[…]
Na
pintura dos tempos modernos, por mais estranho que pareça, quase não
existem obras que transmitem diretamente os sentimentos cristãos de
amor a Deus e ao próximo, principalmente entre pintores famosos. Há
muitas pinturas dos Evangelhos, todas representando eventos
históricos com grande riqueza de detalhes, mas elas não podem
transmitir os sentimentos religiosos que seus autores não possuíam.
Há pinturas que retratam sentimentos pessoais, mas há muito poucas
— principalmente de autoria de pintores pouco conhecidos, e não
pinturas acabadas, mas geralmente esboços — que retratam atos de
abnegação e amor cristão. Assim é um esboço de Kramskoy, que
vale por muitos de seus quadros, que retrata uma sala com uma sacada,
além da qual um exército que retorna e está marchando solenemente.
Uma babá com um bebê e um garotinho estão de pé na sacada. Eles
admiram o exército que marcha. Mas a mãe, rosto coberto com um
lenço, chora, apoiada no encosto do sofá. É assim também o quadro
de Langley que já mencionei; e é assim o quadro do artista francês
Morlon,[105] que mostra um barco salva-vidas cruzando feia tempestade
para ajudar um vapor que está afundando. Há também pinturas que se
aproximam desse tipo, retratando trabalhadores com respeito e amor.
São assim os quadros de Millet, especialmente seu desenho do homem
com a enxada. Pertencem ao mesmo gênero pinturas de Jules Breton,
Lhermitte, Defregger[106] e outros. Como exemplos de pinturas que
evocam indignação e horror em face da violação do amor a Deus e
ao próximo, poderá servir O julgamento, de Ge, assim como A
assinatura da sentença de morte, de Liezen-Mayer.[107] Pinturas
desse tipo também são muito poucas. Na maior parte dos casos, a
preocupação com a técnica e a beleza encobre o sentimento. Assim,
por exemplo, o quadro Pollice verso,[108] de Gérôme,
expressa não tanto um sentimento de horror pelo que se passa quanto
uma fascinação com a beleza do espetáculo.
É
mais difícil ainda apontar, na arte moderna, exemplos do segundo
tipo, ou da boa arte comum e universal, especialmente na arte verbal
e na música. Se existem realmente obras que, por seu conteúdo
interno, poderiam ser colocadas nessa categoria — como Dom
Quixote, as comédias de Molière, David Copperfield e As
aventuras de M. Pickwick, de Dickens, as histórias de Gógol e
de Pushkin, e alguns dos escritos de Maupassant —, ainda assim tais
obras, pela exclusividade dos sentimentos que transmitem, pela
superfluidade de detalhes de data e lugar e, acima de tudo, pela
pobreza de conteúdo se comparadas com exemplos da arte universal
antiga (por exemplo, a história de José e seus irmãos), são
acessíveis principalmente a pessoas de sua própria nação ou de
seu próprio círculo. Que os irmãos de José, com ciúmes do pai, o
vendessem como escravo; que a esposa de Putifar quisesse seduzir o
jovem; que este chegasse a uma alta posição, sentisse pena dos
irmãos, do favorito, Benjamim, e todos os outros — todos esses
sentimentos são acessíveis para um camponês russo, um chinês, um
africano, uma criança, um velho, um homem culto ou inculto; e é
tudo escrito com tal sobriedade, é tão isento de detalhes, que a
história pode ser adaptada para os mais diversos meios e continuar
compreensível e tocante para todos. Não se dá o mesmo com os
sentimentos de Dom Quixote ou com os dos heróis de Molière (embora
Molière seja quase universal e, portanto, o mais excelente artista
dos tempos modernos), e menos ainda com os de Pickwick e seus amigos.
Esses sentimentos são bastante exclusivos, não “apenas humanos”,
e, portanto, para torná-los contagiantes, os autores os cercaram de
abundantes detalhes de tempo e lugar. E essas minúcias tornam essas
histórias muito exclusivas, dificilmente compreensíveis para os que
vivem fora do meio que o autor descreve.
Na
narrativa de José, não havia necessidade de descrever
detalhadamente, como se faz hoje, as suas roupas sujas de sangue, a
casa e as roupas de Jacó, a pose e a vestimenta da esposa de
Putifar, quando, ajustando um bracelete no braço esquerdo, ela disse
“Venha aqui”, e assim por diante, porque o sentimento contido
nessa história é tão forte que todos os detalhes, exceto os mais
necessários — por exemplo, que José entrou na sala ao lado para
chorar —, são supérfluos e somente colocariam obstáculos à
transmissão do sentimento. Dessa maneira, essa história toca as
pessoas de todas as nações, classes e idades; chegou até nós e
viverá ainda por milhares de anos. Mas tire os detalhes dos melhores
romances do nosso tempo e o que resta?
Assim
sendo, não é possível apontar obras da literatura moderna que
satisfaçam plenamente a exigência de universalidade. Mesmo as que
existem estão degeneradas pelo realismo, e seria mais correto
chamá-las de provincianismo artístico.
Na
música ocorre a mesma coisa e pelas mesmas razões. Devido à
pobreza de conteúdo, as melodias dos compositores modernos são
extraordinariamente insípidas. Para melhorar a impressão produzida
por essa melodia, os compositores as entulham com modulações
complexas, não apenas na harmonia própria de sua nacionalidade, mas
até modulações peculiares de um certo círculo ou de uma
determinada escola musical. Uma melodia — qualquer uma — é livre
e pode ser entendida por qualquer um; mas quando ela é atada a uma
certa harmonia e encoberta por esta, torna-se acessível apenas às
pessoas acostumadas a tal harmonia e passa a ser estrangeira não
apenas para outras nacionalidades, mas também para aqueles que não
pertencem ao círculo dos que se acostumaram a certas formas de
harmonia. Assim, a música, como a poesia, gira no mesmo círculo
falso. Melodias sem valor e exclusivas, para ser atraentes, são
sobrecarregadas com complicações harmônicas, rítmicas e
orquestrais e se tornam, desse modo, ainda mais exclusivas: não são
universais e nem mesmo nacionais — são acessíveis somente a
algumas pessoas e não à nação toda.
Na
música, com exceção das marchas e danças de vários compositores,
que se aproximam das exigências de arte universal, podem ser
apontadas apenas as canções folclóricas de vários países, da
Rússia à China; na música erudita, muito poucas obras — a famosa
ária de violino de Bach, o noturno em mi bemol maior de Chopin e
talvez uma dúzia de outras coisas, não peças inteiras, mas
passagens escolhidas das obras de Haydn, Mozart, Schubert, Beethoven,
Chopin.[109]
Embora
o mesmo se repita na pintura, na poesia e na música — ou seja,
obras de conteúdo fraco ficam mais interessantes com a colocação
de acessórios muito bem estudados de tempo e lugar, o que as provê
de interesse local e temporal, mas as torna menos universais —,
ainda assim, na pintura, mais do que nas outras artes, podem-se
apontar obras que satisfazem as exigências da arte cristã
universal, isto é, que expressam sentimentos acessíveis a todas as
pessoas.
Na
pintura e na escultura, os quadros e estátuas do chamado genre,
reproduções de animais, paisagens, caricaturas de conteúdo
compreensível para todos, bem como vários tipos de ornamento, são
universais no conteúdo. Existem muitas obras assim na pintura e na
escultura (bonecas de porcelana), mas a maioria desses objetos —
vários ornamentos, por exemplo — não é considerada arte ou é
considerada arte de tipo inferior. Na realidade, todos esses objetos,
se transmitem sinceramente o sentimento do artista (ainda que possa
nos parecer insignificante) e são compreensíveis para todas as
pessoas, são obras de boa arte cristã genuína.
Temo
ser repreendido nesse ponto porque, ao passo que nego que o conceito
de beleza deva ser o assunto da arte, eu me contradigo ao reconhecer
ornamentos como objetos de boa arte. Essa repreensão será injusta,
porque o conteúdo artístico de diversas decorações não consiste
na beleza, mas no sentimento de admiração e de deleite que o
artista vivenciou na combinação de linhas ou cores, e com o qual
ele contagia quem vê. A arte foi e sempre será o contágio de uma
pessoa por outra, com um sentimento experimentado pelo transmissor.
Entre esses sentimentos há o de admirar o que dá prazer à vista.
Os objetos que dão prazer à vista podem agradar a uma quantidade
pequena ou grande de pessoas, e alguns podem agradar a todos. Assim
são quase todos os ornamentos. Uma pintura de paisagem de um local
excepcional ou uma pintura muito especial de genre pode não
agradar a todos, mas os ornamentos da Yakut à Grécia são
acessíveis e evocam o mesmo sentimento de admiração em todo mundo
e, portanto, essa desprezada forma de arte deveria ser valorizada na
sociedade cristã de forma mais alta do que pinturas e esculturas
exclusivas e pretensiosas.
Dessa
forma, existem apenas dois tipos de boa arte cristã; todo o resto
que não se encaixa aqui deve ser reconhecido como arte ruim, que não
só não deveria ser encorajada, como deveria ser banida, rejeitada e
desprezada como algo que não une, mas divide as pessoas. Podemos
considerar assim, na arte verbal, todos os dramas, romances e poemas
que transmitem sentimentos sectários ou patrióticos, bem como
sentimentos exclusivos, adequados somente às classes ociosas e ricas
— sentimentos de honra aristocrática, saciedade, tédio e
pessimismo, e ainda os sentimentos refinados e perversos oriundos do
amor sexual, que são totalmente incompreensíveis para a vasta
maioria.
Na
pintura, assim são todos os quadros falsamente religiosos e
patrióticos, bem como aqueles que representam os divertimentos e
delícias de uma vida exclusiva, rica e ociosa; e são assim também
todas as pinturas chamadas simbólicas, nas quais o próprio
significado do símbolo é acessível somente a pessoas de um
determinado círculo; e, principalmente, as pinturas de objetos
sensuais, toda essa ultrajante nudez feminina que enche as exposições
e galerias. Pertence à mesma espécie uma boa parte da música de
ópera e concerto do nosso tempo, a começar com Beethoven —
seguido de Schumann, Berlioz, Liszt, Wagner —, cujo conteúdo é
acessível somente para aqueles que cultivaram em si mesmos uma
excitabilidade nervosa mórbida, causada por essa música artificial
e excepcionalmente complexa.
“Como,
a Nona Sinfonia pertence à categoria de arte ruim?!”, ouço
vozes indignadas exclamando.
“Sem
nenhuma dúvida”, respondo. Tudo o que escrevi foi somente para
encontrar um critério claro e razoável pelo qual julgar os méritos
de obras de arte. E esse critério, que coincide com o simples e com
o bom senso, mostra-me inquestionavelmente que a sinfonia de
Beethoven não é uma boa obra. É claro que para pessoas educadas na
adulação a certas obras e seus autores, para pessoas cujo gosto é
pervertido precisamente porque foram criadas nessa adulação,
reconhecer uma obra tão famosa como má é espantoso e estranho. Mas
o que se deve fazer com as indicações da razão e do bom senso?
A
Nona Sinfonia de Beethoven é considerada uma grande obra de
arte. Para testar essa afirmação, antes de tudo pergunto a mim
mesmo: ela transmite o mais alto sentimento religioso? E respondo com
uma negativa, porque a música por si só não pode transmitir esses
sentimentos. E então, a seguir, pergunto: se essa obra não pertence
à mais alta ordem de arte religiosa, tem ela a outra propriedade da
boa arte da nossa época — a de unir todas as pessoas em um
sentimento; pertence ela à arte cristã comum universal? E só posso
responder com outra negativa, porque não só não vejo como os
sentimentos transmitidos por ela poderiam unir as pessoas que não
foram especialmente criadas para estarem sujeitas a essa complexa
hipnose, como não posso sequer imaginar uma multidão de pessoas
normais que pudesse entender alguma coisa dessa obra longa, intricada
e artificial, a não ser pequenos fragmentos afogando-se no mar do
incompreensível. E, portanto, devo concluir, queira ou não, que
essa obra pertence à arte ruim. Notavelmente, ao fim dessa sinfonia
está ligado um poema de Schiller que, embora não de forma clara,
expressa precisamente o pensamento de que o sentimento (Schiller fala
somente do sentimento de alegria) une as pessoas e suscita o amor
nelas. Não obstante se cante esse poema no fim da sinfonia, a música
não corresponde ao pensamento do poema, porque se trata de uma
música exclusiva que não une a todos, mas somente certas pessoas
que são escolhidas entre o restante.
Exatamente
dessa mesma forma devem ser avaliadas muitas e muitas outras obras de
arte que são consideradas grandes pelas camadas superiores da nossa
sociedade. Assim, por esse critério firme devem ser avaliados
também: a famosa Divina comédia, Jerusalém dividida
e a maior parte das obras de Shakespeare e de Goethe, bem como as
várias representações de milagres na pintura, como a
Transfiguração, de Rafael, e outras. Qualquer que seja o
objeto que passa por obra de arte, e não importa quanto seja
apreciado pelas pessoas, para descobrir seu valor é necessário
aplicar a ele a pergunta: pertence à arte genuína ou às
falsificações artísticas? Tendo reconhecido que um objeto, com
base na prova do contágio pelo menos em um pequeno círculo de
pessoas, pertence ao campo da arte, é necessário, com base na prova
de acesso geral, decidir sobre a questão seguinte: essa obra
pertence à arte má e exclusiva, oposta à consciência religiosa da
nossa época, ou à arte cristã que une as pessoas? E então, tendo
reconhecido o objeto como pertencente à verdadeira arte cristã,
será necessário, conforme a obra transmita sentimentos oriundos do
amor a Deus e ao próximo ou meramente os sentimentos simples que
unem todas as pessoas, atribuir a ele um lugar na arte religiosa ou
na arte universal comum.
Somente
com base nesse teste seremos capazes de separar tudo aquilo que passa
por arte na nossa sociedade daqueles objetos que constituem um
alimento espiritual real, importante e necessário. E ainda seremos
capazes de nos livrar da influência da arte prejudicial e nos valer
da influência da boa e verdadeira arte — o que constitui o seu
propósito como influência benéfica e necessária para a vida
espiritual do homem e da humanidade.
[105]
Ivan Nikolaevich Kramskoy (1837-1887) foi um pintor russo de genre.
Antoine Morlon (1868-1905) foi um pintor francês de temas marítimos.
[106]
Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês da escola de
Barbizon, pintava cenas rurais e paisagens de tocante páthos
e sinceridade. Jules Breton (1827-1906), francês, foi poeta,
escritor e pintor que retratava cenas de vilarejos e a vida dos
camponeses. Léon Lhermitte (1844-1925) também era francês e pintor
de temas rurais. Franz von Defregger (1835-1921), pintor austríaco,
retratava cenas populares do Tirol.
[107]
Nikolai Nikolaevich Ge (1831-1894), pintor russo de genre,
muitas vezes se dedicou a temas do Evangelho, um exemplo dos quais é
O julgamento do Sinédrio. O título completo do quadro do
artista alemão Alexander Liezen-Mayer (1839-1898) é A rainha
Elizabeth assinando a sentença de morte de Mary Stuart.
[108]
O pintor francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) retrata o fim de um
combate de gladiadores no circo romano, em seu quadro Pollice
verso (Polegar para baixo, em latim); suas obras são geralmente
de um estilo acadêmico neogrego.
[109]
“Ao sugerir exemplos do que considero a melhor arte, não dou muita
importância à minha seleção porque, além de ser
insuficientemente informado nos diversos tipos de arte, pertenço à
classe de pessoas cujo gosto foi pervertido pela educação errada.
E, portanto, eu posso estar enganado, por antigo hábito adquirido,
tomando por mérito absoluto a impressão que a coisa produziu em mim
quando eu era jovem. Cito exemplos de obras dos dois tipos somente
para aclarar meu pensamento, para mostrar como eu, com minhas visões
de agora, compreendo o mérito da arte por seu conteúdo. Devo
observar, além disso, que classifico minhas próprias obras
artísticas do lado da arte ruim, exceto pela história ‘God Sees
the Truth’ [Deus vê a verdade], que quer pertencer à primeira
categoria, e por ‘Prisoner of the Caucasus’ [Prisioneiro do
Cáucaso], que pertence à segunda.” (Observação de Tolstói.)
Leon Tolstói, in O que é arte?

Nenhum comentário:
Postar um comentário