A chuva timbilava no tecto do
machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele
tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo
que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
— Charra, faz frio. Agora, nem se
pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a
ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a
tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio,
sinal de bons tempos batendo à porta do destino.
— Te falta é uma mulher, disse o
velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser
bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram
tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é
esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a
pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não
pomos nunca o coração. E prossegue:
— Você, miúdo, não conhece meu
caso com Jorogina?
Então, o velho relata seu encontro
com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia
burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas,
adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que
Deus lhes confiou.
— Me enganei dessa mulher,
Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos
arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho
se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a
lembrança.
— Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo
dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o
miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando
a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras
iniciações.
— Espera, miúdo. Deixa eu sentar
perto.
Se arruma na beira no assento de
Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai
desapertando a breguilha.
— Agora pensa nas meninas.
— Tio! Não faça isso...
— Não experimenta me negar,
ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.
— Mas, tio: assim eu não
consigo...
— É por causa você está pensar
só com a cabeça. Pensa com todo corpo!
— Não vai dar, tio.
— Com certeza você está pensar
Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é
lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as
próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma
casca.
— Não é questão de pele, nem
tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.
— É motivo da pele, eu sei. Você
já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a
mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só
de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz,
eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados.
Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com
a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu
perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre
disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio.
Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
— Mas nós bebemos, tio?
— Isso é bebida que estava
dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a
urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito.
Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter
líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da
explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se
inquieta:
— Não é perigoso barulharmos
assim?
— Se rir muito alto você afasta
os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já
não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.
— Ria, miúdo. Rindo as alegrias
acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as
danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.
— Você tem razão, miúdo: cada
vez vamos chamar atenções.
Ficam por um enquanto a respirar
tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por
que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê
o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido,
mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
— Aprendi tudo de novidade:
andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não
esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado.
Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo
tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo
fosse retirado da cabeça dele.
— Pedi isso por causa é melhor
não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a
doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse
peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de
Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses
impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia,
estoriazinha que se conta para fazer de conta.
— Sabe, miúdo, o que vamos
fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
— Mas ler agora, com esse escuro?
— Acendes o fogo lá fora.
— Mas, com a chuva, a lenha toda
se molhou.
— Então vamos acender o fogo
dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
— Podemos, tio? Não há
problema?
— Problema é deixar este escuro
entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então
vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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