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30/07/2026

Confetis


Feito aquele enredo dos Três Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena idéia.
Durante os três (quatro, cinco...) dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e Único, fora os outros trinta – Cidadão Samba, Cidadão Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas, D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista (os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas) apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”...
Cartolas enormes, próprias pros palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho, empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o hábito levantado...
A Rainha Louca sentada num Círio de Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas listrinhas claras – tirou o bustiê, arrancaram a tanga – no corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer, embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido, tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o tesão...
A fantasia de legionário, miragem de todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita – materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô – até que enfim! - corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique, morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho, Tamandaré batendo o pé:
– Sem minhas guias e colares por cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei, recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a maior zona.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

19/06/2026

Brasil brasileiro

Uma vez, numa recepção da nossa embaixada em Londres, uma dama inglesa, depois de ouvir Aquarela do Brasil, estranhou ironicamente a associação dos termos “Brasil brasileiro”. A França é francesa, dizia, a Inglaterra é inglesa, o Afeganistão é afegane, sem que se precise dizer… Minha senhora, respondeu-lhe alguém, é que o Brasil é muito brasileiro, é o único país brasileiro do mundo, e só quem nos conheça bem será capaz de entender isso …
Em fase de transição econômica há alguns anos, em fase de reforma desde a mudança do governo, às vezes penso que o Brasil corre o risco de se tornar pouco brasileiro em alguns sintomas essenciais da nossa maneira coletiva de ser. Nem sempre é fácil distinguir as virtudes e os defeitos tipicamente brasileiros, havendo possibilidade de muitos erros de conceituação.
Dentro da relatividade histórica, Dom Pedro I foi muito brasileiro; Dom Pedro II igualmente. Pois eu acho que o primeiro possuía vários defeitos essenciais ao caráter brasileiro, enquanto o segundo cultivava virtudes que podiam ser banidas da nossa formação, virtudes bastante monótonas ou bobocas.
A impontualidade em si é um mal; no Brasil, entretanto, ela é necessária, uma defesa contra o clima e as melancolias do subdesenvolvimento. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é outro demérito que não se pode extinguir da alma nacional.
Uma finta de Garrincha, uma cabeçada de Pelé, uma folha-seca de Didi são parábolas perfeitas do comportamento brasileiro diante dos problemas da existência. Eles maliciam, eles inventam, eles dão um jeitinho. Já cuspir no chão e insultar as formas elementares da higiene são também constantes brasileiras, mas devem ser combatidas furiosamente.
Ter terror à pena de morte é um sentimentalismo brasileiro da mais fina intuição progressista; cultivar o entreguismo da saudade já me parece uma capitulação inútil.
Deixa isso pra lá é uma simpática fórmula do perdão nacional; já o rouba mas faz é uma ignorância vertiginosa. Valorizar em partes iguais a ação e o devaneio (dum lado o trabalho, do outro sombra e água fresca) é uma intuição brasileira que promete uma síntese do dinamismo do Ocidente e da contemplação oriental.
O andar da mulher brasileira, como o café, é uma das grandes riquezas pátrias. Aliás, o café chegou até nós muito brasileiramente: o sargento Palheta recebeu gentilmente as mudas das mãos da condessa d’Orvilliers, mulher do governador da Guiana Francesa. “Nous étions doublement cocus!”, exclamou com espírito um escritor francês.
Mas o ostensivo e verboso donjuanismo brasileiro, sobretudo no exterior, é uma praga. Achar-se irresistível é uma das constantes mais antipáticas do homem verde-e-amarelo. O relato impudente de façanhas amorosas, a mitomania erótica, o desrespeito agressivo à dignidade da mulher são desgraçadamente coisas muito brasileiras.
A instituição do faixa, do meu chapa, é cem por cento brasileira, desde que seja gratuita; o detestável tráfico de influência não é nosso. Dar um jeito é bom; dar o golpe é mau.
A sagacidade de Minas, a fidalguia do Sul, a combatividade do Nordeste são características brasileiras; o dinamismo organizado de São Paulo não é tão nosso assim, mas é necessário. Para Capistrano de Abreu, o jaburu simbolizara o Brasil; São Paulo foi o primeiro estado a superar a tristonha fase do jaburu. E Macunaíma ainda representa o brasileiro? E Jeca Tatuzinho? O tempo passou: Macunaíma comprou naturalmente uma lambreta, mas, em compensação, estuda economia ou física nuclear; os filhos de Jeca Tatuzinho são hoje playboys, contrabandistas ou industriais, nesta imensa misturada contraditória que é o Brasil.
Resta por fim como espantalho gritantemente brasileiro, vergonhosamente brasileiro, o pobre, o nosso compatriota de pé no chão, destroçado pelos parasitas, cegado pelo tracoma, morando em casebres de barro, palafitas, mocambos, favelas, coberto de feridas, analfabeto, mal-alimentado, vestido de farrapos, pobre criatura humana, pobre bicho humano, pobre coisa humana, pobre brasileiro humano.

Paulo Mendes Campos, em Brasil brasileiro: crônicas do país, das cidades e do povo

02/02/2025

Brasileiro, homem do amanhã

Há em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro até demais. Constituindo as colunas da brasilidade, as duas constantes, como todos sabem, são: 1) a capacidade de dar um jeito; 2) a capacidade de adiar.
A primeira é ainda escassamente conhecida, e muito menos compreendida, no estrangeiro; a segunda, no entanto, já anda bastante divulgada no exterior, sem que o corpo diplomático contribua direta ou sistematicamente para isso.
Aquilo que Oscar Wilde e Mark Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã) não é no Brasil propriamente uma deliberada norma de conduta, uma diretriz de base. Não, é mais, é bem mais forte do que princípio voluntarioso: é um instinto inelutável, uma força espontânea da estranha e surpreendente raça brasileira.
Para o brasileiro, os atos fundamentais da existência são: nascimento, reprodução, procrastinação e morte (esta última, se possível, também adiada).
Adiamos em virtude de um verdadeiro e inevitável estímulo, se me permitem, psicossomático. Trata-se de um reflexo condicionado, pelo qual, proposto um problema a um brasileiro, ele reage instantaneamente com as palavras: daqui a pouco; logo à tarde; só à noite; amanhã; segunda-feira.
Adiamos tudo, o bem e o mal, o bom e o mau, que não se confundem, pelo contrário, que tantas vezes se desemparelham. Adiamos o trabalho, o encontro, o almoço, o telefonema, o dentista, a conversa séria, o pagamento do imposto de renda, as férias, a reforma agrária, o seguro de vida, o exame médico, a visita de pêsames, o conserto do automóvel, o túnel para Niterói, a festa de aniversário da criança, as relações com a China, o pagamento da prestação, adiamos até o amor. Só a morte e a promissória são mais ou menos pontuais entre nós. Mesmo assim, há remédio para a promissória: o adiamento trimestral da reforma, uma instituição sacrossanta no Brasil. Quanto à morte, é de se lembrar dois poemas típicos do Romantismo: na “Canção do Exílio”, Gonçalves Dias roga a Deus não permitir que ele morra sem que volte para lá, isto é, pra cá; já Álvares de Azevedo, tem aquele poema famoso cujo refrão é sintomaticamente brasileiro: “Se eu morresse amanhã!” Nem os românticos queriam morrer hoje.
Sim, adiamos por força de um incoercível destino nacional, do mesmo modo que, por força do destino, o francês poupa dinheiro, o inglês confia no Times, o português espera o retorno de dom Sebastião, o alemão trabalha com um furor disciplinado, o espanhol se excita diante da morte, o japonês esconde o pensamento e o americano usa gravatas insuportáveis.
O brasileiro adia; logo existe.
Como já disse, o conhecimento da nossa capacidade autóctone para a incessante delonga transpõe as fronteiras e o Atlântico. A verdade é que já está nos manuais. Ainda há pouco, lendo um livro francês sobre o Brasil, incluído numa coleção quase didática de viagens, achei no fim do volume algumas informações essenciais sobre nós e a nossa terra. Entre endereços de embaixadas e consulados, estatísticas, informações culinárias, o autor intercalou o seguinte tópico:

DES MOTS
Hier: ontem
Aujourd’hui: hoje
Demain: amanhã
Le seul important est le dernier

A única palavra importante é amanhã. Esse francês malicioso agarrou-nos pela perna. O resto eu adio para a semana que vem.

Paulo Mendes Campos, em revista Manchete, de 14.3.1964

20/01/2025

O chamado Brasil brasileiro

Comecemos por opiniões antigas, como esta de uma carta de Capistrano de Abreu a João d'Azevedo: O jaburu... a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas, e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste...
Paulo Prado abre seu livro Retrato do Brasil com esta afirmação: Numa terra radiosa vive um povo triste.
Tão triste que em 1925, em Petrópolis, Manuel Bandeira, que tinha “todos os motivos menos um de ser triste”, resolveu “tomar alegria”.
Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. Ninguém se lembra de política... Nem dos oito mil quilômetros de costa... O algodão do Seridó é o melhor do mundo?...
Que me importa?
Não há malária nem moléstia-de-chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. Eu tomo alegria!
E Sérgio Buarque de Holanda, na primeira página de suas Raízes do Brasil: ... Somos ainda hoje desterrados em nossa terra.
O consolo é lembrar aquela coisa de Euclides da Cunha em Os Sertões: O sertanejo é, antes de tudo, um forte.
Enchemos o peito de orgulho. Mas Euclides prossegue dizendo: Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
Viram? Para falar bem do homem do sertão ele desmerece o homem da praia. Mas o próprio sertanejo, embora possa se transformar em "um titã acobreado e potente", não é figura muito boa: ... É desgracioso, desengonçado, torto... reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos...
E mais adiante Euclides proclama: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma...
Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.
Este dilema me faz lembrar um outro que me assustava quando eu era menino. Não sei se era frase de homem célebre ou propaganda de algum formicida: Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.
Isto me dava aflição; eu me perguntava por que é que nós todos não íamos urgentemente matar saúvas.
Não matamos. Não morremos. Convivemos. Oswald de Andrade exclama, no seu “Manifesto Antropofágico”, de 1928: Tupi or not tupi that is the question.
E é outro paulista Andrade, Mário, que faz uma comovente confissão brasileira.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu, Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu...
Essa fundamental solidariedade me impressionou quando uma lavadeira que eu tinha aqui no Rio, Sebastiana, me disse que não tinha podido dormir aquela noite: uma chuva com vento invadira o seu barraco no morro do Cantagalo. Seu menino amanhecera doente, e ela também sentia uma dor no peito.
“Mas enfim”, disse, “isso é bom para a lavoura.”
A velha Sebastiana viera de Carangola e não tinha mais lavoura nenhuma; e até a casinha que ela fizera lá em Minas, “perto do comércio”, fora registrada em nome do seu marido, que não era seu marido porque era casado com outra. E ela descia os caminhos perigosos, escorregadios, do morro, com a trouxa de roupa na cabeça, e me dizia: “É bom para a lavoura.”
É uma maneira de dizer na roça. Pode ser maneira de pensar. O Brasil é, principalmente, uma certa maneira de sentir.

Rubem Braga, em Recado de primavera

31/10/2024

Coerência

Coerência: o Brasil acabou com a mata atlântica e está destruindo cuidadosamente a floresta amazônica porque vive na lei da selva.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

20/10/2024

Brasil

Este é o país onde há a maior possibilidade de se criar um mundo inteiramente novo. Caos não falta.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos 

11/01/2024

Acordo

Está bem. Deus é brasileiro. Mas pra defender o Brasil de tanta corrupção só colocando Deus no gol.

Millôr Fernandes, in A bíblia do caos

27/06/2021

O chamado Brasil brasileiro

Comecemos por opiniões antigas, como esta de uma carta de Capistrano de Abreu a João d'Azevedo: O jaburu... a ave que para mim simboliza a nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas, e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste...
Paulo Prado abre seu livro Retrato do Brasil com esta afirmação: Numa terra radiosa vive um povo triste.
Tão triste que em 1925, em Petrópolis, Manuel Bandeira, que tinha “todos os motivos menos um de ser triste”, resolveu “tomar alegria”.
Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. Ninguém se lembra de política... Nem dos oito mil quilômetros de costa... O algodão do Seridó é o melhor do mundo?...
Que me importa?
Não há malária nem moléstia-de-chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. Eu tomo alegria!
E Sérgio Buarque de Holanda, na primeira página de suas Raízes do Brasil: ... Somos ainda hoje desterrados em nossa terra.
O consolo é lembrar aquela coisa de Euclides da Cunha em Os Sertões: O sertanejo é, antes de tudo, um forte.
Enchemos o peito de orgulho. Mas Euclides prossegue dizendo: Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
Viram? Para falar bem do homem do sertão ele desmerece o homem da praia. Mas o próprio sertanejo, embora possa se transformar em “um titã acobreado e potente”, não é figura muito boa: ... É desgracioso, desengonçado, torto... reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos...
E mais adiante Euclides proclama: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma...
Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.
Este dilema me faz lembrar um outro que me assustava quando eu era menino. Não sei se era frase de homem célebre ou propaganda de algum formicida: Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.
Isto me dava aflição; eu me perguntava por que é que nós todos não íamos urgentemente matar saúvas.
Não matamos. Não morremos. Convivemos. Oswald de Andrade exclama, no seu “Manifesto Antropofágico”, de 1928: Tupi or not tupi that is the question.
E é outro paulista Andrade, Mário, que faz uma comovente confissão brasileira.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu, Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu...
Essa fundamental solidariedade me impressionou quando uma lavadeira que eu tinha aqui no Rio, Sebastiana, me disse que não tinha podido dormir aquela noite: uma chuva com vento invadira o seu barraco no morro do Cantagalo. Seu menino amanhecera doente, e ela também sentia uma dor no peito.
“Mas enfim”, disse, “isso é bom para a lavoura.”
A velha Sebastiana viera de Carangola e não tinha mais lavoura nenhuma; e até a casinha que ela fizera lá em Minas, “perto do comércio”, fora registrada em nome do seu marido, que não era seu marido porque era casado com outra. E ela descia os caminhos perigosos, escorregadios, do morro, com a trouxa de roupa na cabeça, e me dizia: “É bom para a lavoura.”
É uma maneira de dizer na roça. Pode ser maneira de pensar. O Brasil é, principalmente, uma certa maneira de sentir.

Rubem Braga, in Recado de primavera

01/06/2020

A corrente do esforço humano

Certo episódio como epígrafe

Faz pouco mais de um ano, em uma das minhas raras idas ao Rio, cidade sem tantas reservas e preconceitos como São Paulo, fui convidado por um amigo para comer rabada à moda da casa num restaurante típico, bem sujinho por sinal. Meu amigo se fez acompanhar então de um editor carioca especializado na publicação de obras científicas. Cara pálida, o editor, mal se sentou à mesa, começou a discorrer exasperado sobre a precariedade das nossas condições médico-cirúrgicas (soube depois que ele, gravemente enfermo, estava desenganado), passando daí, extensivamente, a invectivar contra o brasileiro. Como a rabada demorava, na primeira brecha arrisquei uma tímida explicação, cujo único pecado foi eu misturar uns parcos condimentos de sociologia e economia no meu papo, dizendo sempre, enquanto me referia à nossa suposta comunidade: “Nós… nós… nós…”. E não tinha desfiado mais do que três contas de um rosário sobejamente conhecido, quando o editor carioca, sempre abatido, me cortou com estranha vitalidade:
“Nós, não. Eu sou europeu!”

Me lembro que em Pindorama, pequena cidade do interior paulista onde nasci e passei a infância, me lembro que até as mínimas coisas de uso trivial, como agulhas de coser, fossem de mão (inglesas) ou de máquina (alemãs), as coisas todas do dia a dia só eram boas, como de fato eram, se fossem estrangeiras. Os produtos alemães gozavam naqueles anos 40 de um prestígio especial. A marca Solingen, de tesouras e outros artefatos de metal, era conhecida do mais remoto homem da área rural. Aos brasileiros, na época, era permitida uma autoconfiança na qualidade da sua produção agrícola e das matérias-primas em geral que eram exportadas para os países industrializados.
No campo da produção cultural, as coisas se passavam mais ou menos do mesmo modo. Apesar do movimento vigoroso, mas incipiente (como incipiente a indústria de manufatura), no sentido de se imprimir um caráter próprio ao que fazíamos, continuávamos importando ou copiando o que era feito lá fora, sobretudo na França. Os brasileiros, além de confiarem no seu futebol, podiam se sentir seguros da sua música popular, do seu Carnaval exuberante, quando as escolas de samba, compostas no grosso por pretos, com passistas e requebros admiráveis, rendiam inclusive homenagem à aristocracia, desfilando nas ruas com fantasias de reis e rainhas.
Podiam acreditar também na excelência de um samba que tematizasse a beleza da “mulata”, as crenças afro-brasileiras, ou a miséria descarnada das favelas, realidades fascinantes sobretudo para estrangeiros à procura de manifestações “exóticas”, no caso cuidadosamente patrocinadas pela classe dominante nacional.
Manufaturados ou cultura, preferíamos então quase tudo que viesse de fora, do estrangeiro, da Europa. E o reverso dessas preferências não era só o desprezo pelo que produzíamos aqui, o reverso era também grande desrespeito por nós mesmos: éramos um povo indolente, lasso de costumes, de pouca inventividade, e outras pechas que maliciosamente nos atribuíam e que aceitávamos em decorrência de uma mitologia racial e de uma mitologia dos trópicos. Aquelas preferências confirmavam pois essas mitologias concebidas por europeus e introduzidas aos poucos entre nós, desde os primórdios pela catequese dos colonizadores e, depois, pela mediação da classe dominante brasileira, que se fazia educar na metrópole. Tanto que ainda hoje, quando alguma cidade do Sul do país se cobre de branco, em um desses raros dias de frio intenso, o orgulho nacional sobe uns graus em certos corações, desaparecendo com a mesma rapidez com que a neve se funde. Com a mesma exorbitância em relação ao clima, ou à etnia, passava-se conclusivamente na época da qualidade do produto para a avaliação do homem: bom era o produto importado, bom era o homem estrangeiro (europeu); ruim era o produto nacional, ruim era o próprio brasileiro. Interpretávamos corretamente então o papel que nos destinavam no contexto internacional. Com sua indústria tosca, o Brasil, em cada cidade ou vila, respondia eloquentemente a certa concepção racial, sentindo-se inferior. Mesmo porque o Brasil, ao mesmo tempo branco, negro e indígena, mas sobretudo pardo, não podia atender aos discutíveis padrões somáticos dos povos brancos supostamente superiores. É claro que, revigorados nas suas tradições racistas, ou então contaminados pela ideologia racial em voga, muitos brasileiros brancos deveriam ora sofrer a nostalgia de uma geografia perdida ora afagar no íntimo (embora nem sempre tão discretamente) suas origens europeias. Mas isso já é uma outra história.
Naqueles anos 40, o mundo estava sendo sacudido, os velhos impérios se desmoronando, novos polos de poder emergindo, novos impérios se esboçando, mas para nós prevalecia a estrutura de costume: o centro do mundo era a Europa (Paris o seu umbigo), o Brasil era parte da periferia, devendo ter os olhos submissos sempre voltados para a matriz. Matriz ao mesmo tempo única e polivalente, qualquer coisa assim beirando uma entidade atemporal, com nada antes, nem depois.
Apesar das mudanças ocorridas no pós-guerra, fossem as transformações no plano interno brasileiro, sobretudo a implantação de um parque industrial, fundamentado numa siderurgia própria e na transferência de técnicas devidamente acompanhadas de capitais estrangeiros altamente recicláveis; fosse o deslocamento dos polos de poder no plano internacional (URSS e EUA, mesmo com suas características e idiossincrasias culturais, seriam percebidos como prolongamento e desdobramento europeus, respectivamente); fossem enfim as transformações ocorridas na própria Europa (perda de hegemonia, situação política um tanto a reboque, “modernização” do seu velho colonialismo através das multinacionais etc.), o prestígio europeu ainda é enorme. Seja pelo seu acervo cultural, mais respeitado talvez que qualquer outro, ou pela sua matreirice política, capaz de lhe emprestar uns ares de autonomia e maturidade, a Europa desenvolvida de hoje continua como um dos referenciais do nosso “atraso”. Ainda recentemente, o humorista brasileiro Henfil, relatando uma viagem de volta, afirmou que saiu da Europa em 1980 e chegou ao Brasil em 1935.
A distância é sem dúvida grande, provavelmente até maior que a sugerida, desde que não se questione a noção de “progresso”, e que se aceite candidamente a Europa como referência, daí que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, aludindo ao potencial destruidor da tecnologia, afirmou: “Isso não é civilização, francamente; isso é uma porcaria”.
Seja como for, nossas atitudes mudaram ou continuaram mudando nessas quatro décadas. No Brasil tropical, é maior hoje o número de brasileiros que não levam a sério o preconceito quanto ao clima como fator impeditivo de realizações, pelo contrário. O Egito antigo, também tropical, construiu — da perspectiva europeia — uma “grande civilização”. E, note-se, o povo egípcio da Antiguidade não era branco, uma informação que nos foi sonegada pelos manuais escolares. Aliás, é maior hoje, no Brasil multirracial, o número de brasileiros que não se sentem inferiores com sua cor ou com sua mestiçagem, vislumbrando-se na miscigenação uma das nossas melhores contribuições. Sabemos que os europeus, quanto à etnia, são também formados por grupos híbridos, como certas espigas de milho; como de resto foram híbridos todos os grupos humanos das chamadas “grandes civilizações” anteriores. Inclusive a cultura europeia, impregnada de judaísmo e cristianismo, não é mais que o desenvolvimento de uma complexa mistura de elementos provenientes de várias fontes, ou seja, ideias de outras geografias migraram para lá como a migração das andorinhas. Se a imagem é muito lírica, não abarcando ideias inquietantes, digamos que houve também por muitos séculos uma dispersão de vespas em plagas europeias. É bom lembrar que o sucesso europeu, sobretudo nórdico, que não se confunde com as civilizações mediterrâneas da Antiguidade (a Grécia antiga tinha vínculos inclusive com culturas orientais), é fenômeno recente. Na Idade Média, que a ótica dos historiadores ocidentais insiste — com tanto mouro pela frente — em só ver uma idade de trevas, os nórdicos, hoje mencionados como protótipo de “civilizados”, eram povos que estavam se iniciando na história dos vencedores.
Nossas atitudes continuam mudando, embora essas mudanças não possam ser generalizadas, longe disso. O consumidor comum, que não faz turismo no exterior, se é que alguma vez faz pelo Brasil, não costuma pensar em produtos importados e adquire sem relutância o que é fabricado atualmente no país. E cada vez mais cidadãos brasileiros vão introduzindo componentes sociais e políticos nos critérios de avaliação do que é produzido aqui, em geral de qualidade inferior ao similar de lá fora, mesmo quando a marca é multinacional, e é quase sempre. Compreendemos cada vez mais essas diferenças de qualidade, e concluímos cada vez menos nossa suposta inferioridade humana, excluídas as elites brancas. Suspeita-se também cada vez mais que o florescimento cultural de uma nação — respeitado o seu próprio esforço — só acontece com o seu domínio sobre outros povos. É só virar a cabeça sobre o ombro e olhar para trás. Por sinal, a expressão civilized world, tão cara aos ingleses educados, e que inevitavelmente marca os discursos presidenciais americanos, tem muito a ver com sua atuação, não exatamente edificante, entre os povos da “periferia”. A esse propósito, muitos historiadores revelam uma irresistível vocação para o luxo ao exaltarem as realizações dos “grandes homens”, das “grandes civilizações”, sem passarem pelo “anonimato” e pela “periferia”. “Grandes em quê? Grandes por quê? Grandes em relação a quê?” questiona a pensadora brasileira Marilena Chaui. “Grandes e poderosos, isto é, os dominantes, cuja ‘grandeza’ depende sempre da exploração e dominação dos ‘pequenos’”, sem direito à História. Daí que o homem comum assim como os povos periféricos jamais tiveram seus nomes inscritos como vencedores. Entretanto, quando se entra em uma residência bem posta, é legítimo perguntar, diante do orgulho do dono da casa, onde estão os anônimos que assentaram os tijolos. Como seria legítimo perguntar, num giro pelos países desenvolvidos, onde estão os povos, humilhados e ofendidos, que concorreram para o seu brilho.
Dramatizando um pouco mais, mas nunca o suficiente, seria interessante inventariar o que propiciou os grandes surtos culturais, sempre percebidos como expressões maiores da inteligência e da sensibilidade. Quem levasse a cabo essa tarefa só haveria de ouvir gemidos.
Sem a menor dúvida, os colonizadores europeus poderiam realizar sua “tarefa histórica” sem maiores rodeios — a ferro e fogo — como efetivamente fizeram. Coube porém a intelectuais europeus, o que choca mas não surpreende, elaborar uma imagem dos povos que justificasse e legitimasse essa dominação, convertendo-a em “tarefa civilizatória”.
Já no século XVI, o reverendo pe. Sepúlveda justificava o Império Espanhol nas Américas, declarando que o estado de pecado dos nativos faria deles, por um lado, objetos de catequese e, por outro, “instrumentos dotados de voz” (nome dado por Aristóteles aos escravos). Depois do “bom selvagem” de Rousseau, houve o Sexta-Feira de Defoe, um nativo bem menor que o grande Robinson que “criou o mundo do nada”. Melhor que a teologia e o romance, a ciência europeia realizou o seu papel legitimador: além das teorias raciais que privilegiavam o homem branco, a sociologia alemã subestimou o homem dos trópicos ao trabalhar uma explicação sobre o desenvolvimento dos povos a partir das condições geográficas; a antropologia social francesa explicou a “mentalidade primitiva” como pré-lógica; e os pensadores liberais provaram, num passe de mágica, que o liberalismo era verdadeiro na Europa e falso nas colônias.
Para ficarmos bem perto dos nossos dias, não foram os psicólogos sociais americanos que demonstraram que os orientais — os vietnamitas, of course —, devido à grande densidade demográfica, não valorizam a vida, acham a morte algo banal, e desconhecem a dor por ela causada? É de se supor que essas ideias, e muitas outras, foram em parte concebidas pelo pietismo cristão dos europeus, em parte pelo humanismo renascentista, e em parte sob a luz do Iluminismo, cujo clarão permitiu aprimorar também a racionalidade do capitalismo. Sem se confundirem com vespas, menos ainda como andorinhas, aquelas ideias todas migraram até nós, desde os primórdios, como aves de mau agouro, mas sobretudo como aves de rapina. Quebraram o nosso moral, levando-nos a recusar nossas próprias potencialidades humanas, tornando-nos dóceis e servis diante da vontade do colonizador. Aliás, ainda hoje, apesar de mudanças de atitudes, brasileiros, inclusive letrados, continuam a interiorizar ideias colonialistas, não tão grosseiras quanto as ostensivamente racistas. “Este não é um país sério” repete-se com frequência de norte a sul, e quem sabe até com certa exorbitância semântica, o que De Gaulle disse por ocasião da “Guerra da Lagosta”, quando Brasil e França disputavam sobre a pesca em águas territoriais brasileiras.
Homem por excelência da “grandeur” (mereceu uma cama de tamanho especial quando visitou o Brasil), De Gaulle, além de uma envergadura de dois metros, e não obstante autêntico estadista, resvalou no piadismo: existiriam países sérios e países que não são sérios.
Seríamos contudo parciais se não reconhecêssemos que muitos dos antídotos contra a ideologia colonialista nos foram fornecidos por europeus. Nesse sentido, se antes falamos de um modo um tanto pejorativo em importação e cópia, seria agora o momento de falarmos — sem arremedos — em absorção do que interessaria à suposta comunidade brasileira e a que tem legitimamente “direito”, seja à reflexão, à pesquisa, ou às conquistas técnicas (já que certas opções não teriam retorno) realizadas na Europa. Afinal, descartáveis ou não, as ideias são universais, no sentido de que sua produção dependeu da “periferia”, dos “pequenos”, de onde o acervo cultural, pelo menos, não ser patrimônio só da “matriz”, dos “grandes”, pertencendo antes à corrente do esforço humano, marcado por tantos erros e alguns acertos, sempre comovente quando percebido no seu conjunto. Como comovente seria uma esteira ladeada por catadeiras de café, procurando deitar fora os grãos estragados e só deixando passar os sadios, reabastecendo-se no seu curso para repor os grãos sadios que porventura se estragassem com o tempo. Importaria então fazer uma triagem escrupulosa da “cultura europeia” para não se incorrer no cochilo do autor de Os sertões, marco do pensamento voltado para a terra e o homem brasileiros.
Mesmo com claras intenções científicas, afirmando inclusive que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Euclides da Cunha deixou passar um grão virulentamente contagioso ao endossar a inferioridade racial da mestiçagem, confundido talvez por seus predecessores que escreviam a história do Brasil (Varnhagen, em especial), assim como por seus contemporâneos da imprensa, em geral porta-vozes eficientes dos preconceitos europeus.

“Brasil, país do futuro.” Num país de 120 milhões de habitantes, a mesma minoria, que domina no plano interno o grosso da população, se empenharia em reproduzir no plano externo o modelo de dominação. Tentando dar existência àquela profecia dos anos 40, enunciada por Stefan Zweig, um europeu, profecia que veio crescendo no mesmo ritmo da industrialização do país, os últimos governos de exceção acabaram por transferir suas obsessões a um suposto Brasil que, nas suas fantasias precoces de menino, vinha se apresentando sem qualquer pudor ao mundo como “potência emergente”. E quem fala em “potência”, segundo o jargão dos moralistas, está pensando na obscenidade do poder, investido de autoridade. A maioria dominante, por sinal, dividida, na medida em que é ameaçada, entre a cooperação com o capital estrangeiro e o posicionamento nacionalista, não só adotou a ideologia do desenvolvimentismo (o país tem de crescer a qualquer custo, conforme a concepção do “Brasil Grande”), mas ao mesmo tempo começou a incomodar, no plano externo, alguns humildes vizinhos sul-americanos, tentando por outro lado atravessar ousadamente o Atlântico, de olho numa fatia da África, exportando em manufaturados quase o equivalente ao que exporta em matérias-primas, vislumbrando até, no incipiente comércio de armas, uma galinha de ovos de ouro, sem falar que ensaia, de lápis sobre a orelha, uma meia dúzia de multinacionais. Dizem que o “milagre” acabou, mas o que não acabou e nem vai acabar é o sonho de grandeza: haverá com certeza novas arrancadas. E depois, é tudo tão imprevisível que até uma surpresa apocalíptica, aí pelo meio da década, pode dar uma ajuda generosa aos imediatistas da grandeza nacional.
No campo da produção cultural, a autoconfiança aumentou muito nas últimas décadas, fundamentada em parte nas atividades intelectuais, que se esforçam intensamente em esboçar a fisionomia brasileira, procurando descolonizar-se mentalmente, insistindo em que devemos nos voltar para a nossa realidade, tentando afirmar com decisão nossa própria personalidade, no que vêm conseguindo resultados realmente consideráveis. Mas, a longo prazo, tudo no fim converge, não importam os motivos: em meio à miséria de hoje, essas mesmas atividades, sobretudo as artísticas, mal suspeitam que já podem estar modelando a máscara de futuros homens arrogantes.

O pecado original. Pensando nas atuais hegemonias, ou nas futuras, e em como foram, são, ou serão transitórias tantas hegemonias ao longo da História (afinal, o que é um século, o que é um milênio, o que é qualquer medida como segmento de tempo?), somos remetidos para as inevitáveis relações de poder, sempre investidas de autoritarismo.
Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre outros. Penso, como muitos, que seja possível imaginar caminhos diferentes para as relações entre indivíduos e entre povos, e penso mesmo que não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias. Só que não seria fácil resistir à crença, como não se resiste a uma paixão, de que, em certo sentido, o homem é uma obra acabada, marcado não só pela sua experiência passada, mas marcado sobretudo — e definitivamente — pela sua dependência absoluta de valores, coluna vertebral de toda “ordem”, e encarnação por excelência das relações de poder. Incapaz de dispensá-los ao tentar organizar-se, é este o seu estigma; sempre às voltas com valores, vive aí sua grande aventura, mas também sua prisão. Pode ao reorganizar-se arrefecer desequilíbrios entre dominadores e dominados, pode inclusive subverter a “ordem” estabelecida, mas estaria sempre reproduzindo a estrutura de poder.
Se é assim, é também mais ou menos óbvio que, entre os dominados, só os tolos se comprometem com a “ordem” que os subjuga. Aos lúcidos, como sugeriu um pensador do século passado, tudo seria permitido.
Raduan Nassar (1981), Publicado pela primeira vez em Lateinamerikaner über Europa, org. de Curt Meyer-Clason.

28/09/2019

Carta aberta de Valter Hugo Mãe a Marcelino Freire: ‘Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil’

Meu caro amigo Marcelino,

tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.
Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.
Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.
Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?
Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.
Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.
Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.
Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.
Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.
Valter Hugo Mãe, in The Intercept Brasil, 27/09/2019

30/10/2018

Confetis

Feito aquele enredo dos Três Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena ideia.
Durante os três (quatro, cinco...) dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e Único, fora os outros trinta - Cidadão Samba, Cidadão Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas, D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista (os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas) apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”…
Cartolas enormes, próprias pros palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho, empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o hábito levantado... A Rainha Louca sentada num Círio de Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas listrinhas claras - tirou o bustiê, arrancaram a tanga - no corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer, embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido, tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o tesão...
A fantasia de legionário, miragem de todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita - materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô - até que enfim! - corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique, morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho, Tamandaré batendo o pé: - Sem minhas guias e colares por cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei, recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a maior zona.
Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

19/11/2016

Nem luz própria

Hoje estamos vivendo em um Brasil feio. Não gosto do Brasil em que vivo hoje. Um Brasil que só fala de números. O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e nós, o povo? Nós estamos bem? Estamos seguros, respeitados? Estamos dignamente humanos? Temos uma escola boa, uma saúde boa? Temos uma segurança boa? O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e eu não conto? Sou apenas um número? Estudei na física que o planeta não tem nem luz própria. Olha que coisa terrível morar em um planeta que não tem nem luz própria. Estamos em uma periferia do cão. E para ter o dia e a noite você nem precisa de uma estrela de primeira grandeza. Uma estrela de quinta grandeza, como o Sol, serve. Resolve isso numa boa. E ainda temos alguma verdade para dizer? É só a dúvida que nos une, que nos aproxima. É só disso que precisamos. Precisamos de amparo com a nossa dúvida. E a literatura nos ampara. Tenho muito medo da verdade. Não acredito que haja nada verdadeiro. Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, para quem eu perguntei “o que era a fé”. Ele me respondeu que a fé é a dúvida. Tem dias que você tem muita, tem dias que tem pouca, tem dias que não tem nenhuma. Isso se chama fé, porque nos é possível somente a dúvida. Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR

18/01/2016

Saudade do Brasil

Estava estudando fora do Brasil (início da década de 1970), no Instituto Pedagógico da França, era bolsista e comecei a sentir saudade do Brasil.
Morava perto de um jardim que tinha um lago. No fim de semana, sentava-me neste jardim para ler e sentia saudade do Brasil, de comer feijoada, de dormir na cama com lençol passado, dos meus amigos.
Nunca pensei em ser escritor. Um dia, pensei: por que você não pensa em uma coisa que nunca pensou? E tinha o lago e sempre vinha um peixe e botava a cabeça do lado de fora. Havia várias gaivotas que mergulhavam no lago e tornavam a sair. Comecei a olhar aquilo e a pensar que cada coisa tinha um lugar. Se o peixe saísse fora da água, morreria afogado no ar. Mas se a gaivota ficasse dentro da água, morreria afogada. Comecei a olhar os dois elementos da natureza e descobri uma coisa que achei bonita: tanto o peixe quanto o pássaro não deixa rastro por onde passa. Não ficam caminhos. Ele chega, se instala naquele lugar e todo vazio é caminho. E toda a água é caminho. Fiquei encantado com o peixe e o pássaro por não deixarem rastro.
Então, escrevi o texto O peixe e o pássaro para aliviar a minha saudade. Quando volto ao Brasil, entro em um concurso — a primeira edição do prêmio João de Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte. Mandei meu texto e ganhei o prêmio. Não sabia que era escritor. Ganhei o prêmio e fiquei feliz, pois tinha um dinheiro. Fiquei mais feliz ainda porque um dos jurados era a Enriqueta Lisboa, que me telefonou para dar a notícia. Ela quis me conhecer e ficamos muito amigos.
Havia um crítico literário no Jornal do Brasil que se chamava Dom Marcos Barbosa. Ele leu O peixe e o pássaro e escreveu uma crônica, aconselhando o Carlos Drummond de Andrade a ler o meu livro, pois era uma receita para viver no mosteiro.
Esse foi um texto que escrevi para mim mesmo. Para me fazer carinho naquela solidão que sentia em Paris. Hoje, brinco muito ao afirmar que escrevemos para fazer carinho na gente. Tem horas que a única coisa que posso fazer por mim é escrever. Fazer um pouco de carinho em mim.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR