19/06/2026

Brasil brasileiro

Uma vez, numa recepção da nossa embaixada em Londres, uma dama inglesa, depois de ouvir Aquarela do Brasil, estranhou ironicamente a associação dos termos “Brasil brasileiro”. A França é francesa, dizia, a Inglaterra é inglesa, o Afeganistão é afegane, sem que se precise dizer… Minha senhora, respondeu-lhe alguém, é que o Brasil é muito brasileiro, é o único país brasileiro do mundo, e só quem nos conheça bem será capaz de entender isso …
Em fase de transição econômica há alguns anos, em fase de reforma desde a mudança do governo, às vezes penso que o Brasil corre o risco de se tornar pouco brasileiro em alguns sintomas essenciais da nossa maneira coletiva de ser. Nem sempre é fácil distinguir as virtudes e os defeitos tipicamente brasileiros, havendo possibilidade de muitos erros de conceituação.
Dentro da relatividade histórica, Dom Pedro I foi muito brasileiro; Dom Pedro II igualmente. Pois eu acho que o primeiro possuía vários defeitos essenciais ao caráter brasileiro, enquanto o segundo cultivava virtudes que podiam ser banidas da nossa formação, virtudes bastante monótonas ou bobocas.
A impontualidade em si é um mal; no Brasil, entretanto, ela é necessária, uma defesa contra o clima e as melancolias do subdesenvolvimento. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é outro demérito que não se pode extinguir da alma nacional.
Uma finta de Garrincha, uma cabeçada de Pelé, uma folha-seca de Didi são parábolas perfeitas do comportamento brasileiro diante dos problemas da existência. Eles maliciam, eles inventam, eles dão um jeitinho. Já cuspir no chão e insultar as formas elementares da higiene são também constantes brasileiras, mas devem ser combatidas furiosamente.
Ter terror à pena de morte é um sentimentalismo brasileiro da mais fina intuição progressista; cultivar o entreguismo da saudade já me parece uma capitulação inútil.
Deixa isso pra lá é uma simpática fórmula do perdão nacional; já o rouba mas faz é uma ignorância vertiginosa. Valorizar em partes iguais a ação e o devaneio (dum lado o trabalho, do outro sombra e água fresca) é uma intuição brasileira que promete uma síntese do dinamismo do Ocidente e da contemplação oriental.
O andar da mulher brasileira, como o café, é uma das grandes riquezas pátrias. Aliás, o café chegou até nós muito brasileiramente: o sargento Palheta recebeu gentilmente as mudas das mãos da condessa d’Orvilliers, mulher do governador da Guiana Francesa. “Nous étions doublement cocus!”, exclamou com espírito um escritor francês.
Mas o ostensivo e verboso donjuanismo brasileiro, sobretudo no exterior, é uma praga. Achar-se irresistível é uma das constantes mais antipáticas do homem verde-e-amarelo. O relato impudente de façanhas amorosas, a mitomania erótica, o desrespeito agressivo à dignidade da mulher são desgraçadamente coisas muito brasileiras.
A instituição do faixa, do meu chapa, é cem por cento brasileira, desde que seja gratuita; o detestável tráfico de influência não é nosso. Dar um jeito é bom; dar o golpe é mau.
A sagacidade de Minas, a fidalguia do Sul, a combatividade do Nordeste são características brasileiras; o dinamismo organizado de São Paulo não é tão nosso assim, mas é necessário. Para Capistrano de Abreu, o jaburu simbolizara o Brasil; São Paulo foi o primeiro estado a superar a tristonha fase do jaburu. E Macunaíma ainda representa o brasileiro? E Jeca Tatuzinho? O tempo passou: Macunaíma comprou naturalmente uma lambreta, mas, em compensação, estuda economia ou física nuclear; os filhos de Jeca Tatuzinho são hoje playboys, contrabandistas ou industriais, nesta imensa misturada contraditória que é o Brasil.
Resta por fim como espantalho gritantemente brasileiro, vergonhosamente brasileiro, o pobre, o nosso compatriota de pé no chão, destroçado pelos parasitas, cegado pelo tracoma, morando em casebres de barro, palafitas, mocambos, favelas, coberto de feridas, analfabeto, mal-alimentado, vestido de farrapos, pobre criatura humana, pobre bicho humano, pobre coisa humana, pobre brasileiro humano.

Paulo Mendes Campos, em Brasil brasileiro: crônicas do país, das cidades e do povo

Nenhum comentário:

Postar um comentário