17/07/2025

O caso da empregada perfeita



Por favor, madame, será que eu poderia falar com a senhora um momento?
Daria para pensar que esse pedido chegava às raias do absurdo, pois era Edna, a criadinha de miss Marple, que estava falando com sua patroa nesse momento.
Reconhecendo o linguajar, porém, miss Marple disse prontamente:
Com certeza, Edna, entre e feche a porta. O que é?
Fechando obedientemente a porta, Edna avançou para o interior do quarto, dobrou a ponta do seu avental entre os dedos, e engoliu uma ou duas vezes.
Fale, Edna — disse miss Marple para encorajá-la.
Oh, por favor, madame, é a minha prima, Gladdie.
Ai, ai — disse miss Marple, com sua imaginação saltando para a pior, e mais comum, conclusão. — Ela não... está grávida?
Edna se apressou em tranquilizá-la:
Oh, não... madame, nada disso. Gladdie não é esse tipo de garota. É só que ela está preocupada. Sabe, ela perdeu o emprego.
Ai, ai, lamento ouvir isso. Ela estava no Old Hall, não é, com a miss... as misses.. Skinner?
Sim, madame, é isso mesmo. E a Gladdie está muito preocupada com isso... muito preocupada mesmo.
Mas Gladys já mudou de emprego muitas vezes antes, não foi?
Oh. Sim, madame. Ela vive mudando, a Gladdie. Ela nunca parece se assentar de verdade, se entende o que eu quero dizer. Mas foi sempre ela que pediu a conta, entende!
E desta vez foi o contrário? — perguntou miss Marple secamente.
Sim, senhora, e isso preocupou demais a Gladdie.
Miss Marple pareceu levemente surpresa. Sua lembrança de Gladys, que ia ocasionalmente tomar chá na cozinha nos seus “dias de folga”, era a de uma garota robusta e risonha, de temperamento invariavelmente imperturbável.
Sabe, madame, é a maneira como aconteceu... a maneira como miss Skinner olhou — Edna prosseguiu.
Como — inquiriu miss Marple pacientemente — miss Skinner olhou?
Desta vez Edna avançou bastante em seu boletim noticioso.
Oh, madame. Foi um choque tão grande pra Gladdie. Sabe, um dos broches de miss Emily estava desaparecido, e fizeram uma tempestade sem igual sobre isso, e claro, ninguém gosta que uma coisa assim aconteça; é preocupante, madame, se me entende. E a Gladdie ajudou a procurar por toda parte, e lá estava miss Lavinia dizendo que ia procurar a polícia sobre o caso, e aí ele reapareceu tirado do fundo de uma gaveta do toucador, e a Gladdie ficou muito agradecida.
E no dia seguinte mesmo, como sempre acontece, um prato se quebrou, e miss Lavinia pulou na mesma hora e deu aviso prévio pra Gladdie. E o que a Gladdie sente é que pode não ter sido o prato, e que miss Lavinia estava só usando este como uma desculpa, e que deve ter sido por causa do broche e elas acham que a Gladdie tirou ele e o colocou de volta quando falaram da polícia, e a Gladdie não faria uma coisa dessas, ela jamais faria, e o que ela sente é que isso vai ficar circulando e falando contra ela e é uma coisa muito séria para uma moça, como sabe, madame.
Miss Marple assentiu. Embora não tivesse particular apreço pela saltitante e presunçosa Gladys, tinha certeza da honestidade intrínseca da moça e podia imaginar perfeitamente que o caso a devia ter preocupado.
Imagino, madame, que não há nada que possa fazer sobre isso — Edna disse esperançosamente. — A Gladdie nunca esteve tão atacada.
Diga para ela não ser tola — disse miss Marple concisamente. — Se ela não tirou o broche, e estou certa de que não tirou, então ela não tem com que se preocupar.
Vão comentar — disse Edna desanimadamente.
Miss Marple retrucou:
Eu... bem... vou passar naquele caminho esta tarde. Vou dar uma palavrinha com as misses Skinner.
Oh. Obrigado, madame — disse Edna.

Old Hall era uma mansão vitoriana rodeada de bosques e áreas verdes preservadas. Como ela se mostrara impossível de alugar e invendável do jeito como estava, um especulador imobiliário a havia dividido em quatro apartamentos com um sistema de água quente central, e o uso em comum dos “terrenos” pelos inquilinos. O experimento fora satisfatório.
Uma velha senhora rica e excêntrica e sua criada ocupavam um apartamento. A velha senhora tinha uma paixão por pássaros e dava de comer a uma multidão emplumada todos os dias. Um juiz indiano aposentado e sua esposa alugaram um segundo. Um casal muito jovem, recém-casado, ocupava o terceiro, e o quarto fora alugado havia dois meses, apenas, por duas senhoras solteiras de sobrenome Skinner. Os quatro conjuntos de inquilinos tinham relações muito distantes entre si porque não tinham nada em comum. O senhorio disse que isso era excelente. O que o apavorava eram as amizades seguidas de desentendimentos e as queixas subsequentes.
Miss Marple conhecia todos os inquilinos, embora não os conhecesse bem. A miss Skinner mais velha, miss Lavinia, era o que pode se chamar de o membro trabalhador da casa; miss Emily, a mais nova, passava a maior parte do tempo na cama queixando-se de várias coisas que, na opinião de St. Mary Mead, eram, em grande parte, imaginárias. Somente miss Lavinia acreditava piamente no martírio e na paciência, na aflição da irmã, e prestimosamente levava recados e andava para cima e para baixo do povoado atrás de coisas que “minha irmã de repente desejou”.
Era opinião de St. Mary Mead que se miss Emily sofresse a metade do que dizia sofrer, ela já teria chamado o doutor Haydock há muito tempo. Mas miss Emily, quando isso lhe era sugerido, fechava os olhos com altivez e murmurava que seu caso não era simples — os melhores especialistas de Londres tinham se desconcertado com ele — e que um novo médico maravilhoso a incluíra em um plano de tratamento dos mais revolucionários, e que ela realmente achava que, agora, sua saúde ia melhorar. Nenhum clínico geral prosaico poderia entender seu caso.
E a minha opinião — disse a desbocada miss Hartnell — é que ela é muito sábia de não chamá-lo. O caro doutor Haydock, com aquele seu jeito despreocupado, lhe diria que não há nada de errado com ela e para ela se levantar e não criar caso! Isso lhe faria muito bem!
Na falta desse tratamento arbitrário, porém, miss Emily permanecia recostada em sofás, cercada de estranhas caixinhas de comprimidos e recusando-se a quase tudo que havia sido cozinhado para ela, pedindo sempre algo diferente e, em geral, difícil e inconveniente de fazer.

A porta foi aberta para miss Marple por Gladdie, parecendo mais deprimida do que miss Marple teria julgado possível. Na sala de estar (um quarto da antiga sala de visitas que fora dividida em sala de jantar, sala de estar, banheiro e guarda-louça), miss Lavinia levantou-se para cumprimentar miss Marple.
Lavinia Skinner era uma mulher alta, magra e ossuda de cinquenta anos. Ela tinha a voz rouca e modos bruscos.
Como vai — disse. — Emily está deitada — sentindo-se mal hoje, coitada. Espero que ela a veja, isso a animaria, mas tem dias que ela fica sem vontade de ver qualquer pessoa. Pobrezinha, ela é uma paciente maravilhosa.
Miss Marple respondeu polidamente. Empregados domésticos era o principal tópico de conversa em St. Mary Mead, por isso não foi difícil levar a conversa nessa direção. Miss Marple disse que tinha ouvido que aquela boa garota, Gladys Holmes, estava de saída. Miss Lavinia assentiu.
Próxima quarta-feira. Quebrou coisas, sabe. Assim não dá.
Miss Marple suspirou e disse que todos precisavam tolerar certas coisas hoje em dia. Era tão difícil conseguir moças dispostas a ir para o campo. Miss Skinner achava realmente que seria bom ficar sem Gladys?
Sei que é difícil conseguir empregadas — admitiu miss Lavinia. — Os Devereux não conseguiram ninguém, mas nesse caso, não me espanta. Sempre brigando, jazz ligado a noite inteira, refeições a qualquer hora, aquela moça não sabe nada sobre cuidar de uma casa. Tenho pena do marido! Os Larkin, então, acabaram de perder sua empregada. Claro, com o gênio indiano do juiz e seu pedido por chota hazri, como ele o chama, às seis da manhã e mrs. Larkin sempre fazendo estardalhaço, isso não me espanta, tampouco. A Janet de mrs. Carmichael é garantida, claro, embora, em minha opinião, ela seja uma mulher muito desagradável e atormente de modo terrível a velha senhora.
Então não acha que devia reconsiderar sua decisão sobre Gladys? Ela é mesmo uma boa moça. Conheço toda a sua família; muito honesta e direita.
Miss Lavinia negou com a cabeça.
Tenho minhas razões — ela disse com ares importantes.
Você perdeu um broche, eu compreendo... — miss Marple murmurou.
Ora, quem andou falando? Imagino que a moça. Francamente, estou quase certa de que ela o pegou. E depois ficou assustada e colocou de volta. Mas, claro, não se pode dizer a menos que se tenha certeza — e mudou de tema. — Venha ver a Emily.
Miss Marple a seguiu obedientemente até onde miss Lavinia bateu numa porta, foi convidada a entrar, e conduziu sua visita para o melhor quarto do apartamento onde venezianas em meia altura filtravam a maior parte da luz. Miss Emily estava deitada na cama, aparentemente apreciando a penumbra e seus próprios e indefinidos sofrimentos.
A luz fraca mostrava uma criatura magra de olhar arisco, com bastos cabelos grisalhos amarelados enrolados precariamente em torno da cabeça e irrompendo em cachos, a coisa toda parecia um ninho de pássaro do qual nenhum pássaro de respeito se orgulharia. O quarto cheirava a água-de-colônia, biscoitos velhos e cânfora.
Com os olhos semicerrados e uma voz fina e fraca, Emily Skinner explicou que aquele era “um de seus dias ruins”.
O pior da má saúde — disse miss Emily, melancólica —, é saber o fardo que somos para os que nos cercam. Lavinia é muito boa para mim. Lavvie querida, eu detesto muito dar trabalho, mas minha garrafa térmica poderia ser enchida da maneira que eu gosto, cheia demais ela fica muito pesada para mim. Por outro lado, se não estiver suficientemente cheia, ela esfria imediatamente!
Desculpe-me, querida. Me dê aqui. Vou esvaziá-la um pouco.
Talvez, já que está fazendo isso, ela possa ser enchida novamente. Não há roscas na casa, imagino... não, não, não tem importância. Posso passar sem elas. Um pouco de chá fraco com uma rodela de limão... não tem limões? Não, mesmo, eu não poderia tomar chá sem limão. Acho que o leite estava levemente coalhado esta manhã. Isso me indispôs contra o leite no meu chá. Não importa. Posso passar sem meu chá. Só me sinto tão fraca. As ostras, dizem, são nutritivas. Fico pensando se não poderia conseguir algumas? Não, não, é incômodo demais consegui-las tão tarde no dia. Eu posso jejuar até amanhã.
Lavinia saiu do quarto murmurando alguma coisa incoerente sobre ir de bicicleta ao povoado.
Miss Emily sorriu debilmente para sua visitante e observou que odiava dar qualquer trabalho a alguém.
Naquela noite, miss Marple disse a Edna que temia que sua embaixada não tivesse obtido sucesso.
Ela ficou bastante preocupada ao saber que os rumores sobre a desonestidade de Gladys já estavam se espalhando pelo povoado.
Na agência postal, miss Wetherby abordou miss Marple:
Minha querida Jane, eles lhe deram uma referência por escrito dizendo que ela era prestativa, e sóbria, e respeitável, mas sem dizer nada sobre honestidade. Isso me parece muito significativo! Ouvi dizer que houve algum problema com um broche. Acho que tem alguma coisa aí, sabe, porque não se deixa uma empregada ir embora, hoje em dia, a menos que seja alguma coisa bastante grave. Elas vão ter a maior dificuldade de encontrar outra. As moças simplesmente não irão a Old Hall. Elas ficam ansiosas para voltar para casa em seus dias de folga. Você verá, as Skinner não encontrarão ninguém, e aí, talvez, aquela horrível irmã hipocondríaca terá de se levantar e fazer alguma coisa!
Foi grande a mortificação no povoado quando se soube que as irmãs Skinner haviam contratado, de uma agência, uma nova empregada que, segundo todos os relatos, era um perfeito paradigma.
Uma referência de três anos a recomendando calorosamente, ela prefere o campo, e, aliás, pede menos salário do que a Gladys. Sinto que tivemos muita sorte.
Excelente — disse miss Marple, a quem esses detalhes eram transmitidos por miss Lavinia na peixaria. — Parece bom demais para ser verdade.
A opinião de St. Mary Mead passou a ser então que o paradigma recuaria no último minuto e não iria.
Nenhum desses prognósticos se verificou, contudo, e o povoado pode observar o tesouro doméstico, por nome Mary Higgins, atravessando o povoado no táxi do Reed para Old Hall.
Era preciso admitir que ela tinha boa apareência. Uma mulher das mais respeitáveis e muito bem vestida.
Quando miss Marple tornou a visitar Old Hall, com o pretexto de recrutar cuidadores para as barracas na quermesse do vicariato, Mary Higgins abriu a porta. Era de fato uma empregada de aspecto excelente, aparentando quarenta anos de idade, com cabelos pretos bem penteados, maçãs do rosto coradas, uma figura roliça discretamente vestida de preto com avental e touca brancos, “bem o tipo da boa empregada ao velho estilo”, como miss Marple explicou posteriormente, e com a voz apropriada e respeitosa, tão diferente das inflexões altas, mas anasaladas de Gladys.
Miss Lavinia parecia bem menos esgotada que o normal e, apesar de lamentar não poder cuidar de uma barraca por causa de sua preocupação com a irmã, ela fez uma bela contribuição em dinheiro, e prometeu produzir um lote de limpadores de canetas e meias para bebês.
Miss Marple comentou sua aparência saudável.
Sinto realmente que devo muito a Mary, sou tão grata por ter tido a determinação de me livrar da outra moça. Mary é realmente preciosa. Cozinha muito bem, serve lindamente e mantém nosso pequeno apartamento escrupulosamente limpo... os colchões são virados todo dia. E ela é realmente maravilhosa com Emily!
Miss Marple inquiriu rapidamente sobre Emily.
Oh, pobrezinha, ela tem estado muito indisposta ultimamente. A culpa não é dela, claro, mas isso dificulta um pouco as coisas às vezes. Querer que se cozinhe certas coisas e aí, quando elas vêm, dizer que não pode comer agora... e aí querê-las de novo meia hora depois quando tudo já estragou e tem que ser refeito. Isso dá um bocado de trabalho, mas felizmente a Mary parece não se importar absolutamente. Ela revelou que cuidava de inválidos, e os compreende. É tão confortante.
Ai, ai — disse miss Marple. — Você tem sorte.
Tenho mesmo. Sinto que Mary nos foi enviada em resposta a uma prece.
Para mim — disse miss Marple —, ela é quase boa demais para ser verdade. Eu seria.... bem, seria um pouco mais cautelosa se fosse você.
Lavinia Skinner não percebeu o motivo dessa observação. Ela disse:
Oh! Eu lhe garanto que faço tudo que posso para deixá-la confortável. Não sei o que faria se ela saísse.
Não espero que ela saia antes de estar pronta para sair — disse miss Marple e fitou com olhos duros sua anfitriã.
Quando não se tem preocupações domésticas — miss Lavinia disse —, isso tira um peso da cabeça, não é? Como a sua pequena Edna está se saindo?
Está se saindo muito bem. Não tem muita cabeça, é claro. Não como a sua Mary. Mas eu sei tudo sobre Edna porque ela é uma moça do povoado.
Quando saía para o vestíbulo, ela ouviu a voz da inválida se elevar, com irritação:
Deixaram esta compressa ficar muito seca... o doutor Allerton disse para a umidade ser mantida continuamente. Vá, vá, deixe. Quero uma xícara de chá e um ovo cozido, cozido três minutos e meio apenas, lembre-se, e chame miss Lavinia para cá.
A eficiente Mary saiu do quarto e, dizendo para Lavinia: — miss Emily está chamando a senhora, madame — prosseguiu para abrir a porta para miss Marple, ajudando-a a vestir seu casaco e entregando-lhe seu guarda-chuva da maneira mais irrepreensível.
Miss Marple pegou o guarda-chuva, deixou-o cair, tentou apanhá-lo, e deixou cair a bolsa, que se abriu. Mary recuperou polidamente várias bugigangas: um lenço, uma agenda, uma bolsa de couro antiquada, dois xelins, três centavos, e um pedaço listrado de pirulito de menta.
Miss Marple recebeu o último com alguns sinais de confusão.
Oh, querida, deve ter sido o garotinho de mrs. Clement. Ele o estava chupando, eu me lembro, quando pegou minha bolsa para brincar. Deve ter colocado dentro. É terrivelmente grudento, não é?
Devo apanhá-lo, senhora?
Se não for incômodo. Muito obrigada.
Mary se curvou para recuperar o último item, um espelhinho, provocando uma exclamação empolgada de miss Marple.
Que sorte que ele não quebrou.
Depois disso, ela partiu. Mary permaneceu polidamente ao lado da porta segurando um pedaço de pirulito listrado com as feições absolutamente impassíveis.
Por outros dez dias, St. Mary Mead teve de ouvir as excelências do tesouro de miss Lavinia e miss Emily. No décimo primeiro dia, o povoado acordou para sua grande excitação. Mary, o paradigma, havia desaparecido! Ninguém havia dormido em sua cama, e a porta da frente fora encontrada entreaberta. Ela havia se esgueirado para fora silenciosamente durante a noite.
E não fora apenas Mary que havia sumido! Dois broches e cinco anéis de miss Lavinia; três anéis, um pingente, um bracelete e quatro broches de miss Emily haviam sumido também!
Foi o começo de um capítulo de catástrofes.
A jovem mrs. Devereux havia perdido seus diamantes que guardava numa gaveta destrancada e algumas peles valiosas que recebera como presente de núpcias. O juiz e sua esposa também tiveram joias e algum dinheiro roubados. Mrs. Carmichael foi a mais prejudicada. Não só tinha algumas joias bastante valiosas como guardava também no apartamento uma grande soma de dinheiro que desapareceu. Era dia de folga de Janet, e sua patroa tinha o hábito de andar pelos jardins ao crepúsculo chamando os pássaros e espalhando migalhas. Parecia claro que Mary, a empregada perfeita, tinha chaves que serviam em todos os apartamentos!
Houve, é preciso confessar, algum prazer malévolo em St. Mary Mead. Miss Lavinia havia enaltecido tanto sua maravilhosa Mary.
E todo o tempo, minha querida, apenas uma ladra comum!
Revelações interessantes se seguiram. Não só que Mary desaparecera sem deixar rastro, mas que a agência que a havia fornecido e atestado suas credenciais ficou alarmada ao descobrir que a Mary Higgins que havia se oferecido a eles e cujas referências eles haviam levantado, para todos os fins e propósitos, jamais existira. Era o nome de uma empregada genuína que tinha vivido com uma irmã genuína de um decano, mas a Mary Higgins real estava vivendo pacificamente num lugar em Cornwall.
Danada de inteligente, a coisa toda — o inspetor Slack foi obrigado a reconhecer. — E se quiser saber, essa mulher trabalha com uma gangue. Teve um caso muito parecido em Northumberland um ano atrás. A muamba nunca foi encontrada, e nunca a apanharam. Mas nós vamos fazer melhor em Much Benham!
O inspetor Slack sempre foi um homem confiante.
Mesmo assim, as semanas se passavam e Mary Higgins continuava triunfalmente solta. Em vão o inspetor Slack redobrou aquela energia que tanto contradizia seu nome.[7]
Miss Lavinia permanecia lacrimosa, miss Emily ficou tão perturbada, e se sentiu tão alarmada com o estado da irmã que mandou chamar o doutor Haydock.
O povoado inteiro ficou em ansiosa expectativa para saber o que ele diria sobre as alegações de má saúde de miss Emily, mas naturalmente não poderia lhe perguntar. Chegaram dados satisfatórios sobre o tema, contudo, por intermédio de mr. Meek, o assistente de químico que estava saindo com Clara, a empregada de mrs. Price-Ridley. Ficou-se sabendo então que o doutor Haydock havia receitado uma mistura de assa-fétida e valeriana que, segundo mr. Meek, era o remédio padrão para simuladores de doenças no Exército!
Pouco depois se ficou sabendo que miss Emily, descontente com o atendimento médico que recebera, havia declarado que, no seu estado de saúde, ela se sentia no dever de ficar perto do especialista em Londres que compreendia seu caso. Era uma questão de justiça com Lavinia, ela havia dito.
O apartamento foi colocado para sublocação.

Foi poucos dias depois disso que miss Marple, toda corada e afobada, apareceu na delegacia de Much Benham e perguntou pelo inspetor Slack.
O inspetor Slack não gostava de miss Marple. Mas sabia que o inspetor-chefe, coronel Melchett, não partilhava sua opinião. De má vontade, portanto, ele a recebeu.
Boa tarde, miss Marple, o que posso fazer pela senhora?
Ai, ai — disse miss Marple —, temo que esteja ocupado.
Muito trabalho mesmo — disse o inspetor Slack —, mas posso conceder-lhe alguns minutos.
Ai, ai — disse miss Marple. — Espero conseguir dizer tudo da maneira apropriada. É tão difícil explicar-se, não acha? Não, talvez não ache. Mas como vê, não tendo sido educada no estilo moderno... apenas uma governanta, sabe, que ensinou as datas dos reis da Inglaterra e conhecimentos gerais... doutor Brewer... três tipos de doenças do trigo... ferrugem, mofo... como era mesmo a terceira... seria mancha[8]?
A senhora quer falar sobre mancha? — perguntou o inspetor e enrubesceu.
Oh, não, não — miss Marple descartou apressadamente qualquer desejo de falar sobre mancha. — Apenas uma ilustração, sabe. E como são feitas as agulhas, e tudo isso. Discursivo, sabe, mas sem ensinar a pessoa a se ater ao principal. Que é o que desejo fazer. É sobre a empregada de miss Skinner, Gladys, sabe.
Mary Higgins — disse o inspetor Slack.
Oh, sim, a segunda empregada. Mas é a Gladys Holmes que eu me refiro, uma mocinha muito impertinente e muito cheia de si, mas, de fato, estritamente honesta, e é muito importante que isso seja reconhecido.
Nenhuma acusação foi feita contra ela até agora que eu saiba — disse o inspetor.
Não, sei que não há uma acusação... mas isso piora as coisas. Porque, como sabe, as pessoas ficam pensando coisas. Ai, ai... eu sabia que ia explicar as coisas de maneira errada. O que eu realmente quero dizer é que o importante é encontrar Mary Higgins.
Com toda certeza — disse o inspetor Slack. — Tem alguma ideia sobre o assunto?
Bem, na verdade, tenho — disse miss Marple. — Posso lhe fazer uma pergunta? Impressões digitais têm algum proveito para vocês?
Ah — exclamou o inspetor Slack —, foi aí que ela nos passou a perna direitinho. Fazia a maior parte do serviço com luvas de borracha ou luvas de criada, ao que parece. E foi cuidadosa... limpou tudo em seu quarto e na pia. Não conseguimos encontrar uma única impressão digital no lugar!
Se tivesse impressões digitais, isso ajudaria?
Ajudaria, senhora. Elas poderiam ser reconhecidas na Yard. Este não foi seu primeiro trabalho, eu diria!
Miss Marple assentiu vigorosamente. Ela abriu sua bolsa e extraiu uma caixinha de papelão. Dentro dela, envolto em algodão, estava um espelhinho.
De minha bolsa de mão — disse miss Marple. — As impressões da empregada estão nela. Creio que devem ser satisfatórias... ela tocou numa substância extremamente pegajosa pouco antes.
O inspetor Slack a fitava:
Obteve as impressões digitais dela de propósito?
Claro.
Suspeitava dela, então?
Bem, sabe, me impressionou que ela fosse um pouco boa demais para ser verdade. Eu praticamente disse isto para miss Lavinia. Mas ela simplesmente não quis pegar a deixa! Temo, inspetor, que eu não acredite em paradigmas. A maioria de nós tem falhas... e o serviço doméstico as revela muito rapidamente!
Bem — disse o inspetor Slack, recuperando a compostura —, sou-lhe grato, com certeza. Nós as enviaremos à Yard e veremos o que eles têm a dizer.
Ele parou. Miss Marple havia inclinado um pouco a cabeça e o observava com uma expressão muito sugestiva.
Você não pensaria, imagino, inspetor, em olhar um pouco mais perto de casa?
O que quer dizer, miss Marple?
É difícil de explicar, mas quando a gente tropeça em uma coisa peculiar a gente a nota. Embora, com frequência, as coisas peculiares possam ser as mais banais. Eu senti isso o tempo todo, sabe; quer dizer, sobre Gladys e o broche. Ela é uma moça honesta; ela não roubou aquele broche. Então, por que miss Skinner achou que ela havia roubado? Miss Skinner não é tola. Longe disso! Por que ela estava tão ansiosa para deixar ir embora uma moça que era uma boa empregada quando empregadas são tão difíceis para se conseguir? Era peculiar, sabe. Aí eu fiquei pensando, fiquei pensando muito tempo. E notei outra coisa peculiar! Miss Emily é uma hipocondríaca, mas é a primeira hipocondríaca que não manda chamar um médico de imediato. Hipocondríacos adoram médicos. Miss Emily não adorava!
O que está sugerindo, miss Marple?
Bem estou sugerindo, se me entende, que miss Lavinia e miss Emily são pessoas peculiares. Miss Emily passa quase todo seu tempo num quarto escuro. E se aquele cabelo dela não é uma peruca eu... eu como minha própria trança postiça! E o que eu digo é o seguinte... é perfeitamente possível uma mulher magra, pálida, grisalha e chorosa ser a mesma mulher de cabelo preto, faces rosadas e corpulenta. E ninguém que eu saiba viu miss Emily e Mary Higgins ao mesmo tempo.
Tempo de sobra para limpar impressões digitais de todas as chaves, tempo de sobra para descobrir tudo sobre os outros inquilinos, e aí... livrar-se da moça local. Miss Emily faz uma caminhada vigorosa pelo campo uma noite e chega à estação como Mary Higgins no dia seguinte. E aí, no momento certo, Mary Higgins desaparece, e lá se vai a turba enfurecida no seu encalço. Vou lhe dizer onde a encontrará, inspetor. No sofá de miss Emily Skinner! Tire suas impressões digitais, se não acredita em mim, mas descobrirá que estou certa! Um par de ladras espertas, é o que as Skinner são... e seguramente mancomunadas com um receptor ou receptador ou sabe lá como vocês o chamam! Mas elas não vão se safar desta vez! Não vou deixar que o caráter honesto de uma moça de nosso povoado seja roubado desse modo! Gladys Holmes é tão honesta como a luz do dia, e todos vão se inteirar disso! Boa tarde!
Miss Marple havia saído antes que o inspetor Slack se recuperasse.
Ufa! — ele murmurou. — Será que ela está certa?
Ele logo descobriu que miss Marple estava certa mais uma vez.
O coronel Melchett cumprimentou Slack pela sua eficiência, e miss Marple fez Gladys ir para o chá com Edna e falou seriamente para ela se aquietar em um bom emprego quando conseguisse um.

Agatha Christie, em Três ratos cegos e outros contos

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