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30/07/2013

Livro revela atestado de loucura do artista Bispo do Rosário e sua carreira de lutador

Arthur Bispo do Rosário: Arte Além da Loucura

Um detalhe chama a atenção no primeiro prontuário médico escrito sobre Arthur Bispo do Rosário. Descrito como "calmo, de olhar vivo", com "ares de importância" e "fisionomia alegre", o paciente também podia associar "ideias com extravagância".
Não parece o diagnóstico de um louco, mas esse documento atestou loucura suficiente para que o artista sergipano, que morreu aos 80, em 1989, ficasse internado primeiro no hospício da Praia Vermelha e mais tarde na Colônia Juliano Moreira, no Rio.
Entre outros fatos, "Arte Além da Loucura" dá detalhes sobre o surto que levou Bispo do Rosário a ser trancafiado num hospício e sobre sua vida antes, como lutador de boxe e oficial da Marinha.
São dados que dissolvem uma série de mitos, em um momento de redescoberta da obra de Bispo do Rosário, exaltado como figura central da última Bienal de São Paulo e ocupando agora uma sala na Bienal de Veneza, com seus mantos e estandartes.
"Ele não vivia em estado permanente de delírio, sabia das coisas", diz Morais, em entrevista à Folha. "Essa ideia meio romântica da loucura não existe. Ele sabia o que estava fazendo o tempo todo e se tornou uma figura poderosa dentro do hospital. Há uma ordem interna muito forte no trabalho dele."
Mesmo que não falasse sobre o passado, detalhes de sua vida estão documentados nos estandartes que bordou: da infância numa fazenda de cacau na Bahia à ida ao Rio como marinheiro, passando por sua carreira de pugilista.
São avalanches de nomes escritos em ordem alfabética, os mais importantes bordados do lado de dentro de seu "Manto da Apresentação". Além do nome do pai, Bispo lembrou ali alguns adversários que enfrentou no ringue.

LOBO DO MAR

Não eram histórias inventadas. Jornais da época narravam de forma assídua os embates do lutador que nunca foi nocauteado e ficou conhecido como "lobo do mar", ou "marujo de bronze", dotado de "dureza granítica".
Em 1929, reportagem do "A Manhã" descreveu sua primeira luta profissional como "encarniçada", afirmando que ela "arrancou aplausos pela violência dos lutadores".
Mas depois que um bonde esmagou um osso de seu pé, Bispo deixou o ringue e foi trabalhar como empregado doméstico na casa da família Leone, uma das mais ricas e poderosas do Rio na época.
Humberto Leone, um dos herdeiros do clã, conta que Bispo era vaidoso e se vestia "com luxo", usava gravatas de seda e perfume francês.
Isso até o Natal de 1938, quando teve os três sonhos que o levaram a se apresentar num mosteiro como um enviado divino, que veio à Terra numa esteira de nuvens para impedir que o "espírito malíssimo" aqui chegasse.
Naquele primeiro prontuário, estão descritas suas alucinações, entre elas o sonho de uma "chuva de estrelas", que "explodiam fazendo barulhos incríveis", como se imaginasse o próprio destino de brilhar noutro ringue.
Fonte: www1.folha.uol.com.br/ilustrada

02/04/2012

A incrível loucura de Bispo do Rosário

“Faltavam dois dias para o Natal de 1938. Era meia-noite e Arthur Bispo do Rosário descansava no quintal do casarão da família Leone, no Rio de Janeiro. De repente, a cortina preta que revestia o teto do mundo se rasgou sobre ele e deu passagem a sete anjos de aura azulada e brilhosa. Vinham do céu a seu encontro. Era um chamado. A noite se fez dia para convocá-lo a sua missão. Bispo recebeu os anjos e os acolheu em algum canto e sua psique. A glória absoluta: era enfim reconhecido.” (Hidalgo, 1966).

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Arthur Bispo do Rosário perambulou numa delicada região entre a realidade e o delírio, a vida e a arte. Taxado como louco e esquizofrênico, Bispo passou cinqüenta dos seus oitentas anos de vida, trancafiando em um hospital.  Criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante os mais obscuros períodos da psiquiatria.
Bispo nunca teve nenhum tipo de treinamento ou estudo, nem mesmo conviveu no meio das artes. Acreditava estar fazendo parte de um propósito maior, um propósito divino no qual atendia a um chamado de Deus. Dizia ser um escolhido do Senhor para “julgar os vivos e os mortos”, "reconstruir o universo" e "registrar a sua passagem aqui na terra".


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Mas, diferente do que se esperaria de um religioso fanático, Bispo não esculpiu santos, não decorou igrejas, nem nunca trabalhou com nenhuma espécie de tinta, telas ou cavaletes. Usava garrafas plásticas, utensílios domésticos velhos e até mesmo fios de linha, que arrancava de suas roupas e lençóis. Entre os temas, destacam-se navios (tema recorrente devido à sua relação com a Marinha na juventude), estandartes, faixas de mísses e objetos domésticos. A sua obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que Bispo deveria vestir no dia do Juízo final.
Sua arte foi descoberta por Frederico Morais, que organizou uma exposição nos anos 80, e de lá pra cá ganhou vários documentários, filmes, livros e até peças de teatro. A genialidade deste sergipano, nascido no ano de 1909 ou 1911 (não se sabe ao certo), ultrapassou não só barreiras psíquicas como territoriais. Chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris.
Curiosamente, em vida, Arthur Bispo recusava o rótulo de “artista”, dando caráter divino a sua tarefa. Mas a força de sua obra ignora limites e até hoje atravessa fronteiras, transgredindo convenções e levando espectadores de todo o mundo ao encantamento, os fazendo especular como homem de tão simples aparência e de tão pouco estudo chegou tão perto de Deus. Coisa que nenhum homem letrado até hoje conseguiu alcançar.


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Até onde a vida beira a loucura? E onde é o limite da loucura na arte? O fato é que o Bispo foi um gênio incontestavelmente, suas técnicas e sabedorias artísticas são naturais e instintivas. Sua mente era incrivelmente sensível a ponto de explodir em arte e loucura. O Bispo, que faleceu em 1989, só permitia que entrassem em seu ateliê se as pessoas vissem uma cor especial nele, um sinal de sensibilidade e delicadeza com sua obra. Arthur Bispo do Rosário produziu uma beleza insana, poética e humana como nenhum outro artista brasileiro em sã consciência conseguiu.

Mariana Biork, in obviousmag.org