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15/09/2023

Beatriz | Edu Lobo e Chico Buarque, 1983


Assim que foi lançada, em 1983, na trilha sonora de O Grande Circo Místico, “Beatriz” virou a favorita entre os muitos admiradores de Edu Lobo e se consagrou como um clássico instantâneo, com lugar de honra em qualquer lista das mais belas canções brasileiras. A lírica descrição da vida e dos mistérios de uma atriz está entre as preciosidades que Edu Lobo e Chico Buarque escreveram por encomenda do Balé do Teatro Guaíra, de Curitiba.
Revelados e consagrados durante os festivais competitivos que sacudiram o país nos anos 1960, Edu Lobo (1943) e Chico Buarque nunca deixaram as disputas minarem a amizade que se estreitou através dos anos e que virou uma parceria perfeita a partir desse musical. Desde então, em meio às suas carreiras individuais, eles já se juntaram mais três vezes em colaborações para os palcos, nas peças musicais O corsário do rei, Dança da meia-lua e Cambaio.
Naquele início dos anos 1980, quando o novo rock brasileiro começava a tomar as paradas, estourando em rádios e programas de TV, Edu e Chico velejavam contra a corrente com o complexo universo lírico de O Grande Circo Místico. A partir de um enredo inspirado num poema do alagoano Jorge de Lima, eles criaram a trilha sonora com música circense, blues, baladas, canções e valsas, como a delicada “Beatriz”, prova de fogo para intérpretes pelas surpresas e dificuldades de sua linha melódica e pelas intensas emoções da linda letra.
“Sim, me leva para sempre, Beatriz / Me ensina a não andar com os pés no chão / Para sempre é sempre por um triz / Aí, diz quantos desastres tem na minha mão / Diz se é perigoso a gente ser feliz.”
No disco com a trilha original, lançado em 1983 pela Som Livre, “Beatriz” veio na voz de Milton Nascimento, no auge de sua técnica e sensibilidade. É uma versão definitiva, insuperável: só a voz de Milton, o piano de Cristóvão Bastos e um deslumbrante arranjo de cordas de Chiquinho de Moraes. Mas muitas outras gravações memoráveis foram feitas por algumas das melhores vozes do Brasil, como Zizi Possi, Mônica Salmaso, Ed Motta e Ana Carolina, todas à altura da beleza arrebatadora da canção.

Nelson Motta, in 101 canções que abalaram o Brasil

02/10/2015

Edu Lobo - "Choro Bandido"



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Saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão
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15/12/2011

Um disco fundamental da MPB


A Música de Edu Lobo
por Edu Lobo
1964


Quando no início dos anos sessenta a Bossa Nova já dava seus primeiros passos rumos a uma carreira internacional bem sucedida e alguns de seus componentes já fincavam raízes permanentes ou temporárias nos Estados Unidos, aqui no Brasil o cenário se abria para uma nova geração que surgia no bojo do movimento renovador. Eram jovens compositores que influenciados pelos realizadores da Bossa Nova iriam seguir um caminho próprio, mas que revelavam em sua poética e em suas melodias a forte influencia daqueles que modificaram e modernizaram esteticamente a musica brasileira.
O país vivia um momento de larga produção cultural comandada por rapazes de talentos múltiplos que queriam mostrar sua cara e fazer história, seja no teatro, no cinema ou na música, projetando seus idealizadores. Fazendo um contraponto com o movimento renovador e de redescoberta de nossa nacionalidade ocorrido com a Semana de Arte Moderna de 1922 com seus representantes como Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa Lobos, Manuel Bandeira dentre outros, a nova geração que aparece no cenário a partir de 1964 vem também com uma proposta de discutir e idealizar um Brasil que vivia um momento de vanguarda dentro do cenário cultural internacional.
Aqui, contudo, não estamos querendo comparar as propostas dos dois cenários, mas apenas demonstrar que foi a partir da força criadora da Bossa Nova que se proporcionou em nosso país o surgimento de uma grande quantidade de talentos em diversas áreas da atividade cultural na mesma proporção ou ate mesmo em número maior do que aqueles pioneiros dos anos vinte. Por outro lado podemos também afirmar que após o período que vai de 1930 a 1945 onde foram revelados os compositores e interpretes que formaram a base da musica popular do Brasil, a nova geração oriunda da Bossa Nova e que adentra os anos sessenta representa outro momento de grande transformação e consolidação da nossa canção popular como veículo de entretenimento e parceira das profundas transformações sociais que o país estava atravessando. Dentre esses realizadores iremos encontrar o jovem Eduardo de Góes Lobo, filho do compositor e radialista Fernando Lobo e que iria se tornar nacionalmente conhecido como um dos nossos mais sólidos criadores na área musical, assinando-se como Edu Lobo.
Em dezembro de 1964 ele entraria no estúdio da Rio Som no Rio de Janeiro para iniciar as gravações de seus primeiro LP a ser lançado pela gravadora Elenco de Aloysio de Oliveira que estava formando um time de primeiríssima qualidade com novos artistas que se revelavam no cenário nacional. O disco intitulado A música de Edu Lobo por Edu Lobo, revela um compositor notável, de harmonias sofisticadas com um repertório de canções autorais além de parceiros destacados e seria lançado no primeiro semestre no ano seguinte.
Com Vinicius de Moraes, ele nos brinda com Arrastão, música vencedora do I Festival de Música Popular realizado pela TV Excelsior de São Paulo em 1965 e defendida com brilhantismo pela também estreante Elis Regina. Influenciado pela cultura popular numa visão de engajamento criativo de forte conotação social, une-se a Ruy Guerra e produz canções como Canção da terra, Reza e Aleluia além de Resolução com Lula Freire. Penetrando no universo do teatro que se realizava nos Centro Populares de Cultura ligados a UNE compõe com Oduvaldo Viana Filho para a peça Os Azeredos e os Benevides, a canção Chegança, com Vinicius de Moraes assina ainda Zambi música cujo tema central gira em torno de Zumbi dos Palmares e inspirou a realização da peça Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. O disco traz ainda Borandá, música de protesto incluída com muito sucesso no repertório do show Opinião e as líricas Canção do amanhecer, também com Vinicius de Moraes, Réquiem para um amor e Em tempo de adeus com Ruy Guerra e As mesmas histórias.
Marco inicial de uma trajetória pessoal que se iniciou timidamente em 1962 este primeiro LP de Edu Lobo acompanhado pelo Tamba Trio, responsável por todos os arranjos e formado por O'Hanna, na bateria, Bebeto, na flauta e Luis Eça, no piano, nos revela o nível artístico e os primeiros passos de um dos mais talentosos e fundamentais autores da música popular brasileira.


Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br 

20/06/2011

Beatriz



Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz?
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz?
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz?
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida.

Composição: Chico Buarque e Edu Lobo