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04/07/2025

Da solidão

Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à ideia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu “O corvo”: o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do “nunca mais”.
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

21/12/2024

O grande invento do nosso tempo




[…]

Desde os tempos da fundação, José Arcádio Buendía construía alçapões e gaiolas. Em pouco tempo encheu de corrupiões, canários, azulões e tiês-sangue não só a própria casa, mas todas as da aldeia. O concerto de tantos pássaros diferentes chegou a ser tão atordoante que Úrsula tapou os ouvidos com cera de abelha para não perder o senso da realidade. A primeira vez que a tribo de Melquíades chegou vendendo bolas de vidro para dor de cabeça, todo mundo se surpreendeu que eles tivessem conseguido encontrar aquela aldeia perdida no marasmo do pantanal, e os ciganos confessaram que tinham se orientado pelo canto dos pássaros.
Aquele espírito de iniciativa social desapareceu em pouco tempo, arrastado pela febre dos ímãs, dos cálculos astronômicos, dos sonhos de transmutação e das ânsias de conhecer as maravilhas do mundo. De empreendedor e limpo, José Arcádio Buendía transformou-se num homem de aspecto folgazão, descuidado no vestir, com uma barba selvagem que Úrsula conseguia aparar a duras penas com uma faca de cozinha. Não faltou quem o considerasse vítima de algum estranho sortilégio. Mas até os mais convencidos de sua loucura abandonaram trabalho e famílias para segui-lo quando jogou sobre os ombros suas ferramentas de desbastar matos e bosques e pediu a participação de todos para abrir uma picada que pusesse Macondo em contato com os grandes inventos.
José Arcádio Buendía ignorava por completo a geografia da região. Sabia que para os lados do oriente estava a serra impenetrável, e do outro lado da serra, a antiga cidade de Riohacha, onde em épocas passadas — segundo havia contado a ele o primeiro Aureliano Buendía, seu avô — sir Francis Drake se dava ao esporte de caçar jacarés a tiros de canhão, que depois mandava remendar e rechear de palha e despachava para a rainha Elizabeth. Na sua juventude, José Arcádio e seus homens, com mulheres e crianças e animais e todo tipo de utensílios domésticos, atravessaram a serra buscando uma saída para o mar, e ao cabo de vinte e seis meses desistiram da aventura e fundaram Macondo para não ter que empreender o caminho de volta. Era, pois, um caminho que não lhe interessava, porque só podia conduzir ao passado. Ao sul estavam as lagoas cobertas por uma eterna nata vegetal e o vasto universo do pântano grande, que de acordo com o depoimento dos ciganos carecia de limites. Esse pantanal se confundia ao ocidente com uma extensão aquática sem horizontes, onde havia cetáceos de pele delicada com cabeça e torso de mulher, que faziam os navegantes se perderem com o feitiço de suas tetas descomunais. Os ciganos navegavam seis meses por essa rota antes de alcançar o cinturão de terra firme por onde passavam as mulas do correio. De acordo com os cálculos de José Arcádio Buendía, a única possibilidade de contato com a civilização era a rota do norte. Por isso, entregou foices, machados, facões e armas de caça aos mesmos homens que o acompanharam na fundação de Macondo, enfiou numa mochila seus instrumentos de orientação e seus mapas, e lançou-se à temerária aventura.
Nos primeiros dias não encontraram obstáculo apreciável. Desceram pela pedregosa ribeira do rio até o lugar onde anos antes haviam encontrado a armadura do guerreiro, e por ali penetraram o bosque por uma trilha de laranjeiras silvestres. No fim da primeira semana mataram e assaram um veado, mas se conformaram em comer a metade e salgar o resto para os próximos dias. Tratavam de adiar com essa precaução a necessidade de continuar comendo araras, cuja carne azul tinha um áspero sabor de almíscar. Depois, durante mais de dez dias, não tornaram a ver o sol. O chão tornou-se mole e úmido, feito cinza vulcânica, e a vegetação ficou cada vez mais insidiosa e se fizeram cada vez mais distantes os gritos dos pássaros e a algazarra dos macacos, e o mundo ficou triste para sempre. Os homens da expedição sentiram-se angustiados por suas recordações mais antigas naquele paraíso de umidade e silêncio, anterior ao pecado original, onde as botas afundavam em poços de óleo fumegante e os facões destroçavam lírios sangrentos e salamandras douradas. Durante uma semana, quase sem falar, avançaram como sonâmbulos por um universo de desassossego, alumbrados apenas por uma tênue reverberação de insetos luminosos e com os pulmões agoniados por um sufocante cheiro de sangue. Não podiam regressar, porque a trilha que abriam enquanto caminhavam tornava a se fechar num instante, com uma vegetação nova que quase viam crescer diante de seus olhos. “Não importa”, dizia José Arcádio Buendía. “O essencial é não perder a direção.” Sempre atento à bússola, continuou guiando seus homens rumo a um norte invisível, até que conseguiram sair da região encantada. Era uma noite densa, sem estrelas, mas a escuridão estava impregnada por um ar novo e limpo. Exauridos pela longa travessia, dependuraram suas redes e dormiram pesado pela primeira vez em duas semanas. Quando despertaram, já com o sol alto, ficaram pasmos de fascinação. Diante deles, rodeado de samambaias e palmeiras, branco e empoeirado na silenciosa luz da manhã, estava um enorme galeão espanhol. Ligeiramente inclinado para estibordo, de seus mastros intactos pendiam fiapos esquálidos do velame, entre cordoalhas adornadas por orquídeas. O casco, tapado por uma resplandecente couraça de rêmoras petrificadas e musgo tenro, estava firmemente cravado num solo de pedras. Toda a estrutura parecia ocupar um âmbito próprio, um espaço de solidão e de esquecimento, vedado aos vícios do tempo e aos costumes dos pássaros. No interior, que os expedicionários exploraram com um fervor sigiloso, não havia nada além de um espesso bosque de flores.
Achar o galeão, indício da proximidade do mar, estraçalhou o ímpeto de José Arcádio Buendía. Considerava uma ironia de seu travesso destino ter buscado o mar sem encontrá-lo, ao preço de sacrifícios e penas sem conta, e ter encontrado o mar sem buscá-lo, atravessado em seu caminho como um obstáculo invencível. Muitos anos depois, o coronel Aureliano Buendía tornou a atravessar a região, quando já era uma rota regular do correio, e a única coisa que encontrou do galeão foi o esqueleto carbonizado no meio de um campo de amapolas. Só então, convencido de que aquela história não tinha sido uma artimanha da imaginação de seu pai, se perguntou como o galeão tinha conseguido entrar até aquele ponto na terra firme. Mas José Arcádio Buendía não teve essa inquietação quando encontrou o mar, depois de outros quatro dias de viagem, a doze quilômetros de distância do galeão. Seus sonhos terminavam diante daquele mar cor de cinza, espumoso e sujo, que não merecia os riscos e sacrifícios de sua aventura.
Caralho! — gritou. — Macondo está cercada de água por todos os lados.
A ideia de uma Macondo peninsular prevaleceu durante muito tempo, inspirada no mapa arbitrário que José Arcádio Buendía desenhou quando regressou de sua expedição. Traçou-o com raiva, exagerando de má-fé as dificuldades de comunicação, como castigando-se a si mesmo pela absoluta falta de noção com que escolhera o destino da sua marcha. “Nunca chegaremos a nenhum lugar”, lamentava-se para Úrsula. “Aqui vamos apodrecer em vida, sem receber os benefícios da ciência.” Essa certeza, ruminada vários meses no quartinho do laboratório, levou-o a conceber o projeto de levar Macondo para um lugar mais propício. Só que desta vez Úrsula se antecipou aos seus desígnios febris. Num secreto e implacável trabalho de formiguinha ela predispôs as mulheres da aldeia contra as veleidades de seus homens, que já começavam a se preparar para as mudanças. José Arcádio Buendía não soube em que momento, nem graças a que forças adversas, seus planos foram se enredando em um emaranhado de pretextos, contratempos e evasivas, até se converterem em pura e simples ilusão. Úrsula observou-o com uma atenção inocente e até chegou a sentir por ele um pouco de piedade, na manhã em que o encontrou no quartinho dos fundos comentando entre dentes seus sonhos de mudança, enquanto colocava nas caixas originais as peças do laboratório. Deixou que ele terminasse. Deixou que pregasse as caixas e com um pincel lambuzado de tinta pusesse suas iniciais em cima, sem fazer reparo algum, mas já sabendo que ele sabia (porque ouviu o que ele dizia em seus monólogos surdos) que os homens da aldeia não o seguiriam em sua aventura. Só quando começou a desmontar a porta do quartinho Úrsula se atreveu a perguntar por que estava fazendo aquilo, e ele respondeu com uma certa amargura: “Já que ninguém quer ir embora, vamos sozinhos.” Úrsula não se alterou.
Não vamos não — disse ela. — Nós ficamos aqui, porque aqui tivemos um filho.
Mas ainda não temos um morto — disse ele. — E a gente não é de lugar nenhum enquanto não tem um morto debaixo da terra deste lugar.
Úrsula replicou, com uma suave firmeza:
Pois se for preciso que eu morra para que vocês fiquem aqui, então eu morro.
José Arcádio Buendía não acreditou que fosse tão rígida a vontade da sua mulher. Tratou de seduzi-la com o feitiço da sua fantasia, com a promessa de um mundo prodigioso onde bastava jogar uns líquidos mágicos na terra para que as plantas dessem frutos de acordo com a vontade dos homens, e onde se vendia por quase nada todo tipo de artefato contra a dor. Mas Úrsula foi insensível à sua clarividência.
Em vez de andar pensando em suas maluquices fantasiosas, você devia é cuidar dos seus filhos — replicou. — Olha só como estão, largados de mão feito os burros.
José Arcádio Buendía tomou ao pé da letra as palavras de sua mulher. Olhou pela janela e viu os dois meninos descalços na horta ensolarada, e teve a impressão de que só naquele instante haviam começado a existir, concebidos pelo pedido determinado de Úrsula. Alguma coisa então aconteceu dentro dele; algo misterioso e definitivo que o desenraizou do tempo presente levou-o à deriva por uma região inexplorada de recordações. Enquanto Úrsula continuava varrendo a casa que agora tinha certeza de não abandonar pelo resto da vida, ele permanecia contemplando os meninos com um olhar absorto, até que os olhos se umedeceram e ele os secou com o dorso da mão, e exalou um profundo suspiro de resignação.
Bom — falou. — Diga a eles que venham me ajudar a tirar as coisas dos caixotes.
José Arcádio, o mais velho dos meninos, havia feito catorze anos. Tinha a cabeça quadrada, os cabelos espessos e emaranhados e a personalidade voluntariosa do pai. Embora tivesse o mesmo impulso de crescimento e solidez, já naquele tempo era evidente que carecia de imaginação. Foi concebido e dado à luz durante a penosa travessia da serra, antes da fundação de Macondo, e seus pais deram graças aos céus ao comprovar que não tinha nenhum órgão de animal. Aureliano, o primeiro ser humano que nascera em Macondo, ia completar seis anos em março. Era silencioso e retraído. Tinha chorado no ventre de sua mãe e nasceu com os olhos abertos. Enquanto cortavam seu umbigo movia a cabeça de um lado a outro reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que chegavam perto para conhecê-lo, manteve a atenção concentrada no teto de sapé, que parecia a ponto de desmoronar debaixo da tremenda pressão da chuva. Úrsula não tornou a se lembrar da intensidade daqueles olhares até o dia em que o pequeno Aureliano, na idade de três anos, entrou na cozinha no momento em que ela retirava do fogão e punha na mesa uma panela de barro com caldo fervendo. O menino, perplexo na porta, disse: “Vai cair.” A panela estava bem posta no centro da mesa, mas assim que o menino deu o anúncio, começou um movimento irremediável rumo à borda, como impulsionada por um dinamismo interior, e se espatifou no chão. Úrsula, alarmada, contou o episódio ao marido, que o interpretou como sendo um fenômeno natural. Assim foi sempre, alheio à existência de seus filhos, em parte porque considerava a infância um período de insuficiência mental, em parte porque estava sempre absorto demais em suas próprias especulações quiméricas.
Mas desde a tarde em que chamou os meninos para ajudá-lo a desempacotar as coisas do laboratório, dedicou a eles suas melhores horas. No quartinho afastado, cujas paredes foram se enchendo pouco a pouco de mapas inverossímeis e gráficos fabulosos, ensinou-os a ler e a escrever e a fazer contas, e falou a eles das maravilhas do mundo não apenas até onde iam seus conhecimentos, mas forçando a extremos incríveis os limites de sua imaginação. Foi assim que os meninos acabaram aprendendo que no extremo meridional da África havia homens tão inteligentes e pacíficos que sua única distração era sentar e pensar, e que era possível atravessar a pé o mar Egeu saltando de ilha em ilha até o porto de Salônica. Aquelas sessões alucinantes ficaram de tal modo impressas na memória dos meninos que, muitos anos mais tarde, um segundo antes que o oficial dos exércitos regulares desse a ordem de fogo ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía tornou a viver a tarde morna de março em que seu pai interrompeu a lição de física e ficou fascinado, com a mão no ar e os olhos imóveis, ouvindo à distância os pífanos e tambores e pandeiros dos ciganos que uma vez mais chegavam à aldeia, apregoando o último e assombroso descobrimento dos sábios de Mênfis.
Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que só conheciam a própria língua, exemplares formosos de pele oleosa e mãos inteligentes, cujas danças e músicas semearam nas ruas um pânico de alvoroçada alegria, com seus papagaios pintados de todas as cores que recitavam romanças, e a galinha que punha uma centena de ovos de ouro ao som da pandeireta, e o mico amestrado que adivinhava o pensamento, e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más lembranças, e o emplastro para enganar o tempo, e um milhar de invenções a mais, tão engenhosas e insólitas que José Arcádio Buendía bem que gostaria de inventar a máquina da memória para poder se lembrar de todas elas. Num instante transformaram a aldeia. Os habitantes de Macondo se encontraram de repente perdidos em suas próprias ruas, aturdidos pela feira multitudinária.
Levando um menino em cada mão para não perdê-los no tumulto, tropeçando com saltimbancos de dentes encouraçados de ouro e malabaristas de seis braços, sufocado pelo confuso bafo de esterco e sândalo que a multidão exalava, José Arcádio Buendía andava feito louco buscando Melquíades em todas as partes, para que lhe revelasse os infinitos segredos daquele pesadelo fabuloso. Dirigiu-se a vários ciganos que não entenderam sua língua. Finalmente chegou até o lugar onde Melquíades costumava plantar sua tenda, e encontrou um armênio taciturno que anunciava em castelhano um xarope para se tornar invisível. Havia tomado de um golpe só uma taça da substância ambarina, quando José Arcádio Buendía abriu caminho aos empurrões entre o grupo absorto que presenciava o espetáculo e conseguiu fazer a pergunta. O cigano envolveu-o no clima atônito de seu olhar, antes de se transformar num charco de alcatrão pestilento e fumegante sobre o qual ficou flutuando a ressonância de sua resposta: “Melquíades morreu.” Aturdido pela notícia, José Arcádio Buendía permaneceu imóvel, tratando de superar a aflição, até que o grupo se dispersou convocado por outros artifícios e o charco do armênio taciturno se evaporou por completo. Mais tarde, outros ciganos confirmaram que de fato Melquíades havia sucumbido às febres nas dunas de Singapura, e que seu corpo havia sido arrojado no lugar mais profundo do mar de Java. Os meninos não se interessaram pela notícia. Estavam obstinados em que seu pai os levasse para conhecer a portentosa novidade dos sábios de Mênfis, anunciada na entrada de uma tenda que, pelo que diziam, tinha pertencido ao rei Salomão. Tanto insistiram, que José Arcádio Buendía pagou os trinta pesos e os conduziu até o centro da tenda, onde havia um gigante de torso peludo e cabeça raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de ferro no tornozelo, custodiando um cofre de pirata. Ao ser destapado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro só havia um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais a claridade do crepúsculo se despedaçava em estrelas coloridas. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcádio Buendía atreveu-se a murmurar:
É o maior diamante do mundo.
Não — corrigiu o cigano. — É gelo.
José Arcádio Buendía, sem entender, estendeu a mão até o bloco de gelo, mas o gigante não deixou. “Para tocar, são mais cinco pesos”, disse. José Arcádio Buendía pagou, e então pôs a mão sobre o gelo, e a manteve por vários minutos, enquanto seu coração se inchava de temor e de júbilo graças ao contato com o mistério. Sem saber o que dizer, pagou mais dez pesos para que seus filhos vivessem a prodigiosa experiência. O pequeno José Arcádio se negou a tocar. Aureliano, porém, deu um passo adiante, pôs a mão e a retirou no ato. “Está fervendo”, exclamou assustado. Mas seu pai não prestou atenção. Embriagado pela evidência do prodígio, naquele momento esqueceu a frustração de seus empreendimentos delirantes e o corpo de Melquíades abandonado ao apetite das lulas. Pagou mais cinco pesos e, com a mão no bloco de gelo, como que prestando um depoimento e jurando sobre o texto sagrado, exclamou:
Este é o grande invento do nosso tempo.

Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão

16/12/2024

Macondo


Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídas na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo. Todos os anos, lá pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava sua tenda perto da aldeia e com um grande alvoroço de apitos e tímbalos mostrava as novas invenções. Primeiro levaram o ímã. Um cigano corpulento, de barba indomada e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública do que ele mesmo chamava de oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos e todo mundo se espantou ao ver que os caldeirões, as caçarolas, os alicates e os fogareiros caíam de onde estavam, e as madeiras rangiam por causa do desespero dos pregos e parafusos tentando se soltar, e até mesmo os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. “As coisas têm vida própria” — apregoava o cigano com sotaque áspero —, “é só questão de despertar suas almas.” José Arcádio Buendía, cuja desaforada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e muito além do milagre e da magia, pensou que era possível servir-se daquela invenção inútil para desentranhar ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, avisou: “Para isso, não serve.” Mas naquele tempo José Arcádio Buendía não acreditava na honradez dos ciganos, e trocou sua mula e uma partida de bodes pelos dois lingotes imantados. Úrsula Iguarán, sua mulher, que contava com aqueles animais para espichar o minguado patrimônio doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. “Dentro de muito pouco haverá ouro de sobra para ladrilhar esta casa”, replicou seu marido. Durante vários meses se empenhou em demonstrar o acerto de suas conjecturas. Explorou a região palmo a palmo, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o sortilégio de Melquíades. A única coisa que conseguiu foi desenterrar uma armadura do século XV com todas as suas partes soldadas por uma casca de ferrugem, cujo interior tinha a ressonância oca de uma enorme cabaça cheia de pedras. Quando José Arcádio Buendía e os quatro homens de sua expedição conseguiram desmontar a armadura, encontraram dentro dela um esqueleto calcificado que levava dependurado no pescoço um relicário de cobre com um cacho de cabelo de mulher.
Em março os ciganos voltaram. Dessa vez traziam uma luneta e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram como sendo o último descobrimento dos judeus de Amsterdã. Sentaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram a luneta na tenda. A troco de cinco pesos, as pessoas chegavam até a luneta e viam a cigana ao alcance da mão. “A ciência eliminou as distâncias”, apregoava Melquíades. “Daqui a pouco, o homem vai poder ver o que acontece em qualquer lugar da terra sem sair de casa.” Num meio-dia ardente fizeram uma assombrosa demonstração com a lupa gigantesca: juntaram um montão de capim seco no meio da rua e puseram fogo por meio da concentração dos raios solares. José Arcádio Buendía, que ainda não tinha acabado de se consolar do fracasso de seus ímãs, concebeu a ideia de utilizar aquele invento como uma arma de guerra. Melquíades, outra vez, tratou de dissuadi-lo. Mas acabou aceitando os dois lingotes imantados e três peças de dinheiro colonial a troco da lupa. Úrsula chorou de consternação. Aquele dinheiro fazia parte de um cofre de moedas de ouro que seu pai tinha acumulado ao longo de uma vida inteira de privações e que ela havia enterrado debaixo da cama à espera de uma boa ocasião para investi-las. José Arcádio Buendía, entregue por inteiro às suas experiências táticas com a abnegação de um cientista e até mesmo pondo em risco a própria vida, nem tentou consolá-la. Tratando de demonstrar os efeitos da lupa sobre a tropa inimiga, ele se expôs à concentração de raios solares e sofreu queimaduras que se transformaram em úlceras e demoraram muito a curar. Enfrentando os protestos de sua mulher, alarmada por tão perigosa inventiva, quase incendiou a casa. Passava longas horas em seu quarto, fazendo cálculos sobre as possibilidades estratégicas de sua arma inovadora, até que conseguiu elaborar um manual de uma assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresistível. Despachou-o para as autoridades acompanhado de numerosos depoimentos sobre suas experiências e de vários maços de desenhos explicativos, aos cuidados de um mensageiro que atravessou a serra, se extraviou em pântanos desmesurados, subiu rios tormentosos e esteve a ponto de perecer debaixo do açoite das feras, do desespero e da peste, até conseguir um atalho para encontrar as mulas do correio. Apesar de, naquele tempo, a viagem até a capital ser pouco menos que impossível, José Arcádio Buendía prometia tentar chegar lá assim que recebesse ordens do governo, com o objetivo de fazer demonstrações práticas de seu invento diante dos poderes militares e adestrá-los pessoalmente nas complicadas artes da guerra solar. Durante vários anos esperou pela resposta. No fim, cansado de esperar, lamentou-se com Melquíades do fracasso de sua iniciativa, e o cigano deu então uma prova convincente de honradez: devolveu a ele os dois dobrões em troca da lupa, e além disso deixou uns mapas portugueses e vários instrumentos de navegação. De próprio punho e letra escreveu uma apertada síntese dos estudos do monge Hermann, que deixou à sua disposição para que pudesse tirar bom proveito do astrolábio, da bússola e do sextante. José Arcádio Buendía passou os longos meses de chuva trancado num quartinho que construiu nos fundos da casa para que ninguém perturbasse suas experiências. Tendo abandonado completamente as obrigações domésticas, passou noites inteiras no quintal vigiando os astros e quase contraiu uma insolação por tentar estabelecer o método exato para achar o meio-dia. Quando se tornou perito no uso e manejo de seus instrumentos, chegou a uma noção do espaço que permitiu a ele navegar por mares incógnitos, visitar territórios desabitados e travar relações com seres esplêndidos, sem a necessidade de abandonar seu gabinete. Foi nessa época que adquiriu o hábito de falar sozinho, zanzando pela casa sem se importar com ninguém, enquanto Úrsula e as crianças se arrebentavam de trabalhar na horta cuidando da banana e da batata-doce, do aipim e do inhame, da abóbora e da berinjela. De repente, sem nenhum aviso, sua atividade febril se interrompeu e foi substituída por uma espécie de fascinação. Passou vários dias feito um enfeitiçado, repetindo para si mesmo em voz baixa uma fieira de assombrosas conjecturas, sem dar crédito ao próprio entendimento. Finalmente, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de um golpe só toda a carga de seu tormento. As crianças haveriam de recordar pelo resto de sua vida a augusta solenidade com que seu pai sentou-se à cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela ferida aberta de sua imaginação, e revelou a elas sua descoberta:
A terra é redonda feito uma laranja.
Úrsula perdeu a paciência. “Se é para ficar louco, pois que fique você, sozinho”, gritou. “Não trate de pregar nas crianças suas ideias de cigano.” José Arcádio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher, que numa explosão de cólera estraçalhou o astrolábio no chão. Construiu outro, reuniu no quartinho os homens da aldeia e demonstrou a eles, com teorias que para todos eram incompreensíveis, a possibilidade de regressar ao ponto de partida navegando sempre rumo ao Oriente. A aldeia inteira estava convencida de que José Arcádio Buendía havia perdido o juízo, quando Melquíades chegou para pôr as coisas em ordem. Ele exaltou em público a inteligência daquele homem que através da pura especulação astronômica havia construído uma teoria já comprovada na prática, embora até então desconhecida em Macondo, e como prova de sua admiração deu a ele um presente que haveria de exercer uma influência decisiva no futuro da aldeia: um laboratório de alquimia.
Naquela altura, Melquíades tinha envelhecido com uma rapidez assombrosa. Em suas primeiras viagens parecia ter a mesma idade de José Arcádio Buendía. Mas, enquanto José Arcádio conservava sua força descomunal, que lhe permitia derrubar um cavalo agarrando-o pelas orelhas, o cigano parecia arruinado por um mal tenaz. Era, na verdade, o resultado de múltiplas e raras doenças contraídas em suas incontáveis viagens ao redor do mundo. Segundo ele mesmo contou a José Arcádio Buendía enquanto o ajudava a montar o laboratório, a morte o seguia por todos os lugares, pisando seus calcanhares, mas sem se decidir a dar o golpe final. Era um fugitivo de todas as pragas e catástrofes que haviam flagelado o gênero humano. Sobrevivera à pelagra na Pérsia, ao escorbuto no arquipélago da Malásia, à lepra em Alexandria, ao beribéri no Japão, à peste bubônica em Madagascar, ao terremoto da Sicília e a um naufrágio multitudinário no estreito de Magalhães. Aquele ser prodigioso, que dizia possuir o código de Nostradamus, era um ser lúgubre, envolto numa aura triste, com um olhar asiático que parecia conhecer o outro lado das coisas. Usava um chapéu grande e preto, como as asas esticadas de um corvo, e um colete de veludo patinado pelo limo dos séculos. Mas apesar de sua imensa sabedoria e de sua aura misteriosa, tinha um peso humano, uma condição terrestre que o mantinha enredado nos minúsculos problemas da vida cotidiana. Queixava-se de achaques de velho, sofria pelos mais insignificantes percalços econômicos e havia deixado de rir fazia muito tempo, porque o escorbuto tinha arrancado seus dentes. No sufocante meio-dia em que revelou seus segredos, José Arcádio Buendía teve a certeza de que aquele era o princípio de uma grande amizade. As crianças se assombraram com seus relatos fantásticos. Aureliano, que não tinha mais que cinco anos, haveria de recordá-lo pelo resto da vida do jeito que o viu naquela tarde, sentado contra a claridade metálica e reverberante da janela, alumbrando com sua profunda voz de órgão os territórios mais escuros da imaginação, enquanto deixava jorrar pela sua fronte a gordura derretida pelo calor. José Arcádio, seu irmão mais velho, haveria de transmitir aquela imagem maravilhosa, como uma recordação hereditária, a toda a sua descendência. Úrsula, porém, conservou uma lembrança desagradável daquela visita, porque entrou no quarto no momento em que Melquíades quebrou por distração um frasco de bicloreto de mercúrio.
É o cheiro do demônio — disse ela.
De jeito nenhum — corrigiu Melquíades. — Está comprovado que o demônio tem propriedades sulfúricas, e isto aqui não passa de um pouco de sublimado corrosivo.
Sempre didático, fez uma sábia exposição sobre as virtudes diabólicas do sulfeto de mercúrio, mas Úrsula não lhe deu importância: levou as crianças para rezar. Aquele cheiro forte de aguarrás ficaria para sempre em sua memória, vinculado à lembrança de Melquíades.
O laboratório rudimentar — sem contar uma profusão de caçarolas, funis, retortas, filtros e coadores — era composto por uma tubulação primitiva, uma proveta de cristal de gargalo comprido e estreito, imitação do ovo filosofal, e um destilador construído pelos próprios ciganos de acordo com as descrições modernas do alambique de três braços de Maria, a Judia. Além dessas coisas, Melquíades deixou amostras dos sete metais correspondentes aos sete planetas, as fórmulas de Moisés e de Zósimo para a duplicação do ouro, e uma série de anotações de desenhos sobre os processos do Grande Magistério, que permitiam a quem soubesse interpretá-los tentar a fabricação da pedra filosofal. Seduzido pela simplicidade das fórmulas para duplicar o ouro, José Arcádio Buendía cortejou Úrsula durante várias semanas, para que o deixasse desenterrar suas moedas coloniais e multiplicá-las tantas vezes quanto fosse possível subdividir o azougue. Úrsula cedeu, como sempre, diante da inquebrantável obstinação do marido. Então José Arcádio Buendía jogou trinta dobrões numa caçarola e os fundiu com raspa de cobre, sulfato de arsênico, enxofre e chumbo. Pôs tudo para ferver em fogo forte num caldeirão de óleo de rícino até obter um xarope espesso e pestilento mais parecido com uma calda banal do que com o ouro magnífico. Em temerários e desesperados processos de destilação, fundida com os sete metais planetários, trabalhada com o mercúrio impenetrável e com o vitríolo do Chipre, e cozida de novo em banha de porco na falta de óleo de nabo, a preciosa herança de Úrsula ficou reduzida a um torresmo carbonizado que não se soltou do fundo do caldeiro.
Quando os ciganos voltaram, Úrsula havia predisposto contra eles a população inteira. Mas a curiosidade foi mais forte que o temor, porque daquela vez os ciganos percorreram a aldeia fazendo um ruído ensurdecedor com tudo que é tipo de instrumento musical, enquanto o pregoeiro anunciava a exibição do mais fabuloso achado dos antigos de Nacianço. E todo mundo foi até a tenda, e mediante o pagamento de um centavo todos viram um Melquíades juvenil, reposto, desenrugado, com uma dentadura nova e radiante. Quem recordava suas gengivas destruídas pelo escorbuto, suas faces flácidas e seus lábios murchos, estremeceu de pavor diante daquela prova determinante dos poderes sobrenaturais do cigano. O pavor se converteu em pânico quando Melquíades tirou os dentes, intactos, engastados nas gengivas, e mostrou-os ao público por um instante — um instante fugaz em que voltou a ser o mesmo homem decrépito dos anos anteriores — e colocou-os outra vez e sorriu de novo com um domínio pleno da juventude restaurada. Até mesmo o próprio José Arcádio Buendía considerou que os conhecimentos de Melquíades haviam chegado a extremos intoleráveis, mas deixou-se levar por um saudável alvoroço quando o cigano explicou a ele, a sós, o mecanismo da dentadura postiça. Aquilo pareceu-lhe ao mesmo tempo tão simples e prodigioso, que da noite para o dia perdeu todo interesse nas investigações de alquimia; sofreu uma nova crise de mau humor, não tornou a comer de forma regular e passava o dia dando voltas pela casa. “No mundo estão acontecendo coisas incríveis”, dizia a Úrsula. “Ali mesmo, do lado de lá do rio, existe tudo que é tipo de aparelho mágico, enquanto nós continuamos vivendo feito burros.” Quem o conhecia desde os tempos da fundação de Macondo se assombrou com o quanto ele havia mudado debaixo da influência de Melquíades.
No começo, José Arcádio Buendía era uma espécie de patriarca juvenil, que dava instruções para o plantio e conselhos para criar filhos e animais e colaborava com todos, inclusive no trabalho físico, para os avanços da comunidade. E como sua casa foi desde o primeiro momento a melhor da aldeia, as outras foram arrumadas à sua imagem e semelhança. Tinha uma salinha ampla e bem iluminada, uma sala de jantar na forma de terraço com flores de cores alegres, dois dormitórios, um quintal com uma castanheira gigantesca, um jardim bem plantado, com horta e pomar, e um curral onde viviam em comunidade pacífica os bodes, os porcos e as galinhas. Os únicos animais proibidos não só na casa, mas na aldeia inteira, eram os galos de briga.
A diligência de Úrsula andava passo a passo com a de seu marido. Ativa, miúda, severa, aquela mulher de nervos inquebrantáveis, e que em nenhum momento de sua vida alguém ouviu cantar, parecia estar em todas as partes do amanhecer até alta noite, sempre perseguida pelo suave sussurro de suas anáguas rendadas. Graças a ela, os chãos de terra batida, os muros de barro sem caiar, os rústicos móveis de madeira construídos por eles mesmos estavam sempre limpos, e as velhas arcas onde era guardada a roupa exalavam um perfume morno de alfavaca.
José Arcádio Buendía, que era o homem mais empreendedor que a aldeia conheceu e jamais veria outro igual, havia disposto de tal modo a posição das casas que de todas elas era possível chegar ao rio e abastecer-se de água com o mesmo esforço, e traçou as ruas com tanta sabedoria que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. Em poucos anos, Macondo foi a aldeia mais arrumada e laboriosa que qualquer outra que seus 300 habitantes tivessem conhecido. Era de verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém tinha morrido.

Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão

09/07/2022

Cem anos de solidão


Gabriel García Márquez, o escritor da moda, é o autor do bestseller Cem anos de solidão. É dos poucos bestsellers que têm valor literário grande. O romance é uma história de família, cheia de amor, violência e loucura. García Márquez só lida com fatos. E seus personagens são tão solitários, apesar da vida em comum de muitos, que García Márquez não lhes descreveu os pensamentos: o próprio autor sentiu a solidão intransponível de “toda essa estirpe de loucos, poetas, revolucionários, bandidos, belas mulheres, dentro de um ritmo de ação sem tréguas, com poesia, humor, grandeza e magia verbal”. A poetisa Eliane Zagury é quem fez uma magnífica tradução (não se sente por trás do português nenhuma língua estrangeira). Inclusive correspondeu-se com García Márquez, enquanto traduzia seu livro. É um livro que espanta a todo instante: é feito de 366 páginas de inesperados. Os desenhos, muito bons, foram feitos por Carybé para a Editora Sabiá.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

31/07/2015

Ideias de cigano


José Arcadio Buendía nem sequer tentou consolá-la, entregue que estava por inteiro às suas experiências táticas, com a abnegação de um cientista e até mesmo com o risco da própria vida. Tentando demonstrar os efeitos da lupa na tropa inimiga, ele mesmo se expôs à concentração dos raios solares e sofreu queimaduras que se transformaram em úlceras e demoraram muito tempo para sarar. Diante dos protestos da mulher, alarmada por tão perigosa inventiva, por pouco não incendiou a casa. Passava longas horas no quarto, fazendo os cálculos das possibilidades estratégicas da nova arma, até que conseguiu compor um manual de uma assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresistível.
Enviou-o às autoridades, acompanhado de numerosos testemunhos sobre as suas experiências e de vários apêndices de desenhos explicativos, aos cuidados de um mensageiro que atravessou a serra, extraviou-se em pântanos desmesurados, subiu rios tormentosos e esteve a ponto de perecer sob o ataque das feras, o desespero e a peste, até encontrar um caminho que o levasse às mulas do correio. Embora a viagem à capital fosse naquele tempo quase impossível, José Arcadio Buendía prometia tentá-la logo que o governo ordenasse, com o fim de fazer demonstrações práticas do seu invento diante dos poderes militares, e adestrá-los pessoalmente nas complicadas artes da guerra solar. Durante vários anos esperou a resposta. Por fim, cansado de esperar, lamentou-se diante de Melquíades do fracasso da sua iniciativa e o cigano, então, deu uma prova convincente de honradez: devolveu-lhe os dobrões em troca da lupa e deixou, para ele, além disso, uns mapas portugueses e vários instrumentos de navegação. De seu próprio punho e letra escreveu uma apertada síntese dos estudos do monge Hermann, que deixou à sua disposição para que pudesse se servir do astrolábio, da bússola e do sextante. José Arcadio Buendía passou os longos meses de chuva fechado num quartinho que construíra no fundo da casa, para que ninguém perturbasse as suas experiências. Tendo abandonado completamente as obrigações domésticas, permaneceu noites inteiras no quintal, vigiando o movimento dos astros, e quase sofreu uma insolação, por tentar estabelecer um método exato para determinar o meio-dia. Quando se tornou perito no uso e manejo dos seus instrumentos, passou a ter uma noção do espaço que lhe permitiu navegar por mares incógnitos, visitar territórios desabitados e travar relações com seres esplêndidos, sem necessidade de abandonar o seu gabinete. Foi por essa ocasião que adquiriu o hábito de falar sozinho, passeando pela casa sem se incomodar com ninguém, enquanto Úrsula e as crianças suavam em bicas na horta cuidando da banana e da taioba, do aipim e do inhame, do cará e da berinjela. De repente, sem anúncio prévio, a sua atividade febril se interrompeu e foi substituída por uma espécie de fascinação. Esteve vários dias como que enfeitiçado, repetindo para si mesmo em voz baixa um rosário de assombrosas conjeturas, sem dar crédito ao próprio entendimento. Por fim, numa terça-feira de dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta:
- A terra é redonda como uma laranja.
Úrsula perdeu a paciência. “Se você pretende ficar louco, fique sozinho”, gritou. “Não tente incutir nas crianças as suas ideias de cigano.” José Arcadio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num impulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo. Construiu outro, reuniu no quartinho os homens do povoado e demonstrou a eles, com teorias que acabaram sendo incompreensíveis para todos, a possibilidade de regressar ao ponto de partida navegando sempre para o Oriente. A aldeia inteira já estava convencida de que José Arcadio Buendía tinha perdido o juízo, quando Melquíades chegou para pôr a coisa em pratos limpos. Ressaltou em público a inteligência daquele homem que, por pura especulação astronômica, construíra uma teoria já comprovada na prática, se bem que desconhecida até então em Macondo, e como uma prova da sua admiração deu-lhe um presente que havia de exercer uma influência decisiva no futuro da aldeia: um laboratório de alquimia.
Gabriel García Márquez, in Cem anos de solidão

08/06/2015

O cigano Melquíades


Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.
Primeiro trouxeram o ímã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. "As coisas têm vida própria", apregoava o cigano com áspero sotaque, "tudo é questão de despertar a sua alma." José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra.
Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: "Para isso não serve." Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos, de modo que trocou o seu jumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes imantados. Úrsula Iguarán, sua mulher, que contava com aqueles animais para aumentar o raquítico patrimônio doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. "Muito em breve vamos ter ouro de sobra para assoalhar a casa", respondeu o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjeturas. Explorou palmo a palmo a região, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de Melquíades. A única coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura do século xv, com todas as suas partes soldadas por uma camada de óxido, cujo interior tinha a ressonância oca de uma enorme cabaça cheia de pedras. Quando José Arcadio Buendía e os quatro homens da sua expedição conseguiram desarticular a armadura, encontraram dentro um esqueleto calcificado que trazia pendurado no pescoço um relicário de cobre com um cacho de cabelo de mulher.
Gabriel Garcia Márquez, in Cem anos de solidão

18/04/2015

Os ciganos voltaram


Em março os ciganos voltaram. Desta vez traziam um óculo de alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exibiram como a última descoberta dos judeus de Amsterdam. Sentaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram o óculo de alcance na entrada da tenda. Mediante o pagamento de cinco reais, o povo se aproximava do óculo e via a cigana ao alcance da mão. "A ciência eliminou as distâncias", apregoava Melquíades. "Dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua casa." Num meio-dia ardente, fizeram uma assombrosa demonstração com a lupa gigantesca: puseram um montão de capim seco na metade da rua e atearam fogo nele pela concentração dos raios solares. José Arcadio Buendía, que ainda não se consolara de todo do fracasso dos seus ímãs, concebeu a ideia de utilizar aquele invento como uma arma de guerra. Melquíades, outra vez, tratou de dissuadi-lo. Mas terminou aceitando os dois lingotes imantados e três peças de dinheiro colonial em troca da lupa. Úrsula chorou de consternação. Aquele dinheiro fazia parte de um cofre de moedas de ouro que seu pai acumulara em toda uma vida de privações e que ela havia enterrado debaixo da cama, à espera de uma boa ocasião para investi-las.
Gabriel Garcia Márquez, in Cem anos de solidão

05/12/2014

Verdades efêmeras

“E que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais destinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.”
Gabriel Garcia Márquez, in Cem anos de solidão

27/12/2012

José Arcadio Buendía


“Já quase pulverizado pela profunda decrepitude da morte, Prudêncio Aguilar vinha duas vezes por dia conversar com ele. Falavam de galos. Prometiam fazer uma criação de animais magníficos, não tanto para desfrutar umas vitórias que no momento já não lhes fariam falta, mas para ter alguma coisa com que se distrair nos tediosos domingos da morte. Era Prudêncio Aguilar quem o limpava, quem lhe dava de comer e quem lhe dava notícias esplêndidas de um desconhecido que se chamava Aureliano e que era coronel de guerra. Quando só, ele se consolava com o sonho dos quartos infinitos. Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remédios na parede do fundo. Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar para outro exatamente igual, e em seguida para outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, até que Prudêncio Aguilar lhe tocava o ombro. Então voltava de quarto em quarto, acordando para trás, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudêncio Aguilar no quarto da realidade. Uma noite, porém, duas semanas depois de o terem levado para a cama, Prudêncio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermediário, e ele ficou ali para sempre, pensando que era o quarto real. Na manhã seguinte, Úrsula lhe levava o café quando viu se aproximar um homem pelo corredor. Era pequeno e atarracado, com um terno de fazenda negra e um chapéu também negro, enorme, enterrado até os olhos taciturnos. ‘Meu Deus’, pensou Úrsula. ‘Eu teria jurado que era Melquíades’. Era Cataure, o irmão de Visitación, que havia abandonado a casa e fugido da peste da insônia, e de quem nunca se tornou a ter notícia. Visitación perguntou-lhe porque tinha voltado, e ele respondeu na sua língua solene:
- Vim ao funeral do rei.
Então entraram no quarto de José Arcadio Buendía, sacudiram-no com toda a força, gritaram-lhe ao ouvido, puseram um espelho diante das fossas nasais, mas não puderam despertá-lo. Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram pela janela que estava caindo uma chuvinha de minúsculas flores amarelas. Caíram por toda a noite sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e cobriram os tetos e taparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam ao relento. Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e eles tiveram que abrir caminho com pás e ancinhos para que o enterro pudesse passar.”
Gabriel Garcia Márquez , in Cem Anos de Solidão