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28/07/2025

O expresso das cinco horas


4

No verão de 1903, Iúri viajava pelos campos, com o tio, em uma carroça. Iam para Duplianka, propriedade do fabricante de tecidos de seda e grande patrono das artes, Kologrivov. O objetivo da viagem era encontrar-se com o pedagogo e divulgador de conhecimentos úteis Ivan Ivanovitch Voskoboinikov.
Era época da Kazanskaia e a colheita estava no auge. Em razão da hora do almoço ou da festa nos campos não se encontrava vivalma. O sol queimava faixas de terra não ceifadas, que pareciam nucas raspadas de presos. Sobre os campos os pássaros voavam em círculo. Com as espigas inclinadas, o trigo esticava-se como uma corda pela total ausência de vento ou erguia-se em cruzetas longe da estrada, de onde, ante o olhar atento, assumia uma aparência de figuras móveis, como se fossem agrimensores que andavam ao longo do horizonte anotando algo.
E esses? — perguntava Nikolai Nikolaievitch a Pavel, um trabalhador braçal e vigia da editora de livros, que estava sentado de lado no banco, encurvado e com as pernas cruzadas, atitude que demonstrava bem que não era um cocheiro autêntico e que estava guiando apenas para fazer um favor. — Esses são do dono ou dos camponeses?
Esses são do dono — respondia Pavel, tentando acender um cigarro —, agora aqueles — conseguindo se livrar do fogo e dar uma tragada, apontava ele, após uma longa pausa, com a ponta do chicote virada para o outro lado —, aqueles são nossos. Ah, dormiram? — gritava ele vez por outra para os cavalos, olhando a toda hora para os rabos e ancas dos bichos, feito um maquinista para o manômetro.
Porém os cavalos andavam como qualquer cavalo do mundo, ou seja, o do meio corria sempre em linha reta como é característico de sua natureza simples; o cavalo do lado se parecia, para um ignorante, a um vagabundo rematado que só sabia dançar prisiadka, curvando-se feito um cisne, ao som dos guizos que ele mesmo tocava com seus saltos.
Nikolai Nikolaievitch levava para Voskoboinikov a tarefa de corrigir seu livro sobre a questão agrária. Pois, devido à crescente pressão da censura, a editora pedira uma revisão.
O povo anda fazendo confusão na província — dizia Nikolai Nikolaievitch. — Na região Pankovskaia mataram um comerciante, puseram fogo no haras do administrador do conselho. O que você acha disso? O que comentam na aldeia?
Mas Pavel olhava para estas coisas de maneira mais sombria do que o censor que queria conter as paixões agrárias de Voskoboinikov.
O que comentam? O povo está muito solto. Brincadeira, dizem. Nossa gente não pode ser tratada assim. Dê liberdade ao mujique, e um esmaga o outro, meu Deus do céu! Ah, dormiu?
Esta era a segunda viagem do tio e do sobrinho a Duplianka. Iúri achava que lembrava do caminho. Toda vez que os campos se ampliavam e eram abarcados por uma barra fininha de florestas, pela frente e por trás, lhe parecia que ele estava reconhecendo aquele lugar onde a estrada fazia uma curva para a direita. Depois da curva deveria surgir, e em um minuto sumir, o panorama da aldeia Kologrivovskaia, localizada a dez verstas, com o rio brilhando ao longe e a estrada de ferro do outro lado do rio. Mas, a toda hora, ele se enganava. Outros campos sucediam os campos. Eram novamente abarcados por florestas. Esta sucessão de vastidões dava boa disposição. Dava vontade de sonhar e pensar no futuro.
Nenhum dos livros de Nikolai Nikolaievitch que ficariam famosos no futuro ainda fora escrito. Mas suas ideias já estavam definidas. Ele só não sabia que já estava perto a sua hora.
Em breve, entre os representantes da literatura daquela época, entre os professores da universidade e os filósofos da revolução, deveria surgir essa pessoa que pensava em todos os temas deles, mas que, além da terminologia, não possuía nada em comum com eles. Todos eles defendiam certos dogmas e se satisfaziam com palavras e aparências. Porém, Nikolai era padre, passou pelo tolstovstvo e a revolução e ia cada vez mais longe. Ele ansiava por uma ideia, inspirada e concreta, que rabiscasse sem hipocrisia os diferentes caminhos em seu movimento, que mudasse o mundo para melhor e que fosse perceptível, como o brilho do relâmpago ou o rastro do trovão passageiro, até mesmo para a criança ou o ignorante. Ele ansiava pelo novo.
Iúri sentia-se bem com o tio. Este parecia-se com sua mãe. Como ela, ele era um homem livre, livre de preconceitos para com qualquer coisa que fosse insólita. Como ela, ele possuía o sentimento nobre de igualdade para com todos os seres. Ele, como ela, entendia tudo apenas ao primeiro olhar e sabia expressar imediatamente as ideias da maneira como estas lhe vinham à cabeça, enquanto ainda estivessem vivas e não tivessem perdido o sentido.
Iúri estava feliz por ter viajado com o tio para Duplianka. Lá era muito bonito e o local pitoresco lembrava sua mãe, que amava a natureza e frequentemente levava Iúri em seus passeios. Além do mais, pensava com satisfação, encontraria Nika Dudorov, um ginasiano que morava com Voskoboinikov, que provavelmente o odiava porque era dois anos mais velho que ele e, que ao cumprimentá-lo, puxava com força a mão para baixo e inclinava tanto a cabeça que os cabelos lhe caíam na testa, cobrindo o rosto pela metade.

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

24/07/2025

O expresso das cinco horas


8

Novamente este óleo de lamparina!”, pensou Nika com raiva, andando de um lado para outro, no quarto. As vozes das visitas se aproximavam. A fuga foi descartada. No quarto havia duas camas, a de Voskoboinikov e a dele, de Nika. Pensando rápido, Nika se enfiou debaixo da segunda.
Ouvia como procuravam e chamavam por ele em outros quartos, admirando-se com o seu sumiço. Depois foram até o quarto dele.
O que fazer? — disse Vedeniapin. — Vá passear um pouco, Iúri, pode ser que depois encontremos o seu amigo, e então poderão brincar. — Durante algum tempo eles conversaram sobre as agitações universitárias em Petersburgo e Moscou, detendo Nika durante vinte minutos na emboscada humilhante e tola. Finalmente foram para o terraço. Nika abriu a janela devagarinho, pulou por ela e foi embora para o parque.
Hoje, ele se sentia estranho, e na noite anterior perdera o sono. Estava com treze anos e cansado de ser pequeno. Como não dormiu a noite inteira, ao amanhecer saiu de casa. O sol nascia e a terra do parque estava coberta pelas sombras compridas, molhadas de sereno e nodosas das árvores. A sombra não era preta, mas cinza-escuro, como feltro úmido. O perfume embriagador da manhã parecia exalar exatamente desta sombra umedecida na terra, com faixas de luz parecidas com dedos de menina.
De repente, uma corrente prateada de mercúrio, igual às gotas de sereno no capim, correu a alguns passos dele. Acorrente fluía, fluía, e a terra não a absorvia. Com um movimento brusco, a corrente saltou para o lado e sumiu. Era uma cobra-de-vidro. Nika estremeceu.
Ele era um menino estranho. Quando estava exaltado, conversava consigo mesmo em voz alta. Ele puxou à mãe na inclinação para os assuntos superiores e paradoxais.
Como é bom estar no mundo!”, pensava ele. “Mas por que sempre dói tanto? Deus, é claro, existe. Mas, se ele existe, então ele sou eu. Por exemplo, vou ordenar-lhe”, pensou, olhando para o álamo que tremulava todo, de baixo a cima (suas folhas molhadas e rutilantes pareciam coitadas de lata), “vou ordenar-lhe” — e superando insensatamente as suas forças ele murmurou, mas com toda a sua alma e com todo seu corpo e sangue desejou e pensou: “Pare!” e a árvore no mesmo instante tornou-se imóvel, obedientemente. Nika soltou uma gargalhada de alegria e correu a tomar banho de rio.
Seu pai, o terrorista Dementi Dudorov, cumpria pena de trabalhos forçados que substituíram, por indulto imperial, o enforcamento ao qual fora condenado. Sua mãe, uma princesa georgiana da família dos Eristov, era uma moça estabanada, ainda jovem e bonita, sempre entusiasmada com revoltas, rebeldes, teorias extremistas, artistas famosos e pobres coitados.
Ela adorava Nika e de seu nome, Innokenti, criava um monte de apelidos carinhosos inconcebíveis e bobos, como Inotchek ou Notchenka, e levou-o até Tiflis para mostrá-lo a seus parentes. Lá, o que mais o impressionou foi a árvore com patas, no pátio da casa onde ficaram hospedados. Era um gigante tropical desajeitado. Com suas folhas parecidas com orelhas de elefante, ela protegia o pátio do céu tórrido do sul. Nika não conseguia aceitar a idéia de que esta árvore era uma planta, e não um animal.
Era perigoso para o menino usar o terrível nome do pai. Ivan Ivanovitch, com a permissão de Nina Galaktionovna, queria solicitar à Sua Alteza Imperial atribuir a Nika o sobrenome da mãe.
Quando ele estava deitado embaixo da cama, reclamando da vida, entre outras coisas, pensava sobre isso. Quem é Voskoboinikov para se intrometer tanto? Eles vão ver só!
E esta Nádia! Se ela tem quinze anos, isso quer dizer que tem direito de arrebitar o nariz e conversar com ele como com um menininho? “Eu a odeio”, disse ele várias vezes em voz baixa. “Eu a matarei! Vou convidá-la para passear de barco e a afogarei.”
E mamãe, também... Enganou, é claro, a ele e Voskoboinikov quando partiu. Não está no Cáucaso, nada, mas pura e simplesmente desviou no primeiro entroncamento ferroviário para o norte e está calmamente em Petersburgo, junto com os estudantes, atirando na polícia. E ele tem que apodrecer vivo neste buraco estúpido? Ele vai enganar a todos. Afogará Nádia, deixará o ginásio e fugirá para a Sibéria para junto do pai, a fim de organizar o levante.
A margem do lago estava coberta de lírios-d'água. O barco cortou esta densidade, com um barulho seco. A água do lago surgia no meio do mato como o suco aparece no triângulo talhado na melancia.
O menino e a menina começaram a arrancar flores. Os dois agarraram o mesmo caule, que não quebrava e parecia uma borracha. O caule puxou os dois. Suas cabeças chocaram-se. O barco foi puxado para a margem com uma vara. Os caules se enroscavam e encurtavam, as flores brancas com o miolo claro, como gema com sangue, afundavam na água e emergiam com a água escorrendo delas.
Nadia e Nika continuavam a arrancar as flores, inclinando ainda mais o barco e quase deitados um ao lado do outro, na borda vazia.
Cansei de estudar — disse Nika. — Está na hora de começar a vida, receber salário, virar gente.
Eu queria tanto lhe pedir para me ensinar as equações de segundo grau. Sou tão fraca em álgebra que quase fiquei em segunda época.
Nika percebeu nestas palavras algumas alfinetadas. Certamente ela está colocando-o em seu devido lugar, lembrando que ele ainda é pequeno. Equações de segundo grau! E ele ainda nem cheirara a álgebra.
Sem deixar transparecer sua irritação, ele perguntou com indiferença fingida e no mesmo instante entendeu como era tolo:
Quando você crescer, vai casar com quem?
Oh, isso ainda está tão longe. Provavelmente com ninguém. Não pensei nisso ainda.
Não pense que isso me interessa tanto.
Então, por que está perguntando?
Você é boba.
Começaram a discutir. Nika se lembrou de sua misoginia matinal. Ele ameaçou Nádia de que se não parasse de dizer insolências, ele a afogaria.
Tente — disse Nádia. Ele agarrou-a pela cintura. Começaram a lutar. Perderam o equilíbrio e caíram na água.
Os dois sabiam nadar, mas os lírios os prendiam pelas mãos e pés e eles ainda não tinham conseguido tocar o fundo. Finalmente, atolando no limo, eles chegaram à margem. A água escorria como córregos dos seus sapatos e bolsos. Nika era o mais cansado.
Caso isso tivesse acontecido há pouco tempo, não antes da primavera deste ano, os dois, sentados ali molhados e encharcados, depois de uma travessia destas, estariam com certeza fazendo algazarra, discutindo ou então dando gargalhadas.
Mas agora estavam calados e mal respiravam, sufocados pelo absurdo do ocorrido. Nádia reclamava e se indignava calada. Nika estava com o corpo todo dolorido, parecia ter apanhado com um pedaço de pau nas pernas e nas mãos e quebrado as costelas.
Finalmente, como adulta e baixinho, Nádia proferiu: “Maluco!” e ele, da mesma forma adulta, disse: “Desculpe-me.”
Começaram a subir para casa, deixando um rastro molhado como dois barris de água. O caminho subia por uma trilha poeirenta, que fervilhava de cobras, perto do local onde Nika de manhã encontrara uma cobra-de-vidro.
Nika se lembrou da exaltação mágica da noite, do amanhecer e dos seus poderes matinais, quando ele, ao seu bel-prazer, mandava na natureza. O que ordenar-lhe agora?, pensou. O que ele mais desejava? Imaginou que o que ele mais gostaria que acontecesse novamente era cair no lago com Nádia. Pagaria caro agora, só para saber se isso iria ou não acontecer algum dia.

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

18/07/2025

Doutor Jivago — 7


7

Na cabine da segunda classe do trem, junto com seu pai, o advogado Gordon de Orenburgo, viajava o ginasiano da segunda série Micha Gordon — um menino de onze anos com um rosto pensativo e grandes olhos negros. O pai estava se transferindo a serviço para Moscou, e o menino para o ginásio moscovita. A mãe e as irmãs já estavam há algum tempo em Moscou, ocupadas com a arrumação do apartamento.
O menino e o pai viajavam no trem há três dias.
Diante deles, em nuvens de poeira quente, branqueada pelo sol, como cal, passava voando a Rússia, os campos e estepes, as cidades e aldeias. Pelas estradas arrastavam-se carroças, que se desviavam do caminho pesadamente nas passagens de nível. Do trem, que corria loucamente, parecia que as carroças estavam sem se mover e que os cavalos suspendiam e abaixavam os pés sem sair do lugar.
Nas grandes estações, os passageiros, como desvairados, corriam até o café. O sol poente por trás das árvores do jardim da estação clareava seus pés e brilhava por baixo das rodas dos vagões.
Todos os movimentos no mundo estavam, um a um, calculadamente sóbrios, e no fim das contas, inconscientemente bêbados pelo fluxo comum da vida que os unia. As pessoas trabalhavam e cuidavam de seus interesses, movidas pelo mecanismo das próprias preocupações. Porém, os mecanismos não funcionariam caso o seu regulador principal não fosse o sentimento de despreocupação, enorme e fundamental. Esta despreocupação dava uma sensação de união das existências humanas, uma certeza da relação entre elas, um sentimento de felicidade por tudo que estava acontecendo, não somente na terra, onde enterram os mortos, mas em outro lugar qualquer, no lugar que alguns denominam de Reino de Deus e outros de história e terceiros, de alguma outra forma.
Dessa regra geral, o menino era uma exceção amarga e pesada. Como seu móvel final permaneceu o sentimento de preocupação, o sentimento de despreocupação não o aliviava nem o enobrecia. Ele conhecia essa sua característica hereditária e com cuidado e desconfiança captava em si seus indícios. Ela o aborrecia. Sua presença o humilhava.
Desde que se entendia por gente, ele não parava de se espantar com o fato de ser possível, tendo as mãos e os pés iguais, falando a mesma língua e possuindo os mesmos costumes, ser alguém diferente — e tão diferente que agradava a poucos e de quem muitos não gostavam? Ele não conseguia entender a teoria, pela qual, se você é pior do que os outros, não podia se esforçar para se corrigir e melhorar. O que significava ser judeu? Por que isso existia? Com que é recompensado ou justificado este desafio desarmado que não traz nada além de desgraça?
Quando ele pedia respostas ao pai, este dizia que suas premissas eram absurdas e que não se podia raciocinar desta maneira, mas não oferecia em troca nada que atraísse Micha com profundeza de sentido e o obrigasse a se curvar, calado, diante do irrevogável.
E fazendo uma exceção para o pai e a mãe, Micha aos poucos se encheu de ódio pelos adultos, que não conseguiam resolver o problema que criaram. Ele tinha certeza de que, quando crescesse, resolveria tudo por conta própria.
E agora, também, ninguém teria coragem de dizer que seu pai se comportara de maneira desastrosa quando correu atrás daquele demente quando este apareceu na plataforma; e que ele não precisava parar o trem quando, empurrando com força Grigori Osipovitch e escancarando a porta do vagão, o homem se jogou do expresso em alta velocidade, de cabeça para baixo, no aterro, da mesma forma como se jogam da ponte para debaixo d'água, quando se atiram dela.
Mas como a manivela do freio foi puxada por ninguém mais que Grigori Osipovitch, para todos ficara evidente que o trem continuava parado longa e inexplicavelmente por causa dele.
Ninguém sabia ao certo o motivo da demora. Uns diziam que, por causa da parada repentina, os freios a ar haviam sido danificados; outros diziam que o trem estava parado em uma subida íngreme e que sem pegar impulso não conseguia ir adiante. Uma terceira opinião era difundida — a de que a pessoa que se matou era uma personalidade importante e por isso seu advogado, que viajava com ele no trem, exigiu que da estação mais próxima, Kologrivovka, fossem chamadas pessoas capacitadas para fazer o protocolo de ocorrência. Para observar melhor, o auxiliar do maquinista subiu no poste de telefone. O trole já devia estar a caminho.
O mau cheiro dos banheiros, que exalava pelo vagão, começou a ser combatido com água-de-colônia; sentia-se ainda cheiro de galinha frita já levemente apodrecida, embrulhada em papel engordurado. No vagão, as damas de Petersburgo continuavam a passar pó-de-arroz, limpar as palmas das mãos com lenço e conversar com vozes guturais e rangentes, todas transformadas em ciganas ardentes com a mistura do pó de carvão do trem e a cosmética gordurosa. Quando elas passavam diante da cabine dos Gordon, escondendo os ângulos dos ombros em capas e transformando o corredor apertado em novo local de exibição, a Micha parecia que elas murmuravam, ou a julgar por seus lábios cerrados, deviam murmurar: “Ah, vejam só que sensibilidade! Nós somos especiais! Nós somos intelectuais! Nós somos poderosos!”
O corpo do suicida estava estirado na grama ao lado do aterro. Um filete de sangue coagulado, como um sinal repentino, escureceu ao longo da testa e dos olhos do morto, riscando este rosto como se fosse uma cruz de sujeira. O sangue parecia não ser dele, parecia não ter escorrido dele, mas sim um apêndice estranho grudado, um esparadrapo ou um respingo de sujeira seca ou uma folha de bétula molhada.
O grupo de curiosos que se lamentava em torno do corpo mudava a toda hora. Sobre ele, sombrio e sem expressão, estava seu vizinho de cabine, um advogado robusto e arrogante, um animal com pedigree numa camisa encharcada de suor. Ele estava morrendo de calor e se abanava com um chapéu leve. Ao responder às perguntas, ele resmungava antipaticamente, encolhia os ombros e nem se virava para o interlocutor: “Era alcoólatra. Será que não entendem? A mais típica consequência do delirium tremens.”
Uma mulher magra num vestido de lã e lenço de renda se aproximou duas ou três vezes do corpo. Era a velha Tiverzina, viúva e mãe de dois maquinistas, que viajava de graça com duas noras na terceira classe, com passagens de serviço. As mulheres seguiam-na quietas, com os lenços quase cobrindo o rosto, caladas como duas freiras atrás da madre superiora. Este grupo impunha respeito. Diante delas, as pessoas abriam caminho.
O marido de Tiverzina morreu queimado, em um acidente na estrada de ferro. Ela parou a alguns passos do cadáver, para que pudesse ver através da multidão e, suspirando, parecia fazer uma comparação: “Para cada um está escrito”, parecia dizer, “uns pela decisão de Deus, e nesse caso, vejam só o que deu-lhe na telha — por causa da vida rica e da perda do juízo.”
Todos os passageiros do trem iam ver o corpo de perto, mas retornavam logo para o vagão por temor de ser roubados.
Quando saltavam do trem, se esticavam, arrancavam flores e davam uma corridinha, todos tinham a sensação de que a localidade surgiu somente graças à parada, e a várzea pantanosa com montículos, o rio largo e a bonita casa, com a igreja na outra margem alta, não existiriam no mundo, não fosse o acidente.
Até mesmo o sol, que também parecia um objeto local, iluminava tímido e vespertino a cena ao lado dos trilhos, aproximando-se medrosamente dela como faria, ao aproximar-se da estrada para ver as pessoas, uma vaca do rebanho que pastava ali ao lado.
Micha estava abalado com o acontecido e nos primeiros minutos chorou de pena e susto. Durante o longo caminho, o suicida veio várias vezes até a cabine deles e por horas conversou com o pai de Micha. Ele dizia que estava morrendo espiritualmente no silêncio limpo e moral e não compreendia o mundo deles; perguntava a Grigori Osipovitch sobre diferentes detalhes e cláusulas jurídicas em questões ligadas a letras de câmbio, doações, bancarrotas e fraudes.
Ah, é assim? — admirava-se ele com os esclarecimentos de Gordon. — O Senhor possui leis mais gentis. Meu advogado tem outras informações. Ele olha para estas coisas de maneira mais sombria.
A cada vez que este homem nervoso se acalmava, da primeira classe vinha atrás dele seu advogado e vizinho de cabine, que o arrastava até o vagão-restaurante para beber champanhe. Era o mesmo advogado robusto, arrogante, bem-barbeado e faceiro que estava parado ao lado do corpo, sem se impressionar com nada no mundo. Não dava para se livrar da sensação de que a constante inquietação de seu cliente de alguma maneira o favorecia
O pai dizia que o falecido era um conhecido ricaço, bondoso e baderneiro, meio irresponsável. Sem se intimidar com a presença de Micha, ele contava sobre seu filho, coetâneo de Micha, e sobre a falecida mulher; depois passava a falar de sua segunda família, também abandonada. Aí, ele se lembrava de algo recente, empalidecia de pavor, não dizia coisa com coisa e começava a ficar confuso.
Ele demonstrava para com Micha um carinho inexplicável, provavelmente refletido e não destinado a ele. Em cada parada do trem, ele o presenteava com alguma coisa e para isso saía, nas maiores estações, para as salas de primeira classe, onde ficavam estantes de livros e vendiam jogos e curiosidades da região.
Ele bebia sem parar e reclamava que era o seu terceiro mês sem dormir, às vezes ficava lúcido, pelo menos durante algum tempo e sofria tormentos que uma pessoa normal não poderia imaginar.
Um minuto antes do fim, ele entrou correndo na cabine deles, agarrou Grigori Osipovitch pela mão, queria dizer algo mas não conseguiu, e saindo na plataforma, se jogou do trem.
Micha observava uma pequena coleção de minerais dos Urais numa caixinha de madeira — o último presente do falecido. De repente, tudo ao seu redor começou a se mover. Pelo outro trilho, o trole se aproximou do trem. Dele desceram o delegado de boné, o médico e dois guardas. Ouviam-se as frias vozes burocráticas. Faziam perguntas, anotavam algumas coisas. Subindo o aterro, tropeçando e escorregando na areia, os condutores e os guardas arrastavam desajeitadamente o corpo. Uma mulher começou a urrar. Os passageiros foram convidados a voltar para os vagões e ouviram-se apitos. O trem pôs-se em movimento.

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

13/05/2023

O expresso das cinco horas

1

Caminhavam, caminhavam e cantavam “Lembrança eterna”, mas quando paravam, parecia que, de tanto ser cantada, a música continuava a ser entoada pelos pés das pessoas, pela marcha dos cavalos e pelo sopro do vento.
Transeuntes abriam caminho para o cortejo, contavam as coroas de flores, faziam o sinal-da-cruz. Curiosos se aproximavam da procissão e perguntavam: “Quem morreu?” Respondiam: “Jivago.” “É isso. Então está explicado.” “Não é ele. É ela.” “Não faz diferença. Que Deus a tenha. É enterro de rico.”
Os últimos minutos, contados e irreversíveis, passavam rapidamente. “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam.” O padre jogou um punhado de terra, fazendo o sinal-da-cruz sobre Maria Nikolaievna. Cantaram “Das almas justas”. Começou um terrível corre-corre. Fecharam o caixão, martelaram pregos na tampa e o baixaram. A chuva de torrões de terra tamborilou sobre ele e, rapidamente, fecharam a cova com quatro pás. Sobre ela, formou-se um pequeno montículo. Um menino de dez anos subiu nele.
Somente alguém, em estado de embrutecimento e insensibilidade, comum no final de grandes enterros, poderia imaginar que o menino quisesse dizer algumas palavras diante do túmulo materno.
Ele levantou a cabeça e observou, do alto, com um olhar ausente, os terrenos baldios outonais e as cúpulas do convento. Seu rosto arrebitado desfigurou-se. Seu pescoço se esticou. Se um lobinho levantasse a cabeça, com um movimento semelhante, ficaria claro que naquele momento ele começaria a uivar. E cobrindo o rosto com as mãos, o menino começou a chorar. A nuvem, que vinha ao seu encontro, começou a chicotear suas mãos e seu rosto com açoites de chuva fria. Um homem de preto, com um franzido nas mangas estreitas e justas, aproximou-se do túmulo. Era irmão da falecida e tio do menino que chorava, o ex-padre Nikolai Nikolaievitch Vedeniapin, que largou a batina por vontade própria. Ele se aproximou do menino e levou-o embora do cemitério.

2

Pernoitaram em um dos cômodos do convento, cedido para o tio, um velho conhecido. Era véspera da Festa do Manto da Virgem. No dia seguinte ele e o tio teriam que viajar para bem longe, para o sul, para uma das cidades da região Povolzhie, onde o padre Nikolai trabalhava em uma editora que publicava um jornal progressista da região. As passagens de trem foram compradas e a bagagem, arrumada, estava no quarto do convento. Da estação, que era próxima, o vento trazia os apitos chorosos dos trens que manobravam ao longe.
À tarde, esfriou muito. Duas janelas, ao nível do chão, davam para o cantinho de uma horta sem graça, cercada por arbustos de acácia amarela, para as poças congeladas da estrada e para a parte do cemitério, onde, de dia, enterraram Maria Nikolaievna. A horta estava vazia, salvo por alguns canteiros com repolhos azulados pelo frio, que pareciam tecido de seda com reflexos ondulados e coloridos. Quando o vento soprava, os arbustos de acácia desfolhados agitavam-se furiosamente e se deitavam na estrada.
À noite, Iúri foi acordado por uma batida na janela. O cômodo, antes escuro, estava excessivamente iluminado por uma luz branca e esvoaçante. Só de camisa, Iúri correu até a janela e apertou o rosto contra o vidro gelado.
Do lado de fora da janela não havia nem estrada, nem cemitério, nem horta. No pátio, a nevasca esbravejava e a neve enfumaçava o ar. Podia-se imaginar que a tempestade percebera Iúri e, consciente do quanto era terrível, se deliciava com a impressão causada nele. Assobiava, uivava e de todas as maneiras tentava chamar a atenção de Iúri. Do céu, de novelos intermináveis que davam voltas e voltas, caía na terra um pano branco, envolvendo a tempestade em cortinas fúnebres. A nevasca dominava, sozinha, o mundo, nada competia com ela.
O primeiro impulso de Iúri, ao descer do peitoril da janela, foi o desejo de se vestir e correr para a rua para fazer alguma coisa. Temia que os repolhos do convento fossem cobertos pela neve, não seriam mais encontrados, ou pensava que a mãe, também coberta pela neve, e sem forças para lutar contra isso, afundaria ainda mais e ficaria ainda mais distante dele, embaixo da terra.
Tudo terminou em lágrimas novamente. O tio acordou, falou-lhe sobre Cristo e o acalmou; depois bocejou, aproximou-se da janela, pensativo. Eles começaram a se vestir. Amanhecia.

3

Enquanto a mãe estava viva, Iúri não sabia que o pai, fazia muito tempo, os havia abandonado e viajava pelas cidades da Sibéria e do exterior; que ele entregara-se à farra e libertinagem e que, há muito tempo, perdera e dissipara seu patrimônio de milhões. Diziam sempre a Iúri que ele ou estava em Petersburgo ou em alguma feira, mais frequentemente na de Irbitskaia.
E, depois, descobriram que sua mãe, que estava sempre doente, sofria de tuberculose. Ela começou a viajar a tratamento, para a França e para o norte da Itália, onde Iúri a acompanhou duas vezes. Assim, em desordem e entre constantes mistérios, Iúri passou a infância frequentemente nas mãos de estranhos, que o tempo todo se alternavam. Ele se acostumou a estas mudanças e, no ambiente de eterna incoerência, a ausência do pai não o surpreendia.
Ainda pequeno, viveu a época na qual o sobrenome que possuía designava grande quantidade de coisas, das mais diversificadas.
Havia a manufatura Jivago, o banco Jivago, as Casas Jivago, o método Jivago de dar o nó e prender a gravata com o alfinete; até mesmo um pastelão redondo, parecido com bolo coberto de glacê, se chamava Jivago. E houve um certo tempo em Moscou em que se podia gritar para o cocheiro “para Jivago!”, como se fosse “para onde Judas perdeu as botas!”, e ele o levava em seu trenó para os confins do mundo. Um parque tranquilo os aguardava. Nos galhos encurvados dos pinheiros, derrubando a neve, empoleiravam-se as gralhas. Seu corvejar retumbante se espalhava como o estalido de um galho de árvore. Das novas construções, que ficavam depois da clareira, cachorros de raça atravessavam o caminho. Lá, se acendiam as luzes. A noite caía.
De repente, isso tudo desapareceu. Eles empobreceram.

Boris Pasternak, in Doutor Jivago