Carta a Paul Verlaine
Paciente como um alquimista, sempre
imaginei e tentei algo diferente, e estaria disposto a sacrificar
toda satisfação e vaidade por isso, da mesma forma como antigamente
eles costumavam queimar os móveis e as vigas do teto para alimentar
suas fornalhas em busca do magnum opus. O que é isso? Difícil
dizer: apenas um livro em vários volumes, um livro que é
verdadeiramente um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e
não uma coleção de inspirações casuais, por mais maravilhosas
que possam ser. [...]
Eis aqui, meu amigo, a confissão
pura desse vício que tenho rejeitado mil vezes [...] Mas ele me
domina, e eu talvez ainda tenha êxito, não na conclusão dessa obra
como um todo (seria preciso ser Deus sabe quem para tanto!), mas na
apresentação de um fragmento bem-sucedido [...] provando através
de porções terminadas que esse livro realmente existe e que eu
tinha consciência do que não era capaz de realizar.
16 de novembro de 1869
Stéphane Mallarmé, em Uma História da Leitura, de Alberto Manguel
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