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01/10/2026

Teresa



Entrei no elevador, dois sujeitos grandes gordos estavam lá dentro. Um apartamento desse tamanho e só moram lá o velho e aquela vigarista, disse um deles. A filha da puta só quer o dinheiro do velho, respondeu o outro, mas ele não morre, noventa anos e não morre, ela deve estar muito decepcionada, já atura o velho há cinco anos.
Depois ficaram calados, saíram na minha frente. Na portaria perguntei ao porteiro, quem são esses dois caras que acabaram de sair? São filhos do doutor Gumercindo, ele respondeu. É a primeira vez que os vejo por aqui, eu disse. Eles não se dão com o velho, respondeu o porteiro. Desde que ele casou com dona Teresa só apareceram agora.
Eu sempre via o doutor Gumercindo saindo de braço com dona Teresa. Eles moravam no apartamento que ficava em cima do meu, costumávamos descer juntos no elevador, então trocávamos amabilidades. Eu abria a porta para eles, que agradeciam amavelmente. Dona Teresa não parecia de jeito nenhum uma mulher que tivesse casado por interesse.
Um dia depois de ouvir a conversa dos filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio tratava o marido daquela maneira.
Um dia o doutor Gumercindo teve um acidente vascular cerebral. Tempos depois, descemos os três pelo elevador, o doutor Gumercindo numa cadeira de rodas.
Vamos passear na praça, disse dona Teresa. Você gosta de passear na praça, não gosta?, perguntou ela. Gumercindo meneou a cabeça afirmativamente. Posso ir junto?, perguntei.
Depois de darmos uma volta pela praça sentamos à sombra de uma árvore. O doutor Gumercindo começou a cochilar e dona Teresa limpou um pouco de saliva que escorria pelos cantos da boca do marido. Notei que os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ele era tão cheio de vida, ela disse, com um sorriso triste.
Encontrei-me com eles outras vezes e notei que dona Teresa ficara muito abatida com a doença do marido. Ela tinha setenta anos, mas aparentava muito mais, emagrecera, seu rosto ficara muito pálido. Há casos em que o cônjuge doente acaba matando o que cuida dele.
Fiquei alguns dias em São Paulo fazendo um serviço para o Despachante, um freguês fácil de despachar.
Na volta subi ao apartamento dos velhos. Dona Teresa abriu a porta, seu aspecto era tão doentio que me senti obrigado a dizer, dona Teresa, a senhora devia arranjar uma enfermeira, alguém para ajudar a senhora a cuidar do doutor Gumercindo.
Ele não quer, ela respondeu, ele quer que eu mesma cuide dele, somente eu, e acho que ele tem razão, uma enfermeira não o trataria como ele merece.
Viajei durante uma semana fazendo outro serviço para o Despachante, esse mais complicado, o freguês tinha um guarda-costas que deu trabalho. Ao voltar tornei a encontrar no elevador os dois filhos grandes gordos do doutor Gumercindo, acompanhados de duas mulheres magras. Eles me cumprimentaram amavelmente e saíram na minha frente.
Aqueles são os filhos e as noras do doutor Gumercindo?
São, respondeu o porteiro, agora estão morando aqui, o doutor Gumercindo morreu, mas o apartamento é grande, dá para morar todo mundo nele. E dona Teresa?, perguntei. Ela não tem aparecido, respondeu o porteiro.
Voltei a encontrar os novos moradores do apartamento do doutor Gumercindo. As duas mulheres tinham cara de putas. Eu conheço putas. Os dois filhos estavam cada vez mais gordos. Falavam dos novos carros que haviam comprado. As duas mulheres estavam vestidas com roupas caras. Esses caras andaram fazendo coisas erradas, pensei. No meu trabalho sou obrigado a sacar quem é perigoso, quem não é, quem é filho da puta, quem não é. Eles eram as duas coisas.
Depois de um mês achei estranho não encontrar mais dona Teresa no elevador. Ela gostava de passear na praça, sentar num dos bancos para apanhar sol. Perguntei ao porteiro, tem visto dona Teresa? Não, ele respondeu.
Subi ao apartamento do doutor Gumercindo, toquei a campainha. Uma empregada abriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. A mulher bateu com a porta na minha cara. Toquei novamente a campainha. Ouvi a voz da empregada, gritando do lado de dentro, dona Teresa não pode receber visitas. Eu gritei, e a senhora não pode abrir a porta para falar comigo? Tenho ordem de não abrir a porta para estranhos, a mulher gritou do lado de dentro.
Dois dias depois voltei ao apartamento de dona Teresa. Sabia que a empregada estava de folga. Era a hora do almoço do porteiro. Antes tirei algo de dentro da maleta de couro onde guardava os folhetos sobre informática. Toquei a campainha e notei que o olho mágico havia escurecido, alguém me olhava de dentro.
Um dos grandões entreabriu a porta. Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele respondeu irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos dele.
Em pé na sala estava o irmão dele. Onde é que ela está, seus filhos da puta? Ela viajou, balbuciou um deles. Viajou o caralho, eu disse, dando uma porrada com a pistola na cara dele, em cima do nariz.
Dona Teresa estava numa cama dessas de hospital, os dois pulsos amarrados no estrado de ferro. Solta ela, eu disse. Eles soltaram. Senta ela naquela poltrona.
A senhora está bem?, perguntei. Ela meneou a cabeça dizendo que sim. A senhora é capaz de guardar um segredo? Sou, ela respondeu com voz fraca. Um segredo terrível? Sim, seu José, ela respondeu.
Levei os dois grandões para o banheiro, mandei entrarem na banheira e dei um tiro na cabeça de cada um. Sempre atiro na cabeça. Tirei as carteiras com cartões de crédito dos bolsos deles. Voltei para a sala.
Matei aqueles dois canalhas, ninguém pode saber que fui eu, diga que foi um ladrão. Sim, ela respondeu.
Fui ao quarto das putas e peguei as joias das gavetas. Depois saí, deixando a porta aberta.
No meu apartamento botei aquele bagulho todo em várias sacolinhas de supermercado. Coloquei tudo na minha maleta de couro, saí, peguei um táxi, saltei bem longe, noutro bairro, joguei cada saco numa lata de lixo diferente.
Quando voltei para casa havia uma grande movimentação no prédio. Assaltaram o apartamento do doutor Gumercindo, disse o porteiro, mataram os dois filhos dele.
É mesmo? Como isso foi possível?
Foi na hora do meu almoço, respondeu o porteiro.
E dona Teresa?
Ela está bem, respondeu o porteiro.
Subi para o apartamento do doutor Gumercindo. As duas putas estavam lá dentro, choramingando.
Vocês podem fazer as malas e ir baixar noutro terreiro, eu disse, o apartamento pertence à dona Teresa.
Quando as duas putas saíram, dona Teresa deu um beijo na minha mão, o senhor é um santo, seu José, vou guardar até morrer o nosso segredo.
Voltei para o meu apartamento. Um santo. Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato por dinheiro.
Nem sempre.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

01/09/2026

Todos temos um pouco



“Foi ali que mataram o filho da rainha da Inglaterra.”
“Posso tirar uma foto sua?”
“Sim, general.”
Tirei a câmera da pasta e bati uma foto de dona Romilda.
“O senhor vai ao churrasco que vou oferecer no fim de semana?”
“Se puder, vou.”
“Quantos bois devo matar? Dois?”
“Vai muita gente?”
“Umas duzentas pessoas.”
“Creio que dois é o suficiente.”
“O senhor está examinando o problema da minha casa na São Clemente? A casa é minha e eles não querem sair de lá.”
“Estou vendo. Tenho que ir.”
“Sábado. Na fazenda. Não é nesse, no outro sábado.”
“Eu irei, dona Romilda.”
Entrei no prédio do meu escritório, peguei o elevador.
Cristina estava me esperando.
“Copia esta foto, por favor.”
“O senhor está gostando dessa digital?”
“É boa, pequena, fácil de carregar. Mas não vou me desfazer da minha Leica do tempo do Onça. Nem da Pentax.”
“Tem muita coisa na sua agenda”, disse Cristina, ao sair da minha sala.
Agenda. Coisas pendentes. A agenda sempre me deixava abatido, como se eu começasse o dia fazendo uma hemodiálise. Uma maneira de aliviar esse sofrimento era abrir a gaveta e consultar o meu extrato bancário. Dava um certo alívio ver meus fundos de investimento aumentando todo mês. O problema é que eu não sabia o que fazer com aquele dinheiro todo guardado num banco. Podia comprar imóveis, ações, ouro, mandar o dinheiro para um paraíso fiscal, mas isso iria criar mais agendas. Não aguentava outra agenda.
“Quer marcar a reunião com a Ceteagá? É a única urgente”, Cristina perguntou, pelo interfone.
“Não, vê se eles podem amanhã. Ou outro dia.”
Eu precisava de umas férias.
Depois do almoço, Cristina entrou na minha sala.
“A foto está pronta, imprimi na laser nova. Ficou muito boa. É a dona Romilda, não é?”
“Você a conhece?”
“Ela me alertou outro dia para não ir ao Wagner. Cuidado, eles fazem tráfico de órgãos lá. Agora evito que a dona Romilda me veja entrando no Wagner, se ele souber o que ela anda dizendo vai ficar furioso, o senhor sabe como são os cabeleireiros. Mas eu gosto da dona Romilda, ela é a única pessoa bem-humorada que conheço. Sempre que me vê diz, bom dia, princesa.”
“Hoje ela me disse que mataram o filho da rainha da Inglaterra na frente do banco.”
“Para mim dona Romilda falou que o príncipe foi morto naquele prédio grande, com grades. Matar o príncipe na porta do banco não tem muita lógica. Mas o prédio tem muitos apartamentos, de todos os tamanhos, de quatro quartos, de dois, conjugados com kitchenette, entra e sai gente a toda hora, você se perde nos corredores, de tão grande. Um lugar melhor para matar o filho da rainha da Inglaterra. Posso dar o retrato para ela?”
“Acha uma boa ideia?”
“O retrato ficou tão bom... Quando fui almoçar, eu a encontrei e lhe disse que o meu chefe tinha tirado uma foto dela.”
“O que foi que ela disse?”
“Perguntou: uma foto nua?”
“Ela pensa que alguém ia tirar uma foto dela nua?”
“O senhor talvez fizesse uma foto dessas.”
“Dona Romilda disse isso?”
“Eu é que estou dizendo. O senhor gosta tanto de fotografia que isso não me parece impossível. E uma foto nua dela seria uma maravilha.”
“Mas eu não faço fotos de mulheres nuas.”
“A dela seria uma beleza. Um bom começo.”
“Ela iria gritar, quando eu passasse na rua: o general tirou minha foto nua.”
“Ela não grita nunca. Fala sempre num tom de voz educado. E além disso, ninguém ia acreditar. Outro dia ela me disse, estou com todas as minhas joias, meusdiamantes, rubis neste saco. O Guilherme, ao meu lado, não acreditou. Ninguém acredita nela. A dona Romilda nos levou até a praça para mostrar os escargôs que criava e iam lhe dar muito dinheiro. Moça, o Guilherme disse, isso aí são lesmas.”
“É tudo da mesma família.”
“Eram só quatro lesmas, que estavam numa caixa com alface. Não eram suficientes para fazer uma criação. Ela tem esse lado sonhador. O Guilherme disse que essa coisa de comer escargô é um modismo burguês que vai passar.”
“Esse modismo tem pelo menos dois mil anos.”
“É mesmo?”
“No mínimo.”
“O senhor já comeu?”
“Já.”
“Gostou?”
“Sim.”
“Acho que eu ia ter nojo. Mas se um dia o senhor me levar para comer essa coisa, eu como.”
Abri a agenda.
“E a foto da dona Romilda nua?” perguntou Cristina.
Não respondi logo. A foto talvez valesse a pena, seria algo novo no meu acervo de amador.
“Onde é que eu posso fazer isso? Não tenho lugar, dona Cristina. Na minha casa não pode ser.”
“Pode ser na minha.”
“Onde a senhora mora?”
“No prédio cheio de corredores onde mataram o príncipe.”
“Foi em frente ao banco.”
“Dona Romilda inventou isso, tem cisma com o gerente, ele não gosta que ela durma na porta do banco.”
“Em que dia nós vamos fazer isso?”
“No sábado. De tarde. Se o senhor puder, é claro.”
“Me dá o número do seu apartamento.”
“Não, é uma kitchenette.”
“Tem uma cama, não tem? Uma foto nua dela, para ficar boa, tem que ser deitada. Quer dizer, vou fazer uma em pé, também. A senhora leva a dona Romilda para o seu apartamento e eu encontro vocês lá. Quatro horas, está bem?”
O ideal para fazer aquela foto seria lá pelas ou 7. Eu levaria também os flashes, caso não tivesse uma janela dando uma luz boa da rua. E como garantia, a Leica, que me dava mais mobilidade. A digital não era uma máquina para fotos artísticas.
O prédio era mesmo grande e cheio de corredores, mas acabei achando o apartamento.
Cristina e dona Romilda, com o enorme saco que sempre carregava, estavam na sala me esperando.
“General, que bom ver o senhor novamente.”
“Vamos fazer a foto?”
“Pelada?”
“A senhora se incomoda?”
“Já fiz foto pelada para a Playboy. O senhor não viu?”
“Eu não leio a Playboy!”
Dona Romilda tirou a roupa.
“A senhora sabe quantos quilos pesa, dona Romilda?”
“Não sei, princesa.”
“Deve ser uns cem quilos. Tenho uma balança no banheiro, vou trazer para cá.”
Pesamos dona Romilda.
“Errei por pouco. Cento e dez. Não dá uma fotografia deslumbrante, doutor?”
A cama estava arrumada, com uma colcha vermelha.
“Deita aí na cama, dona Romilda.”
“Eu não deito em colcha vermelha.”
“Por quê?”
“Não é bom. Maus espíritos atacam a gente.”
“A senhora tem outra colcha, dona Cristina?”
“Pode ser branca, dona Romilda?”
“Pode.”
“Acho que branca é até melhor, cria um bom contraste. Muda a colcha, por favor.”
Cristina trocou a colcha.
“Fico com as pernas abertas?”, perguntou dona Romilda, deitando na cama.
“Espera um pouco. Preciso colocar os filtros na máquina, fazer o enquadramento, ver a luz. Não demora muito.”
Pela janela entrava uma luz boa, de fim de tarde.
“General, eles não querem devolver a minha mansão da São Clemente. A Rosinha diz que a casa é dela. Mas a casa é minha, quem me deu a casa foi a rainha da Inglaterra, que morou lá.”
“Vou ver o que posso fazer”
“E fala com o Vítor para parar de fazer propostas indecentes para mim. Já estou com dois filhos dele na barriga.”
“Eu falo.”
Coloquei a Pentax num tripé.
“Fecha as pernas, por favor, e fica deitada quieta. Dona Cristina, põe uns travesseiros sob a cabeça e as costas dela, para o tórax ficar um pouquinho levantado. Me arranja um livro.”
“Qualquer livro?”
“A senhora tem um livro de arte?”
“Que arte?”
“Tem que ser um livro grande.”
“Este serve?”
“Serve. Põe, por favor, o livro sobre o púbis dela.”
“Para que esse livro, general?”
“É um toque artístico, dona Romilda.”
“Mas eu quero tirar uma foto com as pernas abertas.”
“As outras a gente tira como a senhora quiser. Mas primeiro esta, com o livro.”
Dona Romilda ficou imóvel na cama, pensativa, mas tranquila, com o livro sobre o púbis.
“Dá uma olhada aqui no visor, dona Cristina.”
“Que coisa linda”, disse Cristina. “Não pensei que ela tivesse tantas curvas. Vai ser uma foto de museu internacional.”
Bati outras fotos, dona Romilda de pernas abertas, de bruços, de lado, em posição fetal. Usei também a Leica.
“Está encerrada a sessão, sobrou apenas um filme. Muito obrigado, dona Romilda.”
“Vai sair na Playboy?”
“Não garanto.”
“Estou com fome.”
“Vou fazer um sanduíche para a senhora”, disse Cristina.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

25/08/2026

Sucesso



Ele sai da cama dizendo, filhos da puta. Filhos da puta são as pessoas, é o dia que está raiando, o café que não vai tomar, o jornal que não vai ler, o trabalho, o sucesso, a cidade, o mundo inteiro.
Ele sabe que não está sofrendo de nenhuma depressão. Um deprimido não sente ódio, ele está sentindo ódio, de pessoas e coisas. Mais das pessoas do que das coisas.
O carro é uma coisa desprezível, mas qualquer pessoa é ainda mais repulsiva do que essa máquina estúpida. Está falando com ele mesmo, mas é maluco por isso? Não tomou banho nem fez a barba. É maluco por isso? Na semana passada saiu para fazer análise, mas para tanto é preciso ter fé, acreditar em bruxas e quejandos, mas se até Deus está incluído entre os filhos da puta, o que dizer do analista? Não era um neurótico precisando de muletas. Quem precisa disso é o palhaço do analista, suas muletas são os parlapatões, os vomitadores que vão lá pedir socorro. Pagou o filho da puta e voltou para casa.
Tem êxito no que faz, ganha dinheiro. É perfeito o conjunto de suas funções orgânicas, que distanciam a morte e o ajudam a pensar, esporrar quando é preciso e a defecar diariamente — e a carregar malas sem esforço. Mas não pretende fazer mais viagens; não importa aonde vá, é tudo a mesma porcaria. O sucesso é repulsivo, quase tanto quanto as pessoas. Cada vez tem mais sucesso e é cercado por mais pessoas nojentas e cretinas. Há a música, a poesia. Saem na urina. As coisas boas saem na urina.
E a mulher que perguntou você me ama e ele respondeu sim?
Infelizmente a vida não é uma anedota com final feliz.
“Ei, Roberto, abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“Quero ficar só.”
“Abre a porta.”
“Vai se foder.”
“Angélica está aqui comigo.”
“É mentira. Você disse isso ontem e era mentira. Vai se foder”
“Estou aqui, sim, Roberto.”
“Vocês estão pensando que eu estou drogado. Não estou drogado. Não tomei nem água.”
“Eu sei. Abre a porta, querido.”
“Não me chama de querido. Você perguntou, você me ama, e eu respondi sim, mas você não me ama. Você disse eu não te amo mais.”
“Foi aquilo das mulheres...”
“Eram duas vadias enviadas por uma cafetina. Eu nem sabia o nome delas.”
“Eu fiquei magoada, mas agora não estou mais.”
“Não sei se você é mesmo a Angélica. O mundo está cheio de filhos da puta que imitam vozes. E eu não tenho a porra de um olho mágico na porta.”
“Você não conhece a minha voz?”
“Como é que eu te chamo quando estamos na cama?”
“Branquela. Abre a porta.”
“Manda embora esse bunda-suja que está com você.”
“Vai embora, Artur. Me deixa, vai embora. Roberto, o Artur foi embora, estou só eu aqui, não tem mais ninguém. Abre a porta. Eu te amo. Abre a porta, por favor. Você precisa de mim. Abre a porta.”
“O que foi que eu lhe dei de presente no dia do seu aniversário?”
“Um carro.”
“Eu te dei essa bosta de presente?”
“Deu.”
“Qual a marca?”
“Um Peugeot.”
“Porra, um carro francês. Os franceses são uns putos.”
“Abre a porta. Você já viu que sou eu mesma. Eu te amo. Sei que você me ama também. Abre a porta.”
Ele abre a porta. Dois homens de branco entram agarram-no, lutam.
“Angélica”, grita, olhando para todos os lados, sem vê-la.
Os putos pensam que ele é maluco? Está cansado de rolar no chão. Os homens lhe dão uma injeção no braço.

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

20/08/2026

O pior dos venenos



Todos os homens gostam de ser colocados ao meu lado, nos grandes jantares que frequento. Sou inteligente, bonita, atraente, irônica, tenho imaginação, cultura, sou capaz de manter um diálogo expressivo com um banqueiro importante ou com um professor de filosofia, caso convidem um professor de filosofia para um desses jantares elegantes. Pareço uma presunçosa egocêntrica? Devo mentir, só para aparentar modéstia?
Os homens que se aproximam de mim querem sempre me seduzir. Uma mulher, qualquer mulher, até a mais obtusa, percebe quando o homem tem segundas intenções. Há uns ridiculamente óbvios, outros mais sutis, lidar com qualquer um deles exige talento. Esquivo-me das investidas, mas sem desestimulá-los totalmente; a atenção masculina galante, desde que respeitosa, é muito agradável, para mim ou qualquer outra mulher. Sou virtuosa, sei como me comportar adequadamente. O único homem que conheci, no sentido bíblico, foi o meu marido, um homem rico, influente. Não quero de maneira alguma prejudicar minha confortável situação familiar.
Antes dos jantares com lugares marcados, sempre encontro uma maneira de verificar, na mesa em que ficarei, os nomes dos outros comensais, manuscritos com rebuscada caligrafia nos cartões colocados em frente aos pratos. Em várias ocasiões troquei os cartões, quase sempre de acordo com a anfitriã, mudando de placement algum chato indicado para ficar ao meu lado. Há homens ricos, importantes, famosos, mas insuportavelmente aborrecidos. Meu marido, aliás, é um desses, todos o consideram desprovido de charme, o que é verdade. Felizmente não existe o risco de tê-lo junto a mim, nesses jantares. A etiqueta não permite.
Dizem que eu podia ter escolhido outro homem para casar, mais atraente e espirituoso. Em primeiro lugar, não existem tantos homens ricos, influentes, espirituosos e, principalmente, generosos, que sejam disponíveis. Minhas amigas se queixam da mesquinhez dos seus maridos ricaços e eu cheguei à conclusão de que assim é a maioria dos maridos, ricos ou pobres, todos reclamam das despesas que as mulheres fazem. Casei-me porque de alguma maneira gostava dele, mas reconheço que com o passar do tempo meu marido se tornou enfadonho. Além de chato, é baixo e gorducho, sei que não devo pensar nele dessa maneira, um homem que me dá tudo o que peço. Mas que outro termo pode ser aplicado ao aspecto físico dele? Rechonchudo? É pior.
Estou neste momento nua, na frente do espelho do meu quarto, feliz, meu corpo é bonito para a minha idade, afinal já passei dos quarenta. E a lipo, que fiz recentemente, deu um retoque final perfeito à malhação que pratico na academia. Relutei um pouco em fazer a lipo, mas todas as minhas amigas estavam fazendo, e não somente lipo, mas o serviço completo, cortando com bisturi ou enfiando silicone, inclusive algumas enchendo o lábio superior, creio que acham esse beicinho saliente sensual, sei lá, eu não preciso disso, tenho lábios carnudos. É verdade que uma delas tinha o lábio superior tão fino e reto que parecia um traço feito com uma régua.
Também faço dieta, é claro, o que às vezes me deixa histérica, mas é importante para manter a silhueta esbelta. É uma tortura, comer constantemente salada, peixe cozido e coisas do gênero sem poder dar uma bicada num chocolate, numa torta cremosa ou até mesmo numa baguete torradinha. Não acredito em quem diz que há dietas saborosas, isso não passa de um daqueles raciocínios que a pessoa faz para se autoenganar e sofrer menos.
Sou uns quinze centímetros mais alta do que meu marido. Ele não sabe dançar, não tem ritmo nem para essas músicas em que as pessoas apenas sacodem o corpo, uma para cada lado. Mas sempre que surge uma oportunidade ele quer bailar. Um dia, convidou a Gabriela para dançar um tango. A infeliz, que é argentina e dança como uma profissional, aceitou o convite. Foi uma coisa grotesca, a Gabriela foi um anjo, depois dei um beijo nela e pedi desculpas pelo meu marido. Coitado, eu sei, eu sei que não devia pensar assim de um homem tão bom, que me dá tudo o que peço, mas naquele dia eu fiquei com ódio dele.
Ideias surgem na minha cabeça constantemente, como agora, olhando gulosamente o reflexo da minha nudez no espelho. Mas não devemos ter medo de pensar, já tememos tanta coisa, se tivermos medo de pensar nem sequer existimos como pessoa. Gostaria que meu marido olhasse para o meu corpo nu, como eu estou olhando, e dissesse, estou com vontade de te morder. Estarei me tornando uma lésbica? Acontece com mulheres casadas. Lembro-me do Carlinhos Varela dizendo num jantar, “você tem braços lindos, estou me contendo para não mordê-los agora mesmo.” Um arrepio passou pelo meu corpo. Respondi, “Carlinhos, você é muito engraçado, mas diz muita besteira.” Usei essa palavra forte, besteira, e acintosamente evitei conversar com ele durante o resto do jantar. Aquela coisa da mulher de César.
Meu marido nunca me deu uma dentada. Confesso que detesto ficar a sós com ele, e quando não consigo evitar que isso aconteça, sou paciente, amável, sem demonstrar o desgosto que sinto. Se ele quer ficar calado, faço o mesmo, se quer ir a um leilão — meu marido coleciona vasos antigos —, eu o acompanho; às vezes até assistimos juntos aos noticiários financeiros da TV a cabo. Felizmente dormimos em quartos separados, o que é comum entre os casais do nosso nível socioeconômico. À noite, na cama, insone, suspiro, rolo de um lado para o outro sem querer saber bem por quê. Na verdade sei a razão, mas não quero falar nisso.
No jantar de hoje tenho a sorte de ser colocada ao lado do Dudu Meirelles. Ele é engraçado, um homem interessante mas metido a conquistador, se você der um dedo ele quer o braço todo. Lá para as tantas ele diz no meu ouvido: “Por você faço qualquer loucura, abandono minha mulher, vendo meus cavalos, meu apartamento em Paris, deixo de jogar pingue-pongue.”
Tomo um gole de vinho, ganhando tempo para achar uma boa resposta.
“Esse pingue-pongue foi uma metáfora inconsciente? As bolas simbolizam as mulheres que, segundo dizem, você joga de um lado para o outro?”
Ele fica indeciso, sem saber o que dizer, surpreso por descobrir que sou inteligente e espirituosa, talvez um pouco ofendido. Os homens são muito tolos, muito mais vaidosos do que as mulheres. A média das mulheres é mais inteligente do que a média dos homens, e não estou falando de intuição, é preciso acabar com essa bobagem de que somos muito intuitivas, com isso eles querem sugerir que pensamos com os ovários.
Minhas amigas invejam o interesse que os homens demonstram por mim, sejam eles solteiros ou casados, os maridos delas inclusive. O Chico Mattos Soares, considerado o melhor partido da cidade, rico, bonito, quarentão, um solteirão empedernido, disputado por todas, me disse à mesa, com uma ponta de tristeza na voz “Se você não fosse mulher de um amigo meu, eu a pediria em casamento” E olhou nos meus olhos como quem diz, “leia, sinta o meu olhar, estou falando a verdade”. Notei, nos seus olhos castanho-claros, que não estava mentindo. Foi um momento mágico, que Chico tentou romper dizendo, “desculpe ter sido tão inconveniente”. Mas essa delicadeza me deixou ainda mais comovida.
À noite sonho com Chico. Ele segura minha mão e rimos felizes. Chico tem lábios bonitos, dentes perfeitos, é mais alto do que eu, creio que não existe homem mais elegante e distinto, e não é às custas do Armani, ele se veste de maneira casual, usa camisas polo da Hering, o relógio dele é um Seiko. Dinheiro não compra elegância, compra a sua simulação.
Eu e o meu marido estamos tomando café juntos. Ele lê o jornal e responde a tudo o que eu digo ou pergunto com monossilábicos hum-huns. Num impulso, que me surpreende, arranco o jornal da mão dele.
“Quero me separar de você”, digo.
“Não acho a menor graça”, ele responde.
Não acredita que eu esteja falando seriamente, falta-lhe senso de humor, não sabe quando alguém está brincando e portanto também não percebe o contrário.
“Temos que ir falar com o seu advogado, ou o quê?”
“Que bobagem é essa?”
“Vou falar bem devagar. Não quero mais viver com você.”
Pelo meu tom de voz ele compreende afinal o que está acontecendo. A sua boca fica aberta, como alguém em estado de choque.
“O que foi que eu fiz?”, pergunta.
“Nada”, respondo.
“Existe outro homem?”
“Não, é uma coisa só minha. Pode achar que é loucura, talvez seja, mas não tem remédio, quero me separar de você.”
Ele telefona para o escritório, avisa que não vai trabalhar, deve ter surpreendido a secretária e os assessores, ele nunca deixa de ir ao escritório. Sei que pretende me dissuadir. Durante o resto do dia tenta demover-me, de maneira extenuante, o coitado. Pede-me para esperar um pouco, deixar passar um tempo, sugere consultarmos um psicólogo, fazermos uma viagem, ele não pode se ausentar, a situação econômica do país exige sua presença à frente dos negócios, mas fará uma viagem comigo para onde eu quiser. Se eu preferir, posso fazer a viagem sozinha. Tudo para ganhar tempo.
“Sem você, a minha vida acaba.”
Mantenho-me firme, apesar de sentir pena do seu ar infeliz e desgraçado. Quero separar-me imediatamente.
Ele sai de casa, da nossa casa, dizendo, “a casa é sua, e tudo o que tem nela, e mais o que você pedir.” O infeliz, o pobre-diabo generoso e bom, me ama. Mas eu não podia mais ficar presa a ele, sentia-me carente, irrealizada, não queria envelhecer ao seu lado. E se ia me separar, que fosse enquanto ainda podia recomeçar a minha vida.
É uma maravilha, a liberdade. Você fazer o que bem entende sem ter que dar satisfações a ninguém, que coisa boa. Estou separada há seis meses e cada dia é melhor do que o outro. Meu marido queria tudo nos seus lugares, cadeiras, livros, telefones sem fio, blocos de papel, copos, CDs, roupas, revistas, cinzeiros, como se existisse um lugar certo para cada objeto. Não gostava que eu fumasse, afirmava que fazia mal a mim e a ele, como fumante passivo. Dizem que as mulheres têm essa mania de arrumação, mas na minha casa o maníaco era ele. Desde pequena sou desorganizada, minha mãe vivia brigando comigo. Reconheço que perco meus óculos constantemente, nunca acho uma caneta quando preciso, ou uma determinada peça de roupa, o que às vezes me leva ao desespero, e minha irritação acaba sobrando para as empregadas.
Mas esses são ínfimos contratempos, se comparados com os leilões de vasos antigos, o canal Bloomberg, a chatice da presença do meu marido, que me privava da solidão sem me fazer companhia — essa frase é de um escritor francês, não sei onde botei o livro.
Uma mulher desquitada bonita é muito requestada. Mas eu não queria umaaventura passageira e, fazendo uma confissão íntima e até mesmo de mau gosto, posso afirmar que não estava acostumada a uma vida sexual intensa e portanto não tinha muita urgência de arranjar alguém.
Logo me vi cercada de lobos que queriam me devorar. Eu sabia que isso ia acontecer. Rechacei todas as investidas. Mas quando o Dudu Meirelles me procurou, eu, tolamente, flertei um pouco com ele. Logo percebi que Dudu não iria deixar de jogar pingue-pongue, e muito menos abandonar a sua mulherzinha por mim. Felizmente não tivemos nenhuma intimidade, apesar da insistência dele. Os homens só pensam em sexo. Deixei de atender aos telefonemas do Dudu. Ele percebeu que eu não era uma mulher para ser levada para a cama e logo descartada.
Encontro novamente o Carlinhos Varela num jantar. Ele, como já disse, vive arrastando a asa para mim. Sempre ouvi essa expressão “arrastar a asa”, mas só descobri a sua origem quando vi um pombo dando em cima de uma pombinha na praça Antero de Quental. Eu passava pela praça para ir ao cabeleireiro e notei os pombos. Um pombo macho perseguia a fêmea arrastando a asa pelo chão. O pombo acabou conseguindo o que queria, depois de muito tempo. Uma coisa sem graça muito rápida, não sei se valeu a pena ficar tanto tempo na praça olhando os pombos.
Estou usando um vestido que deixa os meus braços inteiramente nus, meus braços são bonitos e gosto de exibi-los. O Carlinhos se aproxima, sei que vai arrastar a asa para mim, dirá que quer morder os meus braços, certo de que agora, divorciada, sou mais acessível.
Estou preparada para dar um passa-fora nele. Carlinhos, depois de me cumprimentar, diz:
“Você não acha que hoje está sendo o dia mais quente do verão?” Respondo que sim, espero o resto, a minha deixa. Mas não tem resto.
Carlinhos logo procura um pretexto para se afastar. E o idiota não mais me procura, me evita o resto da festa. Confesso que senti uma certa frustração, talvez eu não fosse dar nenhum fora nele, não obstante o Carlinhos fosse um cretino. O dia mais quente do verão! Imbecil.
Não tenho ido a muitos jantares. Agora sei que muitos dos convites que recebia eram na verdade dirigidos ao meu marido. Senhor e senhora, o senhor é que importava. Por mais que eu enfeitasse a festa, minha contribuição era secundária. Negócios, o mundo é assim. A princípio isso me incomodou um pouco, mas minha amiga Lulu, uma cínica amargurada, já me havia alertado sobre isso.
Hoje é um dia glorioso. Depois de tanto tempo — dois, três anos? — recebo um telefonema do Chico Mattos Soares. Ele me diz para eu ir até a janela do meu apartamento para ver a lua. Fico tão emocionada que nem consigo falar direito, quanto mais ver a lua. “Vamos dar uma volta ao luar, no calçadão da praia e tomar uma água de coco?”

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

15/08/2026

Selma




Eu detestava ler essas entrevistas em que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate, treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze, no motel. As idades variavam de doze a dezessete.
Eu tinha vinte e três anos e ainda não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai, entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado, e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação sexual do filho.
Eu não tive experiência sexual com puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe, eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia solteirona que não estava interessada no meu pau.
Por isso eu evitava todas as mulheres, putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam mais infeliz eu ficava.
No meu prédio morava uma moça que era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.
Eu não disse nada. Estava muito perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça. Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante. Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou abalado, desassossegado.
Passei a vigiar a entrada do meu prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia. Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a porta na cara dela sem fazer barulho.
Dias depois ela me escorou de novo na porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente, entrando no meu apartamento.
Eu sabia que aquele meu problema de fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau dele.
Fui na internet. Fimose, dizia o site, é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande (“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava o crescimento do pênis.
Quis saber mais sobre essa operação. A postectomia — postium: prepúcio e tomia: secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas. Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi. Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma consulta.
Eu estava deitado na mesa operatória quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte e aplicou a injeção.
Fechei os olhos durante todo o procedimento cirúrgico.
Pronto, ouvi o médico dizer.
Abri os olhos. Ele havia tirado a máscara.
Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.
A enfermeira era a Selma, a minha vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava a minha mão.
Você está indo para casa daqui a pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você não vai mais fugir de mim, vai?

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

08/08/2026

Raimundinha




Só tenho duas filhas, uma de catorze anos chamada Jacqueline e outra de treze de nome Gisele, porque uma das patroas que tive era uma médica que trabalhava na prefeitura e ela me disse que ia fazer ligadura das minhas trompas mas que ninguém podia saber porque era proibido fazer aquele tipo de operação num hospital público, o governo e os padres não deixavam, se soubessem ela perdia o emprego. Então ela fez escondido fingindo que estava tratando uma infecção urinária.
O pai das meninas me deu um pontapé na bunda quando elas ainda eram pequenas, levou tudo com ele, até a televisão, e eu fiquei cuidando delas sozinha. Tive outros homens, mas eles não puderam fazer filhos em mim graças à santa da minha patroa, o nome dela era doutora Raquel.
Depois de algum tempo fiquei sem homem dentro de casa, eram todos pessoas muito ruins, teve até uns que batiam em mim, um deles quebrou esse meu dente da frente com um soco. Então, eu me desiludi de homem e decidi viver sozinha.
Tenho um patrão viúvo legal, que me paga em dia e aumenta sempre o meu salário, e nem quer saber da casa, me dá o dinheiro das compras e não confere, eu dou a nota do supermercado e ele nem olha. Também não se interessa por comida, o que eu ponho na frente dele ele come, quase sempre lendo um livro.
Então Jacqueline ficou grávida. Ela sempre foi uma menina que dava muito trabalho, não gostava de estudar, roubava dinheiro da minha bolsa, mas eu perdoava, mãe existe para perdoar. O pai era um garoto um pouco mais velho do que ela. Jacqueline disse que não queria tirar, que queria ter o filho e depois, se achasse chato, dava o bebê. O menino já fez quatro anos e ela não deu ele pra ninguém porque quem sempre cuidou dele fui eu, deixava na creche na hora do meu trabalho, e comprava tudo, fraldas, o leite da mamadeira, o talco para assadura do bumbum, remédios, tudo. Como o meu salário não dava, eu apanhava dinheiro na carteira do meu patrão, duzentos, trezentos, ele era muito distraído e nem desconfiava. Enquanto isso Jacqueline passava as noites em festas e eu disse a ela que se ela ficasse grávida de novo eu não ia cuidar do bebê, ia expulsá-la de casa.
Então conheci o Jeferson. Ele era branco, usava cabelo comprido, tinha quarenta anos. Estava se separando da mulher e perguntou se podia ir morar na minha casa. Esqueci de dizer que o meu patrão me deu uma casinha com dois quartos. Eu disse ao Jeferson que sim, é bom ter um homem dentro de casa, e o Jeferson já tinha trabalhado de bombeiro eletricista e sabia fazer essas coisas que nós mulheres não sabemos.
Jeferson estava desempregado, procurando trabalho, e assim, enquanto ele não conseguia um novo emprego, eu dava a ele uns trocados para comprar cigarro, mas eu sabia que ele fingia que fumava três maços por dia e fumava apenas um e o resto do dinheiro era para tomar uma cachacinha, só que eu fingia que não sabia. Ele era um homem forte, mas na cama era meio frouxo. No início ele me comia nos sábados, depois nem isso. Depois de seis meses sem me comer eu falei com ele, Jeferson, você não faz nada comigo tem seis meses, você tem outra mulher? Ele jurou por Deus que não tinha mulher nenhuma, aquilo que estava acontecendo com ele era porque ele estava muito preocupado por não conseguir arranjar emprego, o que deixava ele nervoso, e um homem nervoso não dá no couro. Eu disse, você passa o dia dormindo e vendo televisão, assim não vai arranjar emprego nunca. Jeferson respondeu que eu estava sendo injusta com ele, que eu não sabia o quanto ele sofria, que um homem com vergonha na cara odiava aquela situação, ser sustentado pela mulher. E fez uma cara de cachorro triste que cortou o meu coração.
Todo dia, quando saía pela manhã para ir para o trabalho, de segunda a sexta — meu patrão me dava folga no sábado e no domingo —, eu preparava tudo para o Jeferson, ele gostava de sanduíche de queijo e eu deixava os sanduíches prontos e o café na garrafa térmica para ele e para Jacqueline, ela e o Jeferson gostam de acordar tarde. Então eu levava o menino para a creche e a Gisele para o colégio e ia para o meu trabalho.
Acho que o meu patrão não dormia, pois a cama dele nunca estava desfeita e ele ficava lendo o dia inteiro ou então sentado na frente do computador e eu tinha que insistir para ele almoçar, não era fácil. Acho que é por isso que ele era tão magrelo, eu devo pesar o dobro dele, acho que era porque eu devorava biscoito o dia inteiro, e doce de leite, e chocolate, que eu comprava fingindo que era para ele, mas que ele nunca comia. Minha irmã, Severina, disse que eu estava muito gorda e que era por isso que o Jeferson não transava comigo.
No dia em que ela me disse isso pelo telefone eu saí do emprego e quando cheguei em casa o Jeferson estava vendo televisão e eu desliguei a televisão e perguntei, Jeferson, você não transa comigo é porque estou muito gorda? Ele respondeu, meu amorzinho, é aquele nervoso que eu falei, passo o dia procurando emprego e não arranjo nada, você não sabe como isso me faz sofrer. Já estou procurando emprego há mais de um ano, é duro.
Fiquei com peninha dele e liguei de novo a televisão.
O que vai ter hoje para o jantar?, Jeferson perguntou.
Respondi que ia fazer costeleta de porco com batata frita, que ele tanto gostava. Você é uma mulher maravilhosa, disse Jeferson, acendendo um cigarro e olhando para a tela da televisão.
Modéstia à parte, eu faço uma costeleta de porco melhor do que qualquer restaurante. Jeferson come umas cinco, no mínimo.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

04/08/2026

Nora Rubi



Meu nome é Nora Rubi, o Nora é verdadeiro, mas o Rubi é falso. Sou cleptomaníaca. Não vejo imoralidade nisso, seria imoral se eu não fizesse o que sinto que tenho que fazer. O poeta disse que o mundo é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Eu faço o meu papel, abduzo coisas sem cometer nenhuma violência. Elas não têm utilidade ou valor monetário, se tivessem eu seria uma ladra e eu sou uma pessoa honesta. E nem me aposso das coisas dos outros para expressar um sentimento de rancor, ou de frustração, ou de vingança, nem sou impulsiva, nem delirante, nem sofro de distúrbio bipolar, anorexia ou bulimia nervosa, nem de ansiedade, sintomas que o meu psiquiatra, o doutor Paulo, erradamente atribui aos cleptomaníacos. Tenho consciência do que faço e não sinto culpa pelos meus atos. Sou uma pessoa normal. Gosto de abduzir coisas, como algumas pessoas gostam de fazer palavras cruzadas. Esses também serão doentes, por gostarem desse tipo solipsista de passatempo? Eu pelo menos sou gregária, faço abduções na companhia de outras pessoas.
Dizem que é melhor aprender com a desgraça dos outros do que com a nossa. Mas eu aprendi tudo quebrando a cara. Dizem que é mais fácil começar um namoro do que terminá-lo. Mas só aprendi que antes de começar uma aventura devemos saber a maneira de pular fora dela depois de ser esfaqueada por um amante psicótico. É um erro pensar que Deus está do nosso lado, ele não está, vi um filme em que o Diabo diz que Deus é um senhorio desleixado, deixa essa casa onde a gente mora cair de podre. Se ele realmente existe, está pensando em outras coisas e não em nós.
A primeira coisa que abduzi foi uma folha de papel cheia de garranchos. Isso mesmo, uma folha de papel cheia de nomes e números. O sujeito estava parado junto de uma dessas mesas que os bancos colocam perto dos caixas eletrônicos, com formulários de depósitos e canetas, e tirou de uma pasta uma folha de papel e tentou anotar algo nela. A caneta da mesa não funcionava. Então ele revistou os bolsos procurando uma caneta. Rapidamente, peguei a folha e a coloquei na pasta que tinha na minha mão. Saí em seguida. Não me interessava o espetáculo de perplexidade que o sujeito pudesse dar, eu já tinha feito o que tinha que ser feito, o assunto estava encerrado. Não me lembro do que fiz com a folha de papel, não sei onde ela foi parar, o que aconteceu com ela. Devia tê-la guardado como um galardão? Nada disso. Para nós, cleptomaníacos autênticos, o que foi abduzido deixa de ter valor depois que a ação é encerrada.
É claro que existem aspectos logísticos, na acepção grega original da palavra, relativa a cálculo e raciocínio, a serem observados. Tenho que avaliar, com instantaneidade, a importância concreta ou abstrata do produto a ser abduzido e os riscos possíveis, a partir das informações obteníveis.
Acho que sou a única pessoa que tem a biografia do doutor Samuel Johnson, escrita pelo James Boswell, na mesinha de cabeceira. O livro é chato, eu o uso para ficar com sono e poder dormir. Esta noite, antes da ação soporífera ter efeito, li uma frase interessante: leia os seus textos e, sempre que chegar a um trecho que considere especialmente bem escrito, risque-o e elimine-o. Reli o que escrevi até agora e verifico que não há nada a eliminar, está tudo mal escrito. Meu texto já foi melhor, talvez o fato de eu estar escrevendo à mão num papel ordinário que me forneceram aqui na prisão esteja contribuindo para essa piora. Devo contar os acontecimentos que causaram a minha prisão? Sim, mas, para que pressa? Ainda vou ficar aqui durante algum tempo. Estou numa cela isolada, com vagar para ler e escrever. Se a comida não fosse tão ruim, até que seria uma vilegiatura agradável.
A segunda coisa que abduzi foi uma espátula com a ponta quebrada. Foi na casa de uma mulher que estava vendendo os livros da biblioteca do marido, que acabara de falecer. A primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vender os livros dele para o sebo. Então vi uma espátula quebrada sobre a mesa. Eu disse para a mulher que aquela espátula, se usada para abrir uma brochura daquelas com as páginas encadernadas, poderia rasgar o livro. Ela perguntou qual seria o problema se o livro rasgasse, se a brochura ainda não fora aberta isso significava que o marido não se interessara pelo livro. Acabei comprando a brochura. Ao chegar à rua joguei a espátula na primeira lata de lixo que encontrei. A brochura está na minha estante e não foi aberta até hoje. Uma homenagem simbólica ao marido morto.
Reconheço que, não obstante as coisas que eu abduzo não terem nenhum valor para mim e o único lucro obtido com elas ser a satisfação de ter realizado uma obra perfeita, às vezes, para o proprietário da coisa, ela pode fazer falta. Aquela folha de papel cheia de garatujas faria falta? Que informação ela poderia lhe dar? Que você está falido e deve dizer adeus ao mundo cruel jogando-se sob as rodas de um ônibus? Que está rico e pode se casar?
Aquela espátula talvez fosse usada exatamente para rasgar as páginas encadernadas dos livros que o marido comprara e não lera e que serviam apenas para encher as estantes de mais livros. Mas sei que esses são meros raciocínios especulativos sem o menor valor.
Outras abduções: uma batata-inglesa no supermercado (odeio batata). Uma calcinhaonde estavam bordadas, em lantejoulas, as palavras fuck me, de uma loja grã-fina que nem sentiria aquela perda. A calcinha era tão minúscula que não serviu para pano de limpeza, tive que jogar no lixo. Um batom vermelho brilhante, daqueles que deixam os lábios úmidos, e que também foi jogado no lixo. Uma camisinha de vênus, de dentro da bolsa de uma moça que se pintava no banheiro do cinema. Quem tem que carregar camisinha é o homem. Um livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, que abduzi da maior livraria da cidade. Aquele livro tinha para mim uma enorme utilidade, pois amo poesia, mas abduzir livro de poesia, mesmo para levar a vantagem de fruí-lo depois, não caracteriza furto. Se fosse de uma biblioteca pública, sim.
Abduzi ainda um adipômetro. Estava tomando um expresso no Talho quando uma mulher ao meu lado, toda paramentada para a aula de ginástica, pontificava sobre como manter a forma física. Não adianta comprar uma balança para se pesar nua em pelo, ela dizia, você tem é que medir o grau de adiposidade do seu corpo di-a-ria-men-te. Ela tirou da bolsa uma parafernália e disse, isto aqui é um adipômetro, custa uma ninharia, comprado na televenda da Polishop.
A mulher colocou o adipômetro na bolsa e, como acontece com a maioria das mulheres, deixou a bolsa aberta. Foi fácil abduzir aquela tralha enquanto ela pingava as gotinhas de adoçante artificial no café.
Durante algum tempo dediquei-me a abduzir cinzeiros ordinários, esses de botecos e churrascarias de rodízio. Passei a fumar, para facilitar a minha missão. Eu fazia a abdução, levava o cinzeiro para casa, depois voltava à churrascaria para devolver o cinzeiro que havia abduzido antes e em seguida abduzia um outro. O problema é que sou vegetariana e ficava nauseada com o espetáculo daqueles garçons carregando espetos fumegantes de carne e parando na minha mesa com um facão em punho perguntando se eu queria um pedaço da picanha enfiada naquela haste de ferro. Acabei desistindo dos cinzeiros, o que foi bom, pois deixei de fumar.
Afinal como é que vim parar na cadeia? Tudo aconteceu quando abduzi uma bijuteria. Eu havia sido convidada a ir ao aniversário de uma prima, numa dessas casas que alugam salões de festas. Entrei no banheiro junto com uma dondoca, daquelas narcisistas que ficam transtornadas ao se ver num espelho. Ela tirou o colar e começou a retocar a maquiagem do pescoço cuidadosamente. Percebendo que eu notara o colar sobre o mármore da pia, ela perguntou, não parecem brilhantes verdadeiros? Quando digo que é uma bijuteria ordinária que comprei num camelô, ninguém acredita. Mas quando é que eu teria dinheiro para comprar uma joia dessas? Meu marido ganha uma miséria, coitado.
Ela continuou retocando a maquiagem, embevecida com o seu reflexo no espelho, e eu pensei, enquanto abduzia o colar, que se fosse bonita como ela talvez me tornasse um pouco narcisista e me olhasse mais no espelho. Tranquei-me no reservado do banheiro e joguei o colar no vaso sanitário.
Quando ia saindo ouvi gritos desatinados, meu colar, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Creio que ela não percebeu que eu me escondera no reservado, pois saiu do banheiro esbaforida, gritando desesperada, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Enfiei a mão no vaso sanitário e consegui pegar o colar de volta. Não senti o menor nojo, não apenas porque o xixi que estava no vaso era meu, como principalmente pelo fato de que, sabendo que havia abduzido algo valioso, eu, para resgatá-lo, enfiaria a mão mesmo que o vaso estivesse cheio de fezes. Com o colar molhado com o meu xixi entre as mãos, saí do reservado e fui para o salão de festas.
O salão estava em polvorosa. Um homem sacudia pelos ombros a mulher do colar, gritava com ela, brilhantes verdadeiros?, brilhantes verdadeiros?, você jurou que comprou no camelô, que eram uma bijuteria barata.
O homem agarrou a mulher pelo pescoço e perguntou, furioso e infeliz, quem lhe deu essa joia?, anda, confessa, adúltera!
A mulher, nervosa, pegava os brincos das orelhas, para se certificar de que não haviam também desaparecido, e olhava a pulseira de diamantes que refletia com fulgor as luzes dos candelabros. O marido começou a esganá-la, gritando, essas joias são todas verdadeiras, não são?, sua puta, quem te deu essas joias?
Postei-me no meio do salão e gritei, atenção, atenção, atencão, todo mundo!
Foi um brado tão alto que até o marido parou de estrangular a mulher. Quando se fez silêncio, abri as mãos e disse, o colar está aqui, eu o abduzi, sinto muito, pensei que era uma bijuteria.
A mulher arrancou o colar da minha mão com tanta força que quebrou uma unha. Alguém havia chamado a polícia, que para prender os inocentes nunca demora a chegar.
Resumindo: fui presa. Mas fui presa por ter esquecido o conto de Maupassant que liquando era adolescente, em que a mulher de um certo Monsieur Lantin também tinha um monte de joias verdadeiras que dizia serem falsas, todas presente do amante. Eu devia ter visto que uma mulher bonita e vaidosa como aquela dona do colar que abduzi era, evidentemente, uma Madame Lantin. A gente aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu.
Agora estou aqui, na prisão, escrevendo à mão com uma caneta Bic, coisa que odeio. Ainda bem que hoje, durante o almoço aqui na cadeia, consegui abduzir uma colher. Fiquei muito feliz, ela está escondida debaixo do meu colchão, mas eu não sei o que fazer com ela. Acho que logo mais, no jantar, vou devolvê-la.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres