Mostrando postagens com marcador Lampião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lampião. Mostrar todas as postagens

12/06/2015

Cabo eleitoral dessa laia não merece respeito


Bem, criaturo: se fizer efeito no Município, estamos acertados, vai dessa pras profundas. Quem diz? Arriba até mesmo de cavalo, achando cavalo, ou senão numa boa carreirinha, e vai se aliviar longe das divisas. De Barracão a Simão Dias, sei lá. Bosta derretida onde marquei terreno, isso não. Nunca. Dessas fiz diversas, que era para não fazer mal pior. Infeliz tem mulher e filho, geme como um bacorinho, o que é que se vai fazer? Necessidade é necessidade, passe bem eu e o meu alazão, a mulher parindo ou não. Cabo eleitoral dessa laia não merece respeito. Mesmo agora que eu perdi a autoridade, sempre fica o prestígio. Em Aracaju tenho as costas quentes e não é assim que Getúlio vai se ver de uma hora para outra. Principalmente depois de entregar vosmecê. Tem ambientes em Aracaju, gente a seu favor. Coisas. Não gosto desse serviço, não gosto de levar preso. Avexame. Depois de levar vosmecê lá, assento os quartos num lugar e largo essa vida de cigano. Só se doutor Zé Antunes pedir muito. Mesmo assim. Me aposento-me. Essa água está quente na garrafa, mas está boa. Nunca beba água onde não pode ver o purrão. Segundo preceito. Lampião andava com uma colher de prata no embornal. Todo de comer enfiava a colher. Se a colher empretecia, tinha veneno, isso porque o veneno descurece a prata, não sabe vosmecê. Morte certa para o dono da casa. Se não empretecia, dava até presentes, sortia bodegas, fazia felicidades. Muitas vezes ficava arreliado por qualquer coisinha. Trancou os quibas de vários na gaveta, jogou a chave fora e tocou fogo na casa. Não sem antes botar uma faca ao pé do desgraçado. No meu pensar, antes morrer queimado do que perder os quibas. A voz vai afinando, a barba vai caindo, se torna-se pederástio, falso ao corpo. Mas a maior parte preferia cortar os ovos do que virar coivara. Hoje em dia não se faz mais essas coisas. Vosmecê aturava uma dessas? Outra vez, Lampião amarrou a mulher de um juiz, não sei se em Divina Pastora ou Rosário do Catete ou Capela, amarrou essa mulher desse juiz num pé de pau e botou nuazinha em pêlo. Mas já se viu uma mulher velha dessa com tanto cabelo nas partes? Ora já se viu que indecência? Nem das piores raparigas, que é isso assim? E assuntou em cima dos oclos assim e assado e acabou arrancando todos os penteios do xibiu da mulher na frente de todos, tudo ali reunido por obrigação, porque Lampião só fazia tudo na frente de todo mundo. Ruindade era ali, matava sem ideias. Resultado, cabeça cortada na Bahia, de exposição como chifre de boi brabo. Antes porém brincou de manja com a milícia de todos Estados e deixou a marca no mundo desde o tempo de Dão Pedro. Dizem, nunca vi.”
João Ubaldo Ribeiro, in Sargento Getúlio

15/09/2014

A morte do Jararaca


Quando Lampião teve a certeza de que atravessaria livremente todo o Ceará, em cujo território já por vezes penetrara, erguendo vivas ao então Presidente do Estado, decidiu invadir o Rio Grande do Norte, para atacar a cidade de Mossoró. Seduziam-nos os pingues recursos desse empório comercial, servido por uma agência do Banco do Brasil.
Saiu-lhe, porém, o ano bissexto… A população de Mossoró, tendo à frente o valoroso Prefeito Cel. Rodolfo Fernandes, reagiu bravamente ao assalto da cabroeira de Virgolino e dois sequazes deste tombaram baleados, sem que os companheiros os pudessem conduzir.
Um dos feridos era o Jararaca. Transportado para a cadeia, solicitamente o medicaram. Era preciso que ele não falecesse sem que as autoridades o ouvissem. De fato, só depois de prensado, interrogado e, até, de fotografado, o Jararaca morreu. Mas ninguém o viu morto, pois o enterramento foi dado como feito alta noite.
Uns vinte dias depois, dizia-me em Fortaleza um sertanejo da terra potiguar:
- Jararaca morreu, mas não foi de morte morrida: foi de morte matada…
E com a desenvoltura de quem não tem papas na língua nem é jornalista do Governo, descreveu a cena macabra:
- Uma boca-de-noite, noite de lua, o Jararaca, algemado, foi conduzido da cadeia pro cemitério. Chegando lá rodeado de soldados, mostraram-lhe uma cova, aberta lá num canto, quase fora do “sagrado” e lhe perguntaram se ele sabia pra que era aquilo… Foi quando o Jararaca falou, frocado e destemido:
- Saber de certeza não sei, não, mas porém estou calculando… Não é pra mim? Agora, isso só se faz porque eu me vejo nestas cerconstança, com as mãos inquirida e desarmado! Um gosto eu não deixo pra vocês: é se gabarem de que eu pedi que não me matassem. Matem! Que matam mas é um home! Fiquem sabendo que vocês vão matar o home mais valente que já pisou neste…
Mas, não teve tempo de acabar de dizer o que queria. Por trás dele, um soldado, naturalmente de combinação com os outros, deu-lhe um tiro de revólver na cabeça. A bala pegou bem no mole do pé do ouvido, lá nele. O Jararaca amunhecou das pernas e caiu, de olho vidrado. Aí, os soldados o empurraram com os pés pra dentro da sepultura. Só demoraram enquanto tiravam os ferros das algemas. Quando o cadáver rolou pra cova, fizeram luz e espiaram: o finado tinha caído de bruços. Mas, ninguém se embaraçou com isso: por cima do corpo inda quente, as pás de terra deram serviço…
Calou-se o narrador, para dizer, logo mais, entre compadecido e irônico, num misto de piedade e de galhofa:
- Coitado do Jararaca! Tão valente na hora da morte, mas foi enterrado dando as costas pra este mundo velho, onde ele fez tanta estrepolia…
Leonardo Mota, in No tempo de Lampião

01/08/2013

A reportagem que reinventou Lampião

Há exatos 75 anos, a revista carioca A Noite Ilustrada publicou a maior cobertura da imprensa sobre a morte do mais famoso cangaceiro, fato que evidenciava sua importância como notícia e lenda.


A capa da edição da quarta-feira 9 de agosto de 1938, da revista A Noite Ilustrada, lançada 11 dias depois do massacre na Fazenda Angicos, município de Piranhas, entre Alagoas e Sergipe, onde morreram Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, Maria Bonita e mais nove pessoas, é emblemática. Em vez de estampar o mais famoso e temido cangaceiro do País, a imagem trazia em destaque outro bandoleiro, Corisco, conhecido pela polícia e pela imprensa como Diabo Louro. A mensagem parecia clara: sem Lampião, o cangaço sobreviveria pelo herdeiro e compadre de seu antigo chefe. Rei morto, rei posto? Não. A legenda explicava que aquela foto havia sido encontrada entre muitas outras em um dos bolsos do famoso criminoso, quando os soldados da “volante” foram saquear seus bolsos, em busca de joias e dinheiro, no momento em que seu corpo jazia, cravado de balas.
Em 28 páginas sobre o massacre, a revista, comandada pelos jornalistas Gil Pereira e Vasco Lima, trazia a primeira grande reportagem sobre o assunto, que se tornou aula e marco do jornalismo na época. Motivo: a publicação tinha conseguido mandar uma equipe – fotógrafo e repórter – do Rio de Janeiro até o local, a dois mil quilômetros de distância, em pouco mais de 24 horas. Ao que parece, foi uma operação de guerra. Tão logo as primeiras notícias da morte de Lampião chegaram às redações do Rio de Janeiro, via telegrama, nenhum jornal ou revista teria se interessado em mandar equipes.
Por mais de dez anos, a grande imprensa acompanhou as muitas caçadas a Lampião, promovidas pela polícia de pelo menos seis estados do Nordeste por onde ele e seu bando circularam e “aterrorizaram” – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. A viagem dos jornalistas de A Noite Ilustrada só foi possível porque eles conseguiram embarcar antes do meio-dia em um voo internacional da Pan American, que fazia a rota Miami-Rio de Janeiro-Buenos Aires. As escalas eram feitas em Montes Claros (MG), Barreiras (BA) e Carolina (MA).
Os jornalistas desceram em Barreiras, no cerrado baiano, e de lá cruzaram de carro ou de trem boa parte do território baiano, até chegar à cidade de Piranhas. Na manhã seguinte, eles se depararam com a tropa de 49 homens do tenente João Bezerra na pequena cidade de Pedras, no meio do caminho até Santana do Ipanema, onde ficava o batalhão que realizou a operação militar.
Os enviados se tornaram a primeira equipe de jornalistas a visitar a “gruta” de Angicos, depois do massacre. Acabaram por fazer fotos que se tornaram famosas ao longo dos 75 anos seguintes e foram reproduzidas incontáveis vezes por jornais, revistas e livros sobre o tema. São imagens que chocaram os leitores. Logo na página três, aparecia a cabeça decepada quase em tamanho real da mulher mais famosa do cangaço e um pequeno texto dizia: “Companheira de Lampião, fotografada em Pedra, durante o regresso da ‘volante’ (tropa) do tenente João Bezerra, quando ainda conservava a regularidade dos traços e a serenidade da expressão. Mesmo depois da morte violenta, justificando a alcunha, a cabeça da bandoleira mostra vestígios de tranquila beleza”.


Matéria completa aqui.

16/03/2013

Lampião e Lancelote

"Lampião e Lancelote" é um livro escrito e ilustrado por Fernando Vilela e retrata o lendário encontro do famoso cangaceiro do sertão nordestino com um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda. Sua recente adaptação para o teatro foi realizada pelo escritor e compositor Braulio Tavares, que também participa da criação da trilha sonora em parceria com Zeca Baleiro.

folha-JoaoFonseca.jpeg
Foto: Julia Moraes/SESI

O que aconteceria se o famoso cangaceiro do sertão nordestino se encontrasse com um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda? Esse lendário encontro foi escrito e ilustrado por Fernando Vilela e utiliza o duelo entre as duas figuras como mote para compor a obra. Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006) mescla versos (sextilha do cordel sertanejo) e prosas (narrativas épicas medievais), utilizando técnicas e cores distintas, como a xilogravura (cobre) e o carimbo (prata), que enriquecem visualmente o encontro épico. O compositor e escritor Braulio Tavares assina a quarta capa de Lampião e Lancelote e define a obra como uma "aventura visual e poética à altura das duas culturas que a inspiraram". A parceria entre Vilela e Tavares que deu tão certo que a obra transformou-se em peça teatral, adaptada pelo poeta campinense.

lampiao_02g.jpg
Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela

lampiao_03g.jpg
Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela

Muitos são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma "disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.

SESI_2-JuliaMoraes.jpg
Foto: Julia Moraes/SESI

SESI_5-JuliaMoraes.jpg
Foto: Julia Moraes/SESI

Muitos são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma "disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.

SESI_JuliaMoraes.jpg
Foto: Julia Moraes/SESI

Mas se a atmosfera visual de Lampião e Lancelote encanta, seu universo sonoro é igualmente fascinante e envolvente. A linguagem do Cordel e da novela de cavalaria ganharam uma rica trilha sonora, fruto da parceria de Braulio Tavares e Zeca Baleiro. Podemos considerar a rabeca (um dos instrumentos que é tocado ao vivo durante o espetáculo) como o instrumento que melhor representaria nosso sincretismo cultural: ela também é conhecida como o "violino brasileiro" e, apesar de seu tom ser mais baixo e de não possuir um padrão universal de construção como seu parente europeu, tornou-se um instrumento popular na Península Ibérica e chegou ao Brasil durante a colonização portuguesa.
Já disse Câmara Cascudo que "a atitude de cantar é uma afirmativa imediata, suprema, irrespondível, de elevação. É um ludus no nível divinizador do impulso sonoro, comunicação com as forças confusas, abstratas, envolvedoras da inspiração." A música nasce para perpetuar "causos", mitos, alegrias e dores, conquistas e derrotas; serve aos povos como elo de ligação cultural e reforça crenças. Humaniza. E transcende os limites do tempo e do espaço ao recriar constantemente o ritmo da história de todos nós.
A peça fica em cartaz de 14 de março a 30 de junho de 2013 no Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso, Teatro Sesi - São Paulo.
Anna Anjos, in lounge.obviousmag.org