25/09/2026

Convergência | Zelitto Coringa, Humberto Luiz e Elilson José Batista

A Contadora de Filmes




[8]

As casas do povoado, como em todos os salitrais do deserto, definiam perfeitamente as três classes sociais que imperavam: as casas de chapas de zinco dos peões, as casas de adobe dos empregados, e os luxuosos chalés dos gringos.
A nossa casa era um barracão de zinco carcomido dividido em três partes. A primeira era a “sala de visitas”, como todo mundo dizia (embora em nossa casa nunca tenha havido visitas). A segunda servia de dormitório, e a terceira parte, a lá do fundo, de cozinha e sala de jantar. No dormitório cabiam exatamente as três camas de ferro forjado que a gente tinha. Numa, dormia meu pai; na outra, meus três irmãos maiores; e na terceira, meu irmão Marcelino e eu.
Eu, virada para a cabeceira; ele, para o pé da cama.
Do maior para o menor, os nomes de meus irmãos eram Mariano, Mirto, Manuel e Marcelino. O meu é Maria Margarita. Como já devem ter percebido, meu pai tinha uma fixação por nomes que começavam com eme. Isso, desde que, segundo ouvi ele mesmo contar certa vez, percebeu que, além dele se chamar Medardo, sua mãe se chamava Martina e seu pai, Magno.
Hoje, acho que a única razão que fez meu pai se casar com minha mãe foi ela se chamar Maria Magnólia. É que eles não tinham afinidade alguma, não se pareciam em nada. Eram feito água e óleo. Além do mais, meu pai tinha uma diferença de vinte e cinco anos a mais do que ela.
“Era assim que se usava antigamente no campo”, ouvi minha mãe dizer, num suspiro de desencanto, quando uma vizinha achou estranho aquele contraste de idades.

Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Adeus à roça



No Cancioneiro da Inconfidência, Cecília Meireles descreve a desgraça do negro na cata do ouro. Vou transcrever um pedacinho:

Já se ouve cantar o negro,
Que saudade pela serra!
Os corpos naquelas águas,
As almas por longe terra.
Em cada vida de escravo.
Que surda, perdida guerra!

Faço uma paródia para se aplicar ao meu pai:

O corpo naqueles campos,
A alma por longes terras...

Meu pai perdera a guerra. Testa coberta de suor, foice na mão, ele não queria travar uma batalha com a natureza. Ele não nascera para a agricultura. Não nascera para a solidão dos pastos. Sua alma viajava por outros lugares. O apito das locomotivas, o cheiro do carvão, as viagens, o sacolejar do trem cortando os campos, as estações ferroviárias, os hotéis, a caderneta quilométrica, e ele fazendo a praça, espalhando palavras alegres para convencer os fregueses, o retorno à casa depois do triunfo comercial de cada viagem. Sonhava outra vida. Essa outra vida começava com as locomotivas. Sonhava mudar-se para Juiz de Fora e dizia: “Em Juiz de Fora as rodas das locomotivas são da altura do seu irmão Ivan...” . Eu me assombrava ao ouvir falar dessas coisas que eu nunca vira. Ele abria então a Encyclopaedia no volume XI, “K — Macchabeus”, e me mostrava as fotografias. “Quem inventou a locomotiva foi um inglês chamado George Stephenson”, ele dizia.
Até que chegou um dia quando ele disse: “Vamos nos mudar daqui! Vamos nos mudar para Lambari...” . Não era Juiz de Fora. Para Juiz de Fora o pulo seria muito grande. Era uma cidadezinha pequena, estação de águas, que tinha trem. Eu não me lembro direito do dia da mudança. Lembro-me que me acordaram muito cedo. E eu me espantei ao ver o céu coberto de estrelas. Para mim, menino, céu coberto de estrelas acontecia à noite, quando se ia para a cama. Que estranho! Eu estava me levantando, era manhã, e o céu estava coberto de estrelas!
A mudança foi simples. Não tínhamos móveis. Tudo o que tínhamos cabia numas poucas canastras. Mais o piano, naturalmente. A Encyclopaedia. E a Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Umas poucas panelas. Talheres. Louças. Roupas. E foi assim, com o céu coberto de estrelas e o horizonte se avermelhando que eu deixei o mundo onde meus companheiros eram os cavalos, as vacas, as galinhas, os riachinhos e o menino da mata que conversava comigo e me mudei para um mundo desconhecido onde corriam trens de ferro movidos a fogo e vapor…

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Número de emergência

Balcão de companhia aérea. Cliente está sendo atendida.

ATENDENTE Senhora, eu preciso de um número de telefone, para caso aconteça alguma emergência.
CLIENTE Pode ser o meu?
ATENDENTE No caso de um acidente com a senhora, não vai adiantar muito ligar para a senhora.
CLIENTE Ah, tá. Esse número que você quer é para o caso de o avião cair?
ATENDENTE Isso.
CLIENTE É que eu não tinha nem pensado que esse avião podia cair.
ATENDENTE Não vai cair. Mas, caso caia, a gente precisa de um número…
CLIENTE Não dá pra ser o meu? É que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.
ATENDENTE Desculpa, mas tem que ser o número de outra pessoa.
CLIENTE Então liga para o meu namorado.
ATENDENTE Telefone?
CLIENTE 9827… Não. Liga não. Que ele nunca atende aquilo lá, só dá caixa postal. Liga pra minha mãe. 9738… Não. Liga não. Que ela é cardíaca e vai cair dura. A não ser que você fale com jeitinho. Você já sabe como é que vai ser a abordagem?
ATENDENTE Não vou ser eu que vou ligar…
CLIENTE Então é melhor não ligar. Liga pra minha irmã. Rita. 7862… Não. Liga não. A Helena vai ficar puta que eu dei o telefone da Rita e não dei o dela. Helena é a outra irmã. Liga pra ela: 8934… Não. Mas aí a Rita é que fica puta. Liga pra Neide. É a empregada. E pede pra Neide ligar pra minha mãe, que a Neide vai saber como falar com ela. A Neide tem muito jeito com a minha mãe. E fala pra Neide pedir pra minha mãe dar a notícia pra Rita e pra Helena ao mesmo tempo, que é pra nenhuma delas ficar puta. Tá anotando?
ATENDENTE Tô tentando…
CLIENTE Não. Apaga. A Neide vai confundir tudo. Liga pro meu namorado mesmo. Ele não vai atender. Mas deixa recado. E pede pra ele ligar pra Neide e explicar pra ela tudo isso que eu te falei. Mas devagar. Não deixa ele ligar pra minha mãe antes de ligar pra Neide que ele mata ela de susto. Eles dois não se dão. Nem deixa ele ligar pra Rita nem pra Helena. E aproveita e diz pra Neide regar as plantas enquanto eu estiver morta. E apagar o meu Facebook senão o Facebook fica me sugerindo de amizade pra pessoas que sabem que eu morri e é a coisa mais constrangedora do mundo. A senha é Senha23 que é a minha Senha de tudo. E já que você tem a minha senha aproveita e libera uns amigos no Candy Crush. Entendeu?
ATENDENTE Acho que sim.
CLIENTE Então repete.
ATENDENTE Olha, vou botar o número da senhora mesmo.
CLIENTE Melhor. Que tudo sempre acaba voltando pra mim de qualquer jeito.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

Desencontrários

Drácula

Quando me encontrei com o Conde Drácula, por uma destas noites de inverno, na Esquina dos Ventos Uivantes, tinha ele o aspecto de um grande guarda-chuva de varetas quebradas. Foi o que eu lhe disse. Ele deu meia-volta e partiu revoando, aos solavancos, decerto para quebrar a cara do diretor do filme... Esses pobres monstros ainda não compreenderam toda a grandeza da sua verdadeira tragédia, que é a tragédia do ridículo.

Mário Quintana, em Caderno H

Parte I | Você trouxe todas as palavras


1.

Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes. Alguém me enterrou. Bichos alisavam minha língua, rastejavam pelos ouvidos e por outros caminhos para dentro das carnes. Debaixo do chão era uma agonia gelada, molhada, fedida. Não sentia braços e pernas no breu daquela cova. Perdi a noção do meu corpo, achei que me transformaria em um bicho morto, me desfazendo até virar pó. Ninguém sabe o que fazer na hora da morte.
Quando eu já suplicava pelo fim, o buraco me apertou como uma mão gigante de terra, envolveu meu corpo inteiro e começou a me expulsar. Os olhos lacrados, a hora do parto, a boa hora de Nossa Senhora, as palavras se repetiam no pensamento tomado de desespero.
Comecei a sentir os músculos, ossos, nervos, minha pele toda invadida pelo espírito impetuoso de um parafuso, a forma humana preservada, não virei bicho nem pó. Girava para cima com ritmo e firmeza, sem fazer esforço, na pressão lenta da terra, cada vez mais forte ao redor do meu eixo, apertando dos lados, empurrando no meio das pernas, pelas plantas dos pés. O monstro subterrâneo estava decidido sobre meu destino: queria me expulsar dali.
Dois pares de braços surgiram cavando, falando, abrindo espaço para a luz. Buscavam por mim. Duas mãos encontraram meu pescoço, seguraram pelos lados e puxaram com força. Outro par de mãos agarrou minha cabeça. Ouvia suas vozes apressadas comentando como era pesada, cuidado para o pescoço não quebrar e matar de uma vez, puxe o braço com jeito para não arrancar o ombro, que pele fria, será que a criatura está viva? e se sair morta, o que faremos? deixa de asneira, eles saem vivos sempre, você sabe que é assim.
Os dois mudaram a estratégia e me arrancaram pelas axilas com vigor e gemidos de esforço. Atravessei a terra tossindo muito. É uma rapariga, ela disse. Passou um pano molhado no meu rosto e repetia que estava tudo bem, que era preciso calma, enquanto um homem me enrolava em duas mantas, cobria meus peitos e minhas costas. Eu estava nua, com medo e morrendo de ódio daquela mulher me chamando de rapariga. Um sopro gelado no rosto esfriou as gotas na minha pele e parecia congelar. Ainda não enxergava bem, não ouvia com clareza, achava estranhas aquelas vozes, escutava tudo sem entender nada, delirava sobre morrer.
Voltei a enxergar graças ao zelo dela, limpando minhas pálpebras com muita paciência. Meu corpo estava completamente nu e sem pelos em nenhum lugar. Passei a mão na cabeça e gritei, assustei os dois. Estava careca. Os cabelos ficam no caminho, o chão arranca, a mulher disse, mas logo vão crescer, não te preocupes. Falava o essencial e continuava limpando com cuidado, as orelhas, a pele, o pescoço, o dedo enrolado em um tecido fino cutucava os ouvidos. Suas mãos me devolviam a dignidade, seus olhos não largavam de mim.
De vez em quando ela pedia que eu não ficasse nervosa, que me acalmasse, que me daria sopa com pão, chá quente e boa dormida. Todos vocês chegam com muita fome, depois dormem uns dias, ela disse, quando acordar arranjaremos sua vida, sem susto nem espanto. Não adiantava tentar me acalmar, tudo era puro assombro. Perguntou se eu conseguiria ficar em pé e colocar meus braços sobre os ombros deles. Estava fraca demais. O homem me pegou no colo e me levou até a casa, perto da cova de onde saí.
Tentei falar, mas tossi de novo. Entramos pela porta de trás e fomos direto para um pequeno quarto, ao lado da cozinha. Os dois me deixaram em uma poltrona larga de couro marrom, forrada com alguns lençóis em um local escuro e bagunçado.
Senta-te aqui, fica parada, não sai por enquanto. É preciso permanecer mais ou menos meia hora sentada para que o sangue volte a correr direito pelo corpo e a pressão regularize, o homem explicou nesses termos. Depois deveria tomar banho. Antes de deixar o quarto ele levantou minhas duas pernas e as apoiou em um pequeno banco, também forrado com uns trapos manchados, dizendo que era para ajudar a ativar a circulação. Abriu uma maleta de couro e me examinou com aparatos de médico. Respiração. Lanterna nos olhos e ouvidos. Aperto no braço, na barriga com sua mão fria e avermelhada. Disse que parecia estar tudo bem, por enquanto, só muito suja por dentro, mas iria melhorar com os dias.
A mulher voltou com outra toalha, limpando meus pés. Eu seguia atenta às temperaturas, à benevolência dos exames do doutor, à certeza dos olhos dela. Na parede ao lado da cama havia um batente alto de alvenaria cheio de velas antigas, de cores e de formatos diferentes, ceras derretidas, retorcidas, pavios dormindo. Ela acendeu algumas antes de sair, deixou fogo e luz. Senti cheiro de estrume, passei muito tempo com aquele fedor de enterro por dentro do meu nariz, mesmo dias depois de estar limpa.
Um pouco de chá amargo, um prato de sopa e um pedaço de pão. Foi a primeira refeição que fiz com eles, enquanto me observavam.
— Deixa a chávena aqui na mesa, assim tu tomas a sopa na bandeja com mais jeito.
Eu não sabia o que era chávena. Quase bebi a sopa direto do prato, de tanta fome. Comi o pão de uma vez e ainda tossia, engasgava, mas o desespero pela comida era maior. O chá quente dissolveu a terra da garganta, um alívio.
Agora podes tomar banho, ela autorizou, arrumando na cadeira ao lado da banheira um pijama de flanela azul, de tamanho bem maior que o meu; um par de meias, um vestido preto, um casaco verde, roupa de baixo, um pedaço de sabão. Enquanto eu comia, eles encheram uma banheira com água tão quente que fumaçava, ali dentro do quarto mesmo. Faziam tudo juntos, sincronizados, pareciam treinados para aqueles gestos de cuidar de uma morta-viva. A água caía na banheira de ferro antiga e de pés elegantes. Ao lado havia uma cama e um baú.
— Demora-te no banho, lava as partes todas, esfrega-te com esta esponja. Tenho outras, arranjei um pacote quando soube que tu chegarias, podes usar tudo. Limpa os dentes, é importante tirar a sujeira das gengivas também. Descansa, depois do banho tu podes dormir, a cama está pronta.
Ela adivinhou meu desejo de falar e avisou que não seria bom fazer muito esforço nos primeiros dias.
— Eu sou Florice. Este é o doutor Fernando, meu marido. Ele é médico, saberá fazer o que for preciso para recuperar tua saúde. Depois tu me dizes o teu nome.
Seria impossível descansar com tanto nojo da minha imundície. Tirei os panos de cima de mim e entrei na banheira para passar o frio, o corpo nu, tonto e fraco, sem equilíbrio. Fechei os olhos dentro da água, a perfeição da temperatura, um lago de alívio sob a luz das velas. Parecia lógico e prudente aceitar que algo gravíssimo acontecera. Voltei a achar, dessa vez com calma, que eu estava morta. Alguém me matou e tudo ao meu redor era o além. Então era assim a Morte, uma senhora de olhos azuis chamada Florice, prestimosa, racional, um pouco apreensiva, mas jamais surpresa. Uma aberração surgiu do solo, no quintal, mas isso não alterava sua calma, como se me conhecesse.
Se fosse uma situação real, com pessoas vivas, não sei o que teria sido de mim, onde eu teria sido largada, chamariam a polícia, pensava tudo isso ao mesmo tempo, minha cabeça acelerada. Cheguei a me convencer de que talvez aquilo fosse uma área de transição, um descanso para o que viria depois. Vida e morte são mistérios que ninguém alcança. Tudo o que se fala sobre nascer e morrer é mera aposta. A morte é dolorosa, mas talvez o nascimento seja pior, e minha desgraça estava ali, entre uma coisa e outra.
Era estranho que o corpo doesse tanto, nos músculos, na pele, aquela dor de cabeça, sentir fome, sentir frio, ter a carne tão viva ainda. O desligamento das sensações viria aos poucos, devia ser assim.
Alisei meu corpo com as mãos buscando algo que explicasse o acontecido: tiro, facada, ferida, inchaço, costura, tumor. Achei um corte no braço esquerdo, fundo, do ombro ao cotovelo, e outro no pescoço, e machucados, pontos roxos, arranhões, pancadas. Os cortes maiores não sangravam, mas estavam abertos e com terra por dentro. Ardia. Eu não estranhava minha própria pele. Fui capaz de alguma maneira, apertei minhas coxas, achei tudo forte, farto, os músculos, as carnes, os seios, as pistas eram só essas. A última esperança que tinha era o corpo, minha única posse, mesmo sem saber se eu era só uma sobra de vida que desapareceria com os dias.
Mergulhei. A banheira era larga e funda o suficiente para ficar uns segundos imersa. Foi quando percebi um colar de búzios boiando, preso ao meu pescoço, cheio de areia que saía de dentro das conchas e se dissolvia na água, e que veio comigo não sei de onde, em testemunho de não sei o quê. Recobrei um pouco da lucidez. Até hoje, quando estou confusa, cuido do meu corpo, lavo a cabeça, deixo que a água me ajude a voltar para a minha pele.
A temperatura foi baixando muito rápido e tive de sair da banheira, me enxugar, vestir a roupa, as meias, calçar os estranhos sapatos de esquentar pés e abrir a porta para tentar chamá-la. Havia voz: Florice! Ela veio correndo com o marido e perguntei se eles sabiam como eu morri, se estava mesmo morta, onde era aquele lugar, tudo atropelado.
— Ela fala brasileiro — Fernando disse, sorrindo, pois para ele era boa notícia.
Perguntaram meu nome. Não lembrava. Não havia nenhum registro de resposta nos meus pensamentos para a pergunta que coloca uma pessoa na vida de outra.
Nada aparecia na cabeça, imagem, lembrança, nenhuma pessoa, isso me desesperou e eles disseram que seria melhor dormir, pois a chegada confunde as ideias, no dia seguinte eu lembraria de tudo.
— E se eu não lembrar?
— Todos lembram.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

24/09/2026

Erasmo Carlos | Convite Para Nascer de Novo

Calvin

1641 – Lima

Ávila

Interrogou milhares e milhares de índios, sem encontrar um que não fosse herege. Destruiu ídolos e adoratórios, queimou múmias; raspou cabeças e esfolou costas a chibatadas. Em seu caminho, o vento da fé cristã purificou o Peru.
O sacerdote Francisco de Ávila tem sessenta e cinco anos quando vê que as forças o abandonam, anda meio surdo e sente que até a roupa dói; e decide que não se irá do mundo sem conseguir o que vem querendo desde que era menino. Solicita, então, seu ingresso na Companhia de Jesus.
– Não,
responde o reitor dos jesuítas, Antonio Vazquez.
– Não,
porque por mais que diga que é homem douto e grande lenguaraz, Francisco de Ávila representa sua condição de mestiço.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Azo de almirante



Longe, atrás uma de outra, passaram as mais que meia dúzia de canoas, enchusmadas e em celeuma, ao empuxo de remos, a toda a voga. O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer. Iam rumo ao Calcanhar, aonde se preparava alguma desordem. De um Hetério eram as canoas, que ele regia. Despropósito? O caso tem mais dúvida.

Eventos vários. Em fatal ano da graça, Hetério sobressaíra, a grande enchente de arrasar no começo de seus caminhos. Fora homem de família, merecedor de silêncio, só no fastio de vi­ver, sem hálito nem bafo. O gênio é punhal de que não se vê o cabo. Não o suspeitavam inclinado ou apontado ao êxito no século.
Na cheia, por chuvas e trombas, desesperara-se o povo, à estraga, em meio ao de repente mar — as águas antepassadas — por cima o Espírito Solto. Hetério teve então a suscitada.
Ajuntou canoas e acudiu, valedor, dado tudo, sabendo lidar com o fato, o jeito de chefe. Ímpetos maiores nunca houve, coisa que parecia glória. Salvou, quantidade. Voltado porém da socorreria, não achou casa nem corpos das filhas e mulher, jamais, que o rio levara.
Não exclamou. Não se pareceu mais com ninguém, ou ébrio por dentro, aquela novidade de caráter. Sacudia, com a cabeça, o perplexo existir, de dó sem parar, em tanta maneira. E nem a bola de bilhar tem caprichos cinemáticos. De modo ou ou­tro, já estava ele adquirindo as boas canoas, de que precisava.
Para o que de efeito. Destruíra-se a ponte da Fôa, cortando a estrada, ali de movimento. Hetério despachou-se para lá, tri­pulantes ele e os filhos, e outros moços, e arranjaram-se ao tra­vessio. Durado mais de ano, versaram aquilo, transpondo gente e carga, de banda para banda. Até cortejos de noivos passaram, sob baldaquim, até enterros, o bispo em pastoral, troços de soldados. Foi tudo justo. Obedeciam os outros a Hetério — o em posição personificada — o na maior, canoa barcaçosa, a caravela com caveiras.
Ao certo, nada explicava, ainda que de humor benigno, homem de cabeça perpétua; cerrando bem a boca é que a gente se convence a si mesmo. Morriam-lhe os inimigos, e ele nem por isso se alegrava, ao menos. Segue-se ver o que quisesse.
A ponte nova repronta, o bom ofício tocava a termo. Heté­rio, entretanto, se reaviara. Descobrira-se, rio acima, uma mu­lher milagreira jejuadora, a quem os crentes acorriam. Vieram também, para passadores, ele e os seus; todo o mundo é, de algum modo, inteligente. Travessavam, com acuração, os peregrinos da santa, aleijados, cegos, doentes de toda loucura e le­pra, o rico triste e o próximo precisado.
Semi-ator, Hetério, em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca, tivesse mudado talvez a lembrança da enchente e de sua ocasião de herói, que já era apenas virtude sem fama, um fragmento de lenda. Ao adiante, assim às águas — outras e outras. No rio nada durava.

Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas — de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente — de longe, soslonge.

Ainda não.
Seguindo-se antes outros atos. Desaparecida de lá a mulher beata, Hetério com os dele saíram-se imediatamente a mascatear, revendendo aos ribeirinhos mercadorias e miudezas, em faina de ciganos regatões. Sobe e descendo, nessa cabotagem trafegaram até a águas sãofranciscas, ou abocando a outros rios, as canoas mercantes separadas ou juntas, como de estanceio chegaram ao porto de Santo Hipólito e ao Porto-das-Galinhas, abaixo de Traíras, lugares de negócio, no das Velhas, de praias amarelas. Trazia ele então lápis e uma grande caderneta, em que assentava e repassava difíceis contas. Os que o seguiam, pensavam na riqueza.
Daí, vai, começou a construir-se barragem para enorme usina, a do Governo, em tumulto de trabalhadores, mil, totalmente, de dezenas de engenheiros. Rearvorado, logo Hetério lar­gou-se para lá, com seu lóide de canoas. Vales, a bacia, convertiam-se em remanso de imenso lago, em que podiam navegar com favor e proveito. Empreitaram-se, por fim, a contrato daqueles. Máquinas e casas, nas margens, barracões de madeira — e foi que um dos filhos de Hetério o deixou, para namorar e se casar. Hetério, ora, em oferecido tempo, encontrou um Normão, homem apaixonado, na maior imaginação. A paisagem ali tomava mais luz: fazia-se mais espelho — a represa, lisa — que não retinha, contudo, corpos de afogadas.
E esse Normão, propício, queria reaver sua mulher, que o pai guardava, prudente, de refém, na Fazenda-do-Calcanhar, beira­deã. Enquanto anos; e a usina deu-se por pronta. O rio não dei­xa paz ao canoeiro.

Assim ao de longe, contra raso sol, viu-se a fila de canoas, reta rápida, remadas no brilhar, com homens com armas, de Normão, que rumavam a rixa e fogo. Hetério comandava-as, defi­nitivo severamente decerto, sua figura apropriada, vogavante.

Certo, soube-se.
Aproaram aos fundos da do-Calcanhar, numa gamboa, e ata­caram, de faca em polpa. Troou, curto, o tiroteio. Normão, ven­cedor, raptada em paz a mulher, no ribanceiro acendeu fogueira de festa. As canoas todas entanto se perderam. Só na sua, Heté­rio continuou, a esporte de ir, rio abaixo, popeiro proezista, de levada, estava ferido, não a conduzia de por si, vogavagante; e seu outro filho na briga terminara, baleado.
Adiante, no travessão do Fervor, itaipava perigosa, a canoa fez rombo. Ainda ele mesmo virou-a então, de boca para baixo, num completamento. Safo, escafedeu-se de espumas, bra­cean­te, alcançou o brejo da beira, onde atolado se aquietou. Acha­ram-no — risonho morto, muito velho, velhaco — a qua­li­dade de sua pessoa.

Guimarães Rosa, em Tutameia

Preste atenção!

Quando discursarem, preste atenção ao que é dito e observe o que é efetuado a cada impulso. A priori, veja imediatamente o intuito por trás do que dizem. A posteriori, considere com cuidado o que querem dizer.

Marco Aurélio, em Meditações

Correnteza


5

“O pessoal está falando do menino, Rita.”
Rita Preta ouve a voz de Fátima. Emudece ao telefone. O mesmo arrepio que percorreu seu corpo dias antes a eletriza com intensidade. Quer saber o que aconteceu com o filho. “A polícia”, Fátima responde. Como de costume, escutou quando chegou do trabalho mais cedo. Ouviu o burburinho ao tentar encurtar o caminho passando pela rua de cima. Dona Conceição, uma senhora que mora perto da entrada da vila, ouviu de alguém, que por sua vez ouviu dos meninos que brincavam de futebol na rua. Quando seu Aranha passou pelo mesmo caminho uma hora depois, a mulher comentou com ele “à boca miúda”, para não causar alvoroço e ser chamada de X-9. De pronto, ele se dirigiu à casa de Rita Preta, mas não encontrou ninguém. Os filhos estavam na escola. Enquanto seu Aranha batia na porta de Rita, Fátima abria o portão de ferro para entrar em sua casa, com os cachorros festejando sua chegada. “É com Rita? É urgente?”, quis saber. O pedreiro se pôs a falar com reserva, receoso da lei que rege a comunidade. Tem as roupas sujas de cimento, está trabalhando na construção de um muro e, apesar da fama de bêbado, aparenta estar sóbrio. Mesmo sem querer se intrometer, decidiu procurar por Rita. Algo o toca naquela história: pensa nos próprios filhos e gostaria que lhe informassem se algo parecido acontecesse.
Procurou Rita porque ela era a mãe. Saberia o que fazer.
Fátima se certificou de que estava sozinha, com portão e porta fechados e de que ninguém a observava. Queria ter certeza de que não seria ouvida. Telefonou para Rita Preta, uma, duas, três vezes.
O telefone vibrou de forma insistente no bolso da calça. Rita está em seu turno no supermercado e registra item por item de uma compra. Depois de duas noites sem dormir, estava insustentável esconder dos colegas na loja seu cansaço e o tormento que a acompanha desde que o filho não voltou para casa. Ao finalizar aquela tarefa, equilibrando o inventário com a disposição dos itens em oito sacolas plásticas, ela retirou o telefone do bolso como se fosse se certificar da hora. Viu as chamadas de Fátima. “Deve ser urgente”, pensou, “ela quase não me telefona.” Precisa deixar o caixa para tentar falar com a comadre e saber do que se trata. Um fio de esperança indica que Cid voltou para casa. Ela pediu à supervisora para ir ao banheiro e aguarda por exatos quinze minutos para a plaquinha “caixa encerrado” ser colocada na esteira.
“Como assim a polícia? O que ele fez?”
Fátima fica muda, não sabe o que responder. Diz que seu Aranha não contou mais nada. Evoca os medos de Rita ao dizer que todos temem os “caras” e a polícia.
Contudo, apesar da aflição inicial, Rita Preta deixa crescer um sentimento de raiva pelo filho. Se pergunta sobre o que ele deve ter aprontado para ter sido levado à delegacia. Enumera seus problemas: faltar às aulas, o namoro, ficar de bobeira pela rua. Conclui que deve ter aprontado algo. Em meio ao turbilhão, desperta para o fato de que precisa deixar o supermercado naquele instante. Por vergonha, omitirá que Cid foi levado pela polícia e que precisa deixar o trabalho em busca de informações. Rita Preta então alega um mal súbito, enjoo e indisposição que só poderiam ser resolvidos num posto de saúde.
“Temos uma farmacinha no RH”, escuta da supervisora. Não resolveria nem uma fração de sua angústia no setor de recursos humanos — só se ganhasse na loteria dinheiro suficiente para ir até lá pedir demissão. Então, Rita finge tontura e esbarra de maneira proposital no extintor de incêndio. A supervisora é chamada de novo e a olha de cima a baixo. Rita Preta transpira mais que o normal, passa uma toalhinha no rosto. A supervisora decide liberá-la, fazendo contudo um breve histórico da falta de funcionários na equipe. Precisará encerrar o caixa que Rita opera naquele turno, já que não há substituto para o trabalho. Pede que Rita registre a saída antecipada no relógio de ponto e enfatiza que terá que voltar com um atestado médico.
Rita aparenta estar agradecida, mas em pensamento manda a mulher para um lugar sujo e lhe deseja o pior. Sai em disparada pelo salão do supermercado para pegar sua bolsa no armário individual. Não passa no vestiário para retirar o uniforme e deseja nunca mais voltar. Na portaria, abre a bolsa para que o segurança possa revistá-la e ter certeza de que não está levando algo da loja, enquanto ela própria observa ao seu lado uma pequena fila com três homens, o primeiro em posição de revista, braços abertos e pernas esticadas, sendo examinado por outro segurança.
Rita se dirige de imediato para o ponto de ônibus e, enquanto aguarda, decide telefonar para Jorge. Não faz ideia de onde ele esteja. Estiveram juntos há dois dias e recorda apenas que combinaram de se encontrar dali a uma semana. Sabe que se estiver com a mulher e os filhos não atenderá o telefone nem chamará de volta na hora. Se estiver dirigindo o caminhão na estrada, talvez atenda, mas pouco poderá fazer. Por sorte, ele atende. Está abastecendo o veículo.
“Levaram o menino.”
“Que menino?”
“Levaram Cid. Faz dois dias que ele não dorme em casa. Estão dizendo que foi a polícia.”
“O que ele aprontou?”
Rita se dá conta de que talvez tenha se precipitado ao telefonar para Jorge. Ele não pode fazer nada e ainda se acha no direito de duvidar de Cid — “O que ele aprontou?”. Ela é mãe e conhece bem cada um dos filhos — ou pelo menos acha que os conhece —, mas apenas ela poderia duvidar deles. Não admitiria que ninguém sugerisse algum desvio.
Uma hora e meia se passa no trajeto do supermercado até sua casa. Rita anda por ruas e vielas sem levantar a cabeça. Passa também por Fátima, que abre a porta no exato instante em que a comadre chega. Diz algo de que já não consegue se lembrar no segundo seguinte. Rita Preta entra em casa e encontra Juca escutando música no celular. Puxa os fones que ele tem no ouvido de forma abrupta, enquanto caminha para a cozinha. Pergunta se ele ouviu falar algo sobre o irmão. Não, foi a resposta. Vê a louça suja na pia, mas não consegue praguejar ou amaldiçoar a vida como faria num dia qualquer. Segue para o quarto sem janelas onde os filhos dormem e tudo está desarrumado, como sempre. Camas desfeitas, uniformes escolares dispostos numa cadeira de plástico branca ao lado da cama. Menos a de Cid. Rita Preta precisa pensar rápido por onde começar. Decide se dirigir à escola, ainda que não tenha certeza de que será atendida. Fátima continua na porta, à sua espera. Pergunta se ela precisa de ajuda e, mesmo sem resposta, se junta a Rita naquele início de busca.
“Se esse menino fez coisa errada, Fátima, ele vai me pagar.”

Em que momento — em que fração de tempo, em que ponto do espaço — o corpo de Rita foi atravessado por um arrepio? Talvez tenha sido caminhando pelos becos estreitos enquanto as sombras dos sobrados sem reboco se projetavam no chão. Ou ao chegar ao ponto de ônibus e ser tomada de assalto pela dúvida, se tinha ou não trancado a porta de casa para impedir um furto ou algo pior. Talvez tenha sido ao recordar que não passara no quarto sem janelas para se certificar de que os filhos dormiam e saber se haviam retornado para casa. Ou ainda foi quando disse sem motivo aparente, “Meu Deus”, distraída de tudo, mas surpreendida por um sopro carregado de sentidos capazes de fazer estremecer qualquer coisa viva.
A razão desse arrepio foi tragada pelas distrações de um dia comum: pelo barulho do velho motor do ônibus apinhado de gente, vencendo as lombadas no asfalto e fazendo com que os corpos se movimentassem mais do que deveriam; o telefonema que não foi atendido e a imaginação vagando à procura do que o amante estaria fazendo naquele instante; as contas das despesas domésticas que nunca fecham no fim do mês. A recordação desse leve tremor foi ofuscada pela velocidade da caminhada de Rita e pelo cartão de registro de ponto do supermercado. A memória do arrepio foi obliterada pelas máquinas registradoras e pela esteira rolante emperrada com as compras dos clientes. Pelos conflitos e queixas compartilhados com os outros trabalhadores. Pelos clientes que exigiam as compras ensacadas com zelo e rigor, e por sua supervisora pedindo mais celeridade no escaneamento dos alimentos. Pela repetição sem fim dos movimentos que a faziam se sentir distante da terra, um pássaro sem local para pousar.
Não saberia mais dizer se foi depois do arrepio que pediu para ir ao banheiro e esperou com paciência por minutos a fio. Se foi depois de lavar o rosto e escapar para a área de desembarque de mercadorias onde havia um telefone público sem uso. Com certeza, isso ocorreu antes de telefonar de volta para Fátima, e depois para Cainho, e, por fim, para o número de telefone de Cid que permanecia desligado.
Contudo, o mal-estar veio junto com a sensação de que o chão sob seus pés desmoronava. Rita já tinha experimentado aquela agitação outras vezes, uma combinação de aflição e de espanto. A primeira foi quando sua mãe saiu de casa dizendo que iria trabalhar na cidade e que voltaria quando encontrasse um lugar para abrigar os filhos. Nunca mais voltou. Aquela ausência fez Rita encontrar seu primeiro desamparo. Depois, o rio, a morte, e a vida se segurando numa ilha de mato, resistindo à correnteza brutal. A segunda foi quando uma mulher bem-vestida apareceu à porta da casa da fazenda, a casa perdida num grotão do campo vasto, onde o vento se transmutava em sons e as folhas dos juazeiros resistiam, formando uma sinfonia com os chocalhos das mirradas reses. Rita seria levada para trabalhar na cidade. Mas, por ironia, no dia em que ela deixou a casa onde havia morado desde o nascimento, o vento era uma aragem e as folhas das árvores permaneciam imóveis e o gado jazia morto e sem os sons de seus chocalhos. Semanas antes, sua avó Carmelita havia amaldiçoado o rio, e depois de sua partida salgaria a terra, deixando que o céu desabasse sobre sua existência.
A terceira vez era o agora, a memória se fazendo no exato instante em que as coisas estão acontecendo. Foi quando chegou a casa onde vivia, incrustada no apinhado de outras casas na cidade. Anos e anos separam o primeiro evento desse outro, mas o sentimento de que o chão sob seus pés continua instável permanece o mesmo.
Todas as vezes anteriores que o chão parecia ter ruído sob seus pés vagavam longe em sua memória. Converteram-se em pequenos abalos diante da magnitude dos novos eventos.

Na escola, ela busca por informações sobre os passos do filho. Precisa falar com algum responsável, no entanto não consegue encontrar ninguém. Em sua cabeça vagueiam mil situações sobre o que poderia ter acontecido a Cid. Em seu rosto ainda não há tristeza, tampouco revolta. Não há lágrima nem hesitação. Há apenas uma mãe querendo desfazer um mal-entendido e disposta a negociar com qualquer pessoa uma reparação pelo erro cometido. Depois ela mesma cuidaria da punição, exerceria ainda mais controle sobre os filhos, tentaria mantê-los no “rumo certo”, como as mães que conhece costumam se referir ao caminho de renúncia do que não se tem.
A inquietação se instaura no peito de Rita Preta, impedindo-a de esperar pelos funcionários da escola. Ela se exalta e reclama para o segurança. O homem continua imóvel, apenas escuta, mas parece concordar. Rita levanta a voz e diz que sempre que necessita de algo da escola é preciso esperar bastante tempo. Sai a passos firmes. Fátima apenas a segue. Ela se dá conta da companhia e pergunta de novo onde ele estava quando foi levado.
“Na saída da vila, antes de chegar ao largo.”
Rita saiu com tanta pressa que não tirou o uniforme amarelo do trabalho. Transpira, e por isso pega uma pequena toalha para enxugar o suor que tem no rosto. É uma noite sem vento e o céu está coberto de nuvens. Um estágio do tempo chamado de mormaço; umidade e calor intensos anunciando chuva nas próximas horas. É o momento de maior movimento diário na rua, quando os trabalhadores estão voltando para casa.
Dona Conceição deixa o interior da sua casa com telhado de amianto e um bom tanque de policarbonato para armazenar água. Encontra Rita e Fátima à sua porta. Repete o que foi dito por seu Aranha.
“A senhora se lembra quem eram os meninos que disseram que a polícia levou Cid?”
“Uns meninos que jogam bola na rua de baixo. Eles passam sempre por aqui, mas não sei o nome de ninguém.”
É como se cada passo, cada pergunta, cada rosto novo en­contrado fosse levá-la a uma revelação, que por sua vez a conduziria para mais perto ou mais longe do filho. Rita Preta continua sua caminhada disposta a perguntar sobre o ocorrido a quem encontrar durante o trajeto, antes de procurar de novo a delegacia para relatar o desaparecimento e a suposta abordagem. Acelera os passos e diz a Fátima para não se preocupar, ela pode voltar para casa. A comadre conhece bem as qualidades e os defeitos de Rita, por isso finge não escutar, apenas a acompanha. Elas passam por uma calçada rente a um muro que cerca uma casa desconhecida. Rita olha para um tecido branco em destaque, hasteado como uma bandeira na altura de seus olhos. Se afasta para não esbarrar no objeto, mas ao chegar mais perto descobre que é uma camisa de uniforme escolar. Como a da escola dos filhos.
Na camisa está uma nódoa conhecida, uma mancha de caneta que nenhum alvejante conseguiu retirar.

Itamar Vieira Júnior, em Coração sem medo

23/09/2026

Arnaldo Antunes | Debaixo D'Água

 

Metamorfose, por Laerte

Anonimato

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Capítulo 97 – Entre a Boca e a Testa

Sinto que o leitor estremeceu, – ou devia estremecer.
Naturalmente a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, – a contração de um ressentimento –, a ruga da desconfiança – ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Barata



Aberto o envelope, susto: a barata dentro dele, imóvel, expectante, sobre o cartão!
Quem foi que teve ideia dessa brincadeira repulsiva? E como conseguiu que passasse pelo Correio sem esmagar a barata? Por que ela está viva, vivinha da silva & santos. Não se mexe é de sabida.
— Joga fora essa imundície! Ou antes, não jogue…
Esta é uma barata de lei, com cerca de cento e cinquenta anos de existência. Criação verista de Debret, sua reprodução da capa do convite para a exposição de inéditos do artista é de tal modo convincente que engana qualquer um.
Ou não engana, é a barata mesmo, e mesma. As outras, que circulam entre farelos e sombras, têm existência miseravelmente curta. Desprezadas e combatidas, que ninguém quer saber de barata em casa. Mas se foi Debret que a viu, assuntou, desenhou, coloriu, vale uma nota firme, e a esta hora está alegrando a vista do colecionador que a comprou do marchand Luís Buarque de Holanda:
— Barata linda!
— Amor de barata!
— Que barato de barata!
E a baratinha, iaiá, a baratinha, ioiô, está se rindo por dentro, se é que barata ri, por dentro ou por fora, da vária fortuna dos seres (e das coisas) no plano real e no plano ideal. Barata ao vivo é nojenta, chinele-se a bicha. Barata pintada é arte. Maçã na casa de frutas, ferra-se o dente ou açucara-se em torta, vita brevis, e não se fala mais nisso. A maçã de Cézanne, mas para que a maçã? as cebolas de Cézanne, e mais a garrafa de rouge, o copo com vinho pela metade, a rolha, a faca, a toalha embolada, em Nature Morte aux Oignons, refutam o princípio de destruição inevitável das formas, pelo menos enquanto o quadro existir.
Ideia velha, barata nova. Debret foi mais documentarista do que criador, mas nem por isto sua barata é menos criação. Porque Debret pegou do bicho imundo e disse:
— Agora vou te dar vida longa, maior que a minha, vou te representar. Representar é ser outra vez, e mais. Tudo quanto posso fazer por mim, e por nós, é fazer-te e fazer-me. Representando-me, e aos objetos e cenas a que assisto (coroação, feira, inseto), asseguro a tudo a mais-valia de uma vida suplementar, que se chama vida das figuras, das aparências, que são mais do que as essências, pois estas se evolam, e aquelas persistem. Entendeste?
— Não — baratifalou a barata.
Nem era para entender: conversa de pintor ou de grafômano com o mundo em redor não tem sentido não, pois ele pergunta e ele mesmo responde, ou prossegue:
— Pensando melhor, a essência está na aparência, que nos propicia o conhecimento imediato do cosmo. O resto é imaginação ou confirmação. És habitante vil de um planeta confuso, que adotou padrões de classificação baseados em nada. Vil por quê? Por que assim te rotularam? Que achas das criaturas que te rotularam, ó barata minha?
A barata ia responder que por sua vez as achava asquerosas, mas silenciou, por medo ao chinelo, que é sempre argumento contrário às baratas, e fortíssimo. Preferível que esse cara (foi o seu raciocínio) continue a dizer bobagens e, dizendo-as, se esqueça de me aplastar. Quanto a ele me imortalizar, mesmo discretamente, isto é, por cento e cinquenta ou quinhentos anos, pouco se me dá. Eu sou aqui e agora, minha finitude me cerca por todos os lados, e tenho que curti-la. No papel, em imagem, não dá pé. Com licença, M. Debret — e escafedeu-se.
— Espera um pouco, falta só completar uma perninha!
Não sei se esperou. Sei que a representação é completa e fiel, tão fiel, tão vera, que a representação da representação, no convite, fez uma senhorita jogar fora papel e envelope, e correr para lavar as mãos:
— Ui, que horror! Uma baratona.
— Calma, ela é pintada.
— E daí? Parece mais real que uma verdadeira!
O maior elogio a Debret que já ouvi.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Diário de Bernardo Soares

131.

Não tendo que fazer, nem que pensar em fazer, vou pôr neste papel a descrição do meu ideal — Apontamento A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio; ser Homero ao luar.
Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e tática, naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que daqui estou vendo com as latas pequenas da graxa da nova marca.
Todos estes ideais, possíveis ou impossíveis, acabam agora. Tenho a realidade diante de mim — não é sequer o caixeiro, é a mão dele (a ele não vejo), tentáculo absurdo de uma alma com família e sorte, que faz trejeitos de aranha sem teia nó esticar-se da reposição cá à frente.
E uma das latas caiu, como o Destino de toda a gente.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

22/09/2026

A Lua e Eu | Emílio Santiago

Confia no teu corre

Confia no teu corre
e fica de boa.
Afia teu trampo
nas lâminas das incertezas,
todo mundo certo
não quer dizer
que você está errado.
Não ande com caranguejos
e sonhe com as mãos,
deixa o coração no presente
e os olhos no futuro.
Muitas vezes o sucesso fica no passado
e ser importante é para sempre.
Cuide da raiz e lapide as asas,
porque abaixo do radar também se voa.

Sérgio Vaz, em Flores da batalha

O regresso do mestre

Desde seus primeiros anos, Migyur — este era o seu nome — havia sentido que não estava onde tinha que estar. Sentia-se forasteiro em sua família, forasteiro em seu povoado. Ao sonhar, via paisagens que não pertenciam a Ngari: solidões de areia, tendas circulares de feltro, um mosteiro na montanha; e na vigília, estas mesmas imagens cobriam ou empanavam a realidade.
Aos dezenove anos fugiu, ávido de encontrar a realidade que correspondia a essas formas. Foi vagabundo, esmoler, trabalhador e as vezes ladrão. Hoje chegou a esta pousada perto da fronteira.
Viu a casa, a cansada caravana mongol, os camelos no pátio.
Atravessou o portão e se encontrou diante do velho monge que comandava a caravana. Reconheceram-se, então: o jovem vagabundo viu-se a si mesmo como um lama ancião, e viu o monge como este era há muitos anos, quando fora seu discípulo; e o monge reconheceu no rapaz o seu velho mestre, já desaparecido. Lembraram a peregrinação que haviam feito aos santuários do Tibete e o regresso ao mosteiro da montanha. Falaram evocaram o passado e se interrompiam para intercalar detalhes precisos.
O propósito da viagem dos mongóis era buscar um novo chefe para o seu convento. Fazia vinte anos que havia morrido o antigo, e eles em vão esperavam sua reencarnação. Hoje o tinham encontrado.
Ao amanhecer a caravana empreendeu sua lenta viagem de volta. Migyur regressava às solidões de areia, às tendas circulares de feltro e ao mosteiro de sua encarnação anterior.

Alexandra David-Neel, em Mystiques el Magiciens du Tibet

Mafalda

Antecipação

♦ Dizem que tento derrubar as coisas firmemente assentadas. Mas o que gosto mesmo é de puxar a cadeira dos que ainda nem sentaram.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Capítulo VIII – Festa



Fabiano, Sinha Vitória e os meninos iam à festa de Natal na cidade. Eram três horas, fazia grande calor, redemoinhos espalhavam por cima das árvores amarelas nuvens de poeira e folhas secas.
Tinham fechado a casa, atravessado o pátio, descido a ladeira, e pezunhavam nos seixos como bois doentes dos cascos. Fabiano, apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de beata, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória,enfronhada no vestido vermelho de ramagens, equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. Teimava em calçar-se como as moças da rua – e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certo de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em consequência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas.
Fabiano tentava não perceber essas desvantagens. Marchava direito, a barriga para fora, as costas aprumadas, olhando a serra distante. De ordinário olhava o chão, evitando as pedras, os tocos, os buracos e as cobras. A posição forçada cansou-o. E ao pisar a areia do rio, notou que assim não poderia vencer as três léguas que o separavam da cidade. Descalçou-se, meteu as meias no bolso, tirou o paletó, a gravata e o colarinho, roncou aliviado. Sinha Vitória decidiu imitá-lo: arrancou os sapatos e as meias, que amarrou no lenço. Os meninos puseram as chinelinhas debaixo do braço e sentiram-se à vontade.
A cachorra Baleia, que vinha atrás, incorporou-se ao grupo. Se ela tivesse chegado antes provavelmente Fabiano a teria enxotado. E Baleia passaria a festa junto às cabras que sujavam o copiar. Mas com a gravata e o colarinho machucados no bolso, o paletó no ombro e as botinas enfiadas num pau, o vaqueiro achou-se perto dela e acolheu-a.
Retomou a posição natural: andou cambaio, a cabeça inclinada. Sinha Vitória, os dois meninos e Baleia acompanharam-no. A tarde foi comida facilmente e ao cair da noite estavam na beira do riacho, à entrada da rua.
Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se – e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor. Em seguida tentou prender o colarinho duro ao pescoço, mas os dedos trêmulos não realizaram a tarefa. Sinha Vitória auxiliou-o: o botão entrou na casa estreita e a gravata amarrou-se. As mãos sujas, suadas, deixaram no colarinho manchas escuras.
– Está certo, grunhiu Fabiano.
Atravessaram a pinguela e alcançaram a vila. Sinha Vitória caminhava aos tombos, por causa dos saltos dos sapatos, e conservava o guarda-chuva suspenso, com o castão para baixo e a biqueira para cima, enrolada no lenço. Impossível dizer porque Sinha Vitória levava o guarda-chuva com biqueira para cima e o castão para baixo. Ela própria não saberia explicar- se, mas sempre vira as outras matutas procederem assim e adotava o costume.
Fabiano marchava teso. Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam devagar, receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os, homens iriam brigar. Seria que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a aguentar cascudos e puxões de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinha Vitória, mas os pequenos retraíam-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos.
Chegaram à igreja, entraram. Baleia ficou passeando na calçada, olhando a rua, inquieta. Na opinião dela, tudo devia estar no escuro, porque era noite, e a gente que andava no quadro precisava deitar-se. Levantou o focinho, sentiu um cheiro que lhe deu vontade de tossir. Gritavam demais ali perto e havia luzes em abundância, mas o que a incomodava era aquele cheiro de fumaça.
Os meninos também se espantavam. No mundo, subitamente alargado, viam Fabiano e Sinha Vitória muito reduzidos, menores que as figuras dos altares. Não conheciam altares, mas presumiam que aqueles objetos deviam ser preciosos. As luzes e os cantos extasiavam-nos. De luz havia, na fazenda, o fogo entre as pedras da cozinha e o candeeiro de querosene pendurado pela asa numa vara que saía da taipa; de canto, o bendito de Sinha Vitória e o aboio de Fabiano. O aboio era triste, uma cantiga monótona e sem palavras que entorpecia o gado. Fabiano estava silencioso, olhando as imagens e as velas acesas, constrangido na roupa nova, o pescoço esticado, pisando, em brasas. A multidão apertava-o mais que a roupa, embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-peito, andava metido numa caixa, como tatu, mas saltava no lombo de um bicho e voava na catinga. Agora não podia virar-se: mãos e braços roçavam-lhe o corpo. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. A sensação que experimentava não diferia muito da que tinha tido ao ser preso. Era como se as mãos e os braços da multidão fossem agarrá-lo, subjugá-lo, espremê-lo num canto de parede. Olhou as caras em redor. Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite. Soprava e esforçava-se inutilmente por abanar-se com o chapéu. Difícil mover-se, estava amarrado. Lentamente conseguiu abrir caminho no povaréu, esgueirou-se até junto da pia de água benta, onde se deteve, receoso de perder de vista a mulher e os filhos. Ergueu-se nas pontas dos pés, mas isto lhe arrancou um grunhido: os calcanhares esfolados começavam a afligi-lo. Distinguiu o cocó de Sinha Vitória, que se escondia atrás de uma coluna. Provavelmente os meninos estavam com ela. A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a cabeça da mulher, Fabiano precisava estirar-se, voltar o rosto. E o colarinho furava-lhe o pescoço. As botinas e o colarinho eram indispensáveis. Não poderia assistir à novena calçado em alpercatas, a camisa de algodão aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como tinha religião, entrava na igreja uma vez por ano.
E sempre vira, desde que se entendera, roupas de festa assim: calça e paletó engomados, batinas de elástico, chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela. Supunha cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposição esmorecia: o espinhaço vergava, naturalmente, os braços mexiam-se desengonçados.
Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis. Da última vez que se tinham encontrado houvera uma confusão de números, e Fabiano, com os miolos ardendo, deixara indignado o escritório do branco, certo de que fora enganado. Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes. Sabia que a roupa nova cortada e cosida por Sinha Terta, o colarinho, a gravata, as botinas e o chapéu de baeta o tornavam ridículo, mas não queria pensar nisto.
– Preguiçosos, ladrões, faladores, mofinos.
Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins. Mordeu os beiços. Não poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor aguentara facão e dormira na cadeia. Ora, o soldado amarelo... Sacudiu a cabeça, livrou-se da recordação desagradável e procurou uma cara amiga na multidão. Se encontrasse um conhecido, iria chamá-lo para a calçada, abraçá-lo, sorrir, bater palmas. Depois falaria sobre gado. Estremeceu, tentou ver o cocó de Sinha Vitória. Precisava ter cuidado para não se distanciar da mulher e dos filhos. Aproximou-se deles, alcançou-os no momento em que a igreja começava a esvaziar-se.
Saíram aos encontrões, desceram os degraus. Empurrado, machucado, Fabiano tornou a pensar no soldado amarelo. No quadro, ao passar pelo jatobá, virou o rosto. Sem motivo nenhum, o desgraçado tinha ido provocá-lo, pisar-lhe o pé. Ele se desviara, com bons modos. Como o outro insistisse, perdera a paciência, tivera um rompante. Consequência: facão no lombo e uma noite de cadeia.
Convidou a mulher e os filhos para os cavalinhos, arrumou-os, distraiu-se um pouco vendo-os rodar. Em seguida encaminhou-os as barracas de jogo. Coçou-se, puxou o lenço, desatou-o, contou o dinheiro, com a tentação de arriscá-lo no bozó. Se fosse feliz, poderia comprar a cama de couro cru, sonho de Sinha Vitória. Foi beber cachaça numa tolda, voltou, pôs-se a rondar indeciso, pedindo com os olhos a opinião da mulher. Sinha Vitória fez um gesto de reprovação, e Fabiano retirou-se, lembrando-se do jogo que tivera em casa de seu Inácio, com o soldado amarelo. Fora roubado, com certeza fora roubado. Avizinhou-se da tolda e bebeu mais cachaça. Pouca a pouco ficou sem-vergonha.
– Festa é festa.
Bebeu ainda uma vez e empertigou-se, olhou as pessoas desafiando-as. Estava resolvido a fazer uma asneira. Se topasse o soldado amarelo, esbodegava-se com ele. Andou entre as barracas, emproado, atirando coices no chão, insensível às esfoladuras dos pés. Queria era desgraçar-se, dar um pano de amostra àquele safado. Não ligava importância à mulher e aos filhos, que o seguiam.
– Apareça um homem! berrou.
No barulho que enchia a praça ninguém notou a provocação. E Fabiano foi esconder-se por detrás das barracas, para lá dos tabuleiros de doces. Estava disposto a esbagaçar-se, mas havia nele um resto de prudência. Ali podia irritar- se, dirigir ameaças e desaforos a inimigos invisíveis. Impelido por forças acautelava-se. Sabia que aquela explosão era perigosa, temia que o soldado amarelo surgisse de repente, viesse plantar-lhe no pé a reiúna. O soldado amarelo, falto de substância, ganhava fumaça na companhia dos parceiros. Era bom evitá-lo. Mas a lembrança dele tornava-se às vezes horrível. E Fabiano estava tirando uma desforra. Estimulado pela cachaça, fortalecia-se: – Cadê o valente? Quem é que tem coragem de dizer que eu sou feio? Apareça um homem.
Lançava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ninguém apareceu. E Fabiano roncou alto, gritou que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, supôs que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. Insultou-os:
– Cambada de...
Parou agoniado, suando frio, a boca cheia de água, sem atinar com a palavra. Cambada de quê? Tinha o nome debaixo da língua., E a língua engrossava, perra, Fabiano cuspia, fixava na mulher e nos filhos uns olhos vidrados. Recuou alguns passos, entrou a engulhar. Em seguida aproximou-se – figura novamente das luzes, capengando, foi sentar-se na calçada de uma loja. Betava desanimado, bambo; o entusiasmo arrefecera. Cambada de que? Repetia a pergunta sem saber o que procurava. Olhou de perto a cara da mulher, não conseguiu distinguir-lhe os traços. Sinha Vitória perceberia a atrapalhação dele?
[...]

Graciliano Ramos, em Vidas Secas