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10/08/2026
08/08/2026
07/08/2026
06/08/2026
Siempre en la Barca pra Paquetá
1ª Faixa: Dorinda
Eu sou do tempo em que o sujeito
aprendia a dançar com as primas um pouquinho mais velhas. Delícia.
Claro que era coisa meio incestuosa. A família – implacável
censora de qualquer atitude que sugerisse sexo – liberava o sarro
com as primas. Prima, com ph e dois dês de Toddy.
Na galeria de primas inesquecíveis,
Gregório Barrios ao fundo, destacava-se Dorinda. Protestante.
Estrábica. O más bonito em mulher com discreto estrabismo é que
parece estar sempre à beira do orgasmo.
Em Dorinda, a suave mistura entre
recato e cara de vou-gozar me enlouquecia. E, além do mais, ela
ostentava um pequeno buço. Eu ficava repetindo, antes de dormir: o
buço da prima, o buço da Dorinda... De fato, buço é uma palavra
que provoca tresloucadas associações.
Quando a austera Dorinda me ensinava a
dançar, nas festinhas da Rua dos Artistas, os adultos quedavam
perplexos – talvez pela voz autoritária de Dodô (começou a
intimidade) caso eu errasse um passo mais elaborado, ou quiçá,
quiçá, quiçá pelo escândalo de minha barraca armada em contato
com aguda inflação de tafetá, organdi, babado inglês, um sutiã
como deis ariétes, anágua, combinação, meias com o fio corrido,
e..., e.., e... Bom, calcinhas, queridas, nem pensar. Se naquela
época passasse pela minha cabeça que, debaixo daquilo tudo, uma
calcinha de renda expunha mais do que velava o cabeludo tesouro da
Dodô, eu soltaria um berro tremendo e dispararia em direção ao
banheiro pra uma sessão-nostalgia de “contigo en la distancia”
pensando na Dodô, em sua cara de gozo e, lógico, em seu buço.
Ainda hoje, quando tomo uísque com
guaraná, ouço a voz de Dodô murmurando: “São dois pra lá, dois
pra cá” - embora, na verdade, ela gritasse comigo feito um
instrutor do CPOR.
Dodô, minha nega, enquanto cruzas
outros mares de loucura, guardo nosso 78 rotações favorito,
“Angustia”, com Bienvenido Granda (que buço!) e “Sonora
Matancera”, um lançamento da Mocambo que juntos compramos na
extinta Ótica Irany (Revelações, Cópias, Ampliações em 24
horas), lembra?
Tenho a impressão, Dodô, que esse
disco vai ficar girando em minha vida hasta que tu decidas
regressar…
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
03/08/2026
01/08/2026
30/07/2026
Confetis
Feito aquele enredo dos Três
Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de
carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena
idéia.
Durante os três (quatro, cinco...)
dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e
Único, fora os outros trinta – Cidadão Samba, Cidadão
Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas,
D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e
menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos
fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo
mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos
fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja
maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem
grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista
(os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um
General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e
cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela
mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque
nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o
chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas)
apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”...
Cartolas enormes, próprias pros
palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o
jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho,
empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o
hábito levantado...
A Rainha Louca sentada num Círio de
Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é
Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na
Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no
Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas
listrinhas claras – tirou o bustiê, arrancaram a tanga – no
corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer,
embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em
Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori
ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido,
tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e
sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o
calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o
tesão...
A fantasia de legionário, miragem de
todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita –
materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as
cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô – até que enfim! -
corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol
palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique,
morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo
o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e
do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general
Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho,
Tamandaré batendo o pé:
– Sem minhas guias e colares por
cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é
aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei,
recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias
imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como
qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da
Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a
maior zona.
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
28/07/2026
26/07/2026
Fomes
Diz-se de quem come de tudo que “come
como um animal”, o que é uma injustiça. Nenhum outro animal é
omnívoro como o homem. Estamos no topo da cadeia alimentar entre os
bichos de sangue quente e somos da categoria dos predadores, definida
pela posição e a função dos olhos. Somos caçadores, e bons
caçadores, e comemos de tudo, da baleia ao escargot.
Já éramos bons caçadores mesmo
antes de inventar o arco e a flecha e a mira telescópica com sensor
infravermelho. Mas nossa vocação predatória nos deixou
mal-equipados como presas. Nascemos com binóculos estereoscópicos
na cabeça mas não temos a visão periférica que ajuda outras
espécies a sobreviverem à sua condição de presas. A ausência de
olhos nas têmporas, por exemplo, está na origem de toda a nossa
literatura de terror. Se o homem tivesse olho na nuca, 50% da sua
angústia existencial desapareceria e Stephen King hoje seria um
homem pobre. Mas nunca sabemos que outro predador se aproxima pelas
nossas costas.
Temos o sentimento de presas sem seu
instrumental de defesa. Somos reféns da nossa visão especializada,
tememos tudo que nossos olhos de caçador não podem captar com
nitidez na sua mira: vultos, sombras, fantasmas, premonições,
ruídos no escuro, sensações de culpa. Ao contrário de outros
animais predatórios, sentimos culpa. Temos remorso. A palavra
“remorso” quer dizer, mais ou menos, comer de volta. Outras
espécies são autofágicas, mas só o homem desconfia que seu
semelhante engolido pode começar a mordê-lo por dentro, por
vingança.
Tememos a retribuição pela nossa
omnivoracidade. Os mortos que voltam do túmulo para nos aterrorizar
são como restos de comida – ossos à mostra, carnes putrefatas. Só
um inato senso do ridículo impediu até agora que alguém inventasse
a suprema história de terror, a de um homem perseguido pelos
espíritos de tudo que já comeu na vida, desde a primeira galinha.
Inclusive os vegetais.
Nosso passado de canibais nos
persegue. Aquela senhora que reage à rechonchudez de um bebê
dizendo que ele é tão lindo que “dá vontade de comer” só está
expressando esta verdade atávica, que tudo que nos agrada é
apetitoso, que no fim todo desejo é uma vontade de comer. Comida e
sexo se confundem na nossa linguagem desde que ela existe, e não
apenas porque a ingestão e a eliminação da comida e a atividade
erótica usam as mesmas vias, ou pelos menos vias paralelas.
E nem apenas pela analogia de formas:
“vagem” vem do latim “vagina”; baunilha se chama assim porque
os espanhóis acharam que aquela vagem consumida pelo astecas se
parecia com uma “vainilla”, diminutivo de “vaina”, ou bainha,
que também vem de “vagina”; “fica”, ou figo, em italiano é
o apelido da vulva; “penne”, aquele espaguete curto e grosso, vem
de pênis mesmo. Etc..., etc. Mas não é só isto. Comer é uma
forma extrema de possuir o que queremos, seja o fígado ou a coragem
do inimigo, o sangue redentor do deus ou a carne da pessoa amada.
Fazemos tudo isso no sentido figurado porque, afinal, civilização é
isso, é a domesticação dos nossos apetites, mas na nossa linguagem
ainda somos predadores e comemos todas as nossas presas. Pezinhos de
bebê incluídos.
Ou isto, ou a dieta está me fazendo
delirar.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
24/07/2026
23/07/2026
Garçom vegetariano
Restaurante chique. Um casal está
sentado. Garçom vem atendê-los.
GARÇOM Posso anotar o pedido de
vocês?
HOMEM Eu tô pensando em pedir esse
filé à Oswaldo Aranha. Como é que ele vem?
GARÇOM Vem morto.
HOMEM Não entendi.
GARÇOM O filé, senhor, é um boi,
né? E ele é servido, invariavelmente, morto.
Garçom fica triste. Quase chora.
GARÇOM Desculpa, é que eu soube
disso agora há pouco.
MULHER Sim, mas ele quer saber da
parte Oswaldo Aranha.
GARÇOM Ah. Isso devia ser o nome de
uma pessoa. Provavelmente um homem. Também morto. Que deu nome ao
filé.
HOMEM Mas como é que ele é servido?
O filé?
GARÇOM Morto. Invariavelmente. Isso
daí infelizmente não tem como mudar.
MULHER Sim, mas vem com quê?
GARÇOM Ah. Alho. Por cima. Do
cadáver. Do boi morto. Abatido brutalmente, com uma pancada na
cabeça.
MULHER Acho que eu vou de frango. Como
é que é esse supremo de frango?
GARÇOM Isso daí é um pintinho que
eles entupiram de hormônio pra crescer bem rápido. Daí criaram com
mais mil pintinhos entulhados dentro de uma caixa de sapato. D…
MULHER Sim, mas depois…
GARÇOM Mataram ele. Invariavelmente.
É uma coisa horrível.
HOMEM Mas e a parte do Supremo…
GARÇOM Creme de leite. Por cima do
cadáver. Do frango morto.
HOMEM Acho que a gente vai de
saladinha mesmo.
Garçom sorri. Anota o pedido.
MULHER Tem salada de atum?
Garçom volta a chorar,
inconsolável.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
22/07/2026
Gravação
— Pronto, tá ligado. Posso começar?
— Pode.
— O senhor se sente realizado?
— Por que você quer saber isso?
— Nada não. O professor é que
mandou lhe perguntar.
— O professor tem interesse em saber
se eu me sinto realizado?
— Sei não senhor.
— Então diga ao professor que venha
me procurar.
— Pra quê?
— Para eu lhe perguntar se ele se
sente realizado.
— O senhor vai perguntar isso a ele?
— Vou.
— O senhor também está estudando?
Nessa idade, poxa!
— Que que tem? Toda idade é boa
para estudar, a gente não acaba nunca de saber as coisas. Mas não
estou estudando não.
— Então por que vai perguntar isso
ao professor?
— Porque se ele quer saber se eu me
sinto realizado, eu também quero saber a mesma coisa dele.
Indiscrição por indiscrição.
— Gozado… Mas se o senhor fizer
isso, não bota o meu nome no meio, porque vai dar grilo. Vê lá,
hem.
— Fique descansado. Não vou
comprometer você.
— E o senhor só vai responder a
minha pergunta depois de falar com ele? E se ele não responder? Se
demorar? Tenho de entregar esta entrevista até quinta-feira.
— Bem, eu respondo agora mesmo.
— Então, responde, vamos lá.
— Primeiro eu preciso saber: o que é
se sentir realizado?
— O senhor não sabe?
— Para dizer o que eu sinto, quero
saber antes se o que eu sinto é o mesmo que se deve sentir quando se
está realizado, ou se julga estar. E para isso é preciso saber o
que é estar realizado.
— Poxa, não complica.
— Estou complicando, meu querido?
Minha intenção era simplificar, esclarecer. O que é mesmo se
sentir realizado?
— Ora! Se sentir realizado é…
quer dizer… Não sei explicar muito bem, mas o senhor entende, né?
— Mais ou menos. Quer dizer: menos.
E você?
— Se o senhor não entende bem, eu é
que vou entender?
— Então, como é que eu posso
responder?
— Ué, o senhor é o entrevistado, o
que sabe das coisas.
— E quando não sei?
— Não sabe se está realizado?
— Não sei nem o que é realizado.
— Corta essa. Não vai me dizer que
não tem dicionário em casa.
— Tenho alguns, mas em vez de me
tirarem as dúvidas, me acrescentam outras.
— Desculpa, mas o senhor é
enrolado, hem? Será que não achou o significado de realizado?
— Achei quatro ou cinco. Quer ver?
Olhe aqui. O primeiro é o de coisa ou negócio que se realizou, que
se tornou real. Será que me tornei real? E antes não era? Que que
eu era então? Fantasma? Projeto?
— Assim o senhor me funde a cuca.
— Não tenho intenção.
— E os outros significados?
— No fim, está o neologismo, e aí
é que — desculpe a expressão, que não costumo usar, mas me deu
vontade — aí é que a vaca vai pro brejo. Aqui está: “indivíduo
realizado: dito por uma pessoa, de si própria, quando
considera ter alcançado todos os seus objetivos no terreno ético ou
no de suas atividades profissionais ou artísticas”.
— Tá legal.
— Legal no papel, mas e dentro de
mim?
— Dentro do senhor o quê?
— Quais são meus objetivos no
terreno ético, ou, mais modestamente, no terreno de minhas
atividades profissionais ou artísticas? Tenho objetivos éticos
definidos? Quais são? São meus ou me são impostos ou sugeridos
pela educação e pela conveniência social? Se fossem exclusivamente
meus, quais seriam? E em minhas atividades práticas ou criativas?
Que é que eu pretendo? Pretendo sempre as mesmas coisas? Não mudo
de alvo? Não danço conforme a música ou até sem ela e contra ela?
Que é que eu sei de positivo a respeito disso, ao longo de minha
vida? Que pretendia eu há vinte anos? Há dez? Na semana passada? Me
procure depois de eu morrer. Aí então posso dar balanço.
— Chega! Chega!
— Estou caceteando você?
— Não está enchendo não. É que a
fita acabou. Até que a entrevista foi bacana, um tremendo barato. O
professor vai delirar, a turma também. Um cara que não sabe se está
realizado nem o que é realizado! Papo findo, tchau!
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
Banho de Netos
Já contei procês que, em 1991, minha
mulher e eu sofremos um grave acidente de carro. Fiz uma operação
difícil, placas e parafusos ao longo do fêmur esquerdo. Passei a
claudicar — um eufemismo bacaninha.
Anos depois, bastante deprimido, eu
estava quase deixando a peteca ir pro espaço quando chegaram Os
Quatro Cavaleiros do Apocalápis, A Poca Roupa, A Poca Vergonha,
criem os neologismos que quiserem: meus netos, Pedro, Joana, Milena e
Vinícius. Foi uma paixão devastadora, à primeira vista. E
correspondida.
Assim que aprenderam a falar, os
quatro — tenho certeza de que há comunicação por telepatia entre
as feras — começaram a me chamar de Bidu. Morri de orgulho. Vovó,
com muito jeito, procurou esclarecer a origem do apelido. Minha
autoestima levou um baque de bola sete, despencando no fundo da
caçapa, com direito a rasgão no pano verde:
— Eles acham você parecido com o
cachorro do Franjinha, aquele cachorro azul, da Turma da Mônica.
Ora, mas que falta de respeito dessa
galera! Num domingo memorável, comecei a sempre adiada arrumação
do escritório. Sou um modesto bibliófilo. Surpresa: os netinhos
ofereceram-se entre risadas marotas, pra ajudar na limpeza. Que
alegria. Até o cachorro, meu superlabrador Batuque, cúmplice deles
em todas as armações, carregava livros e ria. Juro que ria.
A avó, ao fim de um dia glorioso, organizou, antes da pizza, um
banho conjunto,todos em trajes de praia.
Foi uma bagunça histórica. Meia hora
após a orgiástica lustração, voltei ao escritório pra apreciar o
trabalho realizado. Eu, além de brilhar feito um ET, exalava um
cheiro assaz penetrante. Vovó Mary, quase sem ar de tanto rir,
novamente esclareceu a celeuma:
— Eles te deram um banho com o xampu
antipulga do Batuque.
Ouvi a explosão de cinco
risadas nas minhas costas. Cinco, sim. Não errei na conta. Quem mais
ria — posso asseverar com a mão direita sobre a Bíblia — era o
cachorro, a ponto de rolar no carpete.
Essa vai ter forra.
Aldir Blanc, em Direto do Balcão
21/07/2026
20/07/2026
Receitas
Não sou um gourmet mas gosto
da minha sauce bernaisezinha. Alguém já disse que gourmet
é o cara que se preocupa mais com a pronúncia certa que com o gosto
do que come, e não é o meu caso. Acho que um caneton aux herbes
de Provence com qualquer outro nome saberia o mesmo, desde que
fosse bem-feito, e, que diabo, o maître geralmente é do
Espírito Santo, a pronúncia dele é pior que a minha.
Só entendo de comida da boca para
dentro. Na cozinha só entro para reivindicar a rapa, e a única
parte de uma receita que me interessa é o “leve-se à mesa”. Na
última vez que tentei fazer uma omeleta acabei, estranhamente, com
purê de batata. Outra vez joguei fora o macarrão e servi a água
quente. Felizmente improvisei um nome na hora — eau chaude au
hasard — que me salvou do vexame. Não sei cozinhar. Mas sei
comer. E assim como certas anfitriãs anunciam com antecedência o
nome da autora de seus jantares — “olha, vai ser vatapá feito
pela Dona Maria” — já houve casos de anunciarem a minha presença
à mesa como uma atração da festa. Veja com que alegria ele limpa o
prato. Delicie-se com a sua correta abordagem da lagosta. Vibre com a
sua rapidez na mousse au chocolat. Você nem precisa comer,
olhar para ele comendo já é um banquete. E sou cada vez mais
solicitado.
— Posso contar com você no dia 26?
É um grupo pequeno, cavaquinhas na manteiga. Você sentaria à
cabeceira com um discreto holofote em cima e gemeria um pouco depois
de cada garfada.
— Dia 26? Preciso consultar a minha
agenda. Deixa ver... Não, infelizmente no dia 26 tenho um
strogonoff. Fui contratado para repetir o strogonoff
quatro vezes e no fim bater na barriga comicamente.
— E se eu fizesse o meu jantar um
pouco mais tarde? Você poderia comparecer aos dois.
— Hmmm. Tenho que pensar no assunto.
Qual é a sobremesa?
Estou planejando alugar meus serviços
para restaurantes com uma clientela indecisa. Em poucos minutos, na
minha mesa de canto, eu faria tais gestos e tais ruídos de
satisfação com a comida que em pouco tempo transformaria o
restaurante numa entusiasmada alegoria à Henrique VIII, o tal que,
quando não estava decapitando esposas, estava destrinchando galinhas
com os dentes.
Mas se sou um inocente na cozinha, não
posso negar que há um certo fascínio na sua linguagem esotérica.
Às vezes leio receitas como leio certos poetas, entendendo a metade
mas cativo dos seus ritmos e ressonâncias. Todas têm aquela
autoridade das poções mágicas, velhas e precisas encantações
passadas de feiticeira a feiticeira desde as primeiras cavernas. É a
sabedoria milenar do caldeirão. Exatamente tantas cabeças de sapo e
tantas bossas de anão, deixe no fogo até borbulhar, ponha de lado e
prepare o sangue de virgem Sarracena. Claro que hoje a cozinha tem
recursos com os quais as feiticeiras nem sonhavam: batedeiras que só
faltam brigar com as crianças, fornos verticais que caminham até
você e batem no seu ombro quando o assado está pronto. Mas as
receitas preservam seu ar cabalístico. As medidas devem ser estas e
só estas, senão tudo desanda e o demônio rouba a alma do suflê. O
fogo deve ser alto e não brando. Ou então brando mas não Marlon. E
os temperos?
Os nomes dos temperos são tão
fascinantes que nos inspiram até a imaginar alguns novos.
Duas pitadas de alfarrábio.
Tinhorão picadinho.
Um feixe de sandice, mas sem exagero.
Ramal, zico, samovar, sementes de
oligofrenia e algumas folhas de alvará do campo.
Corrupção à vontade!
Na Guiné, o tubarão branco aux
fines herbes é uma especialidade. Pegue-se um tubarão dos
grandes. O tubarão deve ser jogado vivo dentro de um grande
caldeirão cheio deágua salgada, sobre o fogo. Em seguida,
acrescentem-se dois porcos selvagens, quatro galinhas, um missionário
protestante e um cunhado do chefe que caiu em desgraça. Mexa-se
lentamente até ferver a água ou até o tubarão comer a colher, o
que vier primeiro. Deixe-se o tubarão de lado. Aproveite-se a água
quente para dar banho nas crianças. Tempere-se o tubarão com
mirtes, paranhos, ogivas do mato, usucapião e brás de pina.
Sirva-se em fatias dentro de folhas de parreira com uma porção de
fritas ou arroz. Guarde-se o espinhaço para bater no chef.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
14/07/2026
Autor não encontrado
Olá, a coluna desta segunda-feira
infelizmente não foi enviada pelo autor. Quem está escrevendo agora
é a editora deste caderno, que precisou preencher em cima da hora o
buraco que o Gregorio deixou, por não ser um bom profissional. Todo
sábado, recebemos o texto em cima do laço, e é sempre a última
coisa de que precisamos para fechar a edição de segunda.
Diagramadores, editores, revisores, todos sofrem. Mas quem mais sofre
é Natalia, a ilustradora, que se vê obrigada a improvisar um
desenho às pressas.
E toda semana é a mesma correria. Já
pedimos algumas vezes que ele se programasse para mandar o texto com
antecedência, mas ele ora pede desculpas e diz que está passando
por maus bocados “em casa com a patroa” (sic) ora pede que “parem
de encher a porra do meu saco, eu sou um artista livreeee” (sic).
Às vezes diz que só precisa de um tempo para “apertar unzinho
enquanto a inspiração não baixa”.
Uma vez, nos escreveu um e-mail que
deixou a todos mais calmos: “Estou em frente ao computador, vou
mandar agora mesmo”, mas logo abaixo estava escrito “enviado do
meu iPhone”. Alguns minutos mais tarde, publicava em seu Facebook
que tinha passado de fase no Candy Crush. O texto veio só no dia
seguinte.
Nesta semana, foi diferente. Gregorio
disse que não mandaria o texto pois estava muito “pegado de
trabalho” (sic). Descobrimos através do seu Instagram que ele está
na Grécia. Uma foto dos seus pés na areia revela que ele estaria
“recarregando as baterias”. Em outra foto, abraçando uma estátua
em Delos, ele diz: “Obrigado Apolo, continue a me iluminar”.
Procurada, sua assessoria afirmou que ele está viajando em um ato de
“protesto contra a Copa”.
Por isso, precisei escrever a coluna
no lugar dele. Pedi à Natália que ilustrasse a coluna com um
desenho bem horroroso do seu rosto, enquanto eu tento replicar seu
estilo. É fácil de imitar: em geral a adversativa vem introduzida
por dois pontos. A temática também é sempre a mesma: basta
aproveitar este espaço pra divulgar causas pessoais e se
autopromover. Seguinte: tô vendendo um Corsa 2003 sedã quatro
portas única dona favor ligar para a Folha e tratar com Heloísa
Helvécia.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
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