segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

| 2 | Nascimento



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O Capital originou inúmeras análises a respeito da teoria do valor-trabalho de Marx ou de sua lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto, apenas alguns poucos críticos prestaram a devida atenção ao desejo intenso – declarado por Marx em várias cartas a Engels – de produzir uma obra de arte.
A estrutura multifacetada da obra, que se furta a uma fácil categorização, talvez sirva de entrave. O livro pode ser lido como um vasto romance gótico cujos heróis são escravizados e consumidos pelo monstro que criaram (“escorrem por todos os poros do capital, desde que veio ao mundo, sangue e sujeira da cabeça aos pés”); ou como melodrama vitoriano (em seu estudo de 1962, The Tangled Bank: Darwin, Marx, Frazer e Freud as Imaginative Writers, S.E. Hyman propõe um título para o drama: “A execução da hipoteca da força de trabalho”); ou como farsa negra (ao escarnecer a “objetividade fantasmagórica” da mercadoria para expor a diferença entre a aparência heróica e a realidade inglória, Marx emprega uma das técnicas clássicas da comédia e despe a armadura do galante cavaleiro para revelar um atarracado homenzinho de ceroulas); ou como tragédia grega (“Como Édipo, os atores, no relato feito por Marx sobre a história humana, são tomados por uma inexorável necessidade que se desenrola à revelia de suas ações”, escreve C. Frankel em Marx and Contemporary Scientific Thought. “E, no entanto, tudo que os liga a seu destino é sua própria cegueira trágica – suas idées fixes –, que os impede de ver os fatos antes que seja tarde demais”). Ou talvez seja ele uma utopia satírica como a terra dos Houyhnhnms no romance As viagens de Gulliver, no qual todas as perspectivas são satisfatórias e somente o homem é vil: na versão de Marx sobre a sociedade capitalista, como no pseudoparaíso equino de Jonathan Swift, o falso Éden é criado pela redução dos homens comuns à condição de impotentes, alienados e brutos.
Para fazer justiça à lógica insana do capitalismo, o texto de Marx está saturado de uma ironia que escapou a grande parte dos estudiosos nos últimos 140 anos. Uma exceção é o crítico norte-americano Edmund Wilson, que argumenta, em Rumo à Estação Finlândia: escritores e atores na história, de 1940, que o valor das abstrações de Marx – a dança das mercadorias, o bordado cômico do valor – é essencialmente irônico, justaposto às horrendas e bem documentadas cenas de miséria e depravação criadas na prática pelas leis capitalistas. Wilson considera O Capital uma paródia da economia clássica,

e, uma vez que o lemos, as obras convencionais sobre economia jamais parecerão as mesmas a nossos olhos: sempre podemos vislumbrar por meio de seus argumentos e imagens a cruel realidade das relações humanas que buscam mascarar.

Ninguém, pensa ele, jamais alcançou uma percepção psicológica tão ampla a respeito da infinita capacidade que a natureza humana tem de permanecer cega ou indiferente diante das dores que infligimos aos outros quando temos uma chance de extrair-lhes algo em nosso proveito. “Ao lidar com esse tema, Karl Marx se tornou um dos grandes mestres da sátira. Ele é com certeza o maior autor satírico desde Swift, e ambos têm muito em comum.”
Essa homenagem parece tão hiperbólica ou claramente inverossímil que impõe evidências para comprová-la. Voltemo-nos, portanto, para as póstumas Teorias da mais-valia, o chamado quarto volume do Capital, em que Marx relata as várias tentativas feitas pelos economistas clássicos para distinguir trabalho “produtivo” e “improdutivo”. Na última categoria, Adam Smith colocou “clérigos, advogados, médicos, homens de letras de toda espécie, atores, bufões, músicos, cantores de ópera, dançarinos etc.”, todos “mantidos por uma parte do produto anual do esforço de outras pessoas”. Mas a distinção é realmente tão simples e clara? Marx sugere que cada ocupação imaginável pode ser produtiva, e, para provar isso, utiliza um exemplo aparentemente absurdo:

Um filósofo produz ideias; um poeta, poemas; um clérigo, sermões; um professor, compêndios; e assim por diante. Se observarmos mais de perto a relação entre este último ramo de produção e a sociedade como um todo, talvez possamos nos livrar de inúmeros preconceitos. O criminoso não só produz crimes, mas as leis criminais; e assim também o professor que as ensina e, por conseguinte, o inevitável compêndio no qual esse mesmo docente lança suas exposições, como “mercadorias”, no mercado geral.

O criminoso produz ainda toda a polícia e a justiça criminal, guardas, juízes, carrascos, jurados etc. E todos os diferentes ramos de negócio, que formam igualmente muitas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diversas capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e formas de satisfazê-las. Só a tortura deu origem a muitas e engenhosas invenções mecânicas e empregou muitos artesãos honrados na produção de seus instrumentos.
De acordo com a circunstância, o criminoso produz uma impressão, parcialmente moral e parcialmente trágica, e dessa forma presta um “serviço” ao despertar os sentimentos morais e estéticos do público. Não produz apenas compêndios sobre leis criminais, códigos penais e legisladores especializados, mas também arte, literatura, romances e até tragédias, como demonstram Schuld, de Müllner, e Os salteadores, de Schiller, e também Édipo e Ricardo III. (Se escrevesse hoje, poderia acrescentar, ainda, que sem o crime não haveria John Grisham, nem o inspetor Morse ou Tony Soprano, tampouco James Bond.) O criminoso rompe a monotonia e a segurança cotidiana da vida burguesa. Assim ele a mantém afastada da estagnação e dá origem à inquietante tensão sem a qual se enfraqueceria até mesmo o estímulo da concorrência.
A influência da criminalidade sobre o desenvolvimento da força produtiva pode ser demonstrada em detalhes. Teriam as fechaduras atingido o atual nível de excelência não fossem os ladrões? Teria a fabricação de dinheiro chegado à atual perfeição sem os falsificadores? … E fora da esfera do crime privado: teria o mercado mundial surgido senão graças ao crime nacional? De fato, teriam as nações se formado? E a Árvore do Pecado não é também a do Conhecimento desde o tempo de Adão?
Como lembra Edmund Wilson, esse trecho é comparável à modesta proposta de Swift para eliminar a miséria na Irlanda: convencer os pobres famintos a comerem os filhos excedentes.
No final, entretanto, até mesmo Wilson erra na mão. Algumas poucas páginas depois de louvar a acurada percepção psicológica de Marx e elevá-lo ao panteão dos gênios satíricos, ele protesta contra “a impiedade da motivação psicológica que subjaz à visão de mundo marxiana”, e lamenta que a teoria proposta no Capital seja, “como a dialética, uma mera criação do metafísico que jamais se prostrou diante do economista que havia em Marx”. Isso se assemelha às críticas alemãs ao primeiro volume, que acusavam Marx de “sofista hegeliano”, censura que ele reconhecia com satisfação e sem remorso, admitindo que no Capital conseguira flertar com o estilo expressivo de Hegel. Os flertes dialéticos que tanto ofendem Edmund Wilson compõem a ironia que tanto admira em Marx: as duas técnicas obrigam a realidade aparente a revelar suas culpas mais secretas. Como o filósofo norte-americano Robert Paul Wolff comentou em uma conferência de 1984, “é uma estranha forma de cumprimento considerá-lo o maior escritor satírico desde Swift e depois julgar seus mais sérios esforços intelectuais uma excêntrica metafísica”.
Qual é, assim, a relação entre o discurso literário repleto de ironia e o relato “metafísico” da sociedade burguesa? Ou, como Wolff propõe a questão: “Por que Marx escreve como o faz, se deseja alcançar as tarefas intelectuais que se impõe?” Se desejasse produzir um texto de economia clássica, ele poderia fazê-lo – e de fato o fez. Duas conferências proferidas em junho de 1865, posteriormente publicadas sob o título de Salário, preço e lucro, oferecem uma amostra concisa e lúcida das teorias de Marx sobre mercadorias e trabalho:

Aquele que produz um objeto para seu uso pessoal e direto, para consumi-lo, cria um produto, mas não uma mercadoria…. Uma mercadoria tem um valor por ser a cristalização de um trabalho social…. Em si mesmo, o preço não é outra coisa senão a expressão monetária do valor…. O que o operário vende não é diretamente o seu trabalho, mas a sua força de trabalho, ele cede temporariamente ao capitalista o direito de dela dispor.

E assim por diante. Mesmo com seus méritos como análise econômica, o texto pode ser compreendido por qualquer criança normal: não há metáfora ou metafísica muito elaborada, nenhuma divagação enigmática ou digressões filosóficas, nenhum floreio literário. Então por que O Capital, que percorre o mesmo terreno, apresenta um estilo tão completamente distinto? Teria Marx perdido de súbito o dom da fala objetiva?
Claro que não: por ocasião dessas conferências, ele finalizava o primeiro volume do Capital. Uma pista pode ser encontrada em uma das poucas analogias que se permite em Salário, preço e lucro, quando explica sua crença de que os lucros aumentam com a venda de mercadorias por seu valor “verdadeiro”, e não, como se poderia supor, pela cobrança de um preço mais elevado. “Isso parece um paradoxo e é contrário à observação de todos os dias”, escreve ele.

Parece também paradoxal que a Terra gire ao redor do Sol e que a água seja formada por dois gases altamente inflamáveis. As verdades científicas serão sempre paradoxais se julgadas pela experiência de todos os dias, que capta apenas a aparência enganadora das coisas.

A função da metáfora é fazer as pessoas olharem algo de forma renovada, transferindo as qualidades das coisas para aspectos diferentes, transformando o familiar em algo estranho, e vice-versa. Ludovico Silva, um crítico venezuelano de Marx, baseou-se no significado etimológico de “metáfora” como transferência para argumentar que o próprio capitalismo é uma metáfora, um processo alienante que desloca a vida do sujeito para o objeto, do valor de uso para o valor de troca, do humano para o monstruoso. De acordo com essa leitura, o estilo literário adotado por Marx no Capital não é um verniz reluzente aplicado a uma opaca exposição econômica, como uma camada de geleia numa grossa fatia de pão; é a única linguagem apropriada com a qual se pode expressar “a natureza ilusória das coisas”, um empreendimento ontológico que não pode ser confinado às fronteiras e convenções de um gênero preexistente, tal como a economia política, a ciência antropológica, ou a história. Em suma, O Capital é completamente sui generis. Nada há de remotamente semelhante a ele antes ou depois, o que talvez explique por que é tão constantemente negligenciado ou mal interpretado.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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