As danças do Diabo vêm da América
Graças ao cadáver de São Isidro,
que nas últimas noites dormiu ao seu lado, o rei Felipe III sente-se
melhor. Este meio-dia comeu e bebeu sem se sufocar. Seus pratos
favoritos acenderam seus olhos e esvaziou de um gole o copo de vinho.
Molha agora seus dedos na bacia de
água que um pajem, ajoelhado, lhe oferece. O panetier estende o
guardanapo ao mordomo de turno, o mordomo de turno passa o guardanapo
ao mordomo principal. O mordomo principal se inclina frente ao duque
de Uceda. O duque apanha o guardanapo. Inclinando a testa, o estende
ao rei. Enquanto o rei seca as mãos, o trinchante sacode as
migalhinhas de sua roupa e o sacerdote eleva uma oração de graças
a Deus.
Felipe boceja, desabotoa o colarinho
de rendas, pergunta o que há de novo.
O duque conta que vieram ao palácio
os da Junta de Hospitais. Se queixam de que o público se nega a ir
ao teatro desde que o rei proibiu os bailes; e os hospitais vivem dos
teatros de comédias. “Senhor”, disseram os da Junta ao duque,
“desde que não há bailes não há ingressos. Os doentes morrem.
Não temos com que pagar as vendas ou os médicos”. Os atores
recitam versos de Lope de Vega que elogiam o índio americano:
Taquitán mitanacuní,
espanhol daqui para lá...
Na Espanha não há amor,
creio-o assim:
lá reina o interesse,
e o amor reina aqui.
Mas da América o público exige
cantorias salgadas e danças que põem fogo nos mais honestos. De
nada vale que os atores façam as pedras chorar e os mortos rirem,
nem que as artes de tramoia arranquem relâmpagos às nuvens de
papelão. “Se os teatros continuam vazios”, gemem os da Junta,
“os hospitais terão de fechar”.
– Respondi-lhes – diz o duque –
que Sua Alteza decidiria.
Felipe coça o queixo, investiga as
próprias unhas.
– Se Sua Majestade não mudou de
parecer... O proibido, proibido está, e bem proibido.
A sarabanda e a chacona fazem brilhar
os sexos na escuridão. O padre Mariana tinha denunciado estas
danças, inventos de negros e de selvagens americanos, infernais nas
palavras e nos gestos. Até nas procissões se escutam suas rimas de
elogio ao pecado; e quando brotam seus sons lascivos dos pandeiros e
castanholas, já não são donas de suas pernas as monjas dos
conventos e a cócega do Diabo dispara suas cadeiras e ventres.
O olhar do rei persegue os andares de
uma mosca gorda, folgazã, entre os restos do banquete.
– E tu, o que opinas? – pergunta o
rei à mosca.
O duque se dá por mencionado:
– Estes bailes de impostores são
música de festa de bruxas, como bem o disse Sua Majestade, e o lugar
das bruxas está nas fogueiras da Praça Maior.
Os manjares desapareceram da mesa, mas
persiste o aroma pegajoso no ar.
Balbuciante, ordena o rei à mosca:
– Decida tu.
– Nem o pior inimigo poderia acusar
Sua Alteza de intolerância – insiste o duque. – Indulgente foi
Sua Majestade. Nos tempos do rei seu pai, que o tenha Deus em sua
glória...
– Não és tu quem manda? –
murmura Felipe.
– ...outros prêmios recebia quem
ousasse bailar a sarabanda! Duzentos açoites e, depois, remar
galeras!
– Tu, digo – sussurra o rei, e
fecha os olhos.
– Tu – e uma bolotinha espumosa,
saliva que sempre lhe sobra na boca, aparece entre seus lábios.
O duque insinua um protesto e em
seguida se cala e retrocede nas pontas dos pés.
Felipe vai-se afundando em torpor,
pesadas as pestanas, e sonha com uma mulher gorda e nua que devora
baralhos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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