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O Capital originou inúmeras
análises a respeito da teoria do valor-trabalho de Marx ou de sua
lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto, apenas alguns
poucos críticos prestaram a devida atenção ao desejo intenso –
declarado por Marx em várias cartas a Engels – de produzir uma
obra de arte.
A estrutura multifacetada da obra, que
se furta a uma fácil categorização, talvez sirva de entrave. O
livro pode ser lido como um vasto romance gótico cujos heróis são
escravizados e consumidos pelo monstro que criaram (“escorrem por
todos os poros do capital, desde que veio ao mundo, sangue e sujeira
da cabeça aos pés”); ou como melodrama vitoriano (em seu estudo
de 1962, The Tangled Bank: Darwin, Marx, Frazer e Freud as
Imaginative Writers, S.E. Hyman propõe um título para o drama:
“A execução da hipoteca da força de trabalho”); ou como farsa
negra (ao escarnecer a “objetividade fantasmagórica” da
mercadoria para expor a diferença entre a aparência heróica e a
realidade inglória, Marx emprega uma das técnicas clássicas da
comédia e despe a armadura do galante cavaleiro para revelar um
atarracado homenzinho de ceroulas); ou como tragédia grega (“Como
Édipo, os atores, no relato feito por Marx sobre a história humana,
são tomados por uma inexorável necessidade que se desenrola à
revelia de suas ações”, escreve C. Frankel em Marx and
Contemporary Scientific Thought. “E, no entanto, tudo que os
liga a seu destino é sua própria cegueira trágica – suas idées
fixes –, que os impede de ver os fatos antes que seja tarde
demais”). Ou talvez seja ele uma utopia satírica como a terra dos
Houyhnhnms no romance As viagens de Gulliver, no qual todas as
perspectivas são satisfatórias e somente o homem é vil: na versão
de Marx sobre a sociedade capitalista, como no pseudoparaíso equino
de Jonathan Swift, o falso Éden é criado pela redução dos homens
comuns à condição de impotentes, alienados e brutos.
Para fazer justiça à lógica insana
do capitalismo, o texto de Marx está saturado de uma ironia que
escapou a grande parte dos estudiosos nos últimos 140 anos. Uma
exceção é o crítico norte-americano Edmund Wilson, que argumenta,
em Rumo à Estação Finlândia: escritores e atores na história,
de 1940, que o valor das abstrações de Marx – a dança das
mercadorias, o bordado cômico do valor – é essencialmente
irônico, justaposto às horrendas e bem documentadas cenas de
miséria e depravação criadas na prática pelas leis capitalistas.
Wilson considera O Capital uma paródia da economia clássica,
… e, uma vez que o lemos, as
obras convencionais sobre economia jamais parecerão as mesmas a
nossos olhos: sempre podemos vislumbrar por meio de seus argumentos e
imagens a cruel realidade das relações humanas que buscam mascarar.
Ninguém, pensa ele, jamais alcançou
uma percepção psicológica tão ampla a respeito da infinita
capacidade que a natureza humana tem de permanecer cega ou
indiferente diante das dores que infligimos aos outros quando temos
uma chance de extrair-lhes algo em nosso proveito. “Ao lidar com
esse tema, Karl Marx se tornou um dos grandes mestres da sátira. Ele
é com certeza o maior autor satírico desde Swift, e ambos têm
muito em comum.”
Essa homenagem parece tão hiperbólica
ou claramente inverossímil que impõe evidências para comprová-la.
Voltemo-nos, portanto, para as póstumas Teorias da mais-valia, o
chamado quarto volume do Capital, em que Marx relata as várias
tentativas feitas pelos economistas clássicos para distinguir
trabalho “produtivo” e “improdutivo”. Na última categoria,
Adam Smith colocou “clérigos, advogados, médicos, homens de
letras de toda espécie, atores, bufões, músicos, cantores de
ópera, dançarinos etc.”, todos “mantidos por uma parte do
produto anual do esforço de outras pessoas”. Mas a distinção é
realmente tão simples e clara? Marx sugere que cada ocupação
imaginável pode ser produtiva, e, para provar isso, utiliza um
exemplo aparentemente absurdo:
Um filósofo produz ideias; um
poeta, poemas; um clérigo, sermões; um professor, compêndios; e
assim por diante. Se observarmos mais de perto a relação entre este
último ramo de produção e a sociedade como um todo, talvez
possamos nos livrar de inúmeros preconceitos. O criminoso não só
produz crimes, mas as leis criminais; e assim também o professor que
as ensina e, por conseguinte, o inevitável compêndio no qual esse
mesmo docente lança suas exposições, como “mercadorias”, no
mercado geral.
O criminoso produz ainda toda a
polícia e a justiça criminal, guardas, juízes, carrascos, jurados
etc. E todos os diferentes ramos de negócio, que formam igualmente
muitas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem
diversas capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e
formas de satisfazê-las. Só a tortura deu origem a muitas e
engenhosas invenções mecânicas e empregou muitos artesãos
honrados na produção de seus instrumentos.
De acordo com a circunstância, o
criminoso produz uma impressão, parcialmente moral e parcialmente
trágica, e dessa forma presta um “serviço” ao despertar os
sentimentos morais e estéticos do público. Não produz apenas
compêndios sobre leis criminais, códigos penais e legisladores
especializados, mas também arte, literatura, romances e até
tragédias, como demonstram Schuld, de Müllner, e Os
salteadores, de Schiller, e também Édipo e Ricardo
III. (Se escrevesse hoje, poderia acrescentar, ainda, que sem o
crime não haveria John Grisham, nem o inspetor Morse ou Tony
Soprano, tampouco James Bond.) O criminoso rompe a monotonia e a
segurança cotidiana da vida burguesa. Assim ele a mantém afastada
da estagnação e dá origem à inquietante tensão sem a qual se
enfraqueceria até mesmo o estímulo da concorrência.
A influência da criminalidade sobre o
desenvolvimento da força produtiva pode ser demonstrada em detalhes.
Teriam as fechaduras atingido o atual nível de excelência não
fossem os ladrões? Teria a fabricação de dinheiro chegado à atual
perfeição sem os falsificadores? … E fora da esfera do crime
privado: teria o mercado mundial surgido senão graças ao crime
nacional? De fato, teriam as nações se formado? E a Árvore do
Pecado não é também a do Conhecimento desde o tempo de Adão?
Como lembra Edmund Wilson, esse trecho
é comparável à modesta proposta de Swift para eliminar a miséria
na Irlanda: convencer os pobres famintos a comerem os filhos
excedentes.
No final, entretanto, até mesmo
Wilson erra na mão. Algumas poucas páginas depois de louvar a
acurada percepção psicológica de Marx e elevá-lo ao panteão dos
gênios satíricos, ele protesta contra “a impiedade da motivação
psicológica que subjaz à visão de mundo marxiana”, e lamenta que
a teoria proposta no Capital seja, “como a dialética, uma
mera criação do metafísico que jamais se prostrou diante do
economista que havia em Marx”. Isso se assemelha às críticas
alemãs ao primeiro volume, que acusavam Marx de “sofista
hegeliano”, censura que ele reconhecia com satisfação e sem
remorso, admitindo que no Capital conseguira flertar com o
estilo expressivo de Hegel. Os flertes dialéticos que tanto ofendem
Edmund Wilson compõem a ironia que tanto admira em Marx: as duas
técnicas obrigam a realidade aparente a revelar suas culpas mais
secretas. Como o filósofo norte-americano Robert Paul Wolff comentou
em uma conferência de 1984, “é uma estranha forma de cumprimento
considerá-lo o maior escritor satírico desde Swift e depois julgar
seus mais sérios esforços intelectuais uma excêntrica metafísica”.
Qual é, assim, a relação entre o
discurso literário repleto de ironia e o relato “metafísico” da
sociedade burguesa? Ou, como Wolff propõe a questão: “Por que
Marx escreve como o faz, se deseja alcançar as tarefas
intelectuais que se impõe?” Se desejasse produzir um texto de
economia clássica, ele poderia fazê-lo – e de fato o fez. Duas
conferências proferidas em junho de 1865, posteriormente publicadas
sob o título de Salário, preço e lucro, oferecem uma
amostra concisa e lúcida das teorias de Marx sobre mercadorias e
trabalho:
Aquele que produz um objeto para
seu uso pessoal e direto, para consumi-lo, cria um produto, mas não
uma mercadoria…. Uma
mercadoria tem um valor
por ser a cristalização de um
trabalho social…. Em si mesmo, o preço
não é outra coisa senão a expressão
monetária do valor…. O que o operário vende não é
diretamente o seu trabalho,
mas a sua força de trabalho,
ele cede temporariamente ao capitalista o direito de dela dispor.
E assim por diante. Mesmo com seus
méritos como análise econômica, o texto pode ser compreendido por
qualquer criança normal: não há metáfora ou metafísica muito
elaborada, nenhuma divagação enigmática ou digressões
filosóficas, nenhum floreio literário. Então por que O Capital,
que percorre o mesmo terreno, apresenta um estilo tão completamente
distinto? Teria Marx perdido de súbito o dom da fala objetiva?
Claro que não: por ocasião dessas
conferências, ele finalizava o primeiro volume do Capital.
Uma pista pode ser encontrada em uma das poucas analogias que se
permite em Salário, preço e lucro, quando explica sua crença
de que os lucros aumentam com a venda de mercadorias por seu valor
“verdadeiro”, e não, como se poderia supor, pela cobrança de um
preço mais elevado. “Isso parece um paradoxo e é contrário à
observação de todos os dias”, escreve ele.
Parece também paradoxal que a
Terra gire ao redor do Sol e que a água seja formada por dois gases
altamente inflamáveis. As verdades científicas serão sempre
paradoxais se julgadas pela experiência de todos os dias, que capta
apenas a aparência enganadora das coisas.
A função da metáfora é fazer as
pessoas olharem algo de forma renovada, transferindo as qualidades
das coisas para aspectos diferentes, transformando o familiar em algo
estranho, e vice-versa. Ludovico Silva, um crítico venezuelano de
Marx, baseou-se no significado etimológico de “metáfora” como
transferência para argumentar que o próprio capitalismo é uma
metáfora, um processo alienante que desloca a vida do sujeito para o
objeto, do valor de uso para o valor de troca, do humano para o
monstruoso. De acordo com essa leitura, o estilo literário adotado
por Marx no Capital não é um verniz reluzente aplicado a uma
opaca exposição econômica, como uma camada de geleia numa grossa
fatia de pão; é a única linguagem apropriada com a qual se pode
expressar “a natureza ilusória das coisas”, um empreendimento
ontológico que não pode ser confinado às fronteiras e convenções
de um gênero preexistente, tal como a economia política, a ciência
antropológica, ou a história. Em suma, O Capital é
completamente sui generis. Nada há de remotamente semelhante
a ele antes ou depois, o que talvez explique por que é tão
constantemente negligenciado ou mal interpretado.
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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