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12/12/2023

O que é arte? | Capítulo XIX

Les Halles (1889), de León Augustin Lhermitte

As pessoas falam da arte do futuro referindo-se a algo novo, especialmente refinado, que supostamente se desenvolverá a partir da arte de uma só classe da sociedade, que hoje é considerada a arte mais elevada. Mas essa arte do futuro não pode ser e não será. A arte exclusiva das classes superiores do mundo cristão chegou a um beco sem saída. Não há como ir mais longe na rota que ela seguiu. Essa arte, que se separou um dia da sua principal exigência (a de ser orientada pela consciência religiosa), tornando-se cada vez mais exclusiva e, portanto, cada vez mais pervertida, não chegou a nada. A arte do futuro não será uma continuação da de hoje, mas emergirá sobre novos princípios, completamente diferentes, sem nada em comum com aqueles pelos quais se orienta a atual arte moderna da alta classe.
A arte do futuro — isto é, aquela parte que será escolhida da arte em geral espalhada pela humanidade — consistirá não na transmissão de sentimentos acessíveis somente a alguns contemplados das classes ricas, como acontece agora, mas será aquela que realiza a mais alta consciência religiosa das pessoas do nosso tempo. Somente essas serão consideradas obras de arte que transmitem sentimentos que atraem as pessoas em direção à união fraterna, ou sentimentos que sejam capazes de unir a todos. Apenas essa arte será escolhida, permitida, aprovada e disseminada. Mas a que transmite sentimentos oriundos de doutrinas religiosas obsoletas, ultrapassadas — arte da Igreja, arte patriótica, sensual, arte que transmite sentimentos de medo supersticioso, orgulho, vaidade e admiração de heróis, que excita a sensualidade ou o amor exclusivo da própria nação —, será considerada ruim e prejudicial, e será condenada e desprezada pela opinião pública. Todo o resto da arte, que transmite sentimentos acessíveis somente a alguns, será considerado desimportante e não será nem condenado nem aprovado. E, no geral, não será uma classe restrita que apreciará a arte, mas todo o povo; de tal forma que, para uma obra ser reconhecida como boa e ser aprovada e disseminada, ela terá que satisfazer as exigências não de alguns eleitos que vivem em condições idênticas e, frequentemente, antinaturais, mas de todo o povo, toda a grande massa que vive da condição natural de seu trabalho.
E os artistas que produzem arte não serão mais, como hoje, somente alguns das classes privilegiadas, ou próximos a elas, escolhidos de uma pequena porção da população, mas todos os representantes talentosos do povo que mostrem uma capacidade para a atividade artística e uma inclinação para ela.
A atividade artística será então acessível a todos. Ela se tornará compreensível a cada pessoa simples porque, primeiro, a arte do futuro não exigirá aquela técnica complexa que desfigura as obras de nossa época e requer grande esforço e tempo para ser assimilada, mas, ao contrário, exigirá clareza, simplicidade e brevidade — condições adquiridas pela educação do gosto e não por exercícios mecânicos. Em segundo lugar, a atividade artística se tornará acessível a todos porque, em vez de as escolas profissionais existentes, frequentadas por poucos, se ocuparem com a educação artística, será nas escolas públicas primárias que todos estudarão música e pintura (canto e desenho), juntamente com leitura e escrita, de forma que cada um, ao adquirir os primeiros princípios da pintura e da música, possa, caso sinta uma inclinação por uma dessas artes, aperfeiçoar-se nela; e, em terceiro lugar, porque todas as forças hoje gastas em arte falsa serão empregadas em difundir a verdadeira arte por todo o povo.
Supõe-se que, a menos que haja escolas especiais, a técnica da arte se enfraquecerá. Ela sem dúvida se enfraquecerá se entendemos por técnica essas complicações que são vistas hoje como méritos. Mas se entendermos por técnica a clareza, beleza, simplicidade e economia, ela, além de se fortalecer, como mostra toda a arte popular, vai se aperfeiçoar cem vezes mais, mesmo que não haja escolas profissionais, mesmo que os princípios do desenho e da música não sejam ensinados nas escolas públicas. Ela se aperfeiçoará porque todos os gênios hoje escondidos entre o povo participarão da arte e, sem necessitar de complicado treinamento técnico, como agora, e tendo exemplos de verdadeira arte diante deles, seguirão pelos caminhos da arte genuína.
Mesmo hoje, o verdadeiro artista não aprende na escola, mas na vida, pelos exemplos dos grandes mestres. E quando as pessoas mais talentosas do povo forem participantes da arte e houver mais desses exemplos, e estes forem mais e mais acessíveis, o treinamento de escola, do qual os futuros artistas estarão privados, será cem vezes compensado pelo treinamento que se vai obter dos numerosos exemplos de boa arte difundidos na sociedade.
Essa será uma diferença entre a arte do futuro e a do presente. Outra diferença: a arte do futuro não será produzida por artistas profissionais que são remunerados e que não se ocupam com nada mais além disso. A arte do futuro será produzida por todos, que se ocuparão dela quando sentirem necessidade dessa atividade.
Pensa-se, na nossa sociedade, que um artista se empenhará mais se estiver materialmente seguro. Essa opinião prova mais uma vez e plenamente, se ainda há necessidade de prová-lo, que o que é considerado arte entre nós não é arte, mas meramente um simulacro dela. Está certo que a divisão do trabalho é muito vantajosa para a produção de botas ou de pão, que um sapateiro ou um padeiro que não precise fazer o jantar ou cortar lenha para si mesmo fará mais botas ou pão do que se ele tiver que providenciar seu próprio jantar e lenha para o fogo. Porém, a arte não é um ofício, é a transmissão de um sentimento experimentado pelo artista. E um sentimento só pode nascer em um homem se este vive a vida multifacetada que é natural e adequada para os seres humanos. E eis o motivo por que dar aos artistas segurança quanto a suas necessidades materiais é a condição mais prejudicial para a produtividade artística: porque ela o libera da condição que é própria a todos os homens, a de lutar com a natureza para sustentar sua vida e a de outras pessoas, e, portanto, o priva da oportunidade e da possibilidade de experimentar sentimentos importantes próprios dos seres humanos. Nenhuma situação é mais prejudicial para a produtividade artística do que a de total segurança e luxo — situação na qual geralmente vivem os artistas em nossa sociedade.
O artista do futuro viverá tal como qualquer ser humano, ganhando seu sustento em algum tipo de trabalho. Ele lutará para dar o fruto daquela suprema força espiritual que passa através dele ao maior número possível de pessoas, porque essa transmissão é sua alegria e sua recompensa. O artista do futuro, cuja felicidade consistirá na mais ampla disseminação de suas obras, nem mesmo entenderá como é possível fazer seu trabalho em troca de determinado pagamento.
Até que os vendilhões sejam expulsos, o templo da arte não será um templo. A arte do futuro os expulsará.
Assim, o conteúdo da arte do futuro, como imagino, será completamente diferente do de hoje. Não consistirá na expressão de sentimentos exclusivos — vaidade, tédio, saciedade e sensualidade em todas as formas possíveis, acessíveis e interessantes apenas para aqueles que se liberaram do trabalho próprio dos seres humanos —, mas, sim, na expressão de sentimentos experimentados por um homem comum, sentimentos os quais vêm da consciência religiosa da época — acessíveis a todos, sem exceção.
Para as pessoas do nosso círculo, que não conhecem os sentimentos que deverão compor o conteúdo da arte do futuro, parece que esse conteúdo é muito pobre em comparação com as sutilezas da arte exclusiva com a qual estão ocupadas hoje. “O que pode ser expressado de novo na esfera dos sentimentos cristãos de amor ao próximo? Os sentimentos acessíveis a todos são tão insignificantes e monótonos”, pensam eles. E, no entanto, em nossa época, os únicos sentimentos que podem realmente ser novos são os religiosos cristãos ou aqueles que são acessíveis a todos. Os sentimentos que vêm da consciência religiosa de nosso tempo são infinitamente novos e variados; só que não, como pensam alguns, no sentido de retratar Cristo e episódios dos Evangelhos, ou repetir de uma nova forma as verdades cristãs de unidade, fraternidade, igualdade e amor, mas no sentido de que todos os fenômenos mais antigos e ordinários da vida, conhecidos há muito por todos os lados, evocam os sentimentos mais novos, inesperados e tocantes, assim que uma pessoa os considera de um ponto de vista cristão.
O que pode ser mais antigo do que as relações entre esposos, de pais com filhos, de filhos com pais, as relações das pessoas com seus compatriotas, com estrangeiros, com ataque, defesa, propriedade, terra, animais? Mas, tão logo se olham esses fenômenos de um ponto de vista cristão, imediatamente se levantam sentimentos mais novos, complexos, tocantes e infinitamente variados.
Da mesma maneira, não há um estreitamento, mas uma ampliação da área de conteúdo para a arte do futuro que irá transmitir os sentimentos mais simples e cotidianos, acessíveis a todos. Na nossa arte, o que é considerado digno de ser transmitido é somente a expressão de sentimentos próprios de uma determinada classe, e isso com a condição de que seja transmitida da maneira mais refinada, inacessível à maioria; mas todo o enorme campo da arte infantil popular — piadas, provérbios, adivinhações, canções, danças, jogos infantis, mímica — não é considerado um objeto digno da arte.
O artista do futuro entenderá que inventar uma historinha, uma canção tocante, uma cançoneta, uma charada divertida, uma brincadeira engraçada, fazer um desenho que dará alegria a dezenas de gerações ou a milhões de crianças e adultos é incomparavelmente mais importante e frutífero do que escrever um romance ou uma sinfonia ou pintar um quadro que distrairá por curto tempo alguns membros da classe rica e depois será esquecido para sempre. O campo dessa arte dos sentimentos simples e acessíveis é enorme e até agora quase intocado.
Assim, a arte do futuro não será empobrecida. Ao contrário, será infinitamente enriquecida de conteúdo. E dessa mesma maneira, a forma da arte do futuro não será inferior à forma da arte de hoje, será, sim, incomparavelmente superior — prevalecerá, em detrimento da técnica refinada e complexa, o talento do artista em transmitir de forma breve, simples e clara, sem supérfluos, o sentimento que experimentou.
Lembro-me de haver conversado certa vez com um astrônomo famoso que dava palestras públicas sobre a análise espectral das estrelas da Via Láctea e de lhe dizer que bom seria se ele, com seu conhecimento e competência, desse uma palestra sobre cosmografia, na qual falasse somente dos movimentos mais conhecidos da Terra, porque entre os seus ouvintes certamente havia muitas pessoas, especialmente mulheres, que não sabiam bem por que havia dia e noite, verão e inverno. O sábio astrônomo replicou com um sorriso: “Sim, seria uma coisa muito boa, mas é muito difícil. Discursar sobre a análise espectral das estrelas da Via Láctea é muito mais fácil.”
Ocorre o mesmo na arte: escrever um longo poema sobre o tempo de Cleópatra, ou pintar um quadro de Nero incendiando Roma, ou compor uma sinfonia no espírito de Brahms ou Richard Strauss, ou uma ópera no espírito de Wagner, é muito mais fácil do que contar uma história simples sem nada de supérfluo e, ao mesmo tempo, de um modo tal que transmita os sentimentos do narrador, ou de fazer um desenho a lápis que emocione o observador ou o faça rir, ou escrever quatro compassos de uma melodia simples e clara que transmita um estado de espírito e seja lembrada pelos que a ouviram. “É impossível para nós, agora, com o nosso desenvolvimento, voltar aos meios primitivos”, diz o artista dos nossos dias. “É impossível para nós escrever histórias como a de José, o Sonhador, ou a Odisseia, fazer estátuas como a Vênus de Milo, escrever músicas como as canções populares.”
E de fato é impossível para os artistas da nossa época, mas não para os do futuro, que não conhecerá toda a depravação do progresso técnico que oculta a ausência de conteúdo, e que, por não ser um profissional e não ter remuneração por suas atividades, produzirá arte somente quando sentir uma necessidade interior irrepresável.
Assim, a arte do futuro será completamente diferente daquilo que hoje é considerado arte, tanto em conteúdo quanto em forma. Ela conterá somente aqueles sentimentos que atraem as pessoas em direção à união. Quanto à forma, ela será acessível a todos. E, portanto, o ideal de perfeição no futuro não será a exclusividade de um sentimento compreensível somente para alguns, mas, ao contrário, será a sua universalidade. Esse ideal não será embaraçamento, obscuridade e complexidade, como hoje, mas brevidade, clareza e simplicidade de expressão. E, apenas quando a arte se tornar assim, ela cessará de distrair e corromper as pessoas, exigindo o desperdício de suas melhores forças, como faz agora, e se tornará o que deveria ser — um meio de transferir a consciência religiosa cristã do campo da mente e da razão para o campo do sentimento, colocando desse modo as pessoas mais próximas, na prática, na própria vida, da perfeição e da unidade apontadas para elas pela consciência religiosa.

Leon Tolstói, in O que é arte?

26/11/2023

O que é arte? | Capítulo XVIII

Outubro (1878), de Jules Bastien-Lepage 

A falsidade na qual caiu a arte do nosso povo foi provocada pela aristocracia, que, tendo perdido a fé nas verdades da doutrina cristã da Igreja, não ousou aceitar o verdadeiro cristianismo em seu significado real e principal — filiação a Deus e irmandade entre os homens — e continuou a viver sem fé alguma, tentando suprir essa ausência, alguns com hipocrisia, fingindo que ainda acreditavam nos absurdos da fé da Igreja, outros com uma corajosa proclamação de sua descrença ou com um refinado ceticismo e outros, ainda, com o retorno à veneração dos gregos pela beleza, admitindo a legitimidade do egoísmo e elevando-o a uma doutrina religiosa.
A causa da doença foi a não aceitação do ensinamento de Cristo em seu significado verdadeiro e pleno. A cura da doença reside em um só ponto: o reconhecimento desse ensinamento em todo o seu significado. Essa aceitação não é somente possível, mas necessária na nossa época. Hoje é muito difícil para um homem que chegou ao nível de conhecimento da época, seja ele católico, seja protestante, dizer que acredita nos dogmas da Igreja — em Deus como Trindade, em Cristo como divindade, na redenção, e assim por diante — e é impraticável para ele ficar satisfeito com a proclamação de descrença, com ceticismo ou retorno ao egoísmo e à veneração da beleza, e, acima de tudo, é impossível dizer que não sabe o verdadeiro significado do ensinamento de Cristo. Esse significado se tornou acessível a todos, e a vida da nossa época está permeada pelo espírito desse ensinamento, sendo, consciente ou inconscientemente, guiada por ele.
Mesmo que haja diferenças na forma pela qual as pessoas do nosso mundo cristão definem o destino do homem, se o reconhecem como o progresso da humanidade em um sentido ou outro, ou como a união de todos em um estado socialista ou uma comuna, se o reconhecem como a união com um Cristo fantástico ou a união da humanidade sob a orientação de uma única Igreja, por diversas que possam ser na forma essas definições do destino da vida humana, todos de nossa época reconhecem que o destino do homem é o bem; e o bem mais elevado na vida acessível às pessoas do nosso mundo é atingido com a união.
Por mais que as classes superiores tentem — percebendo que sua importância é baseada na sua separação, como pessoas ricas e instruídas, dos trabalhadores pobres e sem instrução — inventar novas visões de mundo que possam permitir-lhes manter suas vantagens, seja ela o ideal do retorno aos velhos tempos, seja o misticismo, o helenismo ou a teoria do super-homem, essas pessoas têm que reconhecer, queiram ou não, a verdade que se declara em todos os aspectos da vida, consciente e inconscientemente: nosso bem reside somente na união e fraternidade entre os homens.
Inconscientemente, essa verdade é afirmada pelo estabelecimento de meios de comunicação (telégrafo, telefone, imprensa) e a crescente disponibilidade dos bens deste mundo a todos. Conscientemente, ela é declarada pela destruição das superstições que dividem as pessoas, pela difusão das verdades do conhecimento, pela expressão dos ideais da fraternidade entre os homens nas melhores obras de arte do nosso tempo.
A arte é um órgão espiritual da vida humana e não pode ser destruída, e é por isso que, apesar de todos os esforços das classes superiores em ocultar o ideal religioso pelo qual a humanidade vive, esse ideal vem sendo reconhecido mais e mais e vem sendo expressado, embora de forma parcial, pela ciência e pela arte, na nossa sociedade pervertida. Cada vez mais frequentemente, desde o início do século XIX, apareceram, na literatura e na pintura, obras da mais alta arte religiosa, permeadas pelo verdadeiro espírito cristão, assim como obras de arte comum e popular, acessíveis a todos. De forma que a arte conhece o verdadeiro ideal da nossa época e se esforça em direção a ele. Por um lado, os melhores trabalhos artísticos de nossa época transmitem sentimentos que levam em direção à união e fraternidade dos homens (assim são as obras de Dickens, Hugo, Dostoiévski; na pintura, as de Millet, Bastien-Lepage, Jules Breton, Lhermitte e outros); por outro lado, buscam transmitir sentimentos não apenas apropriados às pessoas da alta classe, como tais que possam unir todos os homens, sem exceção. Essas obras ainda são poucas, mas a necessidade delas já é compreendida. Além disso, nos últimos tempos tem havido tentativas cada vez mais frequentes de fazer edições populares de livros e quadros e de promover apresentações de peças e concertos de acesso geral. Tudo isso ainda está muito distante do que deveria ser, mas já se pode ver a direção na qual a arte se esforça, de sua parte, para se colocar no caminho certo.
A consciência religiosa da nossa época, que consiste em reconhecer que a união é o objetivo geral e individual da vida, já se tornou suficientemente clara, e as pessoas de hoje só precisam rejeitar a falsa teoria da beleza, segundo a qual o prazer é reconhecido como objetivo da arte; a consciência religiosa, então, se tornará naturalmente a orientação da arte em nossos dias.
E assim que a consciência religiosa, que inconscientemente já guia a vida de todos em nossa época, for conscientemente reconhecida, a divisão entre as artes da classe baixa e da classe alta será anulada de imediato. Uma vez que exista uma arte comum e fraterna, será rejeitada, primeiro, a arte que transmite sentimentos discordantes da consciência religiosa dos nossos dias — que não unem, mas, sim, desunem as pessoas — e, em segundo lugar, aquela sem valor e exclusiva que agora goza de uma importância que não merece.
E quando isso acontecer, a arte imediatamente deixará de ser o que tem sido nos tempos recentes — um meio de brutalizar e corromper as pessoas — e se tornará o que sempre foi e deveria ser: um meio para o progresso da humanidade rumo à unidade e ao bem-estar.
Por mais terrível que possa ser dizer isto, o que aconteceu à arte de nosso círculo e época é o mesmo que acontece a uma mulher que vende seus atrativos femininos, destinados à maternidade, para o prazer daqueles que são tentados por sua sedução.
A arte do nosso tempo e meio se tornou uma prostituta. E essa comparação se mostra verdadeira nos mínimos detalhes. Ela, da mesma maneira, não é limitada no tempo, está sempre em roupas extravagantes, está sempre à venda; é igualmente sedutora e perniciosa.
A obra de arte genuína manifesta-se na alma do artista muito raramente. Ela é fruto de toda a sua vida anterior, tal como uma criança é concebida por sua mãe. A arte forjada é produzida por artesãos e artífices continuamente, desde que haja consumidores.
A genuína não tem necessidade de se embelezar, como a esposa de um marido amoroso. A falsificada, como uma prostituta, tem que estar sempre enfeitada.
A causa do aparecimento da arte genuína é uma necessidade interna de expressar um sentimento guardado, como o amor é a causa da concepção sexual para uma mãe. A causa da arte forjada é mercenária, tal como na prostituição.
A consequência da arte verdadeira é a introdução de um sentimento novo da vida comum, tal como a consequência do amor de uma esposa é o nascimento de um novo ser. A consequência da arte falsificada é a corrupção, a insaciabilidade dos prazeres, a fraqueza espiritual do homem.
É isso que as pessoas do nosso meio precisam entender para livrar-se do fluxo imundo dessa arte depravada e lasciva que nos está afogando.

Leon Tolstói, in O que é arte?

14/11/2023

O que é arte? | Capítulo XVII

Olympia (1863), de Édouard Manet

A arte é um dos dois órgãos do progresso da humanidade. Por meio da palavra, o homem se comunica em pensamento, e, por meio das imagens da arte, ele se comunica em sentimento com todas as pessoas, não somente do presente, mas do passado e do futuro. É correto para a humanidade empregar esses dois órgãos de comunicação, e, portanto, a perversão de qualquer um deles traz consequências danosas para a sociedade na qual ela ocorre. E essas consequências são necessariamente duplicadas: primeiro, a ausência, nessa sociedade, da atividade que deveria ser realizada por aquele órgão, e, em segundo lugar, a atividade prejudicial do órgão corrompido. São exatamente essas as consequências encontradas em nossa sociedade. O órgão da arte foi pervertido e, em resultado disso, a sociedade das classes altas foi privada, em considerável medida, da atividade que ele deveria ter realizado. Por um lado, as falsificações artísticas, servindo apenas para diversão e corrupção das pessoas, espalharam-se em nossa sociedade em escala enorme. Por outro lado, trabalhos artísticos sem valor e exclusivos, considerados como a mais alta arte, perverteram, na maioria das pessoas do nosso meio, a capacidade de se contagiarem com verdadeiras obras de arte, privando-as da possibilidade de conhecer os sentimentos mais altos que a humanidade atingiu e que só podem ser transmitidos pela arte.
Tudo o que de melhor a humanidade produziu na arte permanece desconhecido para as pessoas privadas da capacidade de ser contagiadas por ela e é substituído por imitações ou por arte sem valor que é confundida com a genuína. As pessoas da nossa época e nossa sociedade admiram os Baudelaires, Verlaines, Moréases, Ibsens e Maeterlincks na poesia; os Monets, Manets, Puvis de Chavannes, Burne-Joneses, Stucks e Böcklins na pintura; os Wagners, Liszts e Richard Strausses na música etc., e já não são capazes de entender nem a arte mais elevada nem a mais simples.
Devido à perda da capacidade de serem contagiadas, as altas classes crescem, são educadas e vivem sem o efeito suavizante e fertilizador da arte. Assim, além de não caminhar em direção ao seu aperfeiçoamento, tornam-se cada vez mais selvagens, grosseiras e cruéis.
Esse é o efeito da ausência da atividade do órgão da arte na nossa sociedade. No entanto, as consequências da atividade pervertida desse órgão são ainda mais prejudiciais, e elas são muitas.
A primeira consequência que salta aos olhos é o enorme desperdício de mão de obra de trabalhadores em algo que não apenas é inútil, mas, em geral, prejudicial e, além disso, o irredimível desperdício de vidas humanas nessa coisa desnecessária e má. É terrível pensar com que esforço, com que privações, milhões de pessoas trabalham sem ter tempo ou possibilidade de fazer coisas necessárias para si mesmas e para sua família, gastando dez, 12 ou 14 horas por noite montando linotipos para livros pseudoartísticos que difundem a depravação entre as pessoas, ou trabalhando para teatros, concertos, exposições e galerias que servem quase sempre à mesma depravação. Porém, mais terrível é pensar que crianças vivazes e gentis, capazes de tudo o que é bom, dedicam-se desde tenra idade a gastar seis, oito ou dez horas por dia, durante dez ou 15 anos, tocando escalas ou torcendo os membros, andando na ponta dos pés e levantando as pernas acima da cabeça, ou cantando solfejos ou declamando versos com afetações diversas, ou desenhando bustos e modelos nus e pintando esboços, ou escrevendo redações pelas regras de determinado período; e que nessas ocupações desonrosas para a dignidade humana, que continuam muitas vezes até bem depois da plena maturidade, perdem toda a sua força física e intelectual e toda a compreensão da vida. As pessoas dizem que é terrível e lastimável ver os pequenos acrobatas colocarem as pernas atrás do pescoço, mas não é menos lastimável ver uma criança de dez anos dando concertos, e, mais ainda, ver crianças de dez anos que sabem de cor as exceções da gramática do latim... Mas não se trata apenas de que essas pessoas são aleijadas física e mentalmente — elas são incapacitadas moralmente também, tornando-se impossibilitadas de fazer qualquer coisa que seja realmente proveitosa e necessária para os outros. Ocupando na sociedade o papel de promotores de recreação para ricos, perdem seu senso de dignidade humana, desenvolvem tal paixão pelo louvor público que sofrem permanentemente de vaidade insatisfeita — vaidade inflada até um grau mórbido — e usam todas as forças da sua alma para justificar essa paixão. E o mais trágico de tudo é que essas pessoas, destruídas para viver para a arte, não são de modo algum úteis a ela e lhe causam o maior dos danos.
Nas academias, escolas e conservatórios, é-lhes ensinado como forjar arte, e, aprendendo isso, tornam-se tão pervertidas que perdem toda a capacidade de produzir arte genuína e passam a ser fornecedoras dessa arte falsificada, ou sem valor, ou depravada, que enche o mundo. Essa é a primeira consequência da perversão do órgão da arte que nos salta aos olhos.
A segunda consequência é que as obras de arte-divertimento, produzidas em tão assustadoras quantidades pelo exército de artistas profissionais, permitem que os ricos da nossa época vivam de uma forma que, além de não ser natural, é contrária ao princípio de humanitarismo professado por eles mesmos. Viver como vivem os ricos e ociosos, especialmente as mulheres — longe da natureza e dos animais, em condições artificiais, com músculos atrofiados ou anormalmente desenvolvidos pela ginástica e com uma energia vital enfraquecida —, seria impossível se não fosse por essa arte-divertimento, se não fosse pela distração que afasta os olhos dessas pessoas da falta de sentido de sua vida e as salva do tédio que as oprime. Tire delas os teatros, concertos e exposições, o piano, as trovas e os romances com que se ocupam na convicção de que isso é uma atividade muito refinada, estética e portanto boa; tire dos mecenas, que compram quadros, patrocinam músicos e frequentam escritores, a sua função de patronos do importante tema da arte, e eles serão incapazes de continuar a viver, morrerão todos de aborrecimento, de tédio, da percepção da falta de sentido e desregramento da sua vida. Somente as ocupações com o que é considerado arte nesse meio lhes permite, na violação de todas as condições naturais, seguirem vivendo sem perceber a sua insensatez e a sua crueldade. E esse suporte à falsa vida dos ricos é a segunda consequência, não insignificante, da perversão da arte.
O terceiro efeito da perversão da arte é a confusão que produz nas ideias das crianças e do povo em geral. Aqueles que não estão pervertidos pelas teorias falsas da nossa sociedade — trabalhadores, crianças — têm uma ideia bem definida dos motivos pelos quais uma pessoa pode ser homenageada e elogiada. Segundo a compreensão das pessoas simples e das crianças, o motivo para louvar e glorificar alguém só pode ser a força física (Hércules, super-homens, conquistadores) ou a força moral, espiritual (Shakya-muni abandonando sua linda esposa e seu reino para salvar os homens, ou Cristo indo para a cruz pela verdade que professava, e todos os mártires e santos). Ambos são compreensíveis para o povo e para as crianças. Eles entendem que não se pode deixar de respeitar a força física, porque ela se faz respeitar. Quanto à força moral do bem, um homem íntegro não pode deixar de respeitá-la porque todo o seu ser espiritual é atraído por ela. E então essas crianças e homens simples veem subitamente que, ao lado daqueles que são elogiados, homenageados e recompensados por sua força física ou moral, existem também aqueles que são elogiados, glorificados e recompensados em escala ainda maior do que os heróis da força e da bondade simplesmente porque cantam bem, escrevem poesia ou são bons dançarinos. Eles veem que cantores, escritores, pintores e dançarinos ganham milhões, que recebem mais homenagens que os santos — e ficam perplexos.
Quando, cinquenta anos após a morte de Pushkin, edições baratas de suas obras foram publicadas e se espalharam, ao mesmo tempo que um monumento foi erigido em sua homenagem em Moscou, mais de dez cartas de diferentes camponeses me foram enviadas perguntando por que Pushkin era tão glorificado. Um dia desses recebi a visita de um artesão alfabetizado de Saratov que aparentemente perdera a cabeça com esse assunto e estava a caminho de Moscou para acusar o clero por ter contribuído com a realização desse “munumento” ao sr. Pushkin.
De fato, basta imaginar a situação de um homem do povo, como esse, que fica sabendo pelos jornais e pelos comentários que lhe chegam que o clero, as autoridades, todos os poderosos da Rússia inauguraram em triunfo um memorial ao grande homem, ao benfeitor, à glória do país — Pushkin, de quem nunca até então ouvira falar. Ele lê ou ouve isso de todos os lados e pensa que, se tais homenagens são prestadas a um homem, este provavelmente fez algo extraordinário, seja em matéria de força, seja em matéria de bondade. Tenta descobrir então quem foi Pushkin e, ao saber que não foi um homem de poder nem um líder militar, conclui que deve ter sido um santo e um mestre do bem, e se esforça para ler ou ouvir sobre sua vida e suas obras. Mas quão grande será a sua perplexidade ao tomar conhecimento de que Pushkin foi um homem de moral menos que ligeira, que morreu em um duelo — isto é, enquanto tentava matar outro homem — e que todo o seu mérito consiste simplesmente em ter escrito poemas sobre o amor, muitos deles bem indecentes?
Que alguns homens poderosos como Alexandre da Macedônia, Gengis Khan ou Napoleão sejam grandes ele pode entender, porque qualquer um deles poderia esmagar milhares como ele. Também pode entender que Buda, Sócrates e Cristo sejam grandes, porque sabe e sente que todas as pessoas deveriam ser como eles; mas por que uma pessoa há de ser grande por ter escrito poemas sobre o amor às mulheres — isso ele não consegue entender.
O mesmo se deve passar na cabeça de um camponês bretão ou normando que fica sabendo da existência de um memorial, une statue, como se fosse à Mãe de Deus, a Baudelaire, quando lê ou lhe contam o conteúdo de As flores do mal, ou — ainda mais espantoso — a Verlaine, quando lê a sua poesia ou fica sabendo da vida patética e depravada que esse homem levou. E que confusão deve ocorrer na cabeça desse povo simples quando fica sabendo que alguma Patti ou Taglioni[110] recebe cem mil por temporada, que um pintor consegue o mesmo por um quadro e que os autores de romances que descrevem cenas de amor recebem ainda mais.
O mesmo acontece também com as crianças. Lembro-me de ter experimentado esse espanto e perplexidade. Somente pude aceitar essa exaltação dos artistas, colocados no mesmo plano dos homens poderosos e heróis morais, ao diminuir, na minha consciência, a importância do valor moral e aumentar a importância falsa e antinatural das obras de arte. O mesmo acontece na alma de cada criança e de cada pessoa simples quando sabe das estranhas homenagens e recompensas dadas a artistas. Essa é a terceira consequência da atitude falsa de nossa sociedade em relação à arte.
A quarta consequência de tal atitude é que as classes privilegiadas, à medida que encontram mais e mais frequentemente a contradição entre a beleza e o bem, colocam o ideal de beleza mais alto, livrando-se assim das exigências da moralidade. Essas classes, em vez de reconhecer a arte à qual servem pelo que ela é — isto é, uma coisa retrógrada —, invertem os papéis e reconhecem a moralidade como uma coisa retrógrada que não pode ter nenhuma importância para pessoas de um grau elevado de desenvolvimento, como imaginam que elas próprias sejam.
Essa consequência da atitude errada em relação à arte se tornou explícita em nossa sociedade há muito tempo, mas ultimamente, com seu profeta Nietzsche e seus seguidores, assim como com os decadentes e com os estetas ingleses — todos idênticos —, ela vem se expressando com insolência especial. Decadentes e estetas como Oscar Wilde escolhem como tema de suas obras a negação da moralidade e o elogio à depravação.
Uma parte dessa arte produziu uma doutrina filosófica semelhante. Recebi recentemente da América um livro intitulado The Survival of the Fittest: Philosopby of Power [A sobrevivência do mais apto: filosofia do poder], de Ragnar Redbeard (Chicago, 1896). A essência desse livro, como é expressa no prefácio do editor, é que avaliar o bem pela falsa filosofia dos profetas hebreus e dos messias chorosos é loucura. O certo não resulta de nenhuma doutrina, mas do poder. Todas as leis, mandamentos e doutrinas sobre não fazer aos outros o que você não quer que lhe façam não significam nada, inerentemente, e adquirem alguma importância somente quando se usa o cacete, a prisão e a espada. Uma pessoa realmente livre não é obrigada a obedecer a nenhuma injunção, humana ou divina. A obediência é o sinal da degeneração; a desobediência é o sinal do herói. As pessoas não deviam ser obrigadas a seguir tradições inventadas por seus inimigos. O mundo todo é um campo de batalha escorregadio. A justiça ideal consiste em que os vencidos sejam explorados, torturados e desprezados. Os livres e os bravos podem conquistar o mundo todo. E, portanto, dessa injunção, deve haver guerra eterna pela vida, pela terra, pelo amor, pelas mulheres, pelo poder e pelo ouro. (Algo semelhante foi proferido há vários anos pelo famoso e refinado acadêmico Vogüé. A terra com seus tesouros é o “prêmio dos audaciosos”.
O autor, sem dúvida por si mesmo, independentemente de Nietzsche, chegou à mesma conclusão que é professada pelos artistas modernos.
Expostos na forma de uma doutrina, esses princípios nos chocam. Na verdade, eles estão contidos no ideal da arte que serve à beleza. A arte de nossas classes altas cultivou esse ideal do super-homem — que de fato é o antigo ideal de Nero, Stenka Razin, Gengis Khan, Robert Macaire, Napoleão e todos os seus cúmplices, satélites e bajuladores — e o mantém nelas com toda a sua força.
Essa suplantação do ideal de moralidade pelo ideal do belo — ou seja, do prazer — é a quarta consequência, terrível, da perversão da arte em nossa sociedade. É assustador imaginar no que poderia acontecer à humanidade se uma arte assim fosse difundida entre as massas. E isso já está começando a acontecer.
A última e principal consequência é que a arte que floresce no meio das classes altas da sociedade europeia corrompe as pessoas diretamente, ao contagiá-las com os piores e mais danosos sentimentos da superstição, do patriotismo e, principalmente, da sensualidade.
Observe atentamente as causas da ignorância nas massas populares e você verá que a principal não é de forma alguma a falta de escolas e bibliotecas, como estamos acostumados a pensar, mas as superstições, tanto as eclesiásticas quanto as patrióticas, das quais elas estão imbuídas e que são geradas por todos os recursos da arte. As superstições da Igreja são apoiadas pela poesia das orações e dos hinos, pela pintura dos ícones, pela escultura das imagens, pelo canto, pelos órgãos, pela música e pela arquitetura, e até mesmo pela arte dramática nas suas cerimônias. As superstições patrióticas são apoiadas por versos e por histórias que são contadas até nas escolas; por música, canto, desfiles solenes, cerimônias reais, pinturas militares e memoriais.
Se não fosse pela atividade constante de todos os ramos da arte na perpetuação da intoxicação e do amargor dessas superstições entre o povo, as massas populares há muito tempo teriam atingido a verdadeira iluminação. Mas não é somente a corrupção eclesiástica e patriótica que esse tipo de arte produz.
Em nossa época, a arte serve também como a principal causa da corrupção das pessoas na questão mais importante da vida social: as relações sexuais. Nós todos sabemos por nós mesmos, e os pais e mães sabem também por seus filhos, que terríveis sofrimentos espirituais e corporais, que inútil desperdício de energia as pessoas vivenciam somente por causa da licenciosidade do desejo sexual.
Desde o princípio do mundo, desde o tempo da Guerra de Troia — que começou por causa da licenciosidade sexual —, até os suicídios e assassinatos por amor que hoje são relatados nos jornais quase todos os dias, uma grande parcela dos sofrimentos da humanidade foi causada por essa licenciosidade.
E o que tirar daí? Toda arte, tanto a genuína quanto a forjada, com raríssimas exceções, é dedicada unicamente a retratar e incitar o amor sexual, em todas as suas formas. Basta lembrar todos os romances com sensuais descrições de amor, das mais refinadas às mais cruas, com os quais a literatura popular está cheia; todos aqueles quadros e estátuas retratando o corpo feminino nu e todo tipo de obscenidades que são incluídas nas ilustrações e propagandas; basta lembrar todas as desprezíveis óperas, operetas, canções e baladas com as quais nosso mundo está inundado — e pensa-se involuntariamente que a arte existente só tem um objetivo preciso: a ampla difusão da depravação.
Essas são, se não todas, pelo menos as consequências mais diretas da perversão da arte que se deu na nossa sociedade. E, como resultado, o que é chamado de arte não só não contribui para o progresso da humanidade, como, talvez mais do que qualquer outra coisa, também atrapalha a realização do bem na nossa vida.
E, desse modo, a pergunta feita involuntariamente por qualquer homem que não participe de atividades artísticas e, portanto, que não é ligado à arte existente por nenhum interesse próprio, é a questão número um colocada no início deste texto: se é justo que sejam oferecidos tantos sacrifícios na forma de trabalho e de vidas humanas àquilo que chamamos arte se apenas uma pequena parcela da sociedade usufrui dela. A resposta natural e de bom senso a essa questão é: não, isso não é justo e não deveria ser. Não apenas não deveria ser assim, não apenas não deveriam ser oferecidos sacrifícios àquilo que é reconhecido como arte entre nós, como, ao contrário, todos os esforços daqueles que desejam viver uma boa vida deveriam ser dirigidos a destruir essa arte, porque ela é um dos males mais cruéis que oprimem a humanidade. Assim, se fosse colocada a questão sobre o que seria melhor para o mundo cristão: perder tudo o que é hoje considerado arte, inclusive tudo o que é bom nela, junto com a falsa arte, ou continuar a incentivar ou permitir a arte que existe hoje; eu penso que qualquer pessoa decidiria essa questão da forma como foi decidida por Platão para a sua República e por todos os mestres da Igreja cristã e muçulmana. Ou seja, essa pessoa diria: “É melhor que não exista arte do que continue a existir como hoje, a arte depravada ou o seu simulacro.” Felizmente, ninguém tem que enfrentar essa questão nem tem que decidir sobre ela de uma forma ou de outra. Tudo o que o homem pode fazer, tudo o que nós, pessoas chamadas cultas — que estamos em posição de entender o significado dos fenômenos da nossa vida —, podemos e devemos fazer é compreender o engano em que estamos e não persistir nele, mas buscar sair dele.

Leon Tólstoi, in O que é arte?

08/10/2023

O que é arte? | Capítulo XVI

The Professor's Dream (1848) de Charles Robert Cockerell

[…]
Na pintura dos tempos modernos, por mais estranho que pareça, quase não existem obras que transmitem diretamente os sentimentos cristãos de amor a Deus e ao próximo, principalmente entre pintores famosos. Há muitas pinturas dos Evangelhos, todas representando eventos históricos com grande riqueza de detalhes, mas elas não podem transmitir os sentimentos religiosos que seus autores não possuíam. Há pinturas que retratam sentimentos pessoais, mas há muito poucas — principalmente de autoria de pintores pouco conhecidos, e não pinturas acabadas, mas geralmente esboços — que retratam atos de abnegação e amor cristão. Assim é um esboço de Kramskoy, que vale por muitos de seus quadros, que retrata uma sala com uma sacada, além da qual um exército que retorna e está marchando solenemente. Uma babá com um bebê e um garotinho estão de pé na sacada. Eles admiram o exército que marcha. Mas a mãe, rosto coberto com um lenço, chora, apoiada no encosto do sofá. É assim também o quadro de Langley que já mencionei; e é assim o quadro do artista francês Morlon,[105] que mostra um barco salva-vidas cruzando feia tempestade para ajudar um vapor que está afundando. Há também pinturas que se aproximam desse tipo, retratando trabalhadores com respeito e amor. São assim os quadros de Millet, especialmente seu desenho do homem com a enxada. Pertencem ao mesmo gênero pinturas de Jules Breton, Lhermitte, Defregger[106] e outros. Como exemplos de pinturas que evocam indignação e horror em face da violação do amor a Deus e ao próximo, poderá servir O julgamento, de Ge, assim como A assinatura da sentença de morte, de Liezen-Mayer.[107] Pinturas desse tipo também são muito poucas. Na maior parte dos casos, a preocupação com a técnica e a beleza encobre o sentimento. Assim, por exemplo, o quadro Pollice verso,[108] de Gérôme, expressa não tanto um sentimento de horror pelo que se passa quanto uma fascinação com a beleza do espetáculo.
É mais difícil ainda apontar, na arte moderna, exemplos do segundo tipo, ou da boa arte comum e universal, especialmente na arte verbal e na música. Se existem realmente obras que, por seu conteúdo interno, poderiam ser colocadas nessa categoria — como Dom Quixote, as comédias de Molière, David Copperfield e As aventuras de M. Pickwick, de Dickens, as histórias de Gógol e de Pushkin, e alguns dos escritos de Maupassant —, ainda assim tais obras, pela exclusividade dos sentimentos que transmitem, pela superfluidade de detalhes de data e lugar e, acima de tudo, pela pobreza de conteúdo se comparadas com exemplos da arte universal antiga (por exemplo, a história de José e seus irmãos), são acessíveis principalmente a pessoas de sua própria nação ou de seu próprio círculo. Que os irmãos de José, com ciúmes do pai, o vendessem como escravo; que a esposa de Putifar quisesse seduzir o jovem; que este chegasse a uma alta posição, sentisse pena dos irmãos, do favorito, Benjamim, e todos os outros — todos esses sentimentos são acessíveis para um camponês russo, um chinês, um africano, uma criança, um velho, um homem culto ou inculto; e é tudo escrito com tal sobriedade, é tão isento de detalhes, que a história pode ser adaptada para os mais diversos meios e continuar compreensível e tocante para todos. Não se dá o mesmo com os sentimentos de Dom Quixote ou com os dos heróis de Molière (embora Molière seja quase universal e, portanto, o mais excelente artista dos tempos modernos), e menos ainda com os de Pickwick e seus amigos. Esses sentimentos são bastante exclusivos, não “apenas humanos”, e, portanto, para torná-los contagiantes, os autores os cercaram de abundantes detalhes de tempo e lugar. E essas minúcias tornam essas histórias muito exclusivas, dificilmente compreensíveis para os que vivem fora do meio que o autor descreve.
Na narrativa de José, não havia necessidade de descrever detalhadamente, como se faz hoje, as suas roupas sujas de sangue, a casa e as roupas de Jacó, a pose e a vestimenta da esposa de Putifar, quando, ajustando um bracelete no braço esquerdo, ela disse “Venha aqui”, e assim por diante, porque o sentimento contido nessa história é tão forte que todos os detalhes, exceto os mais necessários — por exemplo, que José entrou na sala ao lado para chorar —, são supérfluos e somente colocariam obstáculos à transmissão do sentimento. Dessa maneira, essa história toca as pessoas de todas as nações, classes e idades; chegou até nós e viverá ainda por milhares de anos. Mas tire os detalhes dos melhores romances do nosso tempo e o que resta?
Assim sendo, não é possível apontar obras da literatura moderna que satisfaçam plenamente a exigência de universalidade. Mesmo as que existem estão degeneradas pelo realismo, e seria mais correto chamá-las de provincianismo artístico.
Na música ocorre a mesma coisa e pelas mesmas razões. Devido à pobreza de conteúdo, as melodias dos compositores modernos são extraordinariamente insípidas. Para melhorar a impressão produzida por essa melodia, os compositores as entulham com modulações complexas, não apenas na harmonia própria de sua nacionalidade, mas até modulações peculiares de um certo círculo ou de uma determinada escola musical. Uma melodia — qualquer uma — é livre e pode ser entendida por qualquer um; mas quando ela é atada a uma certa harmonia e encoberta por esta, torna-se acessível apenas às pessoas acostumadas a tal harmonia e passa a ser estrangeira não apenas para outras nacionalidades, mas também para aqueles que não pertencem ao círculo dos que se acostumaram a certas formas de harmonia. Assim, a música, como a poesia, gira no mesmo círculo falso. Melodias sem valor e exclusivas, para ser atraentes, são sobrecarregadas com complicações harmônicas, rítmicas e orquestrais e se tornam, desse modo, ainda mais exclusivas: não são universais e nem mesmo nacionais — são acessíveis somente a algumas pessoas e não à nação toda.
Na música, com exceção das marchas e danças de vários compositores, que se aproximam das exigências de arte universal, podem ser apontadas apenas as canções folclóricas de vários países, da Rússia à China; na música erudita, muito poucas obras — a famosa ária de violino de Bach, o noturno em mi bemol maior de Chopin e talvez uma dúzia de outras coisas, não peças inteiras, mas passagens escolhidas das obras de Haydn, Mozart, Schubert, Beethoven, Chopin.[109]
Embora o mesmo se repita na pintura, na poesia e na música — ou seja, obras de conteúdo fraco ficam mais interessantes com a colocação de acessórios muito bem estudados de tempo e lugar, o que as provê de interesse local e temporal, mas as torna menos universais —, ainda assim, na pintura, mais do que nas outras artes, podem-se apontar obras que satisfazem as exigências da arte cristã universal, isto é, que expressam sentimentos acessíveis a todas as pessoas.
Na pintura e na escultura, os quadros e estátuas do chamado genre, reproduções de animais, paisagens, caricaturas de conteúdo compreensível para todos, bem como vários tipos de ornamento, são universais no conteúdo. Existem muitas obras assim na pintura e na escultura (bonecas de porcelana), mas a maioria desses objetos — vários ornamentos, por exemplo — não é considerada arte ou é considerada arte de tipo inferior. Na realidade, todos esses objetos, se transmitem sinceramente o sentimento do artista (ainda que possa nos parecer insignificante) e são compreensíveis para todas as pessoas, são obras de boa arte cristã genuína.
Temo ser repreendido nesse ponto porque, ao passo que nego que o conceito de beleza deva ser o assunto da arte, eu me contradigo ao reconhecer ornamentos como objetos de boa arte. Essa repreensão será injusta, porque o conteúdo artístico de diversas decorações não consiste na beleza, mas no sentimento de admiração e de deleite que o artista vivenciou na combinação de linhas ou cores, e com o qual ele contagia quem vê. A arte foi e sempre será o contágio de uma pessoa por outra, com um sentimento experimentado pelo transmissor. Entre esses sentimentos há o de admirar o que dá prazer à vista. Os objetos que dão prazer à vista podem agradar a uma quantidade pequena ou grande de pessoas, e alguns podem agradar a todos. Assim são quase todos os ornamentos. Uma pintura de paisagem de um local excepcional ou uma pintura muito especial de genre pode não agradar a todos, mas os ornamentos da Yakut à Grécia são acessíveis e evocam o mesmo sentimento de admiração em todo mundo e, portanto, essa desprezada forma de arte deveria ser valorizada na sociedade cristã de forma mais alta do que pinturas e esculturas exclusivas e pretensiosas.
Dessa forma, existem apenas dois tipos de boa arte cristã; todo o resto que não se encaixa aqui deve ser reconhecido como arte ruim, que não só não deveria ser encorajada, como deveria ser banida, rejeitada e desprezada como algo que não une, mas divide as pessoas. Podemos considerar assim, na arte verbal, todos os dramas, romances e poemas que transmitem sentimentos sectários ou patrióticos, bem como sentimentos exclusivos, adequados somente às classes ociosas e ricas — sentimentos de honra aristocrática, saciedade, tédio e pessimismo, e ainda os sentimentos refinados e perversos oriundos do amor sexual, que são totalmente incompreensíveis para a vasta maioria.
Na pintura, assim são todos os quadros falsamente religiosos e patrióticos, bem como aqueles que representam os divertimentos e delícias de uma vida exclusiva, rica e ociosa; e são assim também todas as pinturas chamadas simbólicas, nas quais o próprio significado do símbolo é acessível somente a pessoas de um determinado círculo; e, principalmente, as pinturas de objetos sensuais, toda essa ultrajante nudez feminina que enche as exposições e galerias. Pertence à mesma espécie uma boa parte da música de ópera e concerto do nosso tempo, a começar com Beethoven — seguido de Schumann, Berlioz, Liszt, Wagner —, cujo conteúdo é acessível somente para aqueles que cultivaram em si mesmos uma excitabilidade nervosa mórbida, causada por essa música artificial e excepcionalmente complexa.
Como, a Nona Sinfonia pertence à categoria de arte ruim?!”, ouço vozes indignadas exclamando.
Sem nenhuma dúvida”, respondo. Tudo o que escrevi foi somente para encontrar um critério claro e razoável pelo qual julgar os méritos de obras de arte. E esse critério, que coincide com o simples e com o bom senso, mostra-me inquestionavelmente que a sinfonia de Beethoven não é uma boa obra. É claro que para pessoas educadas na adulação a certas obras e seus autores, para pessoas cujo gosto é pervertido precisamente porque foram criadas nessa adulação, reconhecer uma obra tão famosa como má é espantoso e estranho. Mas o que se deve fazer com as indicações da razão e do bom senso?
A Nona Sinfonia de Beethoven é considerada uma grande obra de arte. Para testar essa afirmação, antes de tudo pergunto a mim mesmo: ela transmite o mais alto sentimento religioso? E respondo com uma negativa, porque a música por si só não pode transmitir esses sentimentos. E então, a seguir, pergunto: se essa obra não pertence à mais alta ordem de arte religiosa, tem ela a outra propriedade da boa arte da nossa época — a de unir todas as pessoas em um sentimento; pertence ela à arte cristã comum universal? E só posso responder com outra negativa, porque não só não vejo como os sentimentos transmitidos por ela poderiam unir as pessoas que não foram especialmente criadas para estarem sujeitas a essa complexa hipnose, como não posso sequer imaginar uma multidão de pessoas normais que pudesse entender alguma coisa dessa obra longa, intricada e artificial, a não ser pequenos fragmentos afogando-se no mar do incompreensível. E, portanto, devo concluir, queira ou não, que essa obra pertence à arte ruim. Notavelmente, ao fim dessa sinfonia está ligado um poema de Schiller que, embora não de forma clara, expressa precisamente o pensamento de que o sentimento (Schiller fala somente do sentimento de alegria) une as pessoas e suscita o amor nelas. Não obstante se cante esse poema no fim da sinfonia, a música não corresponde ao pensamento do poema, porque se trata de uma música exclusiva que não une a todos, mas somente certas pessoas que são escolhidas entre o restante.
Exatamente dessa mesma forma devem ser avaliadas muitas e muitas outras obras de arte que são consideradas grandes pelas camadas superiores da nossa sociedade. Assim, por esse critério firme devem ser avaliados também: a famosa Divina comédia, Jerusalém dividida e a maior parte das obras de Shakespeare e de Goethe, bem como as várias representações de milagres na pintura, como a Transfiguração, de Rafael, e outras. Qualquer que seja o objeto que passa por obra de arte, e não importa quanto seja apreciado pelas pessoas, para descobrir seu valor é necessário aplicar a ele a pergunta: pertence à arte genuína ou às falsificações artísticas? Tendo reconhecido que um objeto, com base na prova do contágio pelo menos em um pequeno círculo de pessoas, pertence ao campo da arte, é necessário, com base na prova de acesso geral, decidir sobre a questão seguinte: essa obra pertence à arte má e exclusiva, oposta à consciência religiosa da nossa época, ou à arte cristã que une as pessoas? E então, tendo reconhecido o objeto como pertencente à verdadeira arte cristã, será necessário, conforme a obra transmita sentimentos oriundos do amor a Deus e ao próximo ou meramente os sentimentos simples que unem todas as pessoas, atribuir a ele um lugar na arte religiosa ou na arte universal comum.
Somente com base nesse teste seremos capazes de separar tudo aquilo que passa por arte na nossa sociedade daqueles objetos que constituem um alimento espiritual real, importante e necessário. E ainda seremos capazes de nos livrar da influência da arte prejudicial e nos valer da influência da boa e verdadeira arte — o que constitui o seu propósito como influência benéfica e necessária para a vida espiritual do homem e da humanidade.

[105] Ivan Nikolaevich Kramskoy (1837-1887) foi um pintor russo de genre. Antoine Morlon (1868-1905) foi um pintor francês de temas marítimos.
[106] Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês da escola de Barbizon, pintava cenas rurais e paisagens de tocante páthos e sinceridade. Jules Breton (1827-1906), francês, foi poeta, escritor e pintor que retratava cenas de vilarejos e a vida dos camponeses. Léon Lhermitte (1844-1925) também era francês e pintor de temas rurais. Franz von Defregger (1835-1921), pintor austríaco, retratava cenas populares do Tirol.
[107] Nikolai Nikolaevich Ge (1831-1894), pintor russo de genre, muitas vezes se dedicou a temas do Evangelho, um exemplo dos quais é O julgamento do Sinédrio. O título completo do quadro do artista alemão Alexander Liezen-Mayer (1839-1898) é A rainha Elizabeth assinando a sentença de morte de Mary Stuart.
[108] O pintor francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) retrata o fim de um combate de gladiadores no circo romano, em seu quadro Pollice verso (Polegar para baixo, em latim); suas obras são geralmente de um estilo acadêmico neogrego.
[109] “Ao sugerir exemplos do que considero a melhor arte, não dou muita importância à minha seleção porque, além de ser insuficientemente informado nos diversos tipos de arte, pertenço à classe de pessoas cujo gosto foi pervertido pela educação errada. E, portanto, eu posso estar enganado, por antigo hábito adquirido, tomando por mérito absoluto a impressão que a coisa produziu em mim quando eu era jovem. Cito exemplos de obras dos dois tipos somente para aclarar meu pensamento, para mostrar como eu, com minhas visões de agora, compreendo o mérito da arte por seu conteúdo. Devo observar, além disso, que classifico minhas próprias obras artísticas do lado da arte ruim, exceto pela história ‘God Sees the Truth’ [Deus vê a verdade], que quer pertencer à primeira categoria, e por ‘Prisoner of the Caucasus’ [Prisioneiro do Cáucaso], que pertence à segunda.” (Observação de Tolstói.)

Leon Tolstói, in O que é arte?

03/10/2023

O que é arte? | Capítulo XVI

Plantadores de batatas (1861), de Jean-François Millet

Como determinar se a arte é boa ou má em seu conteúdo?
A arte, juntamente com a fala, é um meio de comunicação e, portanto, também de progresso — isto é, da caminhada da humanidade rumo à perfeição. A fala permite que as gerações posteriores saibam tudo o que as gerações precedentes sabiam e o que os melhores entre seus contemporâneos sabem por experiência e reflexão. A arte permite que as gerações posteriores experimentem todos os sentimentos vivenciados por outras antes delas e que as pessoas mais avançadas vivenciam agora. E, tal como na evolução do conhecimento — isto é, a suplantação de conhecimento errôneo e desnecessário por conhecimento mais verdadeiro e necessário —, assim também a evolução dos sentimentos se dá por meio da arte, substituindo sentimentos mais baixos, menos generosos e menos necessários para o bem da humanidade por sentimentos mais benignos e mais necessários para esse bem. Esse é o propósito da arte. E, portanto, o seu conteúdo é melhor quanto mais atende a esse propósito, e é pior na medida em que o atende menos.
A avaliação dos sentimentos — ou seja, o seu reconhecimento como mais ou menos bons, no sentido de serem mais ou menos necessários para o bem do povo — é obtida pela consciência religiosa de uma determinada época.
Em toda era histórica específica e em toda sociedade humana existe um entendimento do significado da vida que é o mais alto alcançado pelas pessoas daquela sociedade e que define o mais alto bem pelo qual aquela sociedade luta. Esse entendimento é a consciência religiosa desse tempo e dessa sociedade.
Ela é sempre expressa por certos membros avançados da sociedade e é ou menos ou mais vividamente sentida por todos. Essa consciência religiosa correspondente à sua expressão existe em qualquer sociedade. Se nos parece que não existe consciência religiosa na sociedade, não é porque de fato não exista, mas porque, muitas vezes, nós não queremos vê-la. Isso porque ela expõe a nossa vida, que frequentemente não se ajusta a ela.
A consciência religiosa de uma sociedade é a mesma coisa que o sentido de um rio: se um rio corre, há uma direção na qual ele corre. Se uma sociedade vive, há uma consciência religiosa que indica a direção na qual todas as pessoas dessa sociedade mais ou menos conscientemente se esforçam em seguir.
E, portanto, a consciência religiosa sempre existiu e existirá em qualquer sociedade. E os sentimentos transmitidos pela arte sempre foram avaliados em correspondência com essa consciência. Somente com base na consciência religiosa da época era possível separar a arte que transmitia os sentimentos que traduziam na vida essa consciência de toda a diversidade sem fronteiras das atividades artísticas. Essa arte sempre foi apreciada e incentivada, mas a arte que transmitia sentimentos oriundos da consciência religiosa de uma época anterior — aquela retrógrada e ultrapassada — sempre foi condenada e desprezada. O restante da arte, que transmitia a grande variedade de sentimentos por meio dos quais as pessoas se comunicam entre si, não era condenada, mas era permitida desde que não propagasse sentimentos contrários à consciência religiosa. Assim, entre os gregos, por exemplo, a arte que transmitia os sentimentos de beleza, força e virilidade (Hesíodo, Homero, Fídias) era escolhida, aprovada e incentivada, enquanto a que transmitia sentimentos de sensualidade grosseira, desânimo e efeminação era condenada e desprezada. Os judeus escolhiam e incentivavam a arte que propagava os sentimentos de devoção e obediência ao Deus dos judeus e seus contratos (algumas partes do Livro do Gênesis, dos Profetas, dos Salmos) e condenavam e desprezavam a que evocava sentimentos de idolatria (o bezerro de ouro); enquanto o restante da arte — histórias, canções, danças, decoração de casas, utensílios, roupas — que não era contrária à consciência religiosa não era nem notada nem discutida. Eis como o conteúdo da arte foi avaliado sempre em todo lugar, e é assim que ela deve ser avaliada, pois essa atitude em relação à arte vem das propriedades da natureza humana, as quais permanecem.
Eu sei que, conforme uma opinião largamente difundida na nossa época, a religião é uma superstição que a humanidade já ultrapassou, e que portanto se supõe que não exista, na nossa época, uma consciência religiosa comum a todos que possa servir de referência para avaliar a arte. Sei que essa é a opinião difundida nos círculos supostamente cultos do nosso tempo. As pessoas que não reconhecem o cristianismo em seu verdadeiro sentido e que, portanto, inventam vários tipos de teorias filosóficas e estéticas para si mesmas a fim de esconder a falta de sentido e a depravação de sua vida não podem pensar de outra maneira. Elas, às vezes sem intenção, confundem o conceito de culto religioso com o de consciência religiosa e pensam que, ao rejeitar o culto, estão dessa forma rejeitando a consciência religiosa. Mas todos esses ataques à religião e as tentativas de estabelecer uma visão de mundo oposta à consciência religiosa da nossa época são a prova mais óbvia da presença dessa consciência que expõe a vida daqueles que não vivem de acordo com ela.
Se de fato ocorre um progresso — isto é, um movimento à frente — na humanidade, inevitavelmente deve existir um indicador da direção desse progresso. Esse indicador sempre foi a religião. Toda a história mostra que o progresso da humanidade não pode ser realizado senão com a orientação da religião. E se esse progresso não se pode dar sem isso — e ele está acontecendo sempre, o que significa que está acontecendo também na nossa época —, então deve haver religião na nossa época. E assim, mesmo que as pessoas chamadas cultas não gostem disso, elas devem reconhecer a existência de religião — não a religião de culto, católica romana, protestante etc., mas a consciência religiosa — como guia necessário do progresso na nossa época também. E, se existe uma consciência religiosa entre nós, nossa arte deve ser avaliada com base nela. Exatamente da mesma forma, como sempre e em todo lugar, a arte que transmite sentimentos oriundos da consciência religiosa da nossa época deveria ser separada de toda a arte indiferente, deveria ser reconhecida, altamente apreciada e incentivada, enquanto a que é contrária a essa consciência deveria ser condenada e desprezada, e a arte restante não deveria ser escolhida nem incentivada.
A consciência religiosa da nossa época, em sua aplicação mais geral e prática, é a consciência do fato de que o nosso bem, material e espiritual, individual e geral, temporal e eterno, consiste na vida fraterna, em nossa união de amor uns com os outros. Essa percepção foi expressada por Cristo e por todas as pessoas magnânimas do passado. Mas não só: ela é repetida das mais diversas formas pelos magnânimos de nossa época e já serve como fio condutor para todo o complexo trabalho da humanidade, que consiste, por um lado, em destruir os obstáculos físicos e morais que atrapalham a união entre as pessoas e, por outro lado, em estabelecer os princípios comuns que podem e devem unir a todos em uma fraternidade universal. É com base nessa consciência que devemos avaliar todos os fenômenos de nossa vida, inclusive a nossa arte, separando aquilo que transmite sentimentos oriundos dessa consciência religiosa e valorizando e estimulando essa arte, e ao mesmo tempo rejeitando o que é contrário a essa consciência e não atribuindo ao restante da arte uma importância que não lhe pertence.
O principal engano cometido pelas classes privilegiadas no tempo da assim chamada Renascença — um engano que ainda perpetuamos — consistiu não em cessar de apreciar e atribuir importância à arte religiosa (as pessoas daquela época não podiam lhe dar importância porque, tal como a alta classe de nossos dias, não podiam acreditar naquilo que a maioria via como religião), mas em colocar no lugar dessa arte ausente uma arte sem valor que tinha o prazer como seu único objetivo — isto é, eles começaram a escolher, apreciar e incentivar como religiosa uma arte que de forma alguma merecia tal apreciação e estímulo.
Um dos patriarcas da Igreja disse que o principal problema do povo não é não conhecer Deus, mas ter posto em Seu lugar algo que não é Deus. O mesmo ocorre com a arte. O principal problema das classes superiores da nossa época não é que não possuam arte religiosa, mas que, no lugar de alta arte religiosa, escolhida entre tudo o mais por ser especialmente importante e valiosa, escolheram a arte sem valor e geralmente a mais danosa, cujo objetivo é dar prazer a alguns — e que só por essa exclusividade já é contrária ao princípio cristão de união universal, que constitui a consciência religiosa da nossa época. No lugar da arte religiosa, foi estabelecida uma arte vazia e muitas vezes depravada — e isso esconde das pessoas a necessidade daquela arte religiosa que deveria estar presente na vida para que esta possa se aperfeiçoar.
É verdade que a arte que satisfaz as exigências da consciência religiosa do nosso tempo é totalmente diferente da arte anterior, mas apesar dessa diferença, para um homem que não esconde deliberadamente a verdade de si mesmo, é bem claro e preciso o que constitui a arte religiosa da nossa época. No passado, quando a consciência religiosa mais elevada unia somente uma parte dos grupamentos humanos, cercada de outros, ainda que fosse uma parte bem grande — judeus, atenienses, cidadãos romanos —, os sentimentos transmitidos pela arte vinham de um desejo de poder, grandeza, glória e prosperidade dessas sociedades, e os heróis da arte podiam ser os que contribuíam para essa prosperidade com sua força, perfídia, astúcia, crueldade (Odisseus, Jacó, Davi, Sansão, Hércules e todos os homens poderosos). A consciência religiosa do nosso tempo não escolhe um grupamento de pessoas, mas, ao contrário, exige a união de todas, absolutamente todas, sem exceção, e coloca o amor fraterno acima de todas as outras virtudes, e, portanto, os sentimentos transmitidos pela arte da nossa época não só não podem coincidir com os sentimentos transmitidos pela arte anterior, como também devem ser opostos a eles.
A arte cristã, verdadeiramente cristã, não pôde se estabelecer precisamente porque a consciência religiosa cristã não foi um desses pequenos passos pelos quais a humanidade avança normalmente, mas, sim, uma enorme revolução que, se ainda não mudou, está inevitavelmente destinada a mudar toda a compreensão humana da vida e toda a sua organização interna. É verdade que a vida da humanidade, como a de cada homem, progride regularmente, mas no meio desse movimento regular ocorrem pontos de virada, pode-se dizer, que dividem nitidamente entre a vida de antes e a vida de depois. O cristianismo foi um desses pontos de virada para a humanidade, ou pelo menos assim deveria parecer a nós que vivemos pela consciência cristã. Essa consciência deu uma direção nova e diferente a todos os sentimentos humanos e, portanto, mudou completamente tanto o conteúdo como o significado da arte. Os gregos podiam fazer uso da arte persa, e os romanos, da arte grega, assim como os judeus fizeram uso da arte egípcia — os ideais básicos eram os mesmos. Ora era a grandeza e a prosperidade dos persas, ora a grandeza e prosperidade dos gregos, ora a dos romanos. Uma mesma arte era transferida para diferentes condições e se adequava a uma nova nação. Mas o ideal cristão mudou e revolucionou as coisas de tal maneira que, como dizem os Evangelhos, “o que era grande entre os homens é abominação aos olhos de Deus”. O ideal passou a ser não a grandeza de um faraó ou de um imperador romano, não a beleza de um grego ou a riqueza da Fenícia, mas humildade, castidade, compaixão, amor. O herói não era mais o homem rico, mas o mendigo Lázaro; Maria do Egito, não na época de sua beleza, mas na de seu arrependimento; não os conquistadores de riquezas, mas os que se desfizeram delas; não os que viviam em palácios, mas os que viviam em catacumbas e choupanas; não pessoas que governavam outras, mas as que não reconheciam outro poder além de Deus. E a mais elevada obra de arte não era um templo da vitória com estátuas dos vencedores, mas a imagem de uma alma humana tão transformada pelo amor que um homem torturado e assassinado pôde lamentar e amar seus torturadores.
E, portanto, as pessoas do mundo cristão têm dificuldade em resistir à inércia da arte pagã com a qual cresceram e passaram a vida. O conteúdo da arte religiosa cristã é tão novo para elas, tão diferente do conteúdo da arte anterior, que lhes parece que a arte cristã é uma negação da arte, então se agarram desesperadamente à velha arte. E, no entanto, em nossa época, essa arte velha, já não tendo a sua fonte na consciência religiosa, perdeu todo o seu significado e devemos renunciar a ela, queiramos ou não.
A essência da consciência cristã consiste em que cada homem reconheça sua condição de filho de Deus e sua consequente união a Ele e aos outros homens, como é dito no Evangelho. E, portanto, o conteúdo da arte cristã são os sentimentos que contribuem para a união dos homens com Deus e entre si.
A expressão a união dos homens com Deus e com seus semelhantes pode parecer vaga às pessoas acostumadas a ouvir essas palavras tantas vezes corrompidas. Porém, elas têm um significado muito claro: a união cristã entre os homens, ao contrário da união parcial e exclusiva de alguns, une a todos sem exceção.
A arte, qualquer que seja, tem em si a propriedade de unir as pessoas. Toda arte faz com que aqueles que captam o sentimento transmitido pelo artista se unam em espírito, primeiro com o artista e depois com todos os que receberam a mesma impressão. Mas a arte não cristã, ao unir certas pessoas, com isso as separa de outras, de forma que essa união parcial serve como fonte não apenas de desunião, mas até de hostilidade. Assim é toda a arte patriótica, com seus hinos, poemas e monumentos. Assim é toda a arte da Igreja — isto é, a arte de cultos distintos, com seus ícones, imagens, procissões, cerimônias, igrejas. Assim é a arte militar e, enfim, assim é toda a arte refinada, essencialmente depravada, acessível somente a pessoas que oprimem outras e pertencem às classes ricas e ociosas. Essa arte é retrógrada, não cristã, ao unir algumas pessoas somente para separá-las ainda mais e até mesmo colocá-las em atitude de hostilidade contra outras. A arte cristã é a que une todas as pessoas sem exceção — seja por evocar nelas a percepção de que estão todas na mesma posição com relação a Deus e ao seu próximo, seja por evocar nelas um único e mesmo sentimento, mesmo o mais simples, que não seja contrário ao cristianismo e seja adequado a todos sem exceção.
A boa arte cristã da nossa época pode não ser entendida por todos devido a erros formais ou à falta de atenção, mas ela deve ser tal que todos possam vivenciar os sentimentos que estão sendo transmitidos. Ela deve ser a arte não de um certo círculo, não de uma classe, uma nacionalidade, uma religião — isto é, não deve transmitir sentimentos a que tenha acesso somente uma pessoa criada de uma certa maneira, um aristocrata, um comerciante, ou um russo, um japonês, ou um católico, um budista etc. —, mas sentimentos a que qualquer homem tenha acesso. Somente uma arte assim pode ser considerada boa em nossa época, pode ser escolhida entre as demais e incentivada.
A arte cristã, que é a arte da nossa época, deve ser católica no sentido direto da palavra — ou seja, universal — e deve, portanto, unir todas as pessoas. E só existem dois tipos de sentimento que unem a todos: aqueles que vêm da consciência de que todos são filhos de Deus e existe irmandade entre os homens e os sentimentos do cotidiano, do tipo mais simples, a que todas as pessoas, sem exceção, têm acesso, como os de festejo, ternura, alegria, tranquilidade, e assim por diante. Somente essas duas espécies de sentimento constituem, em nossa época, a matéria da arte que é boa em seu conteúdo.
O efeito produzido por esses dois tipos de arte aparentemente tão diferentes é exatamente o mesmo. Os sentimentos que vêm da consciência de sermos filhos de Deus e irmãos dos homens, ou seja, da consciência religiosa cristã, tais como firmeza na verdade, confiança na vontade de Deus, autonegação, respeito e amor pelo homem; e os sentimentos mais simples — ficar emocionado ou alegre com uma canção, ou uma brincadeira divertida que todos podem entender, ou uma história tocante, ou um desenho, ou uma boneca — produzem um só efeito: a união amorosa entre as pessoas. Pode acontecer em algumas ocasiões que as pessoas reunidas, embora não apresentem hostilidade, estejam alheias umas às outras. De repente uma história, uma apresentação, um quadro, mesmo um prédio ou, com maior frequência, uma música, une a todos com uma fagulha elétrica e, em lugar de seu distanciamento anterior, todos sentem união e amor mútuo. Cada um fica feliz porque o outro sente a mesma coisa que ele, feliz com essa comunhão que foi estabelecida, não somente entre ele e os outros presentes, mas com todas as pessoas vivas que receberão a mesma impressão. Mais ainda: há a misteriosa alegria de uma comunhão além-túmulo, com todos no passado que viveram o mesmo sentimento e os que no futuro o viverão. Esse efeito é causado igualmente tanto pela arte que transmite os sentimentos de amor a Deus e ao próximo como pela arte comum que transmite os sentimentos mais simples e comuns a todas as pessoas.
A diferença entre avaliar a arte de nossa época e a de épocas anteriores consiste, acima de tudo, em que a arte de hoje — isto é, a arte cristã —, por ser baseada em uma consciência religiosa que pede a união das pessoas, exclui da esfera da arte de bom conteúdo tudo o que transmite sentimentos exclusivos, que separam as pessoas ao invés de uni-las, e considera tal arte como de mau conteúdo, enquanto, por sua vez, inclui na categoria de arte de bom conteúdo uma área que até aqui não era considerada digna de ser escolhida e respeitada: a arte universal, que transmite sentimentos mais simples e insignificantes, mas acessíveis a todas as pessoas sem exceção e que, portanto, as unem.
Uma arte assim não pode deixar de ser reconhecida como boa em nossa época, porque atinge exatamente o objetivo que a consciência religiosa cristã coloca diante da humanidade hoje.
A arte cristã evoca nas pessoas os sentimentos que, por meio do amor a Deus e ao próximo, as leva a uma união cada vez maior e as torna prontas e capazes para tal união, ou então evoca sentimentos que mostram que elas já estão unidas na igualdade das alegrias e tristezas da vida. Assim, a arte cristã de nossa época pode ser definida em dois tipos: (1) arte religiosa, que transmite sentimentos oriundos de uma consciência religiosa da posição do homem no mundo, com relação a Deus e a seu próximo; e (2) arte universal, que transmite os sentimentos cotidianos e simples da vida, da forma como são acessíveis a todas as pessoas do mundo. Somente esses dois tipos de arte podem ser considerados bons hoje.
O primeiro, a arte religiosa, que transmite sentimentos positivos (amor a Deus e ao próximo) assim como negativos (indignação, horror face à violação desse amor), manifesta-se principalmente na forma verbal e, parcialmente, na pintura e na escultura; o segundo, a arte universal, que transmite sentimentos acessíveis a todos, manifesta-se em palavras, pintura, escultura, dança, arquitetura e, principalmente, na música.
Se me pedissem que apontasse exemplos de cada um desses tipos na arte moderna, como exemplos da mais elevada arte religiosa oriunda do amor a Deus e ao próximo, eu apontaria, na literatura, Os bandoleiros, de Schiller; e entre as obras mais recentes, Pobre gente, de Dostoiévski, e Os miseráveis, de Victor Hugo; os contos, histórias e romances de Dickens — História de duas cidades, Os carrilhões e outras; A cabana do pai Tomás; Dostoiévski, principalmente com seu Recordações da casa dos mortos; Adam Bede, de George Eliot.
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Leon Tolstói, in O que é arte?