quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sétimo capítulo — Mãos sonhando mulheres



A chuva timbilava no tecto do machimbombo. Os dedos molhados do céu se entretinham naquele tin-tin-tilar. Tuahir está embrulhado numa capulana. Olha o miúdo que está deitado, de olhos abertos, em sincero sonho.
Charra, faz frio. Agora, nem se pode fazer uma fogueira, a lenha toda está molhada. Você me anda a ouvir, miúdo?
Muidinga continuava absorto. Segundo a tradição, ele se devia alegrar: a chuva era um bom prenúncio, sinal de bons tempos batendo à porta do destino.
Te falta é uma mulher, disse o velho. Estiveste a ler sobre essa mulher, a tal Farida. Devia ser bonita, a gaja.
As mulheres, em instante, ficaram tema. Mulheres é bom quando não há amor, disse. Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal. Vale a pena uma puta, miúdo. Gastamos o bolso, não o peito. Numa puta não pomos nunca o coração. E prossegue:
Você, miúdo, não conhece meu caso com Jorogina?
Então, o velho relata seu encontro com Jorgina, mulher que merecera suas eternas promessas. Ela parecia burrinha, metida em ideia só por biscate. Assim se querem as tipas, adianta Tuahir, que é para não avançarem fora dos serviços que Deus lhes confiou.
Me enganei dessa mulher, Muidinga.
Afinal, ela era uma dessas de joelhos arregaçados, capaz de cair em esteira alheia mais fácil que o milho se ajoelhar no pilão. Tuahir sofrera, a voz ainda lhe nuventa com a lembrança.
Agora vivo de cor e salteado.
Tuahir salivava as sílabas, sofrendo dessa indigestão de nada não comer desde há dias. Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros. E sorri recordando a cena das velhas violentando o rapaz. O rapaz merecia outras iniciações.
Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto.
Se arruma na beira no assento de Muidinga. Mete a mão entre as virilhas do rapaz. Aos poucos lhe vai desapertando a breguilha.
Agora pensa nas meninas.
Tio! Não faça isso...
Não experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas. Vá, faça como te digo.
Mas, tio: assim eu não consigo...
É por causa você está pensar só com a cabeça. Pensa com todo corpo!
Não vai dar, tio.
Com certeza você está pensar Maria Bofe, aquela lá do campo. Essa nem tem tatuagem, pele dela é lisa como um homem. Pensa Joaquinha, pensa Tinita. Essas tem as próprias tatuagens, você toca a barriga delas e sente parece é uma casca.
Não é questão de pele, nem tatuagem. É que não dá, assim de pensamento.
É motivo da pele, eu sei. Você já viu peixe sem escama? Peixe sempre leva escama. Sem tatuagem a mulher que está na pessoa não acorda. Está ver, você agora? Só de falar o assunto você já está a acordar. Vá, continua, rapaz, eu lhe ajudo. Faz conta minha mão é Joaquinha.
Os dois adormecem, encostados. Despertam sentados, na mesma posição com que tinham adormecido. Com a chegada da noite a chuva tinha parado. A terra soltava ainda o seu perfume doce. Por baixo do canhoeiro, eles se levantam em alegre disposição. Sem compreenderem o motivo eles cantam em desafio. Depois, dançam, batucando nas latas. Parecem tontos.
Mas nós bebemos, tio?
Isso é bebida que estava dentro do sangue há muito tempo. Nos tempos, eu bebi tantíssimo.
E explica as urgências de beber: a urina, lá onde ela morava, dentro do corpo, lhe aquecia muito. Chegava de lhe queimar, quase a ferver. O remédio era beber, meter líquido para arrefecer aquelas águas interiores. Os dois se riem da explicação, gargalham a peitos abertos. De repente, Muidinga se inquieta:
Não é perigoso barulharmos assim?
Se rir muito alto você afasta os maus espíritos.
O velho retoma dançando. Muidinga já não o acompanha. Encosta-se numa árvore. O velho olha-o admirado.
Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem.
Depois, também Tuahir abandona as danças. Desaba-se, desistido. Senta-se, abanando a cabeça.
Você tem razão, miúdo: cada vez vamos chamar atenções.
Ficam por um enquanto a respirar tristezas, o cacimbo se adensava. O miúdo, então, lhe pergunta: por que razão ele nunca consegue lembrar antigas recordações? Porquê o antigamente, todo o tempo anterior à doença lhe estava impedido, mais coberto de cacimbo que os terrenos em volta?
Aprendi tudo de novidade: andar, falar. Meus olhos se lembram das leituras, meus dedos não esqueceram as letras. Mas eu não sei lembrar nada do meu passado. Porquê, tio?
Tuahir lhe diz a verdade. O miúdo tinha sido levado ao feiticeiro. O velho lhe pedira para que tudo fosse retirado da cabeça dele.
Pedi isso por causa é melhor não ter lembrança deste tempo que passou. Ainda tiveste sorte com a doença. Pudeste esquecer tudo. Enquanto eu não, carrego esse peso...
Tuahir havia entendido: os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias. Ao menos ele acreditasse tudo aquilo ser fantasia, estoriazinha que se conta para fazer de conta.
Sabe, miúdo, o que vamos fazer? Você me vai ler mais desses escritos.
Mas ler agora, com esse escuro?
Acendes o fogo lá fora.
Mas, com a chuva, a lenha toda se molhou.
Então vamos acender o fogo dentro do machimbombo. Juntamos coisa de arder lá mesmo.
Podemos, tio? Não há problema?
Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

Nenhum comentário:

Postar um comentário