31/07/2026
A corretora de mar
A mulher entrou no meu escritório com
um sorriso muito amável e os olhos muito azuis. Desenrolou um mapa e
começou a falar com uma certa velocidade, como é uso dos chilenos.
Gosto de ver mapas, e me ergui para olhar aquele.
Quando percebi que se tratava de um
loteamento, e a mulher queria me vender uma parcela, me coloquei na
defensiva; disse que no momento suspendi meus negócios imobiliários,
e até estava pensando em vender meus imensos territórios no Brasil;
que além disso o Chile é um país muito estreito e sua terra
deveria ser dividida entre seu povo; até ficaria mal a um
estrangeiro querer especular com um trecho da faja angosta,
que é como os chilenos chamam sua tira estreita de terra, que por
sinal costumam dizer que é “larguíssima”, para assombro do
brasileiro recém-chegado, que não sabe que isso em castelhano quer
dizer “compridíssima”.
Os olhos azuis fixaram-se nos meus, a
mão extraiu de uma pasta a fotografia de um terreno plantado de
pinheirinhos de dois ou três anos: não se tratava de especulação
imobiliária; dentro de poucos anos eu seria um madeireiro, poderia
cortar meus pinheiros... Ponderei que tenho uma pena imensa de cortar
árvores.
— A senhora não tem?
Também tinha. E então baixou a voz,
sombreou os olhos de poesia, e me disse que ela mesma, corretora,
também comprara duas parcelas naquele terreno. E tinha certeza —
confessava — que também não teria coragem de mandar cortar seus
pinheiros; também adorava árvores e passarinhos, cortaria apenas os
pinheiros necessários para fazer uma casinha de madeira: o lugar é
lindo, em um pequeno planalto, dá para uns penedos junto ao mar; as
árvores choram, e cantam com as ondas quando sopra o vento do
oceano...
Confesso que paguei a primeira
prestação: ela passou o recibo, sorriu, me disse muchas gracias
e hasta lueguito e partiu com seus olhos azuis, me deixando
meio tonto, com a vaga impressão de ter comprado um pedaço do
Oceano Pacífico.
Santiago do Chile, abril, 1955.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
Canção de Mim Mesmo
16
Sou dos velhos e jovens, dos tolos
tanto quanto dos sábios,
Desatento com os demais, sempre atento
aos demais,
Maternal não menos que paternal, uma
criança assim como um homem,
Recheado com o recheio que é tosco e
recheado com o recheio que é fino,
Alguém da Nação de muitas nações,
igual ao menor e igual ao maior,
Um Sulista logo um Nortista, um
plantador desinteressado e hospitaleiro à margem do Oconee moro,
Um Yankee a meu modo pronto para o
comércio, minhas juntas as mais maleáveis da terra e as mais
rígidas da terra,
Um kentuckiano andando no vale de
Elkhorn vestido de couro de cervo, perneiras, um louisianiano ou
georgiano,
Um barqueiro sobre lagos ou baías ou
costas, um habitante de Indiana, Wisconsin, Ohio,
À vontade com raquetas Kanadianas ou
no mato, ou com pescadores em Terra-Nova,
À vontade na frota de navios
quebra-gelo, velejando com o resto e bordejando,
À vontade nas colinas de Vermount ou
nos bosques do Maine, ou rancho do Texas,
Camarada de Californianos, camarada de
Noroestinos livres, (amando suas grandes proporções,)
Camarada de jangadeiros e carvoeiros,
camarada de todos que apertam mãos e oferecem bebida e comida,
Um aprendiz com os mais simples, um
professor dos mais pensativos,
Noviço iniciando no entanto
experiente de miríades de estações,
De todo tom e casta sou, de todo
renque e religião,
Fazendeiro, mecânico, artista,
cavalheiro, marinheiro, quacre,
Prisioneiro, gigolô, brigão,
advogado, médico, padre.
Resisto a qualquer coisa mais que
minha própria diversidade,
Respiro o ar mas deixo bastante atrás
de mim,
E não sou convencido, e estou no meu
lugar.
(A mariposa e os ovos de peixe estão
em seu lugar,
Os sóis brilhantes que vejo e os sóis
escuros que não vejo estão em seu lugar,
O palpável está em seu lugar e o
impalpável está em seu lugar.)
Walt Whitman, em Folhas de Relva
Soma zero
“Sei que temos esse jantar, não se
preocupe, estou vendo se encontro aquele vestido... Vou a outras
lojas, depois... Tchau.”
A mulher desliga o celular, voltam a
se abraçar na cama, esquecem a vida.
“Esse coração batendo forte é o
meu ou o seu?”
“O nosso, o suor também é nosso,
mas esses fios de cabelo na sua mão são meus.”
Silêncio.
“Não fica olhando para o teto, olha
para mim.”
O homem olha para a mulher.
“Estou muito feliz. Sabe quanto
tempo vou ficar feliz?”
Silêncio.
“Até entrar no meu carro e chegar
em casa. Às vezes tenho vontade de me drogar, mas sou muito medrosa
para fazer isso.”
“Não ia resolver nada.”
“Quando cheguei em casa ontem ele
perguntou, Você foi ao cabeleireiro para fazer um penteado desses?
Inventei uma resposta... Estou andando sobre carvões em brasa...
Você não entende, você sai de casa e bate a porta, eu tenho que
deixar instruções com empregadas, dar explicações, criar
cenários, dizer mentiras, e na volta tudo se repete, novas
determinações, providências, desempenhos, embustes. O lar é um
monstro que nunca tem as suas exigências saciadas, está sempre
pedindo mais. À noite tenho que ir a festas e jantares com ele e os
nossos amigos, onde me mostro alegre, e sou a que ri mais alto, a que
fala com mais entusiasmo, mas quando chego em casa estou com vontade
de vomitar e preciso tomar um tranquilizante para poder dormir.”
“Eu te amo.”
“Não precisa fazer essa cara de
cachorro sem dono, esquece o que eu disse.”
Ela o beija. Fodem novamente.
“Você puxa os meus cabelos com
força. Você é sádico e maluco. Um pouco sádico e muito maluco.”
“É sem querer.”
“Mas eu gosto, se nós tivéssemos
um jogo de dominó você jogaria comigo?”
“Acho que sim. Quer ouvir uma
música? Aquela de que você gosta.”
“Me deixa triste. Não fica olhando
para o teto.”
“Estou deitado de barriga para
cima.”
“Também estou deitada de barriga
para cima e estou olhando para você. Quer que eu diga o que estou
vendo?”
“Não.”
“E você, agora que está olhando
para mim e o seu pescoço está doendo, vê o quê?”
“A mulher mais bonita do mundo.”
“Quer que eu chore?”
“Não.”
Ela chora, sem soluçar, mas as
lágrimas brilham tanto que ele as vê, mesmo olhando para o teto.
“Meu marido está desconfiado.”
“A vida é um jogo de soma zero.”
“O que quer dizer isso?”
“Um jogo em que a soma dos ganhos e
das perdas dos jogadores é sempre zero.”
“E o que acabamos de ganhar é zero?
O que ganhamos todos os dias é zero?”
“Só quando formos somar com as
perdas, as perdas nunca são zero.”
“Isso é uma coisa horrível, não
é? Olha para mim.”
“Estou olhando.”
“Você está com medo. Medo de que
eu me mude para cá. De que eu me torne um peso para você.”
“Não diga isso.”
“Eu vivo com medo o tempo todo, mas
o meu medo não é maior do que o meu amor. Diga, o seu medo é maior
do que o seu amor?”
“Não estou com medo.”
“Mas esse seu medo de eu me mudar
para cá só acontece às vezes, se acontecer sempre, o seu amor vai
diminuir. E acaba, é isso?”
“Temos que ser lúcidos.”
“A razão sobre os sentimentos, que
coisa mais árida, você não respondeu.”
“Não sei responder.”
“Você não sofre por saber que eu,
eu...”
“Você?”
“Durmo toda noite com outro.”
“Prefiro não falar sobre isso.”
“Você não sabe fazer nada para
ganhar dinheiro, e se formos morar debaixo da ponte o nosso amor
acaba, só podemos viver dentro de um certo esquema. É isso que você
não sabe responder?”
“Já estive internado. Coisas da
cabeça, não é contagioso.”
“Você nunca me disse isso.”
“Estou dizendo agora. Já trabalhei
numa loja de discos e numa livraria, mas me mandaram embora.”
“Também nunca me disse isso.”
“Estou dizendo agora.”
“Nunca trabalhei, nem escrevi, nem
pintei, nem coisa nenhuma, saí da faculdade para casar, não
terminei o curso, estudava biologia, uma órfã de pai e mãe
estudando biologia, você acredita?”
“O que uma órfã deve estudar?”
“Talvez contabilidade, informática.
Mas você sofre ou não? Por eu dormir toda noite com outro.”
“Fico infeliz.”
“Fica infeliz mas não chora, eu
choro sempre.”
“Minha mãe não me ensinou a
chorar.”
“Ela já morreu, não morreu? E o
que ela dizia? Homem não chora?”
“Ela não chorava.”
“Mas tinha um marido e amava outro
homem? Um artista, um intelectual incapaz de ganhar dinheiro com o
seu trabalho? Desculpe o intelectual, sei que você não gosta dessa
palavra.”
“Às vezes, sinto vontade de chorar,
quando você vai embora e fico sozinho, mas não consigo.”
“E quando a dor é física? Nem
assim?”
“Tomo analgésico. Enxugue o seu
rosto com o lençol.”
“Você não acha que temos que fazer
alguma coisa? Ou vamos esperar a vida corromper os nossos
sentimentos?”
“Que coisa?”
“Já pensei em me matar, depois de
matar você. Pára de olhar para o teto, não estou brincando.”
“Daqui a pouco o meu pescoço vai
doer.”
“E eu?”
“Você o quê?”
“O que significo para você?”
“Alegria, deleite, companhia, amor.”
“Mas a arte é mais importante que
tudo... E se quando você morrer de velho, tudo o que você fez for
esquecido, jogado no lixo? Você não tem coragem nem de cortar a sua
orelha.”
“Se você quiser, eu corto.”
“Então corta agora.”
Ele se levanta da cama. Depois de
algum tempo, volta com um pano apertado de encontro à face, sangue
escorre do seu pescoço, ele estende a outra mão fechada para ela,
abre a mão. Dentro está a orelha decepada.
“Um presente para você.”
“Meu Deus, você tem que ir para um
hospital.”
“Esterilizei a faca antes e limpei o
ferimento com um antisséptico, a hemorragia passa logo.”
“Sua mãe, onde quer que ela esteja,
deve estar muito orgulhosa de você.”
“Estou contando com isso.”
“Sabia que ia ter que cortar uma
orelha para mim?”
“Comprei uma faca afiada.”
“E eu tenho que fazer o quê, por
você?”
“Não sei, mas não é cortar os
pulsos.”
“Acho que estamos enlouquecendo.”
“Eu já cheguei no meu ponto. Não
passo disso.”
“Posso te contar uma coisa? Meu
analista anda preocupado comigo. Ele não sabe, mas acho que ainda
não cheguei no meu ponto. Tenho que ir embora. Posso levar a orelha
comigo?”
“É sua, chegando em casa, põe num
frasco com formol, a farmácia vende.”
“Mas o que eu gostaria mesmo é que
você também chorasse.”
“Isso é mais difícil.”
“Nunca deixarei de te amar.”
“Nem eu.”
“Amanhã é sábado.”
“Eu sei, a gente não vai se ver,
nem no domingo.”
“Talvez você chore, neste fim de
semana.”
“Vou tentar.”
“Pinta uns girassóis.”
“Não sei pintar aqueles girassóis.
Talvez se sofresse de glaucoma.”
“Escreve um soneto.”
“Não sei escrever sonetos.”
Ela se veste, percorre o quarto e a
sala para ver se não está esquecendo alguma coisa, abre a porta da
rua.
“Soma zero?”
Fecha a porta, sai.
Rubem Fonseca, em Pequenas Criaturas
Do diário de Paris
O que é da lua são os gobelins, as borboletas bruxas, os rostos depois do amor, a tua pele…
Guimarães Rosa, em Ave, Palavra
1629 – Caranguejeiras
Bascuñán
A cabeça range e dói. Estendido no
barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y
Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro,
metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele.
Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe
que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o
sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo
deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos
araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua
terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é
o que apagou as mechas. Perdeste. Escutas os índios, que discutem a
tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas
coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo
branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O
cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas
rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o
vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
“É o verdugo”, pensa Francisco.
“Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz
alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes
da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e
desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e
o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao
sul.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
30/07/2026
Uma tarde plena
O sagui é tão pequeno como um rato,
e da mesma cor.
A mulher, depois de se sentar no
ônibus e de lançar uma tranquila vista de proprietária pelos
bancos, engoliu um grito: ao seu lado, na mão de um homem gordo,
estava aquilo que parecia um rato inquieto e que na verdade era um
vivíssimo sagui. Os primeiros momentos da mulher versus sagui foram
gastos em procurar sentir que não se tratava de um rato disfarçado.
Quando isso foi conseguido, começaram
momentos deliciosos e intensos: a observação do bicho. O ônibus
inteiro, aliás, não fazia outra coisa.
Mas era privilégio da mulher estar ao
lado do personagem principal. De onde estava podia, por exemplo,
reparar na minimeza que é uma língua de sagui: um risco de lápis
vermelho.
E havia os dentes também: quase que
se poderiam contar cerca de milhares de dentes dentro do risco da
boca, e cada lasca menor que a outra, e mais branca. O sagui não
fechou a boca um instante.
Os olhos eram redondos,
hipertireóidicos, combinando com um ligeiro prognatismo – e essa
mistura, se lhe dava um ar estranhamente impudico, formava uma cara
meio oferecida de menino de rua, desses que estão permanentemente
resfriados e que ao mesmo tempo chupam bala e fungam o nariz.
Quando o sagui deu um pulo no colo da
senhora, esta conteve um frisson, e o prazer encabulado de quem foi
eleita.
Mas os passageiros olharam-na com
simpatia, aprovando o acontecimento, e, um pouco ruborizada, ela
aceitou ser a tímida favorita. Não o acariciou porque não sabia se
esse era o gesto a ser feito.
E nem o bicho sofria à míngua de
carinho. Na verdade o seu dono, o homem gordo, tinha por ele um amor
sólido e severo, de pai para filho, de dono para mulher. Era um
homem que, sem um sorriso, tinha o chamado coração de ouro. A
expressão de seu rosto era até trágica, como se ele tivesse
missão. Missão de amar? O sagui era o seu cachorro na vida.
O ônibus, na brisa, como
embandeirado, avançava. O sagui comeu um biscoito. O sagui coçou
rapidamente a redonda orelha com a perna fina de trás. O sagui
guinchou. Pendurou-se na janela, e espiou o mais depressa que podia –
despertando nos ônibus opostos caras que se espantavam e que não
tinham tempo de averiguar se tinham mesmo visto o que tinham visto.
Enquanto isso, perto da senhora, uma
outra senhora contou a outra senhora que tinha um gato. Quem tinha
posses de amor, contou.
Foi nesse ambiente de família feliz
que um caminhão quis passar à frente do ônibus, houve quase
encontro fatal, os gritos. Todos saltaram depressa. A senhora,
atrasada, com hora marcada, tomou um táxi.
Só no táxi lembrou-se de novo do
sagui.
E lamentou com um sorriso sem graça
que – sendo os dias que correm tão cheios de notícias nos jornais
e com tão poucas para ela – tivessem os acontecimentos se
distribuído tão mal a ponto de um sagui e um quase desastre
sucederem na mesma hora.
“Aposto” – pensou – “que
nada mais me acontecerá durante muito tempo, aposto que agora vou
entrar no tempo das vacas magras.” Que era em geral seu tempo.
Mas nesse mesmo dia aconteceram outras
coisas. Todas até que dentro da categoria de bens declaráveis. Só
que não eram comunicáveis. Essa mulher era, aliás, um pouco
silenciosa para si mesma e não se entendia muito bem consigo
própria.
Mas assim é. E jamais se soube de um
sagui que tenha deixado de nascer, viver e morrer – só por não se
entender ou não ser entendido.
De qualquer modo fora uma tarde
embandeirada.
BILHETE A ÉRICO VERÍSSIMO
Não concordo com você que disse:
“Desculpem, mas não sou profundo”.
Você é profundamente humano –
e que mais se pode querer de uma pessoa? Você tem grandeza de
espírito. Um beijo para você, Érico.
Clarice Lispector, em Onde Estivestes de Noite
Confetis
Feito aquele enredo dos Três
Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de
carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena
idéia.
Durante os três (quatro, cinco...)
dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e
Único, fora os outros trinta – Cidadão Samba, Cidadão
Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas,
D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e
menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos
fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo
mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos
fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja
maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem
grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista
(os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um
General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e
cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela
mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque
nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o
chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas)
apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”...
Cartolas enormes, próprias pros
palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o
jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho,
empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o
hábito levantado...
A Rainha Louca sentada num Círio de
Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é
Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na
Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no
Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas
listrinhas claras – tirou o bustiê, arrancaram a tanga – no
corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer,
embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em
Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori
ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido,
tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e
sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o
calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o
tesão...
A fantasia de legionário, miragem de
todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita –
materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as
cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô – até que enfim! -
corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol
palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique,
morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo
o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e
do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general
Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho,
Tamandaré batendo o pé:
– Sem minhas guias e colares por
cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é
aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei,
recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias
imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como
qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da
Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a
maior zona.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
Shakespeare
Os que se empenham em provar que as
obras de Shakespeare só podem ter sido escritas por outro, estes,
por sua vez, só podem ser uns invejosos póstumos. O caso desses
críticos não é um caso apenas divertido, como se vê. E grave, e
triste, e patológico... São os parentes ambiciosos desses, que
vivem catando “influências” na obra de seus contemporâneos.
Mário Quintana, em Caderno H
Capítulo 74 – História de Dona Plácida
Não te arrependas de ser generoso; a
pratinha rendeu-me uma confidência de Dona Plácida, e
conseguintemente este capítulo. Dias depois, como eu a achasse só
em casa, travamos palestra, e ela contou-me em breves termos a sua
história. Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher
que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então
ralava coco e fazia não sei que outros misteres de doceira,
compatíveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um
alfaiate, que morreu tísico algum tempo depois, deixando-lhe uma
filha.
Viúva, com pouco mais de vinte anos,
ficaram a seu cargo a filha, com dois, e a mãe, cansada de
trabalhar. Tinha de sus-tentar a três pessoas. Fazia doces, que era
o seu ofício, mas cosia também, de dia e de noite, com afinco, para
três ou quatro lojas e ensinava algumas crianças do bairro, a dez
tostões por mês. Com isto iam-se passando os anos, não, não a
beleza, porque não a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros,
propostas, seduções, a que resistia.
– Se eu pudesse encontrar outro
marido, disse-me ela, creia que me teria casado; mas ninguém queria
casar comigo.
Um dos pretendentes conseguiu fazer-se
aceito; não sendo, porém, mais delicado que os outros, Dona Plácida
despediu-o do mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito.
Continuou a coser para fora e a escumar os tachos. A mãe tinha a
rabugem do temperamento, dos anos e da necessidade: mortificava a
filha para que tomasse um dos maridos de empréstimo e de ocasião
que lixa pediam. E bradava:
– Queres ser melhor do que eu? Não
sei donde te vem essas fidúcias de pessoa rica. Minha camarada, a
vida não se arranja à toa; não se come vento. Ora esta! Moços tão
bons como o Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, não
é?
Dona Plácida jurou-me que não
esperava fidalgo nenhum.
Era gênio. Queria ser casada. Sabia
muito bem que a mãe o não fora, e conhecia algumas que tinham só o
seu moço delas; mas era gênio e queria ser casada. Não queria
também que a filha fosse outra coisa. Trabalhava muito, queimando os
dedos ao fogão, e os olhos ao candeeiro, para comer e não cair.
Emagreceu, adoeceu, perdeu a mãe, enterrou-a por subscrição, e
continuou a trabalhar. A filha estava com quatorze anos; mas era
muito fraquinha, e não fazia nada, a não ser namorar os capadócios
que lhe rondavam a rótula. Dona Plácida vivia com imensos cuidados,
levando-a consigo, quando tinha de ir entregar costuras, e a gente
das lojas arregalava e piscava os olhos, convencida de que ela a
levava para colher marido ou outra coisa. Alguns diziam graçolas,
faziam cumprimentos; a mãe chegou a receber propostas de dinheiro...
Interrompeu-se um instante, e
continuou logo:
– Minha filha fugiu-me; foi com um
sujeito, nem quero saber... Deixou-me só, mas tão triste, tão
triste, que pensei morrer. Não tinha ninguém mais no mundo e estava
quase velha e doente. Foi por esse tempo que conheci a família de
Iaiá: boa gente, que me deu que fazer, e até chegou a me dar casa.
Estive lá muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada,
costurando. Saí quando Iaiá casou. Depois vivi como Deus foi
servido. Olhe os meus dedos, olhe estas mãos... E mostrou-me as mãos
grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha. - Não se
cria isto à toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria...
Felizmente, Iaiá me protegeu, e o senhor doutor também... Eu tinha
um medo de acabar na rua, pedindo esmola…
Ao soltar a última frase, Dona
Plácida teve um calafrio.
Depois, como se tomasse a si, pareceu
atentar na inconveniência daquela confissão ao amante de uma mulher
casada, e começou a rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, “cheia
de fidúcias”, como lhe dizia a mãe; enfim, cansada do meu
silêncio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do
botim.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
29/07/2026
O desmemoriado de Vigário Geral
Lembrava-se, como se fosse ontem, isto
é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o
contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol
de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na
estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que
telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse
a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque
do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura
cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e
quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, em Estrela da manhã
Marta
“Tenho quarenta anos, sou um homem
sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro,
moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor
e respeito. Romântico Incorrigível.”
Fiquei uma semana, eu, o Romântico
Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava
ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
“Querido Romântico Incorrigível.
Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com
alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e
principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
“Querida Louise Brooks. Nunca casei,
não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo
contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida
modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher
ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas
eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o
pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de
Louise Brooks?”
“Querido Romântico. Louise Brooks
era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma
foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher
com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro
aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou
encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise
Brooks.”
“Querida Louise. Não, não tenho
namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar
pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo?
Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso.
Romântico.”
“Querido Romântico. Sou uma pessoa
tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela
primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet.
Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela
mulher.
“Querida Louise. Também sou uma
pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas
sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem.
Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim.
Romântico.”
“Querido Romântico. Na minha casa é
impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí
amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
“Querida Louise. Meu endereço é
rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro
andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a
especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca
o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à
medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava
pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
“É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco
depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos
tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia
lindas e longas pernas alvas.
“Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava.
Ela entrou. Pedi que se sentasse.
“Bonito apartamento. É seu?”
“É. Tenho outro, na Barra, que está
alugado.”
“Meu nome verdadeiro é Diana.”
“O meu é Carlos.”
“Olha aqui a foto da Louise Brooks”,
ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O
cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda
mulher.
“Quer beber alguma coisa?”
“Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de
uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
“Gosto do meu sem gelo, só água e
uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
“O meu com gelo, por favor, e
bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei
os copos em uma bandeja.
“Você tem alguma coisa para a gente
beliscar?”, ela perguntou.
“Vou ver lá dentro, não demoro,
respondi.”
Demorei um pouco, com o saco de
biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise
ergueu o copo.
“Queria fazer um brinde, desejando
que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu
e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
“Antes de beber vou apanhar também
uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo.
Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação
duradoura”, eu disse.
“Tim, tim”, respondeu ela, batendo
com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva
com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas
mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a
Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem
separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
“Vou buscar mais água na cozinha”,
eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei,
apoiando-me no espaldar da poltrona.
“Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
“Está tonto mesmo ou isso é um
truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava
mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na
poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu
para a frente.
“Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu
braço.
“Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir
o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em
seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
“Ígor, ele colapsou. As coisas
devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o
endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na
poltrona. Ouvi a campainha.
“É o Ígor”, ouvi a voz no
interfone.
“Sobe”, disse Diana.
Barulho de porta sendo aberta.
“Foi fácil?”, voz de homem.
“Moleza. Acho que joias, dólares e
o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a
chave.”
“Deve estar no bolso dele.”
“Já revistei. Não tem chave
nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
“Não gosto disso, Marta.”
“Porra, ele viu a minha cara. Se
você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço
completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
“Vamos arrombar a porta”, disse
Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a
arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo
saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os
dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me
levantei do sofá.
“Marta Castro e Ígor da Silva,
vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão
acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o
obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas
Ígor matara assim mesmo.
“Quem matou foi você”, repetia
Marta.
“Você mandou, sua puta”, dizia
Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à
delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao
juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
Antes de ser trancafiada, Marta
conversou comigo.
“Você não ficou desacordado e eu
coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi
isso?”
“Quando fui na cozinha troquei de
copo. O que eu bebi estava limpo.”
“Como foi que vocês me
descobriram?”
“Examinando o computador da vítima
de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta.
Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter
mudado o seu nome.”
“Mas eu queria ser ela. Louise é
parecida comigo, não é?”
“Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta
poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo
sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres
Piloto de Guerra
VIII
— Artilheiro!
— Capitão?
— Você ouviu? Seis caças, seis, na
frente, à esquerda!
— Ouvi, Capitão!
— Dutertre, eles nos viram?
— Viram. Viraram para nós. Nós
estamos quinhentos metros acima.
— Artilheiro, ouviu? Acima
quinhentos metros.
— Dutertre! Longe ainda?
— … alguns segundos.
— Artilheiro, ouviu? Estarão na
cauda em alguns segundos.
— Agora estou vendo! Um enxame de
vespas envenenadas.
— Artilheiro! Passaram no través.
Você vai ver num segundo. Ali!
— Eu… Não estou vendo nada. Ah!
Vi!
— Eu não os vejo mais!
— Estão no nosso encalço?
— Estão no nosso encalço!
— Subindo rápido?
— Não sei… Não creio…
— Não!
— O que o senhor decide, Capitão?
Foi Dutertre quem falou.
— O que você quer que eu decida! E
nos calamos.
Não há nada a decidir. Isso pertence
exclusivamente a Deus. Se eu virasse, encurtaria o intervalo que nos
separava. Como continuamos em frente, na direção do sol, e em
grande altitude não se sobe quinhentos metros sem perder o alvo por
alguns quilômetros, pode ser que antes de atingirem nossa altura,
quando retomarão sua velocidade, já nos tenham perdido ao sol.
— Artilheiro, ainda?
— Ainda.
— Passamos deles?
— Hã… Não… Sim!
Pertence a Deus e ao sol.
Prevendo o eventual combate (embora um
Grupo de Caça mais assassine do que combata), eu me esforço,
lutando contra ele com todos os meus músculos, para desbloquear meus
pedais gelados. Tenho uma estranha sensação, mas ainda tenho os
caças nos olhos. E ponho todo o meu peso nos comandos rígidos.
Uma vez mais observo que estou, de
fato, menos comovido nesta ação, a qual, entretanto, reduz-me a uma
espera absurda, do que eu estava ao me equipar. Sinto também uma
espécie de raiva. Uma cólera benfazeja.
Mas nenhuma embriaguez do sacrifício.
Tenho vontade de morder.
— Artilheiro, nós os alcançamos?
— Alcançamos, Capitão.
Vai dar.
— Dutertre… Dutertre…
— Capitão?
— Não… Nada.
— Que foi, Capitão?
— Nada… Achei que… Nada…
Eu não lhes direi nada. Não é coisa
que se apronte. Se ensaiar uma espiral, eles verão. Verão que estou
esboçando uma espiral…
Não é normal que eu esteja ensopado
de suor com cinquenta graus de frio. Não é normal. Oh! Já entendi
o que está acontecendo: desmaio devagarinho. Bem devagar…
Vejo o painel de bordo. Não vejo o
painel de bordo. Minhas mãos amolecem no manche. Não tenho nem
força para falar. Abandono-me. Abandonar-se…
Apertei o tubo de borracha. Recebi no
nariz uma golfada que traz a vida. Então não é uma pane de
oxigênio. É… Sim, claro, como fui estúpido. É o pedal. Exerci
contra meus pedais esforços de estivador, de caminhoneiro. A dez mil
metros de altitude, parecia um lutador de circo. Porém, meu oxigênio
é limitado. Tinha de consumir com moderação. Pago pela orgia…
Respiro com sofreguidão. Meu coração
bate rápido, muito rápido. É como um guizo fraco. Nada direi à
minha tripulação. Se eu tentar uma espiral, eles saberão logo!
Vejo o painel de bordo… Não vejo o painel de bordo… Sinto-me
triste no meu suor.
A vida me voltou lentamente.
— Dutertre!
— Capitão?
Gostaria de lhe contar o que
aconteceu.
— Eu achei que…
Mas renuncio a me exprimir. As
palavras consomem oxigênio demais, e meus três vocábulos já me
tiraram o fôlego. Sou um fraco, fraco convalescente…
— Que foi, Capitão?
— Não… Nada.
— Capitão, o senhor está realmente
enigmático!
Estou enigmático. Mas estou vivo.
— Não… não nos atingiram…
— Ah! Capitão, é provisório! É
provisório: tem Arras.
Assim, durante alguns minutos, eu
acreditei poder voltar e, no entanto, não observei em mim essa
angústia brilhante que, dizem, embranquece os cabelos. E me lembro
de Sagon. Do depoimento de Sagon, a quem visitamos alguns dias depois
do combate que o abateu, há dois meses, em zona francesa: o que
sentira, Sagon, quando os caças o enquadraram, pregaram, de algum
modo, em seu poste de execução, considerou-se morto naqueles dez
segundos?
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra
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