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10/09/2026
12/05/2026
Páginas de guarda
Em "As neves do Kilimanjaro",
o famoso conto de Hemingway, o protagonista, que está morrendo,
relembra todas as histórias que agora jamais escreverá. "Ele
sabia pelo menos vinte histórias boas dali e jamais escrevera
nenhuma delas. Por quê?" Ele menciona algumas, mas a lista,
evidentemente, deve ser interminável. As estantes dos livros que não
escrevemos, assim como as dos livros que não lemos, estendem-se pela
escuridão do espaço remoto da biblioteca universal. Estamos sempre
no começo do começo da letra A.
Entre os livros que não escrevi -
entre os livros que não li, mas gostaria de ler - está A
história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em
que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da
próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência.
Posso conceber sua capa e imaginar a
sensação de suas ricas páginas cor de creme.
Posso adivinhar, com acuidade lasciva,
a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as
letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria,
sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente. Sei que possui
um índice abundante e curioso que me dará grande prazer, com
tópicos (caio por acaso na letra T) como Tântalo para leitores;
Tartaruga (ver Conchas e peles de animais); Tarzan,
biblioteca de; Traças; Tradução; Tolstoi, cânone de; Tormento: e
recitação; Transmigração de almas de leitores (ver Empréstimo
de livros); Túmulos, inscrições em. Sei que o livro
possui, como veios no mármore, cadernos de ilustrações que jamais
vi: um mural do século VII representando a biblioteca de Alexandria,
tal como vista por um artista da época; uma fotografia da poeta
Sylvia Plath lendo em voz alta num jardim, sob a chuva; um esboço da
sala de Pascal em Port-Royal, mostrando os livros que ele
mantinha sobre sua escrivaninha; uma fotografia dos livros
encharcados salvos por uma passageira do Titanic, sem os quais
ela não abandonaria o navio; a lista de Natal de Greta Garbo para
1933, escrita por seu próprio punho, mostrando que entre os livros
que compraria estava Miss Corações Solitários, de Nathanael
West; Emily Dickinson na cama, com um gorro cheio de babados amarrado
de um modo confortável sob o queixo, e, espalhados em torno dela,
seis ou sete livros cujos títulos mal posso adivinhar.
Tenho o livro aberto diante de mim,
sobre a minha mesa. E escrito de forma amistosa (tenho a sensação
exata de seu tom), acessível e erudito ao mesmo tempo, informativo
e, contudo, reflexivo. O autor, cujo rosto vi no belo frontispício,
está sorrindo com satisfação (não posso dizer se é homem ou
mulher; a face barbeada poderia ser de ambos os sexos, o mesmo
podendo acontecer com as iniciais do nome) e sinto que estou em boas
mãos.
Sei que, à medida que avançar pelos
capítulos, serei apresentado àquela antiga família de leitores,
alguns famosos, muitos obscuros, da qual faço parte. Aprenderei suas
maneiras e as mudanças nessas maneiras, e as transformações que
sofreram enquanto levaram consigo, como os magos de outrora, o poder
de transformar signos mortos em memória viva. Lerei sobre seus
triunfos e perseguições, sobre suas descobertas quase secretas. E,
no final, compreenderei melhor quem eu - o leitor - sou.
Que um livro não exista (ou não
exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos
um livro sobre um tema imaginário. Há volumes escritos sobre o
unicórnio, sobre Atlântida, sobre igualdade dos gêneros, sobre a
Dama Negra dos Sonetos e a igualmente negra Juventude. Mas a história
que este livro registra foi particularmente difícil de agarrar; ele
é feito, por assim dizer, de suas digressões. Um assunto chama
outro, uma anedota traz à mente outra história aparentemente sem
relação, e o autor se comporta como se estivesse alheio
à causalidade lógica ou à continuidade histórica, como se
definisse a liberdade do leitor no próprio ato de escrever sobre
esse ofício.
Contudo, nessa aparente
aleatoriedade, há um método: este livro que vejo diante de mim não
é somente a história da leitura - é também a história de
leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo dos séculos,
escolheram certos livros em detrimento de outros, aceitaram em alguns
casos o veredicto dos antepassados, mas em outras ocasiões
resgataram títulos esquecidos do passado ou puseram na estante os
eleitos entre seus contemporâneos. Esta é a história de seus
pequenos triunfos e de seus sofrimentos secretos, e da maneira como
essas coisas aconteceram. A crônica de como tudo ocorreu está
minuciosamente registrada neste livro, na vida cotidiana de umas
poucas pessoas comuns descoberta aqui e ali em memórias de família,
histórias de aldeias, relatos de vida em lugares distantes, há
muito tempo. Mas fala sempre de indivíduos, nunca de vastas
nacionalidades ou gerações cujas escolhas não pertencem à
história da leitura, mas à da estatística. Rilke uma vez
perguntou: "É possível que toda a história do mundo tenha
sido mal compreendida? É possível que o passado seja falso, porque
sempre falamos sobre suas massas como se estivéssemos contando sobre
uma reunião de gente, em vez de falar sobre aquela pessoa em torno
da qual se reuniram, porque era um estranho e estava morrendo? Sim, é
possível". Esse mal-entendido, o autor de A história da
leitura certamente a reconheceu.
Eis então, no capítulo 14, Richard
de Bury, bispo de Durham, tesoureiro e chanceler do rei Eduardo II,
nascido a 24 de janeiro de 1287 numa pequena aldeia próxima de Bury;
St. Edmund's, em Suffolk, e que em seu quinquagésimo oitavo
aniversário terminou um livro explicando que, "porque trata
principalmente do amor aos livros, escolhemos, conforme a moda dos
antigos romanos, intitulá-lo afetuosamente com a palavra grega
Philobiblon".
Quatro meses depois, morreu. De Bury
colecionara livros com paixão; tinha, dizia-se, mais livros que
todos os outros bispos da Inglaterra juntos, e tantos empilhavam-se
em torno de sua cama que era quase impossível andar pelo quarto sem
tropeçar neles. De Bury, graças a Deus, não era um erudito e lia
apenas o que lhe apetecia. Achava o Hermes Trismegisto (um
volume neoplatônico de alquimia egípcia do século III) um
excelente livro científico "de antes do Dilúvio",
atribuía erradamente obras a Aristóteles e citava versos horríveis
como se fossem de Ovídio. Não importava. "Nos livros",
escreveu ele, "encontro os mortos como se estivessem vivos; nos
livros, prevejo coisas que irão acontecer; nos livros, negócios de
guerra são relatados; dos livros saem as leis da paz.
Todas as coisas são corrompidas e
degeneram com o tempo; Saturno não cessa de devorar os filhos que
gera: toda a glória do mundo estaria enterrada no olvido, se Deus
não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros. (Nosso
autor não menciona isso, mas Virginia Woolf, em um trabalho lido na
escola, fez eco à asserção de Bury: "Tenho sonhado às vezes
que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores,
advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas,
lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível , o
Todo-Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem uma certa
inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço:
'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes
dar. Eles amaram a leitura.'”)
O capítulo 8 é devotado a uma
leitora quase esquecida que santo Agostinho, numa carta, louva como
uma escriba formidável e a quem dedicou um de seus livros. Seu nome
era Melanía, a Jovem (para distingui-la de sua avó, Melania, a
Anciã), e ela viveu em Roma, no Egito e no Norte da Africa. Nasceu
por volta de 385 e morreu em Belém, em 439. Era apaixonada por
livros e copiou para si mesma tantos quantos pôde encontrar,
reunindo assim uma importante biblioteca. O erudito Gerôncio, do
século V, descreveu-a como "naturalmente dotada" e tão
aficionada pela leitura que "percorria as Vidas dos padres como
se estivesse comendo uma sobremesa". "Lia livros que eram
comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com
tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia
desconhecido para ela. Tão avassaladora era sua paixão pelo
aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia
grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não
sabia latim." Brilhante e transitória, Melania, a Jovem, é
vista perambulando na - A história da leitura como uma das
muitas pessoas que buscaram conforto nos livros.
De um século mais próximo de nós
(mas o autor de A história da leitura não dá importância a
essas convenções arbitrárias e o convida a comparecer no capítulo
6), outro leitor eclético, o genial Oscar Wilde, apresenta-se.
Seguimos seu progresso nas leituras, dos contos de fada celtas que
sua mãe lhe deu aos volumes eruditos que leu no Magdalen College, em
Oxford. Foi num exame em Oxford que lhe pediram que traduzisse a
versão grega da Paixão no Novo Testamento. Como avançou no
trabalho com muita facilidade e correção, os examinadores
disseram-lhe que já bastava. Wilde continuou a traduzir, e uma vez
mais disseram-lhe que parasse. "Oh, deixem-me continuar, quero
ver como acaba”, disse Wilde.
Para ele, era tão importante saber do
que gostava quanto o que deveria evitar. Em beneficio dos assinantes
da Pal Mall Gazette, publicou, em 8 de fevereiro
de 1886, estas palavras de advertência sobre o que "Ler ou não
ler": Livros que não devem ser lidos de forma alguma, como
Seasons, de Thomson, Italy, de Rogers, Evidences, de Paley, todos os
Pais da Igreja, exceto santo Agostinho, todo o John Stuart Mill,
exceto o ensaio sobre a liberdade, todas as peças de Voltaire, sem
exceção, Analogy, de Butler, Aristotle, de Grant, England, de Hume,
History of philosophy, de Lewes, todos os livros argumentativos e
todos os livros que tentam provar alguma coisa [...] Dizer às
pessoas o que ler é, como regra, inútil ou prejudicial, pois a
verdadeira apreciação da literatura é uma questão de
temperamento, não de ensino, ao Parnaso não há cartilha
introdutória, e nada do que alguém pode aprender vale a pena ser
aprendido. Mas dizer às pessoas o que não ler é uma questão muito
diferente, e aventuro-me a recomendá-lo, como missão, ao Programa
de Extensão Universitária.
Os gostos de leitura privados e
públicos são discutidos bem no início do livro, no capítulo 4. O
papel do leitor como antologista é examinado, como coletor de
material para si mesmo (o livro de Jean-Jacques Rousseau, um
lugar-comum, é o exemplo dado) ou para os outros (Golden treasury
[Tesouro dourado] de Palgrave), e nosso autor, com muita graça,
mostra como os conceitos de público modificam as escolhas dos
antologistas. Para apoiar essa "micro-história das antologias",
nosso autor cita o professor Jonathan Rose a propósito das "cinco
falácias comuns da resposta do leitor":
- primeira, toda literatura é
política, no sentido de que sempre influencia a consciência
política do leitor;
- segunda, a influência de
determinado texto é diretamente proporcional à sua circulação;
- terceira, a cultura "popular"
tem muito mais adeptos do que a "alta" cultura e, portanto,
reflete com mais precisão as atitudes das massas;
- quarta, a "alta"
cultura tende a reforçar a aceitação da ordem social e política
existente (suposição largamente compartilhada tanto pela direita
como pela esquerda); e
- quinta, o “cânone dos grandes”
livros é definido somente pelas elites sociais. Os leitores comuns
não reconhecem o cânone, ou aceitam-no apenas por deferência à
opinião da elite.
Como nosso autor deixa bastante claro,
nós, os leitores, somos normalmente culpados de aceitar pelo menos
algumas, senão todas, essas falácias. O capítulo menciona também
antologias ready-made coligidas e encontradas por acaso, tais
como os 10 mil textos reunidos em um curioso arquivo judeu no Cairo
Velho, chamado Geniza e descoberto em 1890 num quarto de despejo
lacrado de uma sinagoga medieval. Por causa da reverência judaica em
relação ao nome de Deus, nenhum papel foi jogado fora por medo de
que contivesse seu nome; portanto, tudo, de contratos de casamento a
listas de compras, de formas de amor a catálogos de livreiros (um
dos quais incluía a primeira referência conhecida às Mil e uma
noites), foi reunido ali para um leitor futuro.
Não apenas um, mas três capítulos
(31, 32 e 33) são dedicados ao que o autor chama de "A invenção
do leitor". Cada texto supõe um leitor Quando Cervantes começa
sua introdução à primeira parte do Dom Quixote com o
vocativo "Desocupado leitor”, sou eu que desde as primeiras
palavras me torno uma personagem na ficção, uma pessoa com tempo
suficiente para me comprazer com a história que está para começar.
A mim Cervantes dedica o livro, a mim explica os fatos de sua
composição, a mim confessa as falhas da obra. Seguindo o conselho
de um amigo, ele próprio escreveu alguns poemas laudatórios
recomendando o livro (a versão menos inspirada de hoje é pedir a
personalidades conhecidas que elogiem e colem seus panegíricos na
sobrecapa do livro).
Cervantes solapa sua própria
autoridade ao me fazer penetrar em seu segredo. Eu, o leitor, fico em
guarda e, no mesmo ato, sou desarmado. Como posso reclamar do que me
foi exposto de forma tão clara'? Concordo em participar do jogo.
Aceito a ficção. Não fecho o livro.
Minha decepção indisfarçada
continua. Oito capítulos adiante, fico sabendo que esse é o tamanho
da história de Cervantes e que o resto do livro é uma tradução do
árabe feita pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Por que o
artificio? Porque eu, o leitor, não me convenço facilmente e
porque, embora não acredite na maioria dos truques com os quais o
autor jura veracidade, gosto de entrar num jogo em que os níveis de
leitura mudam constantemente. Leio um romance, leio uma aventura
real, leio a tradução de uma aventura real, leio uma versão
correta dos fatos.
A história da leitura é
eclética. A invenção do leitor segue-se um capítulo sobre a
invenção do escritor, outra personagem de ficção. “Tive a
infelicidade de começar um livro com a palavra eu", escreveu
Proust, "e imediatamente pensou-se que, em vez de tentar
descobrir leis gerais, eu estava analisando a mim mesmo, no sentido
individual e detestável da palavra." Isso conduz nosso autor a
discutir o uso da primeira pessoa do singular e do modo como esse eu
fictício força o leitor a uma aparência de diálogo, do qual,
entretanto, ele é excluído pela realidade física da página.
"Somente quando o leitor lê para além da autoridade do
escritor é que o diálogo acontece", diz nosso autor, e tira
seus exemplos do nouveau roman, em especial de A
modificação, de Michel Butor, escrito inteiramente na segunda
pessoa. "Aqui", diz nosso autor, "as cartas estão na
mesa e o escritor não espera que acreditemos no eu nem presume que
vamos assumir o papel do condescendente 'prezado leitor'."
Numa fascinante digressão (capítulo
40 de A história da leitura), nosso autor apresenta a sugestão
original de que a forma pela qual o livro se dirige ao leitor leva à
criação dos principais gêneros literários - ou pelo menos à sua
classificação. Em 1948, em Das Sprachliche Kunstwerk [Análise e
interpretação da obra de arte literária], o crítico alemão
Wolfgang Kayser propôs que o conceito de gênero derivava das três
pessoas que existem em todas as línguas conhecidas: eu, tu e
ele ou ela. Na literatura lírica, o eu
expressa-se emocionalmente; no drama, o eu torna-se uma
segunda pessoa, tu, e trava com outro tu um diálogo
apaixonado. Por fim, na epopeia, o protagonista é a terceira pessoa,
ele ou ela, que narra objetivamente. Ademais, cada
gênero exige do leitor três atitudes distintas: uma atitude lírica
(a da caução), uma atitude dramática (que Kayser chama de
apóstrofe) e uma atitude épica, ou enunciação. Nosso autor acolhe
com entusiasmo esse argumento e ilustra-o com três leitores: Éloise
Bertrand, uma colegial francesa do século XIX cujo diário
sobreviveu à guerra franco-prussiana de 1870 e que registrou
fielmente sua leitura de Nerval; Douglas Hyde, que foi ponto na
representação de The vicar of Wakefield [O vigário de
Wakefield] no Court Theatre de Londres, com Ellen Terry no papel de
Olívia; e a criada de Proust, Céleste, que leu (em parte) o extenso
romance de seu patrão.
No capítulo 68 (essa História da
leitura é um volume reconfortante-mente grosso), nosso autor
levanta a questão de como (e por que) certos leitores preservam uma
leitura depois que a maioria já a relegou ao passado. O exemplo dado
é o de um jornal de Londres publicado em algum momento de 1855,
quando a maioria dos jornais ingleses estava abarrotada de notícias
da guerra na Criméia:
John Challis, um homem idoso de cerca
de sessenta anos, vestido com os trajes pastoris de uma pastora da
idade de ouro, e George Campbell, de 35 anos, que descreveu a si
mesmo como advogado e apareceu completamente equipado em trajes
femininos atuais, foram postos no tribunal diante de sir R. W.
Carden, sob a acusação de terem sido encontrados disfarçados de
mulher no Druids'-hal , em Turnagain Lane, um salão de danças sem
licença, com o propósito de incitar outros a cometerem uma ofensa
antinatural.
"Uma pastora da idade de ouro":
em 1855, o ideal bucólico literário era coisa do passado.
Codificado nos Idílios de
Teócrito no terceiro século antes de Cristo, atraindo os escritores
de uma forma ou de outra até o século XVII, tentando escritores tão
disparatados como Milton, Garcilaso de la Vega, Giambattista Marino,
Cervantes, Sidney e Fletcher, o bucolismo encontrou um reflexo muito
diferente em romancistas como George Eliot e Elizabeth Gaskel , Émile
Zola e Ramón del Val e Inclán, em seus livros que davam aos
leitores outra visão menos ensolarada da vida no campo: Adam Bede
(1859), Cranford (1853), La Terre (1887), Tirano
Banderas (1926). Essas reconsiderações não eram novas.
Já no século XIV o escritor espanhol
Juan Ruiz, arcipreste de Hita, em seu Libro de buen amor,
subvertera a convenção na qual um poeta ou cavaleiro solitário
encontra uma bela pastora a quem seduz gentilmente, fazendo com que o
narrador encontre nas colinas de Guadarrama quatro pastoras
selvagens, corpulentas e voluntariosas. As duas primeiras o estupram,
da terceira ele escapa com promessas falsas de casar com ela e a
quarta lhe oferece abrigo em troca de roupas, joias, um casamento ou
dinheiro vivo. Duzentos anos depois, havia poucos como o velho sr.
Challis que ainda acreditavam no apelo simbólico do pastor adorável
e suas pastoras ou do amoroso cavalheiro e sua inocente donzela do
campo. Segundo o autor de A história da leitura, essa é uma das
maneiras (extrema, sem dúvida) pelas quais os leitores preservam e
recontam o passado.
Vários capítulos, em diferentes
partes do livro, tratam dos deveres da ficção, em oposição ao que
o leitor aceita como fato. Os capítulos sobre a leitura de fatos
constituem um toque árido, indo das teorias de Platão às críticas
de Hegel e Bergson; ainda que tragam o possivelmente apócrifo
viajante-escritor inglês do século XIV sir John Mandevil e, são um
tanto densos para se deixar resumir Os capítulos sobre leitura de
ficção, no entanto, são mais concisos. Duas opiniões, igualmente
prescritivas e totalmente opostas, são apresentadas. Segundo uma
delas, o leitor deve acreditar nas personagens do romance e agir como
elas. De acordo com a outra, o leitor deve desconsiderar essas
personagens como meras fabricações sem nenhuma relação com o
"mundo real". Henry Tilney, em A abadia de Northanger,
de Jane Austen, dá voz à primeira opinião quando interroga
Catherine depois do rompimento da amizade com Isabel a; ele espera
que os sentimentos dela sigam as convenções da ficção:
- Imagino que, perdendo Isabel a,
deve estar com a sensação de ter perdido metade de si mesma. Sente
no coração um vazio que nada encherá. Tudo lhe parece enfadonho, e
a simples idéia dos prazeres que compartilhava com ela - bailes,
teatros, concertos lhe é odiosa. Está persuadida de que já não
terá, de agora em diante, uma amiga em quem confiar sem reservas,
uma amiga com quem contar. Está sentindo tudo isto?
- Não disse Catherine depois de
refletir. - Devia?
O tom do leitor e o modo como ele
afeta o texto são discutidos no capítulo 51, por meio da personagem
de Robert Louis Stevenson lendo histórias para seus vizinhos na
Samoa.
Stevenson atribuía o senso dramático
e musical de sua prosa às histórias para dormir que lhe contava sua
babá Alison Cunningham, "Cummie". Ela lia histórias de
fantasmas, hinos religiosos, panfletos calvinistas e romances
escoceses, tudo o que acabou penetrando em sua ficção. "Foi
você quem me deu a paixão pelo teatro, Cummie", confessou-lhe
quando já era homem feito. “Eu, senhor Lou? Nunca pus o pé num
teatro em toda a minha vida.'”
Ao que ele respondeu: "Ah,
mulher! Mas foi aquela magnífica forma dramática que você tinha de
recitar os hinos". Stevenson aprendeu a ler somente aos sete
anos, não por preguiça, mas porque queria prolongar as delícias de
ouvir as histórias ganharem vida. A isso nosso autor chama de
"síndrome de Scherazade".
Ler ficção não é a única
preocupação do nosso autor. A leitura de textos científicos,
dicionários, partes de um livro com índices, notas e dedicatórias,
mapas, jornais, tudo merece (e recebe) seu próprio capítulo. Há um
retrato curto mas revelador do romancista Gabriel García Márquez,
que lê todas as manhãs um par de páginas de um dicionário
(qualquer dicionário, exceto o pomposo Diccionario de la Real
Academia Española) - hábito que nosso autor compara ao de
Stendhal, que lia com atenção o Código Napoleônico para aprender
a escrever com um estilo conciso e exato.
O tópico da leitura de livros
emprestados ocupa o capítulo 15. Jane Carlyle (esposa de Thomas
Carlyle e famosa epistológrafa) nos conduz pelas complexidades de
ler livros que não nos pertencem, "como se tivéssemos um caso
ilícito", e de retirar de bibliotecas livros que podem afetar
nossa reputação. Uma certa tarde de 1843, tendo escolhido da
respeitável London Library vários romances "ousados" do
escritor francês Paul de Kock, ela descaradamente preencheu a ficha
de empréstimo com o nome de Erasmus Darwin, o descarnado avô
inválido do famoso Charles, para espanto dos bibliotecários.
Aqui estão também as cerimônias de
leitura da nossa época e de tempos passados (capítulos 43 e 45).
Aqui estão as maratonas de leitura de Ulisses no Bloomsday,
as nostálgicas leituras radiofônicas de um livro antes de dormir,
as leituras em grandes salões de biblioteca lotados e em lugares
longínquos, desertos e bloqueados pela neve, leituras à cabeceira
dos doentes, leituras de histórias de fantasmas ao pé do fogo no
inverno. Aqui está a ciência curiosa da biblioterapia (capítulo
21), definida no Webster como "o uso de material de leitura
selecionado como coadjuvante terapêutico na medicina e na
psiquiatria", com o qual certos médicos afirmam poder curar os
doentes do corpo e do espírito, administrando-lhes The wind in
the wil ows [O vento nos salgueiros] ou Bouvard e Pécuchet.
Aqui estão as maletas de livros, o
sine qua non de toda viagem vitoriana. Nenhum viajante saía de casa
sem uma mala cheia de leitura apropriada. fosse para a Côte d'Azur
ou para a Antártida. (Pobre Amundsen: nosso autor nos conta que, a
caminho do Pólo Sul, a maleta de livros do explorador afundou sob o
gelo e ele foi obrigado a passar muitos meses na companhia do único
volume que conseguiu resgatar: The portraiture of His Sacred Majesty
in his solitudes and sufferings [O retrato de Sua Sagrada Majestade
em seus sofrimentos e solidões], do dr John Gauden.) Um dos
capítulos finais (mas não o último) trata do reconhecimento
explícito pelo escritor do poder do leitor. Aqui estão os livros
deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de
Lego: o Tristram Shandy de Laurence Sterne, evidentemente, que
nos permite ler de qualquer jeito, e O jogo da amarelinha, de
Júlio Cortázar, romance construído com capítulos intercambiáveis
cuja seqüência o leitor determina à vontade.
Sterne e Cortázar conduzem
inevitavelmente aos romances da Nova Era, os hipertextos.
O termo (conta-nos nosso autor) foi
cunhado na década de 1970 pelo especialista em computação Ted
Nelson, para descrever o espaço narrativo não sequencial
possibilitado pelos computadores. Nosso autor cita o romancista
Robert Coover, que descreveu assim o hipertexto num artigo publicado
no New York Times: "Não há hierarquias nessas redes sem
parte de cima (e sem parte de baixo), na medida em que parágrafos,
capítulos e outras divisões convencionais do texto são
substituídas por blocos de texto e elementos gráficos do tamanho da
janela, de valor semelhante e igualmente efêmeros". O leitor de
um hipertexto pode entrar no texto praticamente em qualquer ponto,
pode mudar o curso da narrativa, exigir inserções, corrigir,
expandir ou apagar. Esses textos também não têm fim, pois o leitor
(ou o escritor) sempre pode continuar ou recontar um texto: "Se
tudo está no meio, como saber que acabou, seja você o leitor ou o
escritor?" - pergunta Coover "Se a qualquer momento o autor
é livre para levar a história a qualquer lugar e em quantas
direções quiser, não se torna uma obrigação fazê-lo?"
Entre parênteses, nosso autor questiona a liberdade implícita nessa
obrigação.
A história da leitura,
felizmente, não tem fim. Depois do último capítulo e antes do já
mencionado índice copioso, nosso autor deixou várias páginas em
branco para o leitor acrescentar mais pensamentos sobre a leitura,
temas obviamente esquecidos, citações pertinentes, eventos e
personagens ainda no futuro. Há algum consolo nisso. Imagino deixar
o livro na mesinha-de-cabeceira, imagino abri-lo hoje à noite,
amanhã à noite ou depois de amanhã, imagino que direi a mim mesmo:
"Não acabou".
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
07/05/2026
O louco dos livros
São todos gestos comuns: tirar os
óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da
blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los
atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante
de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz,
para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los
e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados
para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los,
dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o
lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é
representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos
são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e
tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara
através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante
a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um
louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de
livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da
escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da
presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos
séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os
quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de
um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário,
quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço,
uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre
os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles,
Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats,
Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute
Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear,
Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce -
todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e
um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de
Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor
argentino, que começou a perder a visão no início da década de
1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em
1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do
leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:
Que ninguém avilte com lágrimas
ou reprove
Esta declaração da habilidade de
Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo
tempo.
Borges comparava o destino desse
leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a
olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de
fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de
televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor
voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos
os livros do mundo estão agora à sua disposição; então,
acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo
menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras
estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos
dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler
eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno,
mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas,
necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado,
deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se
constantemente das condições em que tinham de trabalhar e
rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos
livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não
sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição
lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz
dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas,
provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os
leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior.
Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais
confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande
igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia,
os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso
senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para
eles.
Uns poucos descobriram que olhar
através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das
esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador
Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de
uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes
sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas
a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger
Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável
propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham
acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas
horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo
progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se
esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do
final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a
mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da
igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de
Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção
dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já
tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de
qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor.
Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado
Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a
arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da
Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer
óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda
naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse
"fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não
foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na
igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor
dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados.
A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já
encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus
contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe
contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268,
Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos
olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor
segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o
olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil
a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava
a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas
vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais
abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções
que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que
possa haver".
A representação mais antiga que se
conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St.
Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em
traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto
apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos,
conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um
pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação
grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão
possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os
óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos
comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros
estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da
imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por
óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em
vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466,
apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de
Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo,
em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível
que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais
leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e
que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual,
ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos
foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza
estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do
Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em
torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários
tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em
Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio
de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso
volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos
eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu
destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o
poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma
tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel
estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de
literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas
segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um
livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o
livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra
imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não
justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja -
são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos
admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes
foram representados carregando um douto volume e usando os sábios
óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já
eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o
prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos
leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela
humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que
riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu
ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio
eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado,
meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme",
foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de
livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com
eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia
suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha
inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria
de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso,
pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram
associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de
biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo
dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos
não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas
poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em
sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos
tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso
carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant
publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão,
intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O
sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em
Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso
por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um
acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou
dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo
Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que
traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a
ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que
o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou
aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às
xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer
de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio
Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados
de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à
ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a
descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é
mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade
invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant
imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por
seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou
as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois
do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que
abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um
homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda
parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de
leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem
veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e,
atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão
direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar
nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”,
o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu
nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem
que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras
mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É
por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para
mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes
tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa
que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora
poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em
casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou
livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do
erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em
1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está
sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e
espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma
de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi
tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a
pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant,
um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro
capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro.
Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse:
Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete
tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do
bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino
anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem
uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo
latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo
exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa
livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a
sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para
ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em
sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus
livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar
e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles,
fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja
ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um
estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado
num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? -
perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos
imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre
seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas
deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento
certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona
livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para
satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que
corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe
os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não
só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama
livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma
loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos
filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua,
as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?".
Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As
que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor
por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto
sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos.
(Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca,
que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de
encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se
ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que
vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se
ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o
idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os
clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou
retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de
colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes
escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros
anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é
aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que
se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual
de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os
anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época
em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia
romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de
história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos
de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre
seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra.
Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes
permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos
pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas
leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a
catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de
Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam
provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o
homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que,
como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no
momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia
de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos.
Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico
da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da
necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não
compartilhava do ressentimento crescente entre a população em
geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados,
sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão"
escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários
séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de
torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez
mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações
gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas
Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços
heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua
esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois
é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações
inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas
persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide
distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de
óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique,
contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles
que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa
divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço"
e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham
perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem
parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo
aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não,
prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações
intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta
convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo
em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy
Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os
homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século
XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do
aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais
mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade,
vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em
excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao
poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual,
isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores,
os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a
maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite
dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades,
ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do
Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos
eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam
acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo.
Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a
fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O
melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o
populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que
o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar
como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a
razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey,
analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do
século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos
dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano
tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as
multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente
impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade
equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e
excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com
direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis
óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada,
porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso.
"Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto,
qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não
apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem
nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir
às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E
quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha
socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si
mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver
uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas
para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana,
Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante:
"Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos
bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando
entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a
como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a
propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da
grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a
respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo
e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa
absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso;
nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos
todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a
impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados
que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam
também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição
de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das
massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de
gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis;
estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" -
ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga
superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os
estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a
capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de
restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem
limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando
descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora,
Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as
invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa
fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de
tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de
nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa
não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo
do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa
experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das
hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente,
retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos,
conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da
página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário
cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens
ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior
parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo,
mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo
quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o
texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo
prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos
buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos
distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração,
negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de
súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é,
no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West
depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras
de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão
contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em
movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso.
Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente,
arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo
erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um
único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse
"caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória
tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós
mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá,
ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra,
cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que
possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma
fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda
Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios
fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma
pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede
ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens
encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual
livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas;
outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo,
segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas
para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo
os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra
as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de
perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas,
no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede –
uma compreensão.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
02/05/2026
Páginas de guarda
Carta a Paul Verlaine
Paciente como um alquimista, sempre
imaginei e tentei algo diferente, e estaria disposto a sacrificar
toda satisfação e vaidade por isso, da mesma forma como antigamente
eles costumavam queimar os móveis e as vigas do teto para alimentar
suas fornalhas em busca do magnum opus. O que é isso? Difícil
dizer: apenas um livro em vários volumes, um livro que é
verdadeiramente um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e
não uma coleção de inspirações casuais, por mais maravilhosas
que possam ser. [...]
Eis aqui, meu amigo, a confissão
pura desse vício que tenho rejeitado mil vezes [...] Mas ele me
domina, e eu talvez ainda tenha êxito, não na conclusão dessa obra
como um todo (seria preciso ser Deus sabe quem para tanto!), mas na
apresentação de um fragmento bem-sucedido [...] provando através
de porções terminadas que esse livro realmente existe e que eu
tinha consciência do que não era capaz de realizar.
16 de novembro de 1869
Stéphane Mallarmé, em Uma História da Leitura, de Alberto Manguel
24/04/2026
Leituras proibidas
Em 1660, Carlos II, da Inglaterra,
filho do rei que tão desafortunadamente consultara o oráculo de
Virgílio, conhecido entre seus súditos como o Monarca Alegre, por
seu amor ao prazer e aversão aos negócios, decretou que o Conselho
para as Propriedades Rurais no Exterior deveria instruir os nativos,
servos e escravos das colônias britânicas nos preceitos do
cristianismo. O dr. Johbnson, que da distância de um século
admirava o rei, disse que ele teve o mérito de se empenhar em fazer
o que julgava ser pela salvação das almas de seus súditos, até
perder um grande império. O historiador Macaulay, que da distância
de dois séculos não tinha a mesma admiração, afirmou que, para
Carlos, o amor por Deus, o amor pela pátria, o amor pela família, o
amor pelos amigos eram expressões do mesmo tipo, sinônimos
delicados e convenientes do amor por si mesmo.
Não está claro por que Carlos baixou
esse decreto no primeiro ano de seu reinado, exceto se imaginava que
este seria um modo de estabelecer uma nova base para a tolerância
religiosa, à qual o Parlamento se opunha. Carlos, que apesar de suas
tendências pró- católicas proclamava-se fiel à fé protestante,
acreditava (na medida em que acreditava em alguma coisa) que, como
Lutero ensinara, a salvação da alma dependia da capacidade de cada
um de ler a palavra de Deus por si mesmo. Mas os donos de escravos
britânicos não estavam convencidos disso. Temiam a própria ideia
de uma "população negra alfabetizada”, que poderia assim
encontrar ideias revolucionárias perigosas nos livros.
Não acreditavam nos argumentos de que
uma alfabetização restrita à Bíblia fortaleceria os laços da
sociedade; percebiam que, se os escravos pudessem ler a Bíblia,
poderiam ler também panfletos abolicionistas e que mesmo nas
Escrituras seriam capazes de encontrar noções incendiárias de
revolta e liberdade. A oposição ao decreto de Carlos foi mais forte
nas colônias americanas e mais forte ainda na Carolina do Sul, onde,
um século depois, criaram-se leis rigorosas proibindo todos os
negros, escravos ou livres, de aprender a ler. Essas leis
permaneceram em vigência até a metade do século XIX.
Durante séculos, os escravos
afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente
difíceis, arriscando a vida num processo que, devido às
dificuldades, levava às vezes vários anos. Os relatos desse
aprendizado são muitos e heróicos.
Entrevistada aos noventa anos pelo
Federal Writers' Project [Projeto Federal dos Escritores], uma
comissão criada na década de 1930 para registrar, entre outras
coisas, as narrativas pessoais de ex-escravos, Bel e Myers Carothers
relembrou que aprendera as letras enquanto cuidava do bebê do dono
da fazenda, que brincava com cubos alfabéticos. O dono, ao ver o que
ela estava fazendo, chutou-a com as botas que calçava.
Myers perseverou, estudando às
escondidas as letras da criança, bem como algumas palavras numa
cartilha que achara. Um dia, disse ela, "achei um hinário [...]
e soletrei: ‘Quando Posso Ler Meu Título Claro’. Fiquei tão
contente quando vi que podia realmente ler que fui correndo contar
para todos os outros escravos”. O senhor de Leonard Black,
encontrando-o uma vez com um livro, açoitou-o tanto "que
superou minha sede de conhecimento, e eu abandonei a busca até que
fugi". Doc Daniel Dowdy lembrava que "a primeira vez que
você era surpreendido tentando ler ou escrever, você era açoitado
com um relho de couro cru; na segunda vez, com um chicote de nove
tiras; na terceira vez cortavam a ponta do seu dedo indicador".
Em todo o Sul, era comum os donos de fazendas enforcarem os escravos
que tentassem ensinar os outros a soletrar.
Nessas circunstâncias, os escravos
que quisessem se alfabetizar eram forçados a encontrar métodos
tortuosos de aprender, ou com outros escravos, ou com professores
brancos solidários, ou inventando esquemas que lhes permitissem
estudar escondido. O escritor americano Frederick Douglass, que
nasceu escravo e se tornou um dos mais eloqüentes abolicionistas de
seu tempo, bem como fundador de vários periódicos políticos,
relembra em sua autobiografia: "Ouvir minha dona sempre ler a
Bíblia em voz alta [...] despertou minha curiosidade em relação a
esse mistério da leitura e estimulou em mim o desejo de aprender.
Até aquela época, eu não sabia nada dessa arte maravilhosa, e
minha ignorância e inexperiência sobre o que ela poderia fazer por
mim, bem como a confiança em minha senhora, animaram-me a lhe pedir
que me ensinasse a ler [...] Num período de tempo incrivelmente
curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui
soletrar palavras de três ou quatro letras... [Meu senhor] proibiu-a
de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele
expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido
a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei
se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de
minha amável senhora". Thomas Johnson, escravo que depois se
tornou um conhecido pregador missionário na Inglaterra, explicou que
havia aprendido a ler estudando as letras de uma Bíblia que roubara.
Como seu dono todas as noites lia em voz alta um capítulo do Novo
Testamento, Johnson o persuadia a ler o mesmo capítulo
repetidamente, até que o soubesse de cor e pudesse achar as mesmas
palavras na página impressa. Da mesma forma, quando o filho do dono
estava estudando, Johnson sugeria que o menino lesse parte de sua
lição em voz alta. "Senhorzinho, leia isso de novo",
dizia Johnson para encorajá-lo, e o menino repetia a leitura,
achando que Johnson estava admirando seu desempenho. Por meio da
repetição, aprendeu o suficiente para ler jornais quando começou a
Guerra Civil e, mais tarde, abriu uma escola para ensinar os outros a
ler.
Aprender a ler, para os escravos, não
era um passaporte imediato para a liberdade, mas uma maneira de ter
acesso a um dos instrumentos poderosos de seus opressores: o livro.
Os donos de escravos (tal como os
ditadores, tiranos, monarcas absolutos e outros detentores ilícitos
do poder) acreditavam firmemente no poder da palavra escrita. Sabiam,
muito mais do que alguns leitores, que a leitura é uma força que
requer umas poucas palavras iniciais para se tornar irresistível.
Quem é capaz de ler uma frase é capaz de ler todas. Mais
importante: esse leitor tem agora a possibilidade de refletir sobre a
frase, de agir sobre ela, de lhe dar um significado. "Você pode
se fingir de bobo com uma frase", disse o escritor austríaco
Peter Handke. "Faça valer seus direitos sobre a frase contra
outras frases. Nomeie tudo o que atravessar seu caminho e tire da
frente. Familiarize-se com todos os objetos. Transforme todos os
objetos numa frase com a frase. Você pode transformar todos os
objetos numa frase sua. Com essa frase, todos os objetos lhe
pertencem.” Por todos esses motivos, ler tinha de ser proibido.
Como séculos de ditadores souberam,
uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a
arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso
é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação
humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes
absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em
vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante
deve bastar.
Os livros, escreveu Voltaire no
panfleto satírico "Sobre o terrível perigo da leitura",
"dissipam a ignorância, a custódia e a salvaguarda dos estados
bem policiados". A censura, portanto, de qualquer tipo, é o
corolário de todo poder, e a história da leitura está iluminada
por uma fileira interminável de fogueiras de censores, dos primeiros
rolos de papiro aos livros de nossa época. As obras de Protágoras
foram queimadas em 411 a.C., em Atenas. No ano de 213 a.C., o
imperador chinês Chí Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando
todos os livros de seu reino. Em 168 a.C., a biblioteca judaica de
Jerusalém foi deliberadamente destruída durante o levante dos
macabens. No primeiro século da era cristã, Augusto exilou os
poetas Cornélio Calo e Ovídio e baniu suas obras.
O imperador Calígula mandou queimar
todos os livros de Homero, Virgílio e Lívio (mas seu decreto não
foi cumprido). Em 303, Diocleciano condenou todos os livros cristãos
à fogueira. E isso foi apenas o começo. O jovem Goethe,
testemunhando a queima de um livro em Frankfurt, sentiu que estava
presenciando uma execução: "Ver um objeto inanimado ser punido
é em si e por si mesmo algo realmente terrível". A ilusão
acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar
a história e abolir o passado.
Em 10 de maio de 1933, em Berlim,
diante das câmeras, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels
discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para uma multidão
entusiasmada de mais de 100 mil pessoas: "Esta noite vocês
fazem bem em jogar no fogo essas obscenidades do passado. Este é um
ato poderoso, imenso e simbólico, que dirá ao mundo inteiro que o
espírito velho está morto. Destas cinzas irá se erguer a fênix do
espírito novo". Um menino de doze anos, Hans Pauker, mais tarde
diretor do Instituto Leo Baeck de Estudos Judaicos em Londres,
presenciou a queima e relembrou que, à medida que os livros eram
jogados às chamas, faziam-se discursos para dar solenidade à
ocasião. "Contra a exacerbação dos impulsos inconscientes
baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da alma
humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud", declamou
um dos censores antes de queimar os livros de Freud, Steinbeck, Marx,
Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich Mann, Jack
London, Bertold Brecht e centenas de outros receberam a homenagem de
epitáfios semelhantes.
Em 1872, pouco mais de dois séculos
após o decreto otimista de Carlos II, Anthony Comstock – um
descendente dos antigos colonos que tinham se oposto aos impulsos
pedagógicos de seu soberano – fundou em Nova York a Sociedade para
a Extinção do Vício, o primeiro conselho de censura efetivo dos
Estados Unidos. Pensando bem, Comstock teria preferido que a leitura
jamais tivesse sido inventada ("Nosso pai Adão não podia ler
no Paraíso", afirmou certa vez), mas, já que o fora, estava
decidido a controlar seu uso. Comstock considerava-se um leitor dos
leitores, aquele que sabia o que era boa e o que era má literatura,
e fazia todo o possível para impor suas idéias aos outros. Um ano
antes de fundar a sociedade, escreveu em seu diário: "Quanto a
mim, estou decidido, com a força de Deus, a não ceder à opinião
dos outros, e se sentir e acreditar que estou certo, hei de me manter
firme. Jesus jamais foi afastado do caminho do dever, por mais duro
que fosse, pela opinião pública. Por que eu o seria?"
Anthony Comstock nasceu em New Canaan,
Connecticut, em 7 de março de 1844. Era um sujeito corpulento e, no
decorrer da carreira de censor, utilizou muitas vezes seu tamanho
para derrotar fisicamente os oponentes. Um de seus contemporâneos
descreveu-o assim: "Com um metro e meio (de sapatos), carrega
tão bem seus 95 quilos de músculos e ossos que você diria que não
pesa mais de oitenta. Seus ombros de Atlas, de enorme circunferência,
encimados por um pescoço de touro, estão de acordo com um bíceps e
uma panturrilha de tamanhos excepcionais e solidez de ferro. Suas
pernas são curtas e lembram troncos de árvores”.
Comstock tinha vinte e poucos anos
quando chegou a Nova York com 3,45 dólares no bolso. Conseguiu
emprego como vendedor de tecidos e artigos de armarinho e logo
economizou os quinhentos dólares necessários para comprar uma
pequena casa no Brooklyn. Poucos anos depois, casou com a filha de um
ministro presbiteriano, dez anos mais velha que ele. Em Nova York,
Comstock descobriu muita coisa que julgava censurável. Em 1868,
depois que um amigo lhe contou como fora "desencaminhado,
corrompido e pervertido" por um certo livro (o título dessa
poderosa obra não chegou até nós). Comstock comprou um exemplar na
loja e depois, acompanhado por um policial, fez prender seu dono e
confiscar o estoque. O sucesso desse primeiro ataque foi tal que ele
decidiu continuar, provocando periodicamente a prisão de editores e
impressores de material excitante.
Com a ajuda de amigos da Associação
Cristã de Moços, que lhe forneceram 8500 dólares, Comstock pôde
fundar a sociedade pela qual ficou famoso. Dois anos antes de morrer,
disse a um entrevistador em Nova York: "Nos 41 anos em que
estive aqui, condenei um número suficiente de pessoas para encher um
trem de passageiros de 61 vagões, sessenta vagões com sessenta
passageiros cada, e o sexagésimo primeiro quase cheio. Destruí 160
toneladas de literatura obscena".
O fervor de Comstock foi também
responsável no mínimo por quinze suicídios. Depois que conseguiu
mandar o ex-cirurgião irlandês Wil iam Haynes para a prisão, "por
publicar 165 tipos diferentes de literatura lasciva", Haynes se
matou. Um pouco mais tarde, Comstock estava prestes a tomar a barca
para o Brooklyn (relembrou posteriormente) quando "uma Voz"
lhe disse que fosse até a casa de Haynes. Lá chegou quando a viúva
estava descarregando de uma carroça as chapas de impressão de
livros proibidos. Com grande agilidade, Comstock saltou para o
assento do condutor e levou a carroça para a ACM, onde as chapas
foram destruídas.
Que livros lia Comstock? Ele era um
seguidor involuntário do conselho jocoso de Oscar Wilde: "Jamais
leio um livro que devo resenhar; ele o torna muito parcial". Às
vezes, porém, folheava os livros antes de destruí-los e ficava
horrorizado com o que lia. Achava a literatura da França e da Itália
"pouco melhor que histórias de bordéis e prostitutas nessas
nações lúbricas. Com que freqüência se encontram nessas
histórias torpes heroínas adoráveis, excelentes, cultivadas, ricas
e encantadoras em todos os aspectos, as quais têm por amantes homens
casados; ou, depois do casamento, os amantes cercam a jovem esposa,
gozando de privilégios que pertencem somente ao marido!". Até
mesmo os clássicos não estavam acima da exprobração. "Tome-se,
por exemplo, uma obra bem conhecida de Boccaccio", escreveu em
seu Traps for the young [Armadilhas para os jovens]. O livro era tão
imundo que Comstock faria qualquer coisa para "evitar que ele,
como uma besta selvagem, se soltasse e destruísse a juventude do
país". Balzac, Rabelais, Walt Whitman, Bernard Shaw e Tolstoi
estavam entre suas vitimas. A leitura cotidiana de Comstock, dizia
ele, era a Bíblia.
Os métodos de Comstock eram
selvagens, mas superficiais. Faltava-lhe a percepção e a paciência
de censores mais sofisticados, que escavam o texto com um torturante
cuidado em busca de mensagens enterradas. Em 1981, por exemplo, a
junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote
do Chile porque o general achava (com bastante razão) que o livro
continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade
instituída.
A censura de Comstock limitava-se, num
ataque de ultraje, a pôr as obras suspeitas em um catálogo dos
amaldiçoados. Seu acesso aos livros também era limitado: só podia
caçá-los se aparecessem em público, quando muitos já tinham
escapado para as mãos de leitores ávidos. A Igreja católica estava
muito à frente dele. Em 1559, a Sagrada Congregação da Inquisição
Romana publicara o primeiro Índice dos livros proibidos - uma
lista de livros que a Igreja considerava perigosos para a fé e a
moral dos católicos. O Index, que incluía livros censurados
antes da publicação, bem como livros imorais já publicados, jamais
pretendeu ser um catálogo completo de todos os livros banidos pela
Igreja. Porém, quando foi abandonado, em junho de 1966, continha,
entre centenas de obras teológicas, outras tantas obras de autores
seculares, de Voltaire e Diderot a Colette e Graham Greene. Comstock
certamente acharia essa lista muito útil.
"A arte não está acima da
moral. A moral vem primeiro", escreveu Comstock. "A lei vem
em seguida, como defensora da moral pública. A arte só entra em
conflito com a lei quando sua tendência é obscena, lasciva ou
indecente." Isso levou o New York World a perguntar num
editorial: "Foi realmente determinado que não há nada de
saudável e nem proveitoso na arte a não ser que ela esteja
vestida?". A definição de Comstock de arte imoral, como a de
todos os censores, foge da dificuldade. Comstock morreu em 1915. Dois
anos depois, o ensaísta americano H. L. Mencken definiu a cruzada de
Comstock como "o novo puritanismo", "não ascético,
mas militante. Seu objetivo não é elevar santos, mas derrubar
pecadores".
Comstock estava convencido de que
aquilo que chamava de "literatura imoral" pervertia a mente
dos jovens, que deveriam se ocupar com temas espirituais mais
elevados. Essa preocupação é antiga, e não é exclusiva do
Ocidente. Na China do século XV, uma coleção de contos da dinastia
Ming conhecida como Histórias velhas e novas teve tanto
sucesso que precisou ser incluída no index chinês, para que
não distraísse os jovens do estudo de Confúcio. No mundo
ocidental, uma forma mais suave dessa obsessão expressou-se como um
medo generalizado da ficção - pelo menos até a época de Platão,
que baniu os poetas de sua república ideal. A sogra de Madame Bovary
argumentou que os romances envenenavam a alma de Emma e convenceu o
filho a cancelar a assinatura que Emma mantinha junto a uma
biblioteca circulante, mergulhando-a mais ainda no pântano do tédio.
A mãe do escritor inglês Edmund Gosse não permitia que entrassem
em sua casa romances de qualquer tipo, religiosos ou seculares.
Quando era ainda uma menininha bem pequena, no início do século
XIX, ela se divertira com os irmãos lendo e inventando histórias,
até que sua governanta calvinista descobriu e passou-lhe um sermão,
dizendo-lhe que tais prazeres eram depravados. "A partir daquele
momento", escreveu a sra. Gosse em seu diário, "considerei
que inventar qualquer tipo de história era pecado." Mas "o
desejo de inventar histórias cresceu com violência; tudo o que
ouvia ou lia tornava-se alimento para meu destempero. A simplicidade
da verdade não me bastava: eu precisava enfeitá-la com a
imaginação, e a insensatez, a vaidade e a perversidade que
desgraçaram meu coração são maiores do que posso expressar. Ainda
agora, embora vigilante, fazendo orações e empenhada contra isso,
esse é o pecado que mais facilmente me persegue. Ele tem atrapalhado
minhas preces e impedido meu progresso e, portanto, tem me humilhado
muito. Isso ela escreveu aos 29 anos de idade.
Nessa crença criou o filho. "Nunca,
na minha primeira infância, alguém se dirigiu a mim com o tocante
preâmbulo ‘era uma vez ...’ Contaram-me sobre missionários, mas
nunca sobre piratas. Estava familiarizado com beija-flores, mas
jamais ouvira falar de fadas", relembrou Gosse. "Eles
queriam que eu fosse fiel à realidade; a tendência foi tornar-me
positivo e cético. Se tivessem me envolvido nas dobras suaves da
fantasia sobrenatural, minha mente poderia ter ficado mais tempo
satisfeita em seguir suas tradições sem questioná-las”. Os pais
que levaram aos tribunais a escola pública do condado de Hawkins, no
Tennessee, em 1980, não tinham obviamente lido Gosse. Eles
argumentavam que toda uma série de livros da escola elementar, que
incluía Cinderela, Cachinhos de ouro e O mágico de
Oz, violava suas crenças religiosas fundamentalistas.
Leitores autoritários que impedem
outros de aprender a ler, leitores fanáticos que decidem o que pode
e o que não pode ser lido, leitores estoicos que se recusam a ler
por prazer e exigem somente que se recontem fatos que julgam ser
verdadeiros: todos eles tentam limitar os vastos e diversificados
poderes do leitor. Mas os censores também podem adotar formas
diferentes em seu trabalho, sem necessidade de fogueiras ou
tribunais.
Podem reinterpretar livros para
torná-los úteis apenas a eles mesmos, para justificar seus direitos
autocráticos.
Em 1976 houve um golpe militar na
Argentina, liderado pelo general Jorge Rafael Videla.
O que se seguiu foi uma onda de
violações dos direitos humanos como o país jamais vira. A desculpa
do Exército era de que estava travando uma guerra contra
terroristas. Como definiu o general Videla, "um terrorista é
não apenas alguém com uma arma ou uma bomba, mas também alguém
que difunde idéias contrárias à civilização ocidental e cristã".
Entre os milhares que foram
sequestrados e torturados estava o padre Orlando Virgílio Yorio. Um
dia, o interrogador do padre Yorio disselhe que sua leitura dos
Evangelhos era falsa. "Você interpreta a doutrina de Cristo de
uma forma literal demais", disse o homem.
"Cristo falou dos pobres, mas
quando falou dos pobres, referia-se aos pobres de espírito, e você
interpretou no sentido literal e foi viver literalmente com gente
pobre. Na Argentina, os pobres de espírito são os ricos, e, no
futuro, você deve passar mais tempo ajudando os ricos, que são
aqueles que precisam realmente de ajuda espiritual."
Assim, nem todos os poderes do leitor
são iluminadores. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair
suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o
passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também
destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa
leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor
também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a
uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem particular, aos
direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
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