09/08/2026

Diamante | Elilson José Batista, Zelitto Coringa e José de Castro

 

Pelada de barranco – XVII

Nada havia de mais prestante em nós senão a infância.
O mundo começava ali. Nosso campo encostava na beira
do rio. Um menino Guató chegava de canoa e embicava
no barranco. Teria remado desde cedo para vir ocupar
a posição de golquíper no Porto de Dona Emília Futebol
Clube. Nosso valoroso time. As cercas laterais do campo
eram de cansanção. Espinheiro fechado pra ninguém botar
defeito. Guató já trazia do barranco duas pedras para servir
de balizas. Os craques desciam da cidade como formigas.
José de Camos, nosso beque de espera também tinha a
incumbência de soprar as bexigas. Porque a nossa bola
era de bexiga, que às vezes caiam no rio e as piranhas
devoravam. E se caísse no cansanção os espinhos furavam.
Nosso campinho por miúdo só permitia times de sete:
O goleiro, um beque de espera, um beque de avanço e
três na linha. Chambalé nosso técnico impunha regras:
só pode mijar no rio e não pode jogar de botina.
Sabastião era centroavante. Chutava no rumo certo. Sabia
as variações da bexiga no vento e botava no grau certo.
Quando alguém enfiava as unhas na pedra abria uma vaga.
Metade de nossos craques eram filhos de lavandeiras e
outra metade de pescadores. Na aba do campo a namorada
do Sabastião torcia: quebra esse saba, destina eles pras
piranhas. Mas Chambalé não deixava destinar. Quem destina
é Deusi – falava. No fim do jogo alguns iam bater bronha,
outros iam no mato jogar o mantimento e outros iam
pelotear passarinho. Guató pegava a canoa e remava até
a aldeia a mil metros dali. A cidade onde a gente morava
foi feita em cima de uma pedra branca enorme. E o rio
paraguaio, lá embaixo, corria com suas piranhas
e os seus camalotes.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Cristo



Quando a febre do meu irmãozinho começou a subir é que tudo isso teve início.
Deixei de ir à escola tantos dias que comecei a achar que nunca tinha ido, que desde que nasci tudo que eu fizera fora cuidar do meu irmão. Eu ficava em casa enquanto ela ia trabalhar e lhe dava as colheradas do xarope cor-de-rosa de hora em hora e do xarope transparente de quatro em quatro.
Ela tinha me dado um relógio de números grandes de presente de aniversário.
O bebê era levinho, levinho. Era como carregar papel de presente amassado nos braços. Não ria. Quase nunca abria os olhos.
Certa noite, um dos amigos da minha mãe fez um buraco na porta do banheiro, cansado de ouvi-lo chorar.
— Faça o bebê ficar quieto — ele dizia à minha mãe. — Faça essa criatura de merda se calar. Faça esse monstro ficar quieto, ele saiu assim porque você é uma puta, mate essa coisa.
Repetia esses palavrões e dava golpes na porta.
Era melhor que batesse na porta do banheiro e não no meu irmãozinho. E não nela. Mas ele batia um pouco nela também.
Não voltamos a ver esse amigo da minha mãe e se tornou mais difícil comprar o xarope cor-de-rosa e o xarope transparente, e ela fazia com que durasse mais misturando-lhe um pouco de água fervida.
Ela apertava as mãos enquanto esperava para tirar o termômetro do meu irmãozinho. Elas ficavam lívidas depois. E ela fazia um barulhinho depois de sacudi-lo no ar e olhá-lo debaixo de uma lâmpada. Um barulhinho com a língua e os dentes. Quando ela não fazia isso, significava que meu irmãozinho estava num dia bom.
Em alguns finais de semana, ela me mandava ficar com meus avós.
Vovô Fernando me levava primeiro ao cemitério para visitar sua mãe morta, Rosita. Depois íamos a La Palma tomar Coca-Cola com sorvete de baunilha. Uma menina com seu avô. De vestido. Sem irmãos. Filha única. Mimada. Tudo isso acabava muito rápido e logo já era segunda-feira.
Uma tarde, enquanto eu assistia ao desenho do Pica-Pau, meu irmãozinho começou a chorar. Não fui ver. Era a hora do xarope cor-de-rosa. Não fui dar. Queria ver o Pica-Pau. Inteiro. Por uma vez vê-lo inteiro, sem olhar para o relógio de números grandes, sem medir o xarope na colherinha de plástico branco, sem lutar para que ele engolisse e sujar minha roupa e ficar fedendo, como sempre, a remédio. Queria cheirar a menina que assiste ao Pica-Pau e mais nada. Eu ria até nas partes que não eram engraçadas. Muito alto, muito alto, como o Pica-Pau, para encobrir o choro do meu irmãozinho.
Depois de um tempo, o desenho acabou e começou Os Flintstones. Também assisti inteirinho.
Quando fui ver, meu irmãozinho tinha deixado de gritar. Toquei nele. Foi como encostar os dedos numa vela quente.
Chamei a vizinha, e a vizinha chamou minha mãe.
— Você deu o xarope cor-de-rosa pra ele?
Fiz que sim com a cabeça.
O médico lhe mandou um xarope verde e supositórios.
Mamãe me ensinou a colocar os supositórios. Eu não queria. Meu irmãozinho gritava como aquele cachorro marrom que foi atropelado por um táxi na frente de casa e ficou ali estirado, com as tripas para fora, mas vivo. Ele gritava igualzinho, igualzinho.
Cor-de-rosa, transparente, verde e supositório.
No dia seguinte, deixamos meu irmão com meus avós e fomos ao Cristo do Consuelo, que era o bairro negro, o bairro proibido. Minha mãe e eu éramos, ali, como as bolinhas de sorvete de baunilha flutuando na Coca-Cola.
Uma senhora negra, muito gorda, com um turbante vermelho na cabeça, disse à minha mãe que tivesse fé.
— Tenha fé, dona. Esse Cristo é milagroso.
Depois lhe pediu dinheiro, algumas moedas. Por que ela não pedia ao Cristo? Se era tão milagroso, devia estar cheio de moedas, não como nós que, às vezes, andávamos a pé porque não tínhamos dinheiro para o ônibus.
A senhora negra do turbante vermelho vendeu à minha mãe um menininho de brinquedo para ser pendurado nas vestes de cor púrpura do Cristo. Quando entramos na igreja, havia tantos bonequinhos iguais a ele! E coraçõezinhos e perninhas e bracinhos e cabecinhas e outras partes que não reconheci. E fotos e cartas e bilhetes e desenhos. Uma das cartas dizia “me ajude, senhor, tenho só nove anos e câncer”.
— Mamãe? — perguntei. — Como Cristo vai saber qual desses é meu irmãozinho?
— Porque Ele é muito inteligente.
O cheiro lá dentro era estranho. Cheirava a coisa velha, a pó, a como quando eu não lavo o cabelo há muitos dias, a abafado, a quando a luz vai embora.
Antes de sairmos, mamãe pegou uma lata de molho de tomate Los Andes e a encheu com água de uma torneira.
— Água benta — disse. — Água do Cristinho, água santa.
Ela me deu um gole, mas não tinha gosto de santa, e sim de molho de tomate e um pouco de ferrugem e pensei que uma água de molho de tomate, como a que colocamos no arroz branco no final do mês, quando está acabando, não podia ser milagrosa. Tinha que ter gosto de doce de leite, de hambúrguer duplo. Não um gosto de pobre. Com aquela porcaria na boca, senti vontade de gritar para todo mundo que eles estavam equivocados, que aqui não havia mais milagre além da senhora do turbante vermelho recebendo moedas por vender pedacinhos de corpo e corpinhos inteiros para pregar no manto de um Cristo que tem gosto de molho de tomate insosso. Ali ficou meu irmãozinho, ou seja, um bonequinho tão deformado quanto ele, rodeado de centenas de outros bonequinhos igualmente horrorosos e cabeças e braços e pernas e corações, como se houvesse acontecido uma explosão.
— Ele tem que ficar aí — minha mãe ficou furiosa.
E eu chorei durante todo o caminho para casa porque me dei conta de que ela também não sabia o que estava fazendo.
Em casa, mamãe deu um pouco daquela água ao meu irmãozinho e jogou-a na cabeça dele. Ele abriu os olhos e mostrou sua boca, seus dentes. Finalmente. Ele nos sorria.
Assim, com aquele sorriso, nós o colocamos na semana seguinte numa caixa branca, pequenina, que o bairro fez uma vaquinha para comprar.
Voltei à escola. Outra vez à quarta série, onde sou enorme e não tenho amigos.
Quando me perguntam se tenho irmãs ou irmãos, penso no menininho que está pendurado no manto do Cristo do Consuelo e digo que não.
Eles não iam entender.

María Fernanda Ampuero, em Rinha de galos

Correndo para a existência

Algumas coisas estão correndo para a existência e outras se retirando dela apressadamente. Parte do que está surgindo já se extinguiu. O movimento e a mudança continuamente renovam o mundo, enquanto o ininterrupto curso do tempo renova as eras. Neste fluxo, no qual nada permanece, quais coisas o homem deveria precificar mais alto?
É como se apaixonar por pardais que voam e somem de vista. É como a própria vida de cada homem, a exalação do sangue e o respiro do ar. Inspiramos e expiramos a todo instante, e o mesmo ocorre com a capacidade de respiração: nós a adquirimos ao nascer ontem e anteontem e a devolvemos ao elemento de onde a aspiramos inicialmente.

Marco Aurélio, em Meditações

O inventário



Peço a um amigo que me ajude neste transe melancólico; aluguei uma casa mobiliada, e o velho casal de proprietários fez uma lista de seus trecos para eu conferir. A lista é minuciosa e, por isso, imensa; são mil grandes e pequenas coisas, duas marquesas, um quadro a carvão representando São Francisco de Assis (mas o desenho é ruim e o santo está gordo), uma horrível, incomodíssima cômoda de metal, dois “choapinos”, um espelho quadrado que agora será visitado pela minha cara e talvez por hábito me faça meio parecido com esse velho chileno que sofre do coração.
Ah, sim, o piano. O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano. Em compensação há essa absurda mesa de pôquer que eles insistem em deixar, enorme, horrível, esses quadros a óleo detestáveis que eles elogiam tanto e que eu meterei todos dentro de um armário, um tinteiro de cobre, uma estatueta japonesa, coisas antigas como um violetero onde jamais colocarei violetas, um licoreiro que nunca verá licor, um paraguero que sonha com os guarda-chuvas dantanho, e essa feia mesita ratona, e essas coisas inúteis de metal e cristal, o relógio de cuco com o passarinho sempre cantando errado, pobre passarinho extraviado no tempo...
A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei de apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; e já que insisti pelo piano, tenho de me conformar com a presença de um enorme e sinistro mueble musiquero, onde se guardam velhos tangos e valsas.
Meu amigo confere as coisas, de lista na mão, e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, com o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo; nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, e minha indiferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um ódio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...
Partem. Chego à janela, vejo-os que fecham com todo o cuidado o portão. E sorrio. Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço que um vândalo poderia destruir e, entretanto, não estão no inventário; daqueles bens que, se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e dor; o que eles não compraram com dinheiro, mas com o longo amor, o longo, cotidiano carinho: as árvores altas, belas, ainda úmidas da chuva da noite, brilhando, muito verdes, ao sol.
Santiago, abril, 1955.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

08/08/2026

Juliana Linhares | Futuro (Novos Erros) + Oração pro Sonho

Hagar, o Horrível

Do diário em Paris

2-X — As sete sereias do longe: si-mesmo, o céu, a felicidade, a aventura, o longo atalho chamado poesia, a esperança vendada e a saudade sem objeto.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

Bicho

Hesitei horas
antes de matar o bicho.
Afinal,
era um bicho como eu,
com direitos,
com deveres.
E, sobretudo,
incapaz de matar um bicho,
como eu.

Paulo Leminski, em Toda Poesia

Raimundinha




Só tenho duas filhas, uma de catorze anos chamada Jacqueline e outra de treze de nome Gisele, porque uma das patroas que tive era uma médica que trabalhava na prefeitura e ela me disse que ia fazer ligadura das minhas trompas mas que ninguém podia saber porque era proibido fazer aquele tipo de operação num hospital público, o governo e os padres não deixavam, se soubessem ela perdia o emprego. Então ela fez escondido fingindo que estava tratando uma infecção urinária.
O pai das meninas me deu um pontapé na bunda quando elas ainda eram pequenas, levou tudo com ele, até a televisão, e eu fiquei cuidando delas sozinha. Tive outros homens, mas eles não puderam fazer filhos em mim graças à santa da minha patroa, o nome dela era doutora Raquel.
Depois de algum tempo fiquei sem homem dentro de casa, eram todos pessoas muito ruins, teve até uns que batiam em mim, um deles quebrou esse meu dente da frente com um soco. Então, eu me desiludi de homem e decidi viver sozinha.
Tenho um patrão viúvo legal, que me paga em dia e aumenta sempre o meu salário, e nem quer saber da casa, me dá o dinheiro das compras e não confere, eu dou a nota do supermercado e ele nem olha. Também não se interessa por comida, o que eu ponho na frente dele ele come, quase sempre lendo um livro.
Então Jacqueline ficou grávida. Ela sempre foi uma menina que dava muito trabalho, não gostava de estudar, roubava dinheiro da minha bolsa, mas eu perdoava, mãe existe para perdoar. O pai era um garoto um pouco mais velho do que ela. Jacqueline disse que não queria tirar, que queria ter o filho e depois, se achasse chato, dava o bebê. O menino já fez quatro anos e ela não deu ele pra ninguém porque quem sempre cuidou dele fui eu, deixava na creche na hora do meu trabalho, e comprava tudo, fraldas, o leite da mamadeira, o talco para assadura do bumbum, remédios, tudo. Como o meu salário não dava, eu apanhava dinheiro na carteira do meu patrão, duzentos, trezentos, ele era muito distraído e nem desconfiava. Enquanto isso Jacqueline passava as noites em festas e eu disse a ela que se ela ficasse grávida de novo eu não ia cuidar do bebê, ia expulsá-la de casa.
Então conheci o Jeferson. Ele era branco, usava cabelo comprido, tinha quarenta anos. Estava se separando da mulher e perguntou se podia ir morar na minha casa. Esqueci de dizer que o meu patrão me deu uma casinha com dois quartos. Eu disse ao Jeferson que sim, é bom ter um homem dentro de casa, e o Jeferson já tinha trabalhado de bombeiro eletricista e sabia fazer essas coisas que nós mulheres não sabemos.
Jeferson estava desempregado, procurando trabalho, e assim, enquanto ele não conseguia um novo emprego, eu dava a ele uns trocados para comprar cigarro, mas eu sabia que ele fingia que fumava três maços por dia e fumava apenas um e o resto do dinheiro era para tomar uma cachacinha, só que eu fingia que não sabia. Ele era um homem forte, mas na cama era meio frouxo. No início ele me comia nos sábados, depois nem isso. Depois de seis meses sem me comer eu falei com ele, Jeferson, você não faz nada comigo tem seis meses, você tem outra mulher? Ele jurou por Deus que não tinha mulher nenhuma, aquilo que estava acontecendo com ele era porque ele estava muito preocupado por não conseguir arranjar emprego, o que deixava ele nervoso, e um homem nervoso não dá no couro. Eu disse, você passa o dia dormindo e vendo televisão, assim não vai arranjar emprego nunca. Jeferson respondeu que eu estava sendo injusta com ele, que eu não sabia o quanto ele sofria, que um homem com vergonha na cara odiava aquela situação, ser sustentado pela mulher. E fez uma cara de cachorro triste que cortou o meu coração.
Todo dia, quando saía pela manhã para ir para o trabalho, de segunda a sexta — meu patrão me dava folga no sábado e no domingo —, eu preparava tudo para o Jeferson, ele gostava de sanduíche de queijo e eu deixava os sanduíches prontos e o café na garrafa térmica para ele e para Jacqueline, ela e o Jeferson gostam de acordar tarde. Então eu levava o menino para a creche e a Gisele para o colégio e ia para o meu trabalho.
Acho que o meu patrão não dormia, pois a cama dele nunca estava desfeita e ele ficava lendo o dia inteiro ou então sentado na frente do computador e eu tinha que insistir para ele almoçar, não era fácil. Acho que é por isso que ele era tão magrelo, eu devo pesar o dobro dele, acho que era porque eu devorava biscoito o dia inteiro, e doce de leite, e chocolate, que eu comprava fingindo que era para ele, mas que ele nunca comia. Minha irmã, Severina, disse que eu estava muito gorda e que era por isso que o Jeferson não transava comigo.
No dia em que ela me disse isso pelo telefone eu saí do emprego e quando cheguei em casa o Jeferson estava vendo televisão e eu desliguei a televisão e perguntei, Jeferson, você não transa comigo é porque estou muito gorda? Ele respondeu, meu amorzinho, é aquele nervoso que eu falei, passo o dia procurando emprego e não arranjo nada, você não sabe como isso me faz sofrer. Já estou procurando emprego há mais de um ano, é duro.
Fiquei com peninha dele e liguei de novo a televisão.
O que vai ter hoje para o jantar?, Jeferson perguntou.
Respondi que ia fazer costeleta de porco com batata frita, que ele tanto gostava. Você é uma mulher maravilhosa, disse Jeferson, acendendo um cigarro e olhando para a tela da televisão.
Modéstia à parte, eu faço uma costeleta de porco melhor do que qualquer restaurante. Jeferson come umas cinco, no mínimo.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

Da irresistível beleza

O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo... Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo... porém nunca de horror.

Mário Quintana, em Caderno H

07/08/2026

Eu Comigo Mesmo | Renato Teixeira e Fagner

 

Bruxa, por Laerte

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vou mais ser: “Eu me exprimo, logo sou.” Será: “Eu sou, logo sou.”

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

1634 – Madrid



Quem se escondia no berço da tua mulher?

O Conselho Supremo do Santo Ofício da Inquisição, velando pela limpeza do sangue, decide que de agora em diante se fará cuidadosa investigação antes que seus funcionários contraiam matrimônio.
Todos os que trabalham para a Inquisição, o porteiro e o fiscal, o torturador e o verdugo, o médico e o ajudante de cozinha, deverão apresentar a genealogia de dois séculos da mulher que escolheram, para evitar que se casem com pessoas infectas.
Pessoas infectas, ou seja: com litros ou gotas de sangue índio e ou sangue negro, ou com tataravós de fé judia ou cultura islâmica ou devoção a qualquer heresia.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

História dos dois que sonharam

O historiador árabe El Ixaqui narra este acontecimento: Contam os homens dignos de fé (porém somente Alá é onisciente e poderoso e misericordioso e não dorme), que existiu no Cairo um homem possuidor de riquezas, porém tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas, menos a casa de seu pai. Diante disso, se viu forçado a trabalhar para ganhar seu pão. Trabalhou tanto, que o sono venceu-o uma noite sob uma figueira de seu jardim, e ele viu no sonho um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “Tua fortuna está na Pérsia, em Isfahan; vai buscá-la”. Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idolatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfahan, e no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Junto a mesquita havia uma casa, e por vontade de Deus Todo Poderoso, um bando de ladrões atravessou a mesquita, e meteu-se na casa, e as pessoas que aí dormiam, despertando com o barulho, pediram socorro.
Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas noturnos daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros, fugiram pelo terraço. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo; açoitaram-no de tal maneira com varas de bambu que ele quase morreu. Dois dias depois recobrou os sentidos na cadeia. O capitão mandou buscá-lo e disse: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” O outro declarou: “Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed El Magrebi”. O capitão perguntou-lhe: "O que te trouxe à Pérsia?"
O outro optou pela verdade e disse: “Um homem ordenou-me, em sonho, que eu viesse a Isfahan porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfahan e vejo que essa fortuna que prometeu devem ser as vergastadas que tão generosamente me deste”.
Diante de tais palavras o capitão riu tanto que se viam seus dentes de siso e, finalmente, lhe disse: “Homem desajuizado e crédulo, eu já sonhei três vezes com uma casa no Cairo no fundo da qual há um jardim, e nesse jardim um relógio de sol, e depois do relógio, uma figueira, e logo depois da figueira, uma fonte, e sob a fonte, um tesouro.
Não dei o menor crédito a essa mentira e tu, produto de uma mula com um demônio, não obstante, vens errando de cidade em cidade baseado unicamente na fé no teu sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaham.
Toma estas moedas e desaparece”.
O homem pegou as moedas e regressou a sua pátria. Sob a fonte de seu jardim (que era a mesma do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu sua bênção, recompensou-o e enalteceu-o.
Deus é o Generoso, o Oculto.

Do Livro das Mil e Uma Noites (noite 351), em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges

Junior’s Farm | Paul McCartney e Linda McCartney



You should have seen me with the poker man
I had a honey and I bet a grand
Just in the nick of time I looked at his hand
I was talking to an Eskimo
Said he was hoping for a fall of snow
When up popped a sea lion ready to go

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm

At the Houses of Parliament
Everybody’s talking ’bout the President
We all chip in for a bag of cement
Ollie Hardy should have had more sense
He bought a gee-gee and he jumped the fence
All for the sake of a couple of pence

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Everybody tag along

I took my bag into a grocer’s store
The price is higher than the time before
Old man asked me, why is it more?
I said, you should have seen me with the poker man
I had a honey and I bet a grand
Just in the nick of time I looked at his hand

Let’s go, let’s go, let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go
Take me down to Junior’s Farm
Let’s go, let’s go
Down to Junior’s Farm where I want to lay low
Low life, high life, oh let’s go

Take me down to Junior’s Farm
Everybody tag along
Take me down to Junior’s Farm

Take me back
Take me back
I want to go back
Yeah, yeah, yeah

Linda e eu fugimos – fronteira escocesa adentro, passando reto por Gretna Green, que na verdade fica no caminho – e fomos morar na fazenda que eu tinha comprado uns anos antes. Para ser sincero, eu não estava muito convicto disso, mas Linda sim. Ela abriu meus olhos para ver como o local era lindo.
Passamos um bom tempo na fazenda, só criando os filhos e trabalhando na agropecuária. Tornou-se uma espécie de refúgio, e era bom se afastar de Londres e da cidade – mas tudo tem seus prós e contras. Eu pilotava um trator Massey Ferguson 315 para segar o feno, e adorava isso porque quando criança sempre fui um fanático pela natureza e, em meio a toda essa liberdade, não me faltava tempo para pensar – “Down to Junior’s Farm where I want to lay low”. Era um alívio sair daquelas reuniões de negócios com esse pessoal de terno, o tempo inteiro falando tão sério, e ir à Escócia e poder ficar à vontade, só de camiseta e calça de veludo cotelê. Era essa a mentalidade que me dominava quando fui compor esta canção. A mensagem básica é: vamos dar o fora daqui. Você pode dizer que é minha canção pós-Beatles sobre “dar-o-fora-da-cidade”.
O Wings se bandeou para Nashville para se aglutinar como banda. Tínhamos perdido um guitarrista e um baterista antes de gravar Band on the Run, e agora tínhamos dois novos membros. Então a ideia era ensaiar e gravar umas canções, e uma delas era esta. Ficamos na casa de um compositor chamado Curly Putman, que compôs “The Green, Green Grass of Home”. Acho que ele e a esposa tinham saído de férias, e o lugar ficou só para nós.
Minha própria fazenda ficava bem retirada, mas ali estávamos numa espécie de rancho, muito estadunidense e muito diferente da Escócia. Vastas planícies em vez de colinas onduladas. Cadeiras de balanço na varanda. Então decidi entrar numa fantasia para criar as estrofes. A canção “Maggie’s Farm”, de Bob Dylan, tinha sido lançada quase uma década antes, em 1965, e sem dúvida foi uma influência para esta canção. E o “esquimó” é provavelmente o Mighty Quinn da canção de Dylan, “Quinn the Eskimo”. A estrofe que começa com “I took my bag into a grocer’s store/ The price is higher than the time before” – bem, isso é sempre muito relevante, porque muita gente precisou apertar o cinto, já que o começo dos anos 1970 foi um período financeiro difícil para o povo, e a grana andava curta. Por que tudo está bem mais caro do que de costume?
Agora, aquela segunda estrofe. Nem sempre eu canto essa estrofe quando tocamos esta canção ao vivo, por isso, às vezes ela não aparece na letra: “At the Houses of Parliament/Everybody’s talking ’bout the President/ We all chip in for a bag of cement”. Esta canção foi gravada no verão de 1974 e lançada em outubro do mesmo ano. Por volta da mesma época, Richard Nixon teve sua audiência de impeachment; na verdade, acho que ele teve que renunciar em desonra naquele verão. A ideia da canção era dar a ele a chamada despedida da Máfia. Não acho que exista um motivo para não cantarmos essa estrofe hoje. Pode ser apenas que isso torne a canção muito longa e já temos quarenta canções em nosso set list.
Existem modismos na música e nas canções, e na época do álbum Band on the Run, que esta canção seguiu, a moda era essa ideia do bandido, parcialmente um reflexo da canção “Desperado”, dos Eagles – sem falar na popularidade de Butch Cassidy e Sundance Kid. Apenas levamos isso a um nível mais amplo e pessoal. A ideia era que todos estávamos fugindo da lei. Quando você está fumando maconha, os policiais se tornam uma preocupação, caso perguntem: “Que cheiro é esse?”. Você sabe que não é culpado, mas se sente culpado porque acha que será acusado de uma contravenção, e eles podem prendê-lo por isso. Na minha infância era diferente; naquela época, um policial para mim era só um velho e amigável guardinha fazendo sua ronda, e não havia muitas associações negativas com a polícia. Uma vez, porém – uma ou duas vezes –, me fizeram parar quando eu estava ao volante de meu carro novo, o meu primeiro carro, um Ford Consul Classic. Eu era um pouco novinho demais para ter um carro tão reluzente, e o policial me parou: “Onde é que você conseguiu este carro?”. Sabe, eu era um garoto de Liverpool e parecia que eu tinha acabado de roubá-lo. Respondi: “É meu. Eu o comprei”.
“Junior’s Farm” continua funcionando ao vivo, e em geral a colocamos no início do set. Tem muitos elementos que funcionam bem – uma introdução reconhecível, uma boa e constante levada rock’n’roll, sem falar na letra interessante e ligeiramente surreal e no refrão empolgante de “Let’s go, let’s go”. Isso insufla nas pessoas a vontade de espairecer e, bem na hora H (“just in the nick of time”), escapulir para sua própria variante da “Junior’s Farm”, seja lá qual for o seu refúgio – seja onde for, um lugar para sumir, se esconder e só se enfurnar.

Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

06/08/2026

Jacob Collier ft. Julian Lage | Like Someone In Love

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado, em Bagagem

Bandido bom é...

Alma racional e universal

A maioria das coisas que a multidão admira são comuns, mantidas íntegras por coesão ou por uma organização natural, como pedras, madeira, figueiras, videiras e oliveiras. Já os homens um pouco mais razoáveis admiram aquelas que são unidas por um princípio vivo, como rebanhos e manadas. Homens ainda mais instruídos apreciam as que são unificadas pela alma racional — pela racional, e não pela universal, pois ela é uma alma hábil em alguma arte e especialista em algo ou, simplesmente, porque possui uma série de escravos. Por último, aquele que valoriza a alma racional — universal e adequada para a vida política — não considera nada acima de manter sua alma em condições e atividades compatíveis com a razão e a vida social e coopera com seus semelhantes para esse fim.

Marco Aurélio, em Meditações

Siempre en la Barca pra Paquetá



1ª Faixa: Dorinda

Eu sou do tempo em que o sujeito aprendia a dançar com as primas um pouquinho mais velhas. Delícia. Claro que era coisa meio incestuosa. A família – implacável censora de qualquer atitude que sugerisse sexo – liberava o sarro com as primas. Prima, com ph e dois dês de Toddy.
Na galeria de primas inesquecíveis, Gregório Barrios ao fundo, destacava-se Dorinda. Protestante. Estrábica. O más bonito em mulher com discreto estrabismo é que parece estar sempre à beira do orgasmo.
Em Dorinda, a suave mistura entre recato e cara de vou-gozar me enlouquecia. E, além do mais, ela ostentava um pequeno buço. Eu ficava repetindo, antes de dormir: o buço da prima, o buço da Dorinda... De fato, buço é uma palavra que provoca tresloucadas associações.
Quando a austera Dorinda me ensinava a dançar, nas festinhas da Rua dos Artistas, os adultos quedavam perplexos – talvez pela voz autoritária de Dodô (começou a intimidade) caso eu errasse um passo mais elaborado, ou quiçá, quiçá, quiçá pelo escândalo de minha barraca armada em contato com aguda inflação de tafetá, organdi, babado inglês, um sutiã como deis ariétes, anágua, combinação, meias com o fio corrido, e..., e.., e... Bom, calcinhas, queridas, nem pensar. Se naquela época passasse pela minha cabeça que, debaixo daquilo tudo, uma calcinha de renda expunha mais do que velava o cabeludo tesouro da Dodô, eu soltaria um berro tremendo e dispararia em direção ao banheiro pra uma sessão-nostalgia de “contigo en la distancia” pensando na Dodô, em sua cara de gozo e, lógico, em seu buço.
Ainda hoje, quando tomo uísque com guaraná, ouço a voz de Dodô murmurando: “São dois pra lá, dois pra cá” - embora, na verdade, ela gritasse comigo feito um instrutor do CPOR.
Dodô, minha nega, enquanto cruzas outros mares de loucura, guardo nosso 78 rotações favorito, “Angustia”, com Bienvenido Granda (que buço!) e “Sonora Matancera”, um lançamento da Mocambo que juntos compramos na extinta Ótica Irany (Revelações, Cópias, Ampliações em 24 horas), lembra?
Tenho a impressão, Dodô, que esse disco vai ficar girando em minha vida hasta que tu decidas regressar…

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Coração segundo

— De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiras, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando adivinhar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por quê, admitia que fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação.
Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém — abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite, e sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disto, minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vi um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que antes me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Felicitei-me pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas imotivadas, gratuitas. Meu coração no 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão.
Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório, ao tratar de negócios. Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado.
Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá-los. Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão.
Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa.
Agora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei o cavername. Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

05/08/2026

Vencendo vem Jesus | Danilo Sinna Big Band

Capítulo 77 – Entrevista



Virgília entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que doce que era vê-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trêmula! Ia de sege, velado o rosto, envolvido numa espécie de mantéu, que lhe disfarçava as ondulações do talhe. Da primeira vez deixou-se cair no canapé, ofegante, escarlate, com os olhos no chão; e, palavra! em nenhuma outra ocasião a achei tão bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
Agora, porém, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam no período cronométrico.
A intensidade de amor era a mesma; a diferença é que a chama perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios, tranquilo e constante, como nos casamentos.
– Estou muito zangada com você, disse ela sentando-se.
– Porquê?
– Porque não foi lá ontem, como me tinha dito. O Damião perguntou muitas vezes se você não iria, ao menos, tomar chá. Por que é que não foi?
Com efeito, eu havia faltado à palavra que dera, e a culpa era toda de Virgília. Questão de ciúmes. Essa mulher esplêndida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz alta ou baixa. Na antevéspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo peralta depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava tão alegre! tão derramada! tão cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga interrogativa e ameaçadora, não teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente séria; mas deitou ao mar o peralta e as cortesanices.
Veio depois a mim, tomou-me o braço, e levou-me até outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansaço, e disse muitas outras coisas, com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasiões, e eu ouvi-a quase sem responder nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausência... Não, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta, as sobrancelhas arqueadas, uma estupefação visível, tangível, que se não podia negar, tal foi a primeira réplica de Virgília; abanou a cabeça com um sorriso de piedade e ternura, que inteiramente me confundiu.
 Ora você!
E foi tirar o chapéu, lépida, jovial, como a menina que torna do colégio; depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um só dedo, a repetir: – Isto, isto; – e eu não tive remédio senão rir também, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Gorjeios

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

Manoel de Barros, em Meu quintal é maior do que o mundo

A contadora de Filmes

[1]

Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.

Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

O murinho


A princípio, o território neutro do edifício Jandaia era ocupado por mamães e babás, capitaneando inocentes que iam tomar a fresca da tarde; à noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples área pavimentada em frente ao edifício, separando-se da calçada por uma pequena amurada de menos de dois palmos de altura, tão lisa que convidava a pousar e repousar. Os adultos cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, a diarreia infantil, a exploração nas feiras, os casamentos e descasamentos da semana. (Na parte da tarde.) Ou não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da Light, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era frequente. (Na parte da noite.)
Na área propriamente dita, a garotada brincava, e era esse o título de glória do Jandaia. Sem playground, oferecia entretanto a todos, de casa ou de fora, aquele salão a céu aberto, onde qualquer guri pulava, caía, chorava, tornava a pular, até que a estrela Vésper tocava gentilmente a recolher, numa sineta de cristal que só as mães escutam — as mães sentadas no “murinho”, nome dado à mureta concebida em escala de anão.
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente da tarde, uns rapazinhos e brotinhos de uniforme colegial, que foram tomando posse do terreno. Esse bando tinha o dinamismo próprio da idade — e, pouco a pouco, crianças, babás e mãezinhas se eclipsaram. Os invasores falavam essa língua alta e híbrida que se forja no mundo inteiro, com raízes no cinema, no esporte, na Coca-Cola e nos gritos guturais que se desprendem — quem não os distingue? — dos quadros “mudos” de Brucutu e Steve Roper. Divertido, mas um pouco assustador. E à noite, por sua vez, fuzileiros e copeiras tiveram de ir cedendo campo à horda que se renovava.
Os moradores do Jandaia começaram a queixar-se. O porteiro saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública. Sentavam no murinho com os pés para fora. Não faziam nada de mau, só cantar e assobiar. Os chatos que pirassem.
Ouvindo-se tratar de chatos, por trás da cortina, os moradores indignaram-se. O telefone chamou a radiopatrulha, que foi rápida, mas a turminha ainda mais: ao chegar o carro, o porteiro estava falando sozinho.
No dia seguinte, não houve concentração juvenil, mas já na outra tarde, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com a gente do Jandaia, e outros que defendiam a nova geração; estes argumentavam que a rapaziada era pura: em vez de bebericar nos bares, batia papo inocente à luz das estrelas. Preferível à grudação dos casais suspeitos, que antes envergonhava a rua.
Mas o Jandaia tinha moradores idosos e enfermos, aos quais aquela bulha torturava; tinha também rapazes e meninas, que preferiam estudar e não podiam. Por que os engraçadinhos não iam fazer isso diante de suas casas?
Como não houvesse condomínio, e os moradores dos fundos, livres da algazarra, se mostrassem omissos, uma senhora do segundo andar assumiu a ofensiva e txááá! um balde de água suja conspurcou a camisa esporte dos rapazes e o blue jeans das garotas. Consternação, raiva, debandada — mas no dia seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento do murinho, e a colocar nele uma grade de ferro, de pontas agudas. Vaquinha dos mártires do Jandaia? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” — comentou uma das garotas, com desprezo. Mas a turma está desoladíssima, e nunca mais ninguém ousará sentar no murinho — nem mesmo as mansuetas babás e mamães, nem mesmo os casais noturnos.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

Do diário em Paris

Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.

Guimarães Rosa, em Ave, Palavra

04/08/2026

Rosa Passos | Recriação

 

Habitação

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada –
Isto é, habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses.

Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas.

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em Ilhas