quarta-feira, 20 de maio de 2026

Anastácia | Podcast Palavra de Autor

Capítulo 52 — O Embrulho Misterioso

Foi o caso que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que estava na praia. Não digo bem; houve menos tropeção que pontapé. Vendo um embrulho, não grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma coisa que parecia alguma coisa, lembrou-me bater-lhe com o pé, assim por experiência, e bati, e o embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns meninos brincavam, — um pescador curava as redes ainda mais longe, — ninguém que pudesse ver a minha ação; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas não sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive ideia de devolver o achado à praia, mas apalpei-o e rejeitei a ideia. Um pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.
Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. E certo que não havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo um garoto, que havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo, se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dúzia de lenços velhos ou duas dúzias de goiabas verdes. Era tarde; a curiosidade estava aguçada, como deve estar a do leitor; desfiz o embrulho, e vi… achei... contei... recontei nada menos de cinco contos de réis.
Nada menos. Talvez uns dez mil-réis mais. Cinco contos em boas notas e dobras, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e concluí que não. Sobre o jantar, fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos,
eu, que era abastado.
Para não pensar mais naquilo fui de noite à casa do Lobo Neves, que instara muito comigo não deixasse de frequentar as recepções da mulher. Lá encontrei o chefe de polícia; fui-lhe apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias antes. Aventou o caso.
Virgília pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos presentes acertou de contar uma anedota análoga, que eu ouvi com impaciência de mulher histérica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco contos, e até confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretária. Gostava de falar de todas as coisas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia não era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da Providência. Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, numa praia, é necessário que... Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem.
Era um achado, um acerto feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto e até direi que a minha felicidade era merecida, porque eu não me sentia mau, nem indigno dos benefícios da Providência.
Estes cinco contos, dizia eu comigo, três semanas depois, hei de empregá-los em alguma ação boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra coisa assim... hei de ver...
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia — e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Folhinha




A morte do escritor
não se quer resolver dentro de mim.
Mas não tenho gosto na infelicidade
e por isso busco meu caminho
como um verme sabe do seu, dentro da terra.
Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às vezes,
vem o desejado consolo.
Informativo Popular Coração de Jesus
é o nome de um calendário de parede.
ABENÇOAI ESTE LAR está escrito nele.
O coração sangra na estampa,
mas o rosto é doce, próprio a enternecer
as mulheres da cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano, vou me deliciar
nada é mesmo perfeito —,
uma gota de mel desce em minha garganta.
No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:
A FÉ GUIOU OS MAGOS — LUA NOVA AMANHÃ.
Lua nova,
que nome mais bonito pra um consolo.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Definições




O teste é o chopinho. O chopinho é definitivo. Quem sentaria aqui com a gente pra tomar um chopinho, quem não sentaria. Vale para todas as épocas, todos os povos, todas as categorias.
Por exemplo?
Revolução Francesa. Danton sentaria para tomar um chopinho.
Robespierre, nem pensar.
Exato.
Lenin sentaria?
Nunca. Já o Trotski, sim.
E o Stalin?
Sentaria, mas ficaria um clima ruim.
De Gaulle, não.
Churchill sim.
Hitler?
Hmmm, os alemães são um problema. Em tese, nenhum alemão recusa um chope, e todos tomam com o mesmo gosto. Seja Bismark, Goethe, Nietzsche, Marx ou Marlene Dietrich.
Com alemão, então, o chopinho não prova nada.
O chopinho sozinho, não. É preciso acrescentar outro elemento definidor. Outro teste de tolerância, bom humor e simpatia.
Qual?
O bolinho de bacalhau.
No carnaval, sou Salgueiro.
Certo.
No futebol, Botafogo.
Sim. Continue.
Como, continue?
Água mineral. Com ou sem gás?
Com.
No cafezinho: açúcar ou adoçante?
Adoçante.
Prossiga.
Bom. Deixa ver. Heterossexual. Destro. Não fumante. Prefiro o inverno ao verão... Que mais?
Acende o fósforo para lá ou para cá?
Nunca notei. Acho que para lá.
Abotoa a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima?
De cima para... Não. De baixo para cima. Não! Não sei.
Como, não sabe? É a hora das definições. Melhor Papa.
Melhor Papa?! Sei lá. João Vinte e Três.
Melhor Robin Hood.
Errol Flynn, disparado.
Gil ou Caetano?
Os dois.
Não pode. Tem que ser um ou outro.
Por quê? Eu não estou preparado. Preciso pensar!
Foi você que começou. Freud ou Jung? Bach ou Mozart? Sautées, cozidas ou fritas?
Espere, eu...
Com fivela ou sem fivela? Rápido!

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Adulto

Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que ganha.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Sétimo capítulo — Mãos sonhando mulheres



A chuva timbilava no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do destino.
Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não pomos nunca o coração. E prossegue:
Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?
Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que Deus lhes confiou.
Me enganei dessa mulher, Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.
Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras iniciações.
Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.
Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.
Agora pensa nas meninas.
Tio! Não faça isso...
Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.
Mas, tio: assim eu não consigo...
É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo corpo!
Não vai dar, tio.
Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma casca.
Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.
É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
Mas nós bebemos, tio?
Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se inquieta:
Não é perigoso barulharmos assim?
Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.
Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.
Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.
Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado. Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.
Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.
Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
Mas ler agora, com esse escuro?
Acendes o fogo lá fora.
Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.
Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
Podemos, tio? Não há problema?
Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

terça-feira, 19 de maio de 2026

Enquanto isso...

passa aos gritos o Carro de Bombeiros, girando a pupila vermelha na grande órbita da noite, insano como os olhos verdadeiros solitários, solidário como os verdadeiros insanos. Um homem fala sozinho:
Em algum lugar há fogo, Zelda. Meu coração inveja.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

Sueño con serpientes | Silvio Rodríguez y Chico Buarque

Canção para álbum de moça

Bom dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava,
de noite como de dia,
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas,
sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
O tempo é talvez ingrato
e funda a melancolia
para que se justifique
o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo,
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom dia: repito à tarde,
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia,
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.
Bom dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe,
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
ao meu bom-dia: bom dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma

A brasilidade no traço de Portinari

Menino com Pássaro (1959), de Cândido Portinari

Um ser livre

Não me lembro bem se é em Les données immédiates de la conscience que Bergson fala do grande artista que seria aquele que tivesse, não só um, mas todos os sentidos libertos do utilitarismo. O pintor tem mais ou menos liberto o sentido da visão, o músico o sentido da audição.
Mas aquele que estivesse completamente livre de soluções convencionais e utilitárias veria o mundo, ou melhor, teria o mundo de um modo como jamais artista nenhum o teve. Quer dizer, totalmente e na sua verdadeira realidade.
Isso poderia levantar uma hipótese. Suponhamos que se pudesse educar uma criança tomando como base a determinação de conservar-lhe os sentidos alertas e puros. Que se não lhe dessem dados, mas que os seus dados fossem apenas os imediatos. Que ela não se habituasse. Suponhamos ainda que, com o fim de mantê-la em campo sensato que lhe servisse de denominador comum com os outros homens, lhe permitisse certa estabilidade indispensável para viver, lhe dessem umas poucas noções utilitárias; mas utilitárias para serem utilitárias, comida para ser comida, bebida para ser bebida. E no resto a conservassem livre. Suponhamos então que essa criança se tornasse artista e fosse artista.
O primeiro problema surge: seria ela artista pelo simples fato dessa educação? É de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.
Essa criança seria artista do momento em que descobrisse que há um símbolo utilitário na coisa pura que nos é dada. Ela faria, no entanto, arte se seguisse o caminho inverso ao dos artistas que não passam por essa impossível educação: ela unificaria as coisas do mundo não pelo seu lado de maravilhosa gratuidade mas pelo seu lado de utilidade maravilhosa. Ela se libertaria. Se pintasse, é provável que chegasse à seguinte fórmula explicativa da natureza: pintaria um homem comendo o céu. Nós, os utilitários, ainda conseguimos manter o céu fora de nosso alcance. Apesar de Chagall. É uma das poucas coisas das quais ainda não servimos. Essa criança, tornada homem-artista, teria pois os mesmos problemas fundamentais de alquimia.
Mas se homem, esse único, não fosse artista — não sentisse a necessidade de transformar as coisas para lhes dar uma realidade maior — não sentisse enfim necessidade de arte, então quando ele falasse nos espantaria. Ele diria as coisas com a pureza de quem viu que o rei está nu. Nós o consultaríamos como cegos e surdos que querem ver e ouvir. Teríamos um profeta não do futuro, mas do presente. Não teríamos um artista. Teríamos um inocente. E arte, imagino, não é inocência, é tornar-se inocente.
Talvez seja por isso que as exposições de desenhos de crianças, por mais belas, não são propriamente exposições de arte. E é por isso que se as crianças pintam como Picasso; talvez seja mais justo louvar Picasso que as crianças. A criança é inocente. Picasso tornou-se inocente.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Curto Prazo Final



Quando lhe mostraram um epigrama de uma linha e meia, Nicolas de Chamfort (1741-94), mestre da brevidade mordaz, comentou que ele demonstraria mais espírito se fosse mais curto. O epigrama, o aforismo, a máxima são o haicai do pensamento. Procuram condensar a percepção mais aguçada no menor número possível de palavras. Quase por definição, e mesmo quando se prende estritamente a uma prosa coloquial, o aforismo está próximo da poesia. Sua economia formal pretende surpreender num clarão de autoridade; pretende ser singularmente memorável, como um poema. De fato, máximas ou apotegmas famosos oscilam frequentemente entre a grande poesia ou drama e o anonimato do provérbio. Por um instante, não conseguimos lembrar a fonte pessoal e exata. Quem nos ensinou pela primeira vez que “a discrição é a melhor parte da coragem” ou que “Deus dá o frio conforme o cobertor”? Em que texto encontramos o dito, que ajudou a deflagrar uma revolução inteira na história da forma e da percepção, de que “a natureza imita a arte”? Essas sintéticas revelações de Shakespeare, Laurence Sterne e Oscar Wilde passaram para a glória da linguagem comum.
Na literatura francesa, o aforismático e o epigramático têm um papel excepcional. A composição de pensées, formuladas com a máxima brevidade possível, é uma tradição tipicamente gaulesa. Em Pascal — e isso é uma proeza rara em qualquer língua ou literatura — a estratégia aforismática se estende aos campos mais complexos e sublimes da teologia e da metafísica. Em Paul Valéry, ela permite uma elegância soberbamente concisa a uma longa meditação sobre a natureza da poesia e das artes. As máximas de La Rochefoucauld, de Vauvenargues, de Chamfort são com grande probabilidade as mais eloquentes da tradição ocidental. Um poeta contemporâneo, René Char, anulou deliberadamente a distinção entre a sententia (termo latino para o dito ou proposição de uma frase só) e o poema curto. Em seus melhores momentos, Char, como Valéry, enuncia um instante musical do pensamento.
Por que essa predileção francesa pelo aforismo? (Em alemão, o estilo aforismático de Lichtenberg e de Nietzsche é claramente devedor do precedente francês.) Uma das respostas reside numa orgulhosa latinidade explícita. A literatura e o pensamento franceses se orgulham de suas afinidades com a fonte romana. Os costumes romanos, tanto na esfera do poder político quanto na do discurso, atribuíam valor eminente à concisão. A brevidade era não só a alma do espírito, mas também uma convenção de controle e autocontrole viril mesmo sob extrema pressão de perigos pessoais ou cívicos. O costume francês das máximas e pensées parece em boa parte remontar diretamente à concisão lapidar e à autoridade pétrea das inscrições romanas. “Ci gît Gide”, “aqui jaz Gide”, foi a recomendação de André Gide para seu epitáfio. É da herança latina que a língua francesa extrai seu ideal de la litote. Em inglês, “understatement” é uma tradução claudicante. A litotes, como vemos constantemente no maior escritor francês, Racine, é a expressão densa, cerrada, de alguma enormidade fundamental nas emoções e reconhecimentos humanos. Em seus traços mais característicos, ela é aquela torrente de silêncio que dizem os pilotos existir no olho de um furacão.
Como afirmei, a tradição francesa abarca no terreno aforismático áreas tão diversas como religião e estética, psicologia e política. Mas o foco predominante é o dos moralistes. Aqui também a tradução é falha. Um moraliste, especialmente na forma como floresceu nos séculos XVII e XVIII, aplica valores e princípios universais a problemas de conduta social. Ele observa com agudeza, ele “disseca” as convenções mundanas à luz implícita da eternidade. O verdadeiro moraliste moraliza apenas de maneira indireta, isolando laconicamente, dando formulação monumental a algum gesto, rito ou lugar-comum efêmero, mas sintomático, da sociedade de sua época. O gênio de La Rochefoucauld ou de Vauvenargues consiste na exata riqueza da conduta humana observada que sustenta a escassez, a aparente generalidade de suas anotações. Por trás da serena observação de La Rochefoucauld, radical como nenhuma outra nos anais da percepção, de que há algo que não nos desagrada nos infortúnios de um bom amigo, encontra-se não só o fulgor de um escrutínio individual, mas o conhecimento prático dos modos da corte e do beau monde tão amplo quanto o de Saint-Simon ou de Proust.
Tendo emigrado de Bucareste para Paris às vésperas da Segunda Guerra Mundial, E. M. Cioran criou para si, nos últimos quarenta anos, uma fama esotérica mas incontestada de ensaísta e aforista do desespero histórico-cultural. Drawn and Quartered [Arrastados e esquartejados] (Seaver Books, 1983) é a tradução de um texto publicado em francês como Ecartèlement [Esquartejamento], em 1971. As máximas e reflexões que constituem o principal de Drawn and Quartered são precedidas por um prólogo apocalíptico. Olhando os imigrantes, os híbridos, os destroços soltos de humanidade que agora flutuam por nossas cidades anônimas, Cioran conclui que agora é de fato — como proclamou Cyril Connolly — o “horário de fechamento nos jardins do Ocidente”. Somos Roma em seu declínio febril e macabro: “Tendo governado dois hemisférios, o Ocidente agora se torna seu alvo de risadas: espectros sutis, final da linha em sentido literal, condenados à condição de párias, de escravos trôpegos e balofos, condição à qual talvez escapem os russos, estes últimos brancos”. Mas a dinâmica da inevitável degradação vai muito além da situação específica do hemisfério ocidental capitalista e tecnológico. É a própria história que degringola:

Em todo caso, é evidente que o homem deu o melhor de si e que, mesmo se fôssemos presenciar o surgimento de outras civilizações, certamente não valeriam as antigas, nem mesmo as modernas, sem contar que não poderiam evitar o contágio do fim, que se tornou uma espécie de obrigação e programa para nós. Da pré-história até nós, e de nós à pós-história, esta é a rota para um fiasco gigantesco, preparado e anunciado em todos os períodos, inclusive as épocas de apogeu. Mesmo os utopistas veem o futuro como um fracasso, já que inventam um regime para escapar a qualquer espécie de devir: concebem outro tempo dentro do tempo […] algo como um inesgotável fracasso, não atravessado pela temporalidade e superior a ela. Mas a história, da qual Ahriman é o mestre, pisoteia tais divagações.

A espécie humana, entoa Cioran em sua ladainha, está começando a ficar ultrapassada. O único interesse que um moraliste e profeta do fim pode sentir pelo homem nasce do fato de ele ser “perseguido e acuado, afundando-se cada vez mais”. Se prossegue em seu caminho sórdido e fatídico, é porque lhe faltam as forças necessárias para capitular, para cometer um suicídio racional. Existe apenas uma coisa absolutamente certa em relação ao homem: “Está ferido no mais fundo de si […] está podre até a raiz”. (Vem-nos irresistivelmente à lembrança a cançoneta plangente, mas trocista, do “rotten to the core, Maude”.)
Então o que há pela frente? Cioran responde:

Avançamos en masse para um tumulto sem igual, vamos nos erguer uns contra os outros como aleijados em convulsões, como bonecos alucinados, porque, como tudo se tornou impossível e irrespirável para todos nós, ninguém se dignará a viver, exceto para liquidar e liquidar a si mesmo. O único frenesi de que ainda somos capazes é o frenesi do fim.

A soma da história é “uma vã odisseia” e é legítimo — na verdade, necessário — “imaginar se a humanidade, tal como está, não faria melhor eliminando a si mesma em vez de definhar e se afundar na expectativa, expondo-se a uma era de agonia na qual corre o risco de perder todas as ambições, até mesmo a ambição de desaparecer”. Depois de tal ruminação, Cioran se inclina numa pequena pirueta de ironia caçoando de si mesmo: “Renunciemos pois a todas as profecias, aquelas hipóteses frenéticas, não nos deixemos mais enganar pela imagem de um futuro remoto e improvável; conformemo-nos a nossas certezas, a nossos abismos indubitáveis”.
O problema com esse tipo de escrita e de pseudopensamento não é a comprovação. O século de Auschwitz e da corrida armamentista, da fome em escala mundial e da loucura totalitária realmente pode estar se precipitando para um final suicida. É concebível que a ganância humana, as enigmáticas necessidades de ódio mútuo que alimentam a política interna e externa, a tremenda complexidade dos problemas econômico-políticos possam gerar conflitos internacionais catastróficos, guerras civis calamitosas e o desmoronamento interno das sociedades, sejam as imaturas, sejam as mais velhas. Todos nós sabemos disso. E esse conhecimento é o que está sob o pensamento político sério, sob os debates filosóficos sobre a história, desde 1914-18 e o modelo de Spengler da decadência do Ocidente. E tampouco é possível negar uma sensação intuitiva, uma sugestão persuasiva de que há uma espécie de esgotamento nervoso, de entropia nas fontes interiores da cultura ocidental. Parece que somos governados por anões e charlatães mais ou menos mentirosos. Nossas respostas às crises mostram certo automatismo de sonâmbulos. Nossas artes e letras são provavelmente epigônicas. Em si, o sermão fúnebre de Cioran (que já foi proferido por muitos outros antes dele) pode se revelar correto. Na verdade, meu próprio instinto não aponta para direções muito mais animadoras.
Não, as objeções a serem levantadas são de dupla ordem. As passagens citadas demonstram um excesso de simplificação maciça e brutal. O teor dos assuntos humanos é e sempre foi tragicômico. Daí a importância central de Shakespeare, com sua recusa das trevas absolutas. Fortinbrás, como ser, é menor do que Hamlet; muito provavelmente, governará melhor. Birnam Wood reflorirá depois que avançar sobre Dunsinane. A história e a vida das políticas e das sociedades são variegadas demais para ser subsumidas a qualquer padrão único grandiloquente. As bestialidades de nossos tempos, seu potencial de autodestruição, são evidentes por si sós; mas igualmente evidente é o puro e simples fato de que nunca na história deste planeta foi tão grande a quantidade de pessoas que começam a ter moradia, alimentação e tratamento médico adequado. Nossas políticas se regem pelo assassinato em massa, é verdade, mas é a primeira vez na história social documentada que se começa a expressar e praticar a ideia de que a espécie humana tem responsabilidades positivas concretas em relação aos deficientes e aos doentes mentais, em relação aos animais e ao meio ambiente. Tenho escrito bastante sobre o veneno que é o nacionalismo atual, sobre o vírus da fúria étnica e regional que leva os homens a massacrar seus vizinhos e a reduzir suas próprias comunidades a cinzas (no Oriente Médio, na África, na América Central, na Índia). No entanto, estão começando a surgir contracorrentes sutis, mas poderosas. Empresas e organizações multinacionais, a comunidade de interesses das ciências naturais e aplicadas, as culturas da juventude, a revolução na disseminação da informação, as artes populares estão gerando oportunidades e imperativos de coexistência totalmente novos. Estão eliminando as fronteiras. As chances continuam pequenas; mas pode ser que, com o tempo, venham a reduzir o cenário do Armagedão. Seria arrogância e presunção decretar de outra maneira. Colocando em termos anedóticos, lembro um seminário dado por C. S. Lewis. Sabendo da profunda nostalgia de Lewis pelo que chamava de “imagem unitária” do cosmo durante a Idade Média e o início do Renascimento, sabendo do desagrado de Lewis pelas vulgaridades e indistinções morais do espírito do século xx, um estudante de pós-graduação se pôs a desfiar louvores aos tempos de outrora. Lewis ouviu por alguns instantes, com a cabeçorra enfiada entre as mãos. Então se virou ríspido para o expositor e exclamou: “Pare com essa bobagem fácil! Feche os olhos e concentre sua alma sensível no que seria exatamente sua vida antes do clorofórmio!”.
A palavra-chave aqui é “fácil”. Há em toda a lamentação de Cioran uma facilidade sinistra. Não se requer nenhum pensamento analítico sólido, nenhum conhecimento ou clareza argumentativa para pontificar sobre a “podridão”, a “gangrena” do homem, o câncer terminal da história. As páginas de onde extraí as citações não só são fáceis de escrever, como deleitam o escritor com o tenebroso incenso do oracular. Basta ver a obra de Tocqueville, de Henry Adams ou de Schopenhauer para sentir a drástica diferença. Estes são mestres de uma tristeza clarividente não menos ampla do que a de Cioran. Suas leituras da história não são mais róseas. Mas o que apresentam é meticulosamente argumentado, não declamado; suas posições são moldadas, em cada conexão e cada articulação do que é proposto, por um justo senso da complexidade e ambiguidade dos fatos históricos. As dúvidas que esses pensadores manifestam, as ressalvas que fazem a suas próprias certezas, honram o leitor. Pedem não a anuência indiferente ou o eco complacente, mas o reexame e a crítica. A pergunta que se mantém é a seguinte: as convicções apocalípticas, a náusea e o pessimismo mortal de Cioran são percepções originais e radicais? Os pensées, os aforismos e máximas que constituem seu título à fama pertencem realmente à linhagem de Pascal, de La Rochefoucauld ou de seu modelo mais próximo, Nietzsche?
Drawn and Quartered traz muitos aforismos sobre a morte. Esse é um tema sempre caro aos aforistas pois, de fato, existe muito a se dizer sobre a morte? “A morte é um estado de perfeição, o único ao alcance de um mortal” (o ponto implícito é um trocadilho fraco e batido com o sentido de “perfeição” em latim)*. “Não existe ninguém cuja morte não desejei em algum momento” (ecoando La Rochefoucauld). “Morte, que desonra! De repente virar um objeto” — a que se segue a asserção absolutamente inconvincente de que “nada nos faz modestos, nem mesmo a visão de um cadáver”. O tom se eleva a um macabro chique: “O que está isento do funéreo é necessariamente vulgar”. E a portentosa asneira atinge o clímax com “A morte é a coisa mais sólida que a vida inventou até agora”.
Experimentemos outro tópico, a atividade de escrever e pensar. “Um livro deve abrir velhas chagas, e até infligir novas. Um livro deve ser um perigo.” Isso mesmo — e Franz Kafka já o disse muito tempo atrás, quase nos mesmos termos. “Escreve-se não porque se tem alguma coisa a dizer, mas porque se quer dizer alguma coisa.” Correto. “Existir é plágio.” Pista espirituosa e sugestiva. “Quando sabemos o que valem as palavras, o surpreendente é que tentemos dizer alguma coisa, e consigamos. Isso requer, de fato, uma coragem sobrenatural.” Verdade; e já professada com muita frequência e autoridade irrefutável por Kafka, Karl Kraus, Wittgenstein e Beckett. “Os únicos pensadores profundos são os que não têm senso de ridículo.” Cf. Rousseau e Nietzsche, que chegaram à mesma descoberta, mas com uma força circunstancial muito maior. (A essa objeção Cioran poderia responder: “Não invento nada, sou apenas o secretário de minhas sensações”.) “Um autor que diz escrever para a posteridade deve ser ruim. Nunca devemos saber para quem escrevemos.” A advertência pode ser irrepreensível; mas basta pensar um instante em Horácio, Ovídio, Dante, Shakespeare ou Stendhal e logo se revela sua superficialidade.
Cioran é o autor de um ensaio interessante sobre De Maistre, o grande pensador da contrarrevolução e do pessimismo antidemocrático. Vários aforismos — e estão entre os mais substanciais — apontam para essa propensão na política soturna do próprio Cioran: “Nunca esqueçam que as plebes prantearam Nero”. “Todas essas pessoas na rua me fazem pensar em gorilas exaustos, todas elas cansadas de imitar o homem!” “A base da sociedade, de qualquer sociedade, é um certo orgulho na obediência. Quando esse orgulho deixa de existir, a sociedade se desmorona.” “Quem fala a linguagem da Utopia me é mais estranho do que um réptil de outra era geológica.” “Torquemada era sincero, portanto inflexível, desumano. Os papas corruptos eram caridosos, como todos os que podem ser comprados.” Até acredito que o elitismo estoico de Cioran, seu repúdio do progresso à l’américaine, traz mais verdade em si do que a maioria dos modismos atuais do liberalismo ecumênico. Mas aqui não se acrescenta nada de muito novo ou interessante à defesa do obscurantismo que temos em De Maistre, em Nietzsche ou na política visionária de Dostoiévski. O aforismo sobre Torquemada, por exemplo, com seu frisson de moda, sai diretamente do poderoso tratado de De Maistre em favor do carrasco.
Os aforismos mais reveladores são aqueles nos quais Cioran atesta sua própria esterilidade e cansaço: “Todas as minhas ideias se resumem a desconfortos reduzidos a generalidades”; “Só me sinto ativo, competente, capaz de fazer algo positivo quando me deito e me entrego a divagações sem objeto nem finalidade”. Há um páthos de lucidez em Cioran quando ele confessa que lhe seria mais fácil fundar um império do que formar uma família, e sente-se uma força persuasiva imediata em seu comentário de que apenas quem não teve filhos duvidaria do pecado original. Instintivamente acreditamos e refletimos na proposição: “Não luto contra o mundo, luto contra uma força maior, contra meu cansaço do mundo”. Como diz uma máxima britânica, um pouco de tédio faz bem. Só que 180 páginas, culminando na (ridícula) exclamação “O homem é inaceitável”, nos deixam um tanto recalcitrantes.
O problema pode estar no dito de Cioran segundo o qual nos aforismos, como nos poemas, o que reina é a palavra sozinha. Talvez isso seja verdade em relação a alguns tipos de poesia, sobretudo a lírica. Não é verdade em relação aos grandes aforistas, para os quais a sententia é soberana, e soberana justamente porque traz à mente do leitor toda uma riqueza interiorizada e recôndita de antecedentes históricos, sociais, filosóficos. O mais belo texto aforismático das últimas décadas, Minima moralia, de Theodor W. Adorno, transborda com a autoridade de uma autêntica taquigrafia, de um roteiro cuja concisão se retraduz, obriga a se retraduzir, numa psicologia e sociologia completa da consciência histórica atenta. Qualquer comparação honesta com Drawn and Quartered é demolidora. Sem dúvida existem exemplos melhores da obra de Cioran, sobretudo antes que seus textos se reduzissem a meras repetições de si mesmos. Porém uma coletânea dessa ordem, fielmente traduzida por Richard Howard, de fato nos faz perguntar não se o rei está nu, mas se afinal há algum rei.
16 de abril de 1984

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O desmemoriado de Vigário Geral

Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.

Manuel Bandeira, em Estrela da manhã

Milton Nascimento e Lô Borges | Clube Da Esquina Nº 2

 

Surpresa

O menino gostava dos livrinhos que escrevi para crianças. Seu grande sonho era conhecer o autor de estórias tão bonitas. Ele deveria ser uma pessoa maravilhosa! Aí chegou a ocasião! Haveria um evento para grandes e pequenos em que o Rubem Alves estaria presente. Os pais do menino transmitiram­-lhe a notícia maravilhosa. O menino se encheu de alegria e no dia e horário marcados lá se foram eles para o lugar onde o sonho se realizaria. O Rubem Alves lá estava, no meio de uma criançada, contando estórias. Os pais chamaram a atenção do filho e mostraram: “Aquele ali é o Rubem Alves...”. O menino parou, olhou, deixou o sorriso escorrer pelo canto da boca e perguntou: “Mas o Rubem Alves é ‘isso’?”.

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

Hagar, o Horrível

Filosofar

É evidente: não há outra condição de vida tão adequada para filosofar como essa em que você agora vive.

Marco Aurélio, em Meditações

“A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes”


[…]

Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes! que rezassem por mim, a rogo e paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me valesse ― essas avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim tinha expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de uma tropa. Pelejei por afirmar a ideia nisso, que próprio depois eu enxotava. As vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe, desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha meninice. Um do outro lado do rio. O sujeito que escondia uma oração tão entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um padre aquilo entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho, no povoado dos papudos; ela me devia mercês, então não podia encaminhar a Deus, por mim, nem um louvamém? ― Só será que o arrieiro passa e vai, na Santa Catarina?... Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era por uma opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De assento. Mas logo esse sossego manso me largava ― nuvenzinha dele.Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? As voltas e revoltas, eu pelejava contra o meu socôrro. Hoje, eu sei; pois sei, por que. Mas eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só que andava às tortas, num lavarinto.Tarde foi que entendi mais do que meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o senhor vai me ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei decreto de fim em essas esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me respondeu? ― ...A muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter muita coragem... Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me vencesse, nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença, feito môrro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar meus trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um arraial triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma guerra ou pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro, entre as velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava aumentado, por demais, separado de meus sobejos. Aquilo, davandito, ele tinha falado solto e sem serviço, era só uma recordação, assim um fraseado verdadeiro, ditado da vida. O que não fosse destinado para ele nem para mim, mas que era para todos. Ou, então, sendo para mim, mas em outros passados, de primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no reabrirem, depois de uns mêses, a igreja, o defunto tinha se secado sozinho... Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem ― é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia ― do sertão ― a toda travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade ― o mundo limpava que nem um tremer dágua. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor; mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo que me desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A nenhum. Eu já estava chefe de glórias. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro ― que fosse para encontrar o Hermógenes. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. Ladeiras areentas e com pedras, com os abismos dos lados; e tão a pique, que podiam rebentar os rabichos dos arreios, no despenhado; no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas, feito se os pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras para baixo rolavam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto! eu ia traspassar o Liso do Sussuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu é que me acuava? Agora, eu velho, vejo! quando cogito, quando relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado. Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! ― o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão que se vôa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre, o qual carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Sussuarão. Ia. Indo, fui ficando airoso.
Por forma como a gente rodeou outra volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser. Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas! o desmenso, o raso enorme ― por detrás dos môrros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e aoVão-do-Cúio! esses buracões precipícios ― grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo que lá em baixo dá onças ― que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei. Diadorim, em sombra de amor, foi que me perguntou aquilo:
Riobaldo, tu achasses que, uma coisa mal principiada, algum dia pode que terá bom fim feliz?
Ao que eu, abirado, reagi:
Mano meu mano, te desconheço?! Me chamo não é Urutú-Branco? Isto, que hei-de já, maximé!
Diadorim persistiu calado, guardou o fino de sua pessoa. Se escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que nós dois estávamos desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei; isto é: padeci. O que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrôsso eu pensei. Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes me regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

domingo, 17 de maio de 2026

Desejosa

Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja.

Manoel de Barros, em Livro sobre nada

Cássia Eller e Renato Russo | Vento no Litoral

O chalé da praça Quinze

O chalé fazia parte da gente. Me lembro do Bilu, com o seu perfil perpendicular de cegonho sábio, o longo bico mergulhado — não no gargalo do gomil da fábula, não propriamente no canecão de chope, que era de fato o que estava acontecendo —, mas no poço artesiano de si mesmo.
Me lembro do Reynaldo, redondo, pacato, amável, tão amável, pacato e redondo que parecia um desses personagens de romance policial que ninguém desconfia que seja o autor do último crime da mala.
Me lembro do Cavalcanti, com a sua cara silenciosa e receptiva de mata-borrão.
Me lembro de mim, silencioso. Sim, a determinada hora éramos todos silenciosos... essa hora em que não é preciso dizer nada, nem mesmo o verso inesquecível de Valéry: “Oh mon bon compagnon de silence!”
Este silêncio era apenas quebrado quando chegava o Athos, o Athos centrífugo e pirotécnico. Mas isto não perturbava o nosso silêncio, nem o próprio silêncio do Athos... Pois havia um profundo e misterioso rio de silêncio que corria subterraneamente a todas as nossas palavras.
Era o rio da poesia?
O rio da harmoniosa confusão das almas?
Agora é apenas o rio do tempo que passou.

Mário Quintana, em Caderno H

O Mestre e Margarida — 3




3

A sétima prova

É, eram aproximadamente dez horas da manhã, respeitável Ivan Nikoláievitch — disse o professor.
O poeta passou a mão pelo rosto como faz uma pessoa que acaba de voltar a si e viu que a noite havia caído em Patriarchi.
A água do lago havia escurecido, agora um barquinho leve deslizava por ela e ouvia-se o bater dos remos e as risadinhas de alguma cidadã a bordo. Apareceu gente nos bancos das aleias, mas novamente nos outros três lados do quadrado, e não naquele em que estavam nossos interlocutores.
O céu sob Moscou parecia ter desbotado, e no alto via-se a lua cheia totalmente nítida, só que ainda não estava dourada, mas sim branca. Era bem mais fácil respirar, e as vozes sob as tílias soavam agora mais suaves, noturnais.
Como é possível que eu não tenha percebido que ele conseguiu engendrar toda uma história?”, pensou Bezdômny admirado. “Já é noite! Ou será que não foi ele que contou, e eu simplesmente adormeci e sonhei com tudo isso?”
No entanto, deve-se supor que o professor contou mesmo tudo aquilo. Caso contrário, seríamos obrigados a admitir que Berlioz teve o mesmo sonho, pois ele disse, examinando atento o rosto do estrangeiro:
Sua história é extremamente interessante, professor, apesar de não coincidir em nada com o Evangelho.
Perdão — replicou o professor, sorrindo indulgente —, mas ninguém mais do que o senhor deveria saber que absolutamente nada do que está escrito no Evangelho jamais aconteceu na realidade, e se começarmos a aludir ao Evangelho como fonte histórica... — Ele sorriu uma vez mais, e Berlioz engasgou, pois ele dissera o mesmo, palavra por palavra, a Bezdômny, quando caminhavam pela Brônnaia em direção a Patriarchi Prudý.
Isso mesmo — observou Berlioz. — Mas temo que ninguém poderá comprovar que o que o senhor nos contou aconteceu de verdade.
Oh, não! Há quem possa comprovar! — retrucou o professor extremamente convencido, começando a falar num russo macarrônico. E, do nada, misterioso, fez um gesto para que os dois colegas se aproximassem dele.
Ambos se inclinaram para ele, cada um de um lado, e ele disse, mas já sem nenhum sotaque, que, sabe-se lá por quê, ora sumia, ora aparecia:
É o seguinte... — Então o professor olhou ao redor receoso e começou a cochichar. — Eu presenciei tudo isso pessoalmente. Estive na varanda com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele conversou com Caifás, estive também no palanque, só que às escondidas, incógnito, por assim dizer, então peço aos senhores, nem uma palavra a ninguém, segredo total! Shh!
Caiu o silêncio e Berlioz empalideceu.
O senhor... há quanto tempo o senhor está em Moscou? — perguntou ele, com a voz trêmula.
Acabei de chegar, neste instante, a Moscou — respondeu o professor, perplexo, e só então os colegas resolveram olhar bem em seus olhos e se convenceram de que o olho esquerdo, o verde, era totalmente demente e o direito era vazio, negro e morto.
Pronto, está tudo explicado”, pensou Berlioz, confuso. “Chegou um alemão louco ou acabou de ficar pinel em Patriarchi. Que história!”
É, realmente, tudo estava explicado: o estranhíssimo café da manhã com o falecido filósofo Kant, o papo-furado sobre óleo de girassol e Ánnuchka, as profecias sobre como a cabeça seria cortada e tudo mais — o professor era louco.
Imediatamente Berlioz percebeu o que deveria fazer. Reclinando-se no encosto do banco, ele começou a piscar para Bezdômny, pelas costas do professor — querendo dizer que era melhor não o contrariar, mas o poeta, perplexo, não entendeu os sinais.
Sim, sim, sim — dizia Berlioz, exaltado. — Aliás, tudo isso é possível! Muito provável, até, tanto Pôncio Pilatos, como a varanda e todo o resto... Mas o senhor veio sozinho ou com a esposa?
Sozinho, sozinho, estou sempre só — respondeu o professor amargamente.
E onde estão suas coisas, professor? — perguntou Berlioz de forma insinuante. — No Metropol? Onde se hospedou?
Eu? Em lugar nenhum — respondeu o alemão maluco, enquanto seu olho verde triste e selvagem vagava por Patriarchi Prudý.
Como assim? Mas... onde é que o senhor vai ficar?
Em seu apartamento — respondeu de repente o louco de forma atrevida, depois piscou.
Eu... eu fico muito feliz — balbuciou Berlioz. — Mas, na verdade, na minha casa o senhor não ficará muito bem acomodado... No Metropol há quartos maravilhosos, é um hotel de primeira...
E o diabo, também não existe? — de repente quis saber o doente, alegre, de Ivan Nikoláievitch.
Nem o diabo...
Melhor não contrariar! — cochichou Berlioz apenas com os lábios, despencando sobre as costas do professor e fazendo caretas.
Não existe diabo algum! — gritou Ivan Nikoláievitch imprudentemente, perplexo com todo aquele lero-lero. — Que castigo! Pare de bancar o biruta!
O demente soltou uma gargalhada tão forte que um pardal alçou voo da tília acima deles.
Bom, isso é realmente interessante — pronunciou o professor, sacudindo-se de tanto rir. — O que há com vocês? Vocês não se agarram a nada, nada existe para vocês! — Inesperadamente ele parou de gargalhar e, de forma bem compreensível quando se trata de doença mental, depois da gargalhada caiu no outro extremo. Enfurecido, gritou rispidamente: — Então quer dizer que é isso aí, que o diabo não existe?
Calma, calma, calma, professor — balbuciava Berlioz, temendo alvoroçar o doente. — Fique um minutinho aqui sentado com o camarada Bezdômny que eu vou correndo até a esquina dar um telefonema e depois nós o acompanhamos aonde o senhor desejar. Afinal, o senhor não conhece a cidade...
Deve-se reconhecer que o plano de Berlioz estava correto: ele tinha de correr até o telefone público mais próximo e informar ao departamento de estrangeiros que um consultor havia chegado do exterior e estava em Patriarchi Prudý em estado visivelmente anormal. Então seria necessário tomar algumas medidas, ou o resultado seria louco e desagradável.
Dar um telefonema? Está bem, telefone — concordou o doente com tristeza e, de repente, pediu, ávido: — Mas suplico, antes de se despedir, acredite pelo menos que o diabo existe! Não estou pedindo nada além disso. Saiba que quanto a isso, existe a sétima prova, que é a mais certa! E ela será apresentada ao senhor agora mesmo.
Está bem, está bem — dizia Berlioz em tom falso e carinhoso, e, piscando para o transtornado poeta, que não estava nem um pouco contente com a ideia de ficar vigiando o alemão louco, precipitou-se para aquela saída de Patriarchi que ficava na esquina da Brônnaia e da travessa Iermoláievski.
Então era como se o professor tivesse se restabelecido e se reavivado imediatamente.
Mikhail Aleksándrovitch! — gritou ele, atrás de Berlioz.
Este estremeceu, virou-se, mas acalmou-se com a ideia de que o professor soubera de seu nome e patronímico também por meio de algum jornal. Então o professor gritou, com as mãos ao redor da boca:
O senhor não deseja que eu mande enviar agora mesmo um telegrama a seu tio em Kíev?
De novo Berlioz sentiu um sobressalto. Como o louco sabia da existência de um tio em Kíev? Afinal, com certeza nunca havia saído nada sobre isso em jornal algum. Oh-oh, será que Bezdômny não tem razão? Mas e esses documentos, são falsos? Ah, que sujeito mais estranho... Telefonar, telefonar! Telefonar imediatamente! Vão esclarecer tudo rapidamente!
E sem ouvir mais nada, Berlioz continuou correndo.
Então, na própria saída para a Brônnaia, exatamente aquele mesmo cidadão, que havia sido formado a partir do denso bafo sob a luz do sol, levantou-se de um banco ao encontro do editor. Só que agora ele já não era vaporoso, mas comum, corpóreo e, no lusco-fusco incipiente, Berlioz discerniu nitidamente que ele tinha bigodinhos feito penas de galinha, olhos miudinhos, irônicos e meio embriagados e calças xadrez tão puxadas para cima que as meias brancas encardidas apareciam.
Mikhail Aleksándrovitch recuou, mas se consolou, percebendo que era uma coincidência boba e que agora não tinha tempo para refletir sobre isso.
Está procurando a catraca, cidadão? — quis saber o tipo de xadrez com uma voz de taquara rachada. — Por aqui, por favor! Vá em frente e sairá onde precisa. Pela indicação poderia cobrar do senhor um quartinho de litro... para emendar... um ex-regente! — gesticulando, o sujeito tirou o boné de jóquei com o dorso da mão.
Berlioz não parou para dar ouvidos ao regente pedinte e afetado, correu até a catraca e agarrou-a. Contornando-a ele quase pisou em cima dos trilhos, quando uma luz vermelha e branca jorrou em seu rosto: uma inscrição se acendeu numa caixa de vidro — “Cuidado com o bonde”.
Imediatamente, o tal bonde chegou voando, virando pela linha recém-inaugurada, da Iermoláievski para a Brônnaia. Depois de contornar e seguir em frente, inesperadamente, o bonde iluminou-se por dentro com eletricidade, sinalizou e acelerou.
O precavido Berlioz, mesmo estando em um lugar fora de perigo, resolveu voltar para trás da barreira, pousou a mão no molinete e deu um passo para trás. Imediatamente, sua mão escorregou e escapuliu. Uma perna incontrolável, como se estivesse no gelo, escorregou pela pedra do calçamento, inclinada até os trilhos, a outra ficou suspensa e Berlioz foi jogado para frente.
Tentando segurar-se em algo, Berlioz caiu de costas, bateu de leve com a nuca contra o calçamento e conseguiu avistar, no alto, a lua dourada, mas se era à direita, ou à esquerda, ele já não conseguia mais raciocinar. Conseguiu virar-se de lado e, com um movimento desvairado, no mesmo átimo encolheu as pernas até a barriga e, virando-se, discerniu o rosto completamente pálido de horror da motorneira com seu lenço vermelho escarlate que vinha em sua direção numa velocidade incontrolável. Berlioz não gritou, mas ao seu redor, com vozes femininas desesperadas, a rua inteira berrou. A motorneira acionou o freio elétrico, o vagão afundou o nariz no chão e, depois disso, pulou instantaneamente e de suas janelas voaram estilhaços com estrondo. Na cabeça de Berlioz, alguém gritou em desespero: “Será?...” Uma vez mais, pela última vez, a lua cintilou, mas ela já se despedaçava, e então ficou escuro.
O bonde passou por cima de Berlioz e um objeto redondo e escuro foi lançado para o declive de pedras por baixo da cerca da aleia de Patriarchi. Depois de descer por esse declive, o objeto saltou pelo calçamento da Brônnaia.
Era a cabeça decepada de Berlioz.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida