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08/08/2023

Naufrágios | Capítulo 6

[…]
Da parte de trás da casa, Isaku ficou olhando para a trilha. O topo das árvores balançava ao vento enquanto o sol se punha. Apenas o marulho das ondas quebrava o profundo silêncio que envolvia a aldeia. Cada um dos habitantes da aldeia estava escondido dentro de casa.
Ele viu movimento entre os troncos das árvores, e logo em seguida dois homens apareceram no alto da trilha. Um deles usava um longo cajado para se apoiar ao caminhar, o outro o ajudava a descer pela trilha. O homem com o cajado tinha uma perna cortada na altura do joelho.
Aqueles homens não se pareciam nem um pouco com a imagem que Isaku fazia de um agente de companhia de transporte. Sem dúvida eles não iriam enviar um homem deficiente para realizar aquele tipo de trabalho. Além disso, aqueles homens pareciam ser pobres, suas roupas eram pouco mais que farrapos.
Os dois homens pararam alguns metros adiante, olhando alternadamente para a aldeia e para o mar, antes de se deixar cair de joelhos no chão, soluçando.
A mãe de Isaku saiu da casa e caminhou na direção deles. Isaku a seguiu enquanto homens e mulheres saíram de suas casas e seguiram pela trilha na montanha. O cansaço que ele sentira antes desapareceu completamente quando viu uma mulher correr à frente e abraçar o homem com o cajado.
Alguém voltou da servidão — disse a mãe dele, apertando o passo.
O pai de Isaku tinha mais um ano de contrato, ainda, portanto não era ele. Isaku seguiu a mãe e os outros da aldeia. Os dois homens estavam agora sentados no chão, os rostos de um tom escuro de vermelho, as faces encovadas e magras. Isaku não reconheceu nenhum dos dois homens, que deviam estar na casa dos quarenta, um completamente grisalho, o outro quase calvo.
Tinham retornado depois de terminar seus contratos de dez anos. O povo da aldeia ficou surpreso de ver como os dois estavam envelhecidos, obviamente um indício de como haviam trabalhado além de suas forças. O homem com o cajado tinha ido para a floresta derrubar árvores debaixo de neve e caíra de um penhasco quando carregava a lenha de volta. Ele ficara inconsciente e fora salvo apenas porque os outros homens foram procurá-lo. Eles o encontraram dois dias depois, enterrado na neve até a cintura. Enquanto os outros ferimentos que havia sofrido na queda haviam sarado, o pé esquerdo, que ficara sob a neve, desenvolvera uma gangrena. Como isso poderia levar à morte, tinham lhe amputado a perna abaixo do joelho. Aleijado como estava, ele tinha mesmo muita sorte por ter voltado vivo para a aldeia.
O pai de Isaku estava trabalhando no mesmo porto que os dois homens, portanto naquela noite a mãe dele foi perguntar como estava o marido.
Ela voltou cerca de uma hora depois, serviu-se de um pouco de vinho e sentou-se perto do fogo.
Isaku desconfiou que algo estava errado quando viu a expressão preocupada da mãe. Talvez os homens tivessem trazido más notícias sobre seu pai. Talvez seu pai já estivesse morto. Nervoso, ele se aproximou da mãe quando ela começou a tomar o vinho.
Eles disseram alguma coisa sobre papai?
Disseram que ele está bem... — murmurou a mãe, os olhos fixos nas chamas. Isaku sentiu um grande alívio e sentou-se junto do fogo.
Eles disseram que ele trabalha tanto que as pessoas da agência de transporte estão interessadas nele. Disseram que seu pai é um homem forte, que encoraja os outros da aldeia, que os ajuda. Mas eles disseram que seu pai está preocupado conosco, que espera que estejamos todos bem... — Ela tomou um gole do vinho.
Sua mãe devia estar pensando em Teru. Pensando que tinha deixado a pequena Teru morrer e sentindo que havia desapontado o marido. Ela devia estar se sentindo arrasada por não ter podido fazer nada. O vinho era a forma de ela afogar as tristezas.
Isaku sentou-se em silêncio, olhando para o fogo. Imaginou Teru, lá longe no mar, sob a água, vestida com roupas transparentes, um sorriso gentil no rosto. A morte de Teru fora algo que a mãe não tivera como evitar, e seu pouco tempo na terra devia ser o tempo que sua vida estava destinada a durar. Sim, ela podia ter morrido, mas estar rodeada pelos espíritos dos ancestrais significava que agora não estava sozinha ao descansar pacificamente lá longe no fundo do mar.
Papai vai voltar na próxima primavera. Só temos de nos agüentar mais um pouco — disse Isaku, colocando outro pedaço de lenha no fogo.
A mãe não disse nada, e lentamente passou a cuia com o vinho para Isaku. Ele sentiu a emoção crescer dentro de si. Era a primeira vez que a mãe demonstrava alguma afeição por ele desde que seu pai havia partido. Isaku sentiu que agora a mãe o reconhecia como alguém em quem podia confiar.
Ele tomou um gole do vinho e o devolveu à mãe.
Isokichi murmurou algo enquanto dormia e virou-se. Ainda segurando o vinho, a mãe ficou ali olhando para o rosto de Isokichi, pálido à luz do fogo.
[...]

Akira Yoshimura, in Naufrágios

03/08/2023

Naufrágios | Capítulo 6


[…]
Um silêncio estranho reinava sobre a aldeia. Naquela época do ano havia muito a ser recolhido na praia, mas não havia ninguém à vista na areia. Mesmo as crianças sentiam o humor dos adultos e não estavam brincando e correndo pela trilha. Depois de esconder todo o arroz e as outras coisas nas montanhas, os habitantes da aldeia passaram os dias enfurnados em casa, contendo a respiração. A mãe de Isaku cuidou dos ferimentos enquanto secava grãos vindos da outra aldeia ou tecia panos no tear.
Isaku passou o tempo reparando seu material de pesca, e ocasionalmente olhava pela porta dos fundos para a trilha que seguia até a aldeia vizinha, ou para o mar. Se os homens da agência de transporte viessem, seria ou pelo passo nas montanhas ou de barco pela costa. Tinham falado em colocar vigias perto do passo e nos promontórios, mas desistiram da ideia porque, como alguém observara, se eles percebessem os vigias, isso iria levantar suspeitas.
Isaku ouviu os homens da aldeia discutindo como seria a punição. Ficou aterrorizado. Falaram sobre pessoas sendo chicoteadas, depois arrastadas e puxadas por uma corda e então crucificadas de cabeça para baixo e espetadas com lanças até as entranhas caírem. Falaram sobre pessoas sendo cortadas com uma serra antes de ser crucificadas. Se descobrissem que tinham roubado a carga de um navio e espancado o capitão até matá-lo, sem dúvida o destino de todos seria similar a isso.
Apenas uma trilha levava para fora da aldeia, e para chegar à aldeia vizinha era preciso seguir as trilhas mais estreitas cortadas no coração das montanhas, passando por um vale e picos pelo caminho. Isaku havia ido até a aldeia vizinha pela primeira vez quando seu pai partira para a servidão, e a sensação de poder que lhe causara fora suficiente para deixá-lo zonzo. Fileiras de casas e lojas vendendo todo tipo de coisa, assim como construções de dois andares para acomodar viajantes. As ruas eram cheias de gente, e ele vira coisas das quais tinha apenas ouvido falar mas nunca vira antes, tais como um boi, que passara diante dele com carga amarrada nas costas. No porto ele vira navios de carga e de barcos de pesca. Não parara de se mover por um segundo, olhando tudo de forma incansável, até ficar exausto.
Tinham passado apenas uma noite no chão de terra da casa do intermediário, mas Isaku nunca iria se esquecer da sublime tranquilidade que experimentara quando atravessara novamente o passo nas montanhas e avistara as casas de sua aldeia lá embaixo. Estava certo de que nunca poderia viver em outro lugar que não fosse aquele.
No momento em que ouviu dizer que os agentes da transportadora estavam procurando um navio desaparecido, a aldeia vizinha passou a representar para Isaku tudo que era misterioso e assustador. A vila vizinha ficava localizada na mesma ilha e pertencia à vasta extensão de terra do outro lado do mar. Cada aldeia tinha seu próprio código de leis, passado adiante através das eras.
Raro como era, via-se o aparecimento de O-fune-sama sob a mesma luz dos inesperados cardumes de peixes que às vezes apareciam perto da costa, ou quantidades especialmente grandes de cogumelos ou legumes da montanha encontrados na floresta. O-fune-sama era parte dos presentes oferecidos pelo mar, e seu aparecimento acabara de salvar as pessoas da aldeia da fome. Para a aldeia de Isaku, o naufrágio de O-fune-sama era a coisa mais alegre possível, mas para outras pessoas, em outros lugares, tais como a aldeia vizinha, era algo ruim e que merecia a punição máxima. Mas se O-fune-sama não abençoasse sua praia, a aldeia havia muito teria deixado de existir, e a baía não seria mais que uma área de mar rodeada por pedras. Seus ancestrais haviam vivido ali, e eles, por sua vez, só podiam sobreviver graças a O-fune-sama.
Diziam que as almas dos mortos da aldeia iam para longe pelo mar e que, com o tempo, voltariam para encontrar abrigo no útero de uma mulher grávida. Não havia nenhum lugar para onde elas poderiam retornar além da aldeia. Se retornassem para um lugar onde as regras fossem diferentes, onde eventos festivos fossem considerados crimes, o resultado não seria bom. Se Isaku viesse a constituir sua própria família, sabia que teria de ir até a aldeia vizinha vender sal e outras coisas, mas estava determinado a evitar tais viagens. Queria permanecer na segurança da aldeia onde seguiam princípios fixos de como viver.
Às vezes ele pensava sobre sua própria morte. Seu corpo sendo queimado e os ossos enterrados no chão, sua alma deixando a aldeia e seguindo por cima da água, realizando uma longa jornada antes de alcançar o lugar longínquo no mar onde as almas dos outros mortos da aldeia estariam esperando. Os espíritos tinham uma moradia no fundo do mar onde tudo era claro e brilhante. Densos campos de algas marinhas balançavam como bosques de árvores, e todo tipo de mariscos e outras conchas coloridas se agarravam às pedras, brilhando como madrepérola.
Cardumes de peixes pequenos, as escamas prateadas brilhando enquanto nadavam., viravam ao mesmo tempo quando o líder mudava de direção, da mesma forma que um grupo de flocos de neve dançando no ar.
O fundo do mar era sempre calmo e a temperatura da água não mudava. As almas mortas pareciam águas-vivas em suas vestes transparentes, e tinham um brilho saudável nos cabelos. Sempre sorriam e nunca eram admoestados. Estavam no estado de profunda serenidade induzido pela morte. Ali ele viu a avó, de quem tinha apenas uma vaga lembrança, e Teru, sua irmãzinha que morrera dois anos antes. As pessoas mais atrás deviam ser seus ancestrais.
Ele se moveu até eles e parou junto de Teru. Antes que se desse conta, ele também foi envolto em vestes transparentes, e sua face tinha sempre um sorriso gentil. Ele se sentiu agradavelmente aquecido dentro daquela roupa.
Às vezes, alguns espíritos se afastavam, levados por aqueles que tinham ficado para trás. Eram as almas voltando para a aldeia para reencarnar no útero através da união sexual de um homem e uma mulher. E quando a reencarnação ocorreria? Muito provavelmente, um longo tempo depois da morte.
Ele não tinha dúvidas de que ele, também, era um espírito reencarnado no útero de sua mãe. Acreditava que a moradia das almas mortas lá longe no mar não era apenas imaginação, mas algo que podia visualizar tão claramente porque se tratava de um lugar do qual ele uma vez fizera parte.
Não tinha medo de morrer, especialmente porque acreditava que havia um lugar onde se vivia em paz depois da morte. Mas, se fosse levado para longe e morresse em um lugar distante, achava que seria difícil para seu espírito conseguir alcançar o santuário das almas mortas de sua aldeia. Sem dúvida, seu espírito seria condenado a um inferno cheio de almas de estranhos com expressões tristes.
Se os homens da agência de transporte viessem até a aldeia e descobrissem que os habitantes tinham roubado a carga de um navio naufragado, eles seriam presos e mortos, não poderiam saborear a tranquilidade depois da morte. Isaku orou para que os homens da agência de transporte nunca aparecessem.

A neve havia começado a derreter nas montanhas, e as casas tremiam cada vez que as avalanches reverberavam pela aldeia. O fluxo de água que corria entre as casas cresceu e virou uma torrente.
Em março, a neve tinha desaparecido das montanhas; restavam apenas alguns filetes brilhando nas montanhas distantes. Ninguém tinha sido visto na trilha da montanha, nem nenhum barco na água.
O chefe chamou os membros mais idosos da comunidade; ficou decidido que dois homens seriam enviados até a aldeia vizinha. A missão deles era descobrir o que os agentes da companhia de transporte estavam fazendo, e se a aldeia deles estava ou não sob suspeita.
Na manhã seguinte, como se estivessem indo apenas fazer comércio, os homens carregaram fardos de peixe seco pela trilha da montanha. Todos eles possuíam pernas fortes, e em um instante desapareceram floresta adentro.
Cinco dias mais tarde, perto do pôr-do-sol, os homens reapareceram e correram até a casa do chefe da aldeia. Isaku juntou-se aos outros na frente da casa.
As notícias trazidas pelos homens deixaram os moradores da aldeia mais tranquilos. Ao passar pela casa do mercador de sal onde negociavam o peixe seco e compravam grãos, fizeram perguntas sobre os agentes da companhia de transporte que se haviam hospedado ali. Esses homens, segundo lhes contaram, já tinham voltado para o escritório da companhia de transporte em um porto na parte sul da ilha. Tinham feito perguntas aos capitães de navios que aportaram na cidade e aos visitantes das aldeias ao longo da costa sobre o barco desaparecido, mas não conseguiram obter nenhuma pista sobre o que havia acontecido.
O navio deve ter sido atingido por uma tempestade em alto-mar e afundou. Os agentes desistiram e foram embora — dissera o mercante, com ar indiferente.
Os habitantes da aldeia trocaram olhares aliviados. O perigo tinha passado. No entanto, o chefe não deu permissão para que trouxessem o arroz de volta da floresta. Deviam continuar atentos, decidiu ele, só por segurança.
Em meados de março, o ritual de orar por uma boa pesca foi realizado na praia, e naquele dia o chefe da aldeia deu permissão para que pegassem o arroz nas montanhas. Naquela noite, todos na aldeia cozinharam arroz para o jantar, e também na casa de Isaku, onde ferveram a água para fazer uma boa sopa. Isaku também tomou um pouco de vinho com a mãe.
No dia seguinte, ele saiu em seu barco com Isokichi. A princípio não conseguiram pegar nada exceto peixes pequenos. Mas quando abril chegou, no entanto, eles começaram a pegar sardinhas graúdas em grande quantidade. Não podiam pescar juntos pois as linhas se enroscariam, então Isaku determinou que Isokichi cuidaria da condução do barco enquanto ele se concentrava em pegar as sardinhas. Claro, como Isokichi ainda não tinha experiência, sempre que chegavam perto do recife Isaku pegava o remo e afastava o barco das pedras. A pele da mão de Isokichi rachou e sangrou bastante.
A pesca de sardinha parecia mais produtiva que o normal, e mesmo do barco eles podiam ver uma massa ondulante de escamas prateadas passando velozmente sob a superfície. A cor do mar mudava nas áreas onde havia mais peixes, e às vezes grandes porções de água pareciam estar fervendo. Se ele colocasse vários anzóis na linha e a jogasse na água, sentia a linha ser puxada no mesmo instante. Com sardinhas em quase todos os anzóis, era um trabalho e tanto removê-las da água.
De tarde, quando voltavam para a praia, eles transferiam as sardinhas para tinas e as carregavam para casa, onde a mãe as limpava e grelhava ao fogo. O peixe estava muito suculento, e cada vez que pingava gordura no fogo as chamas aumentavam. Para Isaku, o gosto das sardinhas quentes era uma delícia sem comparação.
A mãe cortou parte dos peixes no meio e fez a irmãzinha Kane passá-los para ela para serem pendurados em um pedaço de corda para secar.
A temperatura subiu e as montanhas encontravam-se cobertas de verde.
Todos os homens da aldeia levaram seus barcos para a água ao mesmo tempo, mas de um modo um pouco diferente do ano anterior. Normalmente eles saíam ao alvorecer, mas alguns barcos podiam ser vistos deixando a costa bem depois de o mar estar ensolarado. Eles também encerravam mais cedo, apressando-se de volta mais ou menos quando o sol começava a se pôr. Alguns homens alegavam problemas físicos ou de saúde como desculpa para não sair para o mar.
Ficar preguiçosa é a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa — murmurava a mãe de Isaku, enquanto colocava mais lenha no fogo.
Os homens que não estavam levando a pescaria a sério tinham ficado mal-acostumados pela fartura de comida trazida por O-fune-sama. Eles usavam tudo que pegavam para alimentar as famílias e não viam necessidade de pegar mais peixes ou negociar em troca de grãos. Felizmente, naquele ano as sardinhas tinham vindo em quantidade, e era possível pescar bastante sem ter de passar muito tempo na água. Eles podiam até tirar um ou outro dia de folga.
Isaku queria ir mais devagar também, mas, quando pensou no que a mãe lhe dissera, mudou de ideia.
O mar ficou calmo durante vários dias e às vezes garoava desde manhã até a noite. Mesmo nesses dias Isaku levava Isokichi para pescar. A mãe arou o pequeno campo deles e plantou sementes de legumes. Lá de fora do mar ele podia ver os terraços cavados na encosta, e costumava ficar olhando os chapéus de junco movendo-se no campo onde a família de Tami plantava.
Um dia, em meados de abril, um homem que estava em um barco perto de Isaku chamou-o e apontou para a trilha na montanha. Isaku sentiu um arrepio na espinha. Dois homens caminhavam lentamente em direção à aldeia. Estavam a uma distância razoável e não era possível distinguir quem eram, mas parecia que estavam olhando para Isaku. Ele imaginou que deviam ser os homens da companhia de transporte. Tinha ouvido dizer que haviam interrompido a busca pelo navio perdido e voltado para casa, mas talvez eles não houvessem desistido, afinal, e tivessem simplesmente ido até outra aldeia antes de vir até ali. Fardos de arroz e outros produtos exóticos de O-fune-sama se encontravam por toda a aldeia; se os agentes os vissem, saberiam no mesmo instante que haviam sido tirados de um navio.
Isaku começou a tremer.
Ele olhou para o barco a seu lado. O homem estava olhando para Isaku. Ele voltou os olhos para a montanha a tempo de ver os dois homens desaparecer por trás das árvores que ladeavam a trilha.
Isaku seguiu os outros barcos que voltavam para a praia, pegando o remo das mãos de Isokichi e remando com toda a força. Não havia tempo de remover os fardos para a floresta, mas ele achava que poderiam ao menos tentar escondê-los jogando esteiras de palha por cima.
Os barcos estavam chegando à praia um atrás do outro quando Isaku puxou o seu para fora da água antes de correr para casa. As mulheres e crianças, que normalmente estariam perto da água, já haviam desaparecido.
Isaku correu para casa e encontrou a mãe cobrindo os fardos de arroz com esteiras e colocando lenha por cima. Ele a ajudou a carregar os jarros com vinho, açúcar e molho de soja pela porta dos fundos e os escondeu no meio dos bambus.
Da parte de trás da casa, Isaku ficou olhando para a trilha. O topo das árvores balançava ao vento enquanto o sol se punha. Apenas o marulho das ondas quebrava o profundo silêncio que envolvia a aldeia. Cada um dos habitantes da aldeia estava escondido dentro de casa.
[…]

Akira Yoshimura, in Naufrágios

20/07/2023

Naufrágios | Capítulo 6



Os primeiros sinais da primavera tornaram-se mais pronunciados à medida que os dias passavam e a neve que cobria a aldeia começava a derreter. As casas vibravam quando a neve escorregava dos telhados. Vapor subia da palha úmida dos telhados de sapé.
Com a chegada da primavera, as pessoas tornaram-se mais animadas. Quando a temperatura subiu os peixes também vieram mais para perto da costa, e começaram a aparecer mariscos entre as pedras. O estoque de arroz de cada casa significava que não haveria falta de grãos, e com os frutos do mar também maduros para ser colhidos, a aldeia poderia se alimentar muito bem.
Isaku notou a mudança no rosto das pessoas. Um brilho de satisfação substituíra a expressão endurecida. Alguns homens sentavam-se fumando na frente de suas casas, enquanto outros ficavam na praia sem fazer nada.
Isaku ouviu dizer que alguns dos habitantes da aldeia estavam falando sobre realizar uma viagem à aldeia vizinha para vender sal. Um homem de meia-idade que Isaku encontrou na trilha olhou tristemente para cima, para a trilha que subia a encosta da montanha, e murmurou:
Será que temos mesmo que ir vender sal este ano?
A cada ano, no final de fevereiro, o sal produzido durante o inverno era carregado até a aldeia vizinha e trocado por grãos. Mas, com os fardos de arroz estocados em cada uma das casas, não havia necessidade de vender o sal em troca de uma quantidade ínfima de grãos.
O sal era pesado, e carregá-lo montanha acima pela trilha e através do passo era uma tarefa penosa. Em ocasiões anteriores, algumas pessoas haviam escorregado e quebrado a perna e, mesmo caminhando do nascer ao pôr-do-sol, levavam três dias para chegar à aldeia vizinha.
Na família de Isaku, era a mãe quem se encarregava da empreitada, mas ela franziu o cenho em silêncio quando Isaku disse:
Parece que muita gente está dizendo que não quer vender sal.
Um dia, quando o mar estava com ondas altas, Isaku foi até a casa do chefe da aldeia, onde foi feita uma reunião. A área de terra da casa estava repleta de homens e mulheres, O chefe da aldeia estava sentado junto do fogo, e ao lado dele encontrava-se o velho, que se levantou e ficou na frente deles.
Aqueles que quiserem ir vender sal vão partir ao nascer do dia, amanhã. Ouvi dizer que alguns de vocês não querem ir. Vocês entendem como isso é insensato? Nós vamos todos os anos. O que as pessoas da aldeia vizinha vão pensar se não aparecermos este ano? Sem dúvida vão imaginar que conseguimos alguma outra fonte de alimento. Logo ficarão sabendo que fomos abençoados por O-fune-sama com seus presentes. Vocês não pensaram nisso? — A voz do velho exprimia raiva.
Os que estavam ali reunidos assentiram solenemente, em silêncio, alguns baixando os olhos, envergonhados. O velho examinou-os por segundos antes de continuar:
Vocês vão partir amanhã cedo. A única comida que levarão será milho e peixe seco. Nem um único grão de arroz! Não façam nada nem deem nenhum indício que sugira que não estamos a ponto de morrer de fome.
Os olhos do velho adquiriram novamente o brilho do aço enquanto ele retornava à sua posição junto do fogo.
As pessoas se retiraram e Isaku foi para casa. Ele contou à mãe o que o velho dissera e depois falou:
Eu irei este ano.
Um fracote como você carregando sal? — disparou a mãe.
A humilhação que Isaku sentira quando não conseguira erguer o fardo de arroz voltou. A mãe havia rido quando o chamara de molenga, mas dessa vez ele podia sentir o desprezo na palavra “fracote”.
Na manhã seguinte a mãe acordou na Hora do Boi — cerca de duas da manhã —, preparou um pouco de milho e o embrulhou em algas, junto com alguns saury secos. Na Hora do Tigre — cerca de quatro da manhã — ela calçou os sapatos, pegou um bastão grosso e saiu de casa.
Isaku ficou diante da porta e observou a fila de pessoas emergir da casa do chefe da aldeia e seguir para a viagem para vender sal. O céu estava ficando azul. Com a carga de sal nas costas, as pessoas se apoiavam em varas e avançavam com passos determinados.
Quando chegaram à trilha da montanha, a luz do sol já iluminava parte do mar. Por fim, a fila de pessoas desapareceu no meio das árvores, passando pelos últimos sinais de neve na trilha.
Elas reapareceram na trilha da montanha sete dias depois, à tarde. Isaku correu para a trilha com os outros. As pessoas enfileiradas pareceram notá-los e pararam de andar. Baixaram a carga e se espalharam ao redor da trilha, sentando-se ou deitando-se de costas. Isaku correu até sua mãe. Havia manchas de sangue nos ombros dela, e os pés estavam cobertos de terra e sangue das bolhas arrebentadas. Os lábios dela estavam secos, e o peito subia e descia laboriosamente. Isaku e os outros usaram varas de carregar baldes para levar os grãos. A mãe dele se levantou e caminhou mancando encosta abaixo.
Os fardos de grãos foram empilhados na área junto da casa do chefe da aldeia. A mãe de Isaku e os outros vieram arrastando seus bastões, cansados, e sentaram-se, dobrando as pernas sob o corpo, do modo formal.
Isaku ficou na área, mas a julgar pela atmosfera na casa ele sentia que algo estava errado. Com olhares assustados nos rostos, cada uma das pessoas lá dentro parecia estar disputando o direito de contar algo para o chefe da aldeia. O rosto do chefe da aldeia ficou pálido.
Em pouco tempo a notícia se espalhou, informando que quando aqueles que levavam o sal para vender tinham visitado o intermediário dos contratos de servidão, que também agia como mercador de sal, eles haviam sido interrogados por dois homens. Esses homens eram de uma agência de barcos de transporte de um porto no extremo sul da ilha, que cuidava dos barcos na rota ocidental; eles estavam ali para perguntar sobre um barco com carga de duzentos fardos que havia desaparecido. O barco estava totalmente carregado com arroz e cerâmica, e tinha partido no final do ano anterior, com ventos favoráveis. Parecia que o tempo tinha ficado ruim no meio do viagem, mas os encarregados da agência de transporte não haviam ficado particularmente preocupados, porque o capitão do navio era um marinheiro veterano que havia enfrentado muitas tempestades no passado. Eles mencionaram que na primavera anterior o barco tinha passado por uma reforma em larga escala, onde madeira podre, metais enferrujados e coisas assim tinham sido substituídos. Era um navio antigo que chamavam de Vovozinha, que começara a ser usado fazia treze anos.
O barco devia estar indo para norte pela costa oeste da ilha, mas desaparecera no caminho. Não chegara ao destino, e também não havia indícios de ter procurado abrigo em nenhum porto. O capitão do barco era um homem honesto; não havia a hipótese de que ele houvesse fugido no barco para roubar a carga. Ou o navio afundara em alto-mar, ou se destroçara em algum ponto da costa.
Se o navio tivesse se chocado contra alguma pedra na costa, deveria ser possível recuperar parte da carga. Como tinham presumido que deviam procurar apenas na costa ocidental, fora para lá que a agência despachara seus homens.
O momento de desaparecimento do navio era mais ou menos o mesmo do surgimento de O-fune-sama, mas como o barco que batera contra o recife na frente da aldeia tinha capacidade de cerca de trezentos fardos, ficava claro que aqueles homens estavam procurando um outro navio. Mas o fato de aqueles homens estarem procurando um navio perdido colocava a aldeia em grande perigo.
Isaku e os outros pareciam ansiosos ao entrar na área de terra da casa, olhando para o chefe da aldeia.
O chefe voltou para junto do fogo e falou em voz baixa com os membros mais idosos da comunidade. Ainda havia evidências na aldeia de todo tipo de coisas trazidas para eles por O-fune-sama. Apesar de a madeira do barco ter sido levada para um local na floresta, o arroz e outras mercadorias encontradas junto com a carga haviam sido distribuídos entre as famílias. Se aqueles homens fizessem alguém os guiar até a aldeia e dessem uma olhada dentro das casas, encontrariam artigos que um povo como eles jamais poderia ter e ficariam desconfiados. Sem dúvida iriam perceber que aquelas pessoas haviam se apossado da carga de um navio naufragado.
Os oficiais viriam para prender os habitantes da aldeia e os submeteriam a duro interrogatório. No transcorrer desse interrogatório, a prática antiga da aldeia de atrair O-fune-sama seria revelada. Se isso acontecesse, o chefe da aldeia e muitos outros, incluindo mulheres e crianças, estariam condenados a um fim trágico. A aldeia deixaria de existir. O fato de os homens da agência de transporte terem chegado até a aldeia vizinha e de terem se desviado de seu caminho para interrogar até aqueles que estavam vendendo sal era uma prova clara de que a aldeia deles estava dentro da área onde calculavam que o navio pudesse ter naufragado.
Todos os homens reunidos com o chefe da aldeia ficaram pálidos; alguns usavam as duas mãos para impedir que os joelhos tremessem violentamente, Isaku também começou a tremer.
O chefe da aldeia, de constituição franzina, disse alguma coisa para o velho, que assentiu, levantou-se e foi até a assembleia de aldeões reunidos.
Escutem com atenção. Vamos esconder cada coisa nas montanhas. Tudo que O-fune-sama nos trouxe. Vocês vão construir cabanas lá em cima para estocar as coisas, mas primeiro temos de levar tudo para a floresta. As cabanas serão construídas depois — disse o velho em tom muito sério.
Os habitantes da vila se curvaram, depois se ergueram e correram para casa.
Isaku observou a mãe se levantar, e a seguiu enquanto arrastava os pés, apoiando-se numa vara. Quando pensou nos ombros cortados e nos pés machucados da mãe, e como ela carregara de forma instável aqueles fardos de arroz, amaldiçoou sua própria falta de força.
Quando a mãe entrou em casa, ela parou diante de um dos fardos de arroz estocados na área de terra e o ergueu no ombro. O grande peso era obviamente um desafio para ela, que cambaleou ao sair pela porta de trás.
Isaku a seguiu, carregando a jarra com óleo de coza e uma pequena bacia com molho de soja.
A mãe avançou lentamente, subindo a encosta estreita para as montanhas na parte de trás da vila. De vez em quando parava para recuperar o fôlego. Isaku a acompanhava temeroso, receando que as costas da mãe se quebrassem.
Havia árvores por todos os lados quando a mãe entrou pela trilha da floresta adentro. A luz do sol se esgueirava por entre as folhagens, permitindo que os pessegueiros florescessem nos menores espaços possíveis. A mãe colocou o fardo de arroz atrás de uma pedra grande e se sentou, ofegando, com pingos de suor escorrendo pelo rosto.
Corte um pouco de lenha com o machado e faça uma fundação — disse ela, levantando-se e indo para a trilha.
Isaku correu para casa e pegou uma bacia cheia de vinho e um machete antes de voltar para a floresta. Bateu com a lâmina do machado no tronco de uma árvore; depois de derrubá-la ele cortou os galhos com o machado e deitou o tronco no chão por trás da rocha. Após alinhar vários desses troncos lado a lado, sua mãe colocou os fardos de arroz em cima deles. Já era quase noite quando terminaram de colocar ali o oitavo e último fardo, do qual já haviam consumido uma parte, e Isaku os cobriu com esteiras de palha para protegê-los da chuva.
Naquela noite a mãe de Isaku teve febre muito alta. Isaku aplicou um cataplasma de ervas medicinais nos machucados dos ombros e pés, mas os ferimentos estavam cheios de pus. A mãe cerrava os dentes e gemia de dor.
Na manhã seguinte, Isaku fez sopa de legumes e alimentou a mãe prostrada, assim como o irmãozinho e a irmãzinha, antes de ir para a floresta com Isokichi. Trabalharam arduamente para fazer uma cabana com pedaços de madeira. A única preocupação deles era proteger os fardos da chuva e do orvalho, por isso colocaram palha de grama entre as tábuas do teto e do chão. Sombras de galhos balançavam por cima do teto.
Quando voltaram para casa, a mãe estava sentada junto do fogo, assando feijões.
Você já consegue levantar-se? — perguntou Isaku, mas a mãe permaneceu em silêncio.
O rosto dela estava pálido e doentio, as faces afundadas, e as pernas, mantidas separadas, azuis e inchadas. Ele pegou o cataplasma de ervas medicinais no canto do chão de terra e o colocou perto da mãe.
Vá até a casa do chefe da aldeia e informe que cada grão de arroz foi levado para a floresta e que você construiu uma cabana para proteger tudo — disse a mãe, continuando a cuidar dos feijões.
Isaku assentiu e saiu de casa. O céu a leste tinha um brilho vermelho, e o mar brilhava abaixo. A cor do céu o fez lembrar-se do sangue dos marinheiros mortos. Ele correu pela trilha da aldeia. [...]

Akira Yoshimura, in Naufrágios

10/07/2023

Naufrágios | Capítulo 5


[...]
A mãe serviu mais sopa para as duas crianças menores, com uma expressão tranquila no rosto ao manipular os hashis. Logo depois de terminar a refeição, a irmãzinha de Isaku adormeceu sentada, por isso a mãe a pegou e levou para as esteiras de palha. O irmão já estava deitado no canto da sala.
Quantos mortos havia? — perguntou Isaku, lembrando-se dos dois barquinhos que vira do posto de observação no cabo.
A mãe ergueu os olhos enquanto bebia de sua cuia de água quente.
Três caíram pela beirada e se afogaram. Havia quatro pessoas ainda no barco, contando os feridos, mas todos eles foram mortos — disse ela calmamente.
Eles resistiram? — perguntou Isaku, observando o rosto da mãe iluminado pela luz do fogo.
Ouvi dizer que não fizeram nada, apenas imploraram por suas vidas — disse a mãe com uma voz inexpressiva.
Era provável que os tripulantes tivessem cortado seus topetes, pedindo proteção divina. Isaku podia imaginar os homens ajoelhados no tombadilho, os cabelos cortados caídos sobre as tábuas, enquanto imploravam que suas vidas fossem preservadas.
Não há espaço para a piedade. Seria um desastre se qualquer um deles ficasse vivo. Eles tinham de ser mortos, seus ancestrais decidiram isso, e é assim que sempre tem sido desde então. As regras da aldeia têm de ser seguidas — disse a mãe, com um olhar férreo fixo nele. Isaku assentiu com ar solene.

No dia seguinte o mar estava agitado. As ondas quebravam na costa com estrondo, e as esteiras de palha na entrada das casas balançavam ao vento forte que açoitava a costa.
Isaku e a mãe percorreram a trilha até a casa do chefe da aldeia, com borrifos de água caindo sobre eles toda vez que uma onda arrebentava na praia. Os rostos das pessoas que encontravam no caminho estavam iluminados de alegria.
A área de terra na entrada da casa do chefe da aldeia estava repleto de gente; todos mantinham a voz baixa, falando em sussurros, mas não havia dúvida quanto ao brilho em seus olhos e a alegria em suas palavras. No fundo da sala os mais velhos encontravam-se ocupados colocando galhos de cânhamo no chão para ajudar nos cálculos. Tinha sido decidido que o arroz seria distribuído primeiro.
Os homens curvados sobre as varas no chão ergueram-se quando um deles se colocou de quatro no solo e falou com o chefe. O chefe assentiu com a cabeça. Quando o velho de confiança sentado ao lado do chefe se levantou, os murmúrios cessaram.
Havia trezentos e vinte e três fardos de feno a bordo de O-fune-sama — anunciou ele.
A multidão pareceu mover-se como um único bloco em reação às palavras. O coração de Isaku acelerou com a notícia de uma riqueza assim tão incrível.
Cada homem e mulher adulto vai receber três fardos e cada criança receberá um fardo. Os quarenta e nove fardos restantes serão estocados como a parte do chefe da aldeia.
Ouvindo isso, os habitantes da vila tiveram de se esforçar para conter a excitação, e uma série de vozes elevou-se do chão de terra quando algumas pessoas se curvaram profundamente para o chefe da aldeia.
Sorrisos apareceram na face do chefe e dos anciãos, e Isaku viu que a mãe e os outros ao redor choravam de emoção. Aqueles que tinham a partir de dez anos completos eram considerados adultos, portanto Isaku e a mãe receberiam a quota de adultos. Isaku contou nos dedos quantos fardos receberiam, chegando à conclusão de que a família ficaria com oito fardos.
Vamos ficar com oito fardos! — exclamou ele excitado para a mãe.
Oito fardos! — repetiu ela, chorando e olhando para o filho. Lágrimas continuavam a surgir nos olhos dela e a escorrer pelo rosto. Pela expressão no rosto da mãe, Isaku achou que ela estava lutando para controlar os soluços e lágrimas.
Quando os habitantes voltassem para a aldeia do trabalho servil, o chefe lhes entregaria sua quota de arroz estocado. Quando o pai de Isaku voltasse na primavera do ano depois do próximo, ele receberia sua quota também, e a família teria ainda mais benefícios.
O chefe da aldeia se levantou, acompanhado pelos velhos. Os outros os seguiram até a área atrás da casa. Havia fardos demais para caber na área de estoque, portanto haviam sido empilhados do lado de fora, sobre esteiras de palha. Isaku olhou por cima dos ombros dos outros para os fardos de arroz como se estivesse contemplando um tesouro magnífico.
Seguindo as instruções dos velhos, os homens começaram a separar os fardos de feno. Usando as varas de cânhamo, foram contando o número de fardos. Quando os velhos chamaram o nome de Isaku, oito fardos de arroz foram colocados no chão com duas varas longas, e duas mais curtas que simbolizavam a quota de seu irmão e irmã. Ele pensou que, se a irmã Teru não tivesse morrido, outra vara curta teria sido colocada ali.
Quando terminaram de distribuir as varetas, todos se prostraram diante do chefe da aldeia murmurando palavras de agradecimento. Muitos juntaram suas mãos em oração.
O mais velho ergueu sua voz de modo a ser ouvido.
Comam o arroz um pouquinho por vez. Não sabemos quando O-fune-sama virá novamente. Pode levar anos. As pessoas que ficarem muito acostumadas com o gosto do arroz vão sofrer as consequências. Vocês homens devem se manter ocupados pescando, e as mulheres devem continuar a procurar mariscos na praia.
Os habitantes da aldeia se curvaram novamente. Em seguida todos se levantaram e ficaram diante de seus respectivos fardos de arroz, dezesseis grupos no total. Os chefes de família saíram para a trilha carregando seus fardos.
Você nunca vai conseguir carregar isso — disse a mãe de Isaku.
Ele segurou a corda do fardo e tentou erguê-lo sobre o ombro, mas não conseguiu fazer com que subisse acima da cintura. Era bem mais pesado do que ele esperava.
Molenga! — disse a mãe, mas o sorriso no rosto dela mostrava como estava feliz.
Ela ergueu o fardo e o colocou no ombro, os quadris ondulando um pouco enquanto seguia pela trilha. Isaku ruborizou, sentindo-se embaraçado ao pensar que ele, que supostamente era o provedor da família, era incapaz de carregar um fardo de arroz no ombro; e, ainda mais, sua recém-descoberta habilidade para pescar não contava para nada quando a questão era masculinidade, um fato humilhante.
A mãe fez várias viagens entre a casa do chefe da aldeia e a casa deles, onde empilhou os fardos em cima de algumas tábuas na área de chão de terra. Depois de carregar o último fardo, ela bebeu um pouco de água, limpou o suor da testa e sentou-se para descansar antes de tirar um pouco de arroz de um dos fardos e o colocar como oferenda diante do ihai, a placa ancestral. As crianças imitaram a mãe quando ela se ajoelhou para orar.
No final da tarde a mãe colocou um pouco de arroz em uma panela e começou a cozinhá-lo. O cheiro espalhou-se no ar e fez com que viessem à mente de Isaku suas memórias do sabor do arroz enquanto olhava para a massa branca na panela, onde os grãos inchados saltavam para cima e para baixo. A mãe serviu um pouco da sopa de arroz. Ele ficou maravilhado assim que a levou aos lábios: um gosto rico e refinado. Era como se estivesse sendo abastecido de força. O irmãozinho e a irmãzinha comeram sem dizer uma palavra, mas não havia como confundir a expressão de surpresa em seus rostos.
O pai de Kura veio se encontrar com a mãe de Isaku e a acompanhou até a casa de Takichi. Porque Kura tinha realizado tão bem o papel no ritual de O-fune-sama, ela estava agora sendo louvada na vila. Foi feita uma celebração em honra dela na casa de Takichi.
Um pouco depois a mãe de Isaku voltou para casa de muito bom humor.
Ela foi bem recompensada. O chefe da aldeia mandou três fardos de arroz e também vinho. Ele disse que foi o chute perfeito dela na mesa que trouxe O-fune-sama.
A mãe de Isaku obviamente havia bebido; ela respirou profundamente depois de tomar um pouco de água da moringa.
O rugido das ondas quebrando parecia opressivo aos ouvidos, mas não conseguia estragar a alegria que dominava a aldeia.
Isaku deitou-se para dormir ao lado de Isokichi.
A distribuição de bens continuou no dia seguinte. Óleo de semente de coza, molho de soja, vinagre e vinho foram separados em função do tamanho de cada família, e as pessoas levaram suas quotas em jarros e cuias. A cera e metade do chá seriam armazenadas na casa do chefe da aldeia, que também funcionava como ponto de encontro da aldeia. O tatame também foi guardado lá.
Naquela noite os fogos sob os caldeirões de sal foram acesos novamente porque o chefe da aldeia queria encorajar seu povo a voltar à rotina diária, ou a sorte inesperada poderia fazer com que sucumbissem à indolência. Mesmo assim, eles esperavam que fossem abençoados com outro O-fune-sama.
Os homens começaram a sair para pescar novamente nos dias calmos, trocando olhares animados de um barco para o outro. Alguns até mesmo acenavam ou sorriam para Isaku sem nenhuma razão especial.
Isaku levou Isokichi para a água, mas pensar nos fardos de arroz e nos outros luxos empilhados em casa fazia com que perdesse a concentração. Às vezes, puxava a linha e descobria que a isca tinha sido levada. Com comida suficiente para durar um longo tempo, Isaku perdeu a fome necessária para pescar peixes pequenos.
Mesmo as mulheres que procuravam mariscos e algas do mar na costa pareciam passar mais tempo conversando do que trabalhando. As risadas delas podiam ser ouvidas através da água.
Chegou a vez de Isaku de cuidar dos fogos na praia. Ele tinha pensado que O-fune-sama fosse apenas um pouco mais do que um sonho exagerado do povo da aldeia, mas, agora que tinha vivido pessoalmente a experiência, sentia a importância do trabalho nos fogos dos caldeirões e o que mais desejava era que O-fune-sama aparecesse quando ele estivesse ali na praia trabalhando.

O ano terminou e o dia do Ano-Novo chegou. Isaku passou a ter onze anos de idade.
Segundo o costume, durante o feriado de Ano-Novo todos na aldeia ficavam em casa. O mar estava bravo, e cada dia mais neve caía. O retorno ao trabalho no sexto dia do Ano-Novo foi marcado por um céu claro com pouco vento, mas o mar ainda se lançava contra a praia com ondas altas. A mãe colocou uma porção generosa de arroz na panela para cozinhar. Pedaços de lula seca queimavam lentamente no fogo. Havia também um prato de polvo em conserva.
Isaku tomou um gole da sua grande porção de sopa de arroz e experimentou a lula grelhada. Era a primeira vez que tomava um café da manhã digno de um Ano-Novo.
Depois da refeição, eles todos foram prestar homenagem aos túmulos dos ancestrais. Tanta neve havia caído que chegava à altura dos quadris. A mãe de Isaku amarrou a filha nas costas para acompanhar as outras pessoas da aldeia até o cemitério. Retiraram a neve dos túmulos, colocaram vários grãos de arroz em cada lápide e oraram. Em seguida arrastaram-se de volta pela trilha até a casa do chefe da aldeia. O céu estava azul e a luminosidade refletida na neve os cegava.
Quando entraram na casa do chefe da aldeia viram três dos mais proeminentes membros da comunidade sentados ali, bebendo vinho. Isaku e sua família se curvaram quando ofereceram saudações de Ano-Novo ao chefe da aldeia, que sorriu e assentiu, agradecendo.
Quando chegaram em casa, a mãe serviu para Isaku um pouco de vinho de uma jarra. Ele o levou aos lábios e sentiu seu calor se espalhar pela boca.
A mãe tomou um gole.
É um vinho bom. Eu nunca tinha experimentado nada assim antes na vida. O vinho feito de arroz é tão diferente — disse ela, balançando a cabeça, impressionada. O vinho encorpado não só fez Isaku sentir o calor se espalhar como também o deixou de bom humor.
Na próxima primavera papai vai voltar. Espero que ele esteja bem quando voltar — disse Isaku para a mãe, que se virou bruscamente para ele.
Não seja estúpido! Claro que ele vai estar bem quando voltar. Seu pai está acima dos homens normais. Ele não é do tipo que fica doente — disse ela, brava.
Isaku conservou um gole do vinho na boca. O pensamento de como desejava tornar-se um bom pescador antes de o pai voltar para a aldeia passou por sua mente. E também tornar-se forte o bastante para erguer com facilidade um daqueles fardos de arroz.
O vinho começou a subir à cabeça, e tudo pareceu girar. Tomando o resto do vinho de uma só vez, Isaku cambaleou até sua cama de palha e se deitou. Adormeceu em um instante.
Quando acordou, a sala estava imersa em uma escuridão quase completa. O cheiro da sopa de arroz espalhava-se pelo ar, e ele divisou o irmãozinho e a irmãzinha perto do fogão.
A mãe foi até a mesa ancestral e acendeu o pavio que saía de um prato contendo óleo. O irmão e a irmã levantaram-se e foram até lá, os olhos fixos na luz brilhante. Isaku se levantou e olhou para a luz, um pequeno fio de fumaça subindo da chama tremeluzente.
A atmosfera alegre na aldeia prolongou-se além do Ano-Novo. Levando vinho, os homens visitavam uns aos outros para beber e conversar, enquanto as mulheres ficavam conversando e tomando chá. Contavam até sobre um velho que disse que iria muito feliz encontrar o Criador agora que tinha experimentado açúcar branco.
Cada vez que a mãe de Isaku ouvia sobre como as outras famílias estavam cozinhando e comendo o arroz, ela balançava a cabeça, franzindo o cenho.
Estas coisas não duram para sempre. Aqueles que não têm determinação em períodos de fartura são os que mais irão se lamentar depois — murmurou ela, falando para si mesma tanto quanto para quem estivesse em volta. Na casa deles o arroz era usado aos poucos, e apenas para fazer sopa.
Mesmo em dias calmos viam-se poucos barcos passando. A maior parte do transporte de arroz era feito antes do final do ano, e era raro um barco arriscar-se a ser pego por uma tempestade. Não muito depois do Ano-Novo eles viram um barco grande, claramente um navio de um clã, a julgar pelo brasão no centro da vela, que passou ondulando no horizonte antes de sumir por trás do cabo.
No final de janeiro, Kura deu à luz uma menina. Takichi queria um menino, e a princípio ficou desapontado. Mas logo mudou de ideia quando o chefe da aldeia não só os presenteou com arroz e vinho, mas também denominou a menina Tama, ou joia.
Isaku foi com a mãe até a casa de Takichi; ela levava uma cuia com um pouco de arroz. Havia uma guirlanda sagrada de palha pendurada sobre a porta, e o bebê estava dormindo junto de Kura no tatame emprestado a eles pelo chefe da aldeia. A mãe de Isaku colocou a cuia na frente do bebê, junto de várias outras oferendas, e então juntou as mãos em oração. Diziam que as almas dos ancestrais mortos voltavam do outro lado do mar para se abrigar no útero das mulheres grávidas da aldeia. A filhinha de Kura era, portanto, a reencarnação de um dos ancestrais deles; por isso os parentes a visitavam para entregar oferendas.
Isaku sentou-se junto da mãe, com os outros parentes, ao redor do fogão. Eles trocaram cumprimentos e saudações e encheram as cuias uns dos outros com vinho. A mãe de Isaku parecia estar pensando em Teru, que havia morrido fazia um ano, ao baixar os olhos para o bebê. Dizia-se que muitos anos transcorriam antes de a reencarnação ocorrer, então sem dúvida Teru ainda devia estar na tranquilidade oferecida pela morte.
Os parentes falaram sobre como o desempenho de Kura no ritual tinha sido a razão de a vila ter sido abençoada com O-fune-sama e que ocasião de alegria tinha sido o chefe da aldeia ter dado o nome da menina.
Tama certamente tem sorte por nascer quando temos o arroz de O-fune-sama. Se ela comer arroz, não vai ficar doente; ela vai crescer saudável — disse um dos parentes, enquanto os outros assentiam.
Kura parecia satisfeita, deitada de lado, descansando.
O trabalho de extração de sal prosseguiu, e Isaku cumpriu seu turno passando a noite cuidando dos fogos na praia durante uma tempestade de neve. Pela manhã, depois de ter apagado os fogos sob os caldeirões, algumas mulheres vieram até a praia carregando tinas. Tami estava entre elas. Isaku observou enquanto as mulheres raspavam o sal dos caldeirões e o colocavam nas tinas. Seus olhos naturalmente se concentraram no corpo de Tami. O rosto dela tinha ficado longo e magro, e ela parecia ter crescido um pouco. Era esguia agora, mas mais arredondada nos quadris, e subitamente passara a ter um ar de mulher adulta.
Uma sensação dolorosa e sufocante o dominou. Isaku sabia que Takichi tinha tido relações com Kura quando se encontraram na floresta, e ele ansiava por se aproximar de Tami da mesma forma. Mas não podia imaginar-se sendo capaz de chegar perto de Tami, quanto mais falar com ela se a oportunidade aparecesse.
Tami prendeu duas tinas cheias de sal à sua vara de carregar baldes e se afastou pela neve, em direção à casa do chefe da aldeia. Isaku apagou o fogo na pequena cabana e correu para a trilha que saía da praia.
Sem outros navios passando, não havia mais sentido em produzir sal. A aldeia estava enterrada sob a neve profunda. Às vezes Isaku e a família tentavam se aquecer sentando-se de costas para o fogo. Havia uma esteira de palha pendurada na porta; pela manhã ela estava dura e congelada, grudada aos batentes; era preciso bater nela com um galho para soltá-la.
Quando fevereiro chegou, a temperatura tornou-se mais amena e o mar mostrou-se calmo durante vários dias seguidos. Quando os primeiros sinais de flores de ameixeira foram vistos nas montanhas, o chefe da aldeia ordenou que parassem de produzir sal. A estação de O-fune-sama tinha acabado.

Akira Yoshimura, in Naufrágios

30/06/2023

A carga do O-fune-sama


[...]
Os barcos permaneceram ao redor do navio por algum tempo antes de começar a transportar o que parecia ser a carga do navio para a praia. Essa atividade se tornou mais intensa à medida que os barquinhos faziam o percurso entre a praia e o navio.
As velas sem vida foram removidas e o mastro cortado e lançado na água. Um dos barcos se dirigiu para o ponto onde o mastro flutuava e o rebocou para a praia. A carga foi empilhada na praia e parecia realmente ser composta de fardos de arroz.
Sentindo fome, Isaku comeu alguns dos feijões que tinha trazido.
É uma carga e tanto — disse Gonsuke, a voz trêmula enquanto olhava para baixo.
Isso é mais do que outros O-fune-sama do passado? — perguntou Isaku.
Houve alguns navios bem grandes, mas esse volume de carga não é comum. Há muita coisa ali na praia, e ainda não tiraram tudo do navio.
Os olhos de Gonsuke brilhavam de excitação. Sem dúvida, ele sabia o que estava falando, já que exercia a função de vigia toda vez que O-fune-sama aparecia. Isaku sentiu o excitamento crescer dentro de si ao pensar na excepcional quantidade de carga.
O que você acha que tem a bordo? — perguntou ele.
Bem, antes de mais nada, deve haver arroz, e talvez mercadorias como feijão, tecidos, louça, tabaco, papel para escrever, óleo e açúcar. Uma vez houve um barco que carregava vinte caixas de vinho — disse ele, mostrando os dentes lascados ao sorrir.
Por volta da hora do pôr-do-sol, finalmente pareceu a Isaku que a carga do navio fora toda removida. A atividade na baía começou a diminuir, a maioria dos barcos foi empurrada para a areia, e os habitantes da aldeia começaram a carregar os volumes da praia para a casa do chefe.
A neve nas montanhas que se erguiam atrás da aldeia ficaram tingidas de púrpura antes de dar lugar à noite. Lá embaixo na praia a luz do fogo subitamente piscou, e a aldeia mergulhou na escuridão.
Isaku ajudou Gonsuke a cavar na neve profunda que se acumulara por trás de uma pedra enorme, forrando o interior com folhas secas e grama. Depois eles cruzaram varetas por cima do buraco e colocaram casca de árvore por cima, então entraram no buraco e deitaram um de costas para o outro.
Apesar da temperatura fria, o ar dentro do buraco foi ficando cada vez mais quente. Gonsuke começou a roncar.
Isaku ficou ali deitado no escuro, os olhos bem abertos. Sem dúvida o chefe da aldeia faria com que os presentes de O-fune-sama fossem distribuídos igualmente entre todas as famílias, de acordo com o número de pessoas em cada uma. Como a maior parte da carga com certeza consistia em arroz, Isaku ficou imensamente feliz com a ideia de saborear tal delícia. Seu irmão e irmã menores nunca tinham experimentado arroz, e ele mal podia esperar o momento de servir a eles sopa de arroz. Podia imaginar como o delicioso gosto adocicado da sopa branca os deixaria surpresos.
Gonsuke devia estar certo quanto ao teor da carga, e naturalmente isso queria dizer que cada família poderia esperar receber uma quantidade generosa de alimento e outras coisas. Sem quantidade excedente de saury para vender, e com a fraca pesca de polvos no outono, que permitira que comprassem apenas uns poucos grãos, a chegada de O-fune-sama era a salvação da aldeia, e significava o fim do medo da fome. Se usado de forma adequada, o presente duraria por dois ou até três anos. Não haveria necessidade de mais pais de família se venderem como servos, e todos poderiam viver em paz e em segurança por um bom tempo. Tami ficaria com a família, e Takichi continuaria a passar seus dias como pescador e pai de seu filho.
Isaku colocou a mão no peito. A chegada de O-fune-sama devia-se à intervenção divina, e Isaku queria oferecer uma oração de gratidão, do fundo do coração.
O som das ondas quebrando ao pé do promontório parecia reverberar até o centro da terra. Antes que se desse conta, ele já estava dormindo.
Isaku acordou sendo sacudido pelo ombro.
Gonsuke se levantou e afastou os galhos e casca de árvore que cobriam o buraco. Isaku sentiu o ar frio entrar. Ainda havia estrelas no céu, mas estavam perdendo o brilho.
Isaku rastejou para fora do buraco. Gonsuke estava assoprando para reavivar as brasas do fogo, e em pouco tempo mais galhos estavam queimando.
Isaku se aqueceu ao fogo enquanto olhava para o mar. O dia nascia, o mar estava calmo. Lá embaixo, na baía, o trabalho já havia começado; ele via o que deviam ser tochas instaladas nos barcos que se moviam na água, assim como no navio naufragado.
Gonsuke cozinhou dois saury salgados no fogo, entregando um para Isaku. A gordura pingava do peixe quente, e ele o comeu com os feijões, o que neutralizou o sabor salgado do saury, produzindo um gosto incrivelmente bom.
O dia raiou, e o mar foi envolto na claridade da manhã. Borrifos de água subiam uns atrás dos outros no costado do navio enquanto pranchas de madeira e toras eram lançadas na água.
Parece que eles estão desmontando O-fune-sama — disse Isaku, forçando os olhos para ver o que estava acontecendo.
É porque o barco é feito de madeira boa. Pode ser usada para qualquer coisa. Há pregos e dobradiças ali também. E todas as panelas e jarros da cozinha, sem falar nas facas, baldes e cuias de arroz. Às vezes eles têm até armários ou baús — disse Gonsuke, entusiasmado.
Agora Isaku compreendia por que os mais velhos tinham se preocupado em pegar serras, machados e enxadas. O navio estava sendo desmontado e a madeira era lançada na água.
Os barcos rebocavam a madeira para a praia, onde era empilhada na areia. Dali seria carregada para a floresta atrás da aldeia.
Isaku e Gonsuke olharam para o mar; não havia sinal de barcos. Ao leste podiam ver agora grupos de aves marinhas circulando no ar como flocos de neve, e os reflexos de um cardume de peixes subindo à superfície logo abaixo deles. Não se via nenhuma fumaça do outro lado da baía tampouco, na Ponta da Maré.
Dois barcos pequenos começaram a se mover, afastando-se do navio e seguindo na direção do promontório onde Isaku e Gonsuke se encontravam.
Eles estão levando os corpos para longe — explicou Gonsuke.
Isaku prestou atenção. Podia ver claramente um volume coberto com esteiras de palha no fundo dos barcos. Finalmente, os barcos sumiram de vista, um depois do outro, lá embaixo ao pé do cabo.
O tumulto ao redor do navio continuava, e logo o barco perdeu seu aspecto original. O trabalho prosseguia depressa, e parte da popa, onde ficava o leme quebrado, já tinha desaparecido. Isaku viu um barco carregando as velas.
Logo depois da Hora do Cavalo, a única parte que restava nas pedras era o fundo do casco. Havia pessoas em pé no recife trabalhando no navio com velocidade impressionante.
Quando a madeira do que pareciam ser beliches foi rebocada, tudo que restou flutuando na água foram pedaços da quilha. Quando estes foram rebocados para a praia, os últimos destroços do navio desapareceram da baía rochosa, deixando nada além de um mar plácido.
Alguma vez você viu um barco vindo para cá quando estava de vigia? — perguntou Isaku, aos poucos perdendo o interesse na atividade lá embaixo.
Sim, eu vi. Dois em um mesmo dia — disse Gonsuke, olhando para o mar.
Um fio de fumaça ergueu-se no ar.
É o sinal de que eles terminaram. É para nós também — disse Gonsuke, jogando neve no fogo. — Vamos descer e dar uma olhada no que eles conseguiram. Parecia ser um casco de bom tamanho — acrescentou ele, balançando o machado que foi equilibrado no ombro.
Isaku seguiu Gonsuke pela floresta, contornando as árvores enquanto se esforçava para acompanhar os passos rápidos do outro. Animado, ele sentia como se estivesse flutuando no ar. Sem dúvida sua mãe e Isokichi tinham trabalhado o dia todo junto com os outros da aldeia.
Ele queria tomar parte na animação da vila o mais depressa possível. Quando chegaram à trilha na montanha, Gonsuke, com o machado no ombro, apressou o passo, começando a correr, com Isaku logo atrás, impaciente para ver os presentes que O-fune-sama havia trazido.
Saindo do meio das árvores, eles avistaram a praia lá embaixo, à direita. Esperavam ver as pessoas dançando e comemorando, mas em vez disso todos estavam imóveis perto da água. Surpreso, Isaku parou de correr por um segundo, mas, como Gonsuke continuou em frente encosta abaixo, ele o seguiu.
Gonsuke deixou a trilha e entrou na praia. Ofegante, Isaku caminhou até onde todos se encontravam.
Os habitantes da aldeia estavam reunidos ao redor do chefe, as palmas unidas, olhando para o mar. Isaku finalmente compreendeu que estavam oferecendo preces em agradecimento pelos presentes que o mar trouxera. Quando o chefe da aldeia terminou a oração, o velho parado ao lado dele virou-se para os outros e com a voz animada disse:
Muito bem. Seu trabalho deixou o chefe feliz. Agora vão para casa e passem o resto do dia orando para seus ancestrais. O presente de O-fune-sama será avaliado amanhã.
O chefe deixou o local perto da água, seguido pelos outros, sem que ninguém dissesse uma palavra, mas o brilho em seus olhos e o largo sorriso diziam tudo. Empurrado por Gonsuke, Isaku deu um passo, parando diante do velho. O velho ficou satisfeito quando Gonsuke disse que não tinha havido sinal algum de navios se aproximando.
Isaku se curvou reverentemente e caminhou para casa. Quando afastou a esteira de palha pendurada à porta para entrar em casa, a mãe virou-se para ele sem parar de orar diante do ihai, a placa ancestral de sua família. Ela parecia completamente diferente, o rosto corado de felicidade, os cantos da boca virados para cima de um modo que Isaku nunca tinha visto antes.
Ele entrou, juntou as palmas diante da placa ancestral e sentou-se junto do fogo. Sentindo outra onda de felicidade, conteve-se para não pular e dançar pela sala.
O sol tinha começado a se pôr e a temperatura caía. A mãe começou a aquecer o jarro de água com as sementes de trigo-mouro, então pegou um pouco de saury salgado e colocou junto do fogo. Obviamente a refeição seria muito mais generosa que de costume.
O que havia em O-fune-sama? — perguntou Isaku à mãe.
Arroz, muito arroz — disse ela pausadamente, para aumentar o efeito.
E o que mais?
Havia algodão e também óleo de semente de coza. Cera, chá, vinho e molho de soja, vinagre e tapetes. Mas o arroz... Este O-fune-sama era um navio de arroz — disse a mãe, animada.
Que grande dia é este, pensou Isaku. Era uma alegria ver sua mãe tão falante, e ele sentia que a alegria dela estava contagiando não apenas a ele mas também seu irmão e a irmã; eles estavam sentados, sorrindo, ao seu lado. Quando as sementes de trigo começaram a boiar na água, a mãe acrescentou legumes e algas. A sala ficou escura e os rostos deles tinham reflexos vermelhos por causa das chamas. A fumaça começou a subir dos saury colocados no fogo. A mãe encheu as cuias uma a uma, serviu Isaku primeiro, depois o irmão e então a irmã, antes de se servir.
Isaku mordiscou um saury e tomou um gole da sopa de legumes. No dia seguinte o arroz seria distribuído, e ele se sentia nas nuvens com a ideia de ver a expressão do irmão e da irmã quando experimentassem sopa de arroz pela primeira vez.
Só mais um ano e um pouquinho agora — sussurrou a mãe quando pegou sua cuia.
Isaku olhou para ela, imaginando o que ela queria dizer, mas logo percebeu pelo brilho em seus olhos que ela estava pensando em seu pai. Ele tinha partido para um contrato de servidão de três anos, que terminaria mais ou menos na época em que a neve derretesse no ano seguinte ao próximo. Parte dos presentes de O-fune-sama sem dúvida ainda existiria, o que tiraria um peso da consciência de seu pai. Se os encontrasse passando fome, o pai poderia considerar a ideia de se vender como servo mais uma vez; mas agora tal medo estava afastado.
[…]

Akira Yoshimura, in Naufrágios