sábado, 2 de maio de 2026

Páginas de guarda

Carta a Paul Verlaine

Paciente como um alquimista, sempre imaginei e tentei algo diferente, e estaria disposto a sacrificar toda satisfação e vaidade por isso, da mesma forma como antigamente eles costumavam queimar os móveis e as vigas do teto para alimentar suas fornalhas em busca do magnum opus. O que é isso? Difícil dizer: apenas um livro em vários volumes, um livro que é verdadeiramente um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e não uma coleção de inspirações casuais, por mais maravilhosas que possam ser. [...]
Eis aqui, meu amigo, a confissão pura desse vício que tenho rejeitado mil vezes [...] Mas ele me domina, e eu talvez ainda tenha êxito, não na conclusão dessa obra como um todo (seria preciso ser Deus sabe quem para tanto!), mas na apresentação de um fragmento bem-sucedido [...] provando através de porções terminadas que esse livro realmente existe e que eu tinha consciência do que não era capaz de realizar.
16 de novembro de 1869

Stéphane Mallarmé, em Uma História da Leitura, de Alberto Manguel

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