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11/10/2023

Será | Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, 1984



Inspirada na urgência do movimento punk, com um discurso político contundente e libertário, a Legião Urbana se tornou uma das bandas mais representativas do rock brasileiro dos anos 1980. Sucesso absoluto desde a estreia em disco, o grupo foi adotado e adorado como um porta-voz crítico da autodenominada geração Coca-Cola. Mas, além da vertente de crítica e combate, muito presente nos discos iniciais, o lado lírico e existencialista de Renato Russo foi um fator fundamental para o grupo avançar além dos limites do rock.
Faixa de abertura do arrasador disco de estreia, em novembro de 1984, “Será” tem letra de Renato Russo (1960-1996) e música dividida com o guitarrista Dado Villa-Lobos (1965) e o baterista Marcelo Bonfá (1965). Sucesso que também continua como o principal exemplo do crossover conseguido pela Legião: no início dos anos 1990, seria regravada tanto por Simone quanto pelo grupo de pagode Raça Negra.
Primeiro sucesso da Legião nas rádios, a canção permitia diversas associações, como um protesto contra a sociedade opressiva da época em versos como “Tire suas mãos de mim” e “Não é me dominando assim”, mas, antes de tudo, era uma poderosa canção de amor, tentando usar da razão para sobreviver à paixão avassaladora que o consome.
Como Renato revelou anos depois, entre as inspirações para “Será” estava a leitura de O médico e o monstro, o clássico de Robert Louis Stevenson do século XIX. A frase “Nos perderemos entre monstros / da nossa própria criação?” mostra que cada um de nós tem dentro de si tanto Dr. Jekyll quanto Mr. Hyde.
Duas décadas após a morte de Renato – aos 36 anos, em outubro de 1996 –, a dupla Villa-Lobos e Bonfá retomou a Legião, voltando aos palcos para o encanto de velhos e novos fãs. E, nos shows, “Será” tem lugar certo.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

01/04/2012

Os Anjos, de Legião Urbana



Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar
Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá
Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
Dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça antes de levar ao forno temperar
Com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça
Hoje não dá
Hoje não dá
Está um dia tão bonito lá fora
E eu quero brincar
Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha asa quebrada
E descansar
Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou do amor
A falta que ficou.