas: um lenço, uma agenda, uma bolsa de couro antiquada, dois xelins, três centavos, e um pedaço listrado de pirulito de menta.
Miss Marple recebeu o último com alguns sinais de confusão.
Oh, querida, deve ter sido o garotinho de mrs. Clement. Ele o estava chupando, eu me lembro, quando pegou minha bolsa para brincar. Deve ter colocado dentro. É terrivelmente grudento, não é?
Devo apanhá-lo, senhora?
Se não for incômodo. Muito obrigada.
Mary se curvou para recuperar o último item, um espelhinho, provocando uma exclamação empolgada de miss Marple.
Que sorte que ele não quebrou.
Depois disso, ela partiu. Mary permaneceu polidamente ao lado da porta segurando um pedaço de pirulito listrado com as feições absolutamente impassíveis.
Por outros dez dias, St. Mary Mead teve de ouvir as excelências do tesouro de miss Lavinia e miss Emily. No décimo primeiro dia, o povoado acordou para sua grande excitação. Mary, o paradigma, havia desaparecido! Ninguém havia dormido em sua cama, e a porta da frente fora encontrada entreaberta. Ela havia se esgueirado para fora silenciosamente durante a noite.
E não fora apenas Mary que havia sumido! Dois broches e cinco anéis de miss Lavinia; três anéis, um pingente, um bracelete e quatro broches de miss Emily haviam sumido também!
Foi o começo de um capítulo de catástrofes.
A jovem mrs. Devereux havia perdido seus diamantes que guardava numa gaveta destrancada e algumas peles valiosas que recebera como presente de núpcias. O juiz e sua esposa também tiveram joias e algum dinheiro roubados. Mrs. Carmichael foi a mais prejudicada. Não só tinha algumas joias bastante valiosas como guardava também no apartamento uma grande soma de dinheiro que desapareceu. Era dia de folga de Janet, e sua patroa tinha o hábito de andar pelos jardins ao crepúsculo chamando os pássaros e espalhando migalhas. Parecia claro que Mary, a empregada perfeita, tinha chaves que serviam em todos os apartamentos!
Houve, é preciso confessar, algum prazer malévolo em St. Mary Mead. Miss Lavinia havia enaltecido tanto sua maravilhosa Mary.
E todo o tempo, minha querida, apenas uma ladra comum!
Revelações interessantes se seguiram. Não só que Mary desaparecera sem deixar rastro, mas que a agência que a havia fornecido e atestado suas credenciais ficou alarmada ao descobrir que a Mary Higgins que havia se oferecido a eles e cujas referências eles haviam levantado, para todos os fins e propósitos, jamais existira. Era o nome de uma empregada genuína que tinha vivido com uma irmã genuína de um decano, mas a Mary Higgins real estava vivendo pacificamente num lugar em Cornwall.
Danada de inteligente, a coisa toda — o inspetor Slack foi obrigado a reconhecer. — E se quiser saber, essa mulher trabalha com uma gangue. Teve um caso muito parecido em Northumberland um ano atrás. A muamba nunca foi encontrada, e nunca a apanharam. Mas nós vamos fazer melhor em Much Benham!
O inspetor Slack sempre foi um homem confiante.
Mesmo assim, as semanas se passavam e Mary Higgins continuava triunfalmente solta. Em vão o inspetor Slack redobrou aquela energia que tanto contradizia seu nome.[7]
Miss Lavinia permanecia lacrimosa, miss Emily ficou tão perturbada, e se sentiu tão alarmada com o estado da irmã que mandou chamar o doutor Haydock.
O povoado inteiro ficou em ansiosa expectativa para saber o que ele diria sobre as alegações de má saúde de miss Emily, mas naturalmente não poderia lhe perguntar. Chegaram dados satisfatórios sobre o tema, contudo, por intermédio de mr. Meek, o assistente de químico que estava saindo com Clara, a empregada de mrs. Price-Ridley. Ficou-se sabendo então que o doutor Haydock havia receitado uma mistura de assa-fétida e valeriana que, segundo mr. Meek, era o remédio padrão para simuladores de doenças no Exército!
Pouco depois se ficou sabendo que miss Emily, descontente com o atendimento médico que recebera, havia declarado que, no seu estado de saúde, ela se sentia no dever de ficar perto do especialista em Londres que compreendia seu caso. Era uma questão de justiça com Lavinia, ela havia dito.
O apartamento foi colocado para sublocação.

Foi poucos dias depois disso que miss Marple, toda corada e afobada, apareceu na delegacia de Much Benham e perguntou pelo inspetor Slack.
O inspetor Slack não gostava de miss Marple. Mas sabia que o inspetor-chefe, coronel Melchett, não partilhava sua opinião. De má vontade, portanto, ele a recebeu.
Boa tarde, miss Marple, o que posso fazer pela senhora?
Ai, ai — disse miss Marple —, temo que esteja ocupado.
Muito trabalho mesmo — disse o inspetor Slack —, mas posso conceder-lhe alguns minutos.
Ai, ai — disse miss Marple. — Espero conseguir dizer tudo da maneira apropriada. É tão difícil explicar-se, não acha? Não, talvez não ache. Mas como vê, não tendo sido educada no estilo moderno... apenas uma governanta, sabe, que ensinou as datas dos reis da Inglaterra e conhecimentos gerais... doutor Brewer... três tipos de doenças do trigo... ferrugem, mofo... como era mesmo a terceira... seria mancha[8]?
A senhora quer falar sobre mancha? — perguntou o inspetor e enrubesceu.
Oh, não, não — miss Marple descartou apressadamente qualquer desejo de falar sobre mancha. — Apenas uma ilustração, sabe. E como são feitas as agulhas, e tudo isso. Discursivo, sabe, mas sem ensinar a pessoa a se ater ao principal. Que é o que desejo fazer. É sobre a empregada de miss Skinner, Gladys, sabe.
Mary Higgins — disse o inspetor Slack.
Oh, sim, a segunda empregada. Mas é a Gladys Holmes que eu me refiro, uma mocinha muito impertinente e muito cheia de si, mas, de fato, estritamente honesta, e é muito importante que isso seja reconhecido.
Nenhuma acusação foi feita contra ela até agora que eu saiba — disse o inspetor.
Não, sei que não há uma acusação... mas isso piora as coisas. Porque, como sabe, as pessoas ficam pensando coisas. Ai, ai... eu sabia que ia explicar as coisas de maneira errada. O que eu realmente quero dizer é que o importante é encontrar Mary Higgins.
Com toda certeza — disse o inspetor Slack. — Tem alguma ideia sobre o assunto?
Bem, na verdade, tenho — disse miss Marple. — Posso lhe fazer uma pergunta? Impressões digitais têm algum proveito para vocês?
Ah — exclamou o inspetor Slack —, foi aí que ela nos passou a perna direitinho. Fazia a maior parte do serviço com luvas de borracha ou luvas de criada, ao que parece. E foi cuidadosa... limpou tudo em seu quarto e na pia. Não conseguimos encontrar uma única impressão digital no lugar!
Se tivesse impressões digitais, isso ajudaria?
Ajudaria, senhora. Elas poderiam ser reconhecidas na Yard. Este não foi seu primeiro trabalho, eu diria!
Miss Marple assentiu vigorosamente. Ela abriu sua bolsa e extraiu uma caixinha de papelão. Dentro dela, envolto em algodão, estava um espelhinho.
De minha bolsa de mão — disse miss Marple. — As impressões da empregada estão nela. Creio que devem ser satisfatórias... ela tocou numa substância extremamente pegajosa pouco antes.
O inspetor Slack a fitava:
Obteve as impressões digitais dela de propósito?
Claro.
Suspeitava dela, então?
Bem, sabe, me impressionou que ela fosse um pouco boa demais para ser verdade. Eu praticamente disse isto para miss Lavinia. Mas ela simplesmente não quis pegar a deixa! Temo, inspetor, que eu não acredite em paradigmas. A maioria de nós tem falhas... e o serviço doméstico as revela muito rapidamente!
Bem — disse o inspetor Slack, recuperando a compostura —, sou-lhe grato, com certeza. Nós as enviaremos à Yard e veremos o que eles têm a dizer.
Ele parou. Miss Marple havia inclinado um pouco a cabeça e o observava com uma expressão muito sugestiva.
Você não pensaria, imagino, inspetor, em olhar um pouco mais perto de casa?
O que quer dizer, miss Marple?
É difícil de explicar, mas quando a gente tropeça em uma coisa peculiar a gente a nota. Embora, com frequência, as coisas peculiares possam ser as mais banais. Eu senti isso o tempo todo, sabe; quer dizer, sobre Gladys e o broche. Ela é uma moça honesta; ela não roubou aquele broche. Então, por que miss Skinner achou que ela havia roubado? Miss Skinner não é tola. Longe disso! Por que ela estava tão ansiosa para deixar ir embora uma moça que era uma boa empregada quando empregadas são tão difíceis para se conseguir? Era peculiar, sabe. Aí eu fiquei pensando, fiquei pensando muito tempo. E notei outra coisa peculiar! Miss Emily é uma hipocondríaca, mas é a primeira hipocondríaca que não manda chamar um médico de imediato. Hipocondríacos adoram médicos. Miss Emily não adorava!
O que está sugerindo, miss Marple?
Bem estou sugerindo, se me entende, que miss Lavinia e miss Emily são pessoas peculiares. Miss Emily passa quase todo seu tempo num quarto escuro. E se aquele cabelo dela não é uma peruca eu... eu como minha própria trança postiça! E o que eu digo é o seguinte... é perfeitamente possível uma mulher magra, pálida, grisalha e chorosa ser a mesma mulher de cabelo preto, faces rosadas e corpulenta. E ninguém que eu saiba viu miss Emily e Mary Higgins ao mesmo tempo.
Tempo de sobra para limpar impressões digitais de todas as chaves, tempo de sobra para descobrir tudo sobre os outros inquilinos, e aí... livrar-se da moça local. Miss Emily faz uma caminhada vigorosa pelo campo uma noite e chega à estação como Mary Higgins no dia seguinte. E aí, no momento certo, Mary Higgins desaparece, e lá se vai a turba enfurecida no seu encalço. Vou lhe dizer onde a encontrará, inspetor. No sofá de miss Emily Skinner! Tire suas impressões digitais, se não acredita em mim, mas descobrirá que estou certa! Um par de ladras espertas, é o que as Skinner são... e seguramente mancomunadas com um receptor ou receptador ou sabe lá como vocês o chamam! Mas elas não vão se safar desta vez! Não vou deixar que o caráter honesto de uma moça de nosso povoado seja roubado desse modo! Gladys Holmes é tão honesta como a luz do dia, e todos vão se inteirar disso! Boa tarde!
Miss Marple havia saído antes que o inspetor Slack se recuperasse.
Ufa! — ele murmurou. — Será que ela está certa?
Ele logo descobriu que miss Marple estava certa mais uma vez.
O coronel Melchett cumprimentou Slack pela sua eficiência, e miss Marple fez Gladys ir para o chá com Edna e falou seriamente para ela se aquietar em um bom emprego quando conseguisse um.

Agatha Christie, em Três ratos cegos e outros contos