sábado, 2 de maio de 2026

1620 – Madrid





As danças do Diabo vêm da América

Graças ao cadáver de São Isidro, que nas últimas noites dormiu ao seu lado, o rei Felipe III sente-se melhor. Este meio-dia comeu e bebeu sem se sufocar. Seus pratos favoritos acenderam seus olhos e esvaziou de um gole o copo de vinho.
Molha agora seus dedos na bacia de água que um pajem, ajoelhado, lhe oferece. O panetier estende o guardanapo ao mordomo de turno, o mordomo de turno passa o guardanapo ao mordomo principal. O mordomo principal se inclina frente ao duque de Uceda. O duque apanha o guardanapo. Inclinando a testa, o estende ao rei. Enquanto o rei seca as mãos, o trinchante sacode as migalhinhas de sua roupa e o sacerdote eleva uma oração de graças a Deus.
Felipe boceja, desabotoa o colarinho de rendas, pergunta o que há de novo.
O duque conta que vieram ao palácio os da Junta de Hospitais. Se queixam de que o público se nega a ir ao teatro desde que o rei proibiu os bailes; e os hospitais vivem dos teatros de comédias. “Senhor”, disseram os da Junta ao duque, “desde que não há bailes não há ingressos. Os doentes morrem. Não temos com que pagar as vendas ou os médicos”. Os atores recitam versos de Lope de Vega que elogiam o índio americano:

Taquitán mitanacuní,
espanhol daqui para lá...
Na Espanha não há amor,
creio-o assim:
lá reina o interesse,
e o amor reina aqui.

Mas da América o público exige cantorias salgadas e danças que põem fogo nos mais honestos. De nada vale que os atores façam as pedras chorar e os mortos rirem, nem que as artes de tramoia arranquem relâmpagos às nuvens de papelão. “Se os teatros continuam vazios”, gemem os da Junta, “os hospitais terão de fechar”.
Respondi-lhes – diz o duque – que Sua Alteza decidiria.
Felipe coça o queixo, investiga as próprias unhas.
Se Sua Majestade não mudou de parecer... O proibido, proibido está, e bem proibido.
A sarabanda e a chacona fazem brilhar os sexos na escuridão. O padre Mariana tinha denunciado estas danças, inventos de negros e de selvagens americanos, infernais nas palavras e nos gestos. Até nas procissões se escutam suas rimas de elogio ao pecado; e quando brotam seus sons lascivos dos pandeiros e castanholas, já não são donas de suas pernas as monjas dos conventos e a cócega do Diabo dispara suas cadeiras e ventres.
O olhar do rei persegue os andares de uma mosca gorda, folgazã, entre os restos do banquete.
E tu, o que opinas? – pergunta o rei à mosca.
O duque se dá por mencionado:
Estes bailes de impostores são música de festa de bruxas, como bem o disse Sua Majestade, e o lugar das bruxas está nas fogueiras da Praça Maior.
Os manjares desapareceram da mesa, mas persiste o aroma pegajoso no ar.
Balbuciante, ordena o rei à mosca:
Decida tu.
Nem o pior inimigo poderia acusar Sua Alteza de intolerância – insiste o duque. – Indulgente foi Sua Majestade. Nos tempos do rei seu pai, que o tenha Deus em sua glória...
Não és tu quem manda? – murmura Felipe.
...outros prêmios recebia quem ousasse bailar a sarabanda! Duzentos açoites e, depois, remar galeras!
Tu, digo – sussurra o rei, e fecha os olhos.
Tu – e uma bolotinha espumosa, saliva que sempre lhe sobra na boca, aparece entre seus lábios.
O duque insinua um protesto e em seguida se cala e retrocede nas pontas dos pés.
Felipe vai-se afundando em torpor, pesadas as pestanas, e sonha com uma mulher gorda e nua que devora baralhos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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