Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens

02/07/2025

Capítulo 1 - A coisa mais preciosa


[…]

A pseudociência é mais fácil de inventar que a ciência, porque há uma maior disposição a evitar confrontações perturbadoras com a realidade que não permitem controlar o resultado da comparação. Os níveis de argumentação, o que passa por provas, são muito mais relaxados. Em parte pelas mesmas razões, é muito mais fácil apresentar ao público em geral a pseudociência que a ciência. Mas isso não basta para explicar sua popularidade.
Naturalmente, a gente prova distintos sistemas de crenças para ver se lhe servem. E, se estivermos muito desesperados, todos chegamos a estar mais dispostos a abandonar o que podemos perceber como uma pesada carga de ceticismo. A pseudociência enche necessidades emocionais capitalistas que a ciência está acostumada deixar insatisfeita. Proporciona fantasias sobre poderes pessoais que nos faltam e desejamos (como os que se atribuem aos super-heróis dos gibis hoje em dia, e anteriormente aos deuses). Em algumas de suas manifestações oferece uma satisfação da fome espiritual, a cura das enfermidades, a promessa de que a morte não é o fim. Confirma-nos nossa centralidade e importância cósmica. Assegura que estamos conectados, vinculados, ao universo. Às vezes é uma espécie de lar a meio caminho entre a antiga religião e a nova ciência, do que ambas desconfiam.
No coração de alguma pseudociência (e também de alguma religião antiga ou da “Nova Era”) encontra-se a ideia de que o desejo o converte quase tudo em realidade. Que satisfatório seria, como nos contos infantis e lendas folclóricas, satisfazer o desejo de nosso coração só desejando-o. Que sedutora é esta ideia, especialmente se compara com o trabalho e a sorte que se está acostumado a necessitar para encher nossas esperanças. O peixe encantado ou o gênio do abajur nos concederão três desejos: o que queiramos, exceto mais desejos. Quem não pensou — só no caso de, só se por acaso nos encontramos ou roçamos acidentalmente uma velha lâmpada — o que pediria?
Lembrança que nas tiras de gibi e livro de minha infância saía um mago com chapéu e bigode que brandia uma bengala de ébano. Chamava-se Zatara. Era capaz de provocar algo, o que fora. Como o fazia? Fácil. Dava suas ordens ao reverso. Ou seja, se queria um milhão de dólares, dizia “seralód ed oãhlim, mu de eM”. Com isso bastava. Era como uma espécie de oração, mas com resultados muito mais seguros.
Aos oito anos dediquei muito tempo a experimentar desta guisa, dando ordens às pedras para que se elevassem: “metivel, sardep”. Nunca funcionou. Decidi que era culpa de minha pronúncia.
Poderia afirmar-se que se abraça a pseudociência na mesma proporção que se compreende mal a ciência real... só que aqui acaba a comparação. Se a gente nunca ouviu falar de ciência (por não falar de seu funcionamento), dificilmente será consciente de estar abraçando a pseudociência. Simplesmente, estará pensando de uma das maneiras que pensaram sempre os humanos. As religiões revistam ser os viveiros de amparo estatal da pseudociência, embora não há razão para que tenham que representar este papel. Em certo modo é um dispositivo procedente de tempos já passados. Em alguns países, quase todo mundo acredita na astrologia e a adivinhação, incluindo os líderes governamentais. Mas isso não lhes inculcou só através da religião; deriva da cultura que os rodeia, em que todo mundo se sente cômodo com estas práticas e se encontram testemunhos que o afirmam em todas as partes.
A maioria dos casos aos que me refiro neste livro são norte-americanos... porque são os que conheço melhor, não porque a pseudociência e o misticismo tenham maior incidência nos Estados Unidos que em outra parte. Uri Geller, entorta dor de colheres e canalizador de extraterrestres, vem de Israel. À medida que crescem as tensões entre os secularistas argelinos e os fundamentalistas muçulmanos aumenta o número de gente que consulta discretamente aos dez mil adivinhos e clarividentes (dos que perto da metade operam com licença do governo). Altos cargos franceses, incluído um antigo presidente da República, ordenaram o investimento de milhões de dólares em uma empresa fraudulenta (o escândalo Elf-Aquitaine) para encontrarem novas reservas de petróleo do ar. Na Alemanha há preocupação pelos “raios da Terra” cancerígenos que a ciência não detecta; só podem ser captados por experimentados adivinhos brandindo forquilhas. Nas Filipinas floresce a “cirurgia psíquica”. Os fantasmas são uma obsessão nacional em Grã-Bretanha. Da segunda guerra mundial, no Japão apareceu uma enorme quantidade de novas religiões que prometem o sobrenatural. O número estimado de adivinhos que prosperam no Japão é de cem mil, com uma clientela majoritária de mulheres jovens. Aum Shirikyo, uma seita que se supõe implicada na fuga de gás nervoso sarin no metrô do Tóquio em março de 1995, conta entre seus principais dogmas com a levitação, a cura pela fé e a percepção extrassensorial (EPS). Os seguidores bebiam, a um alto preço, a água do “lago milagroso”... do banho da Asahara, sua líder. Em Tailândia se tratam enfermidades com pastilhas fabricadas com Escrituras Sagradas pulverizadas. Ainda hoje se queimam “bruxas” na Africa do Sul. As forças australianas que mantêm a paz no Haiti resgatam a uma mulher atada a uma árvore; está acusada de voar de coberto em coberto e chupar o sangue aos meninos. Na Índia abunda a astrologia, a geomancia está muito estendida na China.
Possivelmente a pseudociência global recente de mais êxito —-segundo muitos critérios, já uma religião — é a doutrina hindu da meditação transcendental (MT). As soporíferas homilias de seu fundador e líder espiritual, o Maharishi Mahesh Yogi, podem-se seguir por televisão. Sentado em posição de lótus, com seus cabelos brancos salpicado de negro, rodeado de grinaldas e oferendas florais, seu aspecto é imponente. Um dia, trocando de canais, encontramo-nos com esta Face. “Sabem quem é esse cara?”, perguntou nosso filho de quatro anos. “Deus.” A organização mundial da MT tem uma valoração estimada de três mil e milhões de dólares. Prévio pagamento de uma taxa promete que através da meditação podem fazer que alguém atravesse paredes, volte-se invisível e voe. Pensando ao uníssono, conforme dizem, reduziram o índice de delitos em Washington, D.C. e provocaram o colapso da União Soviética, entre outros milagres seculares. Não se ofereceu a mais mínima prova real de tais afirmações. MT vende medicina popular, dirige companhias comerciais, clínicas médicas e universidades de “investigação”, e tem feito uma incursão sem êxito na política. Com sua líder de estranho carisma, sua promessa de comunidade e o oferecimento de poderes mágicos em troca de dinheiro e uma fé fervente, é o paradigma de muitas pseudociências comercializadas para a exportação sacerdotal.
Cada vez que se renuncia aos controles civis e à educação científica se produz outro pequeno puxão da pseudociência.
Liev Trotski o descreveu referindo-se a Alemanha em vésperas da tira do poder por parte do Hitler (mas a descrição poderia haver-se aplicado igualmente à União Soviética de 1933):
Não só nas casas dos camponeses, mas também nos arranha-céu da cidade, junto ao século XX convive o XIII. Cem milhões de pessoas usam a eletricidade e acreditam ainda nos poderes mágicos dos signos e exorcismos... As estrelas de cinema vão a médiuns. Os aviadores que pilotam milagrosos mecanismos criados pelo gênio do homem levam amuletos na jaqueta. Que inesgotável reserva de escuridão, ignorância e selvageria possuem!
Rússia é um caso instrutivo. Na época dos czares se estimulava a superstição religiosa, mas se suprimiu sem contemplações o pensamento científico e cético, só permitido a uns quantos cientistas adestrados. Com o comunismo se suprimiram sistematicamente a religião e a pseudociência... exceto a superstição da religião ideológica estatal. apresentava-se como científica, mas estava tão longe deste ideal como o culto misterioso menos provido de autocrítica. considerava-se um perigo o pensamento crítico — exceto por parte dos cientistas em compartimentos de conhecimento hermeticamente isolados—, não se acostumava nas escolas e se castigava quando alguém o expressava. Como resultado, com o fim do comunismo, muitos russos contemplam a ciência com suspeita. Ao levantar a tampa, como ocorreu com os virulentos ódios étnicos, saiu à superfície o que até então tinha estado fervendo por debaixo dela. Agora toda a zona está alagada de óvnis, poltergeist, curadores, curandeiros, águas mágicas e antigas superstições. Um assombroso declive da expectativa de vida, o aumento da mortalidade infantil, as violentas epidemias de enfermidades, as condições sanitárias por debaixo do mínimo e a ignorância da medicina preventiva se unem para elevar a soleira a partir do qual se dispara o ceticismo de uma população cada vez mais se desesperada. No momento de escrever estas linhas, o membro mais popular e mais votado da Duma, um importante defensor do ultranacionalista Vladimir Zhirinovski, é um tal Anatoli Kashprirovski: um curandeiro que, à distância, com a luz deslumbrante de seu rosto na tela do televisor, cura enfermidades que vão de uma hérnia até a AIDS. Sua Face põe em funcionamento relógios danificados.
Existe uma situação mais ou menos análoga na China. depois da morte do Mao Zedong e a gradual emergência de uma economia de mercado, apareceram os óvnis, a canalização e outros exemplos de pseudociência Ocidental, junto com práticas chinesas tão antigas como a adoração dos ancestrais, a astrologia e as adivinhações, especialmente a versão que consiste em jogar gravetos e examinar os velhos hexagramas do I Ching. O periódico do governo lamentava que “a superstição da ideologia feudal cobre nova vida em nosso país”. Era (e segue sendo) um mal principalmente rural, não urbano.
Os indivíduos com “poderes especiais” atraíam um grande número de seguidores. Conforme diziam, podiam projetar Qi, o “campo de energia do universo”, desde seu corpo para trocar a estrutura molecular de um produto químico a dois mil quilômetros de distância, comunicar-se com extraterrestres, curar enfermidades. Alguns pacientes morreram sob os cuidados de um desses “professores do Qi Gongo”, que foi detido e condenado em 1993. Wang Hong-cheng, um aficionado à química, afirmava ter sintetizado um líquido que, se acrescentava à água em pequenas quantidades, convertia-a em gasolina ou um equivalente. Durante um tempo recebeu recursos do exército e a polícia secreta, mas, quando se constatou que seu invento era uma fraude, foi detido e encarcerado. Naturalmente, propagou-se a história de que sua desgraça não era produto da fraude mas sim de sua negativa a revelar a “fórmula secreta” ao governo. (Na América do Norte circularam histórias similares durante décadas, normalmente com a substituição do papel do governo pelo de uma companhia petroleira ou automobilística importante.) está-se levando aos rinocerontes asiáticos à extinção porque dizem que seus chifres, pulverizados, acautelam a impotência; o mercado abrange todo o leste da Ásia.
O governo da China e a Partido Comunista chinês estavam alarmadas por estas tendências. Em 5 de dezembro de 1994 emitiram uma declaração conjunta que dizia, entre outras coisas: debilitou-se a educação pública em temas científicos em anos recentes. Ao mesmo tempo foram crescendo atividades de superstição e ignorância e se feito frequentes os casos de anti-ciência e pseudociência. Em consequência, devem-se aplicar medidas eficazes o antes possível para fortalecer a educação pública na ciência. O nível de educação pública em ciência e tecnologia é um sinal importante do lucro científico nacional. É um assunto da maior importância no desenvolvimento econômico, avance cientista e progresso da sociedade. Devemos emprestar atenção e potencializar esta educação pública como parte da estratégia de modernização de nosso país socialista para conseguir uma nação poderosa e próspera. A ignorância, como a pobreza, nunca é socialista.
Assim, a pseudociência nos Estados Unidos é parte de uma tendência global. Suas causas, perigos, diagnósticas e tratamento são iguais em todas as partes. Aqui, os psíquicos vendem seus serviços em compridos anúncios de televisão com o respaldo pessoal dos apresentadores. Têm seu canal próprio, o Psychic Friends Network, com um milhão de abonados anuais que o usam como guia em sua vida cotidiana. Há uma espécie de astrólogo-adivinho-médium disposto a aconselhar os altos executivos de grandes corporações, analistas financeiros, advogados e banqueiros sobre qualquer tema. “Se a gente soubesse quantas pessoas, especialmente entre os mais ricos e poderosos, vão aos psíquicos, ficaria com a boca aberta para sempre”, diz um psíquico de Cleveland, Ohio. Tradicionalmente, a realeza foi vulnerável às fraudes psíquicas. Na antiga a China e em Roma a astrologia era propriedade exclusiva do imperador; qualquer uso privado desta poderosa arte se considerava uma ofensa capital. Procedentes de uma cultura do sul da Califórnia particularmente crédula, Nancy e Ronald Reagan consultavam a um astrólogo para temas privados e públicos, sem que os votantes tivessem conhecimento disso. Parte do processo de tira de decisões que influem no futuro de nossa civilização está simplesmente em mãos de enganadores. De todas as formas, a prática é relativamente desce na América; sua extensão é mundial.
Por divertida que possa parecer a pseudociência, por muito que confiemos em que nunca seremos tão crédulos como para que nos afete uma doutrina assim, sabemos que está ocorrendo a nosso redor. A Meditação Transcendental e Aum Shin-rikyo parecem ter atraído a grande número de pessoas competentes, algumas com títulos avançados de física ou engenharia. Não são doutrinas para mentecaptos. Há algo mais.
Mais ainda, ninguém que esteja interessado no que são as religiões e como começam pode as ignorar. Embora pareça que se elevam amplas barreiras entre uma opinião local pseudocientífica e algo assim como uma religião mundial, os tabiques de separação são muito magros. O mundo nos apresenta problemas quase insuperáveis. oferece-se uma ampla variedade de soluções, algumas de visão mundial muito limitada, outras de um alcance prodigioso. Na habitual seleção natural darwiniana das doutrinas, algumas resistem durante um tempo, enquanto a maioria se desvanece rapidamente. Mas umas poucas — às vezes, como mostrou a história, as mais descuidadas e menos atrativas de entre elas — podem ter o poder de trocar profundamente a história do mundo.
O continuum que vai da ciência mal praticada, a pseudociência e a superstição (antiga e da “Nova Era”) até a respeitável religião apoiada na revelação é confuso. Intento não utilizar a palavra “culto” neste libero no sentido habitual de uma religião que desagrada ao que fala. Só pretendo chegar à pedra angular do conhecimento: sabem realmente o que afirmam saber? Todo mundo, pelo visto, tem uma opinião relevante.
Em algumas passagens deste livro me mostrarei crítico com os excessos da teologia, porque nos extremos é difícil distinguir a pseudociência da religião rígida e doutrinária. Entretanto, quero reconhecer de entrada a diversidade e complexidade prodigiosa do pensamento e prática religiosa ao longo dos séculos, o crescimento da religião liberal e da comunidade ecumênica no último século e o fato de que —como na Reforma protestante, a ascensão do judaísmo da Reforma, o Vaticano II e a chamada alta critica da Bíblia— a religião lutou (com distintos níveis de êxito) contra seus próprios excessos. Mas, igual a muitos cientistas parecem resistentes a debater ou inclusive comentar publicamente a pseudociência, muitos defensores das religiões principais resistem a enfrentar-se a conservadores ultras e fundamentalistas. Se mantiver a tendência, à larga o campo é dele; podem ganhar o debate por evitando-o.
Um líder religioso me escreve sobre seu desejo de “integridade disciplinada” na religião: Tornamo-nos muito sentimentais... A devoção extrema e a psicologia troca por um lado, e a arrogância e intolerância dogmática pelo outro, distorcem a autêntica vida religiosa até fazê-la irreconhecível. Às vezes quase roço o desespero, mas também vivo com tenacidade e sempre com esperança... A religião sincera, mais familiar que seus críticos com as distorções e absurdos perpetrados em seu nome, tem um interesse ativo em respirar um ceticismo saudável para seus propósitos... Existe a possibilidade de que a religião e a ciência forjem uma relação poderosa contra a pseudociência. Por estranho que pareça, acredito que logo se unirão para opor-se a pseudorreligião.
A pseudociência é distinta da ciência errônea. A ciência avança com os enganos e vai eliminando um a um. chega-se continuamente a conclusões falsas, mas se formulam hipoteticamente. expõem-se hipótese de modo que possam refutar-se. confronta-se uma sucessão de hipótese alternativas mediante experimento e observação. A ciência anda a provas e titubeando para uma maior compreensão. Certamente, quando se descarta uma hipótese científica se veem afetados os sentimentos de propriedade, mas se reconhece que este tipo de refutação é o elemento central da empresa científica.
A pseudociência é justo o contrário. As hipótese revistam formular-se precisamente de modo que sejam invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma possibilidade de refutação, por isso em princípio não podem ser invalidadas. Os praticantes se mostram precavidos e à defensiva. opõem-se ao escrutínio cético. Quando a hipótese dos pseudocientíficos não consegue coalhar entre os cientistas se alegam conspirações para suprimi-la.
A capacidade barco a motor na gente sã é quase perfeita. Raramente tropeçamos ou caímos, exceto de pequenos ou na velhice. Aprendemos tarefas como montar em bicicleta, patinar, saltar à curva ou conduzir um carro e conservamos este domínio para toda a vida. Embora estejamos uma década sem praticá-lo, não nos custa nenhum esforço recuperá-lo. A precisão e retenção de nossas habilidades barcos a motor, entretanto, dá-nos um falso sentido de confiança em nossos outros talentos. Nossas percepções são falíveis. Às vezes vemos o que não existe. Somos vítimas de ilusões ópticas. Em ocasiões alucinamos. Tendemos a cometer enganos. Um livro francamente ilustrativo, titulado Como sabemos que não é assim: a falibilidade da razão humana na vida cotidiana, do Thomas Gilovich, mostra como a gente erra sistematicamente na compreensão de números, como rechaça as provas desagradáveis, como lhe influem as opiniões de outros. Somos bons em algumas costure, mas não em tudo. A sabedoria radica em compreender nossas limitações. “Porque o homem é uma criatura atordoada”, ensina-nos William Shakespeare. Aqui é onde entra o puntilioso rigor cético da ciência.
Possivelmente a distinção mais clara entre a ciência e a pseudociência é que a primeira tem uma apreciação muito mais pormenorizada das imperfeições humanas e a falibilidade que a pseudociência (ou revelação “inequívoca”). Se nos negarmos categoricamente a reconhecer que somos suscetíveis de cometer um engano, podemos estar seguros de que o engano —incluso um engano grave, um equívoco profundo— nos acompanhará sempre. Mas se formos capazes de nos avaliar com um pouco de coragem, por muito lamentáveis que sejam as reflexões que possamos engendrar, nossas possibilidades melhoram enormemente.
Se nos limitarmos a mostrar os descobrimentos e produtos da ciência —não importa o úteis e até inspiradores que possam ser— sem comunicar seu método crítico, como pode distinguir o cidadão médio entre ciência e pseudociência? Ambas se apresentam como afirmação sem fundamento. Na Rússia e China estava acostumada ser fácil. A ciência autorizada era a que ensinavam as autoridades. A distinção entre ciência e pseudociência se fazia a medida. Não fazia falta explicar as dúvidas. Mas assim que se produziram mudanças políticas profundas e se liberaram as restrições do livre pensamento houve uma série de afirmações seguras ou carismáticas —especialmente as que nos diziam o que queríamos ouvir— que conseguiram muitos seguidores. Qualquer ideia, por improvável que fora, conseguia autoridade.
Para o divulgador da ciência é um desafio supremo esclarecer história atual e tortuosa de seus grandes descobrimentos e equívocos, e a teimosia ocasional de seus praticantes em sua negativa a trocar de caminho. Muitos, possivelmente a maioria dos livros de texto de ciências para cientistas em florações, abordam-no com ligeireza. É muito mais fácil apresentar de modo atrativo a sabedoria destilada durante séculos de interrogação paciente e coletiva sobre a natureza que detalhar o complicado aparelho de destilação. O método, embora seja indigesto e espesso, é muito mais importante que os descobrimentos da ciência.

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios

25/06/2025

Capítulo 1 | A coisa mais preciosa




Toda nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil...é no entanto a coisa mais preciosa que temos.
Albert Einstein (1879-1955)

Quando desembarquei do avião, ele me esperava com um pedaço de cartão no que estava escrito meu nome. Eu ia a uma conferência de cientistas e comentaristas de televisão dedicada a aparentemente impossível tarefa de melhorar a apresentação da ciência na televisão comercial. Amavelmente, os organizadores me tinham enviado um motorista.
Incomoda-lhe que lhe faça uma pergunta? — disse-me enquanto esperávamos a mala.
Não, não me incomodava.
Não é uma confusão ter o mesmo nome que aquele cientista?
Demorei um momento em compreendê-lo. Estava-me tirando sarro? Finalmente o entendi.
Eu sou aquele cientista — respondi. Calou um momento e em seguida sorriu.
Perdoe. Como esse é meu problema, pensei que também seria o seu.
Tendeu-me a mão.
Meu nome é William F. Buckley.
(Bom, não era exatamente William F. Buckley, mas levava o nome de um conhecido e polêmico entrevistador de televisão, o que sem dúvida havia lhe valido grande número de inofensivas brincadeiras.)
Enquanto nos instalávamos no carro para empreender o comprido percorrido, com os limpador de para-brisas funcionando ritmicamente, disse-me que se alegrava de que eu fora “aquele cientista” porque tinha muitas perguntas sobre ciência. Incomodava-me?
Não, não me incomodava.
E nos pusemos a falar. Mas não de ciência. Ele queria falar dos extraterrestres congelados que adoeciam em uma base das Forças Aéreas perto do San Antonio, de “canalização” (uma maneira de ouvir o que há na mente dos mortos... que não é muito, pelo visto), de cristais, das profecias do Nostradamus, de astrologia, do sudário do Turim... Apresentava cada um destes prodigiosos temas com um entusiasmo cheio de otimismo. Eu me via obrigado a lhe decepcionar cada vez.
A prova é insustentável — lhe repetia uma e outra vez —. Há uma explicação muito mais simples.
Em certo modo era um homem bastante lido. Conhecia os distintos matizes especulativos, por exemplo, sobre os “continentes fundos” da Atlântida e Lemúria. Sabia-se muito bem quais eram as expedições submarinas previstas para encontrar as colunas quedas e os minaretes quebrados de uma civilização antigamente grande cujos restos agora só eram visitados por peixes luminescentes de alto mar e gigantescos monstros marinhos. Só que... Embora o oceano guarde muitos segredos, eu sabia que não há a mais mínima base oceanográfica ou geofísica para deduzir a existência da Atlântida e Lemúria. Por isso sabe a ciência até este momento, não existiram jamais. A estas alturas, o disse a contra gosto.
Enquanto viajávamos sob a chuva me dava conta de que o homem estava cada vez mais taciturno. Com o que eu lhe dizia não só descartava uma doutrina falsa, mas também eliminava uma faceta preciosa de sua vida interior.
E, entretanto, há tantas coisas na ciência real, igualmente excitantes e mais misteriosas, que apresentam um desafio intelectual maior... além de estar muito mais perto da verdade. Sabia algo das moléculas da vida que se encontram no frio e tênue gás entre as estrelas? Tinha ouvido falar dos rastros de nossos antepassados encontrados em cinza vulcânica de quatro milhões de anos de antiguidade? E da elevação do Himalaia quando a Índia se chocou com a Ásia? Ou de como os vírus, construídos como seringas hipodérmicas, deslizam seu DNA além das defesas do organismo do anfitrião e subvertem a maquinaria reprodutora das células; ou da busca por rádio de inteligência extraterrestre; ou da recém descoberta civilização da Ebla, que anunciava as virtudes da cerveja da Ebla? Não, não tinha ouvido nada de todo aquilo. Tampouco sabia nada, nem sequer vagamente, da indeterminação quântica, e só reconhecia o DNA como três letras maiúsculas que apareciam juntas com frequência.
O senhor “Buckley” —que sabia falar, era inteligente e curioso— não tinha ouvido virtualmente nada de ciência moderna. Tinha um interesse natural nas maravilhas do universo. Queria saber de ciência, mas toda a ciência tinha sido expurgada antes de chegar a ele. A este homem tinha falhado nossos recursos culturais, nosso sistema educativo, nossos meios de comunicação. O que a sociedade permitia que se filtrasse eram principalmente aparências e confusão. Nunca lhe tinham ensinado a distinguir a ciência real da áspera imitação. Não sabia nada do funcionamento da ciência.
Há centenas de livros sobre a Atlântida, o continente mítico que conforme dizem existiu faz uns dez mil anos no oceano Atlântico. (Ou em outra parte. Um livro recente o localiza na Antártida.). A história vem de Platão, que o citou como um rumor que lhe chegou de épocas remotas. Há livros recentes que descrevem com autoridade o alto nível tecnológico, moral e espiritual da Atlântida e a grande tragédia de um continente povoado que afundou inteiro sob as ondas. Há uma Atlântida da “Nova Era”, “a civilização legendária de ciências avançadas”, dedicada principalmente à “ciência” dos cristais. Em uma trilogia titulada A ilustração do cristal, da Katrina Raphaell — uns livros que tiveram um papel principal na loucura do cristal na América do Norte—, os cristais da Atlântida leem a mente, transmitem pensamentos, são depositários da história antiga e modelo e fonte das pirâmides do Egito. Não se oferece nada parecido a uma prova que fundamente essas afirmações. (Poderia ressurgir a mania do cristal depois do recente descobrimento da ciência sismológica de que o núcleo interno da Terra pode estar composto por um cristal único, imenso, quase perfeito... de ferro.).
Alguns livros — Lendas da Terra, do Dorothy Vitaliano, por exemplo — interpretam compreensivamente as lendas originais da Atlântida em términos de uma pequena ilha no Mediterrâneo que foi destruída por uma erupção vulcânica, ou uma antiga cidade que se deslizou dentro do golfo de Corinto depois de um terremoto. Por isso sabemos, essa pode ser a fonte da lenda, mas daí à destruição de um continente no que tinha surto uma civilização técnica e mística sobrenaturalmente avançada há uma grande distancia.
O que quase nunca encontramos — em bibliotecas públicas, bancas de revistas ou programas de televisão em horas ponta — é a prova da extensão do chão marinho e a tectônica de placas e do traçado do fundo do oceano, que amostra de modo inconfundível que não pôde haver nenhum continente entre a Europa e América em uma escala de tempo parecida com a proposta.
É muito fácil encontrar relatos espúrios que fazem cair ao crédulo na armadilha. Muito mais difícil é encontrar tratamentos céticos. O ceticismo não vende. É cem mil vezes mais provável que uma pessoa brilhante e curiosa que confie inteiramente na cultura popular para informar-se de algo como a Atlântida se encontre com uma fábula tratada sem sentido crítico que com uma valoração sóbria e equilibrada.
Possivelmente o senhor “Buckley” deveria aprender a ser mais cético com o que lhe oferece a cultura popular. Mas, além disso, é difícil lhe jogar a culpa. Ele se limitava a aceitar o que a maioria das fontes de informação disponíveis e acessíveis diziam que era a verdade. Por sua ingenuidade, via-se confundido e enganado sistematicamente.
A ciência origina uma grande sensação de prodígio. Mas a pseudociência também. As popularizações dispersas e deficientes da ciência deixam uns nichos ecológicos que a pseudociência se apressa a encher. Se chegasse a entender amplamente que qualquer afirmação de conhecimento exige provas pertinentes para ser aceita, não haveria lugar para a pseudociência. Mas, na cultura popular, prevalece uma espécie de lei de Gresham segundo a qual a má ciência produz bons resultados.
Em todo mundo há uma enorme quantidade de pessoas inteligentes, inclusive com um talento especial, que se apaixonam pela ciência. Mas não é uma paixão correspondida. Os estudos sugerem que noventa e cinco por cento dos americanos são “analfabetos cientistas”. É exatamente a mesma fração de afro-americano analfabetos, quase todos os escravos, justo antes da guerra civil, quando se aplicavam severos castigos a quem ensinasse a ler a um escravo. Certamente, nas cifras sobre analfabetismo há sempre certo grau de arbitrariedade, tanto se aplica à linguagem como à ciência. Mas um noventa e cinco por cento de analfabetismo é extremamente grave.
Todas as gerações se preocupam com a decadência dos níveis educativos. Um dos textos mais antigos da história humana, datado na Suméria faz uns quatro mil anos, lamenta o desastre de que os jovens sejam mais ignorantes que a geração imediatamente precedente. Faz dois mil e quatrocentos anos, o ancião e mal-humorado Platão, no livro VII das leis, deu sua definição de analfabetismo científico:
O homem que não pudesse discernir o um nem o dois nem o três nem em geral os pares e os ímpares, ou o que não soubesse nada de contar, ou quem não fora capaz de medir o dia e a noite ou carecesse de experiência a respeito das revoluções da Lua ou do Sol ou de outros astros... O que terá que dizer que é mister que aprendam os homens livres em cada matéria é todo aquilo que aprende no Egito junto com as letras a inumerável grei dos meninos. Em primeiro lugar, por isso touca ao cálculo, inventaram-se uns singelos procedimentos para que os meninos aprendam jogando e a gosto... Eu... quando em tempos me inteirei tardiamente do que nos ocorre em relação com isso, fiquei muito impressionado, e então me pareceu que aquilo não era coisa humana, a não ser própria, mas bem de bestas porcinas, e senti vergonha não só por mim mesmo, mas também em nome dos helenos todos.
Não sei até que ponto a ignorada da ciência e as matemáticas contribuiu ao declive da antiga Atenas, mas sei que as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época que em qualquer outra anterior. É perigoso e temerário que o cidadão médio mantenha sua ignorância sobre o aquecimento global, a redução do ozônio, a contaminação do ar, os resíduos tóxicos e radiativos, a chuva ácida, a erosão do chão, o desmatamento tropical, o crescimento exponencial da população. Os trabalhos e salários dependem da ciência e a tecnologia. Se nossa nação não pode fabricar, a sob preço e alta qualidade, os produtos que a gente quer comprar, as indústrias seguirão deslocando-se para transferir um pouco mais de prosperidade a outras partes do mundo. Considerem-nas ramificações sociais da energia gerada pela fissão e fusão nucleares, as supercomputadores, as “autoestradas” de dados, o aborto, o radônio, as reduções maciças de armas estratégicas, o vício, a intromissão do governo na vida de seus cidadãos, a televisão de alta resolução, a segurança em linhas aéreas e aeroportos, os transplantes de malha fetal, os custos da sanidade, os aditivos de mantimentos, os medicamentos para tratar as manias, a depressão ou esquizofrenia, os direitos dos animais, a supercondutividade, as pílulas do dia seguinte, as predisposições antissociais supostamente hereditárias, as estações espaciais, a viagem a Marte, o achado de remédios para a AIDS e o câncer...
Como podemos incidir na política nacional — ou inclusive tomar decisões inteligentes em nossas próprias vidas — se não podermos captar os temas subjacentes? No momento de escrever estas páginas, o Congresso está tratando a dissolução de seu departamento de valoração tecnológica, a única organização com a tarefa específica de assessorar à Casa Branca e ao Senado sobre ciência e tecnologia. Sua competência e integridade ao longo dos anos foram exemplares. Dos quinhentos e trinta e cinco membros do Congresso dos Estados Unidos, por estranho que pareça com finais do século XX, só um por cento tem uns antecedentes científicos significativos. O último presidente com preparação científica deveu ser Thomas Jefferson.
Como decidem esses assuntos os americanos? Como instruem a seus representantes? Quem toma em realidade estas decisões, e sobre que base?
[…]

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela acesa no escuro

16/08/2022

Fascismo e Ciência

Carta ao ministro Rocco, em Roma

Senhor e mui digno colega,

Dois homens, dos mais notáveis e mais afamados dentre os cientistas italianos, dirigem-se a mim em sua angústia moral e rogam-me que vos escreva a fim de evitar a cruel iniquidade que ameaça os sábios da Itália. De fato, deveriam prestar um juramento em que se exalta a fidelidade ao sistema fascista. Eu vos peço, portanto, que aconselheis o Senhor Mussolini no sentido de que se evite esta humilhação para a nata da inteligência italiana. Apesar das diferenças de nossas convicções políticas, um ponto fundamental, eu sei, nos reúne: ambos conhecemos e amamos, nas obras-primas do desenvolvimento intelectual europeu, os valores supremos. Eles exigem liberdade de opinião e liberdade de ensino porque a luta pela verdade deve ter precedência sobre todas as outras lutas. Sobre este fundamento essencial, nossa civilização pôde nascer na Grécia e celebrar sua ressurreição no tempo da Renascença na Itália. É um Bem supremo, pago pelo sangue dos mártires, estes homens íntegros e generosos. A Itália hoje é amada e honrada, graças a eles.
Não é minha intenção discutir convosco os danos causados à liberdade humana e as possibilidades de justificação pela razão de Estado. Mas o combate pela verdade científica, afastado dos problemas concretos da vida cotidiana, deveria ser considerado intocável pelo poder político. Não será de bom aviso deixar que os servidores sinceros da verdade vivam em paz o tempo necessário? Não será também este o interesse do Estado italiano e de sua reputação no mundo?”

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

20/07/2022

A religiosidade da pesquisa

O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo — uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai —, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

16/07/2022

Religião e ciência

Todas as ações e todas as imaginações humanas têm em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da ideia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da história da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos à sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou. A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com frequência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses.
Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos. fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma ideia de Deus pela imaginação do homem. Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico. O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas, descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja provar a totalidade do Ente como um todo perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar. Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente.
Como poderá comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a ideia de um ser a intervir no processo cósmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
É portanto compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais científicas inovadoras não existiriam, pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa científica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço. Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva destes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros. A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos.

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

03/08/2021

A ciência é moral?

A aliança entre o Estado e a ciência data dos primórdios da civilização. Por milhares de anos, bem antes do início do século XVII marcar o nascimento da ciência moderna, artesãos desenvolveram ligas metálicas, arcos mais precisos, catapultas, pólvora e muitas outras invenções a serviço do Estado, tanto para defender quanto para atacar. A pedido do rei Gelão II, o grande inventor e matemático grego Arquimedes desenhou armas para proteger a cidade de Siracusa dos navios romanos. Relatos históricos (talvez um pouco exagerados) contam que construiu catapultas gigantescas e usou espelhos e lentes gigantes para incendiar as naves invasoras. De qualquer forma, a aplicação do conhecimento científico no desenvolvimento de armamentos é parte essencial da história da humanidade.
Felizmente, essa não é, me parece, a motivação principal que leva jovens a seguir uma carreira científica. A maioria escolhe ser cientista para se engajar no estudo da Natureza em todas as suas manifestações, vivas (nas ciências biológicas) e não vivas (nas ciências físicas), ou para desenvolver tecnologias que potencialmente possam melhorar a qualidade de vida da humanidade: mais conforto e energia, mais comida, mais saúde. Por outro lado, a maioria absoluta das áreas de pesquisa necessitam de fomento, seja ele proveniente do governo ou da iniciativa privada.
É aqui que nasce a aliança entre a ciência e o Estado. A intensidade dessa aliança depende de circunstâncias políticas. Tipicamente, em tempos de guerra ou durante regimes autoritários, a aliança é fortalecida e o Estado engaja cientistas para defender seus interesses estratégicos. Dentro dessa realidade, as reações dos cientistas são variadas. Por exemplo, enquanto os irmãos Wright não tiveram o menor escrúpulo em vender seus aviões para o exército americano em 1909, o uso de aviões como armas de guerra horrorizou nosso Santos Dumont, a ponto de possivelmente ter contribuído para o seu suicídio em 1932.
Na Primeira Guerra Mundial, o impacto da ciência foi essencial. Essa guerra é muitas vezes chamada de “Guerra dos Químicos”, pelo uso de gases venenosos nas frentes de batalha, com resultados devastadores para ambos os lados. Mais de 124 mil toneladas de gases venenosos foram usados, em violação da Convenção de Haia de 1899. Na Alemanha, grandes empresas como a Bayer, a Hoechst e a BASF uniram-se ao Instituto de Pesquisas Kaiser Wilhelm, sob a direção do Prêmio Nobel de Química Fritz Haber, para desenvolver bombas capazes de espalhar os gases nas trincheiras. (Haber recebeu o prêmio em 1918, quando a guerra estava terminando.)
A contratação de empresas privadas pelo Estado é típica nesses casos. Em geral, as guerras são ganhas por aqueles que detêm as tecnologias mais avançadas. Quando necessário, o Estado desenvolve complexos de pesquisa dedicados ao desenvolvimento de novas tecnologias bélicas, muitas vezes contratando times de cientistas para chefiar as pesquisas, como no caso de Fritz Haber. A aliança entre o Estado e a ciência é vista como essencial para proteger a população e a hegemonia estatal: o cientista, patriota, vê-se encurralado, sabendo, ao mesmo tempo, que seus conhecimentos podem defender seu país e comunidade e, também, a devastação que podem causar.
Se a Primeira Guerra Mundial foi a “guerra dos químicos”, a Segunda foi a dos físicos. Entre a invenção do radar em 1935, alguns anos antes da guerra e, mais dramaticamente, a bomba atômica em 1945, a aplicação de conceitos novos da física no desenvolvimento de equipamentos de detecção e armamentos de destruição teve um papel essencial na vitória dos Aliados. Por outro lado, despertou, também, uma conscientização do poder da ciência inédita na história.
Após o primeiro teste da bomba atômica no deserto de Alamogordo, no Novo México, o físico e diretor do Projeto Manhattan, J. Robert Oppenheimer, citou o Bhagavad Gita, a escritura religiosa hindu, para expressar seus sentimentos: “Agora sou a Morte, destruidora de mundos.” Para Oppenheimer e todos os demais cientistas e militares presentes no teste, ficou claro que o mundo jamais seria o mesmo. Pela primeira vez na história, o homem tinha uma arma com poder de destruição de proporções globais. Enquanto muitos cientistas eram veementemente contra o uso de armas nucleares em qualquer conflito, outros não viam outra forma de deter o inimigo.
O orgulho nacional misturado com o patriotismo, a curiosidade científica e o medo de que os nazistas pudessem, também, desenvolver a bomba atômica eram um combustível poderoso. (Após a guerra, ficou claro que os nazistas estavam longe de construir uma bomba atômica. Mas antes, durante o conflito, a informação era inconsistente.)
Mesmo assim, continua sendo um mistério como o grupo de cientistas que trabalhou no Projeto Manhattan, na maioria, indivíduos de natureza pacífica, intelectualmente abertos, e sempre dispostos a dividir o conhecimento entre si, colaborou na construção de uma arma tão nefasta. Por outro lado, uma vez que a arma foi construída, a decisão de usá-la não pertencia aos cientistas que a criaram. Este é um ponto essencial na aliança entre o Estado e a ciência: mesmo que, ocasionalmente, cientistas possam trabalhar entusiasticamente no desenvolvimento de uma nova arma, a decisão de como e onde usá-la vem do Poder Executivo, presumivelmente com o apoio do Legislativo (ou não, em regimes autoritários).
O sucesso da ciência norte-americana durante a Segunda Guerra iniciou uma nova era no fomento da pesquisa científica, tanto básica quanto aplicada. No pós-guerra, a corrida armamentista disparou, aquecida pela Guerra Fria e pelo medo de um ataque soviético. Na década de 1960, a corrida espacial pôs lenha no fogo, acelerando ainda mais o fomento da pesquisa. Tanto nos EUA quanto na União Soviética, a ciência básica era vista como essencial na geração de ideias que, potencialmente, poderiam ser usadas em tecnologias de defesa.
Em julho de 1945, Vannevar Bush, diretor do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento Científico dos EUA, declarou num relatório para o presidente Truman (iniciado sob o governo do presidente Roosevelt), intitulado “Ciência: a fronteira sem fim”: O espírito dos pioneiros ainda é vigoroso em nossa nação. A ciência oferece um território inexplorado para o pioneiro que detenha os instrumentos necessários para esse objetivo. As recompensas dessa exploração para a nação e para o indivíduo são enormes. O progresso científico é a chave essencial para a segurança nacional, para a nossa saúde, para gerar novos empregos e uma qualidade de vida mais elevada, para nosso progresso cultural.
A ciência é uma oportunidade para o indivíduo e para a nação. Não pode progredir sozinha, precisando ser apoiada pelo Estado e pela iniciativa privada. Obviamente, a pesquisa industrial é essencial, e hoje é dominante, inclusive na corrida espacial. O que é raramente discutido, mesmo que sempre esteja implícito, é a moralidade das escolhas que são (ou não) feitas por cientistas que trabalham nas diversas áreas de pesquisa. Rotular a ciência como sendo moral ou imoral não faz sentido.
A ciência em si é amoral, uma coletânea de fatos sobre o mundo natural obtidos pacientemente por cientistas, profissionais que seguem uma metodologia de análise quantitativa de dados e observações. Isso é tanto verdade para os cientistas que estudam frentes de choque em detonações explosivas, como para os cientistas, engenheiros e técnicos que desenham ou trabalham nas linhas de montagem de bombas, ou para físicos de partículas que buscam os componentes fundamentais da matéria. A questão do uso moral da ciência emerge na relação entre os cientistas e os seus patronos, sejam eles o governo ou o setor privado.
É verdade que ter uma arma não é a mesma coisa do que usar a arma. Desde o bombardeio de Nagasaki pelos EUA, nenhuma outra bomba atômica foi usada. A política de prevenção de conflitos nucleares, ao menos até agora, está funcionando. Porém, também é possível argumentar que ter uma arma é a condição essencial para usá-la. Ter uma vasta coleção de armas nucleares é uma estratégia de paz um tanto instável, assunto a que voltaremos adiante. E este é o cerne da questão na aliança entre a ciência e o Estado. A aliança é, por construção, instável.
A decisão do uso das armas, inclusive as nucleares, está nas mãos do líder do país, que é, em última instância, a pessoa responsável pelo seu uso. Não são os cientistas que decidem quais armas são usadas, ou quando. Portanto, o que dizer do cientista que trabalha nessa área? Não me parece que há uma resposta simples. Existem várias profissões que podem prejudicar ou ferir pessoas. Existem muitos modos de ferir o outro. Se o fazem dentro da indústria bélica, é porque escolheram fazê-lo, por uma ideologia de patriotismo, de orgulho nacionalista, ou porque foi o emprego que conseguiram. Porém, a decisão moral de como a ciência é usada está nas mãos daqueles que detêm o poder de ação. Por isso, é essencial que o cidadão saiba escolher seus líderes políticos. E que cientistas saibam refletir, criticamente, sobre a natureza de seu trabalho.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

18/06/2021

Acerca da pseudociência

A ciência origina uma grande sensação de prodígio. Mas a pseudociência também. As popularizações dispersas e deficientes da ciência deixam uns nichos ecológicos que a pseudociência se apressa a encher. Se chegasse a entender amplamente que qualquer afirmação de conhecimento exige provas pertinentes para ser aceita, não haveria lugar para a pseudociência. Mas, na cultura popular, prevalece uma espécie de lei de Gresham segundo a qual a má ciência produz bons resultados.
Em todo mundo há uma enorme quantidade de pessoas inteligentes, inclusive com um talento especial, que se apaixonam pela ciência. Mas não é uma paixão correspondida. Os estudos sugerem que noventa e cinco por cento dos americanos são “analfabetos cientistas”. É exatamente a mesma fração de afro-americano analfabetos, quase todos os escravos, justo antes da guerra civil, quando se aplicavam severos castigos a quem ensinasse a ler a um escravo. Certamente, nas cifras sobre analfabetismo há sempre certo grau de arbitrariedade, tanto se aplica à linguagem como à ciência. Mas um noventa e cinco por cento de analfabetismo é extremamente grave.

Carl Sagan, in O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela acesa no escuro

30/03/2021

A pergunta inevitável

Recentemente, dei uma palestra num evento empresarial para duzentos executivos da área de seguros. Mesmo que tenha ocorrido fora do Brasil, minha experiência é que as coisas não teriam sido muito diferentes em qualquer cidade brasileira. Meu objetivo era inspirar o grupo a embarcar numa reflexão bem macro, provocando-os gentilmente com perguntas de caráter existencial que, na correria do dia a dia, tendemos, convenientemente, a deixar de lado. Os organizadores pediram que falasse sobre nosso lugar no Universo, sobre o que as descobertas da ciência moderna têm a nos dizer sobre nossas origens cósmicas e nossa busca por sentido, sobre nossa função como espécie pensante, e sobre nosso futuro na Terra.
Comecei explicando que somos criaturas flanqueadas por dois momentos essenciais no tempo, e que a história de nossas vidas se dá entre eles, o nascimento e a morte. Da mesma forma, as estrelas no Universo também têm suas histórias, com um começo e um fim. Considero a consciência que temos da passagem do tempo nossa característica mais marcante: sabermos que existimos e que nossa existência inevitavelmente chega ao fim. (Quando disse isso, percebi que alguns dos executivos sorriram, provavelmente os que trabalham com seguro de vida.)
Argumentei que muito da criatividade humana, os poemas e sinfonias, a literatura, as ciências e as ideias filosóficas, a soma de nossas obras culturais, pode ser visto como uma resposta ao fato de sermos criaturas cientes do nosso destino, tentativas, de alguma forma, de colorir a existência com o que temos de melhor, fazendo cada dia valer a pena. O amor, o sexo, o poder, as relações são as placas ao longo do caminho que, durante nossas vidas, nos levam nessa ou naquela direção.
Afinal, somos produtos de nossas escolhas, boas ou más. Continuei discutindo a questão das origens: do Universo, das estrelas, da vida, explicando que praticamente todas as culturas que existiram e existem, dos egípcios aos maias, dos ianomâmis à ciência moderna, ofereceram uma narrativa da Criação, uma tentativa de entender de onde veio tudo o que existe no mundo, inclusive o próprio. Olhar para as estrelas numa noite sem lua, longe das luzes da cidade, ver tantas delas, nos faz querer saber se existem outras criaturas vivendo nos planetas e luas que giram ao seu redor, ao mesmo tempo semelhantes e diferentes de nós.
Será que estão, também, olhando para as estrelas, se questionando se estão sozinhas no cosmo? E que tipo de inteligência teriam? Individual? Coletiva? Máquinas que ultrapassaram a fase da carne e osso? Ou serão elas algo completamente insuspeitado por nossas mentes? Quando pensamos que, apenas na nossa galáxia, existem em torno de 200 bilhões de estrelas, o Sol sendo apenas uma delas, fica difícil não imaginar essas coisas, especialmente agora, que sabemos que a maioria das estrelas tem planetas girando à sua volta, e que muitos destes têm luas.
São, portanto, trilhões de mundos lá fora, cada qual único, com sua história e possibilidades. Mostrei imagens belíssimas, tiradas pelo Telescópio Espacial Hubble e por outros, de robôs motorizados rondando pela superfície de Marte, fotos de outros mundos, revelando seus segredos, máquinas controladas por cientistas e engenheiros aqui na Terra, uma mágica que só não é mágica porque é real. Sugeri à minha audiência que essas máquinas maravilhosas, que tanto nos revelam sobre o Universo e, por consequência, sobre nós, deveriam ser celebradas como grandes feitos da humanidade, ao lado das pirâmides, das catedrais medievais, da arquitetura de Brasília ou Barcelona, da Mona Lisa, das sinfonias de Mahler e das canções dos Beatles e do Tom Jobim.
Expliquei que, ao contrário do que muitos pensam, e como argumento em meus livros A ilha do conhecimento e A simples beleza do inesperado, quanto mais aprendemos sobre o Universo, mais relevantes ficamos, máquinas moleculares que somos, capazes de imaginar e de descobrir aspectos da realidade muito além da nossa percepção. Tentei, com palavras e imagens, celebrar a criatividade humana e a beleza austera do Universo, capazes de criar e destruir com inacreditável beleza e fúria.
Argumentei que o trágico e o sublime são, como as duas faces de Jano, aspectos inseparáveis da existência, partes do mesmo todo. Argumentei, ainda, que somos relevantes por sermos únicos, que somos criaturas especiais justamente por não termos sido criadas como parte de algum plano maior. Terminei explicando que é justamente por sermos únicos no Universo, por nosso planeta ser único na galáxia, que devemos nos unir como espécie e lutar pela nossa sobrevivência e a do nosso planeta, indo, finalmente, além das divisões tribais que dominaram e que dominam até hoje nossa história coletiva, e que tanto destroem. Ao fim disso tudo, tão inexorável quanto a passagem do tempo, me fizeram a pergunta inevitável: “Mas, afinal, o senhor acredita ou não em Deus?”

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

08/03/2021

O que a ciência nos ensina sobre a arte de viver

          Tentativa e erro, experimentar o novo, entender que algumas questões têm respostas complexas ou podem mesmo não ter uma resposta, cultivar a noção de que o fracasso é essencial para o progresso, aceitar que erros são o que nos fazem eventualmente acertar, saber persistir quando as dificuldades parecem não acabar nunca: essas são algumas componentes da pesquisa científica, uma espécie de sabedoria acumulada através dos tempos que, acredito, é também muito útil em vários aspectos da vida, desde como enfrentar desafios individuais até como reger empresas. Se contarmos de Galileu em diante, são mais de quatrocentos anos de ciência, de desenvolvimento de uma metodologia que transformou e continua transformando o mundo. Se a ciência teve tanto sucesso, não foi porque o caminho em frente era óbvio; pelo contrário, foi por ele ser imprevisível e cheio de obstáculos.
A Natureza não nos diz o que fazer, como achar padrões de comportamento, como descobrir leis matemáticas que regem os fenômenos naturais. O que conseguimos descobrir até agora é fruto de nossa diligência, perseverança e criatividade. Quem poderia imaginar que a mesma força que é responsável pela queda de uma maçã é, também, responsável pela órbita da Lua em torno da Terra e da Terra em torno do Sol? Quem poderia adivinhar que a eletricidade e o magnetismo são manifestações de um campo eletromagnético que se propaga através do espaço na velocidade da luz? Quem poderia adivinhar que as espécies animais evolvem devido a mutações genéticas aliadas ao processo de seleção natural? Esse conhecimento não veio do nada; exigiu muita coragem intelectual, disciplina de trabalho e tolerância ao erro.
Para fazer ciência de qualidade, é necessário entender a tensão entre a experimentação e a aceitação do erro. Assim funciona o processo de tentativa e erro, quando tentamos estratégias diferentes para chegar ao resultado desejado. Para tal, é preciso tanto criatividade (para propor estratégias diferentes) quanto tolerância (para aceitar o erro e ir em frente). Se temos pouca experiência escalando montanhas, não devemos nos aventurar a subir um pico difícil. A estratégia adequada é expandir nossa habilidade gradativamente, até obter uma boa base técnica, para só então tentar a escalada mais ambiciosa.
Aprendemos com nossos erros, usando o fracasso como guia. Tomamos riscos, sempre com a intenção de nos preservar no processo. Alpinistas não querem cair. Pesquisadores não querem (ou, ao menos, não devem) investir recursos excessivos num projeto que, mesmo após longo tempo, dá poucos frutos. Não queremos que persistência vire cegueira. Em um determinado momento, temos que ter coragem de deixar uma ideia para trás, ainda que seja difícil fazê-lo. Para que um projeto tenha sucesso, precisamos nos dedicar a ele de corpo e alma. Porém, se após várias tentativas, as coisas não avançam, temos que ir em frente.
Dar uma parada para avaliar em que estágio estamos, discutir ideias com colegas, ouvir críticas e aprender com elas são procedimentos essenciais na pesquisa científica, e podem ser muito úteis em outras atividades. Se as coisas não funcionam, precisamos deixar o orgulho e a vaidade de lado e aceitar que falhamos. Todo cientista sabe muito bem que a maioria das suas ideias não vai funcionar. Resolutos, vamos em frente, estando abertos a críticas e, mais importante ainda, sabendo respeitar evidências contra o que estamos propondo. (Ou celebrar aquelas a favor.) Aprendemos porque sabemos aceitar nossa ignorância.
Meu avô costumava dizer que quem usa um chapéu muito grande não enxerga o que tem pela frente. A arrogância é uma forma de cegueira. Na ciência, e em qualquer outra área de trabalho, é bom lembrar as sábias palavras de Isaac Newton – mesmo que o próprio, ao longo da vida, não tenha sido o que chamaria de um modelo de humildade profissional: Não sei o que possa parecer aos olhos do mundo, mas aos meus pareço apenas ter sido como um menino brincando à beira-mar, divertindo-me com o fato de encontrar de vez em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita que o normal, enquanto o grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

02/02/2021

Um físico e um cardeal conversam sobre fé e ciência

          Muitos de meus colegas de profissão, talvez a maioria deles, considerariam uma grande perda de tempo dividir um palco com um cardeal do Vaticano para conversar sobre ciência e religião. Os mais extremos diriam que fazer isso é dar à religião uma credibilidade que não merece. Dado que discordo frontalmente desse tipo de atitude radical proveniente do que hoje chamamos de cientificismo, em abril de 2016 fui ao Teatro Tuca, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, para conversar com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho de Cultura do Vaticano. Foi uma noite memorável e inspiradora.
Dentro da tradição historicamente conservadora do Vaticano, fiquei surpreso com a atitude de Ravasi, de franca abertura à ciência. Afinal, esse é o mesmo Vaticano que, apenas em 1992, sob ordem do então papa João Paulo II, admitiu ter errado ao condenar Galileu Galilei 359 anos antes por afirmar que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário. Ravasi vem construindo conexões com cientistas do mundo inteiro, organizando debates públicos onde são discutidas questões de grande importância para a sociedade, incluindo temas como a pesquisa e o uso das células-tronco na medicina, a ética do uso de drogas nos esportes, a possibilidade de a moralidade ser independente da religião e o futuro da espécie humana tendo em vista a integração crescente das tecnologias digitais nas nossas vidas. Para estabelecer uma plataforma de suporte a essa iniciativa, Ravasi seguiu as diretrizes do papa Bento XVI e ressuscitou o Átrio dos Gentios, um fórum para promover o diálogo construtivo entre cristãos e não crentes, explorando questões relacionadas com “fé e razão, e cultura secular e Igreja”.
Interessante que o Átrio dos Gentios original ficava no Segundo Templo em Jerusalém, e designava a área onde judeus e não judeus podiam circular livremente, comprar e vender mercadorias, trocar dinheiro ou sacrificar animais. Foi ali que, segundo todos os evangelhos, Jesus teve sua altercação com os negociantes, acusando-os de perverter a santidade do Templo. No caso do Átrio mais recente, a ideia é abrir as portas da Igreja para uma discussão franca sobre questões de interesse para crentes e não crentes, supostamente com menos animosidade. Abri a noite explicando como a ciência amplifica nossa visão da realidade, criando uma narrativa do mundo natural que é constantemente revisada; expliquei como a ciência contribuiu de forma essencial para mudar nossa visão de mundo no passado, e como continuará a fazê-lo no futuro, ao explorarmos os confins do mundo material, do nível subatômico e humano ao cosmológico.
Mencionei Einstein, que nos convida ao engajamento com o “Mistério”, a fonte que inspira o trabalho criativo tanto nas artes quanto nas ciências. Argumentei que existe uma dimensão espiritual na ciência, ao induzir uma relação mais íntima e profunda com a Natureza. Argumentei, também, que a ciência moderna está redefinindo nossa posição no cosmo, distanciando-se do copernicanismo tradicional, que afirma que quanto mais aprendemos sobre o mundo menos importante somos. Essa interpretação é profundamente nociva para a percepção pública da ciência, já que afirma que a ciência não tem qualquer papel na nossa busca por sentido: qual o sentido da vida se vivemos num Universo gigantesco e frio, que pouco liga para nós?
Ou, como se escuta dizer em debates mais populares, a ciência roubou Deus da gente e não ofereceu nada em troca. Minha posição, que chamo de humano-centrismo, vai de encontro a esta visão, propondo que a variedade de outros mundos no cosmo e a compreensão que temos hoje dos vários passos que a vida teve que dar para evoluir de simples células procariotas até seres humanos indicam que a vida inteligente seja extremamente rara, mesmo sem excluir sua possível existência em outros cantos da galáxia. O humano-centrismo tem consequências imediatas, já que nos transforma nessa entidade rara, máquinas moleculares capazes de sentir, pensar e de se questionar sobre a existência. Surpreendentemente, ao menos de forma metafórica, a ciência moderna nos restitui uma posição central no cosmo, como guardiões da vida e do planeta onde existimos.
Concluí propondo a necessidade de uma complementaridade do conhecimento humano, que vai além da simples tolerância das diferenças. Existem diferentes modos de entender e examinar a mesma questão, diferentes modos de se engajar com o mundo. Por exemplo, ao olharmos para um cálice de vinho, podemos examiná-lo sob várias perspectivas. Bioquimicamente, como produto de um processo de fermentação; opticamente, ao estudarmos sua cor, os reflexos da luz no cristal; fisicamente, como um fluido de certa densidade, em repouso a uma determinada temperatura e pressão atmosférica, no campo gravitacional da Terra; sociologicamente, como produto agrícola em algum país distante com certas leis trabalhistas; economicamente, como um produto que compete no mercado internacional; ecologicamente, como algo que implicou o desmatamento de alguma área, o uso de técnicas inseticidas próprias e os poluentes liberados na atmosfera no transporte da fazenda até a loja onde compramos a garrafa.
Adicionalmente, temos outro lado para examinarmos o cálice de vinho, complementar a essas análises mais técnicas: sua beleza estética, a simetria das formas, a sensação de tocar e manipular o cálice, o aroma do vinho, seu gosto tão único e, talvez ainda mais importante, a companhia com quem estamos dividindo esse momento, as emoções que vêm dessa presença, o significado da experiência, única para cada um de nós. Dentro dessa óptica, exigir de um crente uma prova concreta da existência de Deus não faz sentido. A fé consiste em acreditar no que não pode ser (ou não foi ainda) provado. Por outro lado, insistir que textos religiosos explicam ou podem prever fenômenos naturais de forma científica é uma proposta absurda. Como disse Galileu, a Bíblia não foi escrita para descrever como vão os céus, mas como se vai ao céu. Felizmente, Ravasi não é um literalista. Pelo contrário, citou Santo Agostinho como alguém que já havia reconhecido os perigos de usar a Bíblia como texto com valor científico.
Se Ravasi fosse literalista, não teria aceitado dialogar com ele. Aqueles que se dizem crentes constituem em torno de dois terços da população mundial, mais do que 4 bilhões de pessoas. Denegrir sua fé como uma espécie de delírio ou loucura não leva a nada. Ravasi desconsidera os pronunciamentos mais incendiários de alguns ateus radicais sugerindo, como alternativa, uma troca aberta de ideias. Em determinado momento, propôs três modos de olhar para o mundo: para baixo, ao explorarmos a matéria que constitui as coisas; para a frente, na relação com outras pessoas e seres vivos; para cima, na busca por alguma forma de transcendência. Precisamos dos três modos, mesmo que se manifestem de formas diferentes para cada um. Raramente mencionou Deus, defendendo a necessidade de uma busca pluralista pelo conhecimento, que ressoa positivamente com minha proposta de complementaridade do saber. Ravasi mencionou o biólogo americano Stephen Jay Gould e sua proposta de magistérios que não se superpõem (do inglês, Non-Overlapping Magisteria, ou NOMA), que mencionamos aqui no ensaio anterior. Segundo Gould, ciência e religião deveriam existir em paralelo, sem interferência.
Ravasi saudou a iniciativa de Gould, que, afinal, põe a religião em pé de igualdade com a ciência. Porém, sugeriu que devemos ir além para criar uma visão mais coesiva. Brincou que, nos tempos de Galileu, seria inconcebível ter um cientista dividindo o palco com um cardeal. Naquela época, os homens da Igreja é que se recusariam a dividir o palco com um mero cientista. “Os tempos mudaram”, disse, “e devemos mudar com eles.” O cardeal pareceu-me completamente sincero e autêntico. Vi com alívio que o Vaticano hoje tem pessoas como ele em postos de comando. Ravasi está disposto a escrever um novo capítulo na longa e tortuosa história do debate entre a ciência e a Igreja, com um final mais feliz do que seus antecessores. Ficou claro para os presentes que o objetivo desses diálogos não é tentar convencer o outro.
Esse seria um exercício supérfluo, como já deveríamos ter aprendido. A proposta é estar aberto para ouvir o outro, sem recorrer aos recursos limitados de um tribalismo em que o “outro”, aquele com opiniões diversas da sua, é necessariamente um ser inferior que precisa ser eliminado ou convertido. Ficou claro, também, que um diálogo desse tipo seria impossível entre facções radicais. Não poderia conversar sobre ciência e fé com um literalista, ou mesmo com um primo distante meu, que é judeu ortodoxo. Os argumentos de um literalista são absurdos para a maioria dos cientistas, e com razão. Somos criaturas finitas, num mundo cheio de desafios, com mais perguntas do que respostas. Fatos, valores, crenças e tradições formam uma rica teia em que é fácil se perder. O fundamento de um diálogo construtivo entre a fé e a ciência é reconhecer que, mesmo considerando todas as diferenças, a busca por sentido é de cada um e de todos nós. A perplexidade de estarmos vivos, mesmo se a expressamos de modo diverso, é parte da nossa essência.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul

29/01/2021

A irresistível necessidade de acreditar

          Ao discutirmos a complexa relação entre ciência e religião, com frequência nos deparamos com posições polarizadas: ou se afirma “acredito” ou se afirma “não acredito”, com total convicção em ambos os casos. Com frequência ainda maior, se perguntarmos no quê, exatamente, a pessoa acredita, ou de onde vem a necessidade de sua fé, nos deparamos com respostas vagas, que incluem “tradição”, “comunidade”, “mortalidade”. Um grupo menor, que se dá a reflexões mais profundas, examina, questiona e reavalia sua fé regularmente, sabendo que o crer é fluido. Nossas convicções mudam com a idade e, com essas mudanças, muda, também, nossa relação com a fé.
Nessa polarização milenar, muita animosidade desnecessária vem da convicção infundada de que os que têm opinião diferente da nossa em relação à fé, ou os que acreditam de forma diferente, estão profundamente equivocados, ou são simplesmente tolos ou, pior, são infiéis que não merecem viver. Deixando de lado a radicalização trágica dos muçulmanos de organizações terroristas como ISIS ou Al-Qaeda, vimos exemplos mais amenos, mas não menos sintomáticos, do radicalismo entre ateus e cristãos nos debates presidenciais durante a eleição de Donald Trump nos EUA, e em várias eleições no Brasil, onde ateus são considerados os candidatos menos elegíveis.
É impensável, hoje, ter um presidente que se proclama não crente nos Estados Unidos ou no Brasil. Essa dicotomia é uma distorção cultural que precisa ser repensada. Na realidade, existe todo um espectro de modalidades da fé humana, que ocupam o espaço entre o radicalismo extremo dos dois polos. Por exemplo, Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde dos EUA – o órgão governamental que administra o maior número de bolsas de pesquisa nas áreas da medicina e da biologia –, não vê qualquer conflito entre ser cristão e ser cientista. Como ele, muitos cientistas veem a prática científica como mais um modo de admirar a obra divina, ou seja, como uma forma de devoção religiosa. Essa é uma tradição antiga, que inclui alguns dos patriarcas da ciência moderna, como Copérnico, Newton, Kepler e Descartes.
A ruptura veio mais tarde, com o Iluminismo do século XVIII. Para ateus radicais conhecidos do público, como o biólogo inglês Richard Dawkins, o escritor americano Sam Harris e o falecido jornalista inglês Christopher Hitchens, esse tipo de posição intermediária é inconsistente com os fundamentos da ciência: a Natureza é material, e a matéria é organizada segundo leis quantitativas. O objetivo da ciência é descobrir essas leis; não existe espaço para mais nada. Segundo eles, qualquer posição conciliatória entre ciência e religião cria uma série de problemas filosóficos. Como exemplo, citam a coexistência incompatível do natural com o sobrenatural. Como a Natureza pode ser tanto natural quanto sobrenatural? Por definição, chamar um evento que ocorre e é percebido por alguém como sendo um “fenômeno sobrenatural” cria uma inconsistência básica: para que o fenômeno tenha sido observado, teve que emitir algum tipo de radiação eletromagnética (luz visível, radiação infravermelha etc.), que foi detectada por algum observador ou instrumento. “Eu vi um fantasma!” Em outras palavras, para um fenômeno ser detectado, tem que trocar energia com quem (ou com o que) o observa.
É claro que um fenômeno chamado de sobrenatural, uma vez observado, é perfeitamente natural, mesmo se misterioso ou aparentemente inexplicável. Um fantasma que é visto não é mais uma entidade sobrenatural. E agora? Os ateus usam essa incompatibilidade como argumento definitivo contra a crença no sobrenatural e, por extensão, contra a religião. Sem se dar conta, acabam usando sua fé na não fé como prova, e acabam caindo em uma contradição, como veremos adiante. Outros adotam a posição que o biólogo americano Stephen Jay Gould chamou de NOMA (do inglês, Non-Overlapping Magisteria, magistérios que não se superpõem), e compartimentalizam a ciência e a religião dentro de esferas limitadas de influência, afirmando algo como “a religião começa onde a ciência termina”. Apesar de cômoda, essa posição não vai muito longe.
À medida que a ciência avança, a fronteira entre os dois magistérios vai migrando, refletindo uma posição teológica antiquada conhecida como “Deus dos Vãos”, a religião tapando os buracos da nossa ignorância científica. Isso é um tanto indignante para Deus, dado que o espaço para a crença vai diminuindo ao entendermos mais sobre o funcionamento do mundo natural. Me parece bem mais prudente basear a fé em algo mais abstrato do que nossa ignorância sobre o mundo. Além disso, afirmar categoricamente que o sobrenatural tem uma existência intangível e imensurável posiciona sua natureza além do discurso científico, anulando qualquer possibilidade de uma troca construtiva de ideias. O fato é que a ciência e a religião claramente se superpõem na cabeça das pessoas, nas escolhas que fazemos na vida, nos desafios morais que a sociedade moderna enfrenta.
É tragicamente inocente negar o poder da religião no mundo, com bilhões de pessoas declarando-se seguidores de algum tipo de fé, mesmo que muitas delas definam sua fé de forma vaga. Para muitos, a necessidade da fé vai além da crença, tendo um papel social essencial: ela cria alianças que restituem um senso de dignidade e de comunidade que governos muitas vezes deixam de oferecer. Numa realidade miserável, a visão divina enaltece o espírito. Ademais, a posição dos ateus radicais é inconsistente com os parâmetros do método científico, algo que talvez surpreenda muita gente. Para entender isso, basta ver que o ateísmo é a crença na não crença, já que nega categoricamente a possibilidade da existência de qualquer tipo de divindade. O problema é que a ciência só pode negar categoricamente a existência de algo após observações absolutamente conclusivas.
E observações absolutamente conclusivas não existem. Existem apenas convicções, baseadas num conhecimento parcial da realidade. Toda medida científica tem uma margem de erro e um limite de precisão.
Como podemos ter certeza do que ainda não medimos? A posição mais consistente com o método científico é a do agnóstico, como haviam já percebido Thomas Huxley e Bertrand Russell, entre muitos outros: não vejo qualquer razão para crer, mas baseado no que sei não posso negar absolutamente a possibilidade de que alguma entidade divina exista. Como escreveu Huxley, criador do termo “agnóstico”:
É errôneo afirmar que se tem certeza da verdade objetiva de uma proposição, a menos que seja fornecida evidência que justifique logicamente esta certeza.” Em vista da diversidade de posições, a questão essencial é a origem dessa necessidade de acreditar, que identificamos na maioria absoluta das culturas do passado e do presente. O que a crença oferece que tantos precisam? Pertencer a um grupo religioso confere um senso de comunidade imediato. Ao encontrar outros membros de sua comunidade na igreja ou no templo, a pessoa vê sua crença justificada, dado que é compartilhada por tantos outros. Mais do que a crença em si, a pessoa se vê integrada num grupo com valores afins. Isso é tanto verdade para as pessoas de fé quanto para aquelas seculares, sejam elas ateias ou agnósticas.
Seres humanos são criaturas tribais, e tribos definem-se a partir de certos símbolos, mitos ou código moral. Não há dúvida de que nossos ancestrais entenderam que existe uma enorme vantagem em pertencer a um grupo. Fazer parte de uma tribo oferecia uma proteção que aumentava as chances de sobrevivência num ambiente extremamente hostil: unidos venceremos. Tanto no passado quanto no presente, fazer parte de uma tribo confere legitimidade social imediata. Para muita gente, a fé pode ser a justificativa oferecida para participar de um grupo religioso, mas é o senso de comunidade, de valores divididos pelo grupo, que está por trás da devoção. Existe, no entanto, outro aspecto da fé, bem mais subjetivo do que este tribal. Como descreveu o psicólogo americano William James em sua obra-prima.
As variedades da experiência religiosa, a experiência religiosa atinge seu clímax na subjetividade da experiência individual, na comunhão da pessoa com o desconhecido, na percepção de transcendência dos limites da existência humana, delineada pelas barreiras do espaço e do tempo. As visões e revelações dos profetas e dos santos, a experiência emocional do divino, ocorrem no indivíduo, mesmo quando induzidas pelo grupo (por exemplo, através de rituais). Existe muito mais no mundo do que aquilo que percebemos ou podemos medir, e essas características “ocultas” são igualmente importantes na nossa construção do que definimos como realidade. Como escreveu James, “toda a sua vida subconsciente, seus impulsos, suas crenças, suas necessidades, são a premissa da sua existência consciente; existe algo dentro de você que sabe de forma absoluta que o resultado disso tudo deve ser mais verdadeiro do que qualquer tipo de argumento lógico, por mais articulado que seja, que tente contradizer essas convicções subconscientes”.
Mesmo que o filósofo George Santayana e outros tenham criticado James por “encorajar a superstição”, ninguém pode negar o fato de que a razão tem alcance limitado. A ciência, se vista como expressão da razão humana, espalha-se por todos os cantos do conhecimento de forma magnífica. Mas seu alcance não é ilimitado. Existe outra dimensão da fé, separada dos rituais tribais e da religião organizada, que dá expressão a uma necessidade primária que temos de comunhão com o desconhecido. Este é o aspecto mais universal da necessidade humana de crer, que transcende divisões arbitrárias da fé criadas no decorrer da história; as religiões, as tradições, os cultos, as tribos e suas regras. Não falo aqui de uma supersticiosidade irracional ou mística. O que identificamos é a necessidade individual da crença, expressa por cada um de forma variada.
Quando Einstein mencionou sua “emoção religiosa cósmica” para descrever sua conexão espiritual com a Natureza, tentava expressar precisamente essa atração humana pelo mistério, pelo desconhecido. “Espiritual” não implica necessariamente na crença em uma dimensão não material ou sobrenatural. O que pode surpreender a muitos – especialmente aos que veem cientistas por meio do estereótipo do racionalista frio – é que essa atração pelo mistério, em essência, uma atração espiritual pela Natureza, inspira muitos cientistas em seu trabalho. Não é Deus que se busca no questionamento científico, mas a transcendência do humano, a busca por uma dimensão além do cotidiano que dá sentido à nossa busca por sentido. Ao estender sua curiosidade ao oceano do desconhecido, mesmo o cientista secular está praticando essa crença, expressando a necessidade universal que temos de conhecer nossa história e de explorar o novo, ampliando, assim, nossa visão da realidade.

Marcelo Gleiser, in O caldeirão azul