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01/10/2025

Boas Entradas num Boteco do Leblon

— E aí, tudo bem na passagem de ano?
— Tudo bem, na maior tranquilidade, gostei muito dos fogos.
— Tranquilidade? Tu chama aquilo de tranquilidade? Onde é que você foi?
— Lugar nenhum, fiquei em casa. Tranquilidade. Segurança contratado pelo condomínio, porteiro treinado, tevezinha malocada no elevador e em cada andar e tevezão em casa. Umas garrafinhas de champanhe pro pessoal mais fresco, uma garrafa de uísque pra mim, melhor programa não pode haver.
— Ah, em casa, malandro? Não tem nada a ver, tu tinha era que estar lá pessoalmente.
— Otário. Papo de otário. Otário e reacionário.
— Otário? Otário e reacionário? Otário e reacionário é quem fica em casa, podendo curtir a beleza do espetáculo ao vivo, é um dos privilégios de morar no Rio de Janeiro.
— Otário e reacionário. Só não digo burro porque te conheço e sei que tu não é burro. Otário e reacionário. É como jogo pela tevê. Claro que se vê o jogo pela tevê muito melhor que no estádio. E mais barato. Cada um traz sua caixinha de cerveja, morre nuns cinco paus para a vaquinha do sinal da tevê e assiste tudo sem se preocupar com bala perdida ou torcida assassina. Otário e reacionário é o que você é. Não digo bem reacionário, digo retrógrado. Pronto, retrógrado, defasado com seu tempo.
— Desculpe, mas no caso eu acho que otário é você.
— Olha aqui, não vamos discutir, porque tu vai se dar mal e eu prezo muito tua amizade pra querer te melindrar. Mas eu, podendo assistir tudo no conforto e na segurança de minha casa, numa zorra de um telão que eu comprei e não me arrependo, foi a melhor coisa que eu já fiz, eu, podendo estar aqui na maior, sem preocupação, vou pra rua, ser figurante gratuito da tevê? Porque isso é o que vocês são, figurantes gratuitos das tevês. Elas vão lá e ainda chamam você de galera, eu não suporto que me chamem de galera. “Olha lá a galera aplaudindo os fogos”, não sei o quê. Isso não tá com nada, cara, o futuro já chegou e é diferente. Burrice sair de casa, o Rio está se constituindo numa experiência do futuro. O Rio e São Paulo e acho que tem outras cidades brasileiras no mesmo caminho, a tendência natural do futuro é essa. Eu sou muito otimista, acho que a informática e as comunicações vão resolver tudo, inclusive o problema das drogas. Nosso conceito de cidade está ultrapassado, nós precisamos acabar de equacionar a cidade do futuro, é só ver as possibilidades. Por exemplo, quem precisa sair de casa?
— Você acha que o sujeito não deve sair de casa?
— O mínimo possível. Não precisa.
— Quer dizer que, por exemplo, acabam as visitas e os papos, acabam os restaurantes?
— Aí é que eu digo que tu é retrógrado. Tu não já leu nos jornais, não? Está desaparecendo o restaurante, agora o sujeito recebe tudo em casa e, se quiser, muitos restaurantes oferecem o mesmo serviço, com garçom e tudo. O restaurante que não se adaptar pode ficar lá desertinho a noite toda, que ninguém mais vai ser maluco de sair de noite, a cidade do futuro é outra, te situa, cara.
— Quer dizer que tu acha que agora, por exemplo, pra conversar com os amigos o sujeito vai ter que promover reuniões em casa. Por aí já se vê que tua tese é furada. Pra fazer reunião em casa é preciso que os outros participantes saiam das suas. Portanto, alguém sai de casa. Esquema furado.
— Desculpe, mas você não está confirmando tua inteligência. Ninguém precisa sair de casa. Tu sabe meu telão? Se eu quiser, eu ligo ele no meu computador e, com uma webcam instalada, converso com dois ou três amigos ao mesmo tempo, até as famílias inteiras, sem sair de casa. Sacou?
— Mas isso é uma maluquice. Quer dizer que acha que...
— Maluquice é a sua, que não vê que a realidade é outra. Tu manja o Skype?
— Eu sei, é um programa de computador pro camarada falar.
— E de graça! E é um programa que ainda pode ser considerado primitivo, ainda vai melhorar muito. Pois outro dia, o Lustosa, a mulher dele e o filho mais velho e o Lafayette, aquele coroa baiano que imita Dorival Caymmi, todo mundo ficou conversando pelo Skype horas, como se estivessem aqui na sala. É só botar umas boas caixas de som, um bom microfone e a reunião está pronta, com muito mais conforto e sem precisar sair de casa, dá até para fazer degustação de vinhos, cada qual com sua garrafinha em casa.
— Que horror, eu acho isso o fim.
— É o que eu digo: reacionário, não vê que os tempos são outros. Agora a gente pode dar até uma festa assim. Tenho certeza de que daqui a no máximo uns cinco anos, quando o cara quiser dar uma festa, é só combinar ligar os computadores e os telões e todo mundo participa da festa, sem precisar botar os pés fora de casa. Não, tu tá por fora. Reacionário, retrógrado, pessimista. Tudo vai melhorar, vá por mim. Até o país como um todo vai melhorar.
— Como é que tu sabe?
— O Homem garantiu, tu não viu, não? E, quando ele garante, tu sabe como é, ele faz. O futuro é belo, cara, tu é reacionário.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

23/09/2025

O Dia em que Eu Fui Fazendeiro no Arizona

Acho que sou escritor porque tenho tido muitas aventuras. Como lemos desde pequenos em biografias e almanaques, todo escritor vive metido em grandes aventuras, caçando búfalos, lutando boxe, morando entre os esquimós, pegando em armas pela liberdade da Grécia, dormindo com Marylin Monroe e enchendo a cara em companhia de Fidel Castro. Minha experiência de caça se resume a rolinhas fogo-pagou em Aracaju, mas, em compensação, a parte aí do porre com Fidel Castro eu já desempenhei. Não sei se ele notou, mas eu, o poeta peruano Antonio Cisneros e o ator Gianfrancesco Guarnieri (no Peru conhecido popularmente como Panchito Guarnieri) traçamos bem uns vinte mojitos cada um, na noite em que Fidel apareceu para charlar na casa do ministro da Cultura de Cuba. Ele não pode dizer que tomou um porre na minha companhia (preferia daiquiris e, comparado a nós, parecia um abstêmio), mas eu posso dizer que tomei um porre na companhia dele. São coisas da existência aventurosa do escritor — minha vida daria um romance.
Por exemplo, certa feita fui fazendeiro no Arizona um dia inteiro, ganhei um chapéu de cowboy, discuti problemas de irrigação e fiz um discurso para os apaches (ou navajos; eu estava um pouco assanhado e nunca me lembro se o discurso foi para os apaches e a dançadinha foi na dança de chuva dos navajos, ou vice-versa). Tornar-se fazendeiro no Arizona é muito mais fácil do que parece assim à primeira vista, basta o sujeito estar no Arizona e ser um pouco abestalhado — precisamente meu caso naquele dia.
Eu integrava um grupo de estudantes brasileiros, que os americanos estavam levando numa field trip ao Arizona. Americano gosta muito de levar a gente para field trips, uns passeios cuja atividade principal consiste em ouvir palestras feitas por um camarada de camisa de colarinho, manga curta e fala anasalada, bebendo café em xícaras de papel enormes e ganhando de presente um extraordinário número de folhetos e livrinhos. E, claro, todo mundo usando crachá, porque americano gosta de crachá ainda mais do que a Rede Globo, é impressionante.
Então a gente estava no Arizona, todos muito resignados e tomando xícara após xícara daquele café na esperança de dar uma mão para a balança comercial brasileira, e ouvindo palestras sobre projetos de irrigação. Não que a gente estivesse particularmente interessada em irrigação, mas não tem água no Arizona e aí eles ficam orgulhosíssimos de qualquer reguinho que constroem, fazendo questão de mostrá-lo pormenorizadamente aos visitantes. No segundo dia de visitas a regos e calhas, atrasei-me por causa de um pernambucano que não falava inglês e tinha medo até de entrar no elevador sozinho. Como ele parecia sempre à beira de atacar os presentes a peixeiradas (carregava um canivetão mestiço de peixeira), eu ficava ali ajudando e acabava atrasado.
Desci afobado para o saguão do hotel e, não vendo ninguém do grupo, perguntei ao homem da recepção se ele não sabia onde estava o pessoal. Ele perguntou meu nome, olhou uma lista e me entregou um crachá. “O ônibus é aquele ali, já vai sair”, explicou, apontando para a rua. Estranhei o crachá, porque já tinha um, mas raciocinei que me encontrava na terra da fartura e havia que dar saída para a produção da indústria crachaleira. Era diferente do antigo e, estranhamente, dizia “Ribeiro-Brasil”. Se todo mundo era do Brasil, por que a indicação do país? Bem, talvez fosse uma coisa maior, com gente de outros lugares. Corri para o ônibus, entrei, sentei, o motorista imediatamente fechou a porta e saiu velozmente. Pela janela, aquelas montanhas e despenhadeiros que a gente vê no cinema, por trás dos quais despontam as cabeças dos índios antes do massacre do forte. Acho que passei alguns minutos distraído com a paisagem e, quando resolvi olhar em torno e puxar papo, bati o olho num rosto oriental e simpático a meu lado. “Huan-Taiwan”, dizia o crachá. Será que há alguma cidade paulista chamada Taiwan? — pensei rapidamente. Mas aí dei uma panorâmica nos outros passageiros e descobri que, naturalmente, estava no ônibus errado. Estava numa field-trip de fazendeiros, é claro, no lugar de algum xará cujo pernambucano era mais difícil que o meu e o atrasara ainda mais. No comecinho, ensaiei ficar em pânico: se fosse uma viagem para outro Estado, por exemplo, extraviando-me definitivamente do meu grupo? Mas tinha despertado do devaneio exatamente com o motorista explicando que estaríamos de volta ao hotel às sete horas da noite, mesma hora prevista para os brasileiros. E aí passei o controle para o diabinho que acompanha os escritores aventurosos, sujeitinho muito cínico, mas de grande simpatia. Afinal, sempre tive a fantasia de ser fazendeiro. “Quando Deus dá, a gente pega”, diz minha avó alagoana, d. Amália.
Fiquei imaginando que tipo de fazenda seria a minha. A primeira coisa que me veio à cabeça foi cacau, mas achei que fingir de rico com oito dólares no bolso podia ser arriscado. Cacau não. Que tal gado? Não, podia ser que quisessem que eu montasse num cavalo e não sou chegado ao hipismo. Além disso, para distinguir um boi de uma vaca, me vejo obrigado até a ser mal interpretado. Milho! Milho eu manjo mais ou menos, posso fazer até um charme, explicando como planto feijão no meio do milharal. Claro! Grande fazendeiro de milho do Norte do país! E ainda criava do lado umas galinhazinhas, umas cabrinhas, umas árvores frutíferas, essas coisas de fazenda mesmo.
Vocês não sabem como o fazendeiro de milho brasileiro tem prestígio no Arizona, principalmente quando este fazendeiro fica assistindo à televisão até tarde e aprende a fazer piada de americano. E também adaptei ao gosto local aquela velha da surdinha que estava presenciando a conversa de dois fazendeiros a respeito de um pé de milho pequenininho que deu cada espiga destamanho, fiz grande sucesso. Escolhido orador da turma para os apaches (ou navajos), alinhavei palavras emocionadas sobre o homem e a terra, quase levando o Fessenmeyer às lágrimas (o Fessenmeyer, plantador de trigo em Iowa, era um dos americanos do grupo, que ficou muito meu amigo e quis até visitar minha fazenda). Entre os navajos (ou apaches), introduzi uns jogos de braço baianos na dança da chuva, prometi enviar ao chefe um mandacaru de presente e ensinei como fazer amendoim cozido.
Voltei de chapéu de cowboy para o hotel e, de noite, ainda fui com o Fessenmeyer ao Pussycat, taverna local de fino trato, onde as garçonetes se vestiam de gatinhas (quer dizer, só os bigodes e o rabinho, o resto quase nada, nada) e nós, fazendeiros, discutimos as vantagens e desvantagens de destilar uísque lá na roça mesmo, em vez de comprá-lo no armazém. Viajamos, cada um para seu canto, no outro dia, nunca mais vi o Fessenmeyer ou o Huan (que plantava arroz e ficou de me mandar umas sementes, mas nunca mandou). Talvez seja por isso que, ao passar junto de uma dessas barraquinhas que vendem milho verde aqui no Leblon, eu seja o único morador do Rio que pára, respira fundo e sente uma certa saudade do Arizona. O escritor, além de aventuroso, precisa ser original.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

12/09/2025

O Astro

Sempre enfrentei problemas com a televisão. O primeiro foi que a gente tinha trauma de tevê desde o tempo de Sergipe, porque apareciam fotografias na revista O Cruzeiro, de pessoas assistindo à tevê no Rio de Janeiro, e a gente morria de inveja. Quando nos mudamos para a Bahia, também ainda não havia televisão por aqui, de forma que, assim que ela apareceu, eu já com 17 anos, meu pai comprou logo um aparelho e botou na sala. Tinha uma imagem-padrão e uma musiquinha, a gente assistia bastante.
A imagem-padrão era a silhueta de um índio, no meio do que parecia ser um alvo. “Se esse índio se mexer”, dizia meu pai quando ia lá dentro, “você me chame logo!”. Mas demorou muito para se mexer, o pessoal em casa até ficou meio desestimulado e quase que a gente nem ia mais à sala ver a imagem-padrão, só passávamos umas quatro ou cinco horas por noite espiando. Meu pai não se deixou abater. Boa música, boa música, dizia ele, alisando o aparelho.
Finalmente, os programas começaram. Tinha garota-propaganda (tudo falando carioca e alisando fogões e liquidificadores, era uma coisa emocionante; havia torcidas: eu, por exemplo, gostava mais da moça das lojas Florensilva, mas meu pai se mexia na cadeira quando surgia a moça da loja Duas Américas e dizia “muito bom esse liquidificador, um excelente liquidificador”) e apresentadores de paletó e gravata. Vinha gente de fora, também falando carioca e dizendo que o baiano era muito carinhoso e ma-ra-vi-lho-so e a imagem de nossa tevê era a melhor do Brasil e então ficávamos orgulhosíssimos e dizíamos “viu você, viu você?”.
O primeiro programa para que me convidaram era um jogo em que as pessoas tentavam adivinhar a profissão de outras pessoas. Cheguei lá de camisa esporte, recebi uma reprimenda: volte para casa e vista roupa de televisão, isto aqui é coisa séria. Voltei, vesti a roupa de televisão, e me dei mal, a começar pelo cumprimento, que tinha de ser “boa noite, senhores telespectadores” e eu não acertei a dizer telespectadores.
— Boa noite, senhores tepelespectadores — disse eu finalmente, tendo suores frios.
Minha equipe perdeu, eu enterrei o time. Só me vinha na cabeça “tratorista”. “O senhor é tratorista?”, perguntava eu. “Não”, dizia o entrevistado. “Oh”, dizia eu. Mas minha mãe ficou muito orgulhosa e discutiu com uma vizinha que me achou um tanto burro. Ele não é burro, disse minha mãe, ele é somente meio bobo, é muito diferente.
Depois me chamaram para escrever para a Globo, me deram uma passagem e eu vim ao Rio, carregando uma maletinha de pau-de-arara. Fui para o Jardim Botânico, com a maletinha, às sete e meia da manhã. Achei que impressionaria bem se eu chegasse cedo, e ninguém tinha explicado que o pessoal só acordava depois das duas da tarde. Demorou bastante para me atenderem. Comi um sanduíche no boteco defronte, cortei o cabelo e dei informações a passantes. Às duas horas, mais ou menos, me levaram lá para dentro e me mandaram para o teatro onde gravavam um programa chamado Satiricon. Fiz grande sucesso. De vez em quando saía um cara lá de dentro e dizia: “Tudo bem aí, baiano?” Acabei encostando na sala da técnica e Bibi Vogel veio ver uma cena em que ela aparecia. “Você achou que saiu bem?”, perguntou ela. “Sim, sim”, respondi. “Brigadinho”, disse ela, passando a mão na minha cabeça. Jô Soares fez um quadro e me perguntou: “Achou bom, baiano?” Ah, uma beleza, disse eu, e ele falou “olhe aí, ô Vanucci, o baiano achou bom”. Durante algum tempo pensei que eles iam me contratar para ficar botando o polegar para cima e dizendo que tinha sido ótimo, mas até hoje não tenho certeza quanto a isto. Por volta das dez horas, voltei para o hotel e, no dia seguinte, para a Bahia. Até hoje guardo gratas recordações desse meu tempo de colaboração com a Globo.
Finalmente, excetuando algumas aparições com Glauber, em que, quando eu vi, tudo já tinha sido gravado, surgi no vídeo em companhia de Marília Gabriela, em São Paulo. Cheguei calmíssimo, com a suéter vestida ao contrário e a barba feita de um lado só, porque o motorista que foi me buscar no hotel estava com pressa. Marília apareceu de repente, coisa que não se faz.
— Como vai? — disse ela, sorrindo.
— Ah, da-da — respondi brilhantemente. — É... sim, ha-ha. Hu... Sim, como não, ha-ha, não? Ho-ho.
— Eu já li seus livros — disse ela, me olhando como quem fala “eu compreendo”.
Felizmente, a mão que tremia estava do lado oposto ao da câmera e até que aquela suéter (é de minha mulher) ao contrário dá um certo charme. “Leve ele direitinho”, disse Marília ao motorista depois da entrevista, com um ar de preocupação no olhar.
Mas agora não, agora já estou acostumado. Por exemplo, todo mundo viu que eu fui entrevistado outro dia (aqui na Pituba, pelo menos, todo mundo viu) e me saí muito bem. É tudo uma questão de o sujeito estar na terra dele e todo mundo já saber como deve fazer as coisas. Meus agradecimentos à equipe médica da TV-Aratu, aos quatro câmeras e às 18 entrevistadoras, principalmente à que não desistiu. Um dia — é o que sempre digo a meu pai, quando ele pergunta o que é que eu quero da vida — eu ainda saio na capa de Amiga.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

09/09/2025

Alegrias da Velhice

Até ficar velho, operação antigamente simples e natural, resumível na venerável sentença “quem não morre fica velho”, está se tornando cada vez mais complicado, a ponto de, receio eu, causar algumas crises de identidade nesse cada vez mais vasto contingente da população. Acho que vou sugerir a criação, nas faculdades de Filosofia, de um curso de epistemologia da velhice, porque a confusão, pelo menos entre os menos ilustrados, como eu, aumenta a cada dia. Talvez até os próprios geriatras se beneficiem desse estudo, porque tenho praticamente certeza de que, entre eles, há divergências sobre o conceito de “velho”.
A mim, confesso, já enche um pouco o saco esse negócio. Começou, se não me falham os rateantes neurônios, com essa conversa de terceira idade, inventada pelos americanos, que são muito bons de eufemismo, como testemunha a exemplar frase “lide com preconceito extremo”, que, dizem, a CIA usava quando ordenava um assassinato. Passou a não pegar bem chamar velho de velho mesmo e agora a velharada é agredida com designações tais como “boa idade”, “melhor idade”, “feliz idade” e outras qualificações ofensivas. E, dentro dessas categorias, já me contaram que há subcategorias. Ninguém mais é velho, fica até feio o sujeito hoje em dia dizer que é velho.
De minha parte, reivindico apenas alguns direitos, entre os quais devo ressaltar não ser obrigado a entrar na fila dos idosos dos bancos. Aliás, a não entrar em fila de idoso nenhum, a não ser que, na hora, o que raramente sucede, isso apresente alguma vantagem. Fila de banco é uma furada séria, porque não só alguns de nossa variegada turma ou são surdos ou requerem primeiros socorros se começam a lhes explicar o que significa “o sistema caiu”, por exemplo. Me contaram que, numa agência aqui do bairro, uma senhora teve um pitaco, porque pensou que isso queria dizer que o banco falira e suas economias de viúva tinham ido juntar-se à vaca no brejo.
Imagino que, pelo tom acima, talvez alguém entre vocês tenha antecipado que vou lembrar outra vez o que Jorge Amado, entre as incontáveis peças de sabedoria que me presenteou ao longo de nossa convivência de décadas, me disse a respeito da velhice. Aliás, vou dar um furo de reportagem — sou do tempo do furo de reportagem, espero ser cumprimentado pela direção do jornal. Jorge não me falou somente uma vez sobre a velhice, embora não fosse seu assunto favorito. Há muitas outras frases, mas não se destaca entre elas somente a que divulguei aqui: “Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.” Teve outra, saquem agora o tremendo furo: “Compadre, não importa o que lhe digam, a gente não aprende nada com a velhice; a única coisa que a gente aprende com a velhice é que velhice é uma merda.”
Entrevendo os setentinha a média distância, temo que, como tudo mais que o compadre me ensinou, isso tudo seja a impiedosíssima verdade. Pode ser que, a depender da categoria empregada, eu não seja velho (cartas sobre o que é ser velho, principalmente as escritas por velhos como eu, que vão dizer que a velhice está na mente etc. etc., para o editor, por caridade), mas, outro dia, não lembro onde, fui descer dois degraus do palco aonde havia antes subido e quatro jovens pressurosas me apararam as costas e me seguraram os cotovelos como se eu fosse um hipopótamo paraplégico tentando um salto ornamental. Eu talvez pareça um hipopótamo paraplégico, mas sou no máximo uma anta com artrite e ainda tenho lepidez bastante para descer um meio-fio com relativa confiança. (A velhice não está na mente, está nas juntas.)
Quanto ao aspecto didático da velhice, também parece confirmar-se o que me falou meu amigo. A vida pode ensinar alguma coisa e geralmente ensina, embora quase sempre a gente aprenda tarde demais — besteira, esse negócio de “nunca é tarde demais”, costuma ser tarde demais mesmo. Mas a velhice mesmo só ensina o que ele disse. Certo, talvez eu não seja velho o suficiente para esta confirmação, mas os indícios são claros. Calçar meias, para citar um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice. Um dos meus joelhos volta e meia faz um barulho alarmante, dói uma besteirinha e depois volta ao silêncio enigmático com que minhas noites são atormentadas por visões de ossinhos se esfarelando, enquanto eu vou à banca de jornal. E por aí vai, o pudor me cala.
Mas Jorge não testemunhou o que hoje testemunho. As alegrias da velhice, afinal, não são meramente individuais. E não é que agora vejo o Brasil a transformar-se mesmo num grande canteiro de obras? Falam até que o Bolsa Família será gradualmente extinto, pois o governo vai chamar cada beneficiário e dar a ele um emprego. Claro, não há empregos nem para os que estão fora do BF, mas também não se pode querer tudo. E as coletividades que agora verão instalar-se a concórdia e a prosperidade, através dos Territórios da Cidadania? Até mesmo as eleições municipais, frequentemente causa de rancor e hostilidade, deverão ser bem mais tranquilas. E, finalmente, o Big Brother Brazil deixou de ocupar o primeiro lugar entre as contribuições do Brasil para o progresso da Humanidade neste século. Agora, através da visão e da generosidade do Nosso Guia, o Brasil deu um passo muito à frente de Orwell e até do BBB. Não disse ele que d. Dilma Rousseff é a mãe do PAC? O PAC não é o nascimento de um novo Brasil, para o povo e não para a Zelite? Então, além do Nosso Guia, temos a nossa Big Mother. Perfeito, até do ponto de vista psicanalítico. A única desvantagem sobre o BBB é que eles não deixam a gente ver o que eles fazem, mesmo entrando compulsoriamente para o pay-per-view.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

02/09/2025

Viroses da Vida

Há maldosos que dizem que eu deveria sempre encerrar minhas crônicas com a frase “desculpem qualquer coisa”. Assistir-lhes-á, talvez, razão, como essa mesóclise aí poderá corroborar. Mas começar com “desculpem qualquer coisa” nunca me havia ocorrido até hoje, como está acontecendo agora. Bem verdade que posso gabar-me de mais uma vez ingressar na Galeria dos Heróis Desconhecidos do Jornalismo, informando que, no momento, me encontro acometido de crudelíssima virose e obrigado a violentar o corpo mole, a mente rateante e a vontade de cair na cama para não deixar de cumprir o dever profissional. Mas o leitor não tem nada com isso e, virose ou não virose, é seu direito encontrar no mesmo lugar a coluna que espera, nem que seja para amassá-la como todo domingo, ou novamente declarar no boteco que não vai perder tempo em ler porcaria. O dever do jornalista é multifacetado e até essas pequenas alegrias ele deve, quando pode, proporcionar sem ver a quem, em mundo tão eivado de tragédias e assombrações.
Não, não compareci a nenhum consultório médico para saber que estou com uma virose. Embora para sempre enredado pela invencível malha médica, tenho procurado seguir, na medida do possível, o conselho que um de seus próprios membros me deu. Era como ele mesmo agia. “Quando seu médico disser que quer ver você”, ensinou ele, “pegue uma fotografia boa e mande para ele. Hoje em dia, com as câmeras digitais, é moleza. Se ele for do tipo meticuloso, você pode até mandar uma foto diferente todo dia”. É verdade, a informática revolucionou a medicina de mil maneiras, até com essa conquista para mim espetacular.
Virose é uma enfermidade produzida por vírus, explica o dicionário. Diz, porém, a nossa experiência que virose é qualquer condição orgânica que nos incomoda e cuja origem o médico não consegue encontrar. Sentimos um mal-estar mais ou menos persistente, vamos ao médico. Ele então nos aplica a medicina moderna, que consiste em nos enviar para a Nasa, ou seja, a um número aparentemente infinito e crescentemente especializado de laboratórios e clínicas, para fazermos exames de nomes extraterrestres. Vamos aos laboratórios, somos submetidos a toda sorte de sevícias e humilhações (entre as quais avulta referirem-se no diminutivo a todas as partes do nosso corpo, inclusive as nossas vergonhas, o que, ao menos no caso dos homens, pode ser ofensivo ou mesmo traumático) e ao médico voltamos, geralmente sem estar sentindo mais nada. Ele folheia os laudos em cinco segundos, pronuncia-nos em excelente condição para nossa idade e nos comunica que fomos vítimas de uma virose. Ouvimos a habitual admonição quanto ao nosso colesterol, somos polidamente descritos como glutões grosseiros e faltos de caráter e voltamos para a mesma vida besta de sempre, só que com o currículo enriquecido com mais dezoito picadas, uma tomografia, uma ressonância magnética, uma endoscopia e talvez dezenas de outras experiências que o pudor e o autorrespeito mandam tentar esquecer.
Mas minha virose, desta vez, foi diagnosticada no boteco mesmo, por um dos muitos médicos que o frequentam. Ele me deu uma aulazinha sobre o assunto e me perguntou se me vacino periodicamente contra gripe, como aconselha minha condição de idoso e minha aparente susceptibilidade a viroses. Respondi que sim, resignei-me, mudamos de assunto. E tudo, com exceção da virose, desapareceria ali mesmo, se não tivesse surgido um inesperado debate, partido de um senhor que estava sentado a uma mesa próxima da nossa. Desculpou-se por se meter na conversa e fazia questão de ressalvar que não iria manifestar falta de confiança no médico que falara, mas “neles”. Não ficou bem claro quem são “eles” e aí deixo com vocês a identificação, reproduzo somente os brados.
— Eu não me vacino! Eles são capazes de tudo! Eu tenho um grupo de estudos que já chegou à conclusão de que eles querem é resolver o déficit da Previdência! E a melhor maneira é botando um negócio na vacina dos velhos! Há dezenas e dezenas de opções ao alcance deles! O velho otário vai lá no posto, toma a vacina e aí tem um treco e abotoa o paletó rapidinho! Aqui pra eles, nenhum de nós toma a vacina!
— Não, desculpe, isso não é verdade. O senhor tem visto as campanhas todos os anos e não morreu velho nenhum por causa da vacina.
— Por enquanto! Isso é até o pessoal pegar confiança. Aí, quando menos se esperar — créu! —, não vai sobrar um velho, pode escrever. E aí eles abrem uma CPI, falam pra cacete e o resultado vai ser criarem um imposto sobre o dinheiro que os velhos deixarem e vai aparecer uma Operação Matusalém para pegar a quadrilha que quer tomar o dinheiro deixado pelos velhos e…
— Não, desculpe outra vez, o senhor deve estar brincando, isso é completamente implausível.
— Implausível? Implausível? Onde é que o senhor mora, tem alguma coisa implausível aqui? No dia em que alguma sacanagem for implausível no Brasil, é porque é implausível no Universo, só assim! Aqui não tem nada de implausível, nem impossível! Eu não tomo essa vacina, não tem quem me faça! Eu tenho é 76 anos desta merda e já vi tudo acontecer aqui, não tem quem me faça tomar vacina deles, nem pra frieira do dedão! Eles é que procurem armar outra, porque pra mim essa não cola!
Lamentável desconfiança, triste sinal dos tempos. Claro que vou continuar a tomar a vacina. Só que, da próxima vez, já mais para perto do fim da campanha, para ver o que aconteceu no começo.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

25/08/2025

Como É Seu Nome Completo?

Não há de haver profissão mais louca do que a de escritor. É possível até que, quando me viam chegando de manhãzinha para trabalhar no meu “escritório” de Itaparica, os frequentadores da Praça da Quitanda pensassem em que vida mansa eu tinha, de bermudas e chinelos sempre aproveitando qualquer pretexto para, antes de subir, ficar por ali prosando sobre a tarrafa de Luiz Cuiúba ou as galinhas de Zé de Honorina, como quem não tinha pressa nem obrigação. Além disso, era tão comum que, depois de passar uma meia hora lá em cima, eu descesse outra vez para ficar zanzando pela praça ou pela beira do cais, que muitas vezes me perguntavam se eu estava trabalhando mesmo.
Mal sabiam eles que, lá em cima, olhando para uma montanha desorganizada de papéis e entulhos variados, eu tinha acabado de concluir pela enésima vez que aquilo tudo era uma maluquice, que não estava entendendo nada e que jamais seria capaz de escrever uma outra linha, quanto mais concluir o livro que, fazia quase um ano, prometia à editora que entregaria “para o mês”. Que sentido tinham aquelas garatujas todas, lauda após lauda de uma história que eu estava tirando não sabia de onde, gente que não existia e cujos sentimentos e ações agora me ocupavam como a um alucinado, personagens que de repente começavam a mandar nos acontecimentos, por que eu não tinha uma atividade decente como qualquer pai de família respeitável? Ainda mais que, no dia anterior, em quase delírio, eu havia mais uma vez assustado a pacientíssima santa esposa com descrições verborrágicas dos maravilhosos feitos literários que brotavam em catadupas da minha máquina inspirada — que confiança, que fé no taco, que certeza de que estava no caminho certo!
Como é que isso acontecia, como é que eu era gênio na quarta-feira e cretino na quinta? Cretino, irremediavelmente cretino, metido até o pescoço num projeto impossível e paranóico, isolado em meio a fantasias estranhas, levantando-me exasperado para ir até a janela e ver a praça, onde as pessoas, placidamente conversando, acreditavam estar cá em cima um escritor com aquela cara de escritor que se vê nos livros, escrevendo agilmente belas palavras e convivendo com as musas. E, ainda por cima, não sou amador, sou profissional, não faço mais nada, não sei fazer mais nada. É possível exercer atividade tão absurda como ofício e meio de vida, isto é normal? Talvez fosse por isso — certamente era por isso — que eu tinha procurado, como procurara muitas vezes antes e continuaria a procurar, adiar o penoso instante em que, nas vascas do cretinismo, teria de subir de novo ao escritório e enfrentar a escrita. Não, não, era uma situação insuportável, o jeito era descer outra vez, carregando todos aqueles personagens na cabeça espremida como um caju, os miolos meio doidos — e ir de novo conversar sobre as galinhas e a tarrafa, de novo mostrar a eles como é amena e descontraída a vida de quem trabalha de bermudas e chinelos. Ou então — por que não? — baixar a cestinha amarrada numa corda que o inimitável Zé de Honorina me providenciou quando montei o escritório, dar um berro para o compadre Bento lá embaixo e pedir que ele, por caridade, encha um copão daqueles de requeijão com alguma coisinha forte e o envie, via cesta, cá para cima. Compadre Bento é sempre prestimoso, especialmente em questões de escrever, porque uma vez, quando eu não conseguia parar de batucar na máquina apesar da presença dele, ocupado em consertar um negócio qualquer no escritório, me viu trabalhando e ficou muito impressionado.
— É trabalho pesado — explicou ele mais tarde à sua santa senhora, comadre Marileide. — Ele bate, bate, destremece todo, dá risada e faz cada careta que só a pessoa vendo. Aquilo puxa muito pelo juízo, coitado.
Muitos acessos de genialidade e cretinismo mais tarde, muitas noites maldormidas e copos de requeijão mais tarde, acabei o livro. Abestalhei, dei para vagar pela ilha como um zombie, fazendo perguntas sem nexo aos passantes e achando que nunca mais ia conseguir dormir. Entreguei os originais, não melhorei da cabeça, comecei a esperar que o livro saísse, que alguém lesse aquilo, que eu pudesse tocar no produto final daquele processo enlouquecido.
Ai de nós, escritores, nada se passa tão simplesmente. O livro tem de ir para o editor, tem de ser planejado, composto, revisto, impresso, encapado, encadernado, guilhotinado e não sei mais o quê. Não é como o trabalho de um pintor, que termina o quadro e pode mostrá-lo; não é como o trabalho de um praticante das artes cênicas, que exibe suas artes diretamente, é aplaudido, ignorado ou vaiado na mesma hora; não é como o trabalho de um músico, que toca sua música e presencia seu eco logo em seguida. Nada disso, o trabalho do escritor se multiplica, lentamente, enervantemente, em exemplares e mais exemplares, que são (ou não são) curtidos de forma individual, privada e pessoal — o escritor não sabe de nada do que está acontecendo, não tem um momento de explosão, tem só aquela coisa parada, vagarosa, indefinida. Quando, finalmente, o editor telefona e diz “está pronto, venha ver”, já se sofreu tanta agonia que a visão da obra transformada em objeto utilizável pode ser até melancólica. Então é isso? Então foi para isso que me meti em tanta atribulação? O que é isto, que quer dizer, aonde cheguei? Mas só agora você aparece, livro, depois de quase me haver matado? E daí?
E daí que há outras exigências, a que o sujeito não pode furtar-se. Antes mesmo que alguém possa ter lido o livro, há que dar entrevistas, respondendo sobre coisas que não se sabe, eis que o livro só existe intimamente e só revela sua identidade depois de lido pelos outros. Então como é que o escritor vai saber de alguma coisa sobre o livro, antes que o livro realmente exista? Mas é preciso trabalhar e é preciso arregimentar talentos inexistentes para conseguir realizar esse trabalho.
Tal como o talento de dar autógrafos, fazer dedicatórias e ser simpático quando se está nervoso. Mal sei assinar o nome (sou do Norte), não consigo fazer dedicatórias que não sejam “com a admiração do...” e fico nervoso quando mais de duas pessoas me olham simultaneamente. Então me sento lá e, invariavelmente, esqueço os nomes dos bondosos amigos que aparecem nos lançamentos e, crentes de que eu nunca poderia esquecer seus nomes, ignoram os pedidos desesperados que faço ao pessoal que vende os livros para que anotem a lápis os nomes (“pode deixar isso pra lá, ele me conhece”) e surgem risonhos, estendendo seus exemplares para que eu os autografe. Dá um branco, todos os nomes vão embora, os neurônios não disparam, a mão na caneta não funciona. Agora mesmo vai haver uma dessas sessões de autógrafos, já prevejo o que acontecerá, a vida do escritor é muito dura, não adianta nem usar truques antigos.
Como, por exemplo, o que eu costumava empregar há algum tempo. Em Salvador, num lançamento um pouco remoto, lembro muito bem que já tinha passado por diversos vexames amnésicos quando se apresentou diante de mim um senhor simpático, me olhando com afeto e até carinho, livro em punho e sorriso encorajador. Eu tinha certeza de que conhecia aquela cara, era com toda a certeza um grande amigo meu, uma pessoa de quem gostava muito — mas quem seria? Como era o nome dele, meu Deus do céu? Vasculhei as gavetas emperradas dos velhos centros da memória, cheguei a perder o fôlego, não adiantou, o nome não vinha. Sorri amarelo e usei o truque que me parecia mais adequado.
— Como é seu nome completo? — perguntei brilhantemente, de caneta em riste e cara hipócrita de quem sabia o primeiro nome.
— Ora, meu filho — respondeu o simpático senhor. — Não precisa pôr nome nenhum. Basta escrever “para meu pai”, que está tudo bem.
— Desculpe, papai — disse eu.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

20/08/2025

Não Esquentemos a Cabeça

Meu saudoso amigo Luiz Cuiúba, quando provocado a falar sobre mim, citava sempre d. Madalena, nossa professora. “Ele é boa pessoa, não se vai negar”, afirmava Cuiúba. “Mas d. Madalena cansava de dizer que ele tem um problema na ideia, e quem conhece ele sabe que é verdade.” E, claro, amigo e professora de infância sempre têm razão quando opinam sobre a gente. Eu, lamentavelmente, padeço de um problema na ideia desde pequeno. Já desisti de consertá-lo, até porque ele é difícil de caracterizar, se disfarça muito.
Bem verdade que quem sai aos seus não degenera e meu avô materno, o combativo quão poderoso coronel Ubaldo, da mesma forma já mencionado aqui em outras ocasiões, também tinha, vamos admitir com franqueza, um problema na ideia. Tanto assim que, de vez em quando, a cabeça dele esquentava a tal ponto que ele intimava o primeiro infeliz que passasse por perto para abanar-lhe a careca enquanto durasse o surto de esquentamento. Ventilador, nem pensar, pois ele abominava toda e qualquer coisa que tivesse a ver com eletricidade e jamais tocou em nada elétrico na vida, nem interruptor de luz — ordenava a alguém que acendesse a luz.
E certamente devo chamar a atenção para a circunstância de que os leitores também já devem ter observado esse meu problema, embora só muito poucos tenham tido a oportunidade de testemunhar as fofas (pronuncia-se “fó-fa”, com o “o” aberto e, já que estamos perto de mudanças ortográficas, tomarei a liberdade de doravante grafar “fófa”) que, quando o esquentamento na cabeça não era superado, acometiam tanto meu avô quanto hoje a mim. A fófa consiste em cair prostrado na cama em decúbito ventral, revirar os olhos e bufar freneticamente com os lábios e o queixo tremendo. Para tratar meu avô, bastava um vidrinho de leite de magnésia de Phillips, a última novidade da medicina que aceitou, até morrer de velho. Mas não tomava o remédio nunca, apenas se acalmava aos poucos, olhando para o vidrinho azul. Minhas fófas, receio eu, já se globalizaram, mas a metodologia permanece a mesma. Me receitam bolinhas, eu leio as bulas, não tomo nada e acabo me desfofando.
É difícil, pelo menos para os fofistas que creio também haver entre vocês, ler um jornal ou assistir a um noticiário de televisão sem pelo menos esquentar a cabeça. Infelizmente, não conto com um pelotão de abanadores de careca como meu avô, mas, em compensação, não tenho medo de objetos movidos a eletricidade e sou homem de, em momentos mais sérios, quase enfiar a cabeça por um condicionador de ar adentro. Estou sem fófas desde o início do ano. Não sei se é porque o governo não começou ainda, e é possível que o presidente não tenha terminado de achar todos os que o desancaram para dar-lhes ministérios e assim desmascará-los, mas o fato é que, apesar de certos eventos, ainda não deu para uma fófa.
Mas para esquentar a cabeça, sim. Não é possível que as cabeças de vocês também não esquentem, com as notícias que a gente ouve e lê. Por exemplo, a economia vai mal ou bem? As notas, reportagens e até releases disfarçados por vezes se contradizem na mesma página de jornal, ou no mesmo noticiário de tevê. Estamos ameaçados de apagão ou não? Temos a infra-estrutura para crescer economicamente ou não? Vai ser minorado o problema da violência ou não?
Pelo que se lê ou escuta, não dá para saber. Por exemplo, liguei a televisão e assisti a um senhor muito sério falar em aumento da oferta de empregos no Brasil. Sei que a estatística, como já se disse, é frequentemente a arte de mentir com precisão, mas, pelo que ele asseverou, estamos bem, estamos muito bem, estamos até atraindo mão-de-obra do exterior, vejam que beleza. E a cabeça pára de esquentar, mas, insensatamente, mudo de canal e pego mais gente falando sobre emprego. Nada disso, afirma logo outro noticiarista, desta feita um repórter conversando com desempregados em todo o Brasil, gente que procura trabalho há anos sem achar nada e ocupações que não existem em outras partes do mundo, como guardadores de lugar em filas, donatários de ruas, praças e calçadas para estacionamento e membros profissionais de partidos que deem emprego. A necessidade é a mãe da porcaria e por causa dela ficamos nesta situação, digamos, geradora de fófas.
Temeroso, decido desligar a tevê e vou olhar minha fornida e-mailspondência (desculpem, desculpem, não escrevo mais esta barbaridade), para esquecer realidade tão dura. Vejo logo a mensagem de um amigo americano com quem há muito tempo não falo. Vai tudo bem e Larry, o filho dele, está quase para se formar numa universidade. Nos períodos de folga, já encontrou diversos empregos temporários, dos muitos que uma pessoa empreendedora pode arrumar por lá. Vocês vão achar que estou mentindo e por isso, pelo menos num dos casos, mato a cobra e mostro o pau. Não sei o nome do professor que dirigiu o estudo de que Larry foi “freguês”, mas o fato é que, há dois verões, ele foi pago para dormir, numa pesquisa sobre o sono. No verão passado, sério mesmo, ele foi, digamos, piloto de provas de camisinhas e, a julgar pelo que me dizem do Larry, deve ter feito algum sucesso nessa condição. E, finalmente, este ano, vai trabalhar rindo profissionalmente, numa tal de Laughter Therapy Enterprises, ou seja, Empresas de Terapia pelo Riso, no Colorado. Quem sabe se, no futuro, ele não ganhará a vida na folgança, rindo durante o expediente e testando camisinhas nas horas vagas? Aqui, penso eu rancorosamente, só quem faz isso é o governo — e em cima da gente, às nossas custas. Alguém aí pode ceder um frasco de magnésia para eu espiar?

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

16/08/2025

Colhudeiros da Ilha

A palavra “colhuda”, que eu saiba, não está nos dicionários. É quase sempre pronunciada “culhuda”, mas creio que, se a etimologia dela é a que você e eu estamos pensando, a grafia correta deve ser a que escolhi. E, também que eu saiba, se restringe à Bahia. Creio tratar-se de uma palavra muito útil. Antigamente sua, digamos, baixa extração a bania do convívio social mais fino, mas hoje ela é aceita, ganhou trânsito quase totalmente livre, faz parte do vocabulário geral e, no meu parecer, é uma contribuição que o baianês dá ao português falado no Brasil.
Que eu saiba de novo (vou parar com isto; todo mundo já sabe que eu não sei nada mesmo), essa palavra tão, perdão, plurívoca, não tem equivalente. Nenhum sinônimo possui sua riqueza conotativa, que muitas vezes é modificada quando ela é pronunciada junto com um gesto qualquer. Para compreendê-la de todo, o convívio é indispensável. Mas pode-se dizer, simplificando bastante, que a colhuda é a mentira desinteressada, ou interessada sobretudo em enaltecer, direta ou indiretamente, o colhudeiro. É freqüente que o prazer dele resida muito na apresentação da história, na sua quase encenação. Um bom colhudeiro tem o seu valor e, sem um ou dois, nenhuma boa mesa de boteco é completa. Eu, ficcionista profissional, sou o da minha, claro.
Todo mundo conhece um ou vários colhudeiros. Poderia mesmo dizer, sem medo de errar, que há um colhudeiro perto de você. Ou você não conhece pelo menos um cara que, quando qualquer pessoa narra uma experiência incomum, tem sempre uma história parecida para contar, somente um tantinho diferente da anterior, se possível para melhor? Há até mesmo duelos de colhudeiros, porque já sentei a mesas onde dois ou três deles se entrechocavam incessantemente, em meio a colhudas das mais cabeludas, maravilhando a todos com sua inventividade. E também todo mundo conhece o colhudeiro que meteu o dedo na cara do desembargador Sicrano ou do general Beltrano, o que já viveu uma vida de inexprimível dissipação e luxúria na companhia das melhores mulheres do Rio de Janeiro daquela época, a que não pode ir a uma festa desacompanhada porque a azaração em cima dela se torna insuportável, o que já viajou mais de uma vez numa espaçonave alienígena, e assim por diante.
Itaparica, como não podia deixar de ser, sempre contou com colhudeiros de escol. No tempo longínquo em que a luz era fornecida pelo gerador da prefeitura e só durava do anoitecer às dez ou dez e meia da noite, até às onze nos sábados, se bem me lembro, os colhudeiros desfrutavam de grande prestígio, alguns especializados em pescarias e aventuras marítimas, outros versados em mulheres de todos os tipos, ainda outros mais ou menos ecléticos. Veio o rádio, depois a televisão, o colhudeiro perdeu platéia, embora, é claro, não tenha morrido, apenas se adaptou às novas condições.
Mas meu amigo Xepa não é colhudeiro. Sério mesmo, Xepa é uns meses mais moço que eu (ô, pretensão, quero dizer menos velho), somos amigos desde meninos e ele nunca foi tido como colhudeiro. Na nossa geração, descontando meu caso profissional, há diversos colhudeiros de renome, alguns, diria eu, até mesmo comparáveis aos colhudeiros do governo, se bem que Sebinho de Eusébia diga que não há melhores colhudas que as colhudas do presidente — segundo Sebinho, tão bem contadas e com tanto sentimento que chegam a partir o coração. Graaaande colhudeiro, diz Sebinho. Do legítimo, que a pessoa jura que ele está acreditando na própria colhuda, a pessoa tem que ter admiração. Mas isso é lá com Sebinho, eu mesmo é que não estou chamando o presidente de colhudeiro, deste teclado jamais saiu tal alegação.
Estou é preocupado com a reputação de Xepa porque escrevi aqui que ele me contou que um amigo dele tinha fisgado um tatu com uma varinha de pescar carapicu, um peixinho miúdo que a gente trata, tempera com uma besteirinha de sal, cobre de farinha e frita, ele fica crocante e todo mundo come com cabeça, espinha e tudo — quem não comeu “ainda não apreceiou a vida”, como dizia o finado Lourival, embora se referindo a outra atividade humana. Aqui no Rio, quando contei essa história no Tio Sam (não, também não recebo um estipêndio para divulgar o Tio Sam, mas admito que penduro uns troços lá), Felipe Palácio, que gosta muito de curtir com a cara dos outros e anda com umas companhias estranhas, como Borges, Lilico e Boneco, cujas histórias escabrosas um dia eu conto aqui, Felipe Palácio, dizia eu, que já conhece a expressão, afirmou em alto e bom som que esse tal Xepa era colhudeiro.
Injustiça, injustiça, coisa de quem vive em palácios e não conhece o povo, como os dois autores da colhuda da baleia, hoje espalhada pelo mundo como piada que talvez até você já conheça. Deu-se que Miltinho de Carmelita, renomado colhudeiro da ilha prematuramente falecido, estava palestrando com Nadinho Damásio, santo-amarense e igualmente finado, e este lhe contou que tinha testemunhado um fato tremendo. Não é que ele estava em Santo Amaro, tomando umas cervejas perto da boca do rio Subaé, quando uma baleia enormíssima saiu do mar, se arrastou rio adentro e caiu de boca nos canaviais, uma coisa jamais vista sobre a face da Terra? A desgraçada da baleia não quis nem saber, mascou e chupou pelo menos uns quatro canaviais até voltar com o bucho cheio para a baía de Todos os Santos. Mas erra quem pensa que, como bom itaparicano, Miltinho envergonhou a ilha. Com a maior calma, ele retrucou, sem usar propriamente a palavra que aqui emprego depois do “no”:
— Ah, eu sei qual é essa baleia. É uma que eu vi na festa da Conceição da Praia, com uma torneira enfiada no traseiro e vendendo caldo de cana, agora eu entendi!

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

11/08/2025

O Eterno Feminino num Boteco do Leblon

— O cara que aparecer na minha frente pra me dizer que compreende as mulheres, eu primeiro falo que ele é um mentiroso sem-vergonha e, se ele não gostar, eu meto a mão na cara dele, podes crer. Ninguém jamais entendeu, ninguém entende, ninguém jamais entenderá.
— Não sei se eu concordo. Se você pensar bem, ninguém entende o ser humano. E a mulher, como ser humano...
— Mulher não é ser humano! Tu já começa com a afirmação errada, mulher não é ser humano, é outra espécie! E que por sinal sempre se deu muito melhor do que nós e agora está se dando ainda melhor. Você sabe o que é que nós, homens, somos? Nós somos vassalos, é o que nós somos e sempre fomos! Vassalos, escravos, abaixo de escravos, propriedades imobiliárias!
— Você já deve ter chegado com umas duas no juízo, já deve ter passado no Azeitona antes de chegar aqui.
— Nada disso, meu caro amigo, estou chegando diretamente do recesso do lar, este é o meu primeiro chope e, se Deus quiser, não há previsão para o último.
— Não é isso, é porque tu até pode não ser um intelectual, mas...
— Não me xinga! Se tu me chamar de intelectual eu rompo contigo, intelectual um cacete, eu tenho horror desses caras, devia estar tudo numa fazenda, pegando na enxada e dizendo as besteiras deles às vacas. Intelectual é uma merda, intelectual...
— Tudo bem, mas você sabe perfeitamente que as mulheres sempre foram oprimidas e discriminadas. Essa liberdade é recente, é uma conquista que resultou de muita luta.
— Tudo chute! Elas sempre estiveram por cima da carne-seca! Sempre foram elas que mandaram! Eu não vou nem discutir isso com você, qualquer historiador desmoraliza o que tu falou, eu mesmo tenho um livro lá em casa que tu cai o queixo. E, além disso, não me interessa, eu não sou progressista como você, nem nesse nem em outros pontos, tu é que sempre tá querendo mostrar sintonia com as últimas do momento, tu sempre foi assim desde o “paz e amor”, desde até “a família que reza unida”, eu te conheço.
— Não, eu procuro me manter atualizado, a realidade muda, nossas opiniões também têm que mudar.
— As minhas, não! Eu continuo do tempo em que mulher não tinha direito a TPM! Aliás, nem existia TPM, era tudo considerado frescura e cólica menstrual era psicológica, tudo pra aporrinhar o homem. Aliás, mulher não fica doente, tudo é pra aporrinhar o homem. Esta é uma grande verdade, mulher não fica doente.
— Cara, tu tá me dando um susto, tu não tá falando sério. Tu deve é ter tido uma briga feia com a Solange e aí...
— Claro que eu tive uma briga, é muito simples. São 38 anos de casado, 32 morando aqui no Leblon praticamente no mesmo lugar e hoje, pela primeira vez, eu resolvi responder ao discurso que ela faz há esses 32 anos, toda vez que eu saio pro boteco. Aí não deu papo e eu já cheguei aqui neste estado, minha pressão deve estar batendo nuns 20 por 14. E minhas duas filhas estavam lá, estava a Vanessa, minha nora, todo mundo contra mim, é claro.
— Mas então tu deve ter dito alguma coisa muito ofensiva.
— Disse zorra nenhuma! Tu já experimentou encarar um coral de jararacas te esculhambando com o que elas lêem nessas revistas que deviam ser proibidas? Nem Mussolini encarava! E era capaz de me cobrirem de porrada, não duvido nada!
— Mas que exagero, cara, tu tá transtornado, tu...
— Tou! Tou! Tou transtornado! Tou mesmo! Eu sou de outro tempo, minhas convicções são outras, que, aliás, são também a da maioria, só que todo mundo é covarde e hipócrita e fica repetindo essas babaquices pra fazer média socialmente.
— Não é nada disso, tu tá enganado.
— Eu não tou nada enganado! O Lula tinha toda razão, quando improvisou que elas andam muito ousadas e daqui a pouco aparece uma querendo ser presidente da República.
— Ah, isso também já é preconceito demais. Aliás, a tendência é essa mesmo, já tem havido muitas mulheres governantes, a Golda Meir, a Indira Ghandi, a Margaret Thatcher... O que o Lula falou...
— ... Tá certo! Ele tá certo! É o que todo mundo pensa e não tem coragem de dizer e aí ele vai lá e fala. Aliás, eu queria lhe dizer que eu sou a favor do que ele diz e sou improvisista de primeira hora. Ele diz o que o povo pensa, é isso mesmo, só quem não gosta é intelectual e veado, que, aliás, é mais ou menos a mesma coisa, se tu for olhar bem olhado, é tudo meio boiola. Eu sou improvisista convicto. Mulher, meu amigo, deixou desencostar a barriga do tanque, tá lascado. Ele tem mais é que abrir o bocão e dizer o que todo mundo pensa ali, pão, pão, queijo, queijo.
— Mas ele não fala contra as mulheres e tem mulheres trabalhando com ele, inclusive no Ministério.
— É a política! A política é que obriga ele, ele não é burro e não vai dar essa mancada de falar contra elas. Mas duvido que ele não pense igual a mim, ele fala o que o povo pensa, essa é que é a verdade, é por isso que todo mundo gosta dele e só a baitolada intelectual e da imprensa é que não gosta. Por mim ele tá reeleito, só não tá se abandonar o improvisismo.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

07/08/2025

Sete de Janeiro

Já escrevi, aqui e em não sei mais lá em quantas publicações, a respeito do Sete de Janeiro, mas receio que bem poucos lembrem qualquer coisa da verdadeira data magna da independência brasileira. Meu avô, o coronel Ubaldo Osório, historiador, patriota e orador cívico, nunca se resignou com tal injustiça e quem o ouvia desdenhar do Sete de Setembro logo se contaminava com sua indignação. Devia ser feriado nacional, pois é a data em que os itaparicanos expulsaram definitivamente o opressor lusitano e a ilha se tornou, no longínquo 1823, quiçá o primeiro solo realmente brasileiro. Bem sei que outras cidades, notadamente no Recôncavo Baiano, reivindicam a mesma glória, mas advirto aos que assim pensam, em qualquer parte do orbe terrestre, que o fantasma de meu avô, com o sobrolho cerrado e as bochechas panejando de cólera, virá assombrá-los, tão certo quanto o domingo vem depois do sábado.
O coronel Ubaldo, também aqui já ocasionalmente mencionado, era um homem de convicções sólidas e enérgicas. Convicções tão enraizadas que, de forma para mim admirável, a realidade não as alterava em absoluto. Por exemplo, ele nunca acreditou na existência da televisão. Quando a televisão chegou à Bahia, aí pelo começo da década de 60, a família, mesmo acossando-o em massa, jamais conseguiu que ele assistisse a um segundo de televisão. Não podia evitar ver os aparelhos desligados, mas escutava com mal disfarçado desdém explicações de como ali apareceriam pessoas, paisagens vivas e assim por diante.
— Creio, creio — dizia ele volta e meia, tentando despachar o palestrante. — Creio muito.
— Não, o senhor está duvidando, eu conheço o senhor. Mas é verdade. Eu vou ligar um instantinho para o senhor ver.
— Não ligue esta merda, que eu saio desta casa e nunca mais ponho os pés aqui!
Pronto, ninguém ligava. E, se ele, nas raríssimas ocasiões em que passava alguns dias conosco (levava garrafões de água da ilha, pois não bebia água nenhuma que não fosse de lá, nem mesmo em forma de chá), notasse que estavam assistindo à televisão na sala, não passava por lá. Se tinha de passar, passava olhando ostensivamente para o lado e cantarolando, certamente para encobrir o som que saía do aparelho. Se já estava na sala e alguém ligava a TV, saía imediatamente. Se insistissem, usava uma variante da defesa padrão.
— Creio, creio — repetia, já fora da sala. — Creio muitíssimo. Um dia destes eu assisto com vocês, podem deixar.
Nunca assistiu, é claro, assim como nunca tocou em qualquer aparelho elétrico. Não precisava estar ligado a nenhuma tomada. Ele não queria aproximação e, quando precisava sair com uma lanterna de pilha para iluminar o caminho, chamava um dos numerosíssimos membros de seu staff, porque ele mesmo não punha a mão naquele negócio. Quando a prefeitura de Itaparica instalou um gerador a óleo que fornecia energia do escurecer até mais ou menos as dez da noite, minha avó, sob os resmungos dele e ameaças de se refugiar na fazenda para nunca mais voltar, pôs lâmpadas na casa. Ele acabou gostando, porque tornava ler bem menos penoso que à luz de um candeeiro, mas jamais chegou perto de um fio ou interruptor. Chamava alguém.
— Acenda a lâmpada incandescente — dizia ele, visivelmente tenso e ansioso enquanto a operação não chegava ao final, e hoje tenho a impressão de que achava que, daquela vez, alguma coisa ia explodir.
Tampouco achou necessário viajar a lugar algum, embora falasse com desenvoltura sobre cidades, costumes e até comida de outros países. Mas nunca saiu da ilha e, quando lhe diziam que havia praias bonitas em outros lugares, praias até mais bonitas que as da ilha, afirmava que se tratava de uma impossibilidade e encerrava severamente a discussão. A mesma coisa quando lhe falavam sobre avanços tecnológicos que nem pensávamos em ver ainda. Sentenciava que era tudo mentira e proibia que o interlocutor continuasse a perturbá-lo com aquela conversa para néscios. Uma vez um sujeito quis tirar o que na época se chamava “um instantâneo” de meu avô (que não era tão instantâneo assim, porque as máquinas ainda tinham muitas limitações e às vezes os preparativos demoravam) e foi posto para fora de casa. Ele só admitia ser fotografado depois de fazer a barba, tomar um banho e se arrumar com paletó e gravata e um toque de água-de-cheiro, que minha avó nunca esquecia. Tirar retrato só limpo e cheiroso e bem apresentado.
E assim viveu meu avô. Já em dezembro se ouviam, num murmúrio ininteligível, as palavras candentes com que ele falaria aos conterrâneos sobre o orgulho de ser brasileiro e o orgulho de, como se isso não fosse suficiente, ser itaparicano. Escrevia às vezes andando pela casa e fazendo pausas súbitas, em que uma palavra mais sonorosa ou um jogo sintático feliz o deixavam quase em êxtase. Só não conseguiu que o Sete de Janeiro virasse feriado nacional e muito menos da Independência.
Quer dizer, isso até hoje. Porque hoje, levantada a bola da data, não vou deixar nem que ela toque no chão, emendo direto: amanhã é feriado nacional, a verdadeira data da Independência. Engulam esta, fluminenses, cariocas, paulistas, mineiros ou quem mais se apresente. Pronto, vô, está feito, a verdade foi finalmente proclamada numa gazeta de grande circulação, no melhor país do mundo, como o senhor sempre quis. E continuamos a ser o melhor país do mundo. Para os mesmos, mas melhor ainda que antes.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

02/08/2025

O Caso do Papagaio Zé Augusto

Eu já contei esse caso do papagaio Zé Augusto algumas vezes, mas ninguém acredita. Felizmente, tenho testemunhas. Não somente a família toda é testemunha, como alguns amigos, que tiveram a oportunidade de ver Zé Augusto depois que ele chegou aos paroxismos do vício, por assim dizer. É uma história triste.
Lá em casa, sempre tivemos bichos doidos. Uma vez, por exemplo, quando a gente morava perto de Cotinguiba, em Sergipe, meu pai pegou um torrão de barro pequeno e o jogou num pinto já meio frangote, que estava ciscando uma plantinha de estimação. Aconteceu que o torrão pegou na cabeça do bicho e ele ficou maluco, deu muito trabalho depois. Para comer era uma dificuldade, porque ele partia para a comida de marcha a ré e considerava necessário fazer umas piruetas antes de bicar o milho. E ele sempre errava de milho, era uma produção muito grande dar comida a esse frango. Mas cresceu, ficou um belo galo e se dava muito bem com toda a família. Todo mundo gostava dele, apesar do problema que ele tinha na ideia. Até com as galinhas ele se dava bem, embora errasse bastante (meu pai dizia que não era erro, era porque o bicho era inovador) e tivesse sido, provavelmente, responsável por vários escândalos naquele galinheiro. Morreu de velho. Segundo minha mãe, muito feliz, porque não sabia que ia morrer e até a última hora ficou dançando aquelas dancinhas dele, ninguém dizia que já estava nas últimas.
Desta forma, não se estranhou Zé Augusto. Zé Augusto era um papagaio azul que deram de presente a meu pai e que só falava “Zé Augusto”. A gente mostrava esse papagaio a todo mundo que aparecia, porque ele tinha um ar muito inteligente e, quando se perguntava como era o nome dele, ele respondia “Zé Augusto”. Mas depois não dizia mais nada e a pessoa ficava decepcionada. Minha irmã hoje acha que era um problema de temperamento difícil mais do que propriamente limitação de recursos, embora não se possa ter certeza, a esta altura.
O fato é que Zé Augusto vivia ali, na dele, num poleiro instalado junto do tanque de lavar roupa, onde havia uma tomada para máquina de lavar roupa, sem máquina de lavar roupa. Não incomodava ninguém, passava o dia inteiro comendo as comidinhas dele e balançando a cabeça. Na realidade, ele balançava tanto a cabeça que só podia ser de desgosto ou de desilusão, hoje é que a pessoa entende. Mas, um dia, minha irmã anunciou à mesa:
— Minha mãe, Zé Augusto está tomando choque. Já peguei uma ou duas vezes.
Minha mãe pediu esclarecimentos. Aconteceu que o papagaio roeu a tomada e agora, assim umas três ou quatro vezes por dia, olhava para um lado, olhava para o outro, e enfiava a língua no fio descoberto, para tomar choque. O choque devia ser um grande barato, porque ele ficava arrepiado, se tremia todo, largava o fio e passava os próximos cinco minutos agitadíssimo, percorrendo nervosamente o poleiro de ponta a ponta. No começo, minha mãe teve uma certa tolerância. Houve pelo menos uma vez em que eu quis levar uns amigos para mostrar o truque do “como é seu nome”, e ela mandou que eu esperasse.
— Espere mais uns quinze minutos, eu acho que está na hora do choque dele.
E, de fato, ele ficava acanhado, no começo, em tomar o choque na frente de visitas, ou mesmo de alguém da família que estivesse observando muito de perto. Só quando a pessoa não desistia mesmo é que ele acabava não aguentando e tomava o choque de qualquer jeito, mas ficava de péssimo humor, ameaçava bicar quem estivesse por perto e dava até uns gritos, coisa que, justiça seja feita, ele só fazia quando o chateavam demais.
O problema, entretanto, surgiu quando ele passou a tomar um número cada vez maior de choques. Nos últimos dias, era praticamente um choque de cinco em cinco minutos, uma coisa triste de se ver. As penas começaram a cair, nem mesmo “Zé Augusto” ele falava mais, comia pouco, suspirava, interrompia qualquer tentativa de aproximação com um novo choque, e assim por diante. Minha mãe tentou recuperá-lo, conversava com ele, tinha paciência, mas nada adiantava. Quando a gente tentou cobrir o fio com fita isolante, ele só faltou botar a casa abaixo com a gritaria que fez, além de ter reduzido a picadinho a pouca fita isolante que conseguimos botar. Era um caso perdido. Num belo domingo, lembro como se fosse hoje, minha mãe comunicou à hora do almoço que ia dar Zé Augusto, já tinha encontrado quem quisesse e essa pessoa já sabia do problema dele.
— Eu, particularmente — disse minha mãe —, acredito que não adianta afastar Zé Augusto dos choques muito repentinamente. Ele pode ter um trauma. Então eu expliquei que devem fazer a coisa com cuidado, gradualmente. Mas o que eu não posso é ter um animal viciado em casa, é um péssimo exemplo para as crianças.
— Principalmente porque não fala nada — disse meu pai, e nunca mais nós vimos Zé Augusto.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

26/07/2025

A Família Moderna num Boteco do Leblon

Hoje eu saio antes das três, tenho de voltar cedo pro receio do lar. O negócio agora lá tá complicado, o esquema do fim de semana mudou.
— O “receio” do lar, é? Essa eu nunca tinha ouvido, é muito boa. De fato, você tem razão, não é mais o recesso, como já foi. Receio do lar, é isso mesmo, de certa forma você tem razão.
— De certa forma, não. Eu tenho razão. E tu te prepara, porque a barra vai pesar pro teu lado também. Não tou rogando praga, mas te prepara, porque vai pesar pro teu lado também, é a realidade. Não é mole, meu camaradinha!
— Teu prédio já foi assaltado?
— Não, só arrombado. Dois apartamentos, tudo dentro da normalidade. Mas eu não estou falando em segurança, é outra coisa. Agora, são mais quatro lá em casa e, nos fins de semana, às vezes oito, dez, doze, sei lá, já desisti de contar, só sei que cada fim de semana parece que aumenta mais.
— Mas eu pensava que agora você só estava com a Regininha e o Lauro. A Laís não está casada há não sei quanto tempo e o Lúcio também não é casado já há mais de cinco anos?
— Tu tá por fora. Aliás, eu não posso reclamar, porque fui eu mesmo que resolvi não te contar. A gente vem pra cá no fim de semana pra esquecer esses troços, esquecer um pouco a vida, jogar conversa fora.
— Eu sei, mas tu devia ter me contado. Amigo é para essas coisas.
— É, tudo bem, eu conto, mas é só desabafo mesmo, porque ninguém pode fazer nada. A Laís descasou. Você não pode acreditar e nem eu vou contar tudo agora, porque estou com preguiça, mas descasou porque o marido descobriu que é boiola. Tu vê um cara de mais de 30 anos, que namora, faz filhos e aí chega pra mulher de repente e fala que a dele é homem, que arrumou uma paixão e vai se mandar. E se mandou, está vivendo com um cara que só você vendo, um gordo careca, de bigode, só você vendo. O plano deles é casar legalmente, já disseram que estão na batalha.
— Mas, mas... Eu estou aqui segurando o queixo. O marido da Laís...
— Já te falei que não vou contar agora, depois eu conto, é muito comprido. O fato é que a Laís descasou e o que é que deu? É isso mesmo que tu tá pensando, ela e os dois filhos. Tá tudo lá em casa agora.
— Mas tu falou que são quatro e aí só são três. O Lúcio continua na dele, né não? Outro dia, ele passou por aqui, mas não entrou.
— Não entrou porque tá duro e é orgulhoso, como no tempo em que era executivo. Se ele viesse aqui, eu ia ficar com pena e pagava, mas ele é orgulhoso. E também tem um pouco de vergonha com o que já anda me fazendo.
— Mas o que é que ele aprontou? Ele sempre foi um rapaz equilibrado.
— Bem, agora está meio desequilibrado. Desempregado, sabe como é. Eu aí dou uma mesadinha a ele, o que eu posso, até porque a pensão dos filhos dele não é fácil, a Tina botou pra quebrar em cima dele, não sobra quase nada no meu orçamento depois de pagar essa pensão.
— Ué, e é tu que paga a pensão?
— É, cara, ele não pagava e aí o juiz decretou que os meninos não podem ficar sem pensão e quem paga sou eu. Agora tem essa graça: o cara faz filho, não tem dinheiro e a Justiça diz que quem tem de bancar é o avô.
— É, não deve estar sendo mole mesmo. E o Lauro não ia casar? Pelo menos, quando ele casar, é um que sai.
— Ia casar. Ia! Agora não vai mais. Andou lendo uns livros e umas reportagens de jornal e entrou numa de metrossexual.
— O que é metrossexual, não vem me dizer que ele também...
— Não propriamente, ele se enfeita muito e vai a salão de beleza, mas é homem. É uma espécie de galinhagem com nome artístico. O cara fatura as que pode, a mulher dá pra quem acha e é tudo metrossexual, por aí. E ele também diz que é de uma categoria moderna de filho, que demora pra amadurecer. Vai fazer 29, mas diz que não saiu da adolescência, é carente e dependente. Tem até um nome pra isso, te prepara aí: ele diz que é adultescente.
— Como é que é?
— É isso mesmo que tu ouviu, adultescente. Parece adjetivo de doença venérea de antigamente, mas é isso mesmo que ele diz que ele é. Mesada também, roupa pelo chão, esculhambação no banheiro, casa, comida, roupa lavada... E ele diz que não tem previsão para sair da adultescência, diz que já leu que tem gente que passa dos 35 nessa. A tua filha já vai casar, não vai?
— Vai, sim. Essa não me dá preocupação, ela não é adultescente.
— Tudo bem, aguarde a separação e a volta. Tu vai fazer a mesma coisa que eu vou fazer agora, depois que acabar este chope. Eu tou indo pra casa pra treinar mudar fraldas. Nunca acertei direito e a Regininha diz que não é justo que ela mude as fraldas sozinha, com aquela coluna estourada, ela tem razão.
— Ô, e a Laís não faz isso, não?
— Não muito. Durante a semana, ela sai pra batalhar emprego e no fim de semana parte pra gandaia, deixa os meninos conosco. Ela diz que é muito jovem pra morrer pro mundo e que cuidar dos netos dá sentido à vida. Tu sabe mudar fralda? Então vai aprendendo, hoje em dia é fácil, com as descartáveis. E também vai treinando dormir com choro de neném de trilha sonora. E vê se arruma um fone de ouvido pra assistir tevê tarde da noite sem acordar os meninos. E vê se aprende um método para decorar os nomes das mulheres que teu filho vai levar pra traçar em tua casa na adultescência. E vê se tá tudo legalizado no teu nome e no da tua mulher, pra eles não tomarem. Tem que se adaptar, cara, família é família.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite