domingo, 8 de outubro de 2023

O que é arte? | Capítulo XVI

The Professor's Dream (1848) de Charles Robert Cockerell

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Na pintura dos tempos modernos, por mais estranho que pareça, quase não existem obras que transmitem diretamente os sentimentos cristãos de amor a Deus e ao próximo, principalmente entre pintores famosos. Há muitas pinturas dos Evangelhos, todas representando eventos históricos com grande riqueza de detalhes, mas elas não podem transmitir os sentimentos religiosos que seus autores não possuíam. Há pinturas que retratam sentimentos pessoais, mas há muito poucas — principalmente de autoria de pintores pouco conhecidos, e não pinturas acabadas, mas geralmente esboços — que retratam atos de abnegação e amor cristão. Assim é um esboço de Kramskoy, que vale por muitos de seus quadros, que retrata uma sala com uma sacada, além da qual um exército que retorna e está marchando solenemente. Uma babá com um bebê e um garotinho estão de pé na sacada. Eles admiram o exército que marcha. Mas a mãe, rosto coberto com um lenço, chora, apoiada no encosto do sofá. É assim também o quadro de Langley que já mencionei; e é assim o quadro do artista francês Morlon,[105] que mostra um barco salva-vidas cruzando feia tempestade para ajudar um vapor que está afundando. Há também pinturas que se aproximam desse tipo, retratando trabalhadores com respeito e amor. São assim os quadros de Millet, especialmente seu desenho do homem com a enxada. Pertencem ao mesmo gênero pinturas de Jules Breton, Lhermitte, Defregger[106] e outros. Como exemplos de pinturas que evocam indignação e horror em face da violação do amor a Deus e ao próximo, poderá servir O julgamento, de Ge, assim como A assinatura da sentença de morte, de Liezen-Mayer.[107] Pinturas desse tipo também são muito poucas. Na maior parte dos casos, a preocupação com a técnica e a beleza encobre o sentimento. Assim, por exemplo, o quadro Pollice verso,[108] de Gérôme, expressa não tanto um sentimento de horror pelo que se passa quanto uma fascinação com a beleza do espetáculo.
É mais difícil ainda apontar, na arte moderna, exemplos do segundo tipo, ou da boa arte comum e universal, especialmente na arte verbal e na música. Se existem realmente obras que, por seu conteúdo interno, poderiam ser colocadas nessa categoria — como Dom Quixote, as comédias de Molière, David Copperfield e As aventuras de M. Pickwick, de Dickens, as histórias de Gógol e de Pushkin, e alguns dos escritos de Maupassant —, ainda assim tais obras, pela exclusividade dos sentimentos que transmitem, pela superfluidade de detalhes de data e lugar e, acima de tudo, pela pobreza de conteúdo se comparadas com exemplos da arte universal antiga (por exemplo, a história de José e seus irmãos), são acessíveis principalmente a pessoas de sua própria nação ou de seu próprio círculo. Que os irmãos de José, com ciúmes do pai, o vendessem como escravo; que a esposa de Putifar quisesse seduzir o jovem; que este chegasse a uma alta posição, sentisse pena dos irmãos, do favorito, Benjamim, e todos os outros — todos esses sentimentos são acessíveis para um camponês russo, um chinês, um africano, uma criança, um velho, um homem culto ou inculto; e é tudo escrito com tal sobriedade, é tão isento de detalhes, que a história pode ser adaptada para os mais diversos meios e continuar compreensível e tocante para todos. Não se dá o mesmo com os sentimentos de Dom Quixote ou com os dos heróis de Molière (embora Molière seja quase universal e, portanto, o mais excelente artista dos tempos modernos), e menos ainda com os de Pickwick e seus amigos. Esses sentimentos são bastante exclusivos, não “apenas humanos”, e, portanto, para torná-los contagiantes, os autores os cercaram de abundantes detalhes de tempo e lugar. E essas minúcias tornam essas histórias muito exclusivas, dificilmente compreensíveis para os que vivem fora do meio que o autor descreve.
Na narrativa de José, não havia necessidade de descrever detalhadamente, como se faz hoje, as suas roupas sujas de sangue, a casa e as roupas de Jacó, a pose e a vestimenta da esposa de Putifar, quando, ajustando um bracelete no braço esquerdo, ela disse “Venha aqui”, e assim por diante, porque o sentimento contido nessa história é tão forte que todos os detalhes, exceto os mais necessários — por exemplo, que José entrou na sala ao lado para chorar —, são supérfluos e somente colocariam obstáculos à transmissão do sentimento. Dessa maneira, essa história toca as pessoas de todas as nações, classes e idades; chegou até nós e viverá ainda por milhares de anos. Mas tire os detalhes dos melhores romances do nosso tempo e o que resta?
Assim sendo, não é possível apontar obras da literatura moderna que satisfaçam plenamente a exigência de universalidade. Mesmo as que existem estão degeneradas pelo realismo, e seria mais correto chamá-las de provincianismo artístico.
Na música ocorre a mesma coisa e pelas mesmas razões. Devido à pobreza de conteúdo, as melodias dos compositores modernos são extraordinariamente insípidas. Para melhorar a impressão produzida por essa melodia, os compositores as entulham com modulações complexas, não apenas na harmonia própria de sua nacionalidade, mas até modulações peculiares de um certo círculo ou de uma determinada escola musical. Uma melodia — qualquer uma — é livre e pode ser entendida por qualquer um; mas quando ela é atada a uma certa harmonia e encoberta por esta, torna-se acessível apenas às pessoas acostumadas a tal harmonia e passa a ser estrangeira não apenas para outras nacionalidades, mas também para aqueles que não pertencem ao círculo dos que se acostumaram a certas formas de harmonia. Assim, a música, como a poesia, gira no mesmo círculo falso. Melodias sem valor e exclusivas, para ser atraentes, são sobrecarregadas com complicações harmônicas, rítmicas e orquestrais e se tornam, desse modo, ainda mais exclusivas: não são universais e nem mesmo nacionais — são acessíveis somente a algumas pessoas e não à nação toda.
Na música, com exceção das marchas e danças de vários compositores, que se aproximam das exigências de arte universal, podem ser apontadas apenas as canções folclóricas de vários países, da Rússia à China; na música erudita, muito poucas obras — a famosa ária de violino de Bach, o noturno em mi bemol maior de Chopin e talvez uma dúzia de outras coisas, não peças inteiras, mas passagens escolhidas das obras de Haydn, Mozart, Schubert, Beethoven, Chopin.[109]
Embora o mesmo se repita na pintura, na poesia e na música — ou seja, obras de conteúdo fraco ficam mais interessantes com a colocação de acessórios muito bem estudados de tempo e lugar, o que as provê de interesse local e temporal, mas as torna menos universais —, ainda assim, na pintura, mais do que nas outras artes, podem-se apontar obras que satisfazem as exigências da arte cristã universal, isto é, que expressam sentimentos acessíveis a todas as pessoas.
Na pintura e na escultura, os quadros e estátuas do chamado genre, reproduções de animais, paisagens, caricaturas de conteúdo compreensível para todos, bem como vários tipos de ornamento, são universais no conteúdo. Existem muitas obras assim na pintura e na escultura (bonecas de porcelana), mas a maioria desses objetos — vários ornamentos, por exemplo — não é considerada arte ou é considerada arte de tipo inferior. Na realidade, todos esses objetos, se transmitem sinceramente o sentimento do artista (ainda que possa nos parecer insignificante) e são compreensíveis para todas as pessoas, são obras de boa arte cristã genuína.
Temo ser repreendido nesse ponto porque, ao passo que nego que o conceito de beleza deva ser o assunto da arte, eu me contradigo ao reconhecer ornamentos como objetos de boa arte. Essa repreensão será injusta, porque o conteúdo artístico de diversas decorações não consiste na beleza, mas no sentimento de admiração e de deleite que o artista vivenciou na combinação de linhas ou cores, e com o qual ele contagia quem vê. A arte foi e sempre será o contágio de uma pessoa por outra, com um sentimento experimentado pelo transmissor. Entre esses sentimentos há o de admirar o que dá prazer à vista. Os objetos que dão prazer à vista podem agradar a uma quantidade pequena ou grande de pessoas, e alguns podem agradar a todos. Assim são quase todos os ornamentos. Uma pintura de paisagem de um local excepcional ou uma pintura muito especial de genre pode não agradar a todos, mas os ornamentos da Yakut à Grécia são acessíveis e evocam o mesmo sentimento de admiração em todo mundo e, portanto, essa desprezada forma de arte deveria ser valorizada na sociedade cristã de forma mais alta do que pinturas e esculturas exclusivas e pretensiosas.
Dessa forma, existem apenas dois tipos de boa arte cristã; todo o resto que não se encaixa aqui deve ser reconhecido como arte ruim, que não só não deveria ser encorajada, como deveria ser banida, rejeitada e desprezada como algo que não une, mas divide as pessoas. Podemos considerar assim, na arte verbal, todos os dramas, romances e poemas que transmitem sentimentos sectários ou patrióticos, bem como sentimentos exclusivos, adequados somente às classes ociosas e ricas — sentimentos de honra aristocrática, saciedade, tédio e pessimismo, e ainda os sentimentos refinados e perversos oriundos do amor sexual, que são totalmente incompreensíveis para a vasta maioria.
Na pintura, assim são todos os quadros falsamente religiosos e patrióticos, bem como aqueles que representam os divertimentos e delícias de uma vida exclusiva, rica e ociosa; e são assim também todas as pinturas chamadas simbólicas, nas quais o próprio significado do símbolo é acessível somente a pessoas de um determinado círculo; e, principalmente, as pinturas de objetos sensuais, toda essa ultrajante nudez feminina que enche as exposições e galerias. Pertence à mesma espécie uma boa parte da música de ópera e concerto do nosso tempo, a começar com Beethoven — seguido de Schumann, Berlioz, Liszt, Wagner —, cujo conteúdo é acessível somente para aqueles que cultivaram em si mesmos uma excitabilidade nervosa mórbida, causada por essa música artificial e excepcionalmente complexa.
Como, a Nona Sinfonia pertence à categoria de arte ruim?!”, ouço vozes indignadas exclamando.
Sem nenhuma dúvida”, respondo. Tudo o que escrevi foi somente para encontrar um critério claro e razoável pelo qual julgar os méritos de obras de arte. E esse critério, que coincide com o simples e com o bom senso, mostra-me inquestionavelmente que a sinfonia de Beethoven não é uma boa obra. É claro que para pessoas educadas na adulação a certas obras e seus autores, para pessoas cujo gosto é pervertido precisamente porque foram criadas nessa adulação, reconhecer uma obra tão famosa como má é espantoso e estranho. Mas o que se deve fazer com as indicações da razão e do bom senso?
A Nona Sinfonia de Beethoven é considerada uma grande obra de arte. Para testar essa afirmação, antes de tudo pergunto a mim mesmo: ela transmite o mais alto sentimento religioso? E respondo com uma negativa, porque a música por si só não pode transmitir esses sentimentos. E então, a seguir, pergunto: se essa obra não pertence à mais alta ordem de arte religiosa, tem ela a outra propriedade da boa arte da nossa época — a de unir todas as pessoas em um sentimento; pertence ela à arte cristã comum universal? E só posso responder com outra negativa, porque não só não vejo como os sentimentos transmitidos por ela poderiam unir as pessoas que não foram especialmente criadas para estarem sujeitas a essa complexa hipnose, como não posso sequer imaginar uma multidão de pessoas normais que pudesse entender alguma coisa dessa obra longa, intricada e artificial, a não ser pequenos fragmentos afogando-se no mar do incompreensível. E, portanto, devo concluir, queira ou não, que essa obra pertence à arte ruim. Notavelmente, ao fim dessa sinfonia está ligado um poema de Schiller que, embora não de forma clara, expressa precisamente o pensamento de que o sentimento (Schiller fala somente do sentimento de alegria) une as pessoas e suscita o amor nelas. Não obstante se cante esse poema no fim da sinfonia, a música não corresponde ao pensamento do poema, porque se trata de uma música exclusiva que não une a todos, mas somente certas pessoas que são escolhidas entre o restante.
Exatamente dessa mesma forma devem ser avaliadas muitas e muitas outras obras de arte que são consideradas grandes pelas camadas superiores da nossa sociedade. Assim, por esse critério firme devem ser avaliados também: a famosa Divina comédia, Jerusalém dividida e a maior parte das obras de Shakespeare e de Goethe, bem como as várias representações de milagres na pintura, como a Transfiguração, de Rafael, e outras. Qualquer que seja o objeto que passa por obra de arte, e não importa quanto seja apreciado pelas pessoas, para descobrir seu valor é necessário aplicar a ele a pergunta: pertence à arte genuína ou às falsificações artísticas? Tendo reconhecido que um objeto, com base na prova do contágio pelo menos em um pequeno círculo de pessoas, pertence ao campo da arte, é necessário, com base na prova de acesso geral, decidir sobre a questão seguinte: essa obra pertence à arte má e exclusiva, oposta à consciência religiosa da nossa época, ou à arte cristã que une as pessoas? E então, tendo reconhecido o objeto como pertencente à verdadeira arte cristã, será necessário, conforme a obra transmita sentimentos oriundos do amor a Deus e ao próximo ou meramente os sentimentos simples que unem todas as pessoas, atribuir a ele um lugar na arte religiosa ou na arte universal comum.
Somente com base nesse teste seremos capazes de separar tudo aquilo que passa por arte na nossa sociedade daqueles objetos que constituem um alimento espiritual real, importante e necessário. E ainda seremos capazes de nos livrar da influência da arte prejudicial e nos valer da influência da boa e verdadeira arte — o que constitui o seu propósito como influência benéfica e necessária para a vida espiritual do homem e da humanidade.

[105] Ivan Nikolaevich Kramskoy (1837-1887) foi um pintor russo de genre. Antoine Morlon (1868-1905) foi um pintor francês de temas marítimos.
[106] Jean-François Millet (1814-1875), pintor francês da escola de Barbizon, pintava cenas rurais e paisagens de tocante páthos e sinceridade. Jules Breton (1827-1906), francês, foi poeta, escritor e pintor que retratava cenas de vilarejos e a vida dos camponeses. Léon Lhermitte (1844-1925) também era francês e pintor de temas rurais. Franz von Defregger (1835-1921), pintor austríaco, retratava cenas populares do Tirol.
[107] Nikolai Nikolaevich Ge (1831-1894), pintor russo de genre, muitas vezes se dedicou a temas do Evangelho, um exemplo dos quais é O julgamento do Sinédrio. O título completo do quadro do artista alemão Alexander Liezen-Mayer (1839-1898) é A rainha Elizabeth assinando a sentença de morte de Mary Stuart.
[108] O pintor francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) retrata o fim de um combate de gladiadores no circo romano, em seu quadro Pollice verso (Polegar para baixo, em latim); suas obras são geralmente de um estilo acadêmico neogrego.
[109] “Ao sugerir exemplos do que considero a melhor arte, não dou muita importância à minha seleção porque, além de ser insuficientemente informado nos diversos tipos de arte, pertenço à classe de pessoas cujo gosto foi pervertido pela educação errada. E, portanto, eu posso estar enganado, por antigo hábito adquirido, tomando por mérito absoluto a impressão que a coisa produziu em mim quando eu era jovem. Cito exemplos de obras dos dois tipos somente para aclarar meu pensamento, para mostrar como eu, com minhas visões de agora, compreendo o mérito da arte por seu conteúdo. Devo observar, além disso, que classifico minhas próprias obras artísticas do lado da arte ruim, exceto pela história ‘God Sees the Truth’ [Deus vê a verdade], que quer pertencer à primeira categoria, e por ‘Prisoner of the Caucasus’ [Prisioneiro do Cáucaso], que pertence à segunda.” (Observação de Tolstói.)

Leon Tolstói, in O que é arte?

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