20/08/2026

O pior dos venenos



Todos os homens gostam de ser colocados ao meu lado, nos grandes jantares que frequento. Sou inteligente, bonita, atraente, irônica, tenho imaginação, cultura, sou capaz de manter um diálogo expressivo com um banqueiro importante ou com um professor de filosofia, caso convidem um professor de filosofia para um desses jantares elegantes. Pareço uma presunçosa egocêntrica? Devo mentir, só para aparentar modéstia?
Os homens que se aproximam de mim querem sempre me seduzir. Uma mulher, qualquer mulher, até a mais obtusa, percebe quando o homem tem segundas intenções. Há uns ridiculamente óbvios, outros mais sutis, lidar com qualquer um deles exige talento. Esquivo-me das investidas, mas sem desestimulá-los totalmente; a atenção masculina galante, desde que respeitosa, é muito agradável, para mim ou qualquer outra mulher. Sou virtuosa, sei como me comportar adequadamente. O único homem que conheci, no sentido bíblico, foi o meu marido, um homem rico, influente. Não quero de maneira alguma prejudicar minha confortável situação familiar.
Antes dos jantares com lugares marcados, sempre encontro uma maneira de verificar, na mesa em que ficarei, os nomes dos outros comensais, manuscritos com rebuscada caligrafia nos cartões colocados em frente aos pratos. Em várias ocasiões troquei os cartões, quase sempre de acordo com a anfitriã, mudando de placement algum chato indicado para ficar ao meu lado. Há homens ricos, importantes, famosos, mas insuportavelmente aborrecidos. Meu marido, aliás, é um desses, todos o consideram desprovido de charme, o que é verdade. Felizmente não existe o risco de tê-lo junto a mim, nesses jantares. A etiqueta não permite.
Dizem que eu podia ter escolhido outro homem para casar, mais atraente e espirituoso. Em primeiro lugar, não existem tantos homens ricos, influentes, espirituosos e, principalmente, generosos, que sejam disponíveis. Minhas amigas se queixam da mesquinhez dos seus maridos ricaços e eu cheguei à conclusão de que assim é a maioria dos maridos, ricos ou pobres, todos reclamam das despesas que as mulheres fazem. Casei-me porque de alguma maneira gostava dele, mas reconheço que com o passar do tempo meu marido se tornou enfadonho. Além de chato, é baixo e gorducho, sei que não devo pensar nele dessa maneira, um homem que me dá tudo o que peço. Mas que outro termo pode ser aplicado ao aspecto físico dele? Rechonchudo? É pior.
Estou neste momento nua, na frente do espelho do meu quarto, feliz, meu corpo é bonito para a minha idade, afinal já passei dos quarenta. E a lipo, que fiz recentemente, deu um retoque final perfeito à malhação que pratico na academia. Relutei um pouco em fazer a lipo, mas todas as minhas amigas estavam fazendo, e não somente lipo, mas o serviço completo, cortando com bisturi ou enfiando silicone, inclusive algumas enchendo o lábio superior, creio que acham esse beicinho saliente sensual, sei lá, eu não preciso disso, tenho lábios carnudos. É verdade que uma delas tinha o lábio superior tão fino e reto que parecia um traço feito com uma régua.
Também faço dieta, é claro, o que às vezes me deixa histérica, mas é importante para manter a silhueta esbelta. É uma tortura, comer constantemente salada, peixe cozido e coisas do gênero sem poder dar uma bicada num chocolate, numa torta cremosa ou até mesmo numa baguete torradinha. Não acredito em quem diz que há dietas saborosas, isso não passa de um daqueles raciocínios que a pessoa faz para se autoenganar e sofrer menos.
Sou uns quinze centímetros mais alta do que meu marido. Ele não sabe dançar, não tem ritmo nem para essas músicas em que as pessoas apenas sacodem o corpo, uma para cada lado. Mas sempre que surge uma oportunidade ele quer bailar. Um dia, convidou a Gabriela para dançar um tango. A infeliz, que é argentina e dança como uma profissional, aceitou o convite. Foi uma coisa grotesca, a Gabriela foi um anjo, depois dei um beijo nela e pedi desculpas pelo meu marido. Coitado, eu sei, eu sei que não devia pensar assim de um homem tão bom, que me dá tudo o que peço, mas naquele dia eu fiquei com ódio dele.
Ideias surgem na minha cabeça constantemente, como agora, olhando gulosamente o reflexo da minha nudez no espelho. Mas não devemos ter medo de pensar, já tememos tanta coisa, se tivermos medo de pensar nem sequer existimos como pessoa. Gostaria que meu marido olhasse para o meu corpo nu, como eu estou olhando, e dissesse, estou com vontade de te morder. Estarei me tornando uma lésbica? Acontece com mulheres casadas. Lembro-me do Carlinhos Varela dizendo num jantar, “você tem braços lindos, estou me contendo para não mordê-los agora mesmo.” Um arrepio passou pelo meu corpo. Respondi, “Carlinhos, você é muito engraçado, mas diz muita besteira.” Usei essa palavra forte, besteira, e acintosamente evitei conversar com ele durante o resto do jantar. Aquela coisa da mulher de César.
Meu marido nunca me deu uma dentada. Confesso que detesto ficar a sós com ele, e quando não consigo evitar que isso aconteça, sou paciente, amável, sem demonstrar o desgosto que sinto. Se ele quer ficar calado, faço o mesmo, se quer ir a um leilão — meu marido coleciona vasos antigos —, eu o acompanho; às vezes até assistimos juntos aos noticiários financeiros da TV a cabo. Felizmente dormimos em quartos separados, o que é comum entre os casais do nosso nível socioeconômico. À noite, na cama, insone, suspiro, rolo de um lado para o outro sem querer saber bem por quê. Na verdade sei a razão, mas não quero falar nisso.
No jantar de hoje tenho a sorte de ser colocada ao lado do Dudu Meirelles. Ele é engraçado, um homem interessante mas metido a conquistador, se você der um dedo ele quer o braço todo. Lá para as tantas ele diz no meu ouvido: “Por você faço qualquer loucura, abandono minha mulher, vendo meus cavalos, meu apartamento em Paris, deixo de jogar pingue-pongue.”
Tomo um gole de vinho, ganhando tempo para achar uma boa resposta.
“Esse pingue-pongue foi uma metáfora inconsciente? As bolas simbolizam as mulheres que, segundo dizem, você joga de um lado para o outro?”
Ele fica indeciso, sem saber o que dizer, surpreso por descobrir que sou inteligente e espirituosa, talvez um pouco ofendido. Os homens são muito tolos, muito mais vaidosos do que as mulheres. A média das mulheres é mais inteligente do que a média dos homens, e não estou falando de intuição, é preciso acabar com essa bobagem de que somos muito intuitivas, com isso eles querem sugerir que pensamos com os ovários.
Minhas amigas invejam o interesse que os homens demonstram por mim, sejam eles solteiros ou casados, os maridos delas inclusive. O Chico Mattos Soares, considerado o melhor partido da cidade, rico, bonito, quarentão, um solteirão empedernido, disputado por todas, me disse à mesa, com uma ponta de tristeza na voz “Se você não fosse mulher de um amigo meu, eu a pediria em casamento” E olhou nos meus olhos como quem diz, “leia, sinta o meu olhar, estou falando a verdade”. Notei, nos seus olhos castanho-claros, que não estava mentindo. Foi um momento mágico, que Chico tentou romper dizendo, “desculpe ter sido tão inconveniente”. Mas essa delicadeza me deixou ainda mais comovida.
À noite sonho com Chico. Ele segura minha mão e rimos felizes. Chico tem lábios bonitos, dentes perfeitos, é mais alto do que eu, creio que não existe homem mais elegante e distinto, e não é às custas do Armani, ele se veste de maneira casual, usa camisas polo da Hering, o relógio dele é um Seiko. Dinheiro não compra elegância, compra a sua simulação.
Eu e o meu marido estamos tomando café juntos. Ele lê o jornal e responde a tudo o que eu digo ou pergunto com monossilábicos hum-huns. Num impulso, que me surpreende, arranco o jornal da mão dele.
“Quero me separar de você”, digo.
“Não acho a menor graça”, ele responde.
Não acredita que eu esteja falando seriamente, falta-lhe senso de humor, não sabe quando alguém está brincando e portanto também não percebe o contrário.
“Temos que ir falar com o seu advogado, ou o quê?”
“Que bobagem é essa?”
“Vou falar bem devagar. Não quero mais viver com você.”
Pelo meu tom de voz ele compreende afinal o que está acontecendo. A sua boca fica aberta, como alguém em estado de choque.
“O que foi que eu fiz?”, pergunta.
“Nada”, respondo.
“Existe outro homem?”
“Não, é uma coisa só minha. Pode achar que é loucura, talvez seja, mas não tem remédio, quero me separar de você.”
Ele telefona para o escritório, avisa que não vai trabalhar, deve ter surpreendido a secretária e os assessores, ele nunca deixa de ir ao escritório. Sei que pretende me dissuadir. Durante o resto do dia tenta demover-me, de maneira extenuante, o coitado. Pede-me para esperar um pouco, deixar passar um tempo, sugere consultarmos um psicólogo, fazermos uma viagem, ele não pode se ausentar, a situação econômica do país exige sua presença à frente dos negócios, mas fará uma viagem comigo para onde eu quiser. Se eu preferir, posso fazer a viagem sozinha. Tudo para ganhar tempo.
“Sem você, a minha vida acaba.”
Mantenho-me firme, apesar de sentir pena do seu ar infeliz e desgraçado. Quero separar-me imediatamente.
Ele sai de casa, da nossa casa, dizendo, “a casa é sua, e tudo o que tem nela, e mais o que você pedir.” O infeliz, o pobre-diabo generoso e bom, me ama. Mas eu não podia mais ficar presa a ele, sentia-me carente, irrealizada, não queria envelhecer ao seu lado. E se ia me separar, que fosse enquanto ainda podia recomeçar a minha vida.
É uma maravilha, a liberdade. Você fazer o que bem entende sem ter que dar satisfações a ninguém, que coisa boa. Estou separada há seis meses e cada dia é melhor do que o outro. Meu marido queria tudo nos seus lugares, cadeiras, livros, telefones sem fio, blocos de papel, copos, CDs, roupas, revistas, cinzeiros, como se existisse um lugar certo para cada objeto. Não gostava que eu fumasse, afirmava que fazia mal a mim e a ele, como fumante passivo. Dizem que as mulheres têm essa mania de arrumação, mas na minha casa o maníaco era ele. Desde pequena sou desorganizada, minha mãe vivia brigando comigo. Reconheço que perco meus óculos constantemente, nunca acho uma caneta quando preciso, ou uma determinada peça de roupa, o que às vezes me leva ao desespero, e minha irritação acaba sobrando para as empregadas.
Mas esses são ínfimos contratempos, se comparados com os leilões de vasos antigos, o canal Bloomberg, a chatice da presença do meu marido, que me privava da solidão sem me fazer companhia — essa frase é de um escritor francês, não sei onde botei o livro.
Uma mulher desquitada bonita é muito requestada. Mas eu não queria umaaventura passageira e, fazendo uma confissão íntima e até mesmo de mau gosto, posso afirmar que não estava acostumada a uma vida sexual intensa e portanto não tinha muita urgência de arranjar alguém.
Logo me vi cercada de lobos que queriam me devorar. Eu sabia que isso ia acontecer. Rechacei todas as investidas. Mas quando o Dudu Meirelles me procurou, eu, tolamente, flertei um pouco com ele. Logo percebi que Dudu não iria deixar de jogar pingue-pongue, e muito menos abandonar a sua mulherzinha por mim. Felizmente não tivemos nenhuma intimidade, apesar da insistência dele. Os homens só pensam em sexo. Deixei de atender aos telefonemas do Dudu. Ele percebeu que eu não era uma mulher para ser levada para a cama e logo descartada.
Encontro novamente o Carlinhos Varela num jantar. Ele, como já disse, vive arrastando a asa para mim. Sempre ouvi essa expressão “arrastar a asa”, mas só descobri a sua origem quando vi um pombo dando em cima de uma pombinha na praça Antero de Quental. Eu passava pela praça para ir ao cabeleireiro e notei os pombos. Um pombo macho perseguia a fêmea arrastando a asa pelo chão. O pombo acabou conseguindo o que queria, depois de muito tempo. Uma coisa sem graça muito rápida, não sei se valeu a pena ficar tanto tempo na praça olhando os pombos.
Estou usando um vestido que deixa os meus braços inteiramente nus, meus braços são bonitos e gosto de exibi-los. O Carlinhos se aproxima, sei que vai arrastar a asa para mim, dirá que quer morder os meus braços, certo de que agora, divorciada, sou mais acessível.
Estou preparada para dar um passa-fora nele. Carlinhos, depois de me cumprimentar, diz:
“Você não acha que hoje está sendo o dia mais quente do verão?” Respondo que sim, espero o resto, a minha deixa. Mas não tem resto.
Carlinhos logo procura um pretexto para se afastar. E o idiota não mais me procura, me evita o resto da festa. Confesso que senti uma certa frustração, talvez eu não fosse dar nenhum fora nele, não obstante o Carlinhos fosse um cretino. O dia mais quente do verão! Imbecil.
Não tenho ido a muitos jantares. Agora sei que muitos dos convites que recebia eram na verdade dirigidos ao meu marido. Senhor e senhora, o senhor é que importava. Por mais que eu enfeitasse a festa, minha contribuição era secundária. Negócios, o mundo é assim. A princípio isso me incomodou um pouco, mas minha amiga Lulu, uma cínica amargurada, já me havia alertado sobre isso.
Hoje é um dia glorioso. Depois de tanto tempo — dois, três anos? — recebo um telefonema do Chico Mattos Soares. Ele me diz para eu ir até a janela do meu apartamento para ver a lua. Fico tão emocionada que nem consigo falar direito, quanto mais ver a lua. “Vamos dar uma volta ao luar, no calçadão da praia e tomar uma água de coco?”

Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas

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