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01/03/2021

Terras do Sem Fim (trecho)

          Uma voz assim tão cheia e sonora espanta todos os outros ruídos da noite. Lá do forte velho que ela vem e se espalha sobre o mar e a cidade. Não é bem o que ela diz que bole com o coração dos homens. É a melo dia doce e melancólica que faz as conversas serem em surdina, baixinho. No entanto, a letra desta velha canção diz que “desgraçada é a mulher que vai com um homem do mar. Sorte boa ela não terá, infeliz destino é o seu. Seus olhos não pararão jamais de chorar, e cedo murcharão de tanto se alongarem para o mar, esperando a chegada de uma vela”. A voz do negro cobre a noite.
O velho Francisco conhece essa música e esse mundão de estrelas que se refle te no mar. Senão, de que valeriam quarenta anos passados em cima de um saveiro. E não é só as estrelas que ele conhece. Conhece também todas as coroas, as curvas, os canais da baía e do rio Paraguaçu, todos os portos daquelas bandas, todas as músicas que por ali são cantadas. Os moradores daquele pedaço de rio e do cais são seus amigos, e há até quem diga que uma vez, na noite, em que salvou toda a tripulação de um barco de pesca, viu o vulto de Iemanjá, que se mostrou a ele como prêmio. Quando se fala nisso (e todo jovem mestre de saveiro pergunta ao velho Francisco se é verdade), ele somente sorri e diz: — Se fala muita coisa neste mundo, menino.. Assim, ninguém sabe se é verdade ou não. Bem que poderia ser. Iemanjá tem caprichos e se havia alguém que merecesse vê-la e amá-la era o velho Francisco, que estava na beira do cais desde ninguém sabe quando. Ainda melhor, porém, que todas as coroas, os viajantes, os canais, ele conhece as histórias daquelas águas, daquelas festas de Janaína, daqueles naufrágios e temporais. Haverá história que o velho Francisco não conheça?
Quando a noite chega, ele deixa a sua casa pequena e vem para a beira do cais. Atravessa a lama que cobre o cimento, entra pela água, e pula para a proa de um saveiro. Então pedem que ele conte histórias, conte casos. Não há quem saiba de casos como ele.
Hoje vive de remendar vela e do que lhe dá Guma, seu sobrinho. Tempo houve, porém, em que teve três saveiros que os ventos da tempestade levaram. Não puderam foi com o velho Francisco. Sempre voltou para o seu porto e o nome dos seus três saveiros estão tatuados no seu braço direito junto com o nome de seu irmão que ficou numa tempestade também. Talvez um dia escreva ali o nome de Guma, se der um dia na cabeça de Iemanjá amar o seu sobrinho. A verdade é que o velho Francisco ri disso tudo. Destino deles é esse: virar no mar. Se ele não ficou também, é que Janaína não o quis, preferiu que ele a visse vivo e que ficasse para conversar com os rapazes, ensinar remédios, contar histórias. E de que vale ter ficado assim, remendando velas, olhando pelo sobrinho, feito uma coisa inútil, sem poder mais viajar porque seus braços já cansaram, seus olhos não distinguem mais na escuridão? Melhor teria sido se houvesse ficado no fundo da água com o Estrela da Manhã, seu saveiro mais rápido, e que virou na noite de São João. Agora ele vê os outros partirem e não vai com eles. Fica olhando para Lívia, igual a uma mulher, tremendo nas tempestades, ajudando a enterrar os que morrem. Faz muito tempo que cruzou pela última vez a baía, a mão no leme, os olhos atravessando a escuridão, sentindo o vento no rosto, correndo com seu saveiro ao som da música distante.
Hoje um negro canta também. Diz que destino ruim é o das mulheres dos marítimos. 0 velho Francisco sorri. Sua mulher ele enterrou, o médico disse que fora do coração. Morreu de repente numa noite em que ele chegava da tempestade. Ela se atirou nos seus braços e quando ele reparou ela não se bulia mais, estava morta. Morreu de alegria de ele voltar, o médico disse que foi do coração. Quem ficou naquela noite foi Frederico, o pai de Guma. Corpo que ninguém encontrou porque ele morrera para salvar Francisco e por isso fora com Iemanjá para outras terras muito lindas. Foi o seu irmão e a sua mulher numa só noite. Então ele criou Guma dentro do seu saveiro, dentro do mar, para que ele não tivesse medo. A mãe de Guma, que ninguém sabia quem era, apareceu um dia e pediu o menino: — O senhor que é seu Francisco?
Sou eu mesmo, dona, pra lhe servir...
O senhor não me conhece...
Não ‘tou lhe reconhecendo, não... — Botou a mão na testa, lembrando velhos conhecidos: — Não conheço não, me adisculpe.
Mas Frederico me conhecia muito.
É bem de ver porque ele andou viajando nesses paquetes da Baiana. De que bandas ele conhece vosmecê?
Lá por Aracaju, seu Francisco. Um dia arribou por lá, o navio 'tava com um rombo do tamanho do mundo no costado. Só chegou lá por milagre...
Já me alembro, foi o Marari... Foi uma viagem braba, Frederico me contou. Foi lá que lhe conheceu?
O barco passou um mês. Ele se enfeitou para meu lado...
Era um cabra mulherengo que nem macaco... Ela sorriu, mostrando os dentes quebrados: — Contou muita história, que me trazia, botava casa pra mim, me dava vestido e de comê. 0 senhor sabe como é...
O velho Francisco fez um gesto. Estavam na beira do cais e no mercado vizinho vendiam laranjas e abacaxis. Sentaram, nuns caixões. A mulher continuou: — Me fez a desgraça só dizendo que nem voltava com o navio. Mas quando o bicho sarou do buraco, ele não ouviu conversa, se trepou no barco e foi só dar adeus...
Não digo que foi bem feito não, dona. Ele era meu sangue, mas...
Ela o interrompeu:
Não ‘tou dizendo que ele era ruim. Era minha sina e eu ia com ele, mesmo que tivesse sabido que ele fazia ingratidão. Eu ‘tava enrabichada por ele direitinho.
Ficou olhando o velho Francisco. Ele pensava porque viria ela tantos anos depois. Talvez buscar dinheiro e agora ele estava ruim, não tinha o que dar, Frederico sempre fora mulherengo...
Disse que m e mandava buscar. Mandou buscar o senhor? — sorria. — Assim fez comigo. Quando a barriga subiu, eu dei de lançar, minha mãe se danou. Meu pai era um homem direito, quando soube veio em cima de mim com um facão. Só queria era saber quem tinha sido para acabar com ele. Mas ficou esse talho aqui em cima do joelho. 0 facão pegou de mau jeito.
Porque ela mostrava assim as coxas? Francisco não andaria com uma mulher de seu irmão, que isso era ruim e podia trazer castigo.
Fiquei foi no meio do mundo. Uma família, que era meu padrinho, me deu emprego. Um dia, ‘tava servindo a mesa, me atacou as dores…
Aí seu Francisco compreendeu:
Guma?
Era Gumercindo, sim. Foi meu padrinho que botou o nome. 0 mesmo nome dele. Arranjei um dinheiro, trouxe ele para Frederico. Ele já ‘tava com outra, ficou com o menino, mas não quis saber mais de mim.
Fez-se o silêncio de novo. Francisco só estava era espiando par a saber o que ela queria. Dinheiro ele não tinha, logo naquele dia. Dormir com a mulher de seu irmão era coisa que ele não fazia.
Aí fiquei por aqui mesmo, com vergonha de voltar. A gente é pobre, mas tem vergonha, não é? Não queria cair na vida na minha terra... Meu pai era homem conceituado, formou até um meu irmão em doutor médico. Depois andei por esse mundo afora. Faz tanto tempo...
Estendeu a mão, ficou olhando os saveiros. De trás, do mercado, vinha um barulho de conversa, de discussões, de gargalhadas.
Faz só três dias que cheguei do Recife. Já ‘tava mesmo pra vim ver o meninu, foi um conhecido que me disse que Frederico morreu, faz dois anos. Agora vim buscar meu filho... Vou com ele...
Francisco não ouvia mais o barulho que vinha do mercado. Ouvia som ente aquela mulher que dizia ser mãe de Guma e o vinha buscar. E le não gostava de brigar com mulher. Discussão com mulher não acaba mais e ele tinha que discutir porque não queria entregar Guma, que já ia tão bem no leme do saveiro e já suspendia um saco de farinha nos braços de menino. Francisco estava acostumado a discutir com homens rudes do cais, mestres de saveiro, fortes a quem podia ofender porque eles sabiam se defender, um nome feio que escapasse não fazia mal. A gora com uma mulher, e com um a mulher como a mãe de Guma, cheirando, vestida de ~ com uma sombrinha no braço e um dente de ouro, ele não sabia brigar. Se uma má palavra lhe escapasse, ela era capaz de começar a chorar, e ele não gostava de ver mulher chorar. Demais, seu irmão não tinha andado direito com ela. Mas marinheiros podem lá viver pensando nas mulheres que deixam nos portos? E não é pior quando se casam e deixam viúvas ou então elas morrem de coração quando os vêem chegar salvos da tempestade? Era bem pior. Guma não casará. Será sempre livre no seu saveiro. Irá com Iemanjá quando bem quiser. Não terá âncoras que o prendam à terra. 0 homem que vive no mar deve ser livre. Mas se aquela mulher levasse Guma, que seria do menino? Seria marceneiro, pedreiro, talvez doutor ou até padre vestido de mulher, quem sabe! E as faces do velho Francisco s e cobririam de vergonha pelo fim de seu sobrinho, e nada lhe restava senão ir ele próprio ao encontro de Janaína numa noite do mar. Não, por nada ele deixaria que aquela mulher levasse Guma.
A mulher já estava estranhando o silêncio. Vozes vinham do mercado:
— ‘tá caro que faz medo...
E uma conversa ao longe:
Aí pipocou dois tiros e eu só vi cabra correr. Mas como homem é homem, fiz das tripas coração e me atirei...
O velho Francisco riu:
Sabe, dona? Vosmecê não leva o menino, não. Que é que vosmecê ia fazer com ele?
Ficou olhando para a mulher, esperando resposta. Mas seu rosto dizia que não havia força que o fizesse entregar Guma. A mulher estendeu a mão naquele gesto vago e respondeu: — Eu mesmo nem sei... Quero levar ele porque é meu filho e não tem pai... Vida de mulher-dama, vosmecê sabe como é... Hoje aqui, amanhã acolá — Se ele ficar, vai ser como o pai, morre um dia afogado ...
E se velejar com vosmecê, dona?
Boto ele num colégio, vai aprender a ler, talvez vire doutor como o tio dele, meu irmão... Não vai morrer afogado...
Sei lá dona, destino é coisa feita lá em cima. Se ele tem de ser de Janaína não há saber que livre ele. Se ele ficar aqui, vira homem de verdade. Se for com a senhora, acaba um mofino que nem esses homens de cabaré...
Isso diz vosmecê...
Donde vai vosmecê arranjar dinheiro para fazer ele estudar? Mulher-dama eu bem conheço: um dia tem, outro não tem... Vosmecê falou que é hoje aqui, amanhã acolá... E filho de mulher-dama é pior que cachorro, vosmecê sabe disso...
Ela baixou a cabeça, porque sabia que era verdade. Levar seu filho era criar para ele a suprema humilhação de todos saberem que sua mãe era da v ida. Onde quer que andasse, nas ruas, nos colégios, em qualquer parte, nada poderia dizer porque havia contra ele o insulto maior. Do mercado vinha a voz do homem que contava o caso: — Eu só vi a faca brilhando que nem para d estrinchar um peixe. Levantei o cotovelo, meti o joelho pra frente. Foi uma coisa feia... (Era bem melhor que ele ficasse ali, aprendesse a levar um saveiro pelos portos, fizesse filhos em mulheres desconhecidas, arrancasse facas das mãos de homens, bebesse nos botequins, tatuasse corações no braço, atravessasse a tempestade, fosse com Janaína quando seu dia chegasse. Ali ninguém perguntaria quem era sua mãe.) — Mas posso ver ele de vez em quando?
Sempre que o coração lhe pedir... — Agora Francisco tinha pena. Não há mãe, por pior que seja, que não ame os filhos. Mesmo a baleia, que é um bicho e não tem pensar, defende os seus filhos dos peixes e até morre por eles.
Hoje mesmo vosmecê pode ver ele. De noite ele vem com o saveiro de Itaparica. Nós vai então..
Ela fez uma cara de medo:
Ele já anda sozinho com o saveiro?
Só de Itaparica pra cá. Pra ir aprendendo. E já ‘tá mesmo que um homem.
O rosto dela agora estava cheio de orgulho. Seu filho, que só tinha 11 anos, já sabia viajar com um saveiro, já cruzava as águas, podia passar por um homem. Perguntou com uma voz de criança que vinha do mais profundo do seu coração: — Ele se parece comigo?
O velho Francisco olhou a mulher. Apesar dos dentes cariados, era bonita. Tinha um dente de ouro para compensar. Vinha dela um perfume extravagante para aquela beira de cais cheirando a peixe. A boca pintada era cor de sangue como se houvesse sido mordida. Seus braços roliços estavam caldos ao longo do corpo. Maltratada pela vida, era ainda nova, nem parecia a mãe de Guma. No entanto, há onze anos que ela estava na vida, conhecendo homens, dormindo com eles, apanhando de muitos. Apesar disso, ainda tentava um. Se ela não tivesse dormido com Frederico...
Se parece, sim. Tem os olhos igualzinho os de vosmecê. E o nariz assim também…
Ela sorria e aquele era mesmo seu momento mais feliz. Um dia, quando sua beleza terminasse de todo, quando os homens a houvessem gasto totalmente, então ela teria uma velhice garantida, viria para seu filho, faria a comida dele, o esperaria de volta das tempestades. Não precisaria se desculpar perante ele. Os filhos tudo sabem perdoar às velhas mães cansadas que aparecem de repente. E a mulher se deixou embalar por essa felicidade e sorria pela boca, pelos olhos, seus gestos eram alegres e até aquele perfume esquisito que lembrava cabarés desapareceu e ficou somente o cheiro de maresia, de peixe salgado.

Jorge Amado, in Mar Morto

15/02/2021

Cancioneiro do cais

          Lívia olha os homens que sobem a pequena ladeira. Vêm em dois grupos. Lanternas dão um ar de fantasmagoria a esta procissão fúnebre. Como que pressentindo a chegada, os soluços de Judith redobram no quarto. Bastaria ver os homens de cabeça descoberta para saber que eles trazem os corpos. Pai e filho morreram juntos na tempestade. Sem dúvida um tentou salvar o outro e pereceram no mar. No fundo de tudo, vinda do forte velho, vinda do cais, dos saveiros, de algum lugar distante e indefinível, uma música confortadora acompanha os corpos. Diz que é doce morrer no mar...
Lívia soluça. Ampara Judith no seu peito, mas soluça também, soluça pela certeza que seu dia chegará e o de Maria Clara e o de todas elas. A música atravessa o cais para chegar até eles: É doce morrer no mar...
Mas naquela hora nem a presença de Guma que vem com o cortejo e foi quem descobriu os corpos, conforta o coração de Lívia.
Só a música que vem de um lugar indefinível (talvez seja mesmo do forte velho), dizendo que é doce morrer no mar, lembra a morte do marido de Judith. Os corpos agora estarão estendidos na sala, Judith chorando ajoelhada ao lado de seu marido, os homens em torno, Maria Clara com medo que um dia Manuel se afogue também.
Mas para que pensar nisso, pensar em morte, em tristezas, quando o amor a espera? Porque estão na proa do Valente, Lívia estendida no madeirame bem por baixo da vela enrolada, espiando seu homem, que fuma sossegadamente no cachimbo. Para que pensar em morte, em homens lutando contra as ondas, quando seu homem está ali, salvo da tempestade, fumando um cachimbo que é mesmo a estrela mais bonita deste mar? Mas Lívia pensa. Está triste porque ele não vem apertá-la nos seus braços tatuados. E ela está esperando, as mãos em baixo da cabeça, os seios meio aparecendo sob o vestido que a aragem da noite, agora calma, suspende e balança. Também o saveiro balança mansamente.
Uma espera e é bela nessa espera, ela é a mulher mais bela da beira do cais e dos saveiros. Nenhum mestre de saveiro tem uma mulher como Guma. Todos dizem isso e sorriem todos para ela. Todos gostariam de tê-la nos braços musculosos das travessias. Mas ela é somente de Guma, casou foi com ele na igreja de Monte Serrat, onde se casam os pescadores, os canoeiros e os mestres de saveiro. Mesmo marinheiros que viam por mar es longínquos, em paquetes enormes, vêm casar na igreja de Monte Serrat, que é a Igreja deles, trepada no morro, dominando o mar. Ela casou ali com Guma, e, desde então, nas noites do cais, no seu saveiro, nos quartos do Farol das Estrelas, na areia do cais, eles se amam, confundem os corpos sobre o mar e sob a Lua.
E hoje, que ela tanto esperou na tempestade, hoje, que ela tanto deseja porque muito temeu, ele fuma sem pensar nela. Por isso, ela se recorda de Judith, a que não terá mais amor, aquela para quem a noite será sempre a hora de chorar. Se recorda, ela ficou atirada junto do seu homem. Olhava para o rosto dele, aquele rosto que não se movia mais, que já não sorria, rosto que já passara sob as ondas, olhos que já haviam visto Iemanjá, a mãe-d'água.
Lívia pensa com raiva em Iemanjá. Ela é a mãe-d'água, é a dona do mar, e, por isso, todos os homens que vivem e m cima das ondas a temem e a amam. Ela castiga. Ela nunca se mostra aos homens, a não ser quando eles morrem no mar. Os que morrem na tempestade são seus preferidos. E aqueles que morrem salvando outros homens, esses vão com ela pelos mares em fora, igual a um navio, viajando por todos os portos, correndo por todos os mares. Destes, ninguém encontra os corpos, que eles vão com Iemanjá. Para ver a mãe-d’ água, muitos já se jogaram no mar sorrindo e não mais apareceram. Será que ela dorme com todos eles no fundo das águas? Lívia pensa nela com raiva. A estas horas ela estará com pai e filho que morreram na tempestade e talvez até que eles lutem por ela, eles, que foram tão amigos toda a vida. Morrendo, ainda o pai quis salvar o filho. Quando Guma encontrou os corpos, a mão do velho segurava a camisa do filho. Morreram amigos, e agora, quem sabe? Talvez que, por causa de Iemanjá, a dona do mar, mulher, que só os mortos veem, eles estejam brigando. Raimundo puxando a faca que os homens não encontraram no seu cinto porque ele a levou consigo. Lutarão talvez no fundo das águas para saber quem vai com ela correr os mares, ver as cidades do outro lado da Terra. Judith que está chorando, Judith que tem um filho na barriga, Judith que irá se acabar no trabalho duro, Judith que nunca mais amará um homem, já estará esquecida porque a mãe-d'água é loira e tem cabelos compridos e anda nua debaixo das ondas, vestida somente com os cabelos que a gente vê quando a Lua passa sobre o mar.
Os homens da terra (que sabem os homens da terra?) dizem que são os raios da Lua sobre o mar. Mas os marinheiros, os mestres de saveiro, os canoeiros, riem dos homens da terra que não sabem nada. Eles bem sabem que são os cabelos da mãe-d'água, que vem ver a lua cheia. É Iemanjá quem vem olhar a Lua. Por isso os homens ficam esperando o mar prateado nas noites de lua. Porque sabem que a mãe-d'água está ali. Os negros tocam violão, harmônica, batem batuque e cantam. É o presente que eles trazem para a dona do mar. 0utros fumam cachimbo para iluminar o caminho, assim Iemanjá verá melhor. Todos a amam e até esquecem as mulheres quando os cabelos da mãe-d'água se estendem sobre o mar.
Assim está Guma, que olha o bojo de prata das águas e ouve a música do negro que convida para a morte. Ele diz que é doce morrer no mar, porque irão encontrar a mãe-d'água, que é a mulher mais bonita do mundo todo. Guma está fitando os cabelos dela, esquecido que Lívia está ali, o corpo estirado, os seios se ofertando, Lívia, que tanto esperou a hora do amor, Lívia que viu a tempestade destruindo tudo, derrubando saveiros, matando homens. Lívia que muito temeu. Bem que Lívia gostaria de tê-lo nos seus braços, de beijar a sua boca e nela descobrir se ele teve medo quando as luzes se apagaram, de apertar o seu corpo para saber se o mar o molhou. Mas agora ele está esquecido de Lívia, ele só pensa em Iemanjá, a dona do mar. Talvez ele tenha inveja do pai e do filho que morreram na tempestade e que agora correrão os mundos que só os marinheiros dos grandes navios conhecem. Lívia tem ódio, tem vontade de chorar, tem vontade de se apartar do mar, de ir para muito longe.
Um saveiro passa. Lívia se suspende sobre o braço para ver melhor. Gritam para Guma:
Boa noite, Guma...
Guma sacode a mão: — Boa viagem...
Lívia olha para ele. Agora que um a nuvem cobriu a Lua e Iemanjá foi embora, ele apagou o cachimbo e sorri. Ela se encolhe toda já com prazer, já sentindo os seus braços. Guma, fala: — Onde ‘taria cantando aquele negro?
Sei lá... Parece que no forte.
Bonita música ...
Judith, coitada … Guma olha o mar.
É mesmo... Vai cortar uma dureta. E com um filho na barriga...
Seu rosto se fecha e ele espia para Lívia. Ela está bela assim se ofertando. Ela não tem mãos para trabalho duro. Se ele ficasse no mar, ela teria de ser de outro para poder viver. Ela não tem mãos para trabalho duro. Esse pensamento lhe traz uma raiva surda. Os peitos de Lívia aparecem sob o vestido. Todos no cais a desejam. Todos gostariam de tê-la porque ela é a mais bonita. E quando ele também for com Iemanjá? Tem vontade de matá-la ali mesmo para que ela nunca seja de outro.
E se um dia eu vir ar e der de comer aos peixes? — seu riso é forçado.
A voz do negro atravessa novamente a noite:
É doce morrer no mar...
Você também cai no trabalho duro? Ou vai com outro?
Ela está chorando, ela está com medo. Também ela teme por esse dia em que seu homem fique no fundo do m ar, em que nunca mais volte, quando for com Iemanjá, a dona do mar, a mãe-d'água, correr mares e terras. Levanta-se e passa os braços no pescoço de Guma: — Hoje tive medo. Lhe esperei na beira do cais. Parecia que você não vinha nunca mais...
Ele vem. Sim, ele sabe quanto Lívia esperou, quanto ela temeu. Ele vem para os seus braços, para o seu amor. Um homem canta ao longe: É doce morrer no mar...
E agora sob a Lua não brilham mais os cabelos de Iemanjá, a dona do mar. 0 que fez calar a música do negro são os soluços de amor de Lívia, a mulher da beira do cais que todos desejam, e que na proa do Valente muito ama o seu homem porque muito temeu por ele e muito teme ainda.
Os ventos da tempestade já estão longe. As águas das nuvens da falsa noite estão caindo noutros portos. Iemanjá viajará com outros corpos por outras terras. Agora o mar é sereno e doce. 0 mar é amigo dos mestres de saveiro. Pois o mar não é a estrada, não é o caminho, não é a casa deles todos? Não é sobre o mar, na proa dos saveiros, que eles amam e fazem seus filhos?
Sim, Guma ama o mar e Lívia também o ama. 0 mar é belo assim de noite, azul, azul sem fim, espelho das estrelas, cheio de lanternas de saveiros, cheio das lanternas das brasas dos cachimbos, cheio de ruídos de amor.
O mar é amigo, o mar é doce amigo para todos aqueles que vivem nele. E Lívia sente o gosto de mar da carne de Guma. 0 Valente balança como uma rede.

Jorge Amado, in Mar Morto

09/02/2021

Cancioneiro do cais (trecho)

          De repente, rápida com o viera, a tempestade foi para outros mares, naufragar outros navios. Lívia ouvia agora os gemidos de Maria Clara. Não eram mais, porém, gritos agudos de prazer e dor, gritos de animal ferido, que atravessavam a tempestade com um ar de desafio. Agora, que pela cidade, pelo cais, pelo mar, se estendia a verdadeira noite, a do amor e da música, a das estrelas e da lua, o amor no saveiro de mestre Manuel era doce e repousante. Os gemidos de Maria Clara eram como soluços de alegria, quase em surdina, quase canção. Lívia tirou por um momento os olhos do mar sereno e ouviu aqueles gemidos. Em breve Guma chegaria, o Valente atravessaria a baía, e ela o teria entre os braços more nos, e gemeriam de amor. Agora a tempestade cessara, ela já não tinha medo. Não demoraria a enxergar a lanterna vermelha do saveiro brilhando na noite do mar. Pequenas ondas batiam nas pedras do cais e os saveiro s balouçavam mansamente. Ao longe, as luzes brilhavam sobre o asfalto molhado da cidade. Grupos de homens que já não tinham nem pressa, nem medo, se encaminhavam para o grande elevador. Lívia se voltou para o mar. Há oito dias que não via Guma. Ela ficara na casinha velha do cais. Não fora desta vez com ele para a aventura sempre renovada da viagem pela baía e pelo rio calmo. Se ela estivesse no saveiro quando a tempestade desabara, teria sido melhor. Ele ficaria temeroso pela vida da companheira, irias, no entanto, Lívia não teria medo nenhum, porque estaria com ele, e ele conhecia todos os caminhos do mar, seus olhos valiam como lanternas, e suas mão s eram seguras no leme. Ele não tardaria a chegar. Viria encharcado da tempestade, contando histórias, musculoso e risonho, com o nome de Lívia e uma seta tatuados no braço. Ela sorriu. Seu longo corpo moreno se voltou todo para os gemidos de Maria Clara. Estava negro no cais, uma ou outra lanterna brilhava nos saveiros, mas ela distinguia perfeitamente o de mestre Manuel, donde vinham os gemidos. Lá estava ele amarrado ao cais, balouçando nas ondas. Ali um homem e uma mulher se amavam e os seus gemidos chegavam até Lívia. Mais tarde, daqui a bem pouco tempo, seria ela quem na proa de um saveiro apertaria contra o seu corpo o corpo forte de Guma, beijaria os seus cabelos morenos, sentiria o gosto de mar do seu corpo, o gosto de morte que ainda haveria nos seus olhos mal chegados da tempestade. E os seus gemidos de amor seriam mais doces do que os de Maria Clara, porque estariam cheios da longa espera e do medo que a invadira. Maria Clara deixaria de arriar para ouvir a música de soluços e de risos que sairia de seus lábios quando Guma a apertasse, a prendesse, nos seus braços molhados do mar.
Um mestre de saveiro passa e deseja boa-noite a Lívia. Um grupo mais longe examina a vela do saveiro que virou. Ela está muito branca, rasgada, perto do cais. Homens já partiram num saveiro para ir procurar os corpos. Mas Lívia pensa em Guma, que está a chegar, e no amor que a espera. Será mais feliz que Maria Clara, que não esperou, nem teve medo.
Sabe quem morreu, Lívia? — Ela se assusta. Mas aquela vela não é a do Valente. A do seu saveiro é bem maior e não se rasgaria assim. Lívia se volta e pergunta a Rufino: — Quem foi?
Raimundo e o filho. Viraram bem perto da cidade. A tempestade estava braba.
Nessa noite — pensa Lívia — Judith não terá amor na sua casinha, nem no saveiro do seu marido. Jacques, o filho de Raimundo, morrera. Irá até lá. Depois que Guma chegar, que matarem as saudades, que se amarem. Rufino olha a Lua que sai: — Já foi gente buscar os corpos.
Judith já sabe?
Eu vou dizer...
Lívia olha o preto, gigantesco e cheira a cachaça. Andou bebendo, com certeza, no Farol das Estrelas. Porque será que ele olha a lua cheia que sobe para o meio do mar e ilumina tudo com uma réstia prateada? Maria Clara ainda soluça de amor. Judith não terá amor esta noite. Lívia amará quando Guma chegar molhado da tempestade, com gosto de mar. Como está belo o mar com a Lua alvejando tudo! Rufino está ali parado. Do forte velho vem uma música. Tocam harmônica. E, cantam: A noite é para o amor...
Voz possante de negro. Rufino olha a Lua. Talvez ele pense, também, que Judith não terá amor esta noite. Nem nunca mais... o seu homem morreu no mar.
Vem amar nas águas, que a Lua brilha...
Lívia pergunta a Rufino:
Judith ainda está morando com a mãe dela?
Não. A velha velejou para Cachoeira... — Disse isso sem jeito, es piando a Lua. Um negro está cantando no forte velho, mas a sua canção não consolará Judith. Rufino, estende a mão: — Vou me botando...
Depois vou lá...
Rufino dá uns passos. Pára:
É coisa triste... Ruim de se falar... Dizer que morreu…
Coça a cabeça. Lívia ficou triste. Nunca mais Judith amará. Nunca mais virá amar, no mar, na hora em que a Lua brilha. Para ela, a noite não será mais para o amor, será para as lágrimas. Rufino joga as mãos para a frente: — Vem comigo, Lívia. Você sabe dizer...
Mas o amor a espera, Guma chegará em breve no Val ente, a lanterna vermelha não tardará a brilhar, não demorará a hora de os corpos se apertarem. Não tardará que ele passe sob a réstia de luz que a Lua estendeu no mar. 0 amor a espera, Lívia não pode ir. Naquele dia, depois do medo, depois da visão de Guma se afogando, ela quer amor, quer alegria, gemidos de posse. Não pode ir chorar com Judith, que nunca mais amará.
Estou vendo se Guma chega, Rufino. — Será que o negro vai pensar que ela é ruim? Mas Guma não demorará. Fala: — Depois vou lá...
Rufino abana as mãos:
Então, boa noite.
Até logo...
Rufino dá mais uns passos sem vontade. Olha a Lua. Ouve o homem que canta:
Vem amar nas águas, que a Lua brilha...
Volta-se para Lívia:
Você sabia que ela 'tá prenha?
Judith?
Saiu andando. Ainda olha a Lua. Do forte velho cantam:
A noite é para o amor...
Maria Clara soluça e ri nos braços do seu homem. Lívia sai quase correndo e grita para Rufino, cuja sombra se vê ao longe: — Eu vou com você...
Vão andando. Ela ainda olha o mar longamente. Quem sabe se aquela lanterna que brilha ao longe não será a do Valente.
Judith é mulata e a barriga já se estende, deformando o vestido de chita. Estão todos em silêncio. 0 preto Rufino abana as mãos, não tem onde botá-las, olha os outros, espantado. Lívia é toda ela um gesto de conforto, as mãos amparando a cabeça de Judith. Outros já chegaram. Deram pêsames e ali, em volta da sala, esperam que tragam os corpos que os homens procuram no mar. Donde está Judith vêm soluços entrecortados, e as mãos de Lívia se erguem em gestos carinhosos. Depois, entraram mestre Manuel e Maria Clara, ela com os olhos pisados.
Nada recorda mais a tempestade. Nem Maria Clara soluça mais de amor. Porque então Judith chora? Judith está viúva, os homens esperam dois corpos. Bem que o preto Rufino, gostaria de ir embora, de fugir dali, de ir para a alegria dos braços de Esmeralda . Ele sofre a tristeza da casa, a dor de Judith, está sem ter onde botar as mãos, e sabe que sofrerá mais ainda quando o corpo entrar e Judith tiver o último encontro com o homem que a amava, que lhe fez um filho, que possuí a seu corpo.
Lívia é que tem coragem. Ainda é mais bela assim. Quem não gostaria de casar com Lívia e ser chorado por ela quando morresse no mar? Ela, nessa hora, é como uma irmã de Judith.
Decerto ela também tem vontade de fugir, de ir esperar Guma na beira do cais para uma noite sob as estrelas. 0 sofrimento de Judith dói em todos e Maria Clara pensa que um dia, talvez, mestre Manuel fique no mar, numa noite de tempestade, e que Lívia deixe de esperar Guma para vir dar a notícia. Aperta com força o braço de mestre Manuel, que pergunta: — Que é ? — Mas ela está chorando e mestre Manuel fica mudo. Trouxeram uma garrafa de cachaça. Lívia leva Judith para o quarto. Maria Clara vai com elas e agora substitui Lívia que chora com a viúva, chora por ela própria.
Lívia volta para a sala. Agora, os homens conversam em voz baixa, comentam a tempestade, falam do pai e do filho que morreram nesta noite. Um negro diz: — O velho era um macho bom... Coragem como três...
Um outro começa a contar uma história:
Vocês se lembram daquele temporal de Junho? Pois Raimundo...
Alguém abre a garrafa de cachaça. Lívia atravessa o grupo e chega até a porta... Ouve o ruído do mar sereno, ruído sempre igual, ruído de todos os dias. Guma não deve tardar e sem dúvida a virá procurar na casa de Judith. Nas trevas do cais ela distingue as velas dos saveiros. E, de repente, a assalta o mesmo receio que assaltara Maria Clara. E se, numa noite, lhe viessem trazer a notícia de que Guma estava no fundo do mar e o Valente vogava sem rumo, sem leme, sem guia? Só então ela sentiu toda a dor de Judith, se sentiu totalmente sua irmã, irmã também de Maria Clara, de todas as mulheres do mar, mulheres de destinos iguais: esperar numa noite de tempestade a notícia da morte de um homem.
Do quarto, vêm os soluços de Judith. Ficou com um filho na barriga. Talvez, um dia, ainda chore, também, a morte desse filho, no mar. No grupo da sala um homem fala: — Salvou cinco... Era uma noite de fim de mundo... Muita gente viu a mãe d'água nessa noite. Raimundo...
Judith soluça no quarto. É destino de todas elas. Os homens da beira do cais só têm uma estrada na sua vida: a estrada do mar. Por ela entram, que seu destino é esse.
O mar é dono de todos eles. Do mar vem toda a alegria e toda a tristeza porque o mar é mistério que nem os marinheiros mais velhos entendem, que nem entendem aqueles antigos mestres de saveiro que não viajam mais, e, apenas, remendam velas e contam histórias. Quem já decifrou o mistério do mar? Do mar vem a música, vem o amor e vem a morte. E não é sobre o mar que a Lua é bela? 0 mar é instável. Como ele é a vida dos homens dos saveiros. Qual deles já teve um fim de vida igual ao dos homens da terra que acarinham netos e reúnem as famílias nos almoços e jantares? Nenhum deles anda com esse passo firme dos homens de terra. Cada qual tem alguma coisa no fundo do mar: um filho, um irmão, um braço, um saveiro que virou, uma vela que o vento da tempestade despedaçou. Mas também qual deles não sabe cantar essas canções de amor nas noites do cais? Qual deles não sabe amar com violência e doçura? Porque toda a vez que cantam e que amam, bem pode ser a última. Quando se despedem das mulheres não dão rápidos beijos, como os homens da terra que vão para os seus negócios. Dão adeuses longos, mãos que acenam como que ainda chamando.

Jorge Amado, in Mar Morto

04/02/2021

Iemanjá, dona dos mares e dos saveiros / Tempestade

          A noite se antecipou. Os homens ainda não a esperavam quando ela desabou sobre a cidade em nuvens carregadas. Ainda não estavam acesas as luzes do cais, no Farol das Estrelas não brilhavam ainda as lâmpadas pobres que iluminavam os copos de cachaça, muitos saveiros ainda cortavam as águas do mar quando o vento trouxe a noite de nuvens pretas.
Os homens se olharam e como quê se interrogavam. Fitavam o azul do oceano a perguntar donde vinha aquela noite adiantada no tempo. Não era a hora ainda. No entanto, ela vinha carregada de nuvens, precedida do vento frio do crepúsculo, embaciando o Sol, com o num milagre terrível.
A noite veio, nesse dia, sem música que a saudasse. Não ecoara pela cidade a voz clara dos sinos do fim da tarde. Nenhum negro aparecera ainda de violão na areia do cais. Nenhuma harmônica saudava a noite da proa de um saveiro. Não rolara sequer pelas ladeiras o baticum monótono dos candomblés e macumbas. Porque então a noite já chegara sem esperar a música, sem esperar o aviso dos sino s, a cadência das violas e harmônicas, o misterioso bater dos instrumentos religiosos? Porque viera assim antes da hora, fora do tempo?
Aquela era uma noite diferente e angustiante. Sim, porque os homens tinham um ar de desassossego e o marinheiro que bebia solitário no Farol das Estrelas correu para o seu navio como se o fosse salvar de um desastre irremediável. E a mulher, que no pequeno cais do mercado esperava o saveiro onde vinha o seu amor, começou a tremer, não do frio do vento, não do frio da chuva, mas de um frio que vinha do coração amante cheio de maus presságios da noite que se estendia repentinamente.
Porque eles, o marinheiro e a mulher morena, eram familiares do mar e bem sabiam que se a noite chegara antes da hora, muitos homens morreriam no mar, navios não terminariam a sua rota, mulheres viúvas chorariam sobre a cabeça dos filhos pequeninos. Porque — eles sabiam – não era a verdadeira noite, a noite da lua e das estrelas, da música e do amor, que chegara. Esta só chegava na sua hora, quando os sinos tocavam e um negro cantava ao violão, no cais, um a cantiga de saudade. A que chegara carregada de nuvens, trazida pelo vento, fora a tempestade que derrubava os navios e matava os homens. A tempestade é a falsa noite.
A chuva vei o com fúria e lavou o cais, amassou a areia, balançou os navios atracados, revoltou os elementos, fez com que fugissem todos aqueles que esperavam a chegada do transatlântico. Um homem na estiva disse ao companheiro que ia haver tempestade. Como um monstro estranho um guindaste atravessou a chuva e o vento, carregando fardos. A chuva açoitava sem piedade os homens negros da estiva. 0 vento passava veloz, assoviando, derrubando coisas, amedrontando as mulheres. A chuva em baciava tudo, fechava até os olhos dos homens. Só os guindastes se moviam negros. Um saveiro virou no mar e dois homens caíram n’água. Um era jovem e forte. Talvez tivesse murmurado um nome naquela hora final. Não era um a praga, com certeza, porque soava docemente na tempestade.
O vento arrancou a vela do saveiro e levou-a para o cais como uma notícia trágica. 0 bojo das águas se elevou, as ondas bateram nas pedras do cais. As canoas no porto da Lenha se agitavam e os canoeiros resolveram não voltar naquela noite para as cidadezinhas do Recôncavo. A vela do saveiro naufragado caiu no quebra-mar e então se apagaram as lanternas de todos os saveiros, mulheres rezaram a oração d os defuntos, os olhos dos homens se estenderam para o mar.
Diante do copo de cachaça o preto Rufino não sorriu mais. Assim com a tempestade, Esmeralda não viria.
As luzes se acenderam, mas estavam fracas e oscilavam. Os homens que esperavam o transatlântico não viam nada. Eles haviam entrado para os armazéns e mal enxergavam o vulto dos guindastes e o vulto dos carregadores que, curvados, atravessavam a chuva. Mas não viam o navio esperado onde viriam amigos, pais e irmãos, noivas talvez. Não viam o homem que chorava na 3ª classe. Pela face do homem que vinha pela estrada do mar, na 3ª classe de um tigre que tocara em vinte portos diversos, a chuva se misturava com as lágrimas, a lembrança das lamparinas da sua aldeia se confundia com as luzes embaciadas da cidade tempestuosa.
Mestre Manuel, o marinhe iro que mais conhecia aqueles m ares, resolveu não sair com seu saveiro naquela noite. 0 amor é bom nas noites de temporal e a carne de Maria Clara tinha gosto de mar.
As luzes do velho forte estavam apagadas. Também as lanternas dos saveiros. Foi quando faltou luz na cidade. Até os guindastes pararam e os homens da estiva entraram para os armazéns. Guma, do seu saveiro, que era o Valente, viu as luzes se apagarem e teve medo. Ia com a mão no leme, o barco virado de um lado. Aqueles que esperavam o transatlântico se foram em automóveis para lugares mais movimentados. Só ficou um homem que apertou a mão de outro quando ele desceu do transatlântico: — Tudo bem?
Tudo — sorriu o outro.
O que estava aguardando chamou um automóvel e os dois seguiram silenciosos. Os companheiros já estariam esperando.
O homem que chegara na 3ª classe ficou olhando a cidade de costumes diversos, d e língua diversa. Apertou contra o peito a carteira quase vazia e se atirou pela primeira ladeira que encontrou com o seu saco de viagem. 0 cais se despovoou.
Só Lívia, magra, de cabelos finos colados ao rosto pela chuva, ficou diante do cai s dos saveiros olhando o mar. Ouvia os gemidos de amor de Maria Clara. Mas seus pensamentos e seus olhos estavam no mar. 0 vento a sacudia como se ela fosse um caniço, a chuva a chicoteava no rosto, nas pernas e nas mãos. Mas ela continuava imóvel, o corpo atirado para a frente, os olhos na escuridão, esperando ver a lanterna vermelha do Valente cruzar a tempestade, iluminando a noite sem estrelas, anunciando a chegada de Guma.

Jorge Amado, in Mar Morto