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12/05/2026

Páginas de guarda



Em "As neves do Kilimanjaro", o famoso conto de Hemingway, o protagonista, que está morrendo, relembra todas as histórias que agora jamais escreverá. "Ele sabia pelo menos vinte histórias boas dali e jamais escrevera nenhuma delas. Por quê?" Ele menciona algumas, mas a lista, evidentemente, deve ser interminável. As estantes dos livros que não escrevemos, assim como as dos livros que não lemos, estendem-se pela escuridão do espaço remoto da biblioteca universal. Estamos sempre no começo do começo da letra A.
Entre os livros que não escrevi - entre os livros que não li, mas gostaria de ler - está A história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência.
Posso conceber sua capa e imaginar a sensação de suas ricas páginas cor de creme.
Posso adivinhar, com acuidade lasciva, a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria, sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente. Sei que possui um índice abundante e curioso que me dará grande prazer, com tópicos (caio por acaso na letra T) como Tântalo para leitores; Tartaruga (ver Conchas e peles de animais); Tarzan, biblioteca de; Traças; Tradução; Tolstoi, cânone de; Tormento: e recitação; Transmigração de almas de leitores (ver Empréstimo de livros); Túmulos, inscrições em. Sei que o livro possui, como veios no mármore, cadernos de ilustrações que jamais vi: um mural do século VII representando a biblioteca de Alexandria, tal como vista por um artista da época; uma fotografia da poeta Sylvia Plath lendo em voz alta num jardim, sob a chuva; um esboço da sala de Pascal em Port-Royal, mostrando os livros que ele mantinha sobre sua escrivaninha; uma fotografia dos livros encharcados salvos por uma passageira do Titanic, sem os quais ela não abandonaria o navio; a lista de Natal de Greta Garbo para 1933, escrita por seu próprio punho, mostrando que entre os livros que compraria estava Miss Corações Solitários, de Nathanael West; Emily Dickinson na cama, com um gorro cheio de babados amarrado de um modo confortável sob o queixo, e, espalhados em torno dela, seis ou sete livros cujos títulos mal posso adivinhar.
Tenho o livro aberto diante de mim, sobre a minha mesa. E escrito de forma amistosa (tenho a sensação exata de seu tom), acessível e erudito ao mesmo tempo, informativo e, contudo, reflexivo. O autor, cujo rosto vi no belo frontispício, está sorrindo com satisfação (não posso dizer se é homem ou mulher; a face barbeada poderia ser de ambos os sexos, o mesmo podendo acontecer com as iniciais do nome) e sinto que estou em boas mãos.
Sei que, à medida que avançar pelos capítulos, serei apresentado àquela antiga família de leitores, alguns famosos, muitos obscuros, da qual faço parte. Aprenderei suas maneiras e as mudanças nessas maneiras, e as transformações que sofreram enquanto levaram consigo, como os magos de outrora, o poder de transformar signos mortos em memória viva. Lerei sobre seus triunfos e perseguições, sobre suas descobertas quase secretas. E, no final, compreenderei melhor quem eu - o leitor - sou.
Que um livro não exista (ou não exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos um livro sobre um tema imaginário. Há volumes escritos sobre o unicórnio, sobre Atlântida, sobre igualdade dos gêneros, sobre a Dama Negra dos Sonetos e a igualmente negra Juventude. Mas a história que este livro registra foi particularmente difícil de agarrar; ele é feito, por assim dizer, de suas digressões. Um assunto chama outro, uma anedota traz à mente outra história aparentemente sem relação, e o autor se comporta como se estivesse alheio à causalidade lógica ou à continuidade histórica, como se definisse a liberdade do leitor no próprio ato de escrever sobre esse ofício.
Contudo, nessa aparente aleatoriedade, há um método: este livro que vejo diante de mim não é somente a história da leitura - é também a história de leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo dos séculos, escolheram certos livros em detrimento de outros, aceitaram em alguns casos o veredicto dos antepassados, mas em outras ocasiões resgataram títulos esquecidos do passado ou puseram na estante os eleitos entre seus contemporâneos. Esta é a história de seus pequenos triunfos e de seus sofrimentos secretos, e da maneira como essas coisas aconteceram. A crônica de como tudo ocorreu está minuciosamente registrada neste livro, na vida cotidiana de umas poucas pessoas comuns descoberta aqui e ali em memórias de família, histórias de aldeias, relatos de vida em lugares distantes, há muito tempo. Mas fala sempre de indivíduos, nunca de vastas nacionalidades ou gerações cujas escolhas não pertencem à história da leitura, mas à da estatística. Rilke uma vez perguntou: "É possível que toda a história do mundo tenha sido mal compreendida? É possível que o passado seja falso, porque sempre falamos sobre suas massas como se estivéssemos contando sobre uma reunião de gente, em vez de falar sobre aquela pessoa em torno da qual se reuniram, porque era um estranho e estava morrendo? Sim, é possível". Esse mal-entendido, o autor de A história da leitura certamente a reconheceu.
Eis então, no capítulo 14, Richard de Bury, bispo de Durham, tesoureiro e chanceler do rei Eduardo II, nascido a 24 de janeiro de 1287 numa pequena aldeia próxima de Bury; St. Edmund's, em Suffolk, e que em seu quinquagésimo oitavo aniversário terminou um livro explicando que, "porque trata principalmente do amor aos livros, escolhemos, conforme a moda dos antigos romanos, intitulá-lo afetuosamente com a palavra grega Philobiblon".
Quatro meses depois, morreu. De Bury colecionara livros com paixão; tinha, dizia-se, mais livros que todos os outros bispos da Inglaterra juntos, e tantos empilhavam-se em torno de sua cama que era quase impossível andar pelo quarto sem tropeçar neles. De Bury, graças a Deus, não era um erudito e lia apenas o que lhe apetecia. Achava o Hermes Trismegisto (um volume neoplatônico de alquimia egípcia do século III) um excelente livro científico "de antes do Dilúvio", atribuía erradamente obras a Aristóteles e citava versos horríveis como se fossem de Ovídio. Não importava. "Nos livros", escreveu ele, "encontro os mortos como se estivessem vivos; nos livros, prevejo coisas que irão acontecer; nos livros, negócios de guerra são relatados; dos livros saem as leis da paz.
Todas as coisas são corrompidas e degeneram com o tempo; Saturno não cessa de devorar os filhos que gera: toda a glória do mundo estaria enterrada no olvido, se Deus não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros. (Nosso autor não menciona isso, mas Virginia Woolf, em um trabalho lido na escola, fez eco à asserção de Bury: "Tenho sonhado às vezes que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores, advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas, lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível , o Todo-Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem uma certa inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço: 'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes dar. Eles amaram a leitura.'”)
O capítulo 8 é devotado a uma leitora quase esquecida que santo Agostinho, numa carta, louva como uma escriba formidável e a quem dedicou um de seus livros. Seu nome era Melanía, a Jovem (para distingui-la de sua avó, Melania, a Anciã), e ela viveu em Roma, no Egito e no Norte da Africa. Nasceu por volta de 385 e morreu em Belém, em 439. Era apaixonada por livros e copiou para si mesma tantos quantos pôde encontrar, reunindo assim uma importante biblioteca. O erudito Gerôncio, do século V, descreveu-a como "naturalmente dotada" e tão aficionada pela leitura que "percorria as Vidas dos padres como se estivesse comendo uma sobremesa". "Lia livros que eram comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia desconhecido para ela. Tão avassaladora era sua paixão pelo aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não sabia latim." Brilhante e transitória, Melania, a Jovem, é vista perambulando na - A história da leitura como uma das muitas pessoas que buscaram conforto nos livros.
De um século mais próximo de nós (mas o autor de A história da leitura não dá importância a essas convenções arbitrárias e o convida a comparecer no capítulo 6), outro leitor eclético, o genial Oscar Wilde, apresenta-se. Seguimos seu progresso nas leituras, dos contos de fada celtas que sua mãe lhe deu aos volumes eruditos que leu no Magdalen College, em Oxford. Foi num exame em Oxford que lhe pediram que traduzisse a versão grega da Paixão no Novo Testamento. Como avançou no trabalho com muita facilidade e correção, os examinadores disseram-lhe que já bastava. Wilde continuou a traduzir, e uma vez mais disseram-lhe que parasse. "Oh, deixem-me continuar, quero ver como acaba”, disse Wilde.
Para ele, era tão importante saber do que gostava quanto o que deveria evitar. Em beneficio dos assinantes da Pal Mall Gazette, publicou, em 8 de fevereiro de 1886, estas palavras de advertência sobre o que "Ler ou não ler": Livros que não devem ser lidos de forma alguma, como Seasons, de Thomson, Italy, de Rogers, Evidences, de Paley, todos os Pais da Igreja, exceto santo Agostinho, todo o John Stuart Mill, exceto o ensaio sobre a liberdade, todas as peças de Voltaire, sem exceção, Analogy, de Butler, Aristotle, de Grant, England, de Hume, History of philosophy, de Lewes, todos os livros argumentativos e todos os livros que tentam provar alguma coisa [...] Dizer às pessoas o que ler é, como regra, inútil ou prejudicial, pois a verdadeira apreciação da literatura é uma questão de temperamento, não de ensino, ao Parnaso não há cartilha introdutória, e nada do que alguém pode aprender vale a pena ser aprendido. Mas dizer às pessoas o que não ler é uma questão muito diferente, e aventuro-me a recomendá-lo, como missão, ao Programa de Extensão Universitária.
Os gostos de leitura privados e públicos são discutidos bem no início do livro, no capítulo 4. O papel do leitor como antologista é examinado, como coletor de material para si mesmo (o livro de Jean-Jacques Rousseau, um lugar-comum, é o exemplo dado) ou para os outros (Golden treasury [Tesouro dourado] de Palgrave), e nosso autor, com muita graça, mostra como os conceitos de público modificam as escolhas dos antologistas. Para apoiar essa "micro-história das antologias", nosso autor cita o professor Jonathan Rose a propósito das "cinco falácias comuns da resposta do leitor":

- primeira, toda literatura é política, no sentido de que sempre influencia a consciência política do leitor;
- segunda, a influência de determinado texto é diretamente proporcional à sua circulação;
- terceira, a cultura "popular" tem muito mais adeptos do que a "alta" cultura e, portanto, reflete com mais precisão as atitudes das massas;
- quarta, a "alta" cultura tende a reforçar a aceitação da ordem social e política existente (suposição largamente compartilhada tanto pela direita como pela esquerda); e
- quinta, o “cânone dos grandes” livros é definido somente pelas elites sociais. Os leitores comuns não reconhecem o cânone, ou aceitam-no apenas por deferência à opinião da elite.

Como nosso autor deixa bastante claro, nós, os leitores, somos normalmente culpados de aceitar pelo menos algumas, senão todas, essas falácias. O capítulo menciona também antologias ready-made coligidas e encontradas por acaso, tais como os 10 mil textos reunidos em um curioso arquivo judeu no Cairo Velho, chamado Geniza e descoberto em 1890 num quarto de despejo lacrado de uma sinagoga medieval. Por causa da reverência judaica em relação ao nome de Deus, nenhum papel foi jogado fora por medo de que contivesse seu nome; portanto, tudo, de contratos de casamento a listas de compras, de formas de amor a catálogos de livreiros (um dos quais incluía a primeira referência conhecida às Mil e uma noites), foi reunido ali para um leitor futuro.
Não apenas um, mas três capítulos (31, 32 e 33) são dedicados ao que o autor chama de "A invenção do leitor". Cada texto supõe um leitor Quando Cervantes começa sua introdução à primeira parte do Dom Quixote com o vocativo "Desocupado leitor”, sou eu que desde as primeiras palavras me torno uma personagem na ficção, uma pessoa com tempo suficiente para me comprazer com a história que está para começar. A mim Cervantes dedica o livro, a mim explica os fatos de sua composição, a mim confessa as falhas da obra. Seguindo o conselho de um amigo, ele próprio escreveu alguns poemas laudatórios recomendando o livro (a versão menos inspirada de hoje é pedir a personalidades conhecidas que elogiem e colem seus panegíricos na sobrecapa do livro).
Cervantes solapa sua própria autoridade ao me fazer penetrar em seu segredo. Eu, o leitor, fico em guarda e, no mesmo ato, sou desarmado. Como posso reclamar do que me foi exposto de forma tão clara'? Concordo em participar do jogo. Aceito a ficção. Não fecho o livro.
Minha decepção indisfarçada continua. Oito capítulos adiante, fico sabendo que esse é o tamanho da história de Cervantes e que o resto do livro é uma tradução do árabe feita pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Por que o artificio? Porque eu, o leitor, não me convenço facilmente e porque, embora não acredite na maioria dos truques com os quais o autor jura veracidade, gosto de entrar num jogo em que os níveis de leitura mudam constantemente. Leio um romance, leio uma aventura real, leio a tradução de uma aventura real, leio uma versão correta dos fatos.
A história da leitura é eclética. A invenção do leitor segue-se um capítulo sobre a invenção do escritor, outra personagem de ficção. “Tive a infelicidade de começar um livro com a palavra eu", escreveu Proust, "e imediatamente pensou-se que, em vez de tentar descobrir leis gerais, eu estava analisando a mim mesmo, no sentido individual e detestável da palavra." Isso conduz nosso autor a discutir o uso da primeira pessoa do singular e do modo como esse eu fictício força o leitor a uma aparência de diálogo, do qual, entretanto, ele é excluído pela realidade física da página. "Somente quando o leitor lê para além da autoridade do escritor é que o diálogo acontece", diz nosso autor, e tira seus exemplos do nouveau roman, em especial de A modificação, de Michel Butor, escrito inteiramente na segunda pessoa. "Aqui", diz nosso autor, "as cartas estão na mesa e o escritor não espera que acreditemos no eu nem presume que vamos assumir o papel do condescendente 'prezado leitor'."
Numa fascinante digressão (capítulo 40 de A história da leitura), nosso autor apresenta a sugestão original de que a forma pela qual o livro se dirige ao leitor leva à criação dos principais gêneros literários - ou pelo menos à sua classificação. Em 1948, em Das Sprachliche Kunstwerk [Análise e interpretação da obra de arte literária], o crítico alemão Wolfgang Kayser propôs que o conceito de gênero derivava das três pessoas que existem em todas as línguas conhecidas: eu, tu e ele ou ela. Na literatura lírica, o eu expressa-se emocionalmente; no drama, o eu torna-se uma segunda pessoa, tu, e trava com outro tu um diálogo apaixonado. Por fim, na epopeia, o protagonista é a terceira pessoa, ele ou ela, que narra objetivamente. Ademais, cada gênero exige do leitor três atitudes distintas: uma atitude lírica (a da caução), uma atitude dramática (que Kayser chama de apóstrofe) e uma atitude épica, ou enunciação. Nosso autor acolhe com entusiasmo esse argumento e ilustra-o com três leitores: Éloise Bertrand, uma colegial francesa do século XIX cujo diário sobreviveu à guerra franco-prussiana de 1870 e que registrou fielmente sua leitura de Nerval; Douglas Hyde, que foi ponto na representação de The vicar of Wakefield [O vigário de Wakefield] no Court Theatre de Londres, com Ellen Terry no papel de Olívia; e a criada de Proust, Céleste, que leu (em parte) o extenso romance de seu patrão.
No capítulo 68 (essa História da leitura é um volume reconfortante-mente grosso), nosso autor levanta a questão de como (e por que) certos leitores preservam uma leitura depois que a maioria já a relegou ao passado. O exemplo dado é o de um jornal de Londres publicado em algum momento de 1855, quando a maioria dos jornais ingleses estava abarrotada de notícias da guerra na Criméia:
John Challis, um homem idoso de cerca de sessenta anos, vestido com os trajes pastoris de uma pastora da idade de ouro, e George Campbell, de 35 anos, que descreveu a si mesmo como advogado e apareceu completamente equipado em trajes femininos atuais, foram postos no tribunal diante de sir R. W. Carden, sob a acusação de terem sido encontrados disfarçados de mulher no Druids'-hal , em Turnagain Lane, um salão de danças sem licença, com o propósito de incitar outros a cometerem uma ofensa antinatural.
"Uma pastora da idade de ouro": em 1855, o ideal bucólico literário era coisa do passado.
Codificado nos Idílios de Teócrito no terceiro século antes de Cristo, atraindo os escritores de uma forma ou de outra até o século XVII, tentando escritores tão disparatados como Milton, Garcilaso de la Vega, Giambattista Marino, Cervantes, Sidney e Fletcher, o bucolismo encontrou um reflexo muito diferente em romancistas como George Eliot e Elizabeth Gaskel , Émile Zola e Ramón del Val e Inclán, em seus livros que davam aos leitores outra visão menos ensolarada da vida no campo: Adam Bede (1859), Cranford (1853), La Terre (1887), Tirano Banderas (1926). Essas reconsiderações não eram novas.
Já no século XIV o escritor espanhol Juan Ruiz, arcipreste de Hita, em seu Libro de buen amor, subvertera a convenção na qual um poeta ou cavaleiro solitário encontra uma bela pastora a quem seduz gentilmente, fazendo com que o narrador encontre nas colinas de Guadarrama quatro pastoras selvagens, corpulentas e voluntariosas. As duas primeiras o estupram, da terceira ele escapa com promessas falsas de casar com ela e a quarta lhe oferece abrigo em troca de roupas, joias, um casamento ou dinheiro vivo. Duzentos anos depois, havia poucos como o velho sr. Challis que ainda acreditavam no apelo simbólico do pastor adorável e suas pastoras ou do amoroso cavalheiro e sua inocente donzela do campo. Segundo o autor de A história da leitura, essa é uma das maneiras (extrema, sem dúvida) pelas quais os leitores preservam e recontam o passado.
Vários capítulos, em diferentes partes do livro, tratam dos deveres da ficção, em oposição ao que o leitor aceita como fato. Os capítulos sobre a leitura de fatos constituem um toque árido, indo das teorias de Platão às críticas de Hegel e Bergson; ainda que tragam o possivelmente apócrifo viajante-escritor inglês do século XIV sir John Mandevil e, são um tanto densos para se deixar resumir Os capítulos sobre leitura de ficção, no entanto, são mais concisos. Duas opiniões, igualmente prescritivas e totalmente opostas, são apresentadas. Segundo uma delas, o leitor deve acreditar nas personagens do romance e agir como elas. De acordo com a outra, o leitor deve desconsiderar essas personagens como meras fabricações sem nenhuma relação com o "mundo real". Henry Tilney, em A abadia de Northanger, de Jane Austen, dá voz à primeira opinião quando interroga Catherine depois do rompimento da amizade com Isabel a; ele espera que os sentimentos dela sigam as convenções da ficção:

- Imagino que, perdendo Isabel a, deve estar com a sensação de ter perdido metade de si mesma. Sente no coração um vazio que nada encherá. Tudo lhe parece enfadonho, e a simples idéia dos prazeres que compartilhava com ela - bailes, teatros, concertos lhe é odiosa. Está persuadida de que já não terá, de agora em diante, uma amiga em quem confiar sem reservas, uma amiga com quem contar. Está sentindo tudo isto?
- Não disse Catherine depois de refletir. - Devia?

O tom do leitor e o modo como ele afeta o texto são discutidos no capítulo 51, por meio da personagem de Robert Louis Stevenson lendo histórias para seus vizinhos na Samoa.
Stevenson atribuía o senso dramático e musical de sua prosa às histórias para dormir que lhe contava sua babá Alison Cunningham, "Cummie". Ela lia histórias de fantasmas, hinos religiosos, panfletos calvinistas e romances escoceses, tudo o que acabou penetrando em sua ficção. "Foi você quem me deu a paixão pelo teatro, Cummie", confessou-lhe quando já era homem feito. “Eu, senhor Lou? Nunca pus o pé num teatro em toda a minha vida.'”
Ao que ele respondeu: "Ah, mulher! Mas foi aquela magnífica forma dramática que você tinha de recitar os hinos". Stevenson aprendeu a ler somente aos sete anos, não por preguiça, mas porque queria prolongar as delícias de ouvir as histórias ganharem vida. A isso nosso autor chama de "síndrome de Scherazade".
Ler ficção não é a única preocupação do nosso autor. A leitura de textos científicos, dicionários, partes de um livro com índices, notas e dedicatórias, mapas, jornais, tudo merece (e recebe) seu próprio capítulo. Há um retrato curto mas revelador do romancista Gabriel García Márquez, que lê todas as manhãs um par de páginas de um dicionário (qualquer dicionário, exceto o pomposo Diccionario de la Real Academia Española) - hábito que nosso autor compara ao de Stendhal, que lia com atenção o Código Napoleônico para aprender a escrever com um estilo conciso e exato.
O tópico da leitura de livros emprestados ocupa o capítulo 15. Jane Carlyle (esposa de Thomas Carlyle e famosa epistológrafa) nos conduz pelas complexidades de ler livros que não nos pertencem, "como se tivéssemos um caso ilícito", e de retirar de bibliotecas livros que podem afetar nossa reputação. Uma certa tarde de 1843, tendo escolhido da respeitável London Library vários romances "ousados" do escritor francês Paul de Kock, ela descaradamente preencheu a ficha de empréstimo com o nome de Erasmus Darwin, o descarnado avô inválido do famoso Charles, para espanto dos bibliotecários.
Aqui estão também as cerimônias de leitura da nossa época e de tempos passados (capítulos 43 e 45). Aqui estão as maratonas de leitura de Ulisses no Bloomsday, as nostálgicas leituras radiofônicas de um livro antes de dormir, as leituras em grandes salões de biblioteca lotados e em lugares longínquos, desertos e bloqueados pela neve, leituras à cabeceira dos doentes, leituras de histórias de fantasmas ao pé do fogo no inverno. Aqui está a ciência curiosa da biblioterapia (capítulo 21), definida no Webster como "o uso de material de leitura selecionado como coadjuvante terapêutico na medicina e na psiquiatria", com o qual certos médicos afirmam poder curar os doentes do corpo e do espírito, administrando-lhes The wind in the wil ows [O vento nos salgueiros] ou Bouvard e Pécuchet.
Aqui estão as maletas de livros, o sine qua non de toda viagem vitoriana. Nenhum viajante saía de casa sem uma mala cheia de leitura apropriada. fosse para a Côte d'Azur ou para a Antártida. (Pobre Amundsen: nosso autor nos conta que, a caminho do Pólo Sul, a maleta de livros do explorador afundou sob o gelo e ele foi obrigado a passar muitos meses na companhia do único volume que conseguiu resgatar: The portraiture of His Sacred Majesty in his solitudes and sufferings [O retrato de Sua Sagrada Majestade em seus sofrimentos e solidões], do dr John Gauden.) Um dos capítulos finais (mas não o último) trata do reconhecimento explícito pelo escritor do poder do leitor. Aqui estão os livros deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de Lego: o Tristram Shandy de Laurence Sterne, evidentemente, que nos permite ler de qualquer jeito, e O jogo da amarelinha, de Júlio Cortázar, romance construído com capítulos intercambiáveis cuja seqüência o leitor determina à vontade.
Sterne e Cortázar conduzem inevitavelmente aos romances da Nova Era, os hipertextos.
O termo (conta-nos nosso autor) foi cunhado na década de 1970 pelo especialista em computação Ted Nelson, para descrever o espaço narrativo não sequencial possibilitado pelos computadores. Nosso autor cita o romancista Robert Coover, que descreveu assim o hipertexto num artigo publicado no New York Times: "Não há hierarquias nessas redes sem parte de cima (e sem parte de baixo), na medida em que parágrafos, capítulos e outras divisões convencionais do texto são substituídas por blocos de texto e elementos gráficos do tamanho da janela, de valor semelhante e igualmente efêmeros". O leitor de um hipertexto pode entrar no texto praticamente em qualquer ponto, pode mudar o curso da narrativa, exigir inserções, corrigir, expandir ou apagar. Esses textos também não têm fim, pois o leitor (ou o escritor) sempre pode continuar ou recontar um texto: "Se tudo está no meio, como saber que acabou, seja você o leitor ou o escritor?" - pergunta Coover "Se a qualquer momento o autor é livre para levar a história a qualquer lugar e em quantas direções quiser, não se torna uma obrigação fazê-lo?" Entre parênteses, nosso autor questiona a liberdade implícita nessa obrigação.
A história da leitura, felizmente, não tem fim. Depois do último capítulo e antes do já mencionado índice copioso, nosso autor deixou várias páginas em branco para o leitor acrescentar mais pensamentos sobre a leitura, temas obviamente esquecidos, citações pertinentes, eventos e personagens ainda no futuro. Há algum consolo nisso. Imagino deixar o livro na mesinha-de-cabeceira, imagino abri-lo hoje à noite, amanhã à noite ou depois de amanhã, imagino que direi a mim mesmo: "Não acabou".

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

07/05/2026

O louco dos livros



São todos gestos comuns: tirar os óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz, para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los, dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário, quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço, uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles, Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats, Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear, Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce - todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor argentino, que começou a perder a visão no início da década de 1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em 1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:

Que ninguém avilte com lágrimas ou reprove
Esta declaração da habilidade de Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo tempo.

Borges comparava o destino desse leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos os livros do mundo estão agora à sua disposição; então, acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno, mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas, necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado, deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se constantemente das condições em que tinham de trabalhar e rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas, provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior. Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia, os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para eles.
Uns poucos descobriram que olhar através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor. Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse "fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados. A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268, Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que possa haver".
A representação mais antiga que se conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St. Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos, conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466, apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo, em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual, ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja - são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes foram representados carregando um douto volume e usando os sábios óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado, meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme", foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso, pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão, intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e, atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”, o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em 1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant, um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro. Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse: Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles, fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? - perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua, as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?". Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos. (Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca, que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra. Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que, como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos. Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não compartilhava do ressentimento crescente entre a população em geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados, sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão" escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique, contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço" e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não, prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade, vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual, isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores, os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades, ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo. Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey, analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada, porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso. "Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto, qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana, Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante: "Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso; nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis; estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" - ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora, Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente, retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos, conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo, mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração, negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é, no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso. Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente, arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse "caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá, ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra, cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas; outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo, segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede – uma compreensão.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

02/05/2026

Páginas de guarda

Carta a Paul Verlaine

Paciente como um alquimista, sempre imaginei e tentei algo diferente, e estaria disposto a sacrificar toda satisfação e vaidade por isso, da mesma forma como antigamente eles costumavam queimar os móveis e as vigas do teto para alimentar suas fornalhas em busca do magnum opus. O que é isso? Difícil dizer: apenas um livro em vários volumes, um livro que é verdadeiramente um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e não uma coleção de inspirações casuais, por mais maravilhosas que possam ser. [...]
Eis aqui, meu amigo, a confissão pura desse vício que tenho rejeitado mil vezes [...] Mas ele me domina, e eu talvez ainda tenha êxito, não na conclusão dessa obra como um todo (seria preciso ser Deus sabe quem para tanto!), mas na apresentação de um fragmento bem-sucedido [...] provando através de porções terminadas que esse livro realmente existe e que eu tinha consciência do que não era capaz de realizar.
16 de novembro de 1869

Stéphane Mallarmé, em Uma História da Leitura, de Alberto Manguel

24/04/2026

Leituras proibidas



Em 1660, Carlos II, da Inglaterra, filho do rei que tão desafortunadamente consultara o oráculo de Virgílio, conhecido entre seus súditos como o Monarca Alegre, por seu amor ao prazer e aversão aos negócios, decretou que o Conselho para as Propriedades Rurais no Exterior deveria instruir os nativos, servos e escravos das colônias britânicas nos preceitos do cristianismo. O dr. Johbnson, que da distância de um século admirava o rei, disse que ele teve o mérito de se empenhar em fazer o que julgava ser pela salvação das almas de seus súditos, até perder um grande império. O historiador Macaulay, que da distância de dois séculos não tinha a mesma admiração, afirmou que, para Carlos, o amor por Deus, o amor pela pátria, o amor pela família, o amor pelos amigos eram expressões do mesmo tipo, sinônimos delicados e convenientes do amor por si mesmo.
Não está claro por que Carlos baixou esse decreto no primeiro ano de seu reinado, exceto se imaginava que este seria um modo de estabelecer uma nova base para a tolerância religiosa, à qual o Parlamento se opunha. Carlos, que apesar de suas tendências pró- católicas proclamava-se fiel à fé protestante, acreditava (na medida em que acreditava em alguma coisa) que, como Lutero ensinara, a salvação da alma dependia da capacidade de cada um de ler a palavra de Deus por si mesmo. Mas os donos de escravos britânicos não estavam convencidos disso. Temiam a própria ideia de uma "população negra alfabetizada”, que poderia assim encontrar ideias revolucionárias perigosas nos livros.
Não acreditavam nos argumentos de que uma alfabetização restrita à Bíblia fortaleceria os laços da sociedade; percebiam que, se os escravos pudessem ler a Bíblia, poderiam ler também panfletos abolicionistas e que mesmo nas Escrituras seriam capazes de encontrar noções incendiárias de revolta e liberdade. A oposição ao decreto de Carlos foi mais forte nas colônias americanas e mais forte ainda na Carolina do Sul, onde, um século depois, criaram-se leis rigorosas proibindo todos os negros, escravos ou livres, de aprender a ler. Essas leis permaneceram em vigência até a metade do século XIX.
Durante séculos, os escravos afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente difíceis, arriscando a vida num processo que, devido às dificuldades, levava às vezes vários anos. Os relatos desse aprendizado são muitos e heróicos.
Entrevistada aos noventa anos pelo Federal Writers' Project [Projeto Federal dos Escritores], uma comissão criada na década de 1930 para registrar, entre outras coisas, as narrativas pessoais de ex-escravos, Bel e Myers Carothers relembrou que aprendera as letras enquanto cuidava do bebê do dono da fazenda, que brincava com cubos alfabéticos. O dono, ao ver o que ela estava fazendo, chutou-a com as botas que calçava.
Myers perseverou, estudando às escondidas as letras da criança, bem como algumas palavras numa cartilha que achara. Um dia, disse ela, "achei um hinário [...] e soletrei: ‘Quando Posso Ler Meu Título Claro’. Fiquei tão contente quando vi que podia realmente ler que fui correndo contar para todos os outros escravos”. O senhor de Leonard Black, encontrando-o uma vez com um livro, açoitou-o tanto "que superou minha sede de conhecimento, e eu abandonei a busca até que fugi". Doc Daniel Dowdy lembrava que "a primeira vez que você era surpreendido tentando ler ou escrever, você era açoitado com um relho de couro cru; na segunda vez, com um chicote de nove tiras; na terceira vez cortavam a ponta do seu dedo indicador". Em todo o Sul, era comum os donos de fazendas enforcarem os escravos que tentassem ensinar os outros a soletrar.
Nessas circunstâncias, os escravos que quisessem se alfabetizar eram forçados a encontrar métodos tortuosos de aprender, ou com outros escravos, ou com professores brancos solidários, ou inventando esquemas que lhes permitissem estudar escondido. O escritor americano Frederick Douglass, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloqüentes abolicionistas de seu tempo, bem como fundador de vários periódicos políticos, relembra em sua autobiografia: "Ouvir minha dona sempre ler a Bíblia em voz alta [...] despertou minha curiosidade em relação a esse mistério da leitura e estimulou em mim o desejo de aprender. Até aquela época, eu não sabia nada dessa arte maravilhosa, e minha ignorância e inexperiência sobre o que ela poderia fazer por mim, bem como a confiança em minha senhora, animaram-me a lhe pedir que me ensinasse a ler [...] Num período de tempo incrivelmente curto, com seu generoso auxílio, dominei o alfabeto e consegui soletrar palavras de três ou quatro letras... [Meu senhor] proibiu-a de me dar mais instrução... [mas] a determinação que ele expressou em me manter na ignorância apenas me deixou mais decidido a buscar compreensão. No aprendizado da leitura, portanto, não sei se devo mais à oposição de meu senhor ou ao generoso auxílio de minha amável senhora". Thomas Johnson, escravo que depois se tornou um conhecido pregador missionário na Inglaterra, explicou que havia aprendido a ler estudando as letras de uma Bíblia que roubara. Como seu dono todas as noites lia em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson o persuadia a ler o mesmo capítulo repetidamente, até que o soubesse de cor e pudesse achar as mesmas palavras na página impressa. Da mesma forma, quando o filho do dono estava estudando, Johnson sugeria que o menino lesse parte de sua lição em voz alta. "Senhorzinho, leia isso de novo", dizia Johnson para encorajá-lo, e o menino repetia a leitura, achando que Johnson estava admirando seu desempenho. Por meio da repetição, aprendeu o suficiente para ler jornais quando começou a Guerra Civil e, mais tarde, abriu uma escola para ensinar os outros a ler.
Aprender a ler, para os escravos, não era um passaporte imediato para a liberdade, mas uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos poderosos de seus opressores: o livro.
Os donos de escravos (tal como os ditadores, tiranos, monarcas absolutos e outros detentores ilícitos do poder) acreditavam firmemente no poder da palavra escrita. Sabiam, muito mais do que alguns leitores, que a leitura é uma força que requer umas poucas palavras iniciais para se tornar irresistível. Quem é capaz de ler uma frase é capaz de ler todas. Mais importante: esse leitor tem agora a possibilidade de refletir sobre a frase, de agir sobre ela, de lhe dar um significado. "Você pode se fingir de bobo com uma frase", disse o escritor austríaco Peter Handke. "Faça valer seus direitos sobre a frase contra outras frases. Nomeie tudo o que atravessar seu caminho e tire da frente. Familiarize-se com todos os objetos. Transforme todos os objetos numa frase com a frase. Você pode transformar todos os objetos numa frase sua. Com essa frase, todos os objetos lhe pertencem.” Por todos esses motivos, ler tinha de ser proibido.
Como séculos de ditadores souberam, uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a arte da leitura não pode ser desaprendida, o segundo melhor recurso é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Os poderes absolutos exigem que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve bastar.
Os livros, escreveu Voltaire no panfleto satírico "Sobre o terrível perigo da leitura", "dissipam a ignorância, a custódia e a salvaguarda dos estados bem policiados". A censura, portanto, de qualquer tipo, é o corolário de todo poder, e a história da leitura está iluminada por uma fileira interminável de fogueiras de censores, dos primeiros rolos de papiro aos livros de nossa época. As obras de Protágoras foram queimadas em 411 a.C., em Atenas. No ano de 213 a.C., o imperador chinês Chí Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando todos os livros de seu reino. Em 168 a.C., a biblioteca judaica de Jerusalém foi deliberadamente destruída durante o levante dos macabens. No primeiro século da era cristã, Augusto exilou os poetas Cornélio Calo e Ovídio e baniu suas obras.
O imperador Calígula mandou queimar todos os livros de Homero, Virgílio e Lívio (mas seu decreto não foi cumprido). Em 303, Diocleciano condenou todos os livros cristãos à fogueira. E isso foi apenas o começo. O jovem Goethe, testemunhando a queima de um livro em Frankfurt, sentiu que estava presenciando uma execução: "Ver um objeto inanimado ser punido é em si e por si mesmo algo realmente terrível". A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado.
Em 10 de maio de 1933, em Berlim, diante das câmeras, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para uma multidão entusiasmada de mais de 100 mil pessoas: "Esta noite vocês fazem bem em jogar no fogo essas obscenidades do passado. Este é um ato poderoso, imenso e simbólico, que dirá ao mundo inteiro que o espírito velho está morto. Destas cinzas irá se erguer a fênix do espírito novo". Um menino de doze anos, Hans Pauker, mais tarde diretor do Instituto Leo Baeck de Estudos Judaicos em Londres, presenciou a queima e relembrou que, à medida que os livros eram jogados às chamas, faziam-se discursos para dar solenidade à ocasião. "Contra a exacerbação dos impulsos inconscientes baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud", declamou um dos censores antes de queimar os livros de Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich Mann, Jack London, Bertold Brecht e centenas de outros receberam a homenagem de epitáfios semelhantes.
Em 1872, pouco mais de dois séculos após o decreto otimista de Carlos II, Anthony Comstock – um descendente dos antigos colonos que tinham se oposto aos impulsos pedagógicos de seu soberano – fundou em Nova York a Sociedade para a Extinção do Vício, o primeiro conselho de censura efetivo dos Estados Unidos. Pensando bem, Comstock teria preferido que a leitura jamais tivesse sido inventada ("Nosso pai Adão não podia ler no Paraíso", afirmou certa vez), mas, já que o fora, estava decidido a controlar seu uso. Comstock considerava-se um leitor dos leitores, aquele que sabia o que era boa e o que era má literatura, e fazia todo o possível para impor suas idéias aos outros. Um ano antes de fundar a sociedade, escreveu em seu diário: "Quanto a mim, estou decidido, com a força de Deus, a não ceder à opinião dos outros, e se sentir e acreditar que estou certo, hei de me manter firme. Jesus jamais foi afastado do caminho do dever, por mais duro que fosse, pela opinião pública. Por que eu o seria?"
Anthony Comstock nasceu em New Canaan, Connecticut, em 7 de março de 1844. Era um sujeito corpulento e, no decorrer da carreira de censor, utilizou muitas vezes seu tamanho para derrotar fisicamente os oponentes. Um de seus contemporâneos descreveu-o assim: "Com um metro e meio (de sapatos), carrega tão bem seus 95 quilos de músculos e ossos que você diria que não pesa mais de oitenta. Seus ombros de Atlas, de enorme circunferência, encimados por um pescoço de touro, estão de acordo com um bíceps e uma panturrilha de tamanhos excepcionais e solidez de ferro. Suas pernas são curtas e lembram troncos de árvores”.
Comstock tinha vinte e poucos anos quando chegou a Nova York com 3,45 dólares no bolso. Conseguiu emprego como vendedor de tecidos e artigos de armarinho e logo economizou os quinhentos dólares necessários para comprar uma pequena casa no Brooklyn. Poucos anos depois, casou com a filha de um ministro presbiteriano, dez anos mais velha que ele. Em Nova York, Comstock descobriu muita coisa que julgava censurável. Em 1868, depois que um amigo lhe contou como fora "desencaminhado, corrompido e pervertido" por um certo livro (o título dessa poderosa obra não chegou até nós). Comstock comprou um exemplar na loja e depois, acompanhado por um policial, fez prender seu dono e confiscar o estoque. O sucesso desse primeiro ataque foi tal que ele decidiu continuar, provocando periodicamente a prisão de editores e impressores de material excitante.
Com a ajuda de amigos da Associação Cristã de Moços, que lhe forneceram 8500 dólares, Comstock pôde fundar a sociedade pela qual ficou famoso. Dois anos antes de morrer, disse a um entrevistador em Nova York: "Nos 41 anos em que estive aqui, condenei um número suficiente de pessoas para encher um trem de passageiros de 61 vagões, sessenta vagões com sessenta passageiros cada, e o sexagésimo primeiro quase cheio. Destruí 160 toneladas de literatura obscena".
O fervor de Comstock foi também responsável no mínimo por quinze suicídios. Depois que conseguiu mandar o ex-cirurgião irlandês Wil iam Haynes para a prisão, "por publicar 165 tipos diferentes de literatura lasciva", Haynes se matou. Um pouco mais tarde, Comstock estava prestes a tomar a barca para o Brooklyn (relembrou posteriormente) quando "uma Voz" lhe disse que fosse até a casa de Haynes. Lá chegou quando a viúva estava descarregando de uma carroça as chapas de impressão de livros proibidos. Com grande agilidade, Comstock saltou para o assento do condutor e levou a carroça para a ACM, onde as chapas foram destruídas.
Que livros lia Comstock? Ele era um seguidor involuntário do conselho jocoso de Oscar Wilde: "Jamais leio um livro que devo resenhar; ele o torna muito parcial". Às vezes, porém, folheava os livros antes de destruí-los e ficava horrorizado com o que lia. Achava a literatura da França e da Itália "pouco melhor que histórias de bordéis e prostitutas nessas nações lúbricas. Com que freqüência se encontram nessas histórias torpes heroínas adoráveis, excelentes, cultivadas, ricas e encantadoras em todos os aspectos, as quais têm por amantes homens casados; ou, depois do casamento, os amantes cercam a jovem esposa, gozando de privilégios que pertencem somente ao marido!". Até mesmo os clássicos não estavam acima da exprobração. "Tome-se, por exemplo, uma obra bem conhecida de Boccaccio", escreveu em seu Traps for the young [Armadilhas para os jovens]. O livro era tão imundo que Comstock faria qualquer coisa para "evitar que ele, como uma besta selvagem, se soltasse e destruísse a juventude do país". Balzac, Rabelais, Walt Whitman, Bernard Shaw e Tolstoi estavam entre suas vitimas. A leitura cotidiana de Comstock, dizia ele, era a Bíblia.
Os métodos de Comstock eram selvagens, mas superficiais. Faltava-lhe a percepção e a paciência de censores mais sofisticados, que escavam o texto com um torturante cuidado em busca de mensagens enterradas. Em 1981, por exemplo, a junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote do Chile porque o general achava (com bastante razão) que o livro continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade instituída.
A censura de Comstock limitava-se, num ataque de ultraje, a pôr as obras suspeitas em um catálogo dos amaldiçoados. Seu acesso aos livros também era limitado: só podia caçá-los se aparecessem em público, quando muitos já tinham escapado para as mãos de leitores ávidos. A Igreja católica estava muito à frente dele. Em 1559, a Sagrada Congregação da Inquisição Romana publicara o primeiro Índice dos livros proibidos - uma lista de livros que a Igreja considerava perigosos para a fé e a moral dos católicos. O Index, que incluía livros censurados antes da publicação, bem como livros imorais já publicados, jamais pretendeu ser um catálogo completo de todos os livros banidos pela Igreja. Porém, quando foi abandonado, em junho de 1966, continha, entre centenas de obras teológicas, outras tantas obras de autores seculares, de Voltaire e Diderot a Colette e Graham Greene. Comstock certamente acharia essa lista muito útil.
"A arte não está acima da moral. A moral vem primeiro", escreveu Comstock. "A lei vem em seguida, como defensora da moral pública. A arte só entra em conflito com a lei quando sua tendência é obscena, lasciva ou indecente." Isso levou o New York World a perguntar num editorial: "Foi realmente determinado que não há nada de saudável e nem proveitoso na arte a não ser que ela esteja vestida?". A definição de Comstock de arte imoral, como a de todos os censores, foge da dificuldade. Comstock morreu em 1915. Dois anos depois, o ensaísta americano H. L. Mencken definiu a cruzada de Comstock como "o novo puritanismo", "não ascético, mas militante. Seu objetivo não é elevar santos, mas derrubar pecadores".
Comstock estava convencido de que aquilo que chamava de "literatura imoral" pervertia a mente dos jovens, que deveriam se ocupar com temas espirituais mais elevados. Essa preocupação é antiga, e não é exclusiva do Ocidente. Na China do século XV, uma coleção de contos da dinastia Ming conhecida como Histórias velhas e novas teve tanto sucesso que precisou ser incluída no index chinês, para que não distraísse os jovens do estudo de Confúcio. No mundo ocidental, uma forma mais suave dessa obsessão expressou-se como um medo generalizado da ficção - pelo menos até a época de Platão, que baniu os poetas de sua república ideal. A sogra de Madame Bovary argumentou que os romances envenenavam a alma de Emma e convenceu o filho a cancelar a assinatura que Emma mantinha junto a uma biblioteca circulante, mergulhando-a mais ainda no pântano do tédio. A mãe do escritor inglês Edmund Gosse não permitia que entrassem em sua casa romances de qualquer tipo, religiosos ou seculares. Quando era ainda uma menininha bem pequena, no início do século XIX, ela se divertira com os irmãos lendo e inventando histórias, até que sua governanta calvinista descobriu e passou-lhe um sermão, dizendo-lhe que tais prazeres eram depravados. "A partir daquele momento", escreveu a sra. Gosse em seu diário, "considerei que inventar qualquer tipo de história era pecado." Mas "o desejo de inventar histórias cresceu com violência; tudo o que ouvia ou lia tornava-se alimento para meu destempero. A simplicidade da verdade não me bastava: eu precisava enfeitá-la com a imaginação, e a insensatez, a vaidade e a perversidade que desgraçaram meu coração são maiores do que posso expressar. Ainda agora, embora vigilante, fazendo orações e empenhada contra isso, esse é o pecado que mais facilmente me persegue. Ele tem atrapalhado minhas preces e impedido meu progresso e, portanto, tem me humilhado muito. Isso ela escreveu aos 29 anos de idade.
Nessa crença criou o filho. "Nunca, na minha primeira infância, alguém se dirigiu a mim com o tocante preâmbulo ‘era uma vez ...’ Contaram-me sobre missionários, mas nunca sobre piratas. Estava familiarizado com beija-flores, mas jamais ouvira falar de fadas", relembrou Gosse. "Eles queriam que eu fosse fiel à realidade; a tendência foi tornar-me positivo e cético. Se tivessem me envolvido nas dobras suaves da fantasia sobrenatural, minha mente poderia ter ficado mais tempo satisfeita em seguir suas tradições sem questioná-las”. Os pais que levaram aos tribunais a escola pública do condado de Hawkins, no Tennessee, em 1980, não tinham obviamente lido Gosse. Eles argumentavam que toda uma série de livros da escola elementar, que incluía Cinderela, Cachinhos de ouro e O mágico de Oz, violava suas crenças religiosas fundamentalistas.
Leitores autoritários que impedem outros de aprender a ler, leitores fanáticos que decidem o que pode e o que não pode ser lido, leitores estoicos que se recusam a ler por prazer e exigem somente que se recontem fatos que julgam ser verdadeiros: todos eles tentam limitar os vastos e diversificados poderes do leitor. Mas os censores também podem adotar formas diferentes em seu trabalho, sem necessidade de fogueiras ou tribunais.
Podem reinterpretar livros para torná-los úteis apenas a eles mesmos, para justificar seus direitos autocráticos.
Em 1976 houve um golpe militar na Argentina, liderado pelo general Jorge Rafael Videla.
O que se seguiu foi uma onda de violações dos direitos humanos como o país jamais vira. A desculpa do Exército era de que estava travando uma guerra contra terroristas. Como definiu o general Videla, "um terrorista é não apenas alguém com uma arma ou uma bomba, mas também alguém que difunde idéias contrárias à civilização ocidental e cristã".
Entre os milhares que foram sequestrados e torturados estava o padre Orlando Virgílio Yorio. Um dia, o interrogador do padre Yorio disselhe que sua leitura dos Evangelhos era falsa. "Você interpreta a doutrina de Cristo de uma forma literal demais", disse o homem.
"Cristo falou dos pobres, mas quando falou dos pobres, referia-se aos pobres de espírito, e você interpretou no sentido literal e foi viver literalmente com gente pobre. Na Argentina, os pobres de espírito são os ricos, e, no futuro, você deve passar mais tempo ajudando os ricos, que são aqueles que precisam realmente de ajuda espiritual."
Assim, nem todos os poderes do leitor são iluminadores. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem particular, aos direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura