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27/01/2024

Como isso termina


O final é sempre uma surpresa. Até eu fiquei surpreso com o final.
Eu estava na cozinha preparando um sanduíche de geleia com pasta de amendoim. Minha mãe estava tirando o pó do alto da moldura das janelas, pó que você nunca vê, a menos que suba numa escada e olhe, que é o que ela estava fazendo. Eu me lembro de estar pensando que vida triste e horrível ela devia ter, para desperdiçar até mesmo um segundo limpando aquelas molduras, quando meu pai entrou. Eram umas quatro horas da tarde, o que era estranho porque eu não me lembrava da última vez que o tinha visto ainda com o sol brilhando, e ao olhar para ele naquela claridade, entendi por quê: ele não parecia bem. Na verdade, ele estava com uma aparência péssima. Ele largou alguma coisa em cima da mesa de jantar e entrou na cozinha, seus sapatos de sola de couro batendo no chão recém-encerado. Minha mãe escutou, e quando ele entrou na cozinha ela desceu da escada e largou o pano que estava usando na bancada, ao lado da cesta de pão, e se virou para olhá-lo com um olhar que eu só pude caracterizar como sendo de desespero. Sabia o que ele estava prestes a contar a ela, a nós. Ela sabia por que ele estava fazendo testes e biópsias, cuja natureza eles acharam melhor esconder de mim até terem certeza, e naquele dia tiveram certeza. Era por isso que ela estava limpando o alto das janelas, porque aquele era o dia em que saberiam e ela não queria pensar naquilo, não queria ficar ali sentada pensando no que poderia saber naquele dia.
E soube.
— Está em toda parte — ele disse. Foi assim. Está em toda parte, ele disse, e se virou para sair. Minha mãe foi atrás dele, deixando-me ali imaginando o que, além de Deus, estaria em toda parte, e por que aquilo perturbava tanto meus pais. Mas não tive que imaginar por muito tempo.
Calculei o que era antes que eles me contassem.

Entretanto, ele não morreu. Ainda não. Em vez de morrer, ele se tornou um nadador. Havia anos que tínhamos uma piscina, mas ele nunca ligou para ela. Agora que estava o tempo todo em casa e precisava fazer exercício, agarrou-se à piscina como se tivesse nascido na água, como se fosse seu elemento natural. E ele era lindo de ver. Atravessava a água quase sem deslocá-la. Seu corpo longo e rosado, coberto de cicatrizes, lesões, hematomas e esfoladuras, cintilava no azul da piscina. Seus braços moviam-se diante dele com tanta sinceridade, como se estivesse acariciando a água em vez de usá-la para mover-se lá dentro. Suas pernas faziam movimentos precisos como os de um sapo atrás dele, e sua cabeça mergulhava e varava a superfície como um beijo. Isso levava horas. Submersa por tanto tempo, sua pele ficava encharcada de água, com as dobras inteiramente brancas. Uma vez o vi descascando a pele em tiras, devagar, metodicamente, como se estivesse na muda. O resto do dia ele passava quase todo dormindo. Quando não estava dormindo, eu às vezes o via com um olhar vago, como se estivesse em comunhão com um segredo. Observando-o, via que ele se tornava mais alheio a cada dia, e não só alheio a mim, mas alheio àquele tempo e àquele lugar. O modo como seus olhos afundavam na cabeça, desprovidos de fogo e paixão. O modo como seu corpo encolhia e murchava. O modo como ele parecia estar ouvindo uma voz que só ele podia ouvir.
Eu me consolava um pouco com o fato de que tudo aquilo estava acontecendo para o bem dele, que de alguma forma haveria um final feliz, e que mesmo aquela doença era uma metáfora de outra coisa: significava que ele estava ficando cansado do mundo. Isso tinha se tornado tão óbvio. Não havia mais gigantes, nem olhos que tudo veem, nem garotas do rio cujas vidas você podia salvar e que voltariam depois para salvar a sua. Ele tinha se tornado simplesmente Edward Bloom: Homem. Eu o tinha apanhado num mau momento de sua vida. E isso não era culpa dele. O mundo simplesmente não tinha mais a magia que permitia que ele vivesse nele com grandiosidade.
A doença era seu ingresso para um lugar melhor.
Eu agora sei.

Ainda assim, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para nós, essa viagem final. Bem, talvez não a melhor coisa, mas uma boa coisa, considerando todas as circunstâncias. Eu o via uma vez todas as noites — mais do que o via quando estava bem. Ele era o mesmo homem, até então. Senso de humor, intacto. Não sei por que isso parece importante, mas parece. Suponho que em alguns casos indique certa capacidade de recuperação, uma determinação, uma vontade inabalável.
Um homem estava conversando com um gafanhoto. O homem disse: “Sabe, existe um drinque com o seu nome.” E o gafanhoto disse: “Quer dizer que existe um drinque chamado Howard?”
E esta aqui: Um homem entrou num restaurante e pediu uma xícara de café sem creme. O garçom voltou uns minutos depois e disse, desculpando-se, que eles estavam sem creme. Ele se importaria de tomar o café sem leite?
Mas as piadas nem eram mais engraçadas. Estávamos simplesmente esperando pelo último dia. Estávamos contando piadas velhas, infames, aguardando o fim. Ele foi ficando cada vez mais cansado. Às vezes, no meio de uma piada, esquecia o que estava dizendo ou se enganava no final — dava um excelente remate, mas que pertencia a outra piada.
A própria piscina começou a se deteriorar. Ninguém mais cuidava dela. Estávamos atônitos contemplando o fim de meu pai. Ninguém a limpava nem colocava os produtos químicos que mantinham a água azul, e as algas começaram a crescer nas paredes, deixando a água verde-escura. Mas papai continuou a nadar nela até o fim. Mesmo quando começou a parecer mais um lago do que uma piscina, ele continuou nadando. Um dia, quando fui ver como ele estava, podia jurar que tinha visto um peixe — uma perca — subir à superfície atrás do anzol. Tive certeza de ter visto.
— Papai — eu disse. — Você viu isso?
Ele tinha parado no meio de uma braçada e estava boiando.
— Você viu aquele peixe, papai?
E então ri, porque olhei para o meu pai, contador de piadas, eterno cômico, e vi que ele parecia engraçado. Foi isso exatamente o que pensei, quando olhei para ele, pensei: Ele parece engraçado. E não deu outra, ele não tinha parado no meio de uma braçada. Ele tinha desmaiado, e seus pulmões estavam cheios d’água. Eu o tirei da piscina e chamei uma ambulância. Apertei seu estômago e a água saiu da sua boca como um esguicho. Esperei que abrisse um olho e desse uma piscadela, começasse a rir, transformasse aquele acontecimento real em algo diferente, em algo realmente espetacular e engraçado, algo para se recordar e rir. Segurei a mão dele e esperei.
Esperei um longo tempo.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

20/01/2024

No que ele compra uma cidade, e mais


Esta próxima história ergue-se da bruma do passado como uma sombra.
Muito trabalho, sorte, e uma quantidade de investimentos sagazes fazem de meu pai um homem rico. Nos mudamos para uma casa maior, numa rua mais bonita, e minha mãe fica em casa e me educa. À medida que vou crescendo meu pai continua a trabalhar tanto quanto antes. Ele passa semanas fora e volta para casa cansado e triste, com pouco para dizer, exceto que sentiu saudades.
Assim, apesar de seu enorme sucesso, ninguém parece feliz. Nem minha mãe nem eu e, certamente, nem meu pai. Há até boato de dissolver a família, que parece e age tão pouco como tal. Mas isso não acontece. Às vezes as oportunidades surgem disfarçadas. Meus pais resolvem pôr um fim nas dificuldades.
É durante esse período, meados dos anos 70, que meu pai começa a gastar seu dinheiro das formas mais inusitadas. Um dia ele percebe que falta algo em sua vida. Ou melhor, esse é um sentimento que vai surgindo aos poucos à medida que ele envelhece — ele acabou de fazer quarenta anos —, até que um dia ele se vê, de forma totalmente acidental, preso. Numa cidadezinha chamada Specter. Specter, em algum lugar do Alabama, do Mississippi ou da Georgia. Preso ali porque o carro quebrou. Ele manda rebocar o carro até a oficina mecânica e, enquanto espera que o consertem, resolve dar uma volta.
Specter, o que não é de espantar, é uma cidadezinha linda, cheia de casinhas brancas, alpendres e balanços, sob árvores enormes que lhe dão sombra. Aqui e ali canteiros de flores e, além de uma bela rua principal, há uma combinação de ruas de terra, cascalho e asfalto, todas próprias para se passear de carro. Meu pai presta especial atenção a essas ruas enquanto caminha porque, mais do que tudo, é isso que o meu pai gosta de fazer. Dirigir. Vendo coisas. Entrar no carro e dirigir por estradas no país inteiro, no mundo inteiro, dirigir tão devagar quanto a lei permite — embora a lei, especialmente no que concerne a limites de velocidade, não seja algo que Edward Bloom respeite: vinte na cidade é depressa demais para ele; as autoestradas são uma loucura. Como se pode ver o mundo numa velocidade dessa? Onde as pessoas têm tanta pressa de chegar que não conseguem perceber o que está ali, do lado de fora da janela do carro? Meu pai se lembra de quando não havia carros. Ele se lembra de quando as pessoas costumavam caminhar. E ele também faz isso — caminha —, mas mesmo assim gosta de sentir o motor do carro roncando, as rodas girando, a vida emoldurada na janela à frente, atrás, por todos os lados. O carro é o tapete mágico de meu pai.
Ele não só o leva a lugares, mas mostra esses lugares a ele. Um carro... ele dirige, é dirigido, tão devagar, e leva tanto tempo para ir daqui para lá que algumas de suas importantes transações comerciais são feitas em carros. Aqueles que têm hora marcada com ele seguem o seguinte esquema: descobrem onde ele está neste ou naquele dia e calculam que, por ser um motorista tão vagaroso, ele irá permanecer nos arredores pelo restante da semana — e então voam para o aeroporto mais próximo, alugam um carro e vão a seu encontro. Emparelham o carro com o dele, buzinam e acenam. Meu pai se vira lentamente — do jeito que Abraham Lincoln teria se virado se tivesse dirigido um carro, porque em minha mente, na lembrança que se alojou indelevelmente em minha mente, meu pai se parece com Abraham Lincoln, um homem com braços compridos, bolsos fundos e olhos escuros — e acena de volta. Ele estaciona e quem quer que precise falar com ele entra no banco do passageiro, e os assessores ou advogados dessa pessoa entram atrás, e enquanto continuam rodando por aquelas belas e sinuosas estradas, terminam suas transações. E quem sabe? Talvez ele até tenha casos nesses carros, romances com belas mulheres, atrizes famosas. À noite uma pequena mesa é armada entre eles, coberta com uma toalha branca, e, à luz de velas, eles comem, bebem e brindam levianamente ao futuro...
Em Specter meu pai passeia. Por acaso é um belo dia de outono. Ele sorri para tudo e para todos amavelmente, e tudo e todos sorriem amavelmente de volta. Ele anda com as mãos cruzadas nas costas, espiando com um olhar simpático para dentro de vitrines e becos, e já naquela época um tanto sensível à luz do sol, apertando os olhos portanto, o que só o faz parecer mais simpático, e mais delicado, o que ele é: é mais simpático e sem dúvida mais delicado do que parece, sempre, para qualquer um. Ele se apaixona pela cidade, com sua maravilhosa simplicidade, seu charme despojado, as pessoas que o cumprimentam, que lhe vendem uma Coca-Cola, que acenam para ele e sorriem de seus alpendres quando ele passa.
Meu pai decide comprar a cidade. Specter tem uma qualidade sombria, ele diz para si mesmo, uma qualidade parecida com viver debaixo d’água, que ele é capaz de apreciar. É um lugar triste, na realidade, e tinha sido assim há anos, desde que a ferrovia foi fechada. Ou que as minas de carvão secaram. Ou que a cidade foi simplesmente esquecida, que o mundo passou ao largo dela. E embora Specter não tivesse mais utilidade para o mundo, teria gostado de fazer parte dele, de ter sido convidada.
Essa é a qualidade pela qual meu pai se apaixona, e esse é o motivo pelo qual ele faz daquela a sua cidade.
A primeira coisa que ele faz é comprar toda a terra ao redor de Specter, como uma espécie de tampão, para evitar que algum outro homem rico e solitário apareça na cidade e queira construir uma autoestrada cortando-a. Ele nem mesmo examina a terra; só sabe que é verde, cheia de pinheiros e que ele quer mantê-la assim, quer o que é, de fato, um ecossistema fechado em si mesmo. E consegue. Ninguém sabe que um só homem está comprando os pequenos terrenos que estão à venda, assim como ninguém fica sabendo quando todas as casas e lojas da cidade são compradas, uma a uma, num período de cerca de cinco ou seis anos, por alguém que ninguém sabe quem é. Mas não por muito tempo. Há pessoas que estão se mudando, e há negócios que estão fechando, e estes não são nada difíceis de comprar, mas para aqueles que gostam das coisas como são e querem ficar no mesmo lugar, é mandada uma carta. A carta oferece um ótimo preço pela propriedade e tudo o que tem lá dentro. Eles não são solicitados a sair, a pagar aluguel nem a fazer qualquer mudança a não ser o nome do proprietário da casa — todas as casas — ou da loja — todas as lojas.
E, dessa forma, devagar mas com determinação, meu pai compra Specter. Cada centímetro quadrado dela.
Eu o imagino muito satisfeito com a transação.
Pois, cumprindo sua palavra, nada muda, nada exceto o surgimento súbito e rotineiro na cidade de meu pai, Edward Bloom. Ele não avisa com antecedência, pois eu não acredito que ele mesmo saiba quando vai poder voltar, mas um dia ele é visto por alguém. É a figura solitária parada no campo ou caminhando pela rua Nove com as mãos enfiadas nos bolsos. Ele percorre as lojas que então possui e gasta um ou dois dólares, mas deixa a direção dos estabelecimentos para os homens e mulheres de Specter, a quem pergunta, com sua voz suave e paternal: Bem, como vão as coisas? Como vai sua esposa, e as crianças?
Ele obviamente ama muito aquela cidade, bem como todas as pessoas que moram nela; e elas o amam também, porque é impossível não amar meu pai. Impossível. Isso, pelo menos, é o que imagino: é impossível não amar meu pai.
Muito bem, sr. Bloom. Está tudo muito bem. Tivemos um bom mês. O senhor gostaria de examinar os livros? Mas ele sacode negativamente a cabeça. Tenho certeza de que tudo está sob controle aqui. Só entrei para dar um alô. Bem, tenho que ir agora. Até logo. Dê lembranças à sua mulher, sim?
E quando os estudantes secundários de Specter jogam beisebol contra outros times de outras escolas, às vezes ele é visto — sua figura alta e magra — sozinho na arquibancada com seu terno de três peças, assistindo ao jogo com aquele ar orgulhoso e distante com que me observou crescer.
Toda vez que vai a Specter fica com uma família diferente. Ninguém sabe quem será, ou quando, mas há sempre um quarto preparado quando ele pergunta, e ele sempre pergunta, como se fosse um favor feito a um estranho. Por favor, se não for muito incômodo. Ele come com a família, dorme no quarto e de manhã parte. E sempre faz a cama.

— Acho que o Sr. Bloom vai gostar de um refrigerante num dia quente como hoje — Al diz um dia para ele. — Deixe-me pegar um para o senhor, sr. Bloom.
— Obrigado, Al. Vai ser ótimo tomar um refrigerante.
Ele se senta num banco em frente à Loja Campestre de Al, sem fazer nada. Loja Campestre de Al — ele sorri do nome e tenta se refrescar na sombra da marquise. Só as pontas de seus sapatos pretos no sol quente daquele dia de verão. Al leva o refrigerante para ele. Outro homem chamado Wiley está lá, e o velho mastiga a ponta de um lápis, e olha para meu pai enquanto ele bebe o refrigerante. Wiley tinha sido xerife de Specter por algum tempo, e depois pastor. Depois de ser pastor ele se tornou o merceeiro, mas agora, conversando com meu pai em frente à Loja Campestre de Al, ele não faz nada. Aposentou-se de tudo, menos de conversar.
Wiley diz:
— Sr. Bloom, sei que já disse isso antes. Sei que sim. Mas vou dizer de novo. É maravilhoso o que o senhor fez com esta cidade.
Meu pai sorri.
— Eu não fiz nada com esta cidade, Wiley.
— Exatamente por isso! — Wiley diz e ri, e Al ri, e meu pai também ri. — Nós achamos que é maravilhoso.
— Como está o refrigerante, sr. Bloom?
— Refrescante. Muito refrescante, Al. Obrigado.
Wiley tem uma fazenda a dois quilômetros da cidade. Foi uma das primeiras coisas sem valor que meu pai comprou.
— Tenho que concordar com Wiley — diz Al. — Nem todo homem viria aqui e compraria uma cidade inteira só por gosto.
Os olhos de meu pai estão quase fechados; dentro de pouco tempo ele não poderá mais sair sem óculos bem escuros, tal o modo como seus olhos se tornaram sensíveis à luz. Mas ele aceita o elogio com dignidade.
— Obrigado, Al — ele diz. — Quando vi Specter, soube que tinha que tê-la. Não sei por quê, só sei que foi assim. Tinha que tê-la todinha. Suponho que em parte isso tenha relação com círculos, com completude. É muito difícil para um homem como eu contentar-me com um pedaço de alguma coisa. Se parte é boa, o todo só pode ser melhor. E no que se refere a Specter, este é certamente o caso. Tê-la toda…

— Mas o senhor não tem — Wiley diz, ainda mastigando o lápis. Seus olhos vão de Al para meu pai.
— Wiley — Al diz.
— Bem, é verdade! Não é errado dizer a verdade.
Meu pai se vira vagarosamente para Wiley, porque meu pai tem esse talento especial: só de olhar para um homem ele sabe dizer qual é sua motivação em dizer o que está dizendo, se está sendo sincero e verdadeiro ou se está tentando conseguir mais do que é certo. É uma espécie de poder, e é um dos motivos pelos quais ele ficou rico.
Ele percebe que Wiley pensa que está dizendo a verdade.
— Bem, isso não pode ser, Wiley — ele diz. — Isto é, até onde eu sei. Já percorri cada centímetro desta cidade, seja de carro ou a pé, ou vista do ar, e tenho certeza de que comprei tudo. A cidade inteira. O pacote completo. É um círculo perfeito.
— Ótimo, então — Wiley diz. — Não vou mencionar aquele pedaço de terra com um barraco que fica entre o final da estrada e o começo do lago, e que é difícil de achar a pé ou de carro ou visto do ar e que talvez não esteja em nenhum mapa, nem que a pessoa que o possui tem um pedaço de papel que o senhor nunca viu para assinar, sr. Bloom. Porque o senhor e Al são os donos da verdade com relação a isso. Acho que não sei do que estou falando. Minhas desculpas para o senhor, que sabe mais do que eu. 
 
Wiley é amável o bastante para mostrar a meu pai como se chega lá, como a estrada parece terminar mas não termina, como o lago parece estar onde não está, e como é difícil para qualquer um encontrar aquele lugar: um pântano. Um barraco num pântano. Então meu pai vai de carro até onde a estrada parece terminar, mas quando salta fica claro que depois das árvores e videiras e terra e grama, a estrada está lá, a estrada continua. Foi tomada pela natureza, pelo lago que no momento está transbordando por suas margens. Em seis centímetros de água pantanosa existe mais vida estagnada do que no oceano; na sua extremidade, onde a lama endurece e esquenta, começa a própria vida. Ele entra no pântano. O pântano engole os sapatos de meu pai. Ele continua andando. A água sobe, a lama se agarra em suas calças à medida que ele vai afundando. A sensação é boa.
Ele continua andando, não tem dificuldade para enxergar naquela luz fraca. E de repente avista uma casa à sua frente — uma casa. Ele não consegue acreditar que uma coisa daquelas continue em pé, que não tenha sido tragada pela terra fofa, mas lá está ela, não um barraco, e sim uma casa de verdade, pequena mas bem construída, com quatro paredes e fumaça saindo da chaminé. Quando ele se aproxima a água recua, o chão fica duro, há um caminho para seguir. E ele pensa, sorrindo, que é engenhoso, e parecido com a vida: no último momento surge um caminho, quando menos se precisa dele.
Em uma das laterais da casa há um jardim, e na outra há pilhas de madeira da altura dele. Sob uma janela, um canteiro de flores amarelas.
Ele vai até a porta e bate.
— Olá. Tem alguém em casa?
— Claro — responde uma voz jovem de mulher.
— Posso entrar?
Há uma pausa, e em seguida:
— Limpe os pés no capacho.
Meu pai obedece. Ele abre a porta com delicadeza e fica ali parado, contemplando toda aquela limpeza e arrumação: no meio do pântano mais pantanoso que ele já vira, está olhando para uma sala limpa, acolhedora e confortável. Ele vê primeiro o fogo da lareira, mas desvia rapidamente os olhos. Depois fita a bancada da lareira, sobre a qual há diversos jarros de vidro azuis arrumados em pares, e finalmente contempla as paredes, que estão praticamente nuas.
Há um pequeno sofá, duas cadeiras e um tapete marrom.
No vão da porta que dá para outro cômodo está a moça. Ela tem cabelos pretos e compridos, trançados para trás, e olhos azuis. Não pode ter mais de vinte anos. Morando naquele pântano, imaginaria que ela estivesse coberta de lama como ele está naquele momento, mas fora uma manchinha de cinza em um lado do pescoço, sua pele branca e seu vestido de chita não poderiam estar mais limpos.
— Edward Bloom — ela diz. — O senhor é Ed Bloom, não é?
— Sim. Como você soube?
— Calculei. Quer dizer, quem mais poderia ser?
Ele concorda com a cabeça e diz que sente muito incomodá-la e a sua família, mas que está lá para tratar de negócios. Diz que gostaria de falar com o dono da casa — pai, mãe? — e da terra onde está a casa.
Ela diz que ele está falando com a dona.
— Como assim?
— Isso aqui é meu.
— Seu? — meu pai diz. — Mas você é só...
— Uma mulher. Ou quase.
— Desculpe-me — meu pai diz. — Não tive a intenção de...
— Negócios, sr. Bloom. — Sorri de leve. — O senhor disse algo sobre negócios.

— Ah, sim — ele diz.
E ele fala tudo o que sabe, como chegou a Specter, como se apaixonou pela cidade, e que simplesmente quer tê-la toda. Ela pode achar que se trata de uma falha de caráter, mas ele quer possuir a cidade inteira, e aparentemente este é um pedaço de terra que ele deixou passar, e que gostaria de comprá-lo se ela não se importar, que nada irá mudar, ela poderá continuar lá para sempre se quiser, ele só quer chamar de sua aquela cidade.
— Deixe-me entender bem isto — ela diz. — O senhor irá comprar de mim este pântano, mas eu vou continuar aqui. O senhor será o proprietário da casa, mas ela continuará sendo minha. Eu ficarei aqui e o senhor irá de um lado para o outro de acordo com sua vontade porque existe uma falha em seu caráter. Entendi direito? — E quando ele diz que sim, que ela resumiu bem a situação, ela diz: — Então eu acho que não, sr. Bloom. Se nada vai mudar, eu prefiro que não mude, que as coisas continuem do jeito que sempre foram.
— Mas você não compreende. Basicamente você não vai perder nada. Na verdade, todo mundo ganha com isso. Você não vê? Pode perguntar a qualquer pessoa em Specter. Eu só tenho contribuído. O povo de Specter tem lucrado sob todos os aspectos com minha presença aqui.
— Deixe que eles lucrem — ela diz.
— É uma coisa de nada, na verdade. Eu gostaria que você reconsiderasse. — Ele está prestes a perder a paciência ou a cair em depressão. — Eu só quero o melhor para todos.
— Especialmente para o senhor.
— Para todos — ele diz. — Inclusive eu.
Ela olha para meu pai por um longo tempo, seus olhos azuis firmes, sem piscar, e sacode a cabeça.
— Eu não tenho pais, sr. Bloom — ela diz. — Eles já morreram há muito tempo. — Ela lança um olhar frio e mau para ele. — Estou bem aqui. Sei de muita coisa... bem, o senhor se surpreenderia com o que eu sei. Não é um cheque polpudo que vai mudar as coisas para mim. Dinheiro, eu não preciso dele. Não preciso de nada, sr. Bloom. Sou feliz com o que tenho.
— Minha jovem — meu pai fala, sem acreditar no que está ouvindo —, qual é o seu nome?
— Jenny — diz, num tom de voz mais suave. — Meu nome é Jenny Hill.
E a história é a seguinte: ele primeiro se apaixona por Specter, depois se apaixona por Jenny Hill.

O amor é estranho. O que faz uma mulher como Jenny Hill subitamente decidir que meu pai é o homem certo para ela? O que ele desperta nela? Será aquele famoso charme? Ou será que Jenny Hill e Edward Bloom foram, de certa forma, feitos um para o outro? Será que meu pai esperou quarenta anos e Jenny Hill vinte anos para finalmente encontrarem o amor de sua vida?
Eu não sei.
Ele atravessa o pântano com Jenny nos ombros e eles vão para a cidade juntos, no carro dele. Às vezes dirige tão devagar que é possível caminhar ao lado do carro em passos rápidos e conversar com ele, ou, como acontece hoje, que toda a cidade de Specter fique enfileirada nas calçadas para ver o que ele carrega consigo, para ver a bela Jenny Hill.
Desde o início da sua estada em Specter, meu pai conserva uma casinha branca, de janelas pretas, próxima do parque da cidade, numa rua adorável, com um gramado macio na frente e um roseiral de um lado e um velho celeiro convertido em garagem do outro. Há um pássaro vermelho de madeira empoleirado no alto de uma cerca branca, cujas asas batem quando o vento sopra, e um capacho de palha na varanda da frente com a palavra Lar bordada no meio.
E no entanto ele nunca ficou lá. Nos cinco anos desde que se apaixonou por Specter, nunca passou uma só noite na única casa da cidade em que não mora ninguém. Até levar Jenny do pântano, sempre ficou hospedado na casa dos outros. Mas agora, com Jenny instalada na casinha branca com o gramado verde e macio próxima do parque, ele fica com ela. Ele não surpreende mais as pessoas de Specter com sua batida tímida ao anoitecer (“É o sr. Bloom!” as crianças gritam, e pulam em cima dele como se fosse um tio que não veem há muito tempo). Ele agora tem um lugar que é seu para ficar, e embora no início alguns sentimentos fiquem feridos, e a propriedade da situação seja questionada por alguns, logo todos veem a sabedoria de morar com a mulher que você ama na cidade em que você ama morar. Sábio: foi o que pensaram a respeito de meu pai desde o primeiro dia. Ele é sábio, bom e amável. Se faz algo que parece estranho — como ir até o pântano para comprar um terreno e encontrar uma mulher —, então é porque o restante das pessoas não é tão sábio, amável e bom quanto ele. Portanto, em pouco tempo ninguém mais pensa duas vezes a respeito de Jenny Hill, isto é, não de forma mesquinha, mas simplesmente para imaginar como ela suporta quando Edward não está na cidade, que, até mesmo as pessoas mais compreensivas de Specter são obrigadas a admitir, é a maior parte do tempo.
Elas se perguntam: Ela não se sente sozinha? Como ela passa o tempo? Coisas assim.
Mas Jenny participa da vida da cidade. Ela ajuda a organizar eventos na escola e se encarrega da dança na feira organizada todos os anos no outono. Depois de ter passado tanto tempo no pântano, manter o gramado verde e bonito não é problema para ela, e o jardim parece simplesmente florescer sob seus cuidados. Mas há noites em que os vizinhos a escutam chorar com uma tristeza profunda, e, como se ele também pudesse ouvi-la, no dia seguinte ou no outro ele é visto dirigindo vagarosamente pela cidade, acenando para todo mundo, e parando finalmente na entrada da casinha, onde acena para a mulher que ama, que pode estar parada na varanda, limpando as mãos no avental, com um sorriso radiante no lindo rosto, sacudindo de leve a cabeça e dizendo um Olá baixinho, quase como se ele nunca tivesse partido.
O que, de fato, é como todo mundo passa a achar depois de algum tempo. Tantos anos se passaram desde que ele comprou aqueles primeiros terrenos nos arredores da cidade, e tantos anos mais desde que se tornou uma presença habitual, que as pessoas se acostumaram com ele. Seu aparecimento em Specter é fantástico um dia, cotidiano no outro. Ele possui cada centímetro de terra na cidade, e já percorreu cada centímetro dela sozinho. Já dormiu em todas as casas e visitou todas as lojas; sabe o nome de todas as pessoas e dos cachorros de todas as pessoas, e a idade das crianças, e quando alguém vai fazer aniversário. São as crianças, é claro, que crescem vendo Edward por lá, que primeiro o aceitam como aceitam qualquer outro fenômeno natural, como algo corriqueiro, e isso passa para os adultos. Ele fica um mês ausente, e então um dia chega. Aquele seu carro velho e vagaroso — que visão! Olá, Edward! Qualquer dia vou visitá-lo. Lembranças a Jenny. Vá até a loja. E assim passam-se muitos anos, e sua presença se torna tão comum e previsível que no fim é como se ele nunca tivesse partido, como se ele nunca tivesse chegado uma primeira vez. Para todo mundo daquela cidadezinha maravilhosa, do mais jovem ao mais velho, é como se Edward Bloom tivesse morado lá a vida inteira.

Em Specter, o que nunca aconteceu torna-se história. As pessoas se confundem, esquecem e recordam todas as coisas erradas. O que resta é ficção. Embora eles nunca se casem, Jenny se torna sua jovem esposa, Edward uma espécie de caixeiro-viajante. As pessoas gostam de imaginar como eles se conheceram. O dia em que ele apareceu na cidade tantos anos antes e a viu — onde? — com sua mãe no mercado? Edward não conseguiu tirar os olhos dela. Seguiu-a o dia inteiro. Ou então ela é a mulher — a meninazinha? — que pediu para lavar o carro dele por alguns centavos naquele dia e que, desde então, ficou de olho naquele homem e disse a todo mundo: Ele é meu. No dia em que fizer vinte anos, vou obrigá-lo a se casar comigo. E foi o que aconteceu, no dia em que ela fez vinte anos, encontrou Edward Bloom na varanda da loja campestre, balançando-se com Willard, Wiley e os outros, e embora eles nunca tivessem trocado uma frase, bastou ela estender a mão e ele a tomou. Saíram caminhando juntos, e na vez seguinte que os viram eles já eram marido e mulher, marido e mulher, e estavam prestes a se mudar para aquela casinha perfeita com jardim, perto do parque. Ou talvez...
Não importa; a história está sempre mudando. Todas as histórias mudam. Já que nenhuma delas é verdadeira, as lembranças dos moradores da cidade adquirem um matiz especial, eles falam alto de manhã quando, durante a noite, recordaram algo que nunca aconteceu, uma boa história para compartilhar com os outros, uma reviravolta, uma mentira engendrada diariamente. No calor de uma manhã de verão Willard poderia falar a respeito do dia — quem poderia esquecê-lo? — quando Edward era um garoto de apenas dez anos e o rio (desaparecido, seco, se você olhar ele não está mais lá) subiu tanto que todo mundo temeu que se caísse mais uma gota de chuva do céu negro a cidade seria inundada, mais uma gota de chuva naquele rio enlouquecido e Specter desapareceria. Ninguém poderia esquecer o modo como Edward começou a cantar — ele tinha uma voz calma e aguda — e a caminhar, cantando e se afastando da cidade. E a chuva o acompanhou. Não caiu mais nenhuma gota de chuva no rio, porque as nuvens o seguiram. Ele enfeitiçou a chuva e o sol saiu. Edward só voltou quando a chuva estava perto de Tennessee e Specter estava salva. Quem poderia esquecer-se disso?
Existe alguém mais bondoso com os bichos do que Edward Bloom?, alguém poderia dizer. Se existe, mostrem para mim. Eu quero ver. Porque eu me lembro de quando Edward era apenas um adolescente e já era muito bom para os animais, todos eles...
É claro que Edward não passa tanto tempo assim em Specter; dois dias por mês no máximo. Embora, na verdade, o novo e rico proprietário da cidade tenha chegado lá certa tarde com um carro enguiçado, depois de já ter vivido quarenta anos da sua vida, os moradores fazem o que sempre fizeram — inventam coisas. Mas agora, em vez das histórias simples de pescaria que os satisfaziam antes, é a história da vida que Edward Bloom nunca viveu em Specter que lhes interessa, uma vida que eles gostariam de ter experimentado, e a vida, finalmente, que passaram a viver em suas mentes: assim como Edward Bloom os reinventou, eles também o reinventaram.
E ele parece achar isso uma ótima ideia.
Isto é, ele não parece ligar.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

06/01/2024

De quando ele tem um sonho


Meu pai moribundo sonha que está morrendo. E esse sonho, ao mesmo tempo, é sobre mim.
É assim: quando se espalhou a notícia da doença de meu pai, pessoas enlutadas começaram a se juntar no quintal, primeiro só algumas, mas logo havia muitas, uma dúzia, depois duas, depois meia centena de pessoas, todas paradas no quintal, pisando nos canteiros, amassando a grama, espremendo-se sob o abrigo de automóvel quando chovia. Ombro a ombro no sonho de meu pai elas balançavam o corpo e gemiam, esperando notícias de sua recuperação. Além disso, toda vez que avistavam a figura dele passando em frente à janela do banheiro, gritavam e aplaudiam. Minha mãe e eu observávamos da janela da sala, sem saber o que fazer. Algumas daquelas pessoas pareciam pobres. Usavam roupas velhas, rasgadas, e seu rosto era coberto de pelos. Elas deixavam minha mãe inquieta; ela ficava mexendo nos botões de sua blusa enquanto as observava olhando tristemente para as janelas do segundo andar. Mas havia outras pessoas que pareciam ter deixado de lado tarefas importantes para vir chorar por meu pai. Tinham tirado suas gravatas, enfiando-as nos bolsos, seus sapatos elegantes estavam cheios de lama, e algumas tinham telefones celulares, que usavam para comunicar os acontecimentos àqueles que não podiam estar ali. Homens e mulheres, jovens e velhos, todos contemplavam a luz na janela do quarto de meu pai, esperando. Não aconteceu nada por um longo tempo. Quer dizer, era simplesmente a nossa vida, com as pessoas lá fora no quintal. Mas aquilo ficou demais, e após algumas semanas minha mãe me disse para pedir às pessoas que fossem embora.
E eu fui. Mas naquela altura elas estavam entrincheiradas. Um bufê rudimentar tinha sido organizado debaixo da magnólia, onde serviam pão, chili e brócolis cozidos. Ficavam incomodando minha mãe atrás de garfos e colheres, que eram devolvidos ainda sujos de chili, já frio e difícil de limpar. Uma pequena barraca tinha aparecido no gramado onde eu costumava jogar futebol com outras crianças da vizinhança, e correu o boato de que um bebê tinha nascido ali. Um dos homens de negócios com telefone celular estabelecera um pequeno centro de informações num toco de árvore, e as pessoas o procuravam quando queriam enviar mensagens para seus entes queridos ou saber se havia alguma notícia de meu pai.
Contudo, no meio daquela confusão, havia um homem mais velho, sentado numa espreguiçadeira, supervisionando tudo. Eu nunca o tinha visto antes, que eu soubesse (pelo menos era assim no sonho de meu pai), mas ele parecia um tanto familiar — um estranho, mas não um desconhecido para mim. Ocasionalmente, alguém se aproximava dele e dizia algo em seu ouvido. Ele escutava pensativamente, refletia por um momento sobre o que fora dito, e então assentia ou negava com a cabeça. Ele tinha uma barba branca espessa e óculos, e usava um chapéu de pescador, no qual estavam pregadas diversas iscas feitas à mão. E assim, como ele parecia ser uma espécie de líder, fui falar primeiro com ele.
Havia alguém cochichando com o homem quando me aproximei, e quando abri a boca para falar, ele levantou a mão para que me calasse. Depois que o mensageiro terminou de falar, o velho sacudiu negativamente a cabeça e ele se afastou rapidamente. Então o velho baixou a mão e olhou para mim.
— Olá — eu disse. — Eu sou...
— Eu sei quem você é — ele disse. Sua voz era suave e sonora, calorosa e distante ao mesmo tempo. — Você é o filho dele.
— Isso mesmo.
Olhamos um para o outro e eu tentei recordar um nome, pois sem dúvida já tínhamos nos encontrado antes em algum lugar. Mas não consegui.
— Você tem algum recado para nós?
Ele me observou com atenção, quase me agarrando com o olhar. Era um homem muito imponente, meu pai me disse.
— Nenhum — falei. — Isto é, ele está na mesma, eu acho.
— Na mesma — o homem disse, pesando cuidadosamente as palavras como que para tirar delas algum significado especial. — Então ele ainda está nadando?
— Sim. Todo dia. Ele adora nadar.
— Isso é bom — ele disse. E de repente ergueu a voz e gritou: — Ele ainda está nadando! — E um grito de júbilo ergueu-se da multidão. O rosto do homem estava radiante. Por alguns momentos ele inspirou profundamente e pareceu refletir. Então tornou a olhar para mim. — Mas você veio nos dizer uma outra coisa, não veio?
— Sim. É só que, eu sei que a intenção de vocês é boa, e vocês são todos muito simpáticos. Mas sinto dizer que...
— Nós temos que ir embora — falou calmamente. — Você quer que nós nos retiremos.
— Sim. Sinto muito.
O velho pensou a respeito do que eu tinha dito. Pareceu assentir de leve, como se estivesse abalado com a notícia. Foi essa cena que meu pai viu em seu sonho, como que, ele disse, de muito longe, como se ele já estivesse morto.
— Vai ser difícil partir — o velho disse. — Essas pessoas... elas realmente se importam. Vão ficar perdidas sem este lugar. Não por muito tempo, é claro. A vida tem um jeito de seguir em frente por si só. Mas a curto prazo vai ser duro. Sua mãe...
— Isso a deixa nervosa — eu disse. — Todas essas pessoas no quintal, dia e noite. O senhor pode compreender isso.
— É claro. E tem a bagunça também. Nós destruímos quase completamente o jardim.
— Isso também.
— Não se preocupe — ele disse, de um jeito que me fez acreditar. — Vamos deixá-lo do jeito que o encontramos.
— Ela vai ficar contente.
Uma mulher veio correndo, agarrou minha camisa e esfregou o rosto em prantos nela, como que para determinar minha corporalidade.
— William Bloom? — ela disse, e me lançou um olhar suplicante. Era uma mulher pequena, com pulsos finos. — Você é William Bloom, não é?
— Sim — disse, recuando um ou dois passos, mas ela continuou agarrada à minha camisa. — Sou.
— Dê isto a seu pai. — Ela enfiou em minha mão um travesseiro de seda em miniatura. — Ervas curativas num travesseirinho. Fui eu mesma que fiz. Talvez elas ajudem.
— Obrigado — eu disse. — Vou fazer chegar até ele.
— Ele salvou minha vida, sabe... Houve um grande incêndio. Ele arriscou a própria vida para salvar a minha. E hoje... hoje eu estou aqui.
— Não por muito tempo — o velho disse. — Ele pediu para nós irmos embora.
— Edward? — ela disse. — Edward Bloom pediu para irmos embora?
— Não. A esposa dele e o filho.
Ela assentiu.
— Como você disse que aconteceria. Que o filho viria até nós e pediria para irmos embora. Exatamente como você disse.
— Minha mãe me pediu para fazer isso — falei, sentindo-me frustrado com aquela conversa misteriosa e com a insinuação maliciosa. — Isso não é algo que me agrade fazer.
E de repente a multidão soltou uma exclamação de espanto. Todo mundo estava olhando para as janelas do segundo andar, onde meu pai estava parado, acenando para as pessoas em seu sonho. Ele usava seu roupão amarelo, sorrindo para elas, de vez em quando reconhecendo alguém na multidão e apontando, erguendo as sobrancelhas, e murmurando uma ou duas palavras. “Você está bem? Que bom ver você!” Passando em seguida para outra pessoa. Todo mundo acenava, gritava, aplaudia, e então, depois do que pareceu ser uma visita de proporções muito breves, acenou mais uma vez, virou-se e desapareceu na escuridão do quarto.
— Bem — o velho disse, sorrindo —, isso foi formidável, não foi? Ele parecia bem. Parecia muito bem.
— Vocês estão cuidando bem dele — uma mulher disse.
— Continuem assim!
— Devo tudo a seu pai! — alguém gritou para mim de baixo da magnólia, e o que se seguiu foi uma cacofonia de vozes, balbuciando, contando alguma história sobre Edward Bloom e suas boas ações. Senti-me cercado por todas aquelas palavras. Depois me senti de fato cercado: uma fila tinha se formado à minha volta, as pessoas falando ao mesmo tempo, até o velho levantar a mão e as fazer calar, e então elas recuaram.
— Está vendo — o velho disse. — Nós todos temos histórias, assim como você. As diversas formas com que ele nos tocou, nos ajudou, nos deu empregos, nos emprestou dinheiro, nos vendeu por atacado. Montes de histórias, grandes e pequenas. Todas elas se somam. No fim da vida, tudo se soma. É por isso que estamos aqui, William. Nós somos parte dele, de quem ele é, assim como ele é parte de nós. Você ainda não entende, não é?
Eu não entendia. Mas ao olhar para o homem, e ele me fitar de volta, no sonho de meu pai eu me lembrei de onde o tínhamos encontrado antes.
— E o que foi que o meu pai fez pelo senhor? — perguntei, e o velho sorriu.
— Ele me fez rir — ele disse.
E eu soube. No sonho, meu pai me disse, eu soube. E assim atravessei o jardim e voltei para o calor da minha casa.
— Por que o elefante tem tromba? — Ouvi o velho berrar na sua voz forte e profunda, no momento em que eu estava fechando a porta. — Porque ele não tem porta-luvas — respondi junto com ele.
Seguiu-se uma grande gargalhada.
Assim termina o sonho de meu pai acerca de sua morte.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

31/12/2023

Seu maior poder


Quando Edward Bloom deixou Ashland, prometeu a si mesmo que ia ver o mundo, e, assim, parecia estar sempre em movimento, e nunca em um mesmo lugar por muito tempo. Não havia um continente que seu pé não houvesse tocado, um país que ele não tivesse visitado, uma grande cidade em que não tivesse um amigo. Ele era um verdadeiro cidadão do mundo. Fazia aparições rápidas mas heroicas em minha vida, salvando-a quando podia, incentivando-me na direção da vida adulta. Entretanto, era levado por forças mais poderosas do que ele; estava, como dizia, cavalgando o tigre.
Mas gostava de me fazer rir. Era como ele queria lembrar-se de mim e como queria ser lembrado. De todos os seus incríveis poderes, esse era talvez o mais extraordinário: a qualquer hora, com uma ninharia, ele conseguia realmente me desconcertar.

Havia um homem — vamos chamá-lo de Roger — que teve que sair da cidade a trabalho, e então deixou o gato aos cuidados de um vizinho. Ora, o homem amava seu gato, amava o gato acima de todas as coisas, de tal forma que na mesma noite do dia em que viajou ligou para o vizinho para perguntar sobre a saúde e o estado emocional de seu querido felino. Ele perguntou ao vizinho:
— Como está o meu doce e precioso gatinho? Diga-me, vizinho, por favor.
E o vizinho disse:
— Sinto muito ter que lhe dizer isto, Roger. Mas seu gato está morto. Foi atropelado por um carro. Morreu instantaneamente. Sinto muito.
Roger ficou chocado! Não só por saber da morte do gato — como se isso já não fosse o bastante! —, mas também pela forma como a notícia lhe fora dada.
Então ele disse, ele disse:
— Não é assim que se dá uma notícia tão terrível como essa! Quando uma coisa dessas acontece, você dá a notícia devagar, aos poucos. Você prepara a pessoa! Por exemplo, quando liguei esta noite, você deveria ter dito: “O seu gato subiu no telhado.” Aí, da próxima vez que eu ligasse, você diria: “O gato ainda está no telhado, não quer descer e parece bem doente.” Então, da outra vez que eu ligasse, você poderia me dizer que o gato caiu do telhado e estava internado. Finalmente, quando eu ligasse de novo, você me diria, com uma voz abalada, que ele tinha morrido. Entendeu?
— Entendi — disse o vizinho. — Desculpe-me.
Então, três dias depois Roger tornou a ligar para o vizinho, porque o vizinho ainda estava vigiando a casa, checando sua correspondência et cetera, e Roger queria saber se tinha acontecido algo importante.
— E então? — perguntou Roger.
— Bem, é a respeito do seu pai.
— Meu pai! — exclamou. — Meu pai! O que houve com o meu pai?
— Seu pai — disse o vizinho — subiu no telhado...
Meu pai subiu no telhado. É assim que gosto de me lembrar dele às vezes. Bem vestido num terno escuro e de sapatos pretos, escorregadios, ele está olhando para a esquerda, para a direita, olhando até onde sua vista alcança. Aí, olhando para baixo, ele me vê, e assim que começa a cair, ele sorri e pisca o olho para mim. Fica olhando para mim o tempo todo enquanto cai — sorrindo, misterioso, mítico, uma poção desconhecida: meu pai.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

21/12/2023

Sua imortalidade


Meu pai me mostrou indícios precoces de que viveria para sempre.
Um dia ele caiu do telhado. O jardineiro estava limpando as folhas da calha e foi para casa sem terminar o serviço, deixando a escada encostada na casa. Meu pai chegou do trabalho, viu a escada e subiu. Queria ver como era a vista lá de cima. Disse que ficou curioso em saber se podia ou não enxergar o prédio onde trabalhava do alto de nossa casa.
Eu tinha nove anos de idade na época e sabia do perigo. Disse a ele para não fazer aquilo. Disse que era perigoso. Ele me olhou longamente e deu uma piscadela, uma piscadela que podia significar o que eu quisesse.
Então subiu na escada. Foi provavelmente a primeira escada que ele subiu em dez anos, mas isso eu só posso supor. Talvez ele subisse em escadas o tempo todo. Eu não saberia dizer.
Depois de subir, ele ficou em pé ao lado da chaminé, andando em círculos e olhando para o sul, o norte, o leste e o oeste, atrás de algum sinal de seu prédio. Ele estava bonito lá em cima, vestido com seu terno escuro e sapatos pretos bem engraxados. Parecia ter finalmente encontrado o lugar onde podia ser melhor exposto: no alto de uma casa de dois andares. Ele andou — passeou — para cima e para baixo no telhado, com uma das mãos acima dos olhos como um capitão de navio procurando terra firme. Mas não conseguiu vê-lo. Seu prédio permanecia invisível ao longe.
Então, de repente, ele caiu, e eu, eu o vi cair. Vi meu pai caindo do telhado de sua própria casa. Aconteceu tão depressa que não sei se ele tropeçou ou escorregou ou o quê — pelo que sei ele pode até ter pulado —, mas caiu de dois andares de altura em cima de uma moita. Até o último segundo fiquei esperando que ele criasse asas, e quando isso não aconteceu, quando não apareceu nenhuma asa, soube que a queda o tinha matado. Eu tinha tanta certeza de que estava morto que nem corri para perto dele para ver o que poderia ser feito para salvá-lo, para ressuscitá-lo, possivelmente.
Caminhei, devagar, até o corpo. Ele estava completamente imóvel, sem respirar. Em seu rosto havia aquela expressão de sono beatífico que associamos com a partida deste mundo. Uma expressão tranquila. Olhei fixamente para ele, memorizando o rosto de meu pai, seu rosto na morte — quando de repente o rosto se moveu, ele piscou para mim, riu e disse:
— Enganei você, hein?

Daniel Wallace, in Peixe Grande

16/12/2023

Como ele salvou minha vida



Edward Bloom salvou minha vida duas vezes. Que eu saiba.
A primeira vez foi quando eu tinha cinco anos e estava brincando no fosso atrás da nossa casa. Meu pai sempre me dizia: “Fique longe do fosso, William.” Ele me dizia isso sempre, como se soubesse que algo poderia acontecer, que talvez ele fosse obrigado a salvar a minha vida um dia. Para mim, aquilo não era um fosso, e sim um leito de rio antigo, quase seco, cheio de pedras pré-históricas, achatadas e alisadas pela água que corria sobre elas. A única água que havia lá agora era uma corrente constante, quase desprezível, que não tinha força nem para arrastar um galho.
Era lá que eu brincava, depois de ter escorregado pelo barro vermelho do aterro, às vezes poucos minutos depois de meu pai ter dito: “Fique longe do fosso, William.” A visão que tinha de mim mesmo, sozinho entre as paredes vermelhas e frescas, era suficientemente poderosa para eu desobedecer à sua ordem. No meu esconderijo secreto, eu me agachava, revirando as pedras, guardando as melhores no bolso, as brancas e as pretas e brilhantes com manchas brancas. Eu estava tão distraído lá naquele dia que não vi a parede de água vindo na minha direção, como se sua missão fosse arrastar-me dali com ela. Eu não a vi e nem ouvi. Estava agachado, de costas, examinando as pedras. E se não tivesse sido por meu pai, que de algum modo soube o que estava acontecendo antes mesmo de acontecer, eu teria mesmo ido embora junto com a água. Mas ele estava lá, e me puxou pela ponta da camisa até a margem, onde nós dois ficamos vendo passar um rio onde antes não havia nenhum rio, a espuma respingando em nossos pés. Finalmente, ele olhou para mim.
— Eu disse para você ficar longe do fosso.
— Que fosso? — respondi.

Na segunda vez que meu pai salvou minha vida tínhamos acabado de nos mudar para uma casa nova em Mayfair Drive. O antigo dono deixara um balanço, e enquanto os carregadores transportavam nossos sofás velhos e a mesa de jantar, resolvi ver que altura aquele balanço alcançava. Dei um impulso com toda a força, sacudindo o balanço. Infelizmente, o antigo dono não tinha deixado o balanço para trás; eles simplesmente ainda não o tinham levado. Haviam soltado os pés do cimento que o segurava no chão, então, ao balançar cada vez mais alto, eu estava na verdade carregando comigo o peso da armação, até que, ao chegar no ponto mais alto do arco, a armação tombou para a frente, projetando-me para fora do balanço na direção de uma cerca branca na qual eu certamente teria sido empalado. De repente, senti meu pai perto de mim; foi como se ele também voasse, e nós dois estivéssemos caindo juntos. Seus braços me abraçaram como uma capa, e eu caí no chão a seu lado. Ele tinha me arrancado do Céu e me depositado em segurança na Terra.

Daniel Wallace, in Peixe Grande

12/12/2023

Como ele me viu

A princípio eu era inexpressivo — pequeno e cor-de-rosa, indefeso, sem nenhuma habilidade. Não sabia nem me virar na cama. Quando meu pai era um menino, uma criança, um bebê, tinha trazido para o mundo mais do que eu trouxe. Os tempos eram outros, e se exigia mais de todo mundo, até dos bebês. Até os bebês tinham que fazer força.
Mas sendo um bebê eu não sabia nada sobre aqueles tempos difíceis. Nascido num hospital de verdade, com os melhores cuidados médicos e todo tipo de medicamentos para minha mãe, eu simplesmente não sabia como era um parto antigamente. Embora isso não mudasse nada: Edward me amou. De verdade. Ele sempre quisera um menino e lá estava eu. Tinha esperado mais, é claro, de minha chegada. Um brilho, um clarão, talvez até um halo de algum tipo. Aquele sentimento místico de completude. Mas nada disso aconteceu. Eu era apenas um bebê, como qualquer outro — exceto, é claro, pelo fato de pertencer a ele, e isso me tornava especial. Eu chorava um bocado e dormia um bocado, e só; meu repertório era muito limitado, embora houvesse aqueles momentos de percepção e felicidade em que eu olhava para meu pai, deitado em seu colo, com os olhos brilhando, como se ele fosse um deus — o que, de certa forma, ele era. Ou divino, pelo menos, tendo criado esta vida, tendo plantado a semente mágica. Naqueles momentos, ele podia ver o quanto eu era inteligente, o quanto eu era esperto, ele conseguia visualizar meu potencial. Muita coisa era possível.
E então eu começava de novo a chorar, ou minha fralda precisava ser trocada, e ele tinha que me devolver para minha mãe, que ajeitava aquilo tudo e me amamentava, enquanto Edward ficava olhando impotente da sua cadeira, subitamente cansado, terrivelmente cansado do barulho, das noites sem dormir, do cheiro. Cansado da esposa cansada. Portanto, às vezes ele sentia saudades da vida antiga, da liberdade, do tempo para refletir — mas isso o fazia diferente de qualquer outro homem? Era diferente com as mulheres, elas foram feitas para criar filhos, tinham o tipo de concentração para isso. Os homens tinham que sair de casa e trabalhar, sempre fora assim, desde o tempo dos homens das cavernas e era assim até hoje. Os homens eram divididos; eles tinham que ser duas pessoas, uma em casa e outra fora de casa, enquanto a mãe tinha que ser só uma.
Naquelas primeiras semanas, ele levou seu papel de pai muito a sério. Todo mundo notou: Edward tinha mudado. Estava mais pensativo, mais profundo, mais filosófico. Enquanto minha mãe cuidava das coisas do dia a dia, ele ampliava sua visão. Fez uma lista das virtudes que possuía e que queria passar para mim:

perseverança
ambição
personalidade
otimismo
força
inteligência
imaginação

Escreveu tudo isso nas costas de um saco de papel. Virtudes que ele tivera que descobrir sozinho e que poderia compartilhar comigo, de graça. De repente, percebeu que isso era uma grande oportunidade, que o fato de eu ter chegado de mãos vazias era na realidade uma bênção. Olhando dentro dos meus olhos, ele via um grande vazio, um desejo de ser preenchido. E essa seria sua tarefa como pai: preencher-me.
O que fazia nos fins de semana. Ele não passava muito tempo em casa durante a semana, porque estava sempre na estrada, vendendo, indo atrás do dinheiro — trabalhando. Ensinando-me pelo exemplo. Existiria algum emprego em que um homem pudesse ganhar bem sem viajar, sem perambular pelas estradas, dormindo em hotéis e comendo às pressas em quentinhas? Possivelmente. Mas não servia para meu pai. A simples ideia de voltar para casa todos os dias na mesma hora já o deixava um tanto nauseado. Por mais que amasse a mulher e o filho, ele tinha dificuldade em suportar tanto amor. Ficar sozinho era solitário, mas havia uma solidão ainda maior, às vezes, quando ele estava cercado por um monte de gente, exigindo-lhe constantemente. Ele precisava de uma folga.
Quando voltava para casa, sentia-se um estranho. Tudo tinha mudado. Sua mulher tinha rearrumado a sala, comprado um vestido novo, feito novos amigos, lido livros esquisitos, que colocava acintosamente na mesinha de cabeceira. E eu crescia tão depressa. Sua mulher não percebia isso com tanta clareza, mas ele sim. Quando voltava para casa, ele via aquele crescimento inacreditável, e ao vê-lo percebia o quanto isto o tornava menor, em comparação. E de certa forma era verdade: à medida que eu crescia, ele encolhia. E de acordo com essa lógica, um dia eu me tornaria um gigante, e Edward se tornaria um nada, ficaria invisível para o mundo.
Antes que isso pudesse acontecer, no entanto, antes de desaparecer, ele era um pai, e fazia o que um pai devia fazer. Ele brincava de pegar, comprou a bicicleta. Arrumava o lanche para os piqueniques na montanha de onde se via a cidade, a grande cidade tão promissora, de onde ele podia avistar o lugar onde pela primeira vez fez isso e aquilo, e onde fechou seu primeiro negócio, e onde beijou aquela moça bonita, e todos os triunfos e glórias de sua curta vida. Era isso que ele via quando ia lá, não os prédios ou a linha do horizonte, não os bosques ou o hospital onde estavam construindo uma nova ala. Não: era sua história, a história de sua vida adulta que se estendia diante dele como uma paisagem, e ele me levava lá, levantava-me no colo para que eu pudesse ver e me dizia:
— Algum dia, filho, tudo isto será seu.

Daniel Wallace, in Peixe Grande