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06/06/2019
12/06/2015
Cabo eleitoral dessa laia não merece respeito
“Bem,
criaturo: se fizer efeito no Município, estamos acertados, vai dessa
pras profundas. Quem diz? Arriba até mesmo de cavalo, achando
cavalo, ou senão numa boa carreirinha, e vai se aliviar longe das
divisas. De Barracão a Simão Dias, sei lá. Bosta derretida onde
marquei terreno, isso não. Nunca. Dessas fiz diversas, que era para
não fazer mal pior. Infeliz tem mulher e filho, geme como um
bacorinho, o que é que se vai fazer? Necessidade é necessidade,
passe bem eu e o meu alazão, a mulher parindo ou não. Cabo
eleitoral dessa laia não merece respeito. Mesmo agora que eu perdi a
autoridade, sempre fica o prestígio. Em Aracaju tenho as costas
quentes e não é assim que Getúlio vai se ver de uma hora para
outra. Principalmente depois de entregar vosmecê. Tem ambientes em
Aracaju, gente a seu favor. Coisas. Não gosto desse serviço, não
gosto de levar preso. Avexame. Depois de levar vosmecê lá, assento
os quartos num lugar e largo essa vida de cigano. Só se doutor Zé
Antunes pedir muito. Mesmo assim. Me aposento-me. Essa água está
quente na garrafa, mas está boa. Nunca beba água onde não pode ver
o purrão. Segundo preceito. Lampião andava com uma colher de prata
no embornal. Todo de comer enfiava a colher. Se a colher empretecia,
tinha veneno, isso porque o veneno descurece a prata, não sabe
vosmecê. Morte certa para o dono da casa. Se não empretecia, dava
até presentes, sortia bodegas, fazia felicidades. Muitas vezes
ficava arreliado por qualquer coisinha. Trancou os quibas de vários
na gaveta, jogou a chave fora e tocou fogo na casa. Não sem antes
botar uma faca ao pé do desgraçado. No meu pensar, antes morrer
queimado do que perder os quibas. A voz vai afinando, a barba vai
caindo, se torna-se pederástio, falso ao corpo. Mas a maior parte
preferia cortar os ovos do que virar coivara. Hoje em dia não se faz
mais essas coisas. Vosmecê aturava uma dessas? Outra vez, Lampião
amarrou a mulher de um juiz, não sei se em Divina Pastora ou Rosário
do Catete ou Capela, amarrou essa mulher desse juiz num pé de pau e
botou nuazinha em pêlo. Mas já se viu uma mulher velha dessa com
tanto cabelo nas partes? Ora já se viu que indecência? Nem das
piores raparigas, que é isso assim? E assuntou em cima dos oclos
assim e assado e acabou arrancando todos os penteios do xibiu da
mulher na frente de todos, tudo ali reunido por obrigação, porque
Lampião só fazia tudo na frente de todo mundo. Ruindade era ali,
matava sem ideias.
Resultado, cabeça cortada na Bahia, de exposição como chifre de
boi brabo. Antes porém brincou de manja com a milícia de todos
Estados e deixou a marca no mundo desde o tempo de Dão Pedro. Dizem,
nunca vi.”
João
Ubaldo Ribeiro,
in Sargento
Getúlio
15/09/2014
A morte do Jararaca
Quando
Lampião teve a certeza de que atravessaria livremente todo o Ceará, em cujo
território já por vezes penetrara, erguendo vivas ao então Presidente do
Estado, decidiu invadir o Rio Grande do Norte, para atacar a cidade de Mossoró.
Seduziam-nos os pingues recursos desse empório comercial, servido por uma
agência do Banco do Brasil.
Saiu-lhe,
porém, o ano bissexto… A população de Mossoró, tendo à frente o valoroso
Prefeito Cel. Rodolfo Fernandes, reagiu bravamente ao assalto da cabroeira de
Virgolino e dois sequazes deste tombaram baleados, sem que os companheiros os
pudessem conduzir.
Um
dos feridos era o Jararaca. Transportado para a cadeia, solicitamente o
medicaram. Era preciso que ele não falecesse sem que as autoridades o ouvissem.
De fato, só depois de prensado, interrogado e, até, de fotografado, o Jararaca
morreu. Mas ninguém o viu morto, pois o enterramento foi dado como feito alta
noite.
Uns
vinte dias depois, dizia-me em Fortaleza um sertanejo da terra potiguar:
-
Jararaca morreu, mas não foi de morte morrida: foi de morte matada…
E
com a desenvoltura de quem não tem papas na língua nem é jornalista do Governo,
descreveu a cena macabra:
-
Uma boca-de-noite, noite de lua, o Jararaca, algemado, foi conduzido da cadeia
pro cemitério. Chegando lá rodeado de soldados, mostraram-lhe uma cova, aberta
lá num canto, quase fora do “sagrado” e lhe perguntaram se ele sabia pra que
era aquilo… Foi quando o Jararaca falou, frocado e destemido:
-
Saber de certeza não sei, não, mas porém estou calculando… Não é pra mim?
Agora, isso só se faz porque eu me vejo nestas cerconstança, com as mãos
inquirida e desarmado! Um gosto eu não deixo pra vocês: é se gabarem de que eu
pedi que não me matassem. Matem! Que matam mas é um home! Fiquem sabendo que
vocês vão matar o home mais valente que já pisou neste…
Mas,
não teve tempo de acabar de dizer o que queria. Por trás dele, um soldado,
naturalmente de combinação com os outros, deu-lhe um tiro de revólver na
cabeça. A bala pegou bem no mole do pé do ouvido, lá nele. O Jararaca amunhecou
das pernas e caiu, de olho vidrado. Aí, os soldados o empurraram com os pés pra
dentro da sepultura. Só demoraram enquanto tiravam os ferros das algemas.
Quando o cadáver rolou pra cova, fizeram luz e espiaram: o finado tinha caído
de bruços. Mas, ninguém se embaraçou com isso: por cima do corpo inda quente,
as pás de terra deram serviço…
Calou-se
o narrador, para dizer, logo mais, entre compadecido e irônico, num misto de
piedade e de galhofa:
- Coitado do Jararaca! Tão valente na
hora da morte, mas foi enterrado dando as costas pra este mundo velho, onde ele
fez tanta estrepolia…
Leonardo
Mota, in No tempo de Lampião
17/09/2013
01/08/2013
A reportagem que reinventou Lampião
Há exatos 75 anos, a revista carioca A
Noite Ilustrada publicou a maior cobertura da imprensa sobre a morte do
mais famoso cangaceiro, fato que evidenciava sua importância como notícia e
lenda.
A
capa da edição da quarta-feira 9 de agosto de 1938, da revista A Noite
Ilustrada, lançada 11 dias depois do massacre na Fazenda Angicos, município de
Piranhas, entre Alagoas e Sergipe, onde morreram Virgulino Ferreira da Silva
(1898-1938), o Lampião, Maria Bonita e mais nove pessoas, é emblemática. Em vez
de estampar o mais famoso e temido cangaceiro do País, a imagem trazia em
destaque outro bandoleiro, Corisco, conhecido pela polícia e pela imprensa como
Diabo Louro. A mensagem parecia clara: sem Lampião, o cangaço sobreviveria pelo
herdeiro e compadre de seu antigo chefe. Rei morto, rei posto? Não. A legenda
explicava que aquela foto havia sido encontrada entre muitas outras em um dos
bolsos do famoso criminoso, quando os soldados da “volante” foram saquear seus
bolsos, em busca de joias e dinheiro, no momento em que seu corpo jazia,
cravado de balas.
Em
28 páginas sobre o massacre, a revista, comandada pelos jornalistas Gil Pereira
e Vasco Lima, trazia a primeira grande reportagem sobre o assunto, que se
tornou aula e marco do jornalismo na época. Motivo: a publicação tinha
conseguido mandar uma equipe – fotógrafo e repórter – do Rio de Janeiro até o
local, a dois mil quilômetros de distância, em pouco mais de 24 horas. Ao que
parece, foi uma operação de guerra. Tão logo as primeiras notícias da morte de
Lampião chegaram às redações do Rio de Janeiro, via telegrama, nenhum jornal ou
revista teria se interessado em mandar equipes.
Por
mais de dez anos, a grande imprensa acompanhou as muitas caçadas a Lampião,
promovidas pela polícia de pelo menos seis estados do Nordeste por onde ele e
seu bando circularam e “aterrorizaram” – Bahia, Sergipe, Pernambuco, Alagoas,
Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. A viagem dos jornalistas de A Noite
Ilustrada só foi possível porque eles conseguiram embarcar antes do meio-dia em
um voo internacional da Pan American, que fazia a rota Miami-Rio de
Janeiro-Buenos Aires. As escalas eram feitas em Montes Claros (MG), Barreiras
(BA) e Carolina (MA).
Os
jornalistas desceram em Barreiras, no cerrado baiano, e de lá cruzaram de carro
ou de trem boa parte do território baiano, até chegar à cidade de Piranhas. Na
manhã seguinte, eles se depararam com a tropa de 49 homens do tenente João
Bezerra na pequena cidade de Pedras, no meio do caminho até Santana do Ipanema,
onde ficava o batalhão que realizou a operação militar.
Os enviados se tornaram a primeira equipe
de jornalistas a visitar a “gruta” de Angicos, depois do massacre. Acabaram por
fazer fotos que se tornaram famosas ao longo dos 75 anos seguintes e foram
reproduzidas incontáveis vezes por jornais, revistas e livros sobre o tema. São
imagens que chocaram os leitores. Logo na página três, aparecia a cabeça
decepada quase em tamanho real da mulher mais famosa do cangaço e um pequeno
texto dizia: “Companheira de Lampião, fotografada em Pedra, durante o regresso
da ‘volante’ (tropa) do tenente João Bezerra, quando ainda conservava a
regularidade dos traços e a serenidade da expressão. Mesmo depois da morte
violenta, justificando a alcunha, a cabeça da bandoleira mostra vestígios de
tranquila beleza”.
Matéria completa aqui.
16/03/2013
Lampião e Lancelote
"Lampião
e Lancelote" é um livro escrito e ilustrado por Fernando Vilela e retrata
o lendário encontro do famoso cangaceiro do sertão nordestino com um dos
cavaleiros medievais da Távola-Redonda. Sua recente adaptação para o teatro foi
realizada pelo escritor e compositor Braulio Tavares, que também participa da
criação da trilha sonora em parceria com Zeca Baleiro.
Foto: Julia Moraes/SESI
O
que aconteceria se o famoso cangaceiro do sertão nordestino se encontrasse com
um dos cavaleiros medievais da Távola-Redonda? Esse lendário encontro foi
escrito e ilustrado por Fernando Vilela e utiliza o duelo entre as duas figuras
como mote para compor a obra. Lampião e Lancelote (Cosac Naify, 2006)
mescla versos (sextilha do cordel sertanejo) e prosas (narrativas épicas
medievais), utilizando técnicas e cores distintas, como a xilogravura (cobre) e
o carimbo (prata), que enriquecem visualmente o encontro épico. O compositor e
escritor Braulio Tavares assina a quarta capa de Lampião e Lancelote e
define a obra como uma "aventura visual e poética à altura das duas
culturas que a inspiraram". A parceria entre Vilela e Tavares que deu tão
certo que a obra transformou-se em peça teatral, adaptada pelo poeta
campinense.
Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac
Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela
Trecho do livro Lampião e Lancelote (Cosac
Naify, 2006), escrito e ilustrado por Fernando Vilela
Muitos
são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e
Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos
termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos
distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de
mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas
atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma
"disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo
o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e
Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.
Foto: Julia Moraes/SESI
Foto: Julia Moraes/SESI
Muitos
são os símbolos que estabelecem a divisão entre os universos de Lampião e
Lancelote: o quente e o frio, a peixeira e a espada (até mesmo o emprego dos
termos "peleja" e o "duelo" ratificam esses universos
distintos). O jogo de luzes quentes e frias brinca com a "divisão de
mundos" criando contrapontos visuais, de modo a reconstruir suas
atmosferas e as personalidades dos dois povos. Há também uma
"disputa", mais indireta, que se desenvolve durante a trama definindo
o modo pelo qual as mulheres dos heróis Lampião e Lancelote - Maria Bonita e
Morgana - travam relações com seus parceiros íntimos.
Foto: Julia Moraes/SESI
Mas
se a atmosfera visual de Lampião e Lancelote encanta, seu universo
sonoro é igualmente fascinante e envolvente. A linguagem do Cordel e da novela
de cavalaria ganharam uma rica trilha sonora, fruto da parceria de Braulio
Tavares e Zeca Baleiro. Podemos considerar a rabeca (um dos instrumentos que é
tocado ao vivo durante o espetáculo) como o instrumento que melhor
representaria nosso sincretismo cultural: ela também é conhecida como o
"violino brasileiro" e, apesar de seu tom ser mais baixo e de não
possuir um padrão universal de construção como seu parente europeu, tornou-se
um instrumento popular na Península Ibérica e chegou ao Brasil durante a
colonização portuguesa.
Já
disse Câmara Cascudo que "a atitude de cantar é uma afirmativa imediata,
suprema, irrespondível, de elevação. É um ludus no nível divinizador do impulso
sonoro, comunicação com as forças confusas, abstratas, envolvedoras da
inspiração." A música nasce para perpetuar "causos", mitos,
alegrias e dores, conquistas e derrotas; serve aos povos como elo de ligação
cultural e reforça crenças. Humaniza. E transcende os limites do tempo e do
espaço ao recriar constantemente o ritmo da história de todos nós.
A peça fica em cartaz de 14 de março a 30
de junho de 2013 no Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso, Teatro Sesi - São Paulo.
Anna Anjos, in lounge.obviousmag.org
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