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01/01/2026

Só como processo

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas 

12/08/2024

Os males da perfeição

Corre entre os anjos um boato que aqui transcrevo por conta deles. Deus, cansado de ser infinitamente bom, resolve às vezes trocar de lugar com o Diabo. E, nessas épocas de interinidade, sempre sai ganhando longe do outro.

Mário Quintana, em Porta giratória

27/07/2024

Acerca do bem e do mal

Ao se encontrar com qualquer homem, pergunte-se imediatamente: “Qual é a convicção dele sobre o bem e o mal?” Caso ele possua tais convicções acerca do prazer e da dor—e das causas de ambos—, da fama e da infâmia ou da vida e da morte, não será espantoso ou estranho se ele se comportar de tais e tais maneiras. Nesse caso, ele seria compelido a se comportar assim.

Marco Aurélio, em Meditações

18/01/2024

24/09/2022

Praticai o bem

I say to you: do good. Why? What do you gain by it? Nothing, you gain nothing. Neither money, nor love, nor respect, nor perhaps peace of mind. Perhaps thou gainest none of these. Why then do I say: do good? Because you gain nothing by it. It is worth doing for this.
Digo-vos: praticai o bem. Porquê? O que ganhais com isso? Nada, não ganhais nada. Nem dinheiro, nem amor, nem respeito, nem talvez paz de espírito. Talvez não ganheis nada disso. Então por que vos digo: Praticai o bem? Porque não ganhais nada com isso. Vale a pena praticá-lo por isto mesmo.

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

12/07/2022

O bem e o mal

Em teoria, creio dever testemunhar o mais vivo interesse por alguns seres por terem melhorado o homem e a vida humana. Mas interrogo-me sobre a natureza exata de tais seres e vacilo. Quando analiso mais atentamente os mestres da política e da religião, começo a duvidar intensamente do sentido profundo de sua atividade. Será o bem? Será o mal? Em compensação, não sinto a menor hesitação diante de alguns espíritos que só procuram atos nobres e sublimes. Por isto apaixonam os homens e os exaltam, sem mesmo o perceberem. Descubro esta lei prática nos grandes artistas e depois nos grandes sábios. Os resultados da pesquisa não exaltam nem apaixonam. Mas o esforço tenaz para compreender e o trabalho intelectual para receber e para traduzir transformam o homem.
Quem ousaria avaliar o Talmude em termos de quociente intelectual?

Albert Einstein, in Como Vejo o Mundo

06/03/2022

Onde o mal perdura, então?

O que é mau para você não subsiste na faculdade hegemônica do próximo ou em qualquer mudança e mutação em sua superfície corporal. Onde o mal perdura, então? Naquela parte onde está o poder de opinar acerca dos males. Impeça-o de formar tais opiniões, e tudo ficará bem.
Mesmo caso seu pobre corpo — aquilo que está mais perto de você — seja cortado, queimado ou preenchido com matéria e podridão, cale o poder que opina a respeito. Impossibilite-o de julgar como males ou bens aquilo que pode acontecer identicamente ao homem mau e ao bom. O que ocorre de modo idêntico a quem vive em desacordo e a quem vive de acordo com a natureza não é desarmônico nem harmônico com o que é natural.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

05/04/2021

Bem (supremo)

Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. Que é o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar que é o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc.
Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto.

Quid dem? quid non dem? Renuis tu quod jubet alter…
Castor gaudet equis; ovo prognatus eodem pugnis…
(Horácio, Epigr., II, ii, Sat., II, i.).

Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de polarizar-nos toda a sensibilidade, assim como mal supremo é aquele que vos torna completamente insensível. Eis os dois pólos da natureza humana. Esses dois momentos são curtos.
Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal são quimeras.
Conhecemos a bela fábula de Crântor, que fez comparecer aos jogos olímpicos a Fortuna, a Volúpia, a Saúde e a Virtude.
Fortuna: – O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Volúpia: – Meu é o pomo, porquanto não se aspira à riqueza senão para ter-me a mim.
Saúde: – Sem mim não há volúpia e a riqueza seria inútil.
Virtude: – Acima da riqueza, da volúpia e da saúde estou eu, que embora com ouro, prazeres e saúde pode haver infelicidade, se não há virtude.
Teve o pomo a Virtude.
A fábula é engenhosa, mas não solve o problema absurdo do supremo bem. Virtude não é bem, senão dever. Pertence a plano superior. Nada tem que ver com as sensações dolorosas ou agradáveis. Com cálculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessário, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso é infelicíssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante em seu leito de púrpura, felicíssimo. Podeis dizer ser preferível o sábio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar ao outro. Mas esquece-vos que le sage dans les fers enrage. Se não concordar o sábio, engana-vos: é um charlatão.

Voltaire, in Dicionário Filosófico

10/02/2021

11/01/2021

Dos deuses e dos homens

Quanto a qualquer das coisas que consideres, entre as que estão fora do âmbito de tua vontade, como um bem ou um mal para ti, é fatal que, se algum mal te acontece ou um bem te foge, censure os deuses e odeies os homens por isso; aqueles porque suspeitas que podem ser, estes porque os acusa de ser a causa dos insucessos ou acidentes. Na verdade, cometemos muitas injustiças por causa da diferença que fazemos entre essas coisas. Se, todavia, julgamos somente as coisas que estão no âmbito de nossa vontade são boas ou más, não haverá razão para queixar-te de Deus nem para permanecer em atitude hostil em relação ao homem.

Marco Aurélio, in Meditações

14/01/2019

Eternidade e moral

Ninguém soube dizer, até os dias de hoje, o que é o bem e o mal. Será o mesmo, certamente, no futuro. Pouco importa a relatividade: só conta a impossibilidade de não fazer uso destas expressões. Sem saber o que é bem, nem o que é mal, e qualifico as ações, entretanto, em boas ou más. Se me perguntassem em razão de quê me pronuncio de tal forma, eu não saberia responder. Um processo instintivo me faz apreciar as coisas segundo critérios morais; pensando nisto em retrospectiva, não lhes encontro mais nenhuma justificação. A moral tornou-se tão complexa, e tão contraditória, porque os valores morais cessaram de se constituir em ordem da vida para se cristalizar numa região transcendente, não mantendo mais do que frágeis contatos com as tendências vitais e irracionais. Como fundaríamos, então, uma moral? A palavra bem me dá vontade de vomitar, de tão insossa e inexpressiva. A moral ordena-nos a obrar pelo triunfo do bem. De que maneira? Por meio do cumprimento do dever, do respeito, do sacrifício, da modéstia, etc... Nisto somente vejo, por minha parte, palavras vagas e vazias de sentido: frente ao fato bruto, os princípios morais revelam-se tão vãos que nós nos perguntamos se não valeria mais à pena, no final das contas, viver sem critérios. Adoraria um mundo que não tivesse nenhum, sem forma nem princípio - um mundo da indeterminação. Pois, no nosso, esses conceitos exasperam mais do que qualquer absolutismo normativo. Eu vejo um mundo de fantasia e sonho, onde debater sobre a legitimidade das normas não teria mais nenhum sentido. Uma vez que, de toda maneira, a realidade é irracional na sua essência, para quê separar o bem do mal - para quê distinguir o que quer que seja? Aqueles que sustentam que podemos, apesar de tudo, salvar a moral frente à eternidade enganam-se redondamente. Eles afirmam que apesar do triunfo do prazer, das satisfações menores e do pecado, só subsistem, diante da eternidade, a boa-ação e a realização moral. Depois das misérias e dos prazeres efêmeros, presenciamos - é o que dizem - o triunfo final do bem, a vitória definitiva da virtude. Eles não devem ter notado que se a eternidade varre as satisfações e prazeres superficiais, ela varre não menos tudo aquilo a que chamamos virtude, boa-ação e ato moral. A eternidade não conduz nem ao triunfo do bem, nem ao do mal: ela anula tudo. Condenar o epicurismo em nome da eternidade é um absurdo. Em quê meu sofrimento me faria durar mais tempo do que um bon vivant? Objetivamente falando, o que pode significar o fato de que um indivíduo estremeça na agonia, enquanto um outro chafurda na volúpia? Que soframos ou não, o vazio nos engolirá indiferente, irremediavelmente e para sempre. Não saberíamos falar de um acesso objetivo à eternidade, mas somente de um sentimento subjetivo, fruto de descontinuidades na experiência do tempo. Nada daquilo que cria o homem pode conduzir a uma vitória definitiva. Por que embriagar-se em ilusões morais, quando existem ilusões muito mais belas? Aqueles que falam da salvação moral frente à eternidade evocam o eco indefinido no tempo do ato moral, sua ressonância ilimitada. Nada é menos verdadeiro, pois aqueles que se dizem virtuosos - na verdade, simples covardes - desaparecem muito mais rapidamente da consciência do mundo do que os adeptos do prazer. De qualquer maneira, mesmo no caso contrário, o que significariam algumas dezenas de anos suplementares? Todo prazer não realizado é uma ocasião perdida pela vida. Assim, não serei eu o responsável por brandir o sofrimento ao mundo, a fim de interditar-lhe as orgias e os excessos. Deixemos os medíocres falarem das consequências dos prazeres: as da dor não são muito mais sérias? Somente um medíocre desejará, para morrer, atingir o estado da velhice. Que sofram, então, ou embriaguem-se, que bebam do cálice do prazer até a última gota, que chorem ou riam, que gritem de alegria ou desespero - nada restará de toda forma. Qualquer moral não tem outro objetivo além do de transformar esta vida numa soma de ocasiões perdidas.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

05/04/2018

O bem, em três tempos

O bem ou é presente, ou passado, ou futuro: se é presente, causa gosto; se é passado, causa saudade; se é futuro, causa desejo.
Padre Antônio Vieira, in Sermões

13/11/2017

Do bem e do mal

É raro o mal, de que não venha a nascer algum bem, nem bem, que não produza algum mal: como só o presente é nosso, por isso não nos serve de alívio o bem futuro, nem nos inquieta o mal que ainda não sentimos; um infeliz não se persuade, que a sua sorte possa ter mudança; um venturoso não crê, que possa deixar de o ser; a este a vaidade tira o menor receio; àquele o abatimento priva de esperança. Se fizermos reflexão, havemos de admirar o pouco que basta para fazer o nosso bem, ou o nosso mal: de um instante a outro mudamos da alegria para a tristeza, e muitas vezes sem outro algum motivo, que o de uma vaidade mais, ou menos satisfeita.
Os homens não são todos igualmente sensíveis ao bem, e ao mal; a uns penetra mais vivamente a dor, a outros só faz uma impressão ligeira; o bem não acha em todos o mesmo grau de contentamento. Nas almas deve de haver a mesma diferença, que há nos corpos: umas mais débeis, e outras mais robustas; por isso em umas obras mais o sentimento, e acha mais resistência em outras; em umas domina a vaidade com império, e com furor, em outras só assiste como coisa natural; naquelas a vaidade é uma paixão com ímpeto, nestas é um vício sossegado, e sem desordem.
Matias Aires, in Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna

29/01/2017

Sobre sofrimento e prazer

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de uma maneira ou de outra, estão já na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como nas suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; ficarão mais satisfeitos com a sua situação e mais hostis aos inimigos do nosso poder, mais prontos a combatê-los. O fato de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos atos; mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou a fim de conservar o nosso sentimento de poder.”
Friedrich Nietzsche, in A Gaia Ciência

12/12/2016

Praticai o bem

Digo-vos: praticai o bem. Porquê? O que ganhais com isso? Nada, não ganhais nada. Nem dinheiro, nem amor, nem respeito, nem talvez paz de espírito. Talvez não ganheis nada disso. Então por que vos digo: Praticai o bem? Porque não ganhais nada com isso. Vale a pena praticá-lo por isto mesmo.
Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

30/11/2016

Deus e o diabo em nossa cabeça

Tudo o que existe, toda a percepção que temos do que existe está em nossa cabeça. Quer dizer, às vezes digo que o lugar da transcendência é a mais imanente de todas as coisas, que é o cérebro humano: é aqui que está Deus, é aqui que está o diabo, que estão o mal, o bem, a justiça a injustiça. Tudo está dentro da cabeça. Então, talvez o que esteja ocorrendo conosco seja uma caminhada lenta, muito lenta, cheia de contradições, em direção à razão. Mas não creio que já tenhamos chegado.
José Saramago, in As palavras de Saramago

25/09/2016

Só como processo

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem nem bem nem mal.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

09/01/2016

Não fazer o mal a outrem

Quando nós dizemos o bem, ou o mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades...
Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do gênero por onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.”
José Saramago, in Revista Diário da Madeira, Junho de 1994