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12/02/2026

| 3 | Vida Póstuma



[…]

Depois da Rússia, o outro grande país a se autoproclamar comunista foi a China, que se tornou uma “República do Povo” em 1949. Enquanto Marx e Lênin tinham seu ponto central no proletariado urbano, Mao Tsé-tung argumentava que os camponeses poderiam ser uma força revolucionária caso guiados pelos líderes “corretos”, como ele próprio. Mao evitou o modelo soviético de urgente industrialização e fez do desenvolvimento rural a prioridade máxima, inspirando, assim, muitos marxistas em países do Terceiro Mundo que nem sequer tinham uma indústria digna desse nome.
No entanto, o programa maoísta foi um desastre para o campesinato chinês: o Grande Salto Adiante, um plano de coletivização da agricultura e promoção das indústrias rurais de pequena escala, produziu fome em massa e foi abandonado em 1960, apenas dois anos depois de iniciado. No mesmo período houve a ruptura entre China e União Soviética. Nikita Krushchev havia ridicularizado o Grande Salto, e Mao revidou denunciando-o como “capitalista infiltrado”. Porém, desde a morte do Grande Timoneiro em 1976, a própria China passou a trilhar a rota capitalista e tornou-se a economia industrial que mais rapidamente cresce no mundo, ao mesmo tempo que proclama só agora haver atingido “o primeiro estágio do socialismo”. A despeito de ter abandonado os preceitos de Mao, o governo de Pequim continua a definir-se como marxista-leninista, embora “mercantil-leninista” fosse mais adequado.
Assim como as incontáveis seitas rivais do cristianismo, o marxismo revelou-se em disfarces admiravelmente distintos e em aparência incongruentes – bolcheviques e mencheviques, espartaquistas e revisionistas, stalinistas e trotskistas, maoístas e castristas, eurocomunistas e existencialistas. Marx previra, com severa resignação, que seu nome seria tomado em vão pelos “marxistas” muito depois de sua morte, quando não mais pudesse protestar. Seu mais famoso gesto de irritação face aos ilusórios discípulos foi uma censura aos socialistas franceses nos anos 1870: se eles forem marxistas, lamentou, “tudo o que sei é que então não sou um marxista”. E talvez não fosse. A história do século XX revelou que os países que não possuíam uma economia industrial avançada, uma classe capitalista ou um grande exército de proletários assalariados estavam mais propensos à revolução marxista. Daí o paradoxo observado pelo especialista marxiano David McLellan em 1983, quando quase meio mundo ainda era governado por regimes supostamente herdeiros de Marx:

O próprio fato de que o marxismo não tenha triunfado no Ocidente significa que não se tornou uma ideologia dominante; é, portanto, objeto de estudos sérios sem a intervenção de controles governamentais. Justamente na Europa Ocidental e na América – os países capitalistas – estuda-se Marx com maior desvelo. De fato, é correto afirmar que há mais marxistas reais no Ocidente que em muitos países chamados “marxistas”.

Em Estados comunistas, da Albânia ao Zimbábue, a definição local de marxismo foi elaborada pelo governo, jamais se demandou uma discussão subsequente (nem mesmo se permitiu). No Ocidente, contudo, seu significado tornou-se objeto tanto de profundo debate quanto de sutil revisão. Os trabalhos da chamada Escola de Frankfurt – que incluía Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse – na década de 1930 originaram um nova linha de filosofia marxista conhecida como “teoria crítica”, que rejeitava o determinismo econômico de Lênin e dos bolcheviques. A Escola de Frankfurt e outros pensadores do período, como Antonio Gramsci, também questionaram tradicionais posicionamentos marxistas em relação à consciência de classe do proletariado. O capitalismo, de acordo com Gramsci, mantém sua hegemonia por levar a classe trabalhadora – ou intimidá-la – a aceitar ilusoriamente a cultura burguesa como norma, ao mesmo tempo que reforça certos valores e exclui outros. Para desafiar esse consenso e demolir as pretensões capitalistas, os trabalhadores deveriam desenvolver uma cultura “contra-hegemônica” própria, por meio de novos sistemas de educação popular.
Os marxistas ocidentais, portanto, colocaram ênfase muito maior na importância daquilo que Marx denominava superestrutura – cultura, instituições, linguagem – do processo político, de tal modo que às vezes a reflexão sobre a base econômica desaparecia de todo. Incapazes de mudar o mundo, concentraram-se em interpretá-lo por meio do que ficou conhecido como “estudos culturais”, que estabeleceram sua própria hegemonia em vários campi universitários nas décadas finais do século XX e produziram uma transformação nos estudos de disciplinas como história, geografia, sociologia, antropologia e literatura.
Até a libido foi submetida ao escrutínio marxista. O psiquiatra Wilhelm Reich tentou conciliar Marx e Freud ao propor que os trabalhadores não poderiam ser verdadeiramente livres até que fossem libertados da repressão sexual e da tirania das estruturas familiares tradicionais (embora Marx tenha descartado o amor livre por considerá-lo uma perspectiva “bestial”, equivalente à “prostituição comum”). “O sexo está impregnado no trabalho e nas relações públicas e, portanto, torna-se mais suscetível à satisfação (controlada)”, escreveu Herbert Marcuse, guru da Nova Esquerda, no livro O homem unidimensional, de 1964. “O progresso técnico e o conforto material permitem a inserção sistemática dos elementos libidinosos nos domínios da produção e da troca de mercadorias.”
Esses domínios foram definidos de forma muito mais ampla do que Marx jamais imaginara. Abarcavam toda e qualquer forma de mercadoria cultural – um par de sapatos do tempo da brilhantina, uma fotografia de jornal, um disco pop e uma caixa de cereal eram todos “textos” que poderiam ser “lidos”. A crítica da cultura de massa dos primeiros teóricos influenciados pela Escola de Frankfurt foi gradualmente suplantada por um estudo dos diferentes meios pelos quais as pessoas recebem e interpretam esses textos cotidianos.
À medida que deram uma “guinada linguística” – expandiram-se em estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrutivismo e, depois, pós-modernismo –, os estudos culturais com frequência pareciam uma forma de se esquivar completamente da política, mesmo que muitos de seus adeptos continuem a se denominar marxistas. A lógica de sua burlesca insistência de que não há certezas ou realidades levou ao relativismo sem compromisso ou valor, capaz de celebrar, sem qualquer pudor, tanto a cultura pop norte-americana quanto a superstição medieval. Apesar do desdém pelas grandes narrativas históricas e leis gerais da natureza, muitos estudiosos pareciam aceitar o sucesso duradouro do capitalismo como um inevitável fato da vida. Aqueles que ainda nutriam impulsos subversivos buscaram refúgio em espaços marginais onde o domínio dos vitoriosos não estava bem assegurado: daí o entusiasmo pelo exótico e incorpóreo, desde as teorias conspiratórias dos óvnis aos fetiches sadomasoquistas. Um fascínio pelos prazeres do consumo (telenovelas, shoppings, o kitsch do mercado massificado) revelava o tradicional foco marxista sobre as condições da produção material.
A consequência foi, nas palavras do crítico marxista Terry Eagleton, “uma imensa inflação linguística, como se algo que na esfera política agora parecesse inconcebível ainda fosse bastante viável nas áreas do discurso, dos signos ou da textualidade. A liberdade do texto ou da linguagem viria compensar a falta de liberdade do sistema como um todo”. Os novos inimigos, escreve Eagleton, eram “todos os tipos de sistemas de crenças coerentes, em particular as formas de teoria e organização política que buscavam analisar e influenciar as estruturas da sociedade como um todo. Pois era justamente essa política que parecia ter fracassado”. Nenhuma crítica sistemática ao capitalismo monopolista obteria êxito uma vez que o capitalismo era ele próprio uma ficção, assim como a verdade, a justiça, as leis e todos os outros “constructos linguísticos”.
Cabe então a pergunta: como Marx, que tanto esforço fez para produzir uma crítica sistemática, se encaixa em tudo isso? Enquanto alegremente desconstroem comerciais de TV ou embalagens de bala, os teóricos parecem curiosamente relutantes em apontar seus cutelos para o texto do Capital, talvez por temer um parricídio literário. O historiador pós-modernista Dominick LaCapra afirma que este “é provavelmente o caso mais gritante de texto canônico que tem mais necessidade de uma releitura que de uma leitura literal, direta e atrelada a uma voz autoritária exclusivamente uniforme”.
Nessa linha, a mais notável revisão de Marx é Para ler “O Capital”, de 1965, uma coletânea de ensaios de Louis Althusser e alguns alunos seus, que começa com essa declaração de intenções:

É evidente que todos já lemos e continuamos a ler O Capital. Por quase um século, fomos capazes de lê-lo todos os dias, de forma transparente, em meio aos dramas e sonhos de nossa história, às suas disputas e conflitos, às conquistas e derrotas do movimento operário, que é nossa única esperança e destino. Desde que “viemos ao mundo”, lemos constantemente O Capital nos escritos e discursos daqueles que o leram para nós, bem ou mal, vivos ou mortos: Engels, Kautski, Plekhânov, Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotski, Stálin, Gramsci, as lideranças das organizações operárias, seus seguidores e oponentes, fossem filósofos, economistas ou políticos. Lemos pequenas amostras, os “fragmentos” que a conjuntura “selecionou” para nós. Todos lemos, mais ou menos, inclusive o “livro primeiro”, desde “as mercadorias” até “a expropriação dos expropriadores”.
Algum dia, porém, é essencial que O Capital seja lido na íntegra, que o próprio texto seja lido….

Althusser, como qualquer outro leitor, encara a tarefa com um par de lentes ajustadas à sua própria avaliação. Foi ele quem primeiro insistiu no fato de que havia um abismo intransponível, uma “ruptura epistemológica”, entre o Marx dos anos 1840 e o homem que escreveu O Capital 20 anos depois. Ao contrário de Jean-Paul Sartre, que encontrou nos primeiros escritos filosóficos uma rica inspiração para sua formulação do marxismo como uma história da auto-emancipação humana, Althusser deplorava os interesses do jovem Marx por ética, alienação e “ação humana”. Para ele, a história era um “processo sem sujeito” e, portanto, não valia a pena estudá-la ou analisá-la: os indivíduos, mesmo coletivamente, não poderiam jamais evitar ou desafiar as forças impessoais dos aparelhos ideológicos do Estado – educação, religião e família – que produzem e mantêm o sistema de crenças dominante.
Althusser resgatou Marx do estreito determinismo econômico imposto por Lênin e seus herdeiros para confiná-lo em uma camisa-de-força igualmente restritiva. Em Para ler “O Capital” ele reduz a obra maior de Marx a um trabalho meramente científico, sem qualquer vestígio de influência hegeliana, apesar de o próprio Marx reconhecer com prazer esse débito, em particular no capítulo inicial sobre a mercadoria. O marxismo se tornou uma teoria da prática estrutural divorciada da política, da história e da experiência.
Segundo a lógica anti-humanista de Althusser, as pessoas não poderiam ser consideradas responsáveis por suas ações – tese que, anos depois, ele próprio exploraria para se eximir de qualquer culpa pelo homicídio de sua esposa. Em escala maior, serviu para isentar o Partido Comunista (do qual era antigo integrante): o assassinato em massa na União Soviética não era um crime, apenas um erro teórico – ou, no terrível eufemismo de Althusser para o stalinismo, “aquela nova forma de ‘existência não-racional da razão’”. Como escreveu o historiador marxista E.P. Thompson no polêmico A miséria da teoria, de 1979: “Podemos considerar a emergência do althusserianismo como a manifestação de uma ação de patrulha ideológica, uma tentativa de reconstruir o stalinismo no nível teórico.” Para Thompson, a insistência de Althusser em um marxismo totalmente conceitual, não contaminado pela história ou pela experiência, expunha-o como alguém “que tinha apenas um conhecimento fortuito da prática histórica” – pois, no mundo real, a toda hora, “a experiência chega sem ser anunciada e promove mortes e crises substanciais”. Isso era mais verdadeiro do que Thompson podia imaginar. A total extensão da ignorância de Althusser revelou-se em suas memórias póstumas, O futuro dura muito tempo, de 1994, em que confessa ser “um trapaceiro e um enganador”, que às vezes inventava citações ajustadas aos seus objetivos.

De fato, meu conhecimento filosófico dos textos era bastante limitado. Eu … sabia um pouco de Spinoza, nada de Aristóteles, os sofistas e os estoicos, bastante sobre Platão e Pascal, nada sobre Kant, um pouco sobre Hegel e, por fim, algumas passagens de Marx.

Mas como conseguiu se safar? A explicação para seus ilusionismos é surpreendentemente singela:

Eu tinha outra singular habilidade. A partir de uma única frase, pensava que poderia extrair (que ilusão!), se não as ideias mais específicas de um autor ou livro que não lera, ao menos o significado ou as linhas gerais. Obviamente eu tinha algum poder de intuição, assim como a habilidade de vislumbrar relações, ou a capacidade de estabelecer oposições teóricas que me permitiam reconstruir aquelas que acreditava serem as ideias de um autor, tendo por base os autores aos quais se opunha. Eu prosseguia com tranquilidade, estabelecendo contrastes e distinções, e em seguida elaborava uma teoria que amparasse tudo isso.

Graças a esse poder de intuição, Para ler “O Capital” é iluminado pelo brilho de percepções ocasionais, ainda que Althusser tenha estudado apenas algumas passagens de Marx. O livro propõe que O Capital deve ser visto como

uma resposta importante à pergunta que em nenhuma parte foi postulada, que Marx somente logra formular com a multiplicação das imagens necessárias para expressá-la…. A época em que Marx viveu não lhe proporcionou, e ele não poderia adquirir ao longo da vida, um conceito adequado com o qual pensar o que produziu: o conceito da eficácia de uma estrutura a partir de seus elementos.

Marx, em outras palavras, preparou uma bomba de efeito retardado, esperando que alguém fizesse a pergunta que ele já havia respondido. Isso é confirmado por uma carta enviada a Engels em 1867, logo depois de finalizar o primeiro volume, em que previa as objeções de “economistas vulgares” ao Capital:

Se desejasse refutar de antemão todas essas objeções, eu estragaria todo o método dialético da exposição. Ao contrário, o que há de bom nesse método é que ele está constantemente preparando armadilhas para esses sujeitos, a ponto de tornar evidente a sua estupidez.

Mais uma vez é impossível não vir à mente a penetrante ironia do relato A obra-prima ignorada de Balzac: a única falha na obra-prima de Frenhofer não eram as manchas amorfas e aparentemente desastrosas, mas o fato de ter sido executada com um século de antecedência, uma vez que era na verdade uma peça de arte abstrata do século XX. Como escreveu Edmund Wilson ao defender as classes que sofrem privações e sitiar a fortaleza da auto-satisfação burguesa, Marx trouxe para a economia um ponto de vista “cujo valor na época era diretamente proporcional à sua estranheza”.
Durante meio século após a publicação do Capital, no entanto, os economistas vulgares demonstraram pouco interesse em refutar Marx, e preferiam ignorá-lo. Eles viam o sistema capitalista mais como uma necessidade permanente que como uma fase histórica passageira, que contivesse dentro de si os germes de sua própria doença terminal. Enquanto Marx tratava os juros, os lucros e o aluguel como trabalho não-pago, os economistas acadêmicos descreviam os juros obtidos pelos detentores de capital como uma “recompensa pela abstinência”. Para Alfred Marshall – uma personagem dominante na economia britânica durante os períodos vitoriano tardio e eduardiano –, aqueles que acumulavam mais do que gastavam capital estavam realizando um “sacrifício de espera”, e por isso mereciam a recompensa por sua virtuosa moderação.
A economia ortodoxa argumentava que a superprodução – considerada por Marx traço fundamental do capitalismo – simplesmente não poderia ocorrer. De acordo com a lei dos mercados de Say, a oferta criava sua própria demanda: os ganhos com produção e venda de certas mercadorias proporcionavam o poder de compra para a aquisição de outras. Esse mesmo mecanismo autorregulador assegurava que o desemprego não fosse mais que uma breve e acidental imperfeição. Os desempregados aceitariam trabalhar por menos; a consequente queda dos salários diminuiria os preços das mercadorias, que, por sua vez, aumentariam a demanda por produtos e também as vendas, permitindo, então, o retorno do pleno emprego.
A turbulência econômica e o grande desemprego do período entre guerras mundiais forçaram o reconhecimento tardio de que, afinal, o capitalismo apresenta problemas sistemáticos. Alguns economistas passaram a questionar se o sistema era realmente eterno e imutável. Em seu estudo de 1939, Valor e capital, John Hicks duvidava que “se pudesse contar com a longa sobrevivência de algo semelhante a um sistema capitalista” na ausência de novas invenções suficientemente poderosas para manter o investimento. “É inevitável pensar”, acrescentou ele, “que talvez todo o processo de revolução industrial dos últimos 200 anos nada mais tenha sido senão uma vasta e mundana expansão.” J.M. Keynes, nascido no ano da morte de Marx, escreveu no livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de 1936: “Vejo o aspecto da aquisição de rendas do capitalismo como uma fase de transição que desaparecerá quando tiver cumprido seu papel.”
Keynes, o mais influente economista do século XX, desafiou a ideia de que o capitalismo do laissez-faire apresentava uma tendência natural ao auto-equilíbrio. A ideia de que o desemprego forçava a queda dos salários e com isso restaurava o pleno emprego talvez fosse verdadeira em companhias ou indústrias individuais. Mas se todos os salários fossem cortados, então todos os rendimentos cairiam, e a demanda ficaria estagnada, o que não incentivaria os empregadores a contratar mais trabalho. Nas palavras da economista keynesiana Joan Robinson: “Em uma multidão, qualquer pessoa pode ter uma visão melhor do desfile ao ficar em pé numa cadeira. Mas se todos fizerem o mesmo, ninguém terá uma visão melhor.”
Antes de Keynes, a maioria dos economistas tratava as ocasionais crises do capitalismo como aberrações negligenciáveis. Ele, como Marx, via-as como o ritmo fatal de um sistema instável. Entretanto, Keynes considerava Marx um excêntrico do “submundo do pensamento econômico”, cujas teorias eram “ilógicas, obsoletas, cientificamente equivocadas e sem interesse ou aplicabilidade no mundo moderno”. A veemência de sua denúncia é surpreendente, dada a semelhança entre a crítica de Marx aos economistas clássicos e a do próprio Keynes a seus sucessores neoclássicos. Como Joan Robinson escreveu em 1948:
Em ambos, o desemprego tem um importante papel. Em ambos, o capitalismo é visto como algo que carrega as sementes da própria decadência. Do lado negativo, como na oposição à ortodoxa teoria do equilíbrio, os sistemas de Keynes e Marx permanecem próximos; e há agora, pela primeira vez, entre os economistas acadêmicos e os marxistas, pontos em comum suficientes para tornar o debate possível. Apesar disso, há ainda poucos estudos sérios feitos por economistas acadêmicos ingleses a respeito de Marx.
Alguns desses estudos sem dúvida foram descartados por sua opacidade estilística. Embora Robinson acreditasse que a teoria da crise de Marx, apresentada no segundo tomo do Capital, tivesse íntimas afinidades com Keynes, ela confessava que “talvez tenha exagerado na semelhança. Os dois últimos volumes do Capital … são excessivamente obscuros e foram submetidos a muitas interpretações. Suas águas são turvas, e, talvez por isso, quem as examinar há de encontrar o próprio rosto”.
Mas a principal razão para ignorar a relação entre Marx e Keynes – na verdade, para negligenciar Marx totalmente – talvez fosse política. Keynes era mais um liberal que um socialista, e orgulhosamente declarava: “A luta de classes me encontrará ao lado da burguesia culta.” O keynesianismo se tornou a nova ortodoxia para os economistas e políticos ocidentais em meados do século XX, precisamente no momento em que a Guerra Fria fazia com que o nome de Marx se transformasse em sinônimo de inimigo. Alguns não-marxistas temiam se contaminar com essa associação.
A grande exceção foi o economista de origem austríaca Joseph Schumpeter, que permaneceu um herói para muitos empreendedores norte-americanos, ainda que sua obra mais famosa, Capitalismo, socialismo e democracia, de 1942, comece com uma avaliação de 54 páginas das conquistas de Marx, tão inesperadamente generosa como as próprias homenagens de Marx à burguesia no Manifesto Comunista.
Como um profeta, admite Schumpeter, Marx sofreu de “visão equivocada e análise imprecisa”, particularmente em sua previsão do aumento da miséria dos trabalhadores. Entretanto, “Marx viu o processo de mudança industrial mais claramente e percebeu sua importância crucial de modo mais completo que qualquer outro economista de sua época”, tornando-se, assim, “o primeiro economista de primeira grandeza a compreender e ensinar sistematicamente como a teoria econômica pode se transformar em análise histórica e como a narrativa histórica pode se transformar em histoire raisonée”. Algumas páginas adiante ele propõe a questão: “Pode o capitalismo sobreviver?” E responde: “Não. Creio que não.” Isso pode parecer um comentário bizarro em um livro concebido como defesa robusta do espírito empreendedor, e certamente Schumpeter, ao contrário de Marx, não se alegrava com isso. (“Se um médico prediz que seu paciente morrerá em breve, isso não quer dizer que este seja o desejo dele.”) Sua tese era que a inovação capitalista – novos produtos e métodos de produção – representa uma força de “destruição criativa” que afinal se tornaria, para seu próprio benefício, extremamente bem-sucedida, e portanto destrutiva.
Na última década do século XX, as obscuras advertências de Schumpeter pareciam se confundir com as de Marx. Com o comunismo agonizando, o capitalismo liberal à moda norte-americana poderia enfim reinar sem desafios – talvez para sempre. “O que estamos testemunhando”, proclamou Francis Fukuyama em 1989, “não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a consumação de um determinado período da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal, isto é, o ponto final da evolução ideológica da humanidade.” Mas a história em breve retornaria com sua Nêmesis. Em agosto de 1998, a dissolução econômica na Rússia, o colapso monetário na Ásia e o pânico do mercado em todo o mundo levou o jornal Financial Times a se perguntar se havíamos passado “do triunfo à crise do capitalismo global em apenas uma década”. O título do artigo era “Das Kapital revisited”.
Mesmo aqueles que obtinham os maiores benefícios do sistema começaram a questionar sua viabilidade. George Soros, o bilionário especulador que fora responsabilizado pelo desastre tanto da Ásia quanto da Rússia, alertou no livro A crise do capitalismo global: os perigos da sociedade globalizada, de 1998, que o instinto de manada dos detentores do capital deve ser controlado antes que eles tenham esmagado todos os demais sob seus pés:

O capitalismo não demonstra por si só qualquer tendência ao equilíbrio. Os detentores do capital buscam aumentar seus lucros. Se os deixarem agir como desejam, continuarão a acumular capital até a situação ficar insuportável. Há 150 anos, Marx e Engels ofereceram uma ótima análise do sistema capitalista, melhor em alguns aspectos, devo dizer, que a teoria do equilíbrio dos economistas clássicos…. A principal razão para que as terríveis previsões não se tenham concretizado foram as intervenções políticas compensatórias nos países democráticos. Infelizmente, outra vez corremos o risco de tirar as conclusões erradas das lições da história. Agora o perigo não vem do comunismo, mas do fundamentalismo do mercado.

Durante a Guerra Fria, enquanto os Estados comunistas veneravam a obra de Marx como uma escritura sagrada – completa e infalível –, aqueles que estavam do outro lado das trincheiras o ultrajavam como um enviado do demônio. Com a derrubada do Muro de Berlim, contudo, ele conquistou novos admiradores em lugares inesperados. “Não devemos nos felicitar tão rapidamente pela derrota de Marx junto com o marxismo”, escreveu em 1994 o economista de direita Jude Wanniski. “Nossa sociedade mundial é muito mais fluida do que era em seu tempo, mas o processo de renovação não está garantido. As forças de reação que ele corretamente identificou devem ser conquistadas a cada nova geração, uma tarefa monumental que agora nos confronta.” Wanniski, que cunhou a expressão supply-side economics (“economia da oferta”), citou O Capital como a principal inspiração para sua tese de que a produção, mais que a demanda, era a chave da prosperidade. Embora defensor do livre comércio e do padrão-ouro, inimigo da burocracia e admirador do espírito de Klondike, considerava Marx “um dos titãs da teoria e da prática clássicas” – e um profeta genial. Para Wanniski, Marx “chegou muito próximo da verdade” ao sugerir que o capitalismo disseminava as sementes da própria destruição: “Isto é, se o capitalismo requer competição impiedosa, ainda que os capitalistas façam todo o possível para eliminar a competição, temos um sistema inerentemente insustentável, como animais que devoram seus filhotes.”
Em outubro de 1997, John Cassidy, correspondente econômico da revista New Yorker, relatou uma conversa que tivera com um banqueiro inglês que trabalhava em Nova York. “Quanto mais tempo passo em Wall Street”, afirmou o banqueiro, “mais convencido fico de que Marx estava certo. Há um Prêmio Nobel à espera do economista que ressuscitar Marx e o inserir em uma teoria coerente. Estou absolutamente convencido de que a abordagem de Marx é o melhor caminho para entender o capitalismo.” Despertada sua curiosidade, Cassidy leu Marx pela primeira vez e convenceu-se de que seu amigo estava certo. Encontrou

provocantes passagens sobre globalização, desigualdade, corrupção política, monopolização, progresso técnico, declínio da alta cultura, a natureza enervante da existência moderna – temas com que os economistas agora novamente se defrontam, às vezes sem perceber que seguem os passos de Marx.

Citando o famoso slogan criado por James Carville para a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 – “It’s the economy, stupid” (“É a economia, seu estúpido”) –, Cassidy comentava:

o próprio termo de Marx para essa teoria – “a concepção materialista da história” – é agora tão amplamente aceito que analistas de todas as vertentes políticas usam-no, como Carville, sem o devido crédito. Quando os conservadores argumentam que o estado de bem-estar social está condenado porque sufoca a iniciativa privada, ou que a União Soviética entrou em colapso porque não poderia se igualar com eficiência ao capitalismo ocidental, eles adotam o argumento de Marx segundo o qual a economia é a força motriz do desenvolvimento humano.

Como o ridículo burguês de Molière, que descobriu, para seu espanto, que por mais de 40 anos falara em prosa sem o saber, grande parte da burguesia ocidental absorveu as ideias de Marx sem sequer notar. Foi uma leitura tardia de Marx nos anos 1990 que inspirou o jornalista James Buchan a escrever seu brilhante estudo Desejo congelado: uma investigação sobre o significado do dinheiro, publicado em 1997. Como explicou Buchan:

Marx está tão enredado em nosso modelo de pensamento ocidental que poucas pessoas têm consciência de seu débito com ele. Todo mundo que conheço agora acredita que suas atitudes são, em certa medida, uma criação de suas circunstâncias materiais – “que, ao contrário, seu ser social determina sua consciência”, como escreveu Marx – e que as mudanças no modo de produção afetam profundamente as relações humanas, mesmo fora das oficinas e fábricas.
É em grande medida por meio das ideias de Marx, mais que pela economia política, que tais noções chegaram até nós. Da mesma forma, todo mundo que conheço tem a impressão de que a história não é só uma sequência qualquer de acontecimentos, … mas uma espécie de processo em que algo de humano – liberdade, felicidade, potencialidade humana, algo positivo, enfim – se torna cada vez mais efetivo. Marx não criou esse sentimento, mas o disseminou.

Até os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge, da revista The Economist, entusiastas do turbocapitalismo, reconheceram essa dívida: “Como profeta do socialismo, Marx pode estar derrotado”, escrevem no livro O futuro perfeito: os desafios e as armadilhas da globalização, de 2000. “Mas como profeta da ‘interdependência universal das nações’, que é como denominava a globalização, ele ainda pode ser de surpreendente relevância…. Sua descrição da globalização permanece tão aguçada hoje quanto o foi há 150 anos.” O maior medo dos autores era que, “quanto mais bem-sucedida se torna a globalização, mais parece estimular a própria reação a ela”, o que, em outras palavras, parece sugerir o acerto de Marx ao declarar que “o desenvolvimento da indústria moderna … abala a própria base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produção e apropriação. O que a burguesia produz são, sobretudo, seus próprios coveiros”. Graças a todo seu triunfalismo, Micklethwait e Wooldridge têm uma incômoda suspeita de que a destruição criativa forjada pelo capitalismo global “tenha um momento inato de paralisia, quando as pessoas não mais suportarão”.
A queda da burguesia e a vitória do proletariado não se concretizaram. Mas, na obra de Marx, os erros ou profecias não cumpridas sobre o capitalismo são ofuscados e transcendidos pela acurada precisão com que revelou a natureza desse monstro. Enquanto tudo o que é sólido continuar se desmanchando no ar, o vívido retrato feito no Capital das forças que governam nossas vidas – e da instabilidade, alienação e exploração que produzem – jamais perderá a ressonância ou o poder de colocar o mundo em foco. Como o artigo da New Yorker de 1997 concluiu: “Valerá a pena ler seus livros enquanto perdurar o capitalismo.” Longe de ter sido soterrado pelos destroços do Muro de Berlim, Marx só agora emerge em seu verdadeiro significado. Ele ainda pode vir a ser o mais influente pensador do século XXI.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

07/02/2026

| 3 | Vida Póstuma


[…]

Na Alemanha, terra natal de Marx, suas ideias tornaram-se a ideologia dominante do Partido Socialdemocrata (SPD, na sigla em alemão), a partir do congresso de 1891 em Erfurt. Mas a programação do evento era constituída de duas partes distintas e pressagiava uma longa luta entre revolucionários e revisionistas. A primeira seção, esboçada por Karl Kautski, discípulo de Marx, reafirmava teorias familiares tiradas do Capital, tais como a tendência ao monopólio e à pauperização do proletariado; a segunda parte, escrita por Eduard Bernstein, lidava com objetivos políticos mais imediatos – sufrágio universal, educação livre, imposto progressivo. Bernstein viveu em Londres durante os anos 1880 e rendeu-se à influência dos primeiros fabianos. Rosa Luxemburgo queixava-se: “Ele vê o mundo através de lentes inglesas.”
Bernstein, na década seguinte ao congresso de Erfurt, repudiava abertamente grande parte do legado de Marx, descartando sua teoria do valor como “um conceito puramente abstrato” que deixou de explicar a relação entre oferta e demanda. Kautski relutava em criticar seu antigo camarada e parecia muitas vezes até mesmo encorajá-lo: “Você superou nossas táticas, nossa teoria do valor, nossa filosofia; agora tudo depende de qual será a boa-nova que você pensa em colocar no lugar da antiga.”
No final do século, as intenções de Bernstein estavam bastante evidentes. O capitalismo, longe de ser superado por uma crise inevitável e iminente, provavelmente resistiria e traria uma progressiva prosperidade às massas. Com o ajuste adequado, poderia até se provar o motor do progresso social:

É, portanto, muito errado presumir que o presente desenvolvimento da sociedade demonstra relativa ou mesmo absoluta diminuição do número de integrantes das classes com posses. Seu número aumenta tanto relativa quanto absolutamente…. O sucesso do socialismo depende não da diminuição, mas do aumento da riqueza social.

Embora o SPD ainda se definisse como uma organização proletária revolucionária, ele tornara-se, na prática, um partido parlamentarista, progressivamente bem-sucedido e liderado por gradualistas e tecnocratas.

Como especialista em ironias, Marx talvez tenha se visto obrigado a sorrir (ou, ao menos, a repuxar os lábios) diante de seu destino: um profeta sem muita honra em sua própria terra, e ainda menos considerado em seu país de adoção, a Inglaterra, se tornou a inspiração para um levante cataclísmico no local onde menos esperava, a Rússia, nação raramente mencionada no Capital. No entanto, no fim da vida, Marx já havia começado a se arrepender dessa omissão: o sucesso da edição russa do Capital levou-o a imaginar que lá, afinal, talvez houvesse algum potencial revolucionário.
Seu tradutor em São Petersburgo, Nikolai Danielson, era também líder do movimento populista, que acreditava que a Rússia poderia passar diretamente do feudalismo para o socialismo. A descrição de Marx dos efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem convenceram-no de que, se possível, esse estágio da evolução econômica deveria ser evitado, e, uma vez que a Rússia já tinha no campo uma forma embrionária de propriedade coletiva da terra, seria uma atrocidade dissolver as comunas camponesas e depositá-las nas mãos de proprietários particulares simplesmente para obedecer a uma suposta lei inelutável da história. Para os marxistas mais ortodoxos, como Georgi Plekhânov, que achavam que as condições para o socialismo não amadureceriam até que a Rússia se industrializasse, esta era uma insensatez – e, ao longo da década que se seguiu ao lançamento de O Capital, Marx parecia ter a mesma opinião. Em 1877, respondendo a um populista russo que protestava contra sua visão determinista da história, Marx escreveu que se a Rússia estivesse destinada a se tornar uma nação capitalista nos mesmos moldes que os países do Ocidente europeu,

ela não conseguiria isso sem antes transformar boa parte dos camponeses em proletários; e, então, quando se encontrar no âmago do regime capitalista, experimentará, como outros povos profanos, a crueldade de suas leis.

Assim mesmo, Marx acompanhava o desenrolar dos acontecimentos na Rússia, que ameaçavam contestar suas teorias. O movimento insurrecional, embora pequeno, impressionava pela sua determinação e eficácia: entre 1879 e 1881, a Vontade do Povo, uma facção dissidente do movimento populista, realizou sete atentados à vida do czar Alexandre II, o último deles bem-sucedido. (Seis anos depois, a Vontade do Povo tentou também assassinar o czar Alexandre III; uma das pessoas enforcadas por tomar parte na trama foi Alexander Ulianov, cujo irmão adolescente, Vladimir Ilich Ulianov, se tornaria mais conhecido como V.I. Lênin.)
A subsequente enxurrada de detenções e execuções levou muitos revolucionários russos ao exílio. Plekhânov mudou-se para a Suíça com vários camaradas, entre eles Vera Zasulich, que em 1876 deu um tiro no governador-geral de São Petersburgo e, quando levada a julgamento, teve um desempenho tão notável que o júri a absolveu da acusação de tentativa de assassinato. A despeito de seu passado, ela desaprovava a tendência cada vez mais regicida e violenta do socialismo russo, que parecia ter perdido de vista os imperativos econômicos formulados no Capital. Mas a questão dos camponeses e proletários continuava a incomodar Vera Zasulich e seus companheiros de exílio às margens do lago Genebra. Em fevereiro de 1881, ela apelou a Marx em busca de uma opinião abalizada: “Você não ignora que O Capital goza de grande popularidade na Rússia”, escreveu ela. “Mas talvez não tenha conhecimento do papel que seu livro desempenhou em nossa discussão sobre a questão agrária.” E pedia gentilmente que Marx “desse sua opinião sobre o possível futuro da comuna rural russa e a teoria da inevitabilidade histórica, segundo a qual todos os países do mundo atravessarão todas as fases da produção capitalista”, e assim tentar encerrar a polêmica.
Marx se debateu com o problema por várias semanas e escreveu cinco rascunhos de resposta. Finalmente enviou uma breve carta dizendo que sua “assim chamada teoria” fora mal interpretada: a inevitabilidade histórica da fase burguesa “é expressamente limitada aos países da Europa Ocidental”. A transição ocidental do feudalismo para o capitalismo representava a transformação de um tipo de propriedade privada em outro, enquanto no caso dos camponeses russos “a propriedade comunal teria, ao contrário, de ser transformada em propriedade privada. Por isso, a análise proposta no Capital não apresenta qualquer razão favorável ou contrária à viabilidade da comuna rural”. Isso era mais encorajador que o comentário que fizera apenas quatro anos antes – porém, muito mais cauteloso que o primeiro rascunho de sua carta a Vera Zasulich, que explicava por que e como o campesinato russo escaparia ao destino de seus companheiros da Europa Ocidental:

Na Rússia, graças a uma singular combinação de circunstâncias, a comuna rural, ainda assentada em escala nacional, pode aos poucos livrar-se de seus traços primitivos e desenvolver-se diretamente como um elemento da produção coletiva em escala nacional…. Para salvar a comuna russa, uma revolução é necessária. A esse respeito, o governo e os “novos pilares da sociedade” estão fazendo o melhor a fim de preparar as massas para esse desastre. Se a revolução vier no momento oportuno, se concentrar todas as forças de modo a permitir total expansão à comuna rural, esta em breve se transformará em elemento de regeneração na sociedade russa e de superioridade em relação aos países escravizados pelo sistema capitalista.

Cinco dias depois de Marx ter enviado a versão final dessa carta, um pequeno grupo da Vontade do Povo assassinou o czar Alexandre II em São Petersburgo arremessando uma bomba em sua carruagem.
Com a plena certeza de que a revolução só se realizaria pela ação coletiva da classe trabalhadora, mais que por proezas individuais ou atos de terrorismo, era de esperar que Marx se aliasse a Vera Zasulich e a Plekhânov mais que aos terroristas radicais. Todavia, em carta à filha Jenny, Marx confidenciou que os exilados na Suíça eram “meros doutrinários, desnorteados anarco-socialistas, e a influência deles no ‘teatro de guerra’ na Rússia é nula”. Os assassinos de São Petersburgo, ao contrário,

são, em todos os aspectos, verdadeiros companheiros, sem pose melodramática, simples, objetivos, heroicos…. Eles se esforçam para ensinar à Europa que seu modus operandi é especificamente russo e historicamente inevitável, que não se presta a moralizações – a favor ou contra –, mais que o terremoto em Chios.

Tal atitude seria inconcebível em um Karl Marx mais jovem: ele passara muitos anos denunciando socialistas que punham suas crenças a serviço de golpes, atentados e conspirações clandestinas. Em 1881, no entanto, estava doente e fatigado. Depois de tanto aguardar o momento oportuno para a revolução proletária e estar com a paciência esgotada, ansiava por qualquer tipo de revolta. Naquela primavera, após o nascimento de um neto, comentaria que as crianças “nascidas neste momento crucial da história … têm diante de si o período mais revolucionário que qualquer outro já visto pela humanidade. O lado ruim neste momento é ser ‘velho’, de modo a apenas prever, e não testemunhar”.
Todos os arquitetos da Revolução de 1917 citavam Marx, em particular O Capital, como a autoridade divina para a concretização de suas propostas. Trotski estudou o livro em 1900, quando se encontrava na Sibéria, exilado em uma vila horrível, infestada de insetos – “removendo as baratas para fora da página”, como lembrava. Lênin alegava ter lido o livro em 1888, com precoces 18 anos, sentado sobre um velho forno na cozinha do apartamento de seu avô. Desde então empregava O Capital – ou os trechos que serviam a seus propósitos – como a lâmina com que golpeava seus rivais. (Máximo Górki disse a respeito dos discursos de Lênin que tinham “o frio brilho de limalhas de aço”.) Embora sua primeira grande obra, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, fosse apresentada como uma espécie de suplemento a Marx, a obra de Lênin nada tinha da ironia e da indignação do Capital. Como Edmund Wilson observou: “Todos os escritos de Lênin são funcionais; todos têm o intuito de atingir um propósito imediato…. Ele é simplesmente um homem que deseja convencer.”
O propósito imediato do livro O desenvolvimento do capitalismo na Rússia era persuadir os camaradas de que a Rússia já emergira do feudalismo graças à rápida expansão de ferrovias, minas de carvão, siderúrgicas e tecelagens nos anos 1880 e 1890. O fato era que somente em Moscou e São Petersburgo havia um proletariado industrial; isso, no entanto, reforçava a responsabilidade de ação da classe como uma organização de vanguarda que expressasse as reivindicações dos camponeses e artesãos de outras localidades. Nas novas fábricas, escreveu Lênin,

a exploração está plenamente desenvolvida e emerge em sua forma pura, sem qualquer detalhe perturbador. O trabalhador não pode deixar de perceber que é oprimido pelo capital…. É por isso que o trabalhador da fábrica é o principal representante de toda a população de explorados.

Mas em seu tratado posterior, Que fazer?, acrescentou que os trabalhadores estavam muito preocupados com sua própria luta econômica para desenvolver uma verdadeira consciência revolucionária:

Muito se fala sobre espontaneidade. Mas o desenvolvimento espontâneo de um movimento da classe trabalhadora leva à sua subordinação à ideologia burguesa; pois tal ação é o sindicalismo, que significa a escravização ideológica dos trabalhadores pela burguesia. Portanto, nossa tarefa, a tarefa da socialdemocracia, é combater a espontaneidade, afastar o movimento da classe trabalhadora desse sindicalismo espontâneo, desejoso de se abrigar sob as asas da burguesia, e trazê-lo para debaixo das asas da socialdemocracia revolucionária.

Campanhas de massa para melhorar as condições e encurtar a semana de trabalho, defendidas por Marx no Capital, eram consideradas por Lênin uma perda de tempo. Em vez disso, os trabalhadores deveriam se colocar à disposição de revolucionários profissionais como ele: “O movimento socialista contemporâneo só poderá se tornar realidade se tiver como base um profundo conhecimento científico…. O portador desse conhecimento não é o proletariado, mas a intelligentsia burguesa.” Nessas sentenças pode-se notar a forma embrionária do que, no final, se tornou uma tirania monstruosa.
Como o autoproclamado portador dos dez mandamentos, Lênin gostava de lembrar a condição intelectual inferior de seus camaradas. “É impossível compreender O Capital de Marx, em especial os primeiros capítulos, sem ter estudado e entendido completamente toda a Lógica de Hegel”, escreveu ele em seus Cadernos filosóficos. “Por conseguinte, meio século depois, nenhum dos marxistas compreende Marx.” Exceto ele, é claro. Apesar de todas as suas leituras e escritos, o “conhecimento científico” de Lênin não era mais profundo que o necessário. Eis uma aguçada avaliação feita por Trotski, que o observava mais de perto que ninguém:

O pensamento de Marx aparece por inteiro no Manifesto Comunista, em Para a crítica da economia política e no Capital. Mesmo que não estivesse destinado a tornar-se o fundador da Primeira Internacional, ele ainda permaneceria por muito tempo a figura que conhecemos hoje. As ideias de Lênin, por outro lado, aparecem na ação revolucionária. Os trabalhos científicos dele são apenas um preâmbulo à ação.

Talvez nem mesmo um preâmbulo. “A tomada do poder”, escreveu Lênin em 1917, “é o objetivo da insurreição. Sua tarefa política ficará clara após a tomada.” Como o historiador Bertram Wolfe mostra, isso faz com que o raciocínio de Marx seja virado do avesso: a convicção marxista de que a economia determina a política “torna-se a visão leninista de que, com suficiente determinação, o próprio poder, o pleno poder político, pode determinar inteiramente a economia”. Não é de causar espanto que a crença predominante na União Soviética tenha adquirido o nome de marxismo-leninismo, e não simplesmente marxismo. O lema favorito de Marx era de omnibus dubitandum (“tudo deve ser questionado”), mas ninguém que tenha tentado pôr isso em prática na Rússia comunista sobreviveu por muito tempo.
O marxismo praticado por Marx era menos uma ideologia que um processo crítico, uma argumentação dialética contínua; Lênin e em seguida Stálin transformaram-no em dogma. (Como, é claro, fizeram outros socialistas antes deles.) “A Federação Socialdemocrata aqui divide com os socialistas germano-americanos a característica de serem os únicos partidos que lograram reduzir a teoria do desenvolvimento marxista a uma rígida ortodoxia”, lamentou Engels, em maio de 1894, a Friedrich Adolph Sorge, um emigrado alemão em Nova York.

Essa teoria deve ser empurrada goela abaixo dos trabalhadores de uma só vez e sem desenvolvimento, como artigos de fé, e não fazer com que os trabalhadores se elevem a seu nível pela força de seu próprio instinto de classe. É por isso que ambas permanecem meras seitas e, como Hegel diz, vêm do nada, por meio do nada e em direção ao nada.

Seria possível até argumentar que a conquista mais verdadeiramente marxista da União Soviética foi seu colapso: uma economia dirigida – centralizada, fechada e burocrática – provou-se incompatível com as novas forças de produção, e assim precipitou uma mudança nas relações de produção. Mikhail Gorbachev o admitiu em seu livro de 1997, Perestroika:

O sistema administrativo que se formou nos anos 1930 e 1940 começou gradualmente a contradizer as demandas e condições do progresso econômico. O potencial positivo dele se exaurira. Tornara-se cada vez mais um obstáculo e originou o mecanismo de ruptura que tanto mal nos fez depois….
Foi nessas condições que se desenvolveu uma atitude preconceituosa diante do papel das relações mercadológicas e da lei do valor sob o socialismo, e em geral se alegava que eram contrárias e estranhas ao socialismo. Além do mais, subestimou-se a contabilidade de lucros e perdas, que abalou os preços e negligenciou a circulação de dinheiro…. Surgiram sinais cada vez mais evidentes de alienação do homem em relação à propriedade coletiva e da falta de coordenação entre os interesses públicos e pessoais do trabalhador.
[...]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

03/02/2026

| 3 | Vida Póstuma



Um século após a publicação do Capital, o então primeiro-ministro britânico Harold Wilson gabava-se de nunca ter lido o livro. “Não fui além da página dois – quase completamente tomada por uma nota de rodapé. Achei que uma página de nota para duas frases era demais.” Um rápido olhar no primeiro volume da obra deixa evidente que este é um enorme exagero: há de fato muitas notas nas páginas iniciais, mas todas de pequena extensão. Entretanto, Wilson talvez falasse em nome de muitos outros leitores que foram desencorajados pela “dificuldade”, imaginária ou real, do livro.
Marx antecipou essa reação no prefácio. “O entendimento do Capítulo 1, em especial da parte que contém a análise da mercadoria, apresentará a maior dificuldade. Quanto às passagens que se referem à análise da substância e da magnitude do valor, procurei torná-las acessíveis ao máximo.” A forma do valor, alegava ele, era extremamente simples.

Mesmo assim, a mente humana tem procurado fundamentá-la em vão há mais de dois mil anos…. Por isso, com exceção da parte relativa à forma do valor, não se poderá acusar este livro de ser de difícil compreensão. Pressuponho, naturalmente, leitores que desejam aprender algo de novo e queiram, portanto, também pensar por conta própria.

Engels não estava certo disso. Durante a composição do livro alertou Marx de que era um erro grave não esclarecer a argumentação teórica com uma divisão em seções menores, com títulos próprios.

Embora tivesse a aparência de um livro escolar, uma vasta camada de leitores o consideraria muito mais fácil de entender com essa organização. As massas e até mesmo os estudiosos não estão mais familiarizados com essa forma de pensamento, assim, é imprescindível facilitar-lhes ao máximo a questão.

De fato, Marx fez algumas alterações nas provas do livro, porém, não mais que emendas irrelevantes. “Como pôde manter a configuração do livro na forma atual?”, desesperançou-se Engels ao ver as provas finais.

O quarto capítulo tem quase 200 páginas e apenas quatro subseções…. Além do mais, a linha de raciocínio é constantemente interrompida por exemplificações, e o tema a ser ilustrado jamais é retomado, de tal forma que sempre se passa diretamente do exemplo de um tópico à exposição de outro. É terrivelmente cansativo, e confuso também.

Os olhos de outros admiradores ficaram igualmente embaçados à medida que lutavam com os obscuros primeiros capítulos. “Por favor, faça a gentileza de dizer à sua esposa”, escreveu Marx a Ludwig Kugelmann, um amigo de Hanôver,

que os capítulos sobre “A jornada de trabalho”, “Cooperação, divisão do trabalho e maquinaria” e, finalmente, “Acumulação primitiva” são os mais imediatamente legíveis. Você precisará explicar-lhe qualquer terminologia que ela não domine. Se restarem outros aspectos duvidosos, ficarei feliz em ajudar.

Quando leu o primeiro tomo do Capital, o grande socialista inglês William Morris apreciou “imensamente a parte histórica”, mas confessou sofrer de “confusão cerebral com os trechos de economia pura dessa grande obra. De qualquer modo, li o que pude, e espero que alguma informação tenha em mim se fixado depois dessa leitura”. (Na verdade, a experiência provou-se um bom investimento em todos os sentidos: o exemplar de Morris, com encadernação de couro esplendidamente decorada, foi leiloado por 50 mil dólares em maio de 1989.)
Uma absoluta incompreensão, mais que antipatia política, pode explicar a indiferente resposta à primeira edição do Capital. “O silêncio sobre meu livro me exaspera”, queixou-se Marx. Engels procurou incitar alguma publicidade ao submeter, sob pseudônimo, resenhas hostis aos jornais alemães e ao convocar outros amigos de Marx a fazer o mesmo. “O que importa é que o livro seja cada vez mais discutido, de todas as formas possíveis”, disse a Kugelmann. “Nas palavras de nosso velho amigo Jesus Cristo, sejamos tão inocentes quanto pombas e tão astutos quanto serpentes.” Kugelmann fez o melhor que pôde, estampou artigos em alguns jornais de Hanôver, mas como ele próprio mal compreendia o livro, os artigos nada tinham de esclarecedores. “Kugelmann torna-se a cada dia mais obtuso”, irritava-se Engels.
Foram necessários quatro anos para que as mil cópias da primeira edição se esgotassem. Embora Marx alegasse no prefácio à segunda edição (1872) que a compreensão que O Capital rapidamente encontrou em amplos círculos da classe operária alemã fosse a maior recompensa de seu trabalho, parece improvável que o volume tenha chegado a muitos trabalhadores – embora eles tenham sido apresentados aos seus principais temas em uma série de artigos de Joseph Dietzgen para o jornal socialista Demokratisches Wochenblatt. “Há possivelmente poucos livros que tenham sido escritos em circunstâncias mais difíceis”, escreveu Jenny Marx. “Se os trabalhadores tivessem noção dos sacrifícios necessários para que essa obra fosse finalizada, produzida unicamente para eles e em seu benefício, talvez demonstrassem um pouco mais de interesse.” Mas como poderiam, dada a extensão, a densidade e o tema tão pouco familiar? Marx depois observou: “Na Alemanha, a economia política continua uma ciência estrangeira.”
Em outros lugares, entretanto, houve manifestações de interesse. Ainda em janeiro de 1868, dois meses após a publicação, o Saturday Review de Londres incluiu O Capital em um apanhado de livros alemães recém-lançados. “A visão do autor pode ser tão perniciosa quanto acreditamos”, concluiu o artigo, “mas não há dúvida sobre a plausibilidade de sua lógica, o vigor de sua retórica e o fascínio com que recobre os mais áridos problemas da economia política.” Uma nota no Contemporary Review cinco meses depois, ainda que desdenhasse patrioticamente da economia alemã (“não duvidamos que Karl Marx tenha muito a nos ensinar”), cumprimentava o autor por não esquecer “o interesse humano – ‘a preocupação com a fome e a sede’ que a ciência ignora”.
Uma tradução russa do Capital apareceu na primavera de 1872, ao passar pelos censores do czar com a justificativa de que não teria qualquer aplicação na Rússia e, portanto, não poderia ser subversivo (embora tenham removido o retrato do autor, temendo que inspirasse um culto à sua personalidade). Julgaram o texto tão impenetrável que “poucos o leriam e ainda menos o compreenderiam”. Porém, grande parte dos três mil exemplares impressos se esgotou em menos de um ano. Enquanto na maioria dos países capitalistas a obra era ignorada, jornais e periódicos na Rússia pré-capitalista publicavam resenhas favoráveis. “Não é uma ironia do destino”, escreveu Marx a Engels, “que os russos, contra os quais lutei por 25 anos, sempre queiram ser meus patronos? Eles correm, por pura glutonaria, atrás das mais extremadas ideias que o Ocidente tem a oferecer.” Sentia-se especialmente gratificado por uma notícia no Jornal de São Petersburgo, que lhe elogiava a “incomum vivacidade” da prosa. “A esse respeito”, acrescentava o periódico, “o autor de modo algum se assemelha … à maioria dos sábios alemães que … escrevem seus livros em uma linguagem tão seca e obscura que despedaça a cabeça dos mortais comuns.”
A produção de uma edição francesa foi mais problemática. Apesar de o trabalho ter sido iniciado em 1867, imediatamente após a publicação na Alemanha, ao longo dos quatro anos seguintes cinco tradutores foram testados e rejeitados. Eventualmente, Marx deu sua bênção a um professor de Bordeaux, Joseph Roy. Contudo, depois de rever os primeiros capítulos, julgou que, embora “no geral bem-feita”, a tradução de Roy era frequentemente muito literal. “Senti-me portanto forçado a reescrever passagens inteiras em francês para torná-las palatáveis.” Com a aprovação de Marx, o editor decidiu publicar o livro em fascículos (“mais acessível à classe operária”), e o primeiro deles apareceu em maio de 1875.
Em seu país de adoção, as promissoras primeiras resenhas foram seguidas de um longo silêncio. “Embora Marx tenha vivido muito tempo na Inglaterra”, escreveu o advogado John MacDonnel na Fortnightly Review em março de 1875, “ele é aqui quase a sombra de um nome. As pessoas podem honrá-lo com seus insultos; mas não o leem.” Marx acreditava que “o dom peculiar da descabida estupidez” era um direito hereditário britânico, e o fato de que não se tenha publicado nenhuma edição inglesa ao longo de sua vida confirmou seu preconceito. “Ficamos muito gratos por sua carta”, escreveram os editores da Macmillan & Co. a Carl Schorlemmer, amigo de Engels e professor de química orgânica na Universidade de Manchester, “mas não estamos dispostos a publicar uma tradução do Capital.” Os poucos britânicos que o desejavam estudar tinham de lutar o melhor possível com as versões alemã, russa e francesa. O jornalista radical inglês Peter Fox, editor do National Reformer, comentou, depois de ser presenteado com a edição alemã, que se sentia como um homem que havia adquirido um elefante e não sabia o que fazer com ele. Um trabalhador escocês, Robert Banner, enviou a Marx esse angustiado pedido de ajuda:

Não há qualquer esperança de que seja traduzido? Não existe em inglês sequer uma obra que defenda a causa das massas trabalhadoras; todo livro em que nós, jovens socialistas, pomos as mãos defende os interesses do capital. Por isso nossa causa está tão atrasada neste país. Com uma obra que aborde a economia do ponto de vista do socialismo, veríamos em breve um movimento que colocaria um ponto final nessa situação.

Aqueles que mais precisavam do livro eram os que estavam menos aptos a compreendê-lo, enquanto a elite educada, que o poderia ler, não o desejava. Como o socialista inglês Henry Hyndman escreveu:

Acostumados como estamos hoje, especialmente na Inglaterra, a esgrimir sempre com grandes chumaços de algodão nas pontas de nossos floretes, o terrível golpe da lâmina nua de Marx sobre seus adversários parecia tão impróprio que seria impossível para nossos cavalheirescos pseudolutadores e ginastas mentais acreditar que esse polemista impiedoso e crítico furioso do capital e do capitalismo fosse na realidade o mais profundo pensador de nosso tempo.

Hyndman era uma exceção à regra. No início de 1880, depois de ler a tradução francesa do Capital, cobriu o autor de tamanhas homenagens extravagantes que Marx se sentiu obrigado a encontrá-lo. No entanto, embora Hyndman se declarasse “ávido de aprender”, foi ele quem conduziu quase toda a conversa: Marx viria a temer as visitas desse “complacente tagarela”. A inevitável ruptura ocorreu em junho de 1881, quando o manifesto socialista de Hyndman, England for All, incluiu dois capítulos amplamente plagiados do Capital sem autorização ou mesmo reconhecimento, a não ser por uma nota no prefácio: “A respeito das ideias e grande parte do conteúdo dos Capítulos 2 e 3, estou em débito com a obra de um grande pensador e original escritor que em breve, tenho certeza, estará disponível para a maioria de meus compatriotas.” Marx considerou isso vergonhosamente inadequado: por que não mencionar O Capital ou o nome de seu autor? A frágil desculpa de Hyndman foi que o público inglês tinha “horror ao socialismo” e “pavor aos ensinamentos estrangeiros”. Porém, como indicou Marx, era pouco provável que a evocação do “sonho do socialismo” aplacasse esse horror, e qualquer leitor de inteligência mediana com certeza adivinharia pelo prefácio que o “grande pensador” anônimo era estrangeiro. Tratava-se pura e simplesmente de uma apropriação – marcada pela inserção de erros crassos nos poucos parágrafos não literalmente retirados do Capital.
Mal se livrara de um discípulo inglês, Marx já conquistava outro, embora desta vez tenha tomado a precaução de jamais encontrar o sujeito. Ernest Belfort Bax, nascido em 1854, tornara-se um radical, quando ainda jovem estudante, sob a influência da Comuna de Paris. Em 1879 iniciou uma longa série de artigos para o intelectualizado mensário Modern Thought sobre os titãs intelectuais da época, entre eles Schopenhauer, Wagner e (em 1881) Karl Marx. Tendo estudado a filosofia hegeliana na Alemanha, Bax era provavelmente o único socialista inglês de sua geração a aceitar a dialética como dinâmica inerente à vida. Ele descreveu O Capital como um livro “que encerra a elaboração de uma doutrina econômica comparável em seu caráter revolucionário e também por sua importância ao sistema de Copérnico na astronomia, ou à lei da gravitação na mecânica”. Marx ficou compreensivelmente lisonjeado e saudou o artigo de Bax como “a primeira publicação desse tipo que é impregnada de um verdadeiro entusiasmo por ideias novas e corajosamente se levanta contra o ‘filistinismo’ inglês”.
Apesar de todos os seus defeitos, o desprezado Hyndman fizera mais do que Bax ou qualquer outro para disseminar as ideias de Marx na nação filistéia. Em 1883, ainda fervoroso discípulo, citou Marx exaustivamente – e, desta vez, com o devido crédito – em seu livro The Historical Basis of Socialism in England. Hyndman até fundou um partido político explicitamente marxista, a Federação Democrática (posteriormente, Federação Social-democrata), cuja liderança era formada por Bax, William Morris, Walter Crane, Eleanor Marx (uma das filhas de Marx) e o namorado dela, Edward Aveling. A entusiástica defesa do Capital feita por Hyndman nos encontros da Federação motivaram o jovem escritor irlandês George Bernard Shaw a dedicar o outono de 1883 ao estudo da edição francesa na sala de leitura do Museu Britânico, de onde o próprio Marx extraíra parte da matéria-prima de sua obra. “Aquele foi o ponto crucial de minha carreira”, lembrava Shaw. “Marx foi uma revelação…. Abriu meus olhos para os fatos da história e da civilização, deu-me uma concepção inteiramente nova do universo, proporcionou-me um propósito e uma missão na vida.” O Capital, escreveu ele, “atingiu a maior façanha que um livro é capaz: mudar a mente das pessoas que o leem”.
A paixão de Shaw pelo Capital jamais se extinguiria, como demonstrou com essa homenagem caracteristicamente extravagante logo na primeira página de Everybody’s Political What’s What, escrito mais de 60 anos depois:

Apenas no século XIX, quando Karl Marx extraiu os relatórios dos inspetores de fábrica de nossos esquecidos livros azuis e revelou todas as atrocidades do capitalismo, o pessimismo e o cinismo atingiram a mais sombria profundidade. Ele comprovou exaustivamente que o capital, ao buscar aquilo que denominou Mehrwerth, que traduzimos por mais-valia (e incluiu aluguel, juros e lucros comerciais), é implacável, e nada o deterá, nem mesmo mutilação, massacre, escravidão branca e negra, droga e bebida, caso prometam-lhe um xelim a mais que os dividendos da filantropia. Antes de Marx, houvera bastante pessimismo. Na Bíblia, o livro do Eclesiástico está cheio disso. Shakespeare, em Rei Lear, Timão de Atenas, Coriolano, bebeu dessa fonte e se fartou. O mesmo fizeram Swift e Goldsmith. Porém, nenhum deles pôde documentar a questão a partir de fontes oficiais como fez Marx. Dessa forma, ele criou aquela demanda por “um novo mundo” que não só inspirou os modernos comunismo e socialismo, mas também se tornou, em 1941, o lema de zelosos conservadores e religiosos.

Shaw teve pouco sucesso em divulgar o evangelho aos colegas da Sociedade Fabiana, na qual ingressou em 1884. Seu amigo H.G. Wells considerava Marx “um teórico enfadonho, egocêntrico e mal-intencionado” que “concedeu aos mais baratos e baixos impulsos humanos a aparência de pretensiosa filosofia”. Sob influência de seu principal teórico, Sidney Webb, os fabianos afastaram o socialismo inglês das noções de luta de classes e revolução rumo à crença de que, com o sufrágio universal, o Estado britânico poderia promulgar a legislação social que melhoraria o bem-estar da classe trabalhadora e a eficácia do sistema econômico.
Este também se tornou o credo dominante do Partido Trabalhista, criado em 1900. O antigo gracejo de que o partido devia mais ao metodismo que a Marx talvez seja um exagero: entre seus adeptos e representantes no Parlamento, contavam-se muitos socialistas que poderiam se considerar marxianos, senão marxistas; em 1947 o partido até editou uma reimpressão do Manifesto Comunista para “reconhecer a dívida com Marx e Engels, que foram a inspiração de todo o movimento da classe trabalhadora”. Entretanto, os líderes trabalhistas sustentaram a visão de Harold Wilson de que o legado de Marx era irrelevante, talvez verdadeiramente prejudicial a um partido constitucional de centro-esquerda.
[…]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

26/01/2026

| 2 | Nascimento



[…]

O Capital originou inúmeras análises a respeito da teoria do valor-trabalho de Marx ou de sua lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto, apenas alguns poucos críticos prestaram a devida atenção ao desejo intenso – declarado por Marx em várias cartas a Engels – de produzir uma obra de arte.
A estrutura multifacetada da obra, que se furta a uma fácil categorização, talvez sirva de entrave. O livro pode ser lido como um vasto romance gótico cujos heróis são escravizados e consumidos pelo monstro que criaram (“escorrem por todos os poros do capital, desde que veio ao mundo, sangue e sujeira da cabeça aos pés”); ou como melodrama vitoriano (em seu estudo de 1962, The Tangled Bank: Darwin, Marx, Frazer e Freud as Imaginative Writers, S.E. Hyman propõe um título para o drama: “A execução da hipoteca da força de trabalho”); ou como farsa negra (ao escarnecer a “objetividade fantasmagórica” da mercadoria para expor a diferença entre a aparência heróica e a realidade inglória, Marx emprega uma das técnicas clássicas da comédia e despe a armadura do galante cavaleiro para revelar um atarracado homenzinho de ceroulas); ou como tragédia grega (“Como Édipo, os atores, no relato feito por Marx sobre a história humana, são tomados por uma inexorável necessidade que se desenrola à revelia de suas ações”, escreve C. Frankel em Marx and Contemporary Scientific Thought. “E, no entanto, tudo que os liga a seu destino é sua própria cegueira trágica – suas idées fixes –, que os impede de ver os fatos antes que seja tarde demais”). Ou talvez seja ele uma utopia satírica como a terra dos Houyhnhnms no romance As viagens de Gulliver, no qual todas as perspectivas são satisfatórias e somente o homem é vil: na versão de Marx sobre a sociedade capitalista, como no pseudoparaíso equino de Jonathan Swift, o falso Éden é criado pela redução dos homens comuns à condição de impotentes, alienados e brutos.
Para fazer justiça à lógica insana do capitalismo, o texto de Marx está saturado de uma ironia que escapou a grande parte dos estudiosos nos últimos 140 anos. Uma exceção é o crítico norte-americano Edmund Wilson, que argumenta, em Rumo à Estação Finlândia: escritores e atores na história, de 1940, que o valor das abstrações de Marx – a dança das mercadorias, o bordado cômico do valor – é essencialmente irônico, justaposto às horrendas e bem documentadas cenas de miséria e depravação criadas na prática pelas leis capitalistas. Wilson considera O Capital uma paródia da economia clássica,

e, uma vez que o lemos, as obras convencionais sobre economia jamais parecerão as mesmas a nossos olhos: sempre podemos vislumbrar por meio de seus argumentos e imagens a cruel realidade das relações humanas que buscam mascarar.

Ninguém, pensa ele, jamais alcançou uma percepção psicológica tão ampla a respeito da infinita capacidade que a natureza humana tem de permanecer cega ou indiferente diante das dores que infligimos aos outros quando temos uma chance de extrair-lhes algo em nosso proveito. “Ao lidar com esse tema, Karl Marx se tornou um dos grandes mestres da sátira. Ele é com certeza o maior autor satírico desde Swift, e ambos têm muito em comum.”
Essa homenagem parece tão hiperbólica ou claramente inverossímil que impõe evidências para comprová-la. Voltemo-nos, portanto, para as póstumas Teorias da mais-valia, o chamado quarto volume do Capital, em que Marx relata as várias tentativas feitas pelos economistas clássicos para distinguir trabalho “produtivo” e “improdutivo”. Na última categoria, Adam Smith colocou “clérigos, advogados, médicos, homens de letras de toda espécie, atores, bufões, músicos, cantores de ópera, dançarinos etc.”, todos “mantidos por uma parte do produto anual do esforço de outras pessoas”. Mas a distinção é realmente tão simples e clara? Marx sugere que cada ocupação imaginável pode ser produtiva, e, para provar isso, utiliza um exemplo aparentemente absurdo:

Um filósofo produz ideias; um poeta, poemas; um clérigo, sermões; um professor, compêndios; e assim por diante. Se observarmos mais de perto a relação entre este último ramo de produção e a sociedade como um todo, talvez possamos nos livrar de inúmeros preconceitos. O criminoso não só produz crimes, mas as leis criminais; e assim também o professor que as ensina e, por conseguinte, o inevitável compêndio no qual esse mesmo docente lança suas exposições, como “mercadorias”, no mercado geral.

O criminoso produz ainda toda a polícia e a justiça criminal, guardas, juízes, carrascos, jurados etc. E todos os diferentes ramos de negócio, que formam igualmente muitas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diversas capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e formas de satisfazê-las. Só a tortura deu origem a muitas e engenhosas invenções mecânicas e empregou muitos artesãos honrados na produção de seus instrumentos.
De acordo com a circunstância, o criminoso produz uma impressão, parcialmente moral e parcialmente trágica, e dessa forma presta um “serviço” ao despertar os sentimentos morais e estéticos do público. Não produz apenas compêndios sobre leis criminais, códigos penais e legisladores especializados, mas também arte, literatura, romances e até tragédias, como demonstram Schuld, de Müllner, e Os salteadores, de Schiller, e também Édipo e Ricardo III. (Se escrevesse hoje, poderia acrescentar, ainda, que sem o crime não haveria John Grisham, nem o inspetor Morse ou Tony Soprano, tampouco James Bond.) O criminoso rompe a monotonia e a segurança cotidiana da vida burguesa. Assim ele a mantém afastada da estagnação e dá origem à inquietante tensão sem a qual se enfraqueceria até mesmo o estímulo da concorrência.
A influência da criminalidade sobre o desenvolvimento da força produtiva pode ser demonstrada em detalhes. Teriam as fechaduras atingido o atual nível de excelência não fossem os ladrões? Teria a fabricação de dinheiro chegado à atual perfeição sem os falsificadores? … E fora da esfera do crime privado: teria o mercado mundial surgido senão graças ao crime nacional? De fato, teriam as nações se formado? E a Árvore do Pecado não é também a do Conhecimento desde o tempo de Adão?
Como lembra Edmund Wilson, esse trecho é comparável à modesta proposta de Swift para eliminar a miséria na Irlanda: convencer os pobres famintos a comerem os filhos excedentes.
No final, entretanto, até mesmo Wilson erra na mão. Algumas poucas páginas depois de louvar a acurada percepção psicológica de Marx e elevá-lo ao panteão dos gênios satíricos, ele protesta contra “a impiedade da motivação psicológica que subjaz à visão de mundo marxiana”, e lamenta que a teoria proposta no Capital seja, “como a dialética, uma mera criação do metafísico que jamais se prostrou diante do economista que havia em Marx”. Isso se assemelha às críticas alemãs ao primeiro volume, que acusavam Marx de “sofista hegeliano”, censura que ele reconhecia com satisfação e sem remorso, admitindo que no Capital conseguira flertar com o estilo expressivo de Hegel. Os flertes dialéticos que tanto ofendem Edmund Wilson compõem a ironia que tanto admira em Marx: as duas técnicas obrigam a realidade aparente a revelar suas culpas mais secretas. Como o filósofo norte-americano Robert Paul Wolff comentou em uma conferência de 1984, “é uma estranha forma de cumprimento considerá-lo o maior escritor satírico desde Swift e depois julgar seus mais sérios esforços intelectuais uma excêntrica metafísica”.
Qual é, assim, a relação entre o discurso literário repleto de ironia e o relato “metafísico” da sociedade burguesa? Ou, como Wolff propõe a questão: “Por que Marx escreve como o faz, se deseja alcançar as tarefas intelectuais que se impõe?” Se desejasse produzir um texto de economia clássica, ele poderia fazê-lo – e de fato o fez. Duas conferências proferidas em junho de 1865, posteriormente publicadas sob o título de Salário, preço e lucro, oferecem uma amostra concisa e lúcida das teorias de Marx sobre mercadorias e trabalho:

Aquele que produz um objeto para seu uso pessoal e direto, para consumi-lo, cria um produto, mas não uma mercadoria…. Uma mercadoria tem um valor por ser a cristalização de um trabalho social…. Em si mesmo, o preço não é outra coisa senão a expressão monetária do valor…. O que o operário vende não é diretamente o seu trabalho, mas a sua força de trabalho, ele cede temporariamente ao capitalista o direito de dela dispor.

E assim por diante. Mesmo com seus méritos como análise econômica, o texto pode ser compreendido por qualquer criança normal: não há metáfora ou metafísica muito elaborada, nenhuma divagação enigmática ou digressões filosóficas, nenhum floreio literário. Então por que O Capital, que percorre o mesmo terreno, apresenta um estilo tão completamente distinto? Teria Marx perdido de súbito o dom da fala objetiva?
Claro que não: por ocasião dessas conferências, ele finalizava o primeiro volume do Capital. Uma pista pode ser encontrada em uma das poucas analogias que se permite em Salário, preço e lucro, quando explica sua crença de que os lucros aumentam com a venda de mercadorias por seu valor “verdadeiro”, e não, como se poderia supor, pela cobrança de um preço mais elevado. “Isso parece um paradoxo e é contrário à observação de todos os dias”, escreve ele.

Parece também paradoxal que a Terra gire ao redor do Sol e que a água seja formada por dois gases altamente inflamáveis. As verdades científicas serão sempre paradoxais se julgadas pela experiência de todos os dias, que capta apenas a aparência enganadora das coisas.

A função da metáfora é fazer as pessoas olharem algo de forma renovada, transferindo as qualidades das coisas para aspectos diferentes, transformando o familiar em algo estranho, e vice-versa. Ludovico Silva, um crítico venezuelano de Marx, baseou-se no significado etimológico de “metáfora” como transferência para argumentar que o próprio capitalismo é uma metáfora, um processo alienante que desloca a vida do sujeito para o objeto, do valor de uso para o valor de troca, do humano para o monstruoso. De acordo com essa leitura, o estilo literário adotado por Marx no Capital não é um verniz reluzente aplicado a uma opaca exposição econômica, como uma camada de geleia numa grossa fatia de pão; é a única linguagem apropriada com a qual se pode expressar “a natureza ilusória das coisas”, um empreendimento ontológico que não pode ser confinado às fronteiras e convenções de um gênero preexistente, tal como a economia política, a ciência antropológica, ou a história. Em suma, O Capital é completamente sui generis. Nada há de remotamente semelhante a ele antes ou depois, o que talvez explique por que é tão constantemente negligenciado ou mal interpretado.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia