03/09/2026
1639 – Lima
Martín de Porres
Tocam fúnebres os sinos das igrejas
de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín
de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio
com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e
Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma
caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a
sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um
lugarzinho lá no Céu.
Martín de Porres tinha nascido de uma
escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar
espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim
para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são
iguais perante Deus.
Aos quinze anos, Martín foi doado ao
convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e
milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando
com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a
enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do
convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de
alecrim.
Quando soube que o convento sofria
penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:
– Ave Maria.
– Gratia plena.
– Que o senhor venda este mulato
cachorro – ofereceu-se.
Deitava em sua cama os mendigos
ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava
branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu
rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino
meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas
com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os
anjos o acompanhavam ao côro levando luzes nas mãos. Sem sair de
Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas,
China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus.
Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó
de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo
roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as
feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios
com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem
autorização.
Depois das matinas se despia e
açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi
amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue
gritava:
– Vil mulato cachorro! Até quando
vai durar tua vida pecadora?
Com olhos de súplica, lacrimejantes,
sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele
escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Sopra a falsa tempestade
A
Arlinda, Hilda, Lucivone e Márcia
Sopra
a falsa tempestade do ventilador e põe o quarto em movimento
Um
piano circulando pássaro cego atravessando paredes
Nuvem
pensamento flor
Tudo
tão rápido, múltiplos momentos
Pelo
espaço as pernas trôpegas gozam sem sossego
Como
morcegos sem asas
Pelo
firmamento voam as casas
É o
amor
Ele
carrega elefantes para adormecer na cama
É o
amor pendurando crocodilos nos armários
E
apenas ele faz possível esse improviso do provável
Instante
imaginário entre ciganas atrizes
Ilusória
flor, ilusória ilha, ilusório voo dos dedos tateando cicatrizes
Ardente
pedra onde exploram salamandras o sal e o fogo imaginários
É o
amor como planta extraindo clorofila das desertas paredes
mineralizadas
E
sempre o piano atravessando circunstâncias, madrugadas
Janelas
sem primaveras
Verões
náufragos em trópicas piscinas de soda limonada
Nada
consola tua ausência, é o amor
(Ai
quem dera fossem as guerras)
Em
desalinho costuram o destino estrelas aquarianas
E a
persistência das ervas vai fabricando musgo verde cobrindo pedras,
cinzas e alguns sobreviventes
Meu
coração batido pelos ventos ladra exilado ao plenilúnio do quarto
É
quase um cão
Não
mordeu, não lambeu, nem roeu seu derradeiro osso
Assiste
em vão a própria missa numa tempestade de sarnas
Ultrapassa
fronteiras sem fronteiras onde jamais se ouve o próprio ladrar das
almas
O
último ensaio tão previsível nos astros
Erro
meu próprio salto, caio do trapézio
Nenhum
beijo no espelho e nenhum beijo na sépia do retrato.
José Carlos Capinan, em Cancioneiro geral
Diário de Bernardo Soares
127.
Não me indigno, porque a indignação
é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os
nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não
sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou
fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas
queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha
ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para
que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse
afastar da alma de todos os que me cercam, E tomar o sonho por real,
viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa da minha
sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho
defeitos.
Nem com pintar esse vidro de sombras
coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro
lado.
Ditosos os fazedores de sistemas
pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como
também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.
Eu não me queixo pelo mundo. Não
protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me,
mas não sei se o que há de mal é o sofrimento nem sei se é humano
sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?
Eu sofro, não sei se merecidamente.
(Corça perseguida.)
Eu não sou pessimista, sou triste.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Capítulo 93 – O Jantar
Que suplício que foi o jantar!
Felizmente, Sabina fez-me sentar ao pé da filha do Damasceno, uma
Dona Eulália, ou mais familiarmente Nhá-loló, moça bem graciosa,
um tanto acanhada a princípio, mas só a princípio. Faltava-lhe
elegância, mas compensava-a com os olhos, que eram soberbos e só
tinham o defeito de se não arrancarem de mim, exceto quando desciam
ao prato; mas Nhã-loló comia tão pouco, que quase não olhava para
o prato. De noite cantou; a voz era como dizia o pai, “muito
mimosa”. Não obstante, esquivei-me. Sabina veio até à porta, e
perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
– Assim, assim.
– Muito simpática, não é? acudiu
ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que coração! é uma
pérola. Bem boa noiva para você.
– Não gosto de pérolas.
– Casmurro! Para quando é que você
se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu
rico, quer você queira quer não, há de casar com Nhá-loló.
E dizia isto a bater-me na face com os
dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo intimativa e resoluta.
Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei um pouco
desconsolado com a ideia, mas uma voz misteriosa chamava-me à casa
do Lobo Neves; disse adeus a Sabina e às suas ameaças.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
02/09/2026
Duas tábuas e uma paixão
Cenário
Apartamento velho, construído há
mais de trinta anos. O cenário deve ser construído apenas em sua
estrutura básica, isto é, vazado, de modo que se veja em conjunto
alguns dos cômodos – sala, parte do banheiro – necessários à
ação. O apartamento tem ar de abandonado – ar que perde no
decorrer da ação – mas não há muito tempo. Posse familiar, de
certa forma invendável – pois o prédio está num processo de
afundamento lentíssimo mas talvez inexorável – ficou disponível
para qualquer membro da família que o quiser, precariamente,
habitar. Rachaduras nas paredes, onde houver paredes visíveis.
Importante: em frente, a porta que dá para o corredor externo é de
vidro grosso, por onde se vê a sombra de pessoas que se aproximam.
Mas não mais que isso! Muitos móveis esparsos e muitas estantes
vazias – há intelectuais na família! Uma bela escrivaninha, peça,
hoje, de antiquário. Essa escrivaninha está em posição diferente
em cada cena. No início da peça, no fim do primeiro ato e no fim do
segundo ato, está mais ou menos na mesma posição, no centro da
cena.
À direita, no proscênio, outra parte
da casa, indefinível. E uma simples parede, mais alta, com janela
permanentemente fechada, como se desse para um pátio interno.
Andaimes de ferro, remontáveis. Até certo ponto da ação há uma
lâmpada nua pendente do teto, no centro da sala, esperando
luminária. Deve estar um pouco abaixo da altura de uma pessoa
normal. Depois de uma certa cena, mais alta.
Há 15 cenas nesta história. Entre
cada uma delas acontecem no cenário pequenas – ou grandes –
alterações. Coisas que são retiradas, coisas que são
acrescentadas ou mudadas de lugar. Pois há uma reforma em andamento
e se sente o progresso do trabalho através dessas alterações.
Assim, um móvel que estava já não está. Um que não havia antes,
aparece. Uma estante vazia já está com livros. Coisas são
rearrumadas. Uma parede branca já ficou azul, ou vice-versa. As
mudanças maiores ou menores devem ser feitas de acordo com o tempo
decorrido entre uma cena e outra, conforme indicado.
Millôr Fernandes, em Duas tábuas e uma paixão
Eles voltavam para suas casas
Eles voltavam para suas casas e
contavam às suas esposas,
que nunca antes em suas vidas
haviam conhecido uma garota como eu,
Mas… Eles voltavam para suas casas.
Eles elogiavam a limpeza da minha casa,
eu não dizia nenhuma palavra que não fosse a certa
e mantinha meu ar de mistério,
Mas… Eles voltavam para suas casas.
As bocas de todos os homens me enalteciam,
eles gostavam do meu sorriso, da minha sagacidade, dos meus quadris,
passavam uma noite, ou duas ou três.
Mas…
que nunca antes em suas vidas
haviam conhecido uma garota como eu,
Mas… Eles voltavam para suas casas.
Eles elogiavam a limpeza da minha casa,
eu não dizia nenhuma palavra que não fosse a certa
e mantinha meu ar de mistério,
Mas… Eles voltavam para suas casas.
As bocas de todos os homens me enalteciam,
eles gostavam do meu sorriso, da minha sagacidade, dos meus quadris,
passavam uma noite, ou duas ou três.
Mas…
Maya Angelou, em Poesia Completa
O mundo especial do poeta
Carta a uma velha amiga que me disse
ter conhecido um grande poeta, que é meu amigo; e ter sofrido uma
decepção:
“Querida –
Não achou você poético o poeta; e
até se queixa de que, no tempo em que esteve em sua mesa, não lhe
ouviu uma palavra sobre poesia, mas, unicamente, ao sabor da
conversa, comentários sobre sapatos de homem e desastres de
automóvel, quando você gostaria de conversar sobre William
Shakespeare.
É, na verdade, um pouco mortificante.
Nunca falam os poetas de poesia?, me pergunta você. Bem, eles falam.
Cada homem tem costume de falar de seu ofício, e o poeta é um homem
como os outros. Mas acontece que, além de ser um homem como os
outros, e sem deixar de sê-lo, ele tem isso de grave e especial que
é ser um homem a quem tudo concerne e de tudo tira seu mel e seu
fel. Esse menino que passa com um barulhento carrinho feito de
caixotes, a trazer verduras da feira; aqueles operários da
construção, que, depois de almoçar no botequim da esquina com uma
cerveja preta, ficam um pouco sentados na calçada, conversando
à-toa, à espera do sinal para o trabalho; e o próprio carrinho de
tábuas de caixote, e a própria garrafa de cerveja preta – tudo é
matéria do poeta. Não concerne o peixe ao motorista nem a mangueira
ao cirurgião; mas ao poeta tudo concerne, e nesse pedaço de jornal
velho que o vento arrasta pelo chão ele se inspira tão bem quanto
naquela moça que saiu às compras, na manhã fria do bairro, com
calças compridas e um suéter vermelho. Apenas há isto: que a esse
farrapo de jornal ou aos olhos verdes dessa moça, pode acontecer que
tenham de esperar muitos anos para entrar em um verso do poeta, como
podem entrar de repente, atravessando um braço de mar de 1938 ou a
tarde de um agosto antigo. A moça tão linda julga ir onde quer, ao
sabor de sua fantasia; na verdade ela é guiada por um controle
remoto que a faz passar perante o poeta. Este pelo menos assim o crê:
vê gestos de Deus na queda de uma folha ou no salto de um gato.
Quando o poeta fala de sapatos, de
trânsito ou futebol, não está disfarçando: o último jogo do
Flamengo, a corrida dos ônibus depois do túnel e a cor dos sapatos,
tudo se filtra na alma do poeta. Tudo; e com certeza também você,
que ele pode ter incorporado silenciosamente no seu mundo. E quando
amanhã escrever “uma tarde castanha”, se lembrará de seus
cabelos e de sua voz serena.
Não o desame pois, por não ser
poético; isso não é seu ofício: ele é poeta. Adeus.”
Rubem Braga
Rio, 1954/1983
Rubem Braga, em A poesia é necessária
Correnteza
1
Fazia muito tempo que Rita Preta não
recordava o infortúnio que marcou sua vida de maneira definitiva, e
assim continuaria não fosse a chuva repentina que transformava, à
sua frente, o espaço entre a avenida e o meio-fio num pequeno
riacho. Era sempre assim: imagens que despertavam memórias
distantes, boiando e submergindo na corrente das lembranças. A água
arrasta folhas secas, sacolas plásticas, fragmentos de objetos,
papéis e até mesmo pequenos animais. A lembrança então chega
renovada e repleta de detalhes. Ela aperta a bolsa contra a cintura e
ajeita o guarda-chuva para se proteger do aguaceiro que prometia
parar a cidade. Algumas pessoas sobem no banco do abrigo do ônibus
enquanto outras se reúnem debaixo da cobertura de concreto —
cuja área é insuficiente para proteger os que buscam fugir do
dilúvio. Para se resguardar, dois homens se posicionam atrás da
placa lateral de um anúncio de protetor solar. Eles ficam sob o
vidro pontilhado de umidade condensada, resultado do calor que aquece
a atmosfera.
Enquanto as pessoas se aglomeram num
espaço minúsculo para não chegarem encharcadas ao seu destino,
Rita Preta deixa de acenar para dois ou três ônibus em que poderia
subir, com alguma dificuldade, e talvez pudesse chegar sem atraso ao
supermercado onde trabalha. Tudo seguiria seu fluxo natural se
não persistisse uma desconfortável angústia que a deixa paralisada
por um instante. Seus olhos vagam em direção à água que continua
a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da
infância; um véu claro banhado pela luz que atravessava o céu de
um dia nublado. O tempo a desafiar o conhecimento meteorológico dos
moradores do campo sobre as chances de que uma precipitação ocorra.
O rio, caminho sinuoso por onde
percorrem seres e saberes, sonhos e mistérios, como contaram certo
dia os mais velhos. Rita brinca com os irmãos, e se alguém pudesse
contemplá-los de longe, divisaria uma paisagem tranquila. Rita,
menina, risca a terra com um galho seco. Desenha assim a vida: um
barco, o rosto da mãe, a agitação dos irmãos, uma casa, um filho,
depois mais filhos e o mar, aquele mesmo mar que banhava o lugar de
destino de sua mãe, onde as histórias haveriam de começar e
terminar, como a própria vida. As crianças saltam nas águas do rio
como se trotassem um cavalo alado. No outeiro, a casa velha e
Carmelita, que os observa da porta dos fundos em meio à lida. O
reflexo do branco das nuvens cega as duas por um momento. Rita e a
avó; pelo menos a primeira vê a matriarca apertar os olhos para se
certificar de que os netos estão próximos e a seu alcance. Então a
menina entrevê por um instante a silhueta da mulher diminuindo,
sumindo, voltando para casa. Tudo naquele momento parece tão
insignificante, e talvez por isso fosse sentido, mesmo passado tanto
tempo, como a calmaria que costuma anteceder as tormentas. Ela
abandona o galho, entra na água. Remove um cascalho da beira, outro
do leito, e os segura com as mãos, e quando percebe seus ombros já
estão submersos. É aí que seus pés flutuam e os seixos caem,
devolvidos ao rio. Rita sente que precisa se segurar em algo para não
ser levada. A correnteza a arrasta e a cabeça se move para tentar
encontrar os irmãos. Seu corpo cresce e se afasta da margem, e os
pés flutuam, se enroscam em pequenas ilhas de vegetação. A
tranquilidade da paisagem dá lugar à inquietação, e o rumor que
ecoa pelo ar é o do desespero, e também o de uma tromba-d’água.
As águas, as águas daquele instante,
correm para sempre e sem destino.
Um pedaço de lona para nos pés de
Rita Preta, e dentro de alguns minutos a chuva cessará, assim como o
pequeno riacho que se formou próximo ao meio-fio irá se extinguir,
deixando um rastro confuso de detritos. Mas antes que abandone as
imagens e aquele estranho sentimento, velho conhecido, ela volta à
memória do próprio corpo, à memória da dor que se replicou
depois, incessante, enquanto tentava se segurar à terra, aos galhos,
ao mato que flutuava no rio, à vida, para não ser arrastada em
definitivo. Sente então que cresceu durante a batalha travada para
viver, e por isso seus ossos doeram ao longo de todo o ano.
A tempestade dura poucos minutos, mas
o suficiente para que o caos se instaure na cidade. Trânsito
interminável, desabamentos de casas junto às encostas, um homem
desaparecido depois de ser arrastado pelas águas até um bueiro.
Rita precisa chegar ao trabalho antes das dez horas, mas com as ruas
alagadas, os semáforos quebrados e vários carros deixados no meio
do caminho, iria demorar muito mais. Ela não está tão úmida a
ponto de ficar com cheiro de tapete molhado; tinha guardado a
camiseta do uniforme amarelo na bolsa. Voltar para casa está fora de
cogitação; a empresa está se “reestruturando”, seja lá o que
isso signifique, e ela precisa daquele emprego. Na bolsa, o
porta-documento e, por trás de um pequeno quadrado de acrílico,
aquilo que mais importava: as fotografias três por quatro de seus
filhos.
Rita Preta inicia as atividades do dia
no supermercado. Senta-se no caixa, conta as cédulas e moedas que
recebeu do operador do cofre. Outras operadoras de caixa se alinham
numa fila. Depois, encontram seus caixas numerados, sentam-se, contam
o dinheiro guardado nos pequenos malotes que lhes foram entregues.
Faltam seis minutos para o turno das dez. Ela não pensa mais no
temporal de duas horas atrás. Também não remexe na memória para
reviver o dia que mudaria a vida de sua família há quase trinta
anos.
Quando a chuva desabou severa numa
manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas
que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia
que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente
violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter.
Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código
de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta
e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de
paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com
um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida,
mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que
a abala são as promessas não cumpridas, os telefonemas não
atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de
pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada,
viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma
família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que
sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à
casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em
hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e
destituída de interesse.
Às vezes, Rita Preta tenta se
conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um
peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos
anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance.
Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se
seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro,
que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e
depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para
o cafundó de onde ele tinha saído.
Detergente para louça, sacos de
feijão, rolos de papel higiênico, alho triturado e o cheiro da água
sanitária que tinha escorrido para fora da garrafa plástica. Tudo
isso e mais um pouco passa por suas mãos ágeis e faz o dia seguir
ainda mais depressa. Os ruídos mecânicos da esteira de compras, da
impressora de cupom fiscal e do bipe do escaneador não são os mais
desagradáveis de escutar, e, às vezes, mesmo nos dias de folga,
Rita sente falta daquele trabalho repetitivo, que lhe permite pensar
sem que lhe cobrem, por alguns minutos, a falta de concentração.
Naqueles instantes entre o alerta
vermelho para o próximo cliente e o pagamento da compra anterior,
Rita Preta aproveita para inventariar com rigor as razões de sua
exaustão. Quando o faz, é inevitável pensar nos filhos. Reflete
sobre seus caminhos, a maneira como crescem e a atenção que precisa
lhes dispensar para manter a família sob controle.
Cid, o mais velho, é a fonte maior de
sua dor de cabeça. Revelou sem dizer uma palavra que estava
namorando uma jovem — uma menina, assim Rita a definia —, e ela
creditava a isso o desleixo cada vez maior em relação às suas
obrigações com oestudo. Ela recebia recados dos professores
informando sobre as ausências do filho, as notas baixas, as brigas e
o desinteresse por tudo que se relacionava à escola. Aquele
desapreço a deixava furiosa, e não foram poucos os momentos, nos
últimos meses, em que as tensões cresceram no ambiente doméstico,
com gritos — quem grita mais alto? —, bater de portas, e o filho
conduzindo a explosão de sentimentos de um adolescente que está se
tornando homem. Rita está detestando — para não dizer odiando —
ser mãe nessa fase. Sente-se sufocada e tenta encontrar meios de
fazer com que sua autoridade prevaleça. Lança toda a culpa no pai
ausente e grita impropérios aos quatro cantos sem nenhum pudor.
Continua a pedir a colaboração do filho, e atribui a ele a
responsabilidade pela própria vida, pelo bom futuro ou por seu
fracasso.
Não há mal algum em fracassar. Ela
sabe que fracassou muitas vezes.
Em contraponto, Cainho, o segundo, se
movimenta num corpo que vai crescendo desajeitado. Não há
reclamações sobre seu comportamento, mas Rita sente que alguma dor
parece se esconder na vida do filho, sem que ela consiga
compreendê-lo. Sem a companhia de amigos, sem o bulício das
brincadeiras, sem praticar esportes. Somente um livro e outro;
cadernos nos quais escreve quase todos os dias. Quando está furiosa,
ela promete ler. Não considera possível que se escreva tanto, a
ponto de negligenciar as tarefas domésticas. Ela gostaria de saber o
que se passa na cabeça alheia ao tempo e à história, naquela mente
que parece habitar uma dimensão impenetrável.
Juca, o terceiro, povoa a casa — ele
é muitas crianças em uma, na verdade —, e Rita credita aquela
energia impetuosa aos últimos anos da infância. Um rodamoinho de
mudanças que a deixa exausta até mesmo quando imagina. Escapa para
as ruas, escala as lajes para levantar arraias, joga bola por becos e
vielas, atingindo os portões e as grades da vizinhança. Rita escuta
as queixas, discute de maneira acalorada em defesa do filho. Mas
em casa o ameaça, promete não deixá-lo sair, mesmo sabendo que é
impossível crescer saudável confinado num cubículo. Quando as
coisas melhorassem — quem sabe conseguisse ser promovida a
supervisora? —, procuraria um lugar maior, uma comunidade com um
campo ou uma casa com laje coberta, com um valor de aluguel que
coubesse em seu orçamento, onde o filho pudesse brincar. Mas de que
adianta mais espaço, se pergunta, se há muito não confia na
cidade, na vila, na rua, e se mesmo em casa ela já não se sente
mais segura?
Rita Preta observa as mulheres a seu
lado: Nete operando o caixa 6, confusa com as compras que precisa
registrar e empacotar ao mesmo tempo, enquanto a cliente conversa ao
celular. Mais adiante, outra cliente se movimenta com o andador
enquanto a cuidadora segura sua bolsa e vigia seus pés, temendo um
passo em falso. Dois funcionários conversam em Libras e depois se
dispersam para não serem repreendidos pela desatenção.
Rita imagina que todos, assim como
ela, estão entretidos com seus mundos, refletindo sobre assuntos que
precisam ser ou não decididos. Todos imersos numa miríade de
pensamentos que costumam ocupar os dias de seus semelhantes.
Quando Rita abre a porta de casa
naquela madrugada, não imagina que o fará para viver a perda. Um
segundo e ela transpõe as várias portas que atravessou ao longo da
vida. Suas histórias estão reunidas na casa, no corpo dos filhos,
e, sobretudo, nas memórias que carrega consigo. Quando fecha a porta
atrás de si, ela também está fechando as muitas outras portas sem,
no entanto, trancá-las, para que seus fantasmas voltem quando
precisarem: a mãe que se pôs a caminho da cidade e Rita nunca mais
encontrou; a avó que não se despediu da neta que faria uma longa
viagem; as casas de família onde conheceu o mundo do trabalho e da
humilhação, aos doze anos (a mesma idade do filho mais novo); os
homens que entraram e saíram de sua vida deixando marcas difíceis
de esquecer.
Um de seus filhos fechou a mesma porta
horas antes e se pôs a caminho da rua. Sem saber, Rita não se
demora segurando a maçaneta, mas sua mão direita toca o metal
descascado e deixa ali os desenhos difusos de suas digitais. Quando a
mão dessa mãe tocar o metal, as impressões digitais de seus dedos
se misturarão involuntariamente às pequenas marcas da existência
dos filhos e, em especial, das do filho que deixou aquela casa.
No entanto, naquele tempo diminuto, na
superfície fria do metal da maçaneta, os dois estão juntos,
reunidos, despertos, e ainda não estão à procura de alguém.
Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo
01/09/2026
As sirenes tocaram a noite inteira sem parar. Todavia, pior que as sirenes, foi o navio que afundava, enquanto as cabeças das crianças explodiam
Mefítico. O fedor vem dos
cadáveres, do lixo e dos excrementos que se
amontoam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos
Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam designar tais
regiões pelos apelidos populares. Mal sei o que
me pode acontecer. Isolamento, acho.
Tentaram tudo para eliminar
esse cheiro de morte e decomposição que nos
agonia continuamente. Será que tentaram?
Nada conseguiram. Os caminhões, alegremente
pintados de amarelo e verde, despejam
mortos, noite e dia. Sabemos, porque tais coisas
sempre se sabem. É assim.
Não há tempo para cremar todos
os corpos. Empilham e esperam. Os esgotos se abrem ao
ar livre, descarregam, em vagonetes, na vala
seca do rio. O lixo forma setenta e sete colinas que
ondulam, habitadas, todas. E o sol, violento
demais, corrói e apodrece a carne em poucas
horas.
O cheiro infeto dos mortos
se mistura ao dos inseticidas impotentes
e aos formóis. Acre, faz o nariz sangrar em tardes de
inversão atmosférica. Atravessa as máscaras
obrigatórias, resseca a boca, os olhos
lacrimejam, racha a pele. Ao nível do chão, os animais
morrem.
Forma-se uma atmosfera
pestilencial que uma bateria de ventiladores
possantes procura inutilmente
expulsar. Para longe dos limites dos oikoumenê,
palavra que os sociólogos, ociosos, recuperam
da antiguidade, a fim de designar o espaço
exíguo em que vivemos. Vivemos?
Virei-me assustado.
Adelaide nunca tinha dado um grito em trinta e dois anos de
casados. Treze para as oito. Em quatro minutos deveria
estar no ponto, ou perderia o S-7.58, minha condução
autorizada. Estranho, ela sabia. E por que então
resolvia me atrasar ainda mais?
– O que foi?
– O paletó! Esqueceu?
– Não aguento esse paletó.
Passo o dia suando.
– Mas sem ele não te deixam
trabalhar.
– Tomara.
Adelaide me olhou, arisca.
Inquieto, encarei o rosto dela e me perguntei.
Pergunta que não tenho coragem de enfrentar. Se eu
admitir, ela se desvenda. Toma forma, cristaliza,
revela. Será que depois de tantos anos compensa
ver? Reagir agora? E se valesse a pena?
Tomávamos o café da manhã juntos,
todos os dias. Depois ela me acompanhava até a porta.
Eu colocava o chapéu (voltou o seu uso),
acariciava seu ombro esquerdo (nem sei mais se há
prazer nisto) e consultava o relógio.
Ficava angustiado se não estivesse dentro
do horário.
– Olha a neblina, está baixa.
Vai esquentar muito.
Cada dia, a neblina desce. Quando
envolver tudo, vamos suportar? Seis meses atrás, pairava
no espaço como a cúpula de uma catedral
gigantesca. O mormaço rescalda a
cidade, inflama a gente. Às vezes, a neblina some,
fica o fedor que dá ânsias de vômito. A cabeça arde.
– Conseguiu dormir?
– Com as sirenes tocando a
noite inteira?
– Era alarme de roubo?
– Incêndio. Me deixa com os nervos
estourados. A falta de sono até aguento. Mas os
alarmes me perturbam.
– Não chega o calor infernal
durante o dia? Ainda tem incêndio à noite?
– Está tudo ressecado.
– Lembra-se daquele tempo
em que os galões de gasolina estouravam? Os
prédios ardiam sem parar? Havia um depósito em cada
casa, logo depois do nefasto período de Racionamentos
Incríveis.
Trouxe o paletó cinza. Tecido
sintético que impermeabiliza. Não
deixa passar calor, anunciaram. Nada. Igual à
casimira. Me abafa. Vi sobre a mesa os calendários
sendo empilhados, ela estava retirando das
paredes. Puxa! Hoje deve ser 5 de janeiro. O que me
interessa?
Os calendários desta casa
permanecem sempre no primeiro do ano. O
1 vermelho, fraternidade universal.
O vermelho desbota, torna-se rosado ao
fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tirando
o pó das folhinhas, na sala, cozinha, quarto.
Ansiosamente.
O 1 eterno. Não é preciso
marcar o tempo, basta abandoná-lo, ela me disse
uma vez. De que adianta saber que dia é hoje? As horas, sim,
são importantes. O dia é bem dividido. Cada
hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver
de acontecer, é dentro dele.
Agora me dou conta. Não parecia
coisa dela. Mulher quieta, ex-escriturária
de estrada de ferro. Nunca falava. Aceitava as coisas
e só mostrava irritação calando-se e
coçando em baixo dos olhos. O lugar coçado tornava-se
enrugado e os olhos alongavam-se, como os de
uma japonesa.
No começo do ano, recolhia
os calendários, fazia um pacote com
papel-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esqueça
do papel”. Repetiu, trinta e dois anos. Nunca me lembrava,
ela jamais se esquecia. Dizia a frase, irremediavelmente,
ao nos despedirmos, treze para as oito.
A substituição dos
calendários era automática no dia 5 de
janeiro. Pela manhã, Adelaide retirava-os. Nesse
dia, eu não ficava na cidade, voltava na hora do
almoço. Depois de comer, sempre me deitava um
pouco. Mas, agora, o quarto abafado e o suor não me
deixam dormir.
Mesmo assim, fico no quarto. Ao
sair, vejo os novos calendários no lugar. E, sobre a mesa,
o embrulho de papel-pardo. Devo levá-lo ao antigo
quarto de empregada, amontoá-lo junto com
os outros. Ali estão empilhadas pela ordem as folhinhas
dos últimos trinta e dois anos.
Onze mil e setecentos dias
intocados. Empoeirados, amarelados, não
utilizados, conservados. Naquele
cômodo, entro uma vez por ano. Nunca tivemos empregada.
Adelaide sempre fez tudo, dizia ironicamente
que era a sua missão. Só há pouco consegui
contratar uma faxineira semanal.
E isso porque empregados
ganham pouquíssimo. As pessoas trabalham
em troca de um prato de comida, um copo de água por dia. Não
querem dinheiro, só comer e beber. Aí está a grande
dificuldade. Se aceitassem dinheiro,
tudo bem. Mas comida? E que dizer de água então?
Os dias guardados.
Armazenados. Neles, nenhuma marca. Nem sequer rasura. Conjunto,
soma de todos os nossos instantes. Agora sei. Cada
momento era uma antecedência para nós. Uma
espera que se substituía infinitamente.
Vivíamos na ansiedade pela ocasião que haveria
de chegar.
Assim, nossa vida se distendia
como um elástico. Esticava-se ao ponto máximo,
atingindo o estado de tensão, incômoda
inquietação. Quando o dia se
acabava, a esperança nascia outra vez
dentro de nós. Aguardávamos os instantes que fariam
o dia seguinte repleto-vazio.
Instantes despidos daquilo
que faltava. Algo que necessitávamos e
não íamos procurar. Ficávamos na expectativa
de que acontecesse. Havia uma falta. Não somente
dentro do tempo. Porém um vazio real, concreto.
Lancinante. Em cada canto da casa se projetava a sua
sombra. Compacta.
Fomos preenchendo o
apartamento com objetos. Até que ele se
assemelhou a um bazar de artigos únicos,
invendáveis. Cristaleiras cheias de compoteiras,
xícaras, saleiros, copos, taças e licoreiras.
Paredes com quadros, reproduções, flâmulas,
santos, retratos, relógios parados.
Vasos, bibelôs, criados-mudos,
mesinhas de centro, cinzeiros limpos,
estatuetas, imagens, porta-retratos,
toalhinhas de renda, tapetes de barbante,
caixinhas decoradas, vidros vazios, garrafas
cortadas, pesos de papel, abajures, lâmpadas
votivas, cestinhas de costura decoradas.
E calendários. Dois ou três
em cada cômodo, escolhidos por ela. Brindes ganhos
nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igreja.
Folhinhas que nos ensinavam vários costumes
obsoletos. Como a boa época para se plantar e colher.
Ou que previam o bom e o mau tempo.
Depois de guardar os pacotes,
eu vinha olhar, uma a uma, as folhinhas novas. Estampas
coloridas. Moças colhendo café. Laranjais em fila
indiana sobre a colina. Trigais dourados ao sol,
homens com ceifadeiras. Casas à beira de lagos,
incêndios na floresta. Tudo tão antigo.
Índios, onças, gatos na cesta, pai
preto, anjos velando meninos à borda de abismos.
Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas oficinas
mecânicas. Loiras diáfanas, morenas
rechonchudas, sorrindo em tangas mínimas.
Contemplava rapidamente, teria o ano todo para
admirá-las.
– Tem um fio de cabelo branco.
O que é isso, paizinho? Mal fez cinquenta anos.
Seu pai com noventa ainda tem a cabeça preta!
A mãe dela chamava o
marido de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se
tivemos. Pode parecer um absurdo, mas é verdade.
Podem acreditar. Pela minha honra. Tudo se confunde
na minha cabeça, o que foi e o que deveria ser. O que era
realmente e aquilo que eu gostaria que
fosse.
– Souza, sonhei outra vez.
– De novo? O mesmo sonho?
– Mudou um pouco. Não foram as
sirenes que não me deixaram dormir. Foi o sonho.
Tão nítido. Real como aquela noite no porto.
Não. Adelaide, não. Basta! Já temos
o inferno no coração. Há coisas que devem ser
esquecidas. Vamos sepultá-las. É preciso.
Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assunto. Afinal,
para nós, viver sempre foi tão calmo, reconfortante.
Éramos felizes. Ao menos, parecia.
– Souza, foi impressionante.
O navio afundava num mar terrível. Não havia
tempestade alguma, nem vento, só o silêncio.
Sabe o que me congelava? O ruído das lâmpadas
quentes estourando quando tocavam a água
fria. Os cordões de lâmpadas se arrebentavam,
soltando uma fumacinha branca. O mar foi
ficando escuro, escuro, até que a última
lâmpada se apagou. Eu sem enxergar nada, só
ouvindo aquelas explosões. Nem mesmo um gemido.
Elas morreram todas, não morreram, Souza? Você
vai ter de me contar uma hora. Será que não era o barulho
das cabecinhas estourando?
– Não seja louca, Adelaide. Como a
cabeça delas ia estourar?
– Criança tem a cabeça tão
fraquinha.
– É tudo sonho, Adelaide, não tem
nada a ver. Se acalme.
– Não posso sossegar, e
você tembém não, até que eu saiba.
O navio, nossa aflição, estava
esquecido. Imaginei que jamais retornasse. Antes,
mais novos, tínhamos capacidade para suportar.
Adelaide, principalmente. Está cansada,
acho que doente. Desassossegada. Para nós, o tempo não ajudou
a esquecer, ao contrário, alimentou
lembranças.
Quatro para as oito; se não corro,
perco o ônibus. Não fosse esta perna, eu teria uma
bicicleta, como todo mundo. Uma artrose no joelho
me impede de pedalar. Tive de passar por dezenas
de exames, centenas de gabinetes, paguei
gorjetas, conheci todos os pequenos subornos.
Escorreguei fichas de água nas mãos
de funcionários. Fichas que me fizeram falta.
Transferi cotas de alimentos, e esperei até que
saísse a praticamente impossível
autorização para o ônibus. Ganhei a ficha
especial de circulação para o S-7.58. O
desgraçado é pontual, até irrita.
Abro a porta, o bafo quente vem
do corredor. Já estou melado, quando chegar
ao centro estarei em sopa. Como todo mundo. A vizinha
varre o chão, furiosamente. Como se fosse possível
lutar contra a poeira negra, a imundície. Não
fornecem água para lavar as partes comuns.
Vou pela escada. Há muito
desisti desse emperrado elevador
solitário, mambembe. Serve trinta andares,
cento e cinquenta apartamentos. Somente os
velhos e inválidos esperam por esse aparelho
desconjuntado, ameaçador. O corredor
da entrada atulhado de lixo. Uma vergonha.
Lixo que aumenta dia a dia. Não
podemos atirar na rua, e não há onde depositar.
O caminhão carrega o que pode quando passa. Se
passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dilaceram
os sacos, o lixo se esparrama, espalha um fedor
insuportável. Ora, um cheiro a mais.
Nem sei por que pagamos zelador,
ele nunca está, se esquece de ligar o Sônico
Antirratos. Um zelador hoje em dia precisa ser político,
negociar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares
de Segurança, dialogar habilmente com
Fornecedores Oficiais de Água.
A barbearia está abrindo.
Antigamente, havia neste hall lojinhas minúsculas,
bonitas. Existia até um café, com toalhas xadrez, chás e
tortas, sonhos e bolos, sorvetes, água gelada,
refrigerantes e sucos. Fecharam, as vitrines
estão cerradas com placas de plástico
pregadas aos batentes.
Lacrado por placas pregadas
por fora. Assim me sinto. Contando os dias, detalhando meus
passos. Sensação de que me observo em microscópio,
aumentado dezenas de vezes. Quantas vezes não reconheço
este Souza que desliza num líquido viscoso.
Sou, todavia não pode ser eu.
No corredor, somente o
barbeiro resistiu. Sei lá como, ou por quê. Não
entendo. Os velhos descem de vez em quando para uma
barba, um cabelo. Através dos vidros encardidos, mal
se percebe o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz
um sinal, gosta de uma prosinha. Inevitável, indolor.
– Tem água esta semana?
– E eu sei? Pergunte ao
distribuidor.
– É que você tem aquele
sobrinho.
– Não faço a mínima ideia.
– Desorganizaram as entregas,
ou aumentaram os prazos.
Coceira nas mãos. Arde e no lugar
está uma pequena depressão, como se eu tivesse
apertado uma bola de gude por muito tempo. Fiquei
passando o dedo pela depressão, sentindo
cócegas. Será uma picada de inseto? Não senti nada.
Medo. Anda aparecendo cada bicho estranho!
O caminhão descarrega
refrigerantes factícios no bar. Portanto um
mês se passou. Durante as festas o tempo voa. Besteira, o
que me interessa a corrida do tempo? Não existe
nada a fazer com ele. Que importa a velocidade se
já não tenho uso para minha vida. Quem tem?
Ignácio de Loyola Brandão, em Não verás país nenhum
Ainda sem resposta
Não sei mais escrever, perdi o jeito.
Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos
dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas
balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às
vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever,
porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para
mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará
da literatura.
O que é que se tornou importante para
mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que
poderá talvez se manifestar.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Todos temos um pouco
“Foi ali que mataram o filho da
rainha da Inglaterra.”
“Posso tirar uma foto sua?”
“Sim, general.”
Tirei a câmera da pasta e bati uma
foto de dona Romilda.
“O senhor vai ao churrasco que vou
oferecer no fim de semana?”
“Se puder, vou.”
“Quantos bois devo matar? Dois?”
“Vai muita gente?”
“Umas duzentas pessoas.”
“Creio que dois é o suficiente.”
“O senhor está examinando o
problema da minha casa na São Clemente? A casa é minha e eles não
querem sair de lá.”
“Estou vendo. Tenho que ir.”
“Sábado. Na fazenda. Não é nesse,
no outro sábado.”
“Eu irei, dona Romilda.”
Entrei no prédio do meu escritório,
peguei o elevador.
Cristina estava me esperando.
“Copia esta foto, por favor.”
“O senhor está gostando dessa
digital?”
“É boa, pequena, fácil de
carregar. Mas não vou me desfazer da minha Leica do tempo do Onça.
Nem da Pentax.”
“Tem muita coisa na sua agenda”,
disse Cristina, ao sair da minha sala.
Agenda. Coisas pendentes. A agenda
sempre me deixava abatido, como se eu começasse o dia fazendo uma
hemodiálise. Uma maneira de aliviar esse sofrimento era abrir a
gaveta e consultar o meu extrato bancário. Dava um certo alívio ver
meus fundos de investimento aumentando todo mês. O problema é que
eu não sabia o que fazer com aquele dinheiro todo guardado num
banco. Podia comprar imóveis, ações, ouro, mandar o dinheiro para
um paraíso fiscal, mas isso iria criar mais agendas. Não aguentava
outra agenda.
“Quer marcar a reunião com a
Ceteagá? É a única urgente”, Cristina perguntou, pelo interfone.
“Não, vê se eles podem amanhã. Ou
outro dia.”
Eu precisava de umas férias.
Depois do almoço, Cristina entrou na
minha sala.
“A foto está pronta, imprimi na
laser nova. Ficou muito boa. É a dona Romilda, não é?”
“Você a conhece?”
“Ela me alertou outro dia para não
ir ao Wagner. Cuidado, eles fazem tráfico de órgãos lá. Agora
evito que a dona Romilda me veja entrando no Wagner, se ele souber o
que ela anda dizendo vai ficar furioso, o senhor sabe como são os
cabeleireiros. Mas eu gosto da dona Romilda, ela é a única pessoa
bem-humorada que conheço. Sempre que me vê diz, bom dia, princesa.”
“Hoje ela me disse que mataram o
filho da rainha da Inglaterra na frente do banco.”
“Para mim dona Romilda falou que o
príncipe foi morto naquele prédio grande, com grades. Matar o
príncipe na porta do banco não tem muita lógica. Mas o prédio tem
muitos apartamentos, de todos os tamanhos, de quatro quartos, de
dois, conjugados com kitchenette, entra e sai gente a toda hora, você
se perde nos corredores, de tão grande. Um lugar melhor para matar o
filho da rainha da Inglaterra. Posso dar o retrato para ela?”
“Acha uma boa ideia?”
“O retrato ficou tão bom... Quando
fui almoçar, eu a encontrei e lhe disse que o meu chefe tinha tirado
uma foto dela.”
“O que foi que ela disse?”
“Perguntou: uma foto nua?”
“Ela pensa que alguém ia tirar uma
foto dela nua?”
“O senhor talvez fizesse uma foto
dessas.”
“Dona Romilda disse isso?”
“Eu é que estou dizendo. O senhor
gosta tanto de fotografia que isso não me parece impossível. E uma
foto nua dela seria uma maravilha.”
“Mas eu não faço fotos de mulheres
nuas.”
“A dela seria uma beleza. Um bom
começo.”
“Ela iria gritar, quando eu passasse
na rua: o general tirou minha foto nua.”
“Ela não grita nunca. Fala sempre
num tom de voz educado. E além disso, ninguém ia acreditar. Outro
dia ela me disse, estou com todas as minhas joias, meusdiamantes,
rubis neste saco. O Guilherme, ao meu lado, não acreditou. Ninguém
acredita nela. A dona Romilda nos levou até a praça para mostrar os
escargôs que criava e iam lhe dar muito dinheiro. Moça, o Guilherme
disse, isso aí são lesmas.”
“É tudo da mesma família.”
“Eram só quatro lesmas, que estavam
numa caixa com alface. Não eram suficientes para fazer uma criação.
Ela tem esse lado sonhador. O Guilherme disse que essa coisa de comer
escargô é um modismo burguês que vai passar.”
“Esse modismo tem pelo menos dois
mil anos.”
“É mesmo?”
“No mínimo.”
“O senhor já comeu?”
“Já.”
“Gostou?”
“Sim.”
“Acho que eu ia ter nojo. Mas se um
dia o senhor me levar para comer essa coisa, eu como.”
Abri a agenda.
“E a foto da dona Romilda nua?”
perguntou Cristina.
Não respondi logo. A foto talvez
valesse a pena, seria algo novo no meu acervo de amador.
“Onde é que eu posso fazer isso?
Não tenho lugar, dona Cristina. Na minha casa não pode ser.”
“Pode ser na minha.”
“Onde a senhora mora?”
“No prédio cheio de corredores onde
mataram o príncipe.”
“Foi em frente ao banco.”
“Dona Romilda inventou isso, tem
cisma com o gerente, ele não gosta que ela durma na porta do banco.”
“Em que dia nós vamos fazer isso?”
“No sábado. De tarde. Se o senhor
puder, é claro.”
“Me dá o número do seu
apartamento.”
“Não, é uma kitchenette.”
“Tem uma cama, não tem? Uma foto
nua dela, para ficar boa, tem que ser deitada. Quer dizer, vou fazer
uma em pé, também. A senhora leva a dona Romilda para o seu
apartamento e eu encontro vocês lá. Quatro horas, está bem?”
O ideal para fazer aquela foto seria
lá pelas ou 7. Eu levaria também os flashes, caso não tivesse uma
janela dando uma luz boa da rua. E como garantia, a Leica, que me
dava mais mobilidade. A digital não era uma máquina para fotos
artísticas.
O prédio era mesmo grande e cheio de
corredores, mas acabei achando o apartamento.
Cristina e dona Romilda, com o enorme
saco que sempre carregava, estavam na sala me esperando.
“General, que bom ver o senhor
novamente.”
“Vamos fazer a foto?”
“Pelada?”
“A senhora se incomoda?”
“Já fiz foto pelada para a Playboy.
O senhor não viu?”
“Eu não leio a Playboy!”
Dona Romilda tirou a roupa.
“A senhora sabe quantos quilos pesa,
dona Romilda?”
“Não sei, princesa.”
“Deve ser uns cem quilos. Tenho uma
balança no banheiro, vou trazer para cá.”
Pesamos dona Romilda.
“Errei por pouco. Cento e dez. Não
dá uma fotografia deslumbrante, doutor?”
A cama estava arrumada, com uma colcha
vermelha.
“Deita aí na cama, dona Romilda.”
“Eu não deito em colcha vermelha.”
“Por quê?”
“Não é bom. Maus espíritos atacam
a gente.”
“A senhora tem outra colcha, dona
Cristina?”
“Pode ser branca, dona Romilda?”
“Pode.”
“Acho que branca é até melhor,
cria um bom contraste. Muda a colcha, por favor.”
Cristina trocou a colcha.
“Fico com as pernas abertas?”,
perguntou dona Romilda, deitando na cama.
“Espera um pouco. Preciso colocar os
filtros na máquina, fazer o enquadramento, ver a luz. Não demora
muito.”
Pela janela entrava uma luz boa, de
fim de tarde.
“General, eles não querem devolver
a minha mansão da São Clemente. A Rosinha diz que a casa é dela.
Mas a casa é minha, quem me deu a casa foi a rainha da Inglaterra,
que morou lá.”
“Vou ver o que posso fazer”
“E fala com o Vítor para parar de
fazer propostas indecentes para mim. Já estou com dois filhos dele
na barriga.”
“Eu falo.”
Coloquei a Pentax num tripé.
“Fecha as pernas, por favor, e fica
deitada quieta. Dona Cristina, põe uns travesseiros sob a cabeça e
as costas dela, para o tórax ficar um pouquinho levantado. Me
arranja um livro.”
“Qualquer livro?”
“A senhora tem um livro de arte?”
“Que arte?”
“Tem que ser um livro grande.”
“Este serve?”
“Serve. Põe, por favor, o livro
sobre o púbis dela.”
“Para que esse livro, general?”
“É um toque artístico, dona
Romilda.”
“Mas eu quero tirar uma foto com as
pernas abertas.”
“As outras a gente tira como a
senhora quiser. Mas primeiro esta, com o livro.”
Dona Romilda ficou imóvel na cama,
pensativa, mas tranquila, com o livro sobre o púbis.
“Dá uma olhada aqui no visor, dona
Cristina.”
“Que coisa linda”, disse Cristina.
“Não pensei que ela tivesse tantas curvas. Vai ser uma foto de
museu internacional.”
Bati outras fotos, dona Romilda de
pernas abertas, de bruços, de lado, em posição fetal. Usei também
a Leica.
“Está encerrada a sessão, sobrou
apenas um filme. Muito obrigado, dona Romilda.”
“Vai sair na Playboy?”
“Não garanto.”
“Estou com fome.”
“Vou fazer um sanduíche para a
senhora”, disse Cristina.
Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas
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