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30/07/2013

Um disco fundamental da MPB: Catullo, o poeta do sertão

Catullo, o poeta do sertão
Paulo Tapajós (1957)


A imagem do Nordeste brasileiro esteve durante muito tempo estereotipada no Sul do país: para os de baixo, o povo do norte, como eles também chamavam, era uma gente profundamente religiosa, mística, ainda o é, mas também exótica em seus costumes, fazia parte de um Brasil impenetrável e desconhecido, principalmente no final do século XIX e início do século XX. As atenções para seus graves problemas sociais vieram à tona de certa maneira com a publicação do livro Os sertões, de Euclides da Cunha que retrata com fidelidade o embate de Canudos e faz uma interpretação sobre o ser sertanejo.
Fora algumas poucas intervenções governamentais, seja no Império ou no nascedouro republicano, o Nordeste era uma terra de ninguém, pois o país vivia e respirava os ares da “cidade luz tropical”, o Rio de Janeiro, e a cultura pátria era medida pelo que nela se realizava, claro, que outros estados como por exemplo, São Paulo, tinham uma certa influência cultural “civilizatória', mas indiscutivelmente era a então capital do país que puxava o samba enredo da recém criada Escola de Samba Unidos da República Federativa do Brasil.
Mas se o sertanejo nordestino sempre foi um forte em sua luta pela sobrevivência, foi também um obstinado divulgador de sua própria cultura, não deixando ainda que a região figurasse apenas como um apêndice na geografia política do país e sim elemento integrador de uma nação plena de brasilidade, com suas características regionais próprias, mas sobretudo definindo a noção de nossa pluralidade cultural e reafirmando o conceito pleno de nação em sua totalidade. Assim a contribuição do Nordeste iria se somar a de outras regiões e o Brasil poderia descobrir-se sem discussão de mérito, pois a disputa em questão passaria ao largo de preconceitos ou discriminações e serviria como afirmativa de nossa identidade.
Desse modo, a partir do pressuposto da nacionalização de nossa cultura, os temas nordestinos tomam de assento o Rio de Janeiro aproveitando-se da sua importância enquanto caixa de ressonância nacional e passam a ser explorados por artistas e intelectuais vinculados as suas tradições regionais para divulgar o que poucos conheciam, ou fingiam apenas que existia.
Entre esses personagens responsáveis por essa nacionalização/integração nordestina destaca-se Catulo da Paixão Cearense, cuja referência ao valoroso estado nordestino encontra-se apenas no sobrenome, pois nasceu na cidade de São Luís do Maranhão, em 31 de janeiro de 1863. Em 1880 foi residir no Rio de Janeiro com a família. Na capital do império frequentou rodas de estudantes, foi boêmio, estivador, escriturário, mas sobretudo poeta e violonista, atividades que o consagrariam como uma das mais importantes figuras de seu tempo. Acompanhou de perto o crescimento da modinha enquanto gênero de música urbana largamente executada em serenatas, sendo o seu grande impulsionador nos finais do século XIX e nas primeiras décadas do seguinte.
Como poeta torna-se uma celebridade e o Nordeste, o seu chão, a razão maior de sua poética. Seus livros vendiam-se aos milhares e com eles descortinava um imenso horizonte para uma compreensão maior desse lado do Brasil. Obras como O marrueiro, Sertão em flor, Alma do sertão, Um caboclo brasileiro, Mata iluminada, O milagre de São João, O sol e a lua e muitas outras revelaram liricamente um Brasil que os brasileiros precisavam conhecer. Mas se seus versos eram largamente recitados e conhecidos por todos, suas modinhas, ou as letras que fez para canções alheias, tinham o mesmo sentimento lírico das noites enluaradas inebriadas pelo mágico encantamento das serenatas noturnas da cidade que o abraçou, numa perfeita comunhão entre o sertanejo puro e o urbano boêmio e sentimental. Dois personagens num só, a união perfeita de um Brasil que se mostra por inteiro, sem divisionismos e onde a predominância de uma identificação matriz se une a uma cultura urbana e é essa mistura na medida certa que da o caráter definidor de nosso caráter.
Como modinheiro, Catulo produziu uma obra vastíssima e ajudou a fazer mais felizes as noites de luar de nosso país. Parte dessa sua contribuição à música popular brasileira esta registrada em três LPs produzidos pela gravadora Sinter entre os anos de 1955 e 1959 com interpretações do radialista, cantor e compositor Paulo Tapajós. Em 1957 após o sucesso do primeiro LP em 10 polegadas denominado Luar do sertão, é gravado o disco Catulo, o poeta do sertão, com um repertório de canções representativas do momento áureo da modinha brasileira. Dentre elas destacam-se, Vai ó meu amor ao campo santo e Os olhos dela, com Irineu de Almeida; Clélia, com Luiz de Souza; O poeta do sertãoTalento e formosura, com Edmundo Otávio Ferreira; Rasga o coração e Palma de martírio, com Anacleto de Medeiros.
Todas essas músicas foram gravadas em disco nos primeiros anos do século vinte e embalaram os corações do povo brasileiro. Nelas, o poeta/compositor se deixa entregar por inteiro traduzindo em versos e melodia um momento mágico de nossa cultura musical.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

01/06/2013

Um disco fundamental da MPB: Orfeu da Conceição (1956)


A função da música popular não é apenas ser um elemento de entretenimento fugaz como acontece hoje em dia com os "sucessos" fabricados a cada instante pelas gravadoras e divulgados pela grande mídia. Nos tempos de hoje o que mais se vê são canções com tiradas poéticas de tirar o fôlego de qualquer pessoa que tenha um pouco mais de sensibilidade e senso de ridículo. As letras de nossas canções atuais, diga-se de passagens, há exceções, são de um primarismo terrível, absolutamente medíocres, o que de certo modo retrata o pouco caso dado a esse componente fundamental na realização da obra musical, ou, e esse é o problema que mais nos preocupa, o baixo nível de escolarização de nossos atuais compositores, se é que podemos assim chamá-los.
A situação é tão desesperadora que nos parece que a crise sócio/econômica que passa o país atingiu parâmetros estarrecedores na área cultural e reflete nos baixos índices de avaliação educacional que são divulgados a todo instante. Ora, é muito mais fácil escrever qualquer bobagem e conquistar fama e dinheiro do que esquentar o precioso tempo em bancos escolares. Em nome da "cultura", criamos um país de iletrados, em prol do sucesso, destruímos os mais elementares sinais de respeito à língua portuguesa. Mas de que adianta ficar reclamando, afinal de contas, esse estado de coisas esta tão disseminado que qualquer atitude contrária será logo recebida como reacionária e elitista, que assim seja, não me importo, pois pelo menos me dou o direito de estabelecer um nível de discernimento que me imuniza contra essa proliferação inculta e deletéria em que se envolveu a nossa tão bela e rica música popular, mas antes que alguém diga que isso sempre existiu, que o discurso é velho e datado, devo dizer que nunca e em nenhum período de nossa história musical, chegamos aos níveis de mediocridade quanto aos que nos encontramos nos dias atuais. Viva o Axé sertanejo pagodeiro!
Deixemos, contudo, esses conceitos que não irar mudar o quadro existente e vamos falar de Música Popular Brasileira, assim mesmo com as iniciais em maiúsculas, verdadeira, poética, culturalmente correta, eterna, linda e terna. Existem muitos aspectos em nossa canção popular que precisam ser estudados com mais atenção, um deles é sua inclusão em teatro, cinema ou televisão, compondo trilhas de peças, filmes e em alguns casos isolados e antigos, de algumas telenovelas, quando essas tinham por objetivo maior um trabalho de arte/cultura mais elaborado onde as trilhas sonoras era uma parte fundamental.
Um dos momentos mais brilhantes de nosso teatro deu-se com a estreia em 25 de janeiro de 1956 no Teatro Nacional do Rio de Janeiro da peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer. A História baseava-se na tragédia grega do mito Orfeu, músico da Trácia e cuja lira tinha o poder de encantar os animais numa perfeita comunhão do homem com a natureza. Adaptada para a ambientação de uma favela carioca onde não faltavam os elementos associativos do carnaval e das escolas de samba, o protagonista Orfeu, que a todos fascinava, iria se envolver com Eurídice, sua bem amada e após a sua morte iria buscá-la mergulhado num misto de trevas e paixão tentando resgatá-la para si.
O sucesso da peça foi muito grande e protagonizado por atores negros como Haroldo Costa (Orfeu), Lea Garcia (Mira) e Dirce Paiva (Eurídice). Aproveitando o momento a Odeon lançou um LP com a sua trilha sonora contendo a belíssima Valsa de Eurídice, de Vinicius de Moraes em arranjo instrumental e as suas canções com Tom Jobim, Um nome de mulher; Mulher, sempre mulher; Eu e o meu amor; Lamento do morro e a inesquecível Se todos fossem iguais a você. O disco ainda traz o Monólogo de Orfeu, declamado por Vinicius. A orquestração e os arranjos foram feitos por Tom Jobim, as canções interpretadas por Roberto Paiva e o acompanhamento de violão por Luiz Bonfá.
 Um disco histórico responsável pela união primeira de dois gigantes, Tom e Vinicius, que com sua arte souberam extrair momentos eternos de nossa canção popular, cujos frutos iriam desembocar na Bossa Nova e depois com a trajetória individual de cada um, onde a poesia e a música iriam encontrar um pouso seguro e os nossos ouvidos seriam respeitados em sua dignidade.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

29/03/2013

Um disco fundamental da MPB

Nara Leão 
Opinião de Nara (1964)

Durante muitos anos, boa parte do repertório musical brasileiro gravado ficou esquecido nas prateleiras de lojas de discos ou em sebos, ocasionando uma procura muito grande daqueles que buscavam manter uma boa discoteca e/ou ouvir novamente grandes momentos de nossa canção popular. Muitos dos antigos LPs mesmo quando eles reinavam no mercado não eram relançados, e assim as novas gerações pouco conheciam do trabalho de cantores e intérpretes. As já famosas coletâneas lançavam apenas o básico do repertório de cada artista e se repetiam sempre. Com o advento do CD descobriu-se que uma maneira de esquentar as vendas do mercado fonográfico: seriam as gravadoras abrirem seus arquivos e relançarem discos históricos e fundamentais, resgatando assim um patrimônio musical inigualável e, por consequência direta, conservar de forma definitiva antigas matrizes, além, é claro, de despertar o interesse por antigos artistas que fizeram a história da música popular brasileira.
Apesar do esforço, muitos discos acabaram tendo uma tiragem pequena, porém a sua distribuição na maioria das vezes precária não se preocupou em fazer retorná-los a grandeza que tinham quando foram originalmente lançados e, dessa maneira, muitos ainda continuam esquecidos nas prateleiras das lojas, e o publico pouco sabe da sua existência, agora sob novo formato e com a gravação restaurada. É uma pena, pois um trabalho como esse merecia mais cuidado, até porque em tais relançamentos incidem custos que se não derem o resultado financeiro esperado, já que ninguém faz nada para ter prejuízo, a tendência é diminuir o ritmo de relançamentos, perdendo com isso o público e a memória de nossa canção.
Por outro lado, também muitas dessas iniciativas acabam obtendo o êxito almejado por estarem sob os cuidados de profissionais que sabem exatamente o que e porque estão empenhados nessa luta em prol da revalorização da música nacional. Estas palavras iniciais são para nos remeter aos oportunos lançamentos que já vem ocorrendo a alguns anos das obras completas de grandes interpretes/compositores, e no caso especifico nestas linhas falaremos de um LP de Nara Leão que faz parte das duas caixas com o total de sua discografia, relançada e remasterizada no formato digital.
O disco em questão é Opinião de Nara e é fundamental para uma discografia básica de música brasileira por diversos fatores, dentre eles o fato de ter despertado em Oduvaldo Viana Filho a ideia a partir de seu título de produzir um dos mais importantes shows de música brasileira em todos os tempos, Opinião, que contou além de Nara, com a participação de Zé Kéti, João do Vale e foi o responsável pelo lançamento de Maria Bethânia.
A gravação produzida pelo selo Philips iniciou-se em setembro de 1964 em São Paulo, no estúdio da Rádio Gazeta, e contava com a participação do maestro Erlon Chaves ao piano, Tião Neto no baixo e Edson Machado na bateria, sendo depois concluída no estúdio da Phonogram no Rio de Janeiro. Nara Leão nessa ocasião vinha se distanciando do rótulo de musa da Bossa Nova e partia para um repertório cada vez mais engajado: vivíamos os primeiros momentos da ditadura e a perspectiva futura era muito sombria, por outro lado, havia a forte influência em sua carreira dos compositores e das ideias oriundas dos CPCs os Centros Populares de Cultura da UNE – União Nacional dos Estudantes.
Este seu segundo LP seguiria as bases do repertório do seu primeiro trabalho produzido por Aloysio de Oliveira para a gravadora Elenco e contava com uma seleção de músicas que misturava os sambas de Zé Kéti e João do Vale indo aos compositores de sua geração como Edu Lobo e Baden Powell e outros como Tom Jobim,Vinicius de Moraes e Sérgio Ricardo. Nessa salada musical bem dosada não faltaram canções líricas como Derradeira primavera, de Tom e Vinicius, os sambas Labareda e Deixa, de Baden e Vinicius, Em tempo de adeus, de Edu Lobo e Ruy Guerra, Opinião e Acender as velas, de Zé Kéti, Chegança, de Edu Lobo e Oduvaldo Viana Filho, Sina de caboclo, de João do Vale e J. B. de Aquino, que tratava de reforma agrária e Esse mundo é meu, de Sergio Ricardo, que deram o toque político do disco.
Acrescente-se ainda Berimbau, de João Melo e Clodoaldo Brito, Na roda de capoeira, do folclore baiano e a clássica marcha Malmequer, de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar, sucesso do carnaval de 1941, inaugurando um hábito de Nara que era incluir em cada um de seus discos um antigo clássico da música brasileira. Destaque também para a introdução de Opinião, de Zé Kéti, que por sugestão de Glauber Rocha, que aliás deus vários palpites no disco, vem precedida por batidas de tambores, relembrando toques marciais militares, a fim de não nos esquecermos que vivíamos momentos de um poder político oriundo das casernas.
Juntando-se tudo isso temos um disco permanente, autoral, indispensável, uma intérprete inesquecível e o melhor da música popular brasileira contemporânea. Que seja, pois, bem vindo de volta às nossas casas.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

15/01/2013

Um disco fundamental da MPB

Luiz Melodia
Pérola Negra - 1973

A inegável influência negra na música brasileira transformou-a numa das mais ricas do planeta, se não fossem nossos irmãos africanos que para aqui vieram sofrer no cativeiro infortúnios de toda ordem não teríamos a oportunidade de penetrar e incorporar toda a sua riqueza cultural, mas se o preço para essa inserção da cultura negra em nossos costumes foi muito dura e cruel, o que dela temos hoje é um patrimônio inestimável. Deve-se também aqui exaltar a obstinação e a luta de nossos ancestrais africanos em não deixar que suas matrizes culturais fossem excluídas da convivência cotidiana de nossa sociedade, impondo-a com muita luta a sua penetração e adquirindo ao longo da história o lugar de destaque que hoje muito nos orgulha. Dessa contribuição temos no caso da música popular o samba como a sua maior representação. Contudo, é importante ressaltar que o Brasil mesmo conservando a sua integridade cultural sempre esteve aberto a sofrer influências de outros povos e a incorporá-las ao nosso acervo artístico, subtraindo dessas manifestações alienígenas apenas a forma, mas enriquecendo-a com um conteúdo nosso. Desse modo, tudo o que aqui se produz ou se produziu acaba tendo uma conotação verde e amarela.
É claro que há algumas exceções como, por exemplo, o funk e o rap que incorporam elementos da cultura negra norte americana e transformam nossos jovens de periferia ou morros em meros coadjuvantes de negros americanos de bairros como o Bronks de Nova Iorque, numa inconsciente tentativa de sobreviver a sombra e ao espelho de seus pares da América do Norte. Mas se a problemática social daqui é mais cruel e existem especificidades que nos diferenciam dos americanos, nada justifica que copiemos uma arte que só tem características nacionais apenas no modo de se expressar literariamente, se é que podemos chamar de literatura as letras de raps e funks (argh!). De resto, roupas, acessórios, modo de ver e sentir a vida espelham-se nos seus ídolos da parte rica do planeta sonhando em ser um dia como eles.
Mas se a visão pode ser contestada ou até considerada radical por muitos, vejamos o que seja então cultura brasileira formada por influências musicais estrangeiras, mas inegavelmente com sabor brasílico, puro. Essa fusão rítmica que invadiu nossa praia nos finais dos anos sessenta e adquiriu substância no início da década seguinte teve alguns representantes que hoje são tidos como elementos fundamentais para a compreensão da música popular enquanto atividade cultural e de afirmação de nacionalidade.
Logo depois da consagração de Jorge Ben, do surgimento da Tropicália e da ascensão de Tim Maia, novas tendências se vislumbravam para a música popular, que buscava caminhos alternativos para uma afirmação cultural que não desprezava o que estava sendo realizado fora de nossas fronteiras, mas buscando nela elementos que incorporados ao nosso padrão tradicional revitalizariam a nossa canção e daria a ela uma feição contemporânea e universal. Essa visão estava baseada principalmente na fusão do rock, do blues e da black music com a tradicional MPB. Um dos artistas que souberam captar este momento produzindo uma arte pessoal e intranferível foi o carioca do morro do Estácio, Luiz Melodia. Nascido num berço do samba, a sua música receberia influências que a unia a tradição de bambas como Ismael Silva, Newton Bastos, Alcebíades Barcelos e Armando Marçal, incorporando elementos tropicalistas fundindo-os com o som que vinha da terra dos ianques, nacionalizando-o e surpreendendo pela qualidade literária e musical, ou seja, revelando uma nova linguagem de produzir música brasileira.
Depois de ter algumas de suas composições gravadas por nomes como Gal Costa, Pérola negra, título de uma de suas mais conhecidas canções, composta inicialmente com o nome de My black mas substituída a pedido do poeta baiano Wally Salomon que a apresentou a Gal tendo esta interpretado e lançado do disco show Fa-tal. O sucesso foi imediato e o nome de Luiz Melodia começava a se firmar de modo irreversível. Em 1972 Maria Bethania gravaria no LP Drama outro sucesso do jovem compositor, Estácio, holly Estácio, música em que se observa divisões rítmicas inusitadas, realçando a sua musicalidade ao nível da própria camada fônica do texto.
De bem com o sucesso como compositor, faltava se apresentar como intérprete de suas próprias obras, desse modo lança seu primeiro disco em 1973 com o título de Pérola negra, surgido com uma provocante mistura de estilos musicais como por exemplo, pop em Vale quanto pesa; forró, em Forró de janeiro; rock balada, em Objeto h, soul em, Abundantemente morte, rock, em Pra aquietar; choro, em Estácio eu e você, mpb/pop em Magrelinha, a surpreendente Farrapo humano em que ele transita por diversos estilos conseguindo nessa fusão rítmica uma linguagem que retrata seu universo trágico e violento, caracterizado pela sua origem de menino pobre dos morros cariocas, alem das já citadas e gravadas pelas intérpretes baianas.
Um caldeirão da mais alta qualidade que revela a busca de novas tendências musicais cujos resultados é a universalização da música brasileira mantendo, porém, sua essência preservada. Desse modo, através da sensibilidade e percepção artística de Luiz Melodia, vemos que quando a influência é digerida na dose certa, ela acaba por se tornar um produto de marca registrada verde e  amarela, afinal é preciso olhar para frente, observar tendências, absorvê-las, mas manter-se fiel a tradição, isso é, revigorar e amadurecer a nossa estética musical, já a cópia, é um sinal oposto a todas essas questões. Desse modo, ouvir Luiz Melodia, neste disco clássico/contemporâneo é poder observar que a música brasileira se adequa, mas não perde sua integridade, e é assim que deve ser, sempre.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

12/10/2012

Um disco fundamental da MPB

Inimitável
Agostinho dos Santos (1959)

 Qual o legado que um artista pode dar ao seu país? A sua obra como referência? O seu engajamento político como elemento ativo dos problemas sociais sugerindo mudanças e emprestando seu prestígio para diminuir as diferenças? Qual afinal o seu objetivo? Muitos afirmam que um artista tem um compromisso firmado com sua gente, pois ele o representa em sua arte e suas opiniões são levadas em conta quando se discute os caminhos e descaminhos da pátria. A visibilidade alcançada pela celebridade conquistada o faz ser um porta-voz dos anseios da sociedade, e se ele se faz representar com mais destaque num determinado segmento da população, todos verão nele o espelho de suas angústias e esperanças estando sempre dispostos a aplaudi-lo quando sua mensagem for ao encontro dos clamores populares.
Evidentemente que nem todos se colocam no cenário como protagonistas de tamanhas responsabilidades e preferem serem reconhecidos única e exclusivamente pelo legado de sua obra, ou seja, a satisfação que ela causa nas pessoas transmitindo-lhes paz, reconforto nos momentos difíceis e acima de tudo um elevado estado de espírito. Uma das expressões artistas de mais densidade em nossa sociedade é a música, isso porque somos um país essencialmente musical e a qualidade de nossa canção nos toca muito na alma, elevando os nossos sentimentos e tornando-nos mais felizes. É claro que estamos falando de uma música que tenha uma mensagem que nos fala fundo e que nos faça dela sempre recordar com carinho e paixão. Não precisa ter versos rebuscados e sim uma mensagem que englobe sentimentos nobres e, é claro, uma melodia agradável que não fira os nossos ouvidos. Infelizmente hoje em dia nem toda música que ouvimos nos causa esse sentimento inebriante, embriagador, o que acaba contribuindo para uma crescente diminuição da nossa sensibilidade estimulando comportamentos que em nada favorecem a nossa evolução moral e ética.
Contudo, houve um tempo em que a canção popular se vestia desse compromisso fundamental de levar aos lares e aos corações das pessoas algo sublime, um fervor sentimental que se perpetuava, era como uma referência existencial, a representação de um momento inesquecível ou de uma época evocada sempre como as mais felizes de nossas vidas, ou seja, a canção popular penetrava tanto dentro de nós que dela nunca nos afastaríamos, fazia parte da gente, complementando a nossa existência e a nossa história.
Muitos intérpretes ficaram imortalizados por proporcionarem momentos tão encantadores, pois a beleza de suas interpretações e mensagens contidas em suas canções revelava os nossos sentimentos mais íntimos e ao longo da vida o eco de suas vozes nos acompanhavam permanentemente. Dentre os cantores brasileiros que conseguiu reunir todas essas virtudes, destaca-se o fabuloso Agostinho dos Santos.
Artista excepcional e dono de um timbre de voz único na música popular brasileira, a suavidade de seu canto nos proporciona momentos de grande enlevo. Nascido em São Paulo em 25 de abril de 1932, muito cedo despertou para música e a arte de interpretar. Aos 23 anos em 1955 já era contratado da Rádio Nacional de São Paulo, apresentando-se também na Rádio Mayrink Veiga no Rio de Janeiro e gravando seu primeiro sucesso, a canção Meu benzinho, versão de My little one, de Frank Lane, recebendo os troféus Roquete Pinto e Disco de Ouro. A sua ascensão foi rápida tornando-se num dos mais aplaudidos cantores brasileiros. Seus discos eram garantia de sucesso e primavam pela qualidade do repertório. Em 1959, já contratado pela RGE, depois de ter lançado belíssimos discos na Polydor, grava um LP denominado “O Inimitável Agostinho dos Santos”, incluindo o grande sucesso A felicidade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes por ele interpretada na trilha sonora do filme Orfeu do Carnaval e reunindo, dentre outras, algumas das mais representativas canções da musica popular brasileira na época como, Hino ao sol, de Billy Blanco; Eu sei que vou te amar, de Tom e Vinicius; A noite de meu bem e Fim de caso, de Dolores Duran; Não tem solução, de Dorival Caymmi e Carlos Guinle; Canção do amor, de Luiz Bonfá e Antônio Maria; As aparências enganam, de Lupicínio Rodrigues e Canção da volta, de Ismael Neto e Antônio Maria.
Agostinho dos Santos durante toda sua vida prezou pela qualidade de seu repertorio não se dando a concessões de cunho comercial, sua obra é um dos mais preciosos legados de nosso cancioneiro e sua voz é única e nunca foi inigualada, porque ninguém conseguiu cantar como ele, apenas um certo cantor americano, Nat King Cole, reverenciado como celebridade mundial numa época em que o nosso astro em nada lhe devia ao estilo e em talento, sendo, pois, irmãos em arte e exuberância interpretativa.
A juventude de hoje precisa redescobrir Agostinho dos Santos. O Brasil não o pode esquecer e a cultura brasileira deve reverenciá-lo sempre, para que ele não fique apenas como uma doce e radiante lembrança, cuja estrela neste mundo se apagou no triste desastre aéreo com o Boeing da Varig no Aeroporto de Orly em Paris no dia 12 de julho de 1973. Naquele instante ele apenas deixou de gravar e estar fisicamente entre nós, mas o seu legado, este permanecerá sempre e quem tiver um pouco de sentimento e sensibilidade nunca deixará de ouvi-lo, pois ele foi e sempre será eterno.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

23/09/2012

Um disco fundamental da MPB

Caetano Veloso - 1968

As mudanças operadas na sociedade brasileira a partir da segunda metade dos anos sessenta foram muito profundas e assentaram as bases do pensamento e do sentimento nacional em relação ao conceito de pátria. Vivíamos um período onde a cada dia verificava-se uma crescente diminuição das liberdades individuais, fruto do progressivo fechamento do regime instaurado a partir de março de 1964, que entre outras coisas não admitia que sua autoridade fosse contestada. Acontece que o mundo respirava o ambiente da contestação, da renovação de valores, não se admitindo mais nenhum tipo de autoritarismo que viesse cercear as ideias e o ideal de liberdade que estava presente na mente e nos corações dos jovens, esses os protagonistas dessa mudança de mentalidade proposta.
A cada dia acirravam-se os embates entre aqueles que almejavam um mundo livre, onde reinaria o “paz e amor” e os outros que desejavam sufocar essas tentativas de transformação em prol de um ideário baseado no conceito de esquerda/direita, comunismo/capitalismo, discursos esses que se enquadravam no esqueça ideológico da guerra fria. Se para alguns a América Latina tinha criado seus mitos nas figuras de Che Guevara e Fidel Castro, os americanos do norte haviam em nome dessa propalada escalada de contra ofensiva comunista resolvido enviar tropas ao Vietnã para intrometer-se numa situação política local transformando-a num sangrento embate onde os maiores perdedores, como sempre acontece, foram as populações civis e os soldados que para la iam como buchas de canhão para servirem a um ideal que nem eles mesmos sabiam qual era. O resultado foi a fragorosa derrota da superpotência, tendo que retirar suas tropas de forma humilhante, mas que infelizmente não foram suficientes para lhe servirem de lição.
No centro das atenções mundiais estavam os artistas populares que buscavam através da arte serem os porta-vozes de uma geração que vivia em conflito ideológico, mas que no fundo sabiam o que desejavam, expressando-se de maneira livre e tornando-se os realizadores da trilha sonora de um dos períodos mais interessantes da nossa história contemporânea.
Foi com esse sentimento e também buscando um retorno a nossas mais legitimas tradições, com um diálogo nativista, transgressor e revolucionário que um grupo de baianos a partir de 1967 se transformariam na consciência e na discussão do que é ser brasileiro, transgredindo regras de comportamento, impondo opiniões conflitantes/contraditórias, porém demonstrando que não estávamos fora do alcance dos acontecimentos mundiais, eles apenas precisariam ser recontextualizados com nosso ideário de pátria, nação, nacionalidade, modernidade e apontar os rumos que essa discussão iria provocar para o nosso desenvolvimento e amadurecimento futuros.
Com esse clima surgem então Caetano Veloso e Gilberto Gil na ponta do processo e com eles e sua arte/manifesto algumas das mais interessantes mensagens musicais de período histórico recente. Depois de ter participado do Festival da Canção da TV Record e lançado um primeiro disco com Gal Costa, Caetano nos brinda com um LP que tem a sua visão pessoal e o seu posicionamento nesse ambiente de mutação constante.
O disco que traz na capa seu nome e foi lançado em 1968, um ano emblemático para o nosso país, nos revela canções como Tropicália onde o discurso da modernidade transformadora/contestadora se insere com uma colagem critica do contexto nacional; Soy loco por ti América, numa mistura de rumba, cumbia e mambo, com parte da letra em espanhol é um libelo a favor da revolução comunista/socialista cubana e uma homenagem a Che Guevara recentemente assassinado; Superbacana com uma batida pop aproveita sem cerimônia inúmeros clichês da época numa interessante colagem literária, Alegria, alegria, com sua múltipla e fragmentária imagem de nossa sociedade inaugura uma nova linguagem urbana na musica brasileira tem o acompanhamento do grupo argentino Beat Boys que com suas guitarras elétricas provocou uma grande polemica alimentada por aqueles que defendiam um nacionalismo musical e não aceitavam a introdução de instrumentos típicos do Rock and Roll em nossa canção popular.
Destaque ainda para Clarice que entrou de última hora por Caetano considerá-la muito tradicional e não se engajar no espírito do disco e acabou tornando-se num de seus destaques pela beleza da poesia e da melodia; Paisagem útil, Clara, Anunciação e Eles que demonstram em sua estrutura uma postura poética influenciada pela mensagem modernista e antropofágica de autores como Mario de Andrade e Oswaldo de Andrade, um retorno às nossas tradições interioranas com Ave Maria, uma autobiografia em No dia que eu vim-me embora e uma canção dor de cotovelo com Onde andarás, em que Caetano chega inclusive a imitar a impostação e a pronúncia vocal de Nelson Gonçalves.
Com arranjos arrojados uma mistura de ritmos e gêneros musicais como samba canção, bolero, baião, pop/rock, beguim e bossa nova, além de uma capa colorida/tropicalista que demonstrava o visual estético do movimento cultural que ajudara a fundar esse disco de Caetano Veloso insere-se portanto como um dos trabalhos mais importantes de nossa moderna musica popular, um retrato poético/musical de uma época que mudou nossas vidas para sempre. Ouvi-lo é refletir sobre um tempo que fundamentou as bases do pensamento intelectual brasileiro recente e que nos influencia até os dias de hoje.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

01/09/2012

Um disco fundamental da MPB

Ismael Silva
O samba na voz do sambista - 1955 


Como podemos definir as riquezas de um país? Através da sua pujança econômica, de suas riquezas naturais, da qualidade de vida da sua população, de sua renda per capita, pelo nível da educação de seus habitantes, enfim, esses inegavelmente e alguns outros atributos fazem parte do que podemos chamar de condições básicas para a identificação de uma nação plenamente desenvolvida. Mas será que apesar das suas carências outros países menos afortunados economicamente não podem também ser considerados como países ricos? A riqueza não se traduz unicamente em acúmulos de bens materiais que proporcionam um bem estar a sua população, apesar deste ser o critério mais utilizado. E seus bens imateriais, sua cultura, as características essenciais de sua gente que a fazem destacar-se no computo das nações, será que não deve ser levado em consideração?
Alguns irão dizer que sim, mas ressalvando que devem vir sempre acompanhadas de uma condição plena de sustentação econômica para que possa inclusive sobreviver num cenário mundial onde o que vale não é o exotismo ou a essência de suas raízes culturais mais a maneira como ela deve se impor como um produto que possibilite a visibilidade necessária para que possa ser reconhecida, respeitada e aplaudida. Eu digo mesmo que este seja o pensamento da maioria das pessoas, porém, ele por si só, não é suficiente, pois se assim o fosse a respeitabilidade cultural dos povos teriam única e exclusivamente como critério avaliativo de valores o fator econômico e nós sabemos que isso não se constitui em verdade.
O Brasil é um país com uma diversidade cultural imensa e durante sua história assimilou os costumes de diversos povos que encontraram aqui um terreno fértil para a fixação e manutenção de suas tradições contribuindo assim para a assimilação/incorporação e a construção de sua própria matriz cultural. É o caso do samba, hoje considerado patrimônio imaterial do povo brasileiro e reconhecido mundialmente como um dos gêneros musicais mais populares do planeta, e isso foi conseguido, não com a força de nossa economia, ou todas as especificidades necessárias e acima citadas para sermos um país desenvolvido, muito pelo contrário, foi através única e exclusivamente do talento de seu povo e de sua riqueza que não se revela pelo acúmulo de dólares ou outra moeda qualquer de referência, mas pela força criadora de seus artistas, a maioria deles oriundos de uma condição social totalmente inversa àquelas consideradas mínimas para o conceito de um país rico.
A galeria de artistas que fizeram a história do samba é muito grande e dentre eles destaca-se Ismael Silva responsável pela formação da primeira escola de samba, a Deixa Falar do bairro do Estácio no Rio de Janeiro e um dos personagens que deram o molho e as características essenciais para que o samba se distanciasse de suas influências vindas do maxixe e ganhasse um andamento próprio fixando um estilo moderno cujas bases permanecem até hoje.
Ismael Silva foi um dos mais importantes nomes de nosso cancioneiro popular alcançando seu auge criativo na década de trinta, tendo suas músicas gravadas pelos mais importantes astros da época como, Mario Reis e Francisco Alves, este último, seu parceiro em inúmeras canções, ao lado de Newton Bastos. Em 1955 Ismael gravaria na Sinter um LP de 10 polegadas em que interpreta seus maiores êxitos, intitulado O samba na voz do sambista, constituindo-se hoje em dia num disco histórico e fundamental da musica popular brasileira revelando seu talento como intérprete de sua própria obra numa época em que se revisitava o passado a fim encontrar-se os elementos necessários para a modernização do samba em novos conceitos estilísticos, mas sem desfazer-se da sua essência, como bem disse Vinicius de Moraes ao assinar a contra capa, "A iniciativa da Sinter de lançar na voz do sambista uma escolha como a que aqui vai, é da maior importância. Preservada na voz do compositor seus melhores sambas constituem a mais rica prova de seu mérito e de sua influência no moderno movimento de restituição da samba às suas origens cariocas".
Entre os grandes sucessos de Ismael Silva que fazem parte do repertório do disco temos, Se você jurar, gravada pela dupla Francisco Alves/Mario Reis na Odeon em 5 de março de 1931 musica que implantou definitivamente um estilo de marcação rítmica do samba urbano que vinha se desenvolvendo na década de vinte, Adeus, em parceria com Francisco Alves e Noel Rosa, foi gravada originalmente pela dupla Jonjoca e Castro Barbosa em 12 de abril de 1932 e é uma homenagem póstuma a Newton Bastos falecido prematuramente, O que será de mim, gravada por Francisco Alves/Mario Reis em 28 de fevereiro de 1931 traz em sua letra uma exaltação a malandragem que pode muito bem ser considerada como um auto retrato do autor que levava uma vida irregular vivendo em permanentes dificuldades financeiras, Novo amor, apenas de Ismael teve sua versão original gravada por Mario Reis em 27 de fevereiro de 1929, e é uma das suas mais belas criações, Nem é bom falar, é outra obra prima de Ismael registrada por Francisco Alves e Os Bambas do Estácio em 27 de novembro de 1930. O disco contem ainda Me diga teu nome lançada em 1931 e Sofrer é da vida, mais outro sucesso alcançado pela dupla Francisco Alves/Mario Reis e gravada em 28 de novembro de 1931.
Portanto, ao ouvirmos esse desfile de sucessos e clássicos da música brasileira na voz de seu autor o notável compositor Ismael Silva num disco cuja gravação em Alta Fidelidade e excelente qualidade técnica já ultrapassou meio século temos não apenas a sua preservação mais um capítulo importante da história do samba e de nossa canção popular na interpretação de um seus mais importantes personagens.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

01/08/2012

Um disco fundamental da MPB: Jacob e seu Conjunto Época de Ouro - Vibrações (1967)


A música instrumental brasileira nas suas modalidades de representação teve e tem grandes intérpretes, contudo, precisa obter um pouco mais de visibilidade para que cada vez mais um número maior de ouvintes possam apreciá-la. Muitos desses notáveis músicos emprestam seu talento acompanhando artistas famosos e mesmo sendo por esses reconhecidos acabam no final tendo seu valor minimizado. Mesmo com dificuldades, o panorama da música instrumental no Brasil foi responsável por mudanças significativas no conceito de se ver, sentir e ouvir música, contribuindo para operar radicais transformações no tradicional comportamento da música popular brasileira, sem, contudo, perder a sua essência. A modernização e a valorização de novas sonoridades provocou um movimento renovador em nossa canção e nesse aspecto nomes como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal passam, a partir da década de setenta, a comandar um movimento de renovação estética e conceitual da música instrumental, inserindo-a na contemporaneidade e nas aspirações de uma pesquisa mais profunda.
Mas se o resultado das experimentações perpetradas por esses dois músicos e por outros que seguiram suas propostas transgressoras/renovadoras foi aceita pela parcela da população que via ali um momento de ruptura com o tradicional, esses mesmos artistas perceberam que sem uma volta ao passado de nossas tradições musicais eles não conseguiriam realizar esse novo som retirando dela os elementos necessários para uma releitura. Um exemplo desse retorno ao tradicional com novas roupagens é a música Chorinho pra ele, de Hermeto Pascoal gravado no LP Slave mass em 1966 em Los Angeles nos Estados Unidos e lançado no Brasil apenas em 1977 quando esses novos sons ecoavam por todo o país.
Assim verificaremos que a base instrumental de nossa canção, apesar da introdução de novos elementos que a façam caminhar para uma renovação de ritmo e harmonia, acaba voltando-se para um princípio único que formou os alicerces de nossa musicalidade cabocla a partir da segunda metade do século XIX, o choro, esse gênero musical que se traduz como a expressão mais pura de um sentimento jocoso/lírico/sentimental/brasileiro. Um de seus representantes mais notáveis foi um músico excepcional, Jacob Pick Bittencourt ou simplesmente Jacob do Bandolim.
Consagrado como um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos, teve no choro a sua expressão máxima, compondo peças imortais e produzindo excelentes discos. Um desses trabalhos veio a público com a gravação em 1967 do LP Vibrações em que o mestre bandolinista se fazia acompanhar do Conjunto Época de Ouro por ele criado e formado por Horondino José da Silva, o Dino, no violão de 7 cordas, Benedito César Ramos de Faria, pai de Paulinho da Viola, e Carlos Fernandes de Carvalho Leite, no violão de 6 cordas, Jonas Pereira da Silva, no cavaquinho, Gilberto D'Ávila, no pandeiro e Jorge Jose da Silva como ritmista. Juntos esse time de craques entraram nos estúdios da RCA Victor no Rio de Janeiro e realizaram as doze gravações apresentadas no disco como se estivessem espontaneamente demonstrando seu talento em uma animada roda de choro.
No repertório são apresentadas até então três peças inéditas de Jacob do Bandolim, Vibrações, que dá título ao LP, Receita de samba e Pérolas, de Pixinguinha; temos Ingênuo e Lamento em exuberantes interpretações de Jacob, sendo que em Lamento podemos dizer que ele atinge o máximo de seu virtuosismo numa interpretação hoje clássica e nunca superada. De Luiz Americano, um de nosso mais completo clarinetista e saxofonista é apresentado o choro Assim mesmo. No intuito de valorizar músicos talentosos, mas pouco conhecidos Jacob e seu grupo apresentam o também inédito choro Cadência, do bandolinista Joventino Maciel. De Fon Fon, pseudônimo do saxofonista Otaviano Maciel, é o choro Murmurando onde se destaca na última parte o solo de Dino. Porém é de Ernesto Nazaré o maior número de composições do disco, contemplado com quatro obras, duas nunca gravadas e apresentadas pela primeira vez ao público, Fidalga e Vésper, a primeira editada em 1914 e a segunda em 1901. As outras são Floraux e Brejeiro, esta última um de nossos clássicos mais conhecidos.
Marco da discografia do choro, este disco de Jacob do Bandolim e seu Conjunto Época de Ouro merece um lugar de destaque nas prateleiras de todos os que verdadeiramente admiram a mais autêntica música popular brasileira aqui representada em sua essência genuinamente mais pura.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

07/06/2012

Um disco fundamental da MPB


Jorge Ben
Samba Esquema Novo
1963

Para a maioria dos pesquisadores da música popular brasileira o período mais importante de nossa história concentra-se entre os anos de 1930 a 1945. É o que chamam de época de ouro. Sem dúvida que esse foi um dos momentos mais ricos que tivemos, pois naquele espaço de 15 anos vimos florescer nomes como Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Carmen Miranda, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Ataulfo Alves, Custódio Mesquita e muitos outros grandes artistas que marcaram o cancioneiro popular do Brasil. Contudo, um fato importante deve ser citado com o mesmo destaque, qual seja a grande coincidência que viria também 15 anos depois em 1960, quando o Brasil já demonstrava a maturidade de uma nova geração de músicos que despontaram nos meados dos anos cinqüenta e que se juntariam a outros que fariam da década de sessenta mais uma fase de ouro, fazendo-nos concluir que não tivemos um hiato muito grande de carência musical, apenas uma fase de adaptação durante os dez primeiros anos do pós-guerra e depois uma avalanche de novos talentos, que renovariam a música popular brasileira, e a fariam universal, desta vez de forma definitiva.
Após o advento da Bossa Nova o mercado e as condições históricas visualizavam um campo extremamente fértil para o surgimento de novos artistas e novas tendências musicais. Nesse contexto é que surge a figura de Jorge Ben, cantor e compositor carioca que iria trazer para o público brasileiro um novo som, um samba estilizado, diferente das concepções bossanovistas, com uma negritude e um balanço jamais vistos em nossa música popular, onde sua batida de violão, aliada a uma linha melódica totalmente renovada e moderna mais a ingenuidade de suas letras revelaram uma nova maneira de interpretar o samba, que ele chamou de esquema novo, título de seu primeiro LP lançado em 1963.
O destaque maior do disco estava nas canções "Mas que nada", e "Por causa de você, menina" anteriormente gravadas em um disco 78 rotações com Jorge Ben acompanhado do conjunto Copa 5 formado por, Meireles no sax, Pedro Paulo no trompete, Toninho no piano, Do Um Romão na Bateria e Manuel Gusmão no baixo, gravações estas que foram reaproveitadas no LP.
O sucesso foi imediato apesar de alguns críticos acharem as letras infantis, as harmonias pobres e o violão tocado errado e o que é mais curioso, eles pensavam que Jorge Ben seria um fenômeno passageiro, contrariando, pois os "entendidos" no assunto, o disco alcançou em apenas dois meses a cifra recorde para a época de 100 mil cópias vendidas transformando Jorge Ben da noite para o dia no maior fenômeno da música popular brasileira e não em mais um modismo efêmero, fato este que veio a se confirmar com seus discos posteriores, todos eles com músicas de excelente qualidade e grande apelo popular.
É importante citar algumas partes do comentário de Armando Pittigliani na contra-capa do disco: "O samba de Jorge Ben, da batida de seu violão à linha melódica e letra de suas composições revela um novo caminho nos horizontes de nossa música popular. É o esquema novo do samba. Reparem que a harmonia negroide transborda em todos os momentos de sua música (...) Seu inato talento musical proporcionou-lhe descobrir uma nova puxada para o nosso samba, fazendo do violão um instrumento, sobretudo, de ritmo. Na sua batida tanto se destaca o baixo como o desenho rítmico de sua pontuação na maneira toda sua de tocar. Um exemplo disso é o fato de várias faixas deste disco não contarem com o contrabaixo na orquestração. Somente o violão de Jorge já da a necessária marcação dispensando, portanto, aquele instrumento de ritmo. O balanço do acompanhamento repousa quase sempre no seu violão".
Outra música incluída no disco e que se tornaria em grande sucesso foi "Chove chuva", um dos clássicos de seu repertório. Em "Por causa de você, menina", ele inova na letra fazendo menção a Obá (deusa nagô do amor) e aos santos Sacundin e Sacundém e ainda aos guerreiros Dombim e Dombém, além de pronunciar a palavra você como "voxê", dando um toque especial e único à interpretação. Misture, portanto, essas expressões em nagô, inclua umas inflexões rítmicas influenciadas pelo som "mbira" rodesiano mais o balanço rítmico de seu violão que temos então a receita perfeita de realmente um novo som, popular, brasileiro e universal.
Mas a negritude estilizada do som de Jorge Ben e a influencia dos elementos afro em suas canções vem por ele mesmo traduzida ao afirmar em "Mas que nada", que "este samba que é misto de maracatu, é samba de preto velho, samba de preto tu". O LP Samba Esquema Novo contava também com as músicas, "Tim dom dom", de João Mello, única música não assinada por Jorge Ben, "Balança pema", "Rosa, menina, rosa", "Quero esquecer voce", "Ualá ualalá", "Vem morena", "É só sambar", "A tamba" e "Menina bonita não chora".
Quando hoje em dia fala-se em renovação na música popular brasileira, mistura de ritmos e novas experiências sonoras, que invariavelmente caem na mediocridade ou na mera preocupação de consumo, verificamos ao ouvir este disco de Jorge Ben, o quanto ainda precisamos aprender a sermos talentosos e revolucionários sem a necessidade de simplesmente ganhar dinheiro a qualquer custo, pois o talento é um dom natural que nem todos possuem e que não se vende barato. Viva seu Jorge Ben ou Benjor, você que já esta com todos os méritos na galeria dos grandes de nossa canção popular, continue com seu balanço, pois ele já é eterno. Sacundim, sacundem!
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

21/05/2012

Um disco fundamental da MPB

Tom Zé
1972

(...) O que faz um artista ser excepcional se ele contraria de maneira explícita todo esse esquema que envolve e padroniza a produção musical brasileira já há alguns anos? O que o faz notável se ele de repente se mostra como o avesso, do avesso, do avesso? A resposta está na sua capacidade inventiva, no seu enorme talento, da sua empatia, da verdade e da força que expressa em sua obra, não deixando margem para manipulações, sua arte é a sua liberdade sentida e exposta, o aplauso e o reconhecimento virão portanto naturalmente, sem artificialismos. Assim é e sempre foi o baiano Tom Zé, não precisa do mercado, este é que precisa dele, inverte e subverte valores, e assim vai vivendo feliz com sua música e sua legião planetária de fãs.
Esse personagem de nossa história musical recente passou momentos de difícil assimilação e compreensão por parte de segmentos da crítica em função de não se deixar levar pelo sucesso fácil, manteve-se íntegro, e o tempo só veio reafirmar que ele estava certo em não se dobrar, pois o mundo iria lhe aplaudir por não transigir em suas convicções reconhecendo nele o vulcão criativo que espalhava larvas de admiração e respeito por onde quer que passasse.
Ao longo de mais de quarenta anos de carreira produziu trabalhos memoráveis, e dentre eles destaco o LP lançado em 1972 pela Continental, não desmerecendo, contudo, todos os seus outros trabalhos anteriores ou posteriores. O Disco é um apanhado de canções em que seu estilo inconfundível esta presente, seja nas melodias bem trabalhadas ou nas letras revelando seu lado satírico e lírico/sentimental.
Tom Zé talvez seja um dos músicos brasileiros cuja obra é de um personalismo impressionante, ou seja, possui um estilo único, não adianta imitá-lo ou assemelhar-se a ele, Tom Zé é Tom Zé e pronto! Não dá para cloná-lo. Isso fica evidente neste disco quando ouvimos algumas de suas canções como A babá, quase que obrigatória em suas apresentações, A briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel, uma sátira paulistana que talvez nem os paulistas a fizessem tão bem, Menina amanhã de manhã, O abacaxi de Irará, O anfitrião, Frevo, Happy end, o clássico Se o caso é chorar, uma das suas mais belas criações poético/musicais e Sr. cidadão cuja introdução é o poema concreto Cidade, de Augusto de Campos, declamado pelo autor. Se formos fazer uma coletânea das suas melhores produções, este disco certamente estaria praticamente inteiro nela.
Ouvir este LP de Tom Zé é penetrar em sua alma, compreender seu universo e admirar todo seu enorme talento, que apesar de ter ficado represado por algum tempo, hoje inunda de criatividade a música popular brasileira tão carente ultimamente de renovação e ousadia.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

04/05/2012

Um disco fundamental da MPB

Fagner
Manera Fru Fru Manera - 1973

O Brasil é um país singular onde se misturam vários povos vivendo em harmonia, possui uma das mais miscigenadas populações do planeta, uma língua uniforme em que pese a vastidão de seu território e uma diversidade cultural das mais ricas. Durante toda nossa história convivemos com essas diferenças e conseguimos manter uma invejável unidade, por outro lado, é de admirar a maneira pela qual o país assimila a sua diversidade cultural respeitando as suas identidades regionais.
De norte a sul, passando pelo centro oeste percebemos a imensidão de ritmos, gêneros musicais, festas, folguedos, enfim todo um cenário que se descortina aos nossos olhos e que nos fazem ficar admirados como podemos assimilar tantas manifestações e incorporá-las ao nosso cotidiano. Da tradição dos pampas gaúchos, passando pelo caipira do interior do estado de São Paulo, pelas manifestações dos imigrantes incorporadas ao nosso calendário e aculturadas em nosso território, a sonoridade das Minas Gerais, a cultura pantaneira, o samba e o choro carioca, o samba de roda na Bahia, o frevo em Pernambuco, o coco no Rio Grande do Norte e em outros estados nordestinos e desaguando na canção amazônica com suas lendas e tradições embaladas também pelo ritmo do carimbó, temos ai demonstrado em linhas gerais a riqueza de nossa cultura infelizmente pouco conhecida e divulgada principalmente em nossas escolas.
Contudo é importante salientar que alguns meios de comunicação têm contribuído para diminuir essa desinformação proporcionando uma visibilidade maior as nossas manifestações, é também necessário dar-se o devido credito ao Ministério da Educação que ao realizar os Parâmetros Curriculares Nacionais incluiu o tema diversidade cultural para que os nossos jovens estudantes possam conhecer um pouco melhor o país em que vivem. São iniciativas meritórias, mas que carecem ainda de um maior esforço para serem amplamente divulgadas, mesmo porque, ainda há um grande desinteresse por parte de nossos educadores em levar o assunto para as salas de aula num profundo descaso com a formação plural do nosso estudante, que ao se distanciar dos elementos formadores de sua pátria acabam perdendo um pouco o sentido de nacionalidade, união, e o que é pior, ficam com pouca ou quase nenhuma percepção de sua identidade.
É claro que não queremos aqui generalizar, nem provocar polêmica, mas apenas fazer um alerta e também demonstrar a necessidade do quanto é importante nos mantermos integrados às nossas raízes num permanente esforço para que ela seja divulgada, apreciada, e também no caso da música popular, adaptada a modernidade, mas sem perder as suas características essenciais. Trata-se de revigorar a cultura tradicional e não transformá-la em objeto de consumo descartável, sem nenhuma serventia ou critério de manutenção de raiz, como se faz com o axé, o pagode, o breganejo e outros pseudos gêneros musicais que caminham no sentido inverso e perverso da descaracterização de uma cultura tradicional.
Foi com o espírito preservacionista e ao mesmo tempo renovador que surgiu no inicio dos anos setenta um grupo de cantores/compositores cearenses que se propunham divulgar seu trabalho artístico inserindo-o dentro dos padrões modernos de concepção musical. Essa geração liderada por Ednardo, Belchior e Fagner iria render excelentes frutos a musica popular brasileira. Raimundo Fagner vinha se destacando como compositor e intérprete nos meios estudantis da época. Em 1971 sagrou-se campeão com a musica Mucuripe em parceria com Belchior no Festival do Centro de Estudos Universitários de Brasília, logo a seguir em 1972 estrearia em disco interpretando-a num compacto simples do Disco de Bolso da Revista Pasquim e alcançaria muito sucesso ao ser gravada na mesma ocasião por Elis Regina. O caminho do primeiro LP estava traçado e Fagner o gravaria em 1973, dando-lhe o título de Manera fru fru manera, nome de uma canção com o parceiro Ricardo Bezerra e que havia alcançado o sexto lugar no Festival de Brasília.
Rompendo com o tradicionalismo nordestino, mas mantendo-lhe o espírito Fagner incorpora neste seu primeiro disco uma linguagem modernizante onde não faltam as guitarras, uma certa influencia iê iê iê dos anos sessenta, um lirismo emepebista tradicional unindo a praia de Iracema com Copacabana e revisitando o folclore regional com uma nova postura estética proporcionando um novo rumo a musica do Nordeste distanciando-a do preconceito que a via apenas com o tradicional forró de Jackson do Pandeiro e o Baião de Luiz Gonzaga. Fagner emoldura numa nova concepção o tradicional e leva os ares de uma renovação musical nordestina ao resto do país, dando o pontapé inicial para o surgimento de outros artistas que irão trilhar o mesmo caminho, como por exemplo, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.
Sua voz agreste e suave causa espanto e admiração e o repertório do disco é uma demonstração de sua visão do Nordeste e do Brasil numa tentativa de definir um regionalismo plural, mas sem perder a essência.
O repertório é formado por algumas canções que fizeram muito sucesso como as citadas Mucuripe e Manera fru fru manera, O ultimo pau de arara, de Venâncio e Corumbá, Canteiros, cuja letra traz trechos do poema Marcha, de Cecília Meireles, que por não ter sido creditado no disco mereceu por parte dos herdeiros da escritora um processo contra Fagner que resultou em sua proibição e execução pública obrigando a gravadora a prensar novamente o disco sem a música, Penas do Tié, folclore adaptado por Fagner e Pé de sonhos, de Petrucio Maia e Brandão ambas interpretadas em dueto com Nara Leão, Nasci para chorar, versão de Erasmo Carlos para Born to cry de Dino e Dimucci, e Serenou na madrugada, folclore também adaptado por Fagner. O disco conta ainda com a participação de Nana Vasconcelos que viria a se tornar o mais renomado percussionista brasileiro e um dos mais respeitados em todo o mundo.
Um disco, portanto que nos remete a renovação da musica nordestina trazendo uma releitura conceitual da canção regional agora universalizada com todos os elementos estéticos necessários para a compreensão e assimilação das nossas raízes culturais retirando o Nordeste do gueto musical em que se encontrava e levando-o amadurecido para o resto do Brasil.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

14/04/2012

Um disco fundamental da MPB


Luiz Gonzaga canta seus sucessos
com Zé Dantas
1959 


Ao fazermos uma análise de alguns períodos históricos da vida brasileira verificaremos que a década de trinta foi um marco divisor, não só por causa da Revolução liderada por Getúlio Vargas que lhe entronizou no poder como também pelas conseqüências políticas e sociais dessa ruptura que findou a República Velha. O Brasil partia então para um desenvolvimento que fincaria as bases de um processo de crescimento que teria seu ponto culminante com as 30 metas mais a construção de Brasília efetuadas por Juscelino Kubistschek nos anos cinquenta.
Os anos trinta também seria o momento em que no campo do entretenimento e das comunicações o país daria um grande salto, pois foi a época da arrancada da indústria do radio e como consequência a formação de uma mão de obra que daria suporte a introdução da TV em 1950. No campo especifico da música popular viveríamos uma época de fartura de grandes compositores e intérpretes, como Orlando Silva, Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, Carmen Miranda, Mário Reis, Carlos Galhardo, Assis Valente e muitos outros. A pavimentação para a consolidação desse gigantesco trabalho artístico já estava pronta e o país iria adentrar a década seguinte, os anos quarenta, com uma perspectiva alentadora dando oportunidade e promovendo o surgimento de novos talentos.
Com o ambiente musical já estabelecido e uma rede de rádios dando o suporte necessário para a divulgação e manutenção desses artistas, principalmente através da Radio Nacional que àquela época atingia praticamente todo o país, ir ao Rio de Janeiro para conquistar um lugar nesse disputado mercado era a alternativa para todo artista que queria se dar bem na carreira. Foi vislumbrando essa possibilidade e as oportunidades que poderiam surgir que o compositor e sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga resolveu arriscar e com todo seu talento não demorou muito para ser reconhecido e aclamado como um dos maias festejados artistas brasileiros a partir da segunda metade dos anos quarenta e da década seguinte.
Fazendo enorme sucesso no radio e vendendo muitos discos Luiz Gonzaga soube se acercar de grandes parceiros para colocarem poesia em suas canções, inicialmente com Humberto Teixeira e depois com Jose de Souza Dantas ou como é repertório que consolidava-se e consagrava-se a cada novo lançamento. Foi justamente mais conhecido, Zé Dantas. Com este último continuou fazendo clássicos e compôs um no intuito de reunir esse material disperso em discos 78 rotações que a RCA Victor, gravadora oficial do Rei do Baião, tomou a iniciativa de produzir e gravar um LP em 1959 com os maiores sucessos da dupla de compositores, surgindo assim o disco Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zé Dantas, com os dois na capa e um texto autoexplicativo das canções escrito por Zé Dantas na contracapa.
São doze canções que se incluem como clássicos da música popular brasileira retratando de modo fidedigno o homem, o folclore e os costumes do Nordeste. No baião Sabiá, que abre o disco, uma homenagem a uma das aves de mais belo canto de nossa fauna; o Xote das meninas uma das mais populares canções do LP retrata a transformação da menina em mulher usando como símbolo de referencia a flor do mandacaru que quando amadurece na seca é sinal de chuva e colheita farta no sertão; A volta da asa branca é uma toada que da continuidade ao tema do famoso baião, Asa branca, composto por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; A dança da moda, retrata com muita propriedade o sucesso do baião no Rio de Janeiro e consequentemente em todo o país; Riacho do Navio, homenageia um dos mais importantes afluentes do rio São Francisco, na zona do Pajeú em Pernambuco, onde em suas margens floresce uma flora e uma fauna muito rica e exuberante; Vozes da seca, é um preito de clamor as autoridades para que se sensibilizem com o drama dos flagelados nordestinos, é um dos maiores clássicos da MPB; Paulo Afonso, é uma homenagem aos homens que ajudaram a construção da usina hidrelétrica promovendo o progresso e o desenvolvimento do Nordeste, Algodão, foi composta a pedido do então Ministro da Agricultura João Cleofas, para estimular o plantio do chamado "Ouro branco" no sertão.
Retratando ainda situações e costumes sertanejos temos sucessos como, Cintura fina, Forró de Mané Vito, A letra i e Vem morena, fechando um repertório de um disco que só traz músicas que ficaram imortalizadas como verdadeiros sinônimos da saga cancioneira nordestina, e o melhor de tudo isso, magistralmente interpretadas por Luiz Gonzaga, uma unanimidade nacional. São trabalhos como esse que nos conduzem a certeza cada vez maior que a grandeza de nosso país esta fincada na sua pluralidade cultural e no talento inequívoco de seus criadores/realizadores.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br

28/03/2012

Um disco fundamental da MPB

Nara Leão
Opinião de Nara - 1964

Durante muitos anos boa parte do repertório musical brasileiro gravado ficou esquecido nas prateleiras de lojas de discos ou em sebos, ocasionando uma procura muito grande daqueles que buscavam manter uma boa discoteca e/ou ouvir novamente grandes momentos de nossa canção popular. Muitos dos antigos LPs mesmo quando eles reinavam no mercado não eram relançados, e assim as novas gerações pouco conheciam do trabalho de cantores e intérpretes. As já famosas coletâneas lançavam apenas o básico do repertorio de cada artista e se repetiam sempre. Com o advento do CD descobriu-se que uma maneira de esquentar as vendas do mercado fonográfico seriam as gravadoras abrirem seus arquivos e relançarem discos históricos e fundamentais resgatando assim um patrimônio musical inigualável e por consequência direta conservar de forma definitiva antigas matrizes, além é claro, de despertar o interesse por antigos artistas que fizeram a história da música popular brasileira.
Apesar do esforço muitos discos acabaram tendo uma tiragem pequena, porém, a sua distribuição na maioria das vezes precária não se preocupou em fazer retorná-los a grandeza que tinham quando foram originalmente lançados e dessa maneira muitos ainda continuam esquecidos nas prateleiras das lojas, e o publico pouco sabe da sua existência, agora sob novo formato e com a gravação restaurada. É uma pena pois um trabalho como esse merecia mais cuidado, até porque em tais relançamentos incidem custos que se não derem o resultado financeiro esperado, já que ninguém faz nada para ter prejuízo, a tendência é diminuir o ritmo de relançamentos, perdendo com isso o público e a memória de nossa canção.
Por outro lado também muitas dessas iniciativas acabam obtendo o êxito almejado por estarem sob os cuidados de profissionais que sabem exatamente o que e porque estão empenhados nessa luta em prol da revalorização da música nacional. Estas palavras iniciais são para nos remeter aos oportunos lançamentos que já vem ocorrendo a alguns anos das obras completas de grandes interpretes/compositores, e no caso especifico nestas linhas falaremos de um LP de Nara Leão que faz parte das duas caixas com o total de sua discografia, relançada e remasterizada no formato digital.
O disco em questão é Opinião de Nara e é fundamental para uma discografia básica de musica brasileira por diversos fatores, dentre eles o fato de ter despertado em Oduvaldo Viana Filho a ideia a partir de seu título de produzir um dos mais importantes shows de musica brasileira em todos os tempos, Opinião, que contou além de Nara, com a participação de Zé Kéti, João do Vale e foi o responsável pelo lançamento de Maria Bethânia.
A gravação produzida pelo selo Philips iniciou-se em setembro de 1964 em São Paulo no estúdio da Radio Gazeta e contava com a participação do maestro Erlon Chaves ao piano, Tião Neto, no baixo e Edson Machado, na bateria, sendo depois concluída no estúdio da Phonogram no Rio de Janeiro. Nara Leão nessa ocasião vinha se distanciando do rótulo de musa da Bossa Nova e partia para um repertório cada vez mais engajado, vivíamos os primeiros momentos da ditadura e a perspectiva futura era muito sombria, por outro lado, havia a forte influencia em sua carreira dos compositores e das idéias oriundas dos CPCs os Centros Populares de Cultura da UNE – União Nacional dos Estudantes.
Este seu segundo LP seguiria as bases do repertório do seu primeiro trabalho produzido por Aloysio de Oliveira para a gravadora Elenco e contava com uma seleção de músicas que misturava os sambas de Zé Kéti e João do Vale indo aos compositores de sua geração como Edu Lobo e Baden Powell e outros como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Sergio Ricardo. Nessa salada musical bem dosada não faltaram canções líricas como Derradeira primavera, de Tom e Vinicius, os sambas Labareda e Deixa, de Baden e Vinicius, Em tempo de adeus, de Edu Lobo e Ruy Guerra, Opinião e Acender as velas, de Zé Kéti, Chegança, de Edu Lobo e Oduvaldo Viana Filho, Sina de caboclo, de João do Vale e J. B. de Aquino que tratava de reforma agrária e Esse mundo é meu, de Sergio Ricardo que deram o toque político do disco.
Acrescente-se ainda Berimbau, de João Melo e Clodoaldo Brito, Na roda de capoeira, do folclore baiano e a clássica marcha Malmequer, de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar, sucesso do carnaval de 1941, inaugurando um hábito de Nara que era incluir em cada um de seus discos um antigo clássico da música brasileira. Destaque também para a introdução de Opinião, de Zé Kéti, que por sugestão de Glauber Rocha, que aliás deus vários palpites no disco, vem precedida por batidas de tambores, relembrando toques marciais militares, a fim de não nos esquecermos que vivíamos momentos de um poder político oriundo das casernas.
Juntando-se tudo isso temos um disco permanente, autoral, indispensável, uma intérprete inesquecível e o melhor da musica popular brasileira contemporânea. Que seja, pois, bem vindo de volta às nossas casas.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br