Mostrando postagens com marcador Reinaldo José Lopes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reinaldo José Lopes. Mostrar todas as postagens

23/09/2021

Peças que não se encaixam

Talvez você tenha reparado que nossa narrativa se concentrou de forma quase obsessiva num único complexo pré-histórico brasileiro. Em parte, este escriba escolheu esse caminho porque o interior mineiro é, de longe, o lugar que traz mais informações diretas sobre os primeiros brasileiros (dezenas de restos de seus corpos, para começo de conversa). Também resolvi me concentrar nos dados que são mais ou menos consensuais. O principal deles é a chegada dos primeiros americanos via Beríngia, pouco antes do final da Era do Gelo, como vimos. Não posso me despedir desta fase de nossa história sem ao menos mencionar algumas peças de formato intrigante que são ainda mais difíceis de encaixar no quebra-cabeças do que a morfologia peculiar de Luzia e companhia.
A mais importante dessas peças envolve, muito provavelmente, os dados que têm sido obtidos há décadas pela equipe da arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, da Fumdham (Fundação Museu do Homem Americano), no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí. Guidon e seus colaboradores estudaram tanto restos humanos quanto artefatos nos abrigos rochosos da caatinga, além de registrar e catalogar a arte rupestre fabulosa produzida pelos habitantes pré-históricos da região, com recriações estilizadas da fauna, de danças, cenas de caça, de combate e de sexo. Não restam dúvidas de que a ocupação humana na área do parque é muito antiga, possivelmente rivalizando com os demais sítios arqueológicos mais antigos do Brasil e da América do Sul. O problema é determinar até onde vai essa antiguidade. Com base em datações indiretas de instrumentos de pedra, a equipe da fundação, em colaboração com colegas europeus, já propôs diversas vezes que a chegada do ser humano à Serra da Capivara remontaria a dezenas de milhares de anos atrás — talvez 50 mil anos, ou mesmo antes.
A comunidade científica internacional ainda reluta muito em dar seu aval a essas datas muito remotas. Em parte, os motivos são técnicos: os instrumentos de pedra mais antigos possuem aparência tão rudimentar que não é fácil distingui-los de seixos alterados por forças naturais (como fenômenos erosivos ou simples quedas de barrancos, por exemplo). Além disso, a associação entre datas de carbono-14 (obtidas de carvão que pode proceder de fogueiras ou de incêndios naturais) e supostas ferramentas também é, para muita gente, meio dúbia. Além desses fatores, há a dificuldade de conciliar uma chegada tão antiga da nossa espécie ao continente com os fatores já conhecidos a respeito de sua expansão inicial no Velho Mundo. Daria mesmo tempo de chegar aqui há 50 mil anos? E quanto à ligação clara dos habitantes atuais do continente com a Beríngia e a Sibéria?
A equipe de Guidon tem avançado na tentativa de substanciar sua defesa das datas mais antigas. Um trabalho recente na revista científica Antiquity fez uma análise detalhada do padrão de desgaste de artefatos com idade estimada em 20 mil anos (bem menos do que a datação máxima na região, mas significativamente mais antigos que os de Monte Verde, hoje os mais velhos das Américas), sugerindo que esse desgaste só poderia ter acontecido durante tarefas como cortar carne ou desbastar madeira. Em outras palavras, só ocorreria se tais artefatos fossem mesmo instrumentos de pedra usados por gente como eu e você. O trabalho recebeu elogios cautelosos de Tom Dillehay, o americano que coordenou os trabalhos em Monte Verde — mas ele o considera um primeiro passo, e não uma confirmação definitiva. Por enquanto, portanto, é preciso esperar antes de coroar a Serra da Capivara como o marco zero da nossa espécie no continente.
O último fragmento misterioso de evidências sobre as origens dos primeiros americanos nos faz voltar à genética. O responsável pelas análises é Sergio Danilo Pena, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que conseguiu extrair DNA de crânios de botocudos, designação genérica de grupos indígenas de língua jê do interior de Minas Gerais que foram alguns dos inimigos mais renitentes dos invasores europeus até serem subjugados por ordem de Dom João VI no começo do século XIX. Após analisar o DNA de 14 dos crânios, Pena identificou em dois deles marcadores típicos das populações da Polinésia. Seria um reforço à tese de Neves ou um indício, ainda mais maluco, de que habitantes das ilhas do Pacífico atravessaram o oceano e chegaram até aqui depois do povoamento inicial do continente? O próprio grupo do bioantropólogo da USP, ao analisar as características cranianas dos famigerados botocudos, afirma ter encontrado afinidades entre eles e o povo de Luzia. Por outro lado, muita gente estranhou os resultados das análises de Pena, e não se pode descartar a possibilidade de um erro de classificação no museu onde os ossos se encontravam — crânios polinésios etiquetados como de botocudos, por exemplo. De novo, ainda é cedo para ter certeza.

Reinaldo José Lopes, in 1499: O Brasil antes de Cabral

19/09/2021

Os vivos e os mortos

Enquanto isso não acontece, arqueólogos e bioantropólogos têm conseguido pintar um retrato cada vez mais detalhado de como era a vida no interior de Minas entre o fim do Pleistoceno e o começo do Holoceno, e as surpresas não cessam de aparecer. Talvez a mais estranha delas tenha a ver com os mamíferos monstruosos da Era do Gelo que estrelaram o começo deste capítulo. Embora eles certamente tenham convivido com os paleoíndios de Lagoa Santa — há datações de ossos de preguiça-gigante e dente-de-sabre indicando que eles ainda estavam por aí há 9.500 anos, ou seja, dois milênios depois da época de Luzia —, há pouquíssimos sinais de que os primeiros brasileiros os caçassem ou devorassem.
Como dizia o saudoso astrônomo e divulgador de ciência Carl Sagan (1934-1996), ausência de evidência não é evidência de ausência. Pode até ser que os restos de um lauto churrasco de Eremotherium laurillardi tenham sido descartados na lagoa de uma caverna da Chapada Diamantina, à espera de algum paleontólogo de faro apurado que identifique marcas de descarnamento na descomunal coxa do bicho. Por enquanto, porém, os poucos achados que parecem apontar nessa direção são dúbios. Um dos mais recentes e intrigantes é justamente um fragmento de dente de preguiça-gigante, encontrado em Sergipe pelo paleontólogo Mário Dantas, que parece ter sido retrabalhado pela ação humana, embora alguns pesquisadores duvidem dessa interpretação.
Esse relativo silêncio sobre a interação entre megafauna e paleoíndios do Brasil soa especialmente estranho porque a imagem tradicional dos paleoíndios, forjada em escavações feitas na América do Norte, é a de caçadores de megafauna por excelência, gente que abatia mamutes-lanosos (Mammuthus primigenius) com as célebres lanças Clovis, dotadas de elegantes pontas de pedra, assim chamadas por causa do sítio arqueológico de Clovis, no Novo México, onde foram encontradas pela primeira vez. Todas as evidências obtidas em Lagoa Santa até agora, as quais, aliás, batem com as de outros sítios Brasil afora, é de uma gente com estratégias generalistas de sobrevivência, coletando muitos vegetais e dependendo da caça de médio e pequeno porte (veados, roedores, lagartos) para colocar carne na mesa. Especula-se que algum tipo de tabu alimentar mágico-religioso poderia ter mantido esse pessoal à distância da megafauna, mas obviamente é muito difícil substanciar de alguma maneira essa ideia. De qualquer modo, embora a maioria dos pesquisadores ainda defenda que o desaparecimento dos supermamíferos do Pleistoceno na América do Norte teve ligação direta com a chegada do homem ao cenário, a situação no nosso pedaço do continente parece ter sido bem mais complexa.
Os estudos mais recentes que têm tentado enfrentar o problema andam pintando um cenário mais cheio de nuances do que o antigo modelo do overkill (algo como “supercaça” ou “matança generalizada”, em inglês), segundo o qual os primeiros americanos abateram logo de cara uma quantidade desproporcional de grandes mamíferos, já que esses bichos, por nunca terem visto um ser humano antes, seriam especialmente vulneráveis diante de caçadores de nossa espécie. A questão é que, com a ajuda de datações com melhor resolução temporal (ou seja, que estimam a idade de um fóssil com menor margem de erro) e de dados de DNA dos bichos extintos, muitos pesquisadores têm apontado que as dezenas de espécies da megafauna não caíram mortas “de repente” (vá lá, em poucas centenas de anos) quando os paleoíndios apareceram. O processo foi relativamente gradual, estendendo-se ao longo de dezenas de milhares de anos, e parece ter tido relação com os picos de calor que pontuaram o fim do Pleistoceno, culminando com o aquecimento rápido e intenso que iniciou a nossa atual era geológica. Calor parece uma coisa boa quando o globo está todo enregelado, mas grande parte das espécies da megafauna eram bichos adaptados aos ambientes abertos e secos que se expandiram nas condições climáticas do Pleistoceno. No Brasil, por exemplo, mais calor e mais chuva teriam levado à expansão de florestas úmidas, nas quais bichos imensos como as preguiças-gigantes provavelmente não se virariam bem. Teríamos então um processo de contração populacional de supermamíferos, que teria ganhado um empurrãozinho dos caçadores humanos, os quais, nesse cenário, teriam apenas desferido o golpe de misericórdia. Esse, em suma, é o cenário que podemos traçar hoje. É óbvio que mais e melhores dados poderão alterá-lo no futuro.
Os artefatos recuperados na região de Lagoa Santa não impressionam. Em geral feitos de quartzo, material relativamente chato de trabalhar, nenhum deles é tão imponente ou bem-acabado quanto uma ponta de lança ao estilo Clovis. Não se deixe enganar por esse cenário aparentemente pouco imaginativo, no entanto. Se o povo de Luzia não era formado por caçadores formidáveis ou grandes artífices (a respeito desse segundo ponto ainda temos algumas dúvidas, já que os instrumentos mais complexos podem apenas ter se perdido, talvez por serem feitos de material perecível), sua vida cultural e seus rituais parecem ter sido riquíssimos, e pistas preciosas a esse respeito têm sido achadas no majestoso abrigo da Lapa do Santo.
Qualquer semelhança com uma catedral do século XIII não é mera coincidência. Do lado de fora, os paredões de rocha calcária se erguem dezenas de metros acima do chão da mata, e seu topo também é recoberto de árvores. Conforme o visitante se aproxima do salão principal da gruta, começam a aparecer estalactites, estalagmites e outras projeções barrocas da interação entre a rocha e a água ao longo dos milênios. O solo pulverulento do abrigo, ao ser escavado, revelou tanto artefatos quanto restos de animais e plantas — e sepulturas. Dei a sorte de estar presente quando identificaram o primeiro esqueleto humano, a começar pelos ossos do quadril. Mais de 30 outros corpos foram encontrados no lugar com o passar dos anos. O ponto central aqui é que, em muitos casos, estamos falando do que os especialistas costumam chamar de sepultamento secundário — ou seja, o que acontece quando, após um enterro inicial (ou “primário”), o cadáver é desenterrado e recebe outro destino.
Em alguns lugares do mundo, como a Judeia da época de Jesus, sepultamentos secundários são coisa simples: desenterram-se os ossos do defunto, os quais passam por uma sessão de limpeza, são acondicionados numa urna ou ossuário e levados de volta à sepultura da família. Os paleoíndios da Lapa do Santo eram muito mais imaginativos que os judeus do século I d.C., contudo. Ao examinar a variedade de disposições dos restos mortais do abrigo, catalogada pelo arqueólogo brasileiro André Strauss, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, é difícil evitar a impressão de que eles estavam fazendo instalações artísticas pós-modernas com seus mortos.
Dentes de um indivíduo eram arrancados e colocados cuidadosamente na boca de outro. Virado de cabeça para baixo, um crânio servia como uma espécie de bacia dentro da qual eram depositados os ossos de diversos outros indivíduos. Crânios de adultos passavam a ser acompanhados por esqueletos pós-cranianos (ou seja, do pescoço para baixo) de crianças e vice-versa (crânios infantis, corpo de adulto). Corante ocre e carvão eram empregados para dar um colorido especial aos conjuntos. Uma das descobertas recentes de Strauss e seus colegas é a da mais antiga decapitação do continente americano, provavelmente realizada depois da morte, para alívio do dono da cabeça. O crânio foi encontrado numa delicada composição com os ossos das mãos: a direita foi colocada do lado esquerdo do crânio, com os dedos apontando para baixo, e a mão esquerda foi disposta do lado direito, com os dedos voltados para cima.
Não há como saber que significados os moradores de Lagoa Santa atribuíam a esses sepultamentos requintados. O certo, conforme aponta Strauss, é que algumas regras de simetria simbólica parecem ter influenciado a disposição dos mortos (como o par infância/velhice, por exemplo). Seria uma forma de ressaltar a profunda unidade entre ancestrais e seus descendentes, uma “dança da morte” que unia a todos?
Colocando as coisas nesses termos, parece que o povo de Luzia era formado por sisudos filósofos da Idade da Pedra. Talvez isso seja verdade, em parte, mas outra descoberta surpreendente, debaixo do mesmo solo poeirento que recobria os bizarros sepultamentos secundários, ajudou os arqueólogos a enxergar os frequentadores da Lapa do Santo por um ângulo totalmente diferente. E a culpa é toda do Taradinho.
Taradinho” é o apelido dado por Walter Neves e seus colegas à estranha figura gravada na rocha do abrigo que é um dos mais antigos exemplares de arte rupestre do nosso continente (a datação indireta sugere uma idade de 10,5 mil anos). O que falta ao Taradinho em apuro artístico, ele compensa com (como direi?) empolgação: o pênis ereto desenhado na gravura é quase do tamanho das pernas do sujeito. A cabeça em forma de letra C, as mãos com três dedos e a postura arreganhada sugerem que não se trata de nenhuma forma ritualizada de arte, dedicada a celebrar as glórias da fertilidade humana (hipótese sacada de modo quase automático por arqueólogos quando qualquer alusão ao sexo aparece em pinturas, gravuras ou esculturas primitivas). Não, gentil leitor, é difícil tirar da cabeça a impressão de que o Taradinho é fruto de alguma irreverência adolescente, de uma hora crepuscular sem fazer nada, de alguém espremido entre a caverna e a mata.

Reinaldo José Lopes, in 1499: O Brasil antes de Cabral

31/08/2021

Um rosto inesquecível

 


Talvez você já tenha visto por aí a célebre reconstrução artística da face de Luzia, um rosto que lembra levemente o de outra celebridade bem mais recente, o do lutador de MMA Anderson Silva. Sim, ela se parecia com o que hoje chamaríamos de negro, típico da gente oriunda da África ao sul do Saara.
Luzia ganhou essa aparência em 1999, graças ao trabalho de Richard Neave, um britânico que é antropólogo forense (um sujeito que consegue reconstruir as características físicas que um defunto tinha em vida para ajudar a polícia a solucionar crimes ou acidentes). Neave tomou como ponto de partida o formato do crânio de Luzia em sua tarefa de recriar a aparência da moça para um documentário da rede BBC sobre os primeiros habitantes das Américas, mas está enganado quem pensar que a ideia de retratá-la como “negra” (usando a palavra de um jeito propositalmente vago e popular) surgiu com ele. Fazia mais de um século que certos especialistas sentiam que havia algo de muito peculiar no aspecto dos primeiros habitantes de Lagoa Santa.
Tudo começou com Peter Lund, um naturalista dinamarquês que, no começo do reinado do então imperador-menino Dom Pedro II, resolveu se mudar para um remoto arraial de Minas Gerais, tornando-se caçador de fósseis em tempo integral. Nas muitas cavernas calcárias da região, Lund desenterrou uma lista interminável de bichos da Era do Gelo, batizando-os com sonoros nomes em latim. Junto com os bichos, vieram fósseis de seres humanos. Um dos debates científicos mais quentes da época envolvia justamente a dúvida sobre a convivência do homem com essas espécies extintas — lembre-se de que estamos falando da era pré-Darwin, antes que a teoria da evolução tivesse sido formulada e aceita, quando até cientistas de renome aderiam, em linhas gerais, ao relato bíblico sobre a criação dos seres vivos e propunham que os monstros da Era Glacial teriam integrado uma “criação anterior”, destruída por catástrofes similares ao Dilúvio relatado na Bíblia. Além de detectar uma provável convivência entre pessoas como nós e a megafauna do passado, Lund notara, já em 1842, que a gente de Lagoa Santa se caracterizava por ter crânios estreitos e faces projetadas para a frente (um traço que os bioantropólogos designam com o termo “prognatismo”). São essas, em linhas gerais, as características de povos como os africanos que vivem ao sul do Saara.
No total, Lund exumou 17 crânios em Lagoa Santa, mas suas ideias sobre a aparência peculiar desses primeiros habitantes do Brasil foram sendo progressivamente esquecidas. No século seguinte, diversas outras expedições científicas escarafuncharam o solo do interior mineiro, com graus variados de capricho científico e sucesso, até a criação da Missão Arqueológica Franco-Brasileira, uma parceria entre governo brasileiro e governo da França. Capitaneada por Annette Laming-Emperaire, a equipe de arqueólogos trabalhava no abrigo rochoso batizado de Lapa Vermelha IV quando, a 11 metros de profundidade, deparou-se com uma coleção de cacos de um esqueleto humano, o qual, em vida, pertencera a uma mulher jovem. O crânio, em especial, rolara mais para o fundo da gruta. Usando técnicas indiretas de datação — por meio da análise de fragmentos de carvão associados aos restos mortais, por exemplo —, os pesquisadores estimaram que a moça morrera há 12 mil anos. Não há sinais de que ela tenha sido enterrada com as devidas honras fúnebres em Lapa Vermelha IV. É possível que seu corpo tenha sido simplesmente jogado lá dentro por um grupo de pessoas que se deslocava pela região naquele momento. Nesse caso, ela teria morrido, provavelmente de causas naturais, durante uma viagem de sua tribo, um fato possivelmente comum na vida de caçadores-coletores, gente cuja vida tem como marca a grande mobilidade, ao menos pelo que sabemos a respeito de grupos similares que ainda existem hoje.

Reinaldo José Lopes, in 1499: O Brasil antes de Cabral

20/08/2021

Quem é você, Luzia?


É preciso um esforço brutal de imaginação para tentar entender o significado da chegada dos primeiros Homo sapiens ao pedaço de terra firme que, dezenas de milhares de anos mais tarde, seria apelidado de continente americano. Nenhum ser humano vivo hoje jamais chegou sequer perto de passar por uma experiência parecida. Nossos descendentes, tanto os do século XXII quanto os do futuro longínquo, tampouco poderão se gabar de façanha semelhante, a não ser que achem algum planeta tão fervilhante de vida quanto o nosso fora do Sistema Solar e consigam cruzar anos-luz de abismos cósmicos para botar os pés em seu solo. Depois da chegada às Américas, a nossa espécie invadiu ilhas antes desabitadas e explorou a Antártida, mas pouquíssima coisa se compara à aventura dos que pisaram aqui pela primeira vez. Os europeus chamariam a América de “Novo Mundo” e, no fim da Era do Gelo, este continente, o último a ser colonizado por seres humanos, era de fato um mundo novo.
Tive um vislumbre muito tênue do que passou pela cabeça das pessoas que, há cerca de 15 mil anos, encararam essa aventura quando me acocorei no interior abafado da gruta Cuvieri, numa tarde ensolarada e seca do mês de julho de 2002. Duvido que você consiga achar esse pedacinho rochoso do Brasil Central no Google Maps, mas posso garantir que ele está lá: a uns 50 quilômetros de Belo Horizonte, perto dos municípios de Matozinhos, Pedro Leopoldo e Lagoa Santa (MG). Seus pequenos corredores naturais estão repletos de mocós (roedores típicos desses ambientes rochosos), e seus três abismos, que só podem ser visitados com a ajuda de equipamento de alpinismo, são como valas comuns para incontáveis bichos que foram morrendo na mata circundante ao longo dos séculos.
Foi num desses abismos que a equipe coordenada pelo bio-antropólogo Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos da USP, desenterrou o bicho que emprestou seu nome à gruta: a Catonyx cuvieri, uma preguiça-gigante, do tamanho de um bezerrão (que deve ter pesado uns 200 quilos quando adulta), com garras afiadas como as de seus parentes nanicos que vivem em árvores até hoje, mas, diferentemente deles, de hábitos terrestres. Num ambiente apertado, abafado e um tantinho perigoso como aquele, jornalista querendo entrevistar pesquisador só atrapalha, de modo que, para me sentir menos inútil, acabei me voluntariando para carregar o fêmur (osso da coxa) da finada monstra até o lado de fora da caverna. Antes de vir para minhas mãos, aquele pernil foi acondicionado em plástico-bolha e colocado cuidadosamente sobre uma bandeja. De fato, parecia vagamente um osso de boi adulto, de uma robustez inesperada para um fragmento de anatomia que tinha passado tantos milênios no fundo da gruta, recebendo sobre si todo santo ano, na época das chuvas, as enxurradas do barro vermelho característico da região, além dos cadáveres da fauna mais recente de Minas Gerais, bichos como antas e veados, por exemplo.
Preguiças-gigantes já seriam suficientemente esquisitas e impressionantes — a maior delas a dar o ar de sua graça no território brasileiro de então, a Eremotherium laurillardi, tinha tamanho equivalente ao de um elefante moderno —, mas estavam longe de ser as únicas criaturas inusitadas do interior do Brasil quando os seres humanos começaram a aparecer por aqui. Há uns 15 mil anos, as onças já existiam, mas precisavam disputar presas com o Smilodon populator, um dente-de-sabre ligeiramente maior que os leões de hoje. Aliás, por favor, evite colocar a palavra “tigre” na frente do nome do bicho: de tigre ele não tinha nada, já que descendia de um grupo cujo parentesco com os felinos modernos é distante. No quesito superpredadores, havia ainda ursos-de-cara-curta, parentes muito mais parrudos e ferozes do atual urso-de-óculos, um bicho dos Andes com cara de bonachão e meros 150 quilos. Calcula-se que uma espécie argentina de urso-de-cara-curta do Pleistoceno pesava dez vezes isso.
O vasto cardápio de tais carnívoros tinha como itens mais indigestos (ou, pelo menos, mais difíceis de fatiar) os gliptodontes, tatus de armadura arredondada e rígida com tamanho equivalente ao de um Fusca; as macrauquênias, popularmente comparadas a lhamas de tromba, mas sem nenhum parentesco próximo com as lhamas de verdade; os toxodontes, que lembravam uma mistura de rinocerontes e hipopótamos; e parentes remotos dos elefantes, os mastodontes ou gonfotérios, donos de trombas tão sofisticadas quanto as de seus primos de hoje da África e da Ásia. É bem possível, aliás, que algum tipo de elefante propriamente dito, pertencente ao mesmo gênero que a espécie indiana, tenha andado pela Amazônia nessa época — é o que indica um único dente do bicho achado em Rondônia alguns anos atrás.
Tamanha diversidade de mamíferos de grande porte, com dezenas de bichos endêmicos — ou seja, que só existem numa região específica do planeta, e em nenhum outro lugar —, era única no mundo, superando até a da África. Uma conjunção especialmente favorável de fatores geológicos e evolutivos explica essa festa da biodiversidade. Em primeiro lugar, durante dezenas de milhões de anos, a começar pela parte final da Era dos Dinossauros, a América do Sul virou uma gigantesca ilha, separada de todos os demais continentes pelo recém-nascido oceano Atlântico (e pelo Pacífico também, claro). Essa separação aconteceu quando a história dos mamíferos placentários (cujos fetos são protegidos e nutridos por uma placenta, como os nossos) ainda estava no comecinho. Vem daí o fato de que muitas linhagens únicas se desenvolveram do lado de cá do oceano, como é o caso das preguiças, dos tatus, das macrauquênias e dos toxodontes, bichos legitimamente made in South America. Ainda não sabemos exatamente bem como, mas o isolamento foi brevemente rompido há uns 40 milhões de anos, talvez graças a cadeias de ilhas dispostas entre o nosso litoral e o africano, que permitiram a chegada de alguns roedores e macacos primitivos da África Ocidental a estas praias. Sem eles, não teríamos capivaras, porquinhos-da-índia, micos-leões ou bugios. Parece conversa de pescador, mas o fato é que alguns animais são capazes de sobreviver a longas travessias oceânicas, às vezes arrastados por tempestades em pedaços de terra flutuante. Isso é mais fácil de acontecer com répteis, criaturas de metabolismo naturalmente lento, que chegam a sobreviver meses sem comida ou água, mas não é impossível com mamíferos. Nesses casos, basta que uma única fêmea grávida sobreviva à jornada para que uma nova população seja fundada do outro lado do oceano, e a partir daí a evolução faz o resto do serviço.
Após a aventura da dobradinha primatas-roedores, a megailha sul-americana passou tanto tempo sozinha que parecia estar destinada a se deitar eternamente em berço esplêndido, como diz o hino. Doce ilusão: forças vulcânicas lentamente cimentavam uma ponte de terra entre nosso continente “perdido” e a América do Norte. Os detalhes desse processo ainda precisam ser totalmente elucidados (esta é uma frase que, devo adverti-lo, você vai cansar de ver neste livro), mas o certo é que a formação da superponte já estava concluída uns três milhões de anos atrás. Do solo norte-americano veio uma torrente de invasores: felídeos e canídeos (ou cães e gatos, se você quiser simplificar) de todos os formatos e tamanhos, ursos, antas, dentes-de-sabre, mastodontes, veados e cavalos — a lista está longe de ser exaustiva. Muitas espécies endêmicas sul-americanas sumiram nesse troca-troca maluco, provavelmente acuadas até a extinção, mais ou menos como lojinhas do interior, desacostumadas à competição, podem acabar indo à falência quando um hipermercado barateiro e com grande variedade de produtos chega à cidade. Outras formas de vida típicas do antigo continente-ilha, porém, conseguiram transformar a crise em oportunidade e até invadiram as terras ao norte, como é o caso das próprias preguiças-gigantes.
O Novo Mundo que se abria diante dos olhos dos Homo sapiens pioneiros, portanto, era um mundo moldado pelo Grande Intercâmbio Faunístico (ou GIF, se você quiser encurtar), como ficou conhecido entre os especialistas o troca-troca de espécies entre as duas grandes Américas — digo isso sem nenhum desrespeito à América Central, é claro, mas acontece que esta surgiu justamente como o corredor pelo qual os protagonistas desse processo passavam. Colocar os olhos no Novo Mundo pela primeira vez deve ter sido de tirar o fôlego. Embora os humanos pioneiros já tivessem encontrado grandes felinos, cavalos e ursos em outros continentes, nada havia de semelhante a superpreguiças ou gliptodontes fora das Américas. É aqui que chegamos ao ponto central deste capítulo: quem, afinal, terão sido os donos desses olhos assombrados? Como vieram parar aqui e de que jeito viviam? E, aliás, por que a fauna monstruosa e exuberante que encontraram acabou se escafedendo? Para responder decentemente a essas perguntas, tudo indica que um dos melhores caminhos é prestar atenção ao que dizem as rochas e os fósseis achados no complexo pré-histórico onde fica a gruta Cuvieri, a região mineira de Lagoa Santa. A história é complicada e seu final ainda está longe de ser escrito, mas pelo menos já tem protagonista. Trata-se de uma moça azarada de 11,5 mil anos de idade, sem nem uma cova rasa para chamar de sua, que a posteridade viria a apelidar de Luzia.

Reinaldo José Lopes, in 1499: o Brasil antes de Cabral

19/02/2021

De Luzia às cidadelas do Xingu

          Esta é provavelmente uma boa hora para expor o plano desta obra, oferecer ao gentil leitor uma rápida visita guiada das instalações e torcer para que você fique até o fim da exibição. O retrato renovado do Brasil pré-cabralino como um mosaico de civilizações complexas e populosas será o clímax e prato principal de nossa jornada, como você já deve ter imaginado, mas os acontecimentos que lançaram as bases desse florescimento populacional e cultural são igualmente importantes e misteriosos, e é por eles que vamos começar.
A aventura principia, obviamente, com o momento no qual seres humanos puseram pela primeira vez seus pés neste canto do planeta. Quando foi isso? Há controvérsias (uma expressão que não será ouvida pela última vez nesta introdução, posso lhe assegurar). Os arqueólogos que trabalham no majestoso complexo pré-histórico da Serra da Capivara, no Piauí, costumam propor, com base na datação indireta de possíveis artefatos de pedra, que membros da nossa espécie poderiam ter aportado aqui há cerca de 50 mil anos. Para comparação, trata-se mais ou menos da mesma época da chegada do Homo sapiens à Austrália, e também do período imediatamente anterior à invasão da Europa – então dominada por nossos primos neandertais – pelo ser humano anatomicamente moderno. Sem nenhuma intenção de desmerecer o trabalho da equipe que estuda os sítios arqueológicos do Piauí, no entanto, é preciso ressaltar que a comunidade científica internacional, via de regra, não aceita essas datas muito antigas obtidas no Nordeste, em parte porque tem sido impossível replicá-las (ou seja, identificar artefatos ou restos humanos com idade equivalente) em outros lugares do continente americano, e mesmo do Brasil.
Por enquanto, a posição de consenso entre pesquisadores dentro e fora do país é estimar que a nossa espécie teria chegado às Américas entre 20 mil e 15 mil anos atrás (provavelmente mais perto da data mais recente, e não da mais antiga). Quase todos os indícios disponíveis hoje apontam fortemente para um avanço que começou no extremo noroeste do continente americano – saindo da atual Sibéria para chegar ao moderno Alasca, com uma expansão subsequente, ao longo de alguns milênios, rumo à América do Sul. Nessa época, conforme a Terra se aproximava do período final do Pleistoceno (fase da história do planeta mais conhecida simplesmente como Era do Gelo), havia uma conexão de terra firme entre a Ásia e a América que deve ter facilitado a passagem de pessoas e dos animais caçados por elas entre as duas pontas do oceano Pacífico.
Tudo isso parecia quase indiscutível até o começo dos anos 1990. O resumo da ópera era que os indígenas modernos não passavam de siberianos transplantados para cá, de parentesco relativamente próximo com os atuais moradores do nordeste da Ásia, que talvez tivessem chegado aqui em algumas ondas distintas, a julgar pelas diferenças físicas entre, digamos, construtores de templos de pedra da América Central e Inuit (popularmente conhecidos como esquimós) do Ártico canadense. No meio do caminho desse quadro simples e arrumadinho, no entanto, havia uma pedra de tropeço apelidada de Luzia.
A mais antiga brasileira, que morreu no interior de Minas Gerais há 12 mil anos, aparentava ter feições — para ser mais exato, detalhes da anatomia do crânio — que lembravam as de africanos negros ou de aborígines da Austrália, e não as de siberianos ou índios modernos. Luzia, porém, não é um caso isolado. Dezenas de outros esqueletos encontrados nos arredores de Lagoa Santa, assim como o dela, apresentam características cranianas parecidas, e análises adicionais também revelaram tais traços em outros crânios muito antigos (na faixa dos dez mil anos de idade, pouco mais ou pouco menos) espalhados pelas Américas. Isso significaria que pelo menos dois povos de origens muito distintas teriam colonizado nosso continente antes dos europeus, com o povo de Luzia chegando primeiro e sendo, mais tarde, substituído pelos indígenas atuais? Essa é a principal pergunta que vamos enfrentar no próximo capítulo — e posso adiantar que as respostas são cada vez mais interessantes e complicadas.
Como teremos oportunidade de ver, Luzia e seus contemporâneos, assim como as populações dos vários milênios seguintes, eram caçadores-coletores, dependendo exclusivamente da captura de animais e da coleta de vegetais selvagens para sobreviver. Os protagonistas misteriosos do capítulo seguinte também parecem ter adotado essa estratégia de sobrevivência, mas numa escala mais intensa do que os primeiros habitantes de Lagoa Santa. São eles os responsáveis pela presença dos sambaquis — estruturas formadas por um conjunto heterogêneo de rejeitos, com dimensões que vão de morrinhos modestos a grandes plataformas — ao longo do litoral brasileiro, em especial nas regiões Sudeste e Sul. Uma das visões tradicionais sobre a formação dos sambaquis é a de que eles surgiram basicamente como lixões seculares, ou mesmo milenares, que acabaram ganhando proporções gigantescas conforme todo tipo de tralha ia se acumulando. Entretanto, análises mais cuidadosas indicaram que essas estruturas podem ter funcionado como marcadores simbólicos intencionais da paisagem do litoral, talvez ressaltando a identidade dos grupos que as construíram e as rivalidades entre diversas tribos. De quebra, os sambaquis também eram usados como cemitérios e como depósitos de alguns dos objetos de arte mais fascinantes da pré-história nacional.
Urbanoides como nós tendem a não se emocionar muito quando o tema é a agricultura, mas isso tem mais a ver com os nossos preconceitos modernos do que com o lado verdadeiramente épico da revolução agrícola que tomou de assalto o futuro território brasileiro a partir de uns oito mil anos atrás. A domesticação de certas espécies vegetais, cujas características foram lentamente moldadas para otimizar o uso que certos grupos humanos faziam delas, é a base de todas as civilizações, graças à possibilidade de produzir mais alimentos numa área menor de solo e, portanto, prover o sustento de cada vez mais bocas humanas num mesmo lugar. A consequência disso, com o tempo, tende a ser o surgimento de populações numerosas, mais sedentárias (ou seja, que em geral costumam habitar o mesmo lugar por gerações a fio) e propícias às diferenças sociais e ao aparecimento de grupos mais especializados e líderes políticos que tentam controlar de forma mais estrita essa nova abundância de recursos. Em resumo, não há reis, soldados ou artistas sem plantações para dar-lhes de comer por meio do trabalho de outras pessoas na terra.
Por décadas, muitos arqueólogos e antropólogos acharam que esse processo, quando aconteceu entre povos nativos do atual Brasil, deu-se de maneira meia-boca, se você me permite o coloquialismo. A maioria dos solos do país, em especial os da região amazônica, seria pobre demais para garantir uma colheita robusta sem a mão pesada da tecnologia moderna (e, em muitos casos, nem mesmo com essa colher de chá), de modo que o processo do desenvolvimento das civilizações a partir da agricultura teria ficado truncado. Pouca gente podia ser alimentada daquela maneira, o que significaria menos potencial para a existência de sociedades complexas e diversificadas. Segundo essa visão, nenhuma tribo brasileira teria abandonado completamente a vida seminômade e relativamente igualitária.
A esta altura do campeonato, você decerto já imaginou o que eu vou dizer a seguir: o cenário “real” (pelo menos, até onde podemos concluir sobre o cotidiano real de milênios atrás, claro) é muito mais complicado do que essa caricatura. Talvez seja mais correto dizer que o desenvolvimento agrícola dos nativos brasileiros tinha como característica a exuberância excessiva, e não a pobreza, ao menos quando o assunto é a quantidade de espécies domesticadas em maior ou menor grau: cerca de oitenta vegetais diferentes só para a Amazônia e regiões vizinhas, calcula um estudo recente, incluindo nessa conta plantas tão importantes e comuns no mundo de hoje quanto o cacau, o tabaco, o abacaxi, a mandioca (sem piadas sobre a ex-presidenta Dilma Rousseff, por gentileza) e diversos tipos de pimenta. Além disso, é preciso ressaltar a importância de lavouras que não são autóctones, ou seja, nativas do solo brasileiro, mas que se tornaram parte importante do pacote tecnológico de diversos grupos indígenas da nossa parte da América do Sul, como o milho, originalmente transformado em planta agrícola no longínquo México.
Repare que eu escrevi “domesticadas em maior ou menor grau” no parágrafo acima. Com efeito, o que se vê com clareza cada vez maior na história pré-cabralina da domesticação da natureza brasileira é a importância das chamadas florestas culturais ou antropogênicas (ou seja, em alguma medida, geradas pela ação humana). Na prática, isso significa que, às vezes de forma inconsciente, às vezes com toda a consciência e propriedade, os habitantes originais do país não só transformaram certas plantas em lavouras propriamente ditas como também passaram a modificar a composição de espécies de matas que, aos nossos olhos não treinados, parecem simplesmente “naturais”. Ledo engano: boa parte das florestas tropicais brasileiras possui uma proporção de espécies de plantas úteis para o ser humano — árvores frutíferas, em especial — muito superior ao que deveríamos esperar num ecossistema não afetado pela engenhosidade humana.
E, por falar em engenhosidade, poucas coisas superam a chamada terra preta de índio. Diante da escassez de solo fértil, a reação dos habitantes originais da Amazônia parece ter sido simples: fazer o próprio solo fértil, ora. De fato, essa é a melhor definição para a terra preta amazônica — um solo gerado pela ação humana, espalhado por uma área relativamente pequena quando se considera a totalidade do território nacional, mas muito significativa quando vista sob o prisma de seu potencial para produzir alimentos, e que, séculos depois de ter sido engendrado, ainda retém proporções surpreendentemente altas de matéria orgânica e nutrientes. Ninguém sabe exatamente como a terra preta foi criada, e o fato é que ainda se discute onde termina o acaso e onde começa a intencionalidade quando o assunto é a gênese desse solo, mas já temos algumas pistas importantes que serão devidamente esmiuçadas.
Os capítulos que virão a seguir serão uma tentativa de esboçar vida e obra das mais poderosas sociedades pré-históricas que habitaram o Brasil. Quando colocadas no mapa moderno do país, elas formam uma espécie de diagrama em cruz, com uma trave (ou “braço”) que se estende de leste a oeste, da foz do Amazonas até Manaus, com prolongamentos que chegam ao distante Acre, e uma haste que se prolonga rumo ao sul, chegando à região central de Mato Grosso. Os primeiros cronistas europeus (inicialmente espanhóis) que navegaram pelo Amazonas no século XVI já mencionavam que um mundaréu de gente habitava essa área, mas os relatos sobre aldeias imensas e frotas multicoloridas e letais de canoas acabaram sendo desacreditados, entre outros motivos, porque os cronistas também mencionavam a existência de exércitos de mulheres guerreiras suspeitamente semelhantes às amazonas da mitologia greco-romana (o maior rio do mundo não ganhou seu nome atual por acaso, como você talvez tenha reparado).
Donzelas-arqueiras matadoras de homens à parte, tudo indica que os cronistas dos primórdios da conquista europeia estavam essencialmente certos. Na ilha de Marajó, entre o grande rio e o oceano Atlântico, líderes tribais parecem ter coordenado um grande esforço para construir morros artificiais e sistemas de controle das cheias do Amazonas, tudo para obter o máximo possível de recursos pesqueiros e fazer frente a seus rivais, enquanto produziam cerâmica com assombrosa qualidade artística. Os marajoaras parecem ter sido um caso relativamente raro: uma sociedade complexa que quase não dependia da agricultura. Mais para o interior, os habitantes de áreas em torno das atuais Manaus e Santarém (PA) usaram a terra preta como combustível para a criação de povoados de grande porte e, assim como ocorria em Marajó, para a criação de uma arte cerâmica de fazer inveja aos oleiros da Grécia Antiga e seus vasos decorados com as aventuras dos deuses do Olimpo. E no Xingu, como já vimos brevemente, a área de transição entre a Amazônia e o cerrado foi dominada por uma forma peculiar de urbanismo que talvez nos lembrasse vagamente Brasília (sem o concreto armado, claro): largas avenidas e praças monumentais, uma integração sutil e gradual entre áreas habitadas, “parques” e terrenos florestados.
Uma das questões mais espinhosas, depois de examinar todos esses vestígios, é saber até que ponto as culturas indígenas encontradas pelos europeus foram influenciadas por essas civilizações “perdidas” ou mesmo derivam delas. Em outros lugares do mundo, sabe-se que o domínio de técnicas agrícolas e da criação de animais conferiu a certos povos uma vantagem competitiva e demográfica (ou seja, em quantidade bruta de gente) que levou a expansões de escala continental. É por isso, por exemplo, que as línguas e culturas da família indo-europeia, derivadas de um tronco linguístico-cultural comum, dominaram praticamente toda a Europa. Há raríssimas exceções a essa regra hoje, como os bascos, os húngaros e os finlandeses. Há ecos dessas expansões nos primeiros relatos dos colonizadores sobre o avanço dos povos Tupi rumo ao litoral no século XVI, por exemplo. A ampla distribuição de certas famílias linguísticas e culturais, como os Aruak (exímios navegadores que aparentemente são os principais responsáveis pela complexidade social e cultural do Xingu), dá pistas sobre fenômenos parecidos na pré-história. Tudo indica que misturas complicadas de migrações, guerras, redes de comércio e diplomacia se juntaram para montar o mapa da diversidade cultural do país antes da conquista europeia, numa saga que ainda estamos só começando a entender.
No derradeiro capítulo, a ideia é cruzar o limiar entre a pré-história e a história propriamente dita para tentar entender por que o Brasil indígena estava fadado ao desaparecimento assim que os europeus começaram a aportar por aqui. Afinal de contas, toda essa conversa de sociedades populosas e complexas não vira balela diante do fato de que um punhado de portugueses e espanhóis conseguiu conquistar este colosso de terras? Se havia tanta gente aqui, como é que foram incapazes de organizar uma resistência decente? A resposta mais provável para esse aparente paradoxo é essencialmente biológica: alguns acasos da pré-história profunda das Américas, inclusive detalhes do que aconteceu assim que os seres humanos entraram neste continente, deixaram os indígenas muito vulneráveis diante das armas mais importantes carregadas pelos invasores, que não eram o aço das espadas europeias ou a pólvora de seus canhões, mas os microrganismos trazidos pelos colonizadores. Esse arsenal arrasador, no entanto, nem sempre foi infalível. Em alguns casos, povos nativos altamente determinados, criativos e sortudos conseguiram voltar algumas das armas do Velho Mundo contra os próprios europeus e arrancar ao menos um empate.
Antes de seguir em frente, creio que é conveniente ressaltar um ponto que, admito, pode ser óbvio — embora provavelmente não o seja para muita gente. O mapa do Brasil que temos hoje, impávido colosso de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, deitado eternamente em berço esplêndido (insira aqui seu clichê favorito do hino nacional), é uma entidade artificial, forjada a ferro e fogo pela monarquia portuguesa, com alguns retoques dados pelo Império e pelos primeiros anos da República. Movimentos pré-históricos de povos e culturas não costumavam respeitar fronteiras que só seriam imaginadas milênios mais tarde, o que significa que, na nossa jornada rumo ao “Brasil” pré-cabralino, o bom senso sugere que também não deveríamos respeitá-las. Ao falar do que acontecia nas regiões mais ao sul do atual território brasileiro, o Uruguai e a Argentina farão, naturalmente, parte da nossa história; do mesmo modo, na outra extremidade do país moderno, não vai ser possível abordar as coisas interessantes que aconteciam com os povos da Amazônia Ocidental (a extremidade oeste da floresta) sem pensar, ainda que brevemente, no intercâmbio de ideias, produtos e gente entre eles e os grupos dos Andes, lá para as bandas do Peru. É meio confuso, eu concordo, mas é mais coerente.

Reinaldo José Lopes, in 1499: O Brasil antes de Cabral