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11/05/2026

Mágica divina

O cristianismo acabou com o sofrimento transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que Deus quiser!”

Mário Quintana, em Caderno H

19/02/2025

A causa do seu sofrimento

A causa do seu sofrimento não está em algo externo, mas em seu próprio julgamento. E está em seu poder cessá-lo agora. Se a causa estiver na sua própria convicção, quem o impede de corrigi-la? Se sofre por não estar fazendo o que acredita ser correto, por que não age em vez de se lamentar?
Mas há uma barreira intransponível no trajeto!”
Então não lamente, pois isso independe de você.
Mas não vale a pena viver se não ela não puder ser transposta.”
Então parta tão satisfeito quanto quem está em plena atividade apesar das barreiras.

Marco Aurélio, em Meditações

30/01/2022

Sofrimento

Nenhum sofrimento humano é maior do que o planejado pela natureza.

Conversa ouvida em um jogo de dados.

Charles Bukowski, in Ao sul de lugar nenhum

24/07/2021

Sofrimento

Todos os sofrimentos ao nosso redor nós também temos de sofrer.
Temos todos não um corpo, mas um estilo de crescer, o que nos faz atravessar todas as dores, seja nesta ou naquela forma. Assim como a criança evolui por todos os estágios da vida até a velhice e a morte (e cada estágio no fundo parece inalcançável ao anterior, na exigência ou no medo), do mesmo modo evoluímos (ligados não menos profundamente à humanidade do que a nós mesmos) por meio de todas as dores deste mundo. Nesse contexto, não existe lugar para a justiça, nem também para o medo da dor ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.

Franz Kafka, in Aforismos reunidos

05/07/2021

Sofrimento

Só aqui o sofrimento é sofrimento. Não como se aqueles que aqui sofrem devam ascender a outro lugar em função desse sofrimento, mas no sentido de que aquilo que neste mundo se chama sofrimento, em outro mundo, inalterado e tão-somente libertado do seu oposto, é êxtase.

Franz Kafka, in Aforismos reunidos

23/03/2020

Lavoura Arcaica - 26

Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo seu espírito e aprimorando sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável. Do meu lado, aprendi bem cedo que é difícil determinar onde acaba nossa resistência, e também muito cedo aprendi a ver nela o traço mais forte do homem; mas eu achava que, se da corda de um alaúde — esticada até o limite — se podia tirar uma nota afinadíssima (supondo-se que não fosse mais que um arranhado melancólico e estridente), ninguém contudo conseguiria extrair nota alguma se a mesma fosse distendida até o rompimento. Era isso pelo menos o que eu pensava até a noite do meu retorno, sem jamais ter suspeitado antes que se pudesse, de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente (o que só vinha confirmar a possível crença de meu pai de que um homem, mesmo quebrado, não perdeu ainda sua resistência, embora nada provasse que continuava ganhando em sensibilidade).
Raduan Nassar, in Lavoura Arcaica

18/06/2019

O princípio satânico do sofrimento

Se existem homens felizes nesta terra, por que eles não gritam, por que eles não descem para as ruas a fim de proclamar sua alegria? Por que tanta discrição, tanta reserva? Se eu sentisse em mim uma alegria permanente, uma irresistível propensão à serenidade, eu faria com que todos os homens conhecessem-na, eu daria vazão a toda esta euforia.
Se a felicidade existe, devemos comunicá-la. Mas talvez os indivíduos verdadeiramente felizes não tenham consciência disto. Se assim for, nós poderíamos oferecer-lhes uma parte da nossa consciência em troca de uma parte da inconsciência deles. Por que a dor tem somente lágrimas e gritos, enquanto o prazer apenas frissons? Se o homem tomasse tanto consciência do prazer quanto da dor, ele não teria que compensar suas alegrias. A repartição das dores e dos prazeres não seria incomparavelmente mais justa?
Se as dores não se deixam esquecer, é porque elas invadem desmesuradamente a consciência. Assim, aqueles que têm muito a esquecer não são outros senão os mesmos que muito sofreram. Somente as pessoas normais não têm nada a esquecer.
Enquanto as dores têm um peso e uma individualidade, os prazeres desfazem-se e fundem como formas de contornos mal definidos. Evocar um prazer e suas circunstâncias é, com efeito, extremamente difícil para nós, pois mesmo a sua mais tênue lembrança vem reforçar a das dores. Certamente, os prazeres não são esquecidos por completo - de uma vida de prazeres, guardar-se-á apenas uma leve desilusão, enquanto o homem que muito sofreu chega, na melhor das hipóteses, a uma resignação amarga.
É um vergonhoso preconceito afirmar tanto que os prazeres são egoístas e apartam o homem da vida, quanto pretender que as dores prendem-nos ao mundo. A frivolidade destes preconceitos revolta e sua origem livresca revela a nulidade de todas as bibliotecas aos olhos de uma experiência vivida até o fim.
A concepção cristã que faz do sofrimento um caminho para o amor, senão sua principal porta de acesso, é fundamentalmente errônea. Mas seria este o único campo em que o cristianismo engana-se? Fazendo do sofrimento o caminho para o amor, ignora-se toda a sua essência satânica. Os degraus do sofrimento não se elevam - eles descem; eles não conduzem ao céu, mas ao inferno.
O sofrimento separa, dissocia; força centrífuga, ele nos desliga do nó da vida, do centro de atração do mundo, lugar em que todas as coisas tendem à unidade. O princípio divino caracteriza-se por um esforço de síntese e de participação na essência do todo. De maneira contrária, um princípio satânico habita o sofrimento - produzindo desarticulação e trágica dualidade.
As diversas formas de alegria fazem-nos participar inocentemente do ritmo da vida; nós o fazemos, ainda que de maneira inconsciente, em contato com o dinamismo da existência, cada uma das nossas fibras ligada às pulsações irracionais do Todo. Isto vale não somente para a alegria espiritual, mas também para todas as formas de prazer.
O distanciamento do mundo, responsável pelo sofrimento, conduz a uma interiorização excessiva e, paradoxalmente, aumenta o grau de consciência - tanto que o mundo inteiro, com seus esplendores e trevas, torna-se exterior e transcendente. Neste ponto de separação, assim que, irremediavelmente só, tem-se o mundo diante de si, como poder-se-ia esquecer o que quer que seja? Sente-se então a necessidade de esquecer somente as experiências que fizeram sofrer. Ou, devido a um paradoxo dos mais impiedosos, desaparecem as lembranças daqueles que gostariam de se lembrar, enquanto fixam-se as reminiscências dos que gostariam de tudo esquecer.
Os homens dividem-se em duas categorias: aqueles a quem o mundo oferece ocasiões de interiorização e aqueles para quem ele permanece exterior e objetivo. Para a interiorização, a existência objetiva não é nada mais do que um pretexto . Assim, somente ela pode tomar uma significação, pois uma teleologia objetiva funda-se e justifica-se em meio a certas ilusões, que têm por defeito o fato de que um olhar penetrante pode desmascará-las facilmente. Todos os homens veem fogos, tempestades, desmoronamentos ou paisagens; mas quantos veem chamas, relâmpagos, vertigens ou harmonias? Quantos, vendo um incêndio, pensam na graça e na morte? Quantos trazem em si uma beleza longínqua que tinge sua melancolia? Para os indiferentes, a quem a natureza não oferece nada além de uma imagem insossa e glacial, a vida é, ainda que ela os preencha, uma soma de ocasiões perdidas.
Independentemente de quão profundos tenham sido meus tormentos, ou de quão grande tenha sido minha solidão, a distância que me separou do mundo somente fez com que este se tornasse mais acessível para mim. Ainda que eu não possa encontrar-lhe nem sentido objetivo, nem finalidade transcendente, a multiplicidade das formas da existência não se constituiu para mim em menos ocasiões permanentes de tristeza e de encantamento. Conheci momentos em que a beleza de uma flor justificou a meus olhos a ideia de uma finalidade universal, assim como a menor das nuvens soube clarear momentaneamente minha visão sombria das coisas. Os fanáticos da interiorização são capazes de extrair, do aspecto mais insignificante da natureza, uma revelação simbólica.
É possível que eu arraste atrás de mim tudo aquilo que nunca vi? Assusto-me com a ideia de que tantas paisagens, livros, horrores e visões sublimes possam ter se concentrado num pobre cérebro. Tenho a impressão de que eles se transpuseram em mim como realidades e de que eles pesam em meus ombros. Eis, talvez, o motivo para que eu me sinta às vezes oprimido até o ponto de querer tudo esquecer. A interiorização conduz ao colapso, pois o mundo penetra-nos e mói-nos com uma força irresistível. O que há de surpreendente, assim sendo, que as pessoas tentem recorrer a qualquer coisa - desde à vulgaridade até à arte - com o único fim de tudo esquecer?

***

Eu não tenho ideias - mas obsessões. Ideias, todos podem tê-las. Mas ideias nunca provocaram o colapso do que quer que seja.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

15/06/2019

Sobre o sofrimento e sobre a felicidade

Acho que sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge a quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é porque algo está errado com a gente.
Quem é feliz e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim, a receita para não sofrer é muito simples: basta matar o amor.
Mas que enorme seria a perda se isso acontecesse! Porque é o sofrimento que nos faz pensar. Pensamos ou para encontrar formas de eliminar o sofrimento, quando isso é possível, ou para dar um sentido ao sofrimento, quando ele não pode ser evitado. O pensamento, assim, filho da dor, está a serviço da alegria. Todas as belas conquistas do espírito humano, da poesia à ciência, nasceram assim.
Mas há outros sofrimentos que não nascem de perdas reais. A felicidade pode ser destruída por uma doença que mora em nossos olhos. O que é ilustrada por esta estorieta que gosto de contar:

***

Um homem, felizardo, encontrou uma garrafa onde morava um gênio. Libertado de sua prisão, o gênio lhe disse:
- Tenho o poder de torná-lo feliz. Atenderei a todos os seus pedidos, sem nenhum limite!
Tomado por uma onda de felicidade, o homem começou a imaginar todas aquelas coisas com que sempre sonhara e nunca imaginara poder ter. coisas que o tornariam feliz para sempre! E os seus olhos brilhavam ao contemplar os objetos dos seus desejos: casas em lugares paradisíacos, viagens por países longínquos, banquetes com comidas exóticas, carros, iates, aviões, lindas mulheres que o amariam com amor terno e fiel, um corpo eternamente jovem, belo e potente… Ah!, o que ele imaginava estava além de tudo o que sonhara, e agora seus olhos deslumbrados se deleitavam nos objetos que o tornariam feliz. Estava pronto a transformar seus sonhos em realidade e felicidade.
- Vou dizer o que desejo – disse ele ao gênio.
- Há apenas um pequeno detalhe, insignificante, que é preciso esclarecer – o gênio acrescentou.
- Pois diga – replicou o homem.
- É que tudo o que você tiver, seu inimigo terá em dobro…
Ao ouvir essas palavras, uma perversa metamorfose aconteceu com os seus olhos. Seu deleite tranquilos nos objetos do seu desejo se transformou num movimento aflito entre o que o gênio lhe daria – até aquele momento muito mais do que tudo com que jamais sonhara, mais que suficiente para a sua felicidade – e aquilo que seria dado ao seu pior inimigo. E, quando seus olhos o contemplavam e o que ele teria, como ele se sentia pobre e desgraçado! A visão da felicidade do outro estragara, para sempre, a sua própria felicidade.
- Já sei o que quero pedir – disse ele finalmente ao gênio.
- Pois faça o seu pedido! -, o gênio replicou.
- Me fure um olho!”
Rubem Alves, in A eternidade numa hora

18/02/2019

Ambiguidade do sofrimento

Não há ninguém que, após ter triunfado sobre a dor ou sobre a doença, não experimente, no fundo da alma, um remorso - não importa o quão vago ou pálido. Ainda que desejosos de se restabelecer, aqueles que sofrem longa e intensamente sentem-se sempre levados a encarar sua cura como uma perda. Quando a dor torna-se parte integral do ser, deixá-la para trás suscita necessariamente o pesar, como por algo desaparecido. O que tenho de melhor em mim, sendo tudo o que perdi, devo ao sofrimento. Assim sendo, não se pode amá-lo ou condená-lo. Tenho por ele um sentimento particular, difícil de definir, mas que tem o charme e os atrativos de uma luz crepuscular. A beatitude no sofrimento não passa de ilusão, pois ela exigiria de se reconciliar com a fatalidade da dor, para evitar a destruição. Nesta beatitude ilusória jazem os últimos recursos da vida. A única concessão que se pode fazer ao sofrimento vem do remorso com a cura, mas, vago e difuso demais, este não pode cristalizar-se na consciência. Toda dor que se apaga provoca um sentimento de perturbação, como se o retorno ao equilíbrio impedisse para sempre o acesso às regiões torturantes e enfeitiçadas, das quais não se pode partir sem um olhar para trás. O sofrimento não tendo nos revelado a beleza, nenhuma outra luz pode mais nos seduzir. Somos ainda atraídos pelas trevas do sofrimento?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

27/12/2018

O monopólio do sofrimento

Eu me pergunto por que o sofrimento não oprime mais do que uma minoria. Existe uma razão desta seleção que isola, entre os indivíduos normais, uma categoria de eleitos destinados aos suplícios mais apavorantes? Certas religiões afirmam que o sofrimento é o meio do qual se serve a Divindade para nos testar, ou para nos fazer expiar um pecado. Esta concepção pode valer para um fiel, mas aquele que vê o sofrimento atacar indiferentemente puros e inocentes não saberia admiti-lo. Nada pode justificar o sofrimento, e querer fundá-lo numa hierarquia de valores é estritamente impossível - mesmo supondo que uma tal hierarquia pudesse existir.
O aspecto mais estranho dos sofredores reside na crença no valor absoluto de seu tormento - e que lhes dá a impressão de deter o monopólio. Eu tenho a ideia de ter concentrado em mim todo o sofrimento deste mundo e de ter o seu gozo exclusivo - mesmo que eu constate sofrimentos ainda mais atrozes, que se pode morrer perdendo pedaços de carne, desintegrando-se sob seus próprios olhos; sofrimentos monstruosos, criminosos, inadmissíveis. Pergunta-se como eles podem advir, e, uma vez que eles advêm, como falar ainda de finalidade e de outras trivialidades. O sofrimento impressiona-me tanto que perco quase toda a coragem. Eu não posso entender a razão do sofrimento no mundo; que ele derive da bestialidade, da irracionalidade, do demonismo da vida, isto explica sua presença, mas não fornece sua justificação. É, então, provável que o sofrimento não tenha nenhuma, da mesma forma que a existência em geral. A existência deveria ser? Ou ela tem uma razão puramente imanente? O ser não é apenas ser? Por que não admitir um triunfo final do não-ser, por que não admitir que a existência caminha em direção ao vazio, e o ser em direção ao não-ser? Este último ponto não constituiria a única realidade absoluta? Eis um paradoxo do tamanho do mundo.
Ainda que o sofrimento como fenômeno me impressione e, às vezes, mesmo me encante, eu não saberia escrever-lhe uma apologia, pois o sofrimento durável - e o verdadeiro sofrimento é assim - por mais purificador que ele seja na sua primeira fase, acaba por arruinar, destruir, desagregar. O entusiasmo fácil pelo sofrimento caracteriza os estetas e os diletantes, que o tomam por divertimento, ignorando sua terrível força de decomposição e seus recursos venenosos de desagregação, bem como sua fecundidade, à qual deve-se, entretanto, pagar muito caro. Deter o monopólio do sofrimento é voltar a viver suspenso sobre um abismo. Todo o verdadeiro sofrimento é um abismo.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

02/10/2018

Medida do sofrimento

Existem pessoas que são condenadas a saborear somente o veneno das coisas, para quem toda a surpresa é dolorosa e toda a experiência uma nova tortura. Este sofrimento, será dito, tem razões subjetivas e procede de uma constituição particular: mas existe algum critério objetivo para medir o sofrimento? Quem então poderia certificar que meu vizinho sofre mais do que eu mesmo, ou que Cristo tenha sofrido mais do que quem quer que seja. O sofrimento não é apreciável objetivamente, porque ele não se limita ao exterior ou a um problema preciso do organismo, antes, ele surge de acordo com a forma pela qual a consciência o reflete e o sente. Deste ponto de vista, toda a hierarquização torna-se impossível. Cada um conservará seu próprio sofrimento, crendo-lhe absoluto e sem limites. Mesmo se evocássemos as mais terríveis agonias deste mundo, os suplícios mais elaborados, as mortes mais atrozes e os mais dolorosos abandonos, todos os empesteados, os queimados vivos e as vítimas da lentidão da fome, seria a nossa própria dor aliviada? Ninguém saberia encontrar consolação, no momento de agonia, por meio do simples pensamento de que todos os homens são mortais e sofrem, uma vez que, nós mesmos sofrendo, o sofrimento presente ou passado dos outros em nada nos importaria. Neste mundo organicamente deficiente e fragmentário, o indivíduo tende a elevar sua própria consciência à linha do absoluto: assim, cada um vive como se fosse o centro do universo ou da história. Esforçar-se para entender o sofrimento do outro não diminui, portanto, a intensidade do nosso próprio. Em tais casos, as comparações não têm qualquer sentido, pois o sofrimento é um estado que se manifesta na solidão interior e que nada de exterior pode aliviar. Poder sofrer sozinho é uma grande vantagem. O que aconteceria se o semblante humano exprimisse fielmente todo o sofrimento interior, se todo o suplício interior tivesse expressão? Poderíamos ainda conversar? Poderíamos ainda trocar palavras sem escondermos o rosto entre as mãos? A vida seria decididamente impossível se a intensidade de nossos sentimentos pudesse ser lida nos traços de nosso semblante. Nenhuma pessoa ousaria mais, então, mirar-se no espelho, porque uma imagem a um só tempo grotesca e trágica misturaria manchas de sangue aos contornos da fisionomia; feridas sempre abertas e rios de lágrimas incontíveis. Eu provaria uma volúpia cheia de terror em observar, no seio da confortável e superficial harmonia de todos os dias, a explosão de um vulcão que lançasse chamas ardentes como o desespero. Observar a menor ferida de nosso ser abrir-se irremediavelmente para nos transformar inteiramente em perpétua erupção. Somente então teríamos consciência das vantagens da solidão, que torna o sofrimento mudo e inacessível. Neste despertar do vulcão de nosso ser, o veneno acumulado em nós não seria o bastante para envenenar o mundo inteiro?
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

29/09/2018

Sofrimento

Você pode se conter diante dos sofrimentos do mundo – é algo que tem liberdade de fazer e corresponde à sua natureza, mas talvez seja esse autocontrole o único sofrimento que você poderia evitar.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

22/09/2018

Irmanados no sofrimento

Todos os sofrimentos ao nosso redor nós também temos de sofrer.
Temos todos não um corpo, mas um estilo de crescer, o que nos faz atravessar todas as dores, seja nesta ou naquela forma. Assim como a criança evolui por todos os estágios da vida até a velhice e a morte (e cada estágio no fundo parece inalcançável ao anterior, na exigência ou no medo), do mesmo modo evoluímos (ligados não menos profundamente à humanidade do que a nós mesmos) por meio de todas as dores deste mundo. Nesse contexto, não existe lugar para a justiça, nem também para o medo da dor ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

11/09/2018

Sofrimento

Só aqui o sofrimento é sofrimento. Não como se aqueles que aqui sofrem devam ascender a outro lugar em função desse sofrimento, mas no sentido de que aquilo que neste mundo se chama sofrimento, em outro mundo, inalterado e tão-somente libertado do seu oposto, é êxtase.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

16/11/2017

Sofre-se sempre

Quando se sofre, julga-se que para lá do círculo existe a felicidade; quando NÃO se sofre, sabe-se que a felicidade não existe e sofre-se, então, por não sofrer.”
Cesare Pavese, in Il mastiere di vivere

13/07/2017

Sofrimento

Não acredito que o crucial seja o sofrimento. Um povo tem uma capacidade infinita para o sofrimento. É capaz de aceitar as maiores privações e de conviver com os maiores sacrifícios se acreditar na justiça da causa e na beleza do futuro. Prova disso são os povos que, por decênios, lutaram e lutam contra a opressão, em meio ao mais cruel sofrimento. Mas isso somente quando o sofrimento é parte de uma disciplina para se criar um futuro novo.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

08/06/2017

Por que alguns sofrem e outros não?

Você me pergunta: “Por que alguns sofrem e outros não?” Essa pergunta é uma confissão. Quem faz essa pergunta é porque está sofrendo. As perguntas nascem sempre das nossas feridas. Mas essa pergunta revela que o seu sofrimento não é sofrimento comum. É sofrimento que não faz sentido. “Por quê? Por quê? Eu não mereço!” Se aos bons e inocentes fossem dados prazer e alegria e aos maus e culpados, sofrimento e desgraças, a gente compreenderia e até acharia bom. Pois parece justo que os maus paguem suas maldades com sofrimento. Toda maldade deve ser castigada. E parece justo que os bons sejam recompensados com prazeres e alegrias.
O filósofo Emanuel Kant dizia que duas coisas o enchiam de espanto: a ordem das estrelas, no céu, e o sentimento moral, no coração dos homens. O sentimento moral é isto: a consciência de que há atos bons e atos maus. É essa distinção moral entre o bem e o mal que torna possível a ordem humana. Os criminosos devem ser castigados. Os bons devem ser recompensados.
Imagine agora que o universo é uma ordem moral. Se ele é uma ordem moral, então os bons são recompensados e os maus são punidos. Se esse é o caso, somos forçados a concluir que, se alguém está sofrendo, seu sofrimento tem de ser merecido. Sofrimento é castigo por algum ato mau que se cometeu. Os discípulos de Jesus pensavam assim. Eles viram um cego mendigando à beira da estrada e concluíram que a sua cegueira era castigo de Deus por algum pecado dele ou dos seus pais. (Que Deus horrendo esse, que castiga nos filhos os pecados dos pais!) E foram logo perguntando: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” Mas Jesus discordou. Ele não acreditava que os sofrimentos são punição por algo mau que se fez. O Deus de Jesus não deseja que os homens sofram. Sua resposta foi: “Nem ele nem seus pais.”
Se sofrimentos e prazeres fossem distribuídos com justiça, você não teria feito a sua pergunta. Mas você sabe que isso não acontece. A verdade é que muitas coisas ruins acontecem a pessoas boas e muitas coisas boas acontecem a pessoas ruins. E isso nos parece absurdamente injusto. A sua pergunta surge do seu sentimento moral. Você deseja que haja justiça. Mas o sofrimento dos bons e os prazeres dos maus nos dizem que o universo não é uma ordem moral. Os bons não são premiados e os maus castigados. Se assim fosse, seria um ótimo negócio ser bom. Há umas religiões que ensinam que, se a gente está bem com Deus, tudo dá certo. Se o sofrimento vem, elas concluem, é porque a pessoa fez uma coisa errada: não está bem com Deus. Quando as pessoas dizem, com toda a honestidade de que são capazes: “Eu não merecia!”, elas estão afirmando a sua inocência. Afirmam a injustiça do seu sofrimento.
Mas agora veja: essa pergunta só tem sentido se você imaginar que os sofrimentos e os prazeres são enviados por Alguém todo-poderoso, que toma conta do universo. Muitas pessoas acreditam assim. Elas acham que as pessoas sofrem porque Deus quer. A criancinha com câncer, o jovem adolescente que morre num desastre de carro, a pessoa que é assassinada por um assaltante, as enchentes e terremotos que tiram a vida de milhares – tudo isso Deus poderia ter evitado se ele tivesse querido. Confesso a você que, se eu acreditasse num Deus assim, se eu acreditasse num Deus que tem prazer no sofrimento das pessoas, eu o odiaria do mais profundo do meu coração.
Pense na vida como uma imensa roleta. Há probabilidades infinitas à nossa espera. Coisas boas, coisas más. De vez em quando acontece uma coisa boa. De vez em quando acontece uma coisa ruim. Quem é responsável? Ninguém. A roleta é cega. Não foi “Alguém”, invisível, que fez com que a coisa ruim ou a coisa boa acontecesse. Foi um puro acidente – sem razões, sem explicações.
Viver é estar jogando esta roleta, sem fim. É sempre possível que algo terrível me aconteça. Se acontecer, eu sofrerei. Mas não culparei ninguém. Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente.
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

29/01/2017

Sobre sofrimento e prazer

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O fato de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos atos; mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservar o nosso sentimento de poder.”
Friedrich Nietzsche, in A Gaia Ciência

22/01/2017

Acerca dos sofrimentos e das dores

Todos os sofrimentos que nos cercam, é necessário a nós sofrê-los igualmente. Todos nós, não temos um corpo, mas um crescimento, e esse conduz-nos através de todas as dores, seja sob que forma for. Do mesmo modo que a criança, através de todos os estágios da vida, se desenvolve até a velhice e até a morte (e cada estágio parece no fundo inacessível ao precedente, quer seja desejado ou receado), do mesmo modo nos desenvolvemos (não menos solidários da humanidade do que de nós próprios) através de todos os sofrimentos deste mundo. Para a justiça não há, nesta ordem de coisas, lugar algum, não mais do que para o receio dos sofrimentos ou para a interpretação do sofrimento como um mérito.”
Franz Kafka, in Os Aforismos de Zurau

01/10/2016

O melhor remédio para o sofrimento

Uma interpretação irônica da vida, uma aceitação indiferente das coisas, são o melhor remédio para o sofrimento, posto que o não sejam para as razões que há para sofrer.
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins