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06/08/2026

Siempre en la Barca pra Paquetá



1ª Faixa: Dorinda

Eu sou do tempo em que o sujeito aprendia a dançar com as primas um pouquinho mais velhas. Delícia. Claro que era coisa meio incestuosa. A família – implacável censora de qualquer atitude que sugerisse sexo – liberava o sarro com as primas. Prima, com ph e dois dês de Toddy.
Na galeria de primas inesquecíveis, Gregório Barrios ao fundo, destacava-se Dorinda. Protestante. Estrábica. O más bonito em mulher com discreto estrabismo é que parece estar sempre à beira do orgasmo.
Em Dorinda, a suave mistura entre recato e cara de vou-gozar me enlouquecia. E, além do mais, ela ostentava um pequeno buço. Eu ficava repetindo, antes de dormir: o buço da prima, o buço da Dorinda... De fato, buço é uma palavra que provoca tresloucadas associações.
Quando a austera Dorinda me ensinava a dançar, nas festinhas da Rua dos Artistas, os adultos quedavam perplexos – talvez pela voz autoritária de Dodô (começou a intimidade) caso eu errasse um passo mais elaborado, ou quiçá, quiçá, quiçá pelo escândalo de minha barraca armada em contato com aguda inflação de tafetá, organdi, babado inglês, um sutiã como deis ariétes, anágua, combinação, meias com o fio corrido, e..., e.., e... Bom, calcinhas, queridas, nem pensar. Se naquela época passasse pela minha cabeça que, debaixo daquilo tudo, uma calcinha de renda expunha mais do que velava o cabeludo tesouro da Dodô, eu soltaria um berro tremendo e dispararia em direção ao banheiro pra uma sessão-nostalgia de “contigo en la distancia” pensando na Dodô, em sua cara de gozo e, lógico, em seu buço.
Ainda hoje, quando tomo uísque com guaraná, ouço a voz de Dodô murmurando: “São dois pra lá, dois pra cá” - embora, na verdade, ela gritasse comigo feito um instrutor do CPOR.
Dodô, minha nega, enquanto cruzas outros mares de loucura, guardo nosso 78 rotações favorito, “Angustia”, com Bienvenido Granda (que buço!) e “Sonora Matancera”, um lançamento da Mocambo que juntos compramos na extinta Ótica Irany (Revelações, Cópias, Ampliações em 24 horas), lembra?
Tenho a impressão, Dodô, que esse disco vai ficar girando em minha vida hasta que tu decidas regressar…

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

30/07/2026

O impagável Quino

Confetis


Feito aquele enredo dos Três Mosqueteiros (olha aí a sugestão pra fantasia), os três dias de carnaval são quatro. Isso já dá uma ideia da bagunça. Uma pequena idéia.
Durante os três (quatro, cinco...) dias de pagode, imperam os disparates dos súditos de Momo Primeiro e Único, fora os outros trinta – Cidadão Samba, Cidadão Recreativista, Rei do Carnaval, as respectivas Rainhas e Princesas, D. Higiênico Sales, Marechal de Cama-e-Mesa Átero Escler Ozze, e menos votados.
Marmanjo trajando fralda suja nos fundilhos com creme de abacate...
Neros coroados de arruda tangendo mudas harpas de tábuas de privada...
Zorros de sapato-tanque ao lado dos fiéis Bêbados, isto é, Tontos...
Grandes astros internacionais cuja maior graça reside no fato indiscutível de não serem astros, nem grandes, e internacionais lá pras negas deles...
Árabes de lençol e toalha santista (os mais refinados) em busca de um oásis que venda caipirinha...
O imortal General da Banda. Melhor um General da Banda que outra banda dos generais...
Marte, o Deus da Guerra, de batom e cílios postiços, com os bordados da capa (diviiina) feitos pela mamãe (dele)...
Odaliscas de cocar bebendo uísque nacional, melindrosas com o que a baiana tem na piteira, gregas com o chapéu de tirolesa, cheirando lança...
A rainha do Carnaval (uma delas) apertada pra fazer xixi, perguntando pelo “Wanderley Cardoso”...
Cartolas enormes, próprias pros palhaços que “dirigem” nosso futebol...
Blocos de Sujo muito mais limpos que o jet-set...
Buda, logo atrás de um Preto Velho, empurrado por tapuias de cueca zorba...
A freira que é barbadinho com o hábito levantado...
A Rainha Louca sentada num Círio de Nazaré. É louca mesmo, sô...
O nomezinho daquela doce gueixa é Oswaldo, torneiro-mecânico de profissão...
Que qui a cobra tá fazendo ali na Cleópatra? A transação não foi no seio?...
Santos Dumont estacionando o 14-BIS no Aterro pra ir tomar uma loura com a escurinha...
A moça nua em cima da mesa: duas listrinhas claras – tirou o bustiê, arrancaram a tanga – no corpo queimado. Zebra estilizada?...
Acima a depilação! Quer dizer, embaixo, por favor, não...
Um jacaré de rancho dança frevo em Irajá tomando mamadeira cheia de maracujá...
O Fantástico Marajá de Laori ameaçando dar uma sandalhada no Esplendor de Assurbanípal..
O Incrível Hulk, bastante emagrecido, tomando cachaça e escarrando sangue num coreto da Penha...
Escravas de correntes douradas e sandálias havaianas...
Chope, chope, chope pra afastar o calor...
Coxas, coxas, coxas pra aumentar o tesão...
A fantasia de legionário, miragem de todas as juventudes...
Palha, ráfia, isopor, paetê, fita – materiais que o BNH usará no futuro...
A Princesa Isabel sofrendo com as cólicas menstruais no desfile do Grupo III...
Um pierrô – até que enfim! - corneando o arlequim...
Mais nobreza decadente: o Rei Sol palmeando um cabo da PM...
Zumbi dos Palmares no repique, morcegos brincando à luz do dia, Clóvis na linha do trem para todo o sempre...
Aquele tampinha, perto da cabrocha e do rubro-negro de patinete, ali ó, não é o tal do general Jaruzelski?...
E, comandando a Ala do Bochincho, Tamandaré batendo o pé:
Sem minhas guias e colares por cima das medalhas, nem morta!...
Por aí afora, O negócio é aproveitar. Porque depois restauram a moralidade, refazem a Lei, recompõem a ordem, e aí, durante uns trezentos e sessenta dias imperam a seriedade do general que manda assassinar desafetos como qualquer dono de boca-de-fumo, a austeridade de um Ministro da Justiça contrabandeando joias, desfalques, desvios, escândalos!
A não ser no Carnaval, o Brasil é a maior zona.

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

26/07/2026

Fomes

Diz-se de quem come de tudo que “come como um animal”, o que é uma injustiça. Nenhum outro animal é omnívoro como o homem. Estamos no topo da cadeia alimentar entre os bichos de sangue quente e somos da categoria dos predadores, definida pela posição e a função dos olhos. Somos caçadores, e bons caçadores, e comemos de tudo, da baleia ao escargot.
Já éramos bons caçadores mesmo antes de inventar o arco e a flecha e a mira telescópica com sensor infravermelho. Mas nossa vocação predatória nos deixou mal-equipados como presas. Nascemos com binóculos estereoscópicos na cabeça mas não temos a visão periférica que ajuda outras espécies a sobreviverem à sua condição de presas. A ausência de olhos nas têmporas, por exemplo, está na origem de toda a nossa literatura de terror. Se o homem tivesse olho na nuca, 50% da sua angústia existencial desapareceria e Stephen King hoje seria um homem pobre. Mas nunca sabemos que outro predador se aproxima pelas nossas costas.
Temos o sentimento de presas sem seu instrumental de defesa. Somos reféns da nossa visão especializada, tememos tudo que nossos olhos de caçador não podem captar com nitidez na sua mira: vultos, sombras, fantasmas, premonições, ruídos no escuro, sensações de culpa. Ao contrário de outros animais predatórios, sentimos culpa. Temos remorso. A palavra “remorso” quer dizer, mais ou menos, comer de volta. Outras espécies são autofágicas, mas só o homem desconfia que seu semelhante engolido pode começar a mordê-lo por dentro, por vingança.
Tememos a retribuição pela nossa omnivoracidade. Os mortos que voltam do túmulo para nos aterrorizar são como restos de comida – ossos à mostra, carnes putrefatas. Só um inato senso do ridículo impediu até agora que alguém inventasse a suprema história de terror, a de um homem perseguido pelos espíritos de tudo que já comeu na vida, desde a primeira galinha. Inclusive os vegetais.
Nosso passado de canibais nos persegue. Aquela senhora que reage à rechonchudez de um bebê dizendo que ele é tão lindo que “dá vontade de comer” só está expressando esta verdade atávica, que tudo que nos agrada é apetitoso, que no fim todo desejo é uma vontade de comer. Comida e sexo se confundem na nossa linguagem desde que ela existe, e não apenas porque a ingestão e a eliminação da comida e a atividade erótica usam as mesmas vias, ou pelos menos vias paralelas.
E nem apenas pela analogia de formas: “vagem” vem do latim “vagina”; baunilha se chama assim porque os espanhóis acharam que aquela vagem consumida pelo astecas se parecia com uma “vainilla”, diminutivo de “vaina”, ou bainha, que também vem de “vagina”; “fica”, ou figo, em italiano é o apelido da vulva; “penne”, aquele espaguete curto e grosso, vem de pênis mesmo. Etc..., etc. Mas não é só isto. Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos, seja o fígado ou a coragem do inimigo, o sangue redentor do deus ou a carne da pessoa amada. Fazemos tudo isso no sentido figurado porque, afinal, civilização é isso, é a domesticação dos nossos apetites, mas na nossa linguagem ainda somos predadores e comemos todas as nossas presas. Pezinhos de bebê incluídos.
Ou isto, ou a dieta está me fazendo delirar.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

Calvin

23/07/2026

Garçom vegetariano

Restaurante chique. Um casal está sentado. Garçom vem atendê-los.
GARÇOM Posso anotar o pedido de vocês?
HOMEM Eu tô pensando em pedir esse filé à Oswaldo Aranha. Como é que ele vem?
GARÇOM Vem morto.
HOMEM Não entendi.
GARÇOM O filé, senhor, é um boi, né? E ele é servido, invariavelmente, morto.
Garçom fica triste. Quase chora.
GARÇOM Desculpa, é que eu soube disso agora há pouco.
MULHER Sim, mas ele quer saber da parte Oswaldo Aranha.
GARÇOM Ah. Isso devia ser o nome de uma pessoa. Provavelmente um homem. Também morto. Que deu nome ao filé.
HOMEM Mas como é que ele é servido? O filé?
GARÇOM Morto. Invariavelmente. Isso daí infelizmente não tem como mudar.
MULHER Sim, mas vem com quê?
GARÇOM Ah. Alho. Por cima. Do cadáver. Do boi morto. Abatido brutalmente, com uma pancada na cabeça.
MULHER Acho que eu vou de frango. Como é que é esse supremo de frango?
GARÇOM Isso daí é um pintinho que eles entupiram de hormônio pra crescer bem rápido. Daí criaram com mais mil pintinhos entulhados dentro de uma caixa de sapato. D…
MULHER Sim, mas depois…
GARÇOM Mataram ele. Invariavelmente. É uma coisa horrível.
HOMEM Mas e a parte do Supremo…
GARÇOM Creme de leite. Por cima do cadáver. Do frango morto.
HOMEM Acho que a gente vai de saladinha mesmo.
Garçom sorri. Anota o pedido.
MULHER Tem salada de atum?
Garçom volta a chorar, inconsolável.

Gregório Duvivier, em Put some farofa

O impagável Quino

22/07/2026

Gravação

Pronto, tá ligado. Posso começar?
Pode.
O senhor se sente realizado?
Por que você quer saber isso?
Nada não. O professor é que mandou lhe perguntar.
O professor tem interesse em saber se eu me sinto realizado?
Sei não senhor.
Então diga ao professor que venha me procurar.
Pra quê?
Para eu lhe perguntar se ele se sente realizado.
O senhor vai perguntar isso a ele?
Vou.
O senhor também está estudando? Nessa idade, poxa!
Que que tem? Toda idade é boa para estudar, a gente não acaba nunca de saber as coisas. Mas não estou estudando não.
Então por que vai perguntar isso ao professor?
Porque se ele quer saber se eu me sinto realizado, eu também quero saber a mesma coisa dele. Indiscrição por indiscrição.
Gozado… Mas se o senhor fizer isso, não bota o meu nome no meio, porque vai dar grilo. Vê lá, hem.
Fique descansado. Não vou comprometer você.
E o senhor só vai responder a minha pergunta depois de falar com ele? E se ele não responder? Se demorar? Tenho de entregar esta entrevista até quinta-feira.
Bem, eu respondo agora mesmo.
Então, responde, vamos lá.
Primeiro eu preciso saber: o que é se sentir realizado?
O senhor não sabe?
Para dizer o que eu sinto, quero saber antes se o que eu sinto é o mesmo que se deve sentir quando se está realizado, ou se julga estar. E para isso é preciso saber o que é estar realizado.
Poxa, não complica.
Estou complicando, meu querido? Minha intenção era simplificar, esclarecer. O que é mesmo se sentir realizado?
Ora! Se sentir realizado é… quer dizer… Não sei explicar muito bem, mas o senhor entende, né?
Mais ou menos. Quer dizer: menos. E você?
Se o senhor não entende bem, eu é que vou entender?
Então, como é que eu posso responder?
Ué, o senhor é o entrevistado, o que sabe das coisas.
E quando não sei?
Não sabe se está realizado?
Não sei nem o que é realizado.
Corta essa. Não vai me dizer que não tem dicionário em casa.
Tenho alguns, mas em vez de me tirarem as dúvidas, me acrescentam outras.
Desculpa, mas o senhor é enrolado, hem? Será que não achou o significado de realizado?
Achei quatro ou cinco. Quer ver? Olhe aqui. O primeiro é o de coisa ou negócio que se realizou, que se tornou real. Será que me tornei real? E antes não era? Que que eu era então? Fantasma? Projeto?
Assim o senhor me funde a cuca.
Não tenho intenção.
E os outros significados?
No fim, está o neologismo, e aí é que — desculpe a expressão, que não costumo usar, mas me deu vontade — aí é que a vaca vai pro brejo. Aqui está: “indivíduo realizado: dito por uma pessoa, de si própria, quando considera ter alcançado todos os seus objetivos no terreno ético ou no de suas atividades profissionais ou artísticas”.
Tá legal.
Legal no papel, mas e dentro de mim?
Dentro do senhor o quê?
Quais são meus objetivos no terreno ético, ou, mais modestamente, no terreno de minhas atividades profissionais ou artísticas? Tenho objetivos éticos definidos? Quais são? São meus ou me são impostos ou sugeridos pela educação e pela conveniência social? Se fossem exclusivamente meus, quais seriam? E em minhas atividades práticas ou criativas? Que é que eu pretendo? Pretendo sempre as mesmas coisas? Não mudo de alvo? Não danço conforme a música ou até sem ela e contra ela? Que é que eu sei de positivo a respeito disso, ao longo de minha vida? Que pretendia eu há vinte anos? Há dez? Na semana passada? Me procure depois de eu morrer. Aí então posso dar balanço.
Chega! Chega!
Estou caceteando você?
Não está enchendo não. É que a fita acabou. Até que a entrevista foi bacana, um tremendo barato. O professor vai delirar, a turma também. Um cara que não sabe se está realizado nem o que é realizado! Papo findo, tchau!

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Banho de Netos



Já contei procês que, em 1991, minha mulher e eu sofremos um grave acidente de carro. Fiz uma operação difícil, placas e parafusos ao longo do fêmur esquerdo. Passei a claudicar — um eufemismo bacaninha.
Anos depois, bastante deprimido, eu estava quase deixando a peteca ir pro espaço quando chegaram Os Quatro Cavaleiros do Apocalápis, A Poca Roupa, A Poca Vergonha, criem os neologismos que quiserem: meus netos, Pedro, Joana, Milena e Vinícius. Foi uma paixão devastadora, à primeira vista. E correspondida.
Assim que aprenderam a falar, os quatro — tenho certeza de que há comunicação por telepatia entre as feras — começaram a me chamar de Bidu. Morri de orgulho. Vovó, com muito jeito, procurou esclarecer a origem do apelido. Minha autoestima levou um baque de bola sete, despencando no fundo da caçapa, com direito a rasgão no pano verde:
Eles acham você parecido com o cachorro do Franjinha, aquele cachorro azul, da Turma da Mônica.
Ora, mas que falta de respeito dessa galera! Num domingo memorável, comecei a sempre adiada arrumação do escritório. Sou um modesto bibliófilo. Surpresa: os netinhos ofereceram-se entre risadas marotas, pra ajudar na limpeza. Que alegria. Até o cachorro, meu superlabrador Batuque, cúmplice deles em todas as armações, carregava livros e ria. Juro que ria. A avó, ao fim de um dia glorioso, organizou, antes da pizza, um banho conjunto,todos em trajes de praia.
Foi uma bagunça histórica. Meia hora após a orgiástica lustração, voltei ao escritório pra apreciar o trabalho realizado. Eu, além de brilhar feito um ET, exalava um cheiro assaz penetrante. Vovó Mary, quase sem ar de tanto rir, novamente esclareceu a celeuma:
Eles te deram um banho com o xampu antipulga do Batuque.
Ouvi a explosão de cinco risadas nas minhas costas. Cinco, sim. Não errei na conta. Quem mais ria — posso asseverar com a mão direita sobre a Bíblia — era o cachorro, a ponto de rolar no carpete.
Essa vai ter forra.

Aldir Blanc, em Direto do Balcão

20/07/2026

Hagar

Receitas


Não sou um gourmet mas gosto da minha sauce bernaisezinha. Alguém já disse que gourmet é o cara que se preocupa mais com a pronúncia certa que com o gosto do que come, e não é o meu caso. Acho que um caneton aux herbes de Provence com qualquer outro nome saberia o mesmo, desde que fosse bem-feito, e, que diabo, o maître geralmente é do Espírito Santo, a pronúncia dele é pior que a minha.
Só entendo de comida da boca para dentro. Na cozinha só entro para reivindicar a rapa, e a única parte de uma receita que me interessa é o “leve-se à mesa”. Na última vez que tentei fazer uma omeleta acabei, estranhamente, com purê de batata. Outra vez joguei fora o macarrão e servi a água quente. Felizmente improvisei um nome na hora — eau chaude au hasard — que me salvou do vexame. Não sei cozinhar. Mas sei comer. E assim como certas anfitriãs anunciam com antecedência o nome da autora de seus jantares — “olha, vai ser vatapá feito pela Dona Maria” — já houve casos de anunciarem a minha presença à mesa como uma atração da festa. Veja com que alegria ele limpa o prato. Delicie-se com a sua correta abordagem da lagosta. Vibre com a sua rapidez na mousse au chocolat. Você nem precisa comer, olhar para ele comendo já é um banquete. E sou cada vez mais solicitado.
Posso contar com você no dia 26? É um grupo pequeno, cavaquinhas na manteiga. Você sentaria à cabeceira com um discreto holofote em cima e gemeria um pouco depois de cada garfada.
Dia 26? Preciso consultar a minha agenda. Deixa ver... Não, infelizmente no dia 26 tenho um strogonoff. Fui contratado para repetir o strogonoff quatro vezes e no fim bater na barriga comicamente.
E se eu fizesse o meu jantar um pouco mais tarde? Você poderia comparecer aos dois.
Hmmm. Tenho que pensar no assunto. Qual é a sobremesa?
Estou planejando alugar meus serviços para restaurantes com uma clientela indecisa. Em poucos minutos, na minha mesa de canto, eu faria tais gestos e tais ruídos de satisfação com a comida que em pouco tempo transformaria o restaurante numa entusiasmada alegoria à Henrique VIII, o tal que, quando não estava decapitando esposas, estava destrinchando galinhas com os dentes.
Mas se sou um inocente na cozinha, não posso negar que há um certo fascínio na sua linguagem esotérica. Às vezes leio receitas como leio certos poetas, entendendo a metade mas cativo dos seus ritmos e ressonâncias. Todas têm aquela autoridade das poções mágicas, velhas e precisas encantações passadas de feiticeira a feiticeira desde as primeiras cavernas. É a sabedoria milenar do caldeirão. Exatamente tantas cabeças de sapo e tantas bossas de anão, deixe no fogo até borbulhar, ponha de lado e prepare o sangue de virgem Sarracena. Claro que hoje a cozinha tem recursos com os quais as feiticeiras nem sonhavam: batedeiras que só faltam brigar com as crianças, fornos verticais que caminham até você e batem no seu ombro quando o assado está pronto. Mas as receitas preservam seu ar cabalístico. As medidas devem ser estas e só estas, senão tudo desanda e o demônio rouba a alma do suflê. O fogo deve ser alto e não brando. Ou então brando mas não Marlon. E os temperos?
Os nomes dos temperos são tão fascinantes que nos inspiram até a imaginar alguns novos.

Duas pitadas de alfarrábio.
Tinhorão picadinho.
Um feixe de sandice, mas sem exagero.
Ramal, zico, samovar, sementes de oligofrenia e algumas folhas de alvará do campo.
Corrupção à vontade!

Na Guiné, o tubarão branco aux fines herbes é uma especialidade. Pegue-se um tubarão dos grandes. O tubarão deve ser jogado vivo dentro de um grande caldeirão cheio deágua salgada, sobre o fogo. Em seguida, acrescentem-se dois porcos selvagens, quatro galinhas, um missionário protestante e um cunhado do chefe que caiu em desgraça. Mexa-se lentamente até ferver a água ou até o tubarão comer a colher, o que vier primeiro. Deixe-se o tubarão de lado. Aproveite-se a água quente para dar banho nas crianças. Tempere-se o tubarão com mirtes, paranhos, ogivas do mato, usucapião e brás de pina. Sirva-se em fatias dentro de folhas de parreira com uma porção de fritas ou arroz. Guarde-se o espinhaço para bater no chef.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

14/07/2026

Autor não encontrado

Olá, a coluna desta segunda-feira infelizmente não foi enviada pelo autor. Quem está escrevendo agora é a editora deste caderno, que precisou preencher em cima da hora o buraco que o Gregorio deixou, por não ser um bom profissional. Todo sábado, recebemos o texto em cima do laço, e é sempre a última coisa de que precisamos para fechar a edição de segunda. Diagramadores, editores, revisores, todos sofrem. Mas quem mais sofre é Natalia, a ilustradora, que se vê obrigada a improvisar um desenho às pressas.
E toda semana é a mesma correria. Já pedimos algumas vezes que ele se programasse para mandar o texto com antecedência, mas ele ora pede desculpas e diz que está passando por maus bocados “em casa com a patroa” (sic) ora pede que “parem de encher a porra do meu saco, eu sou um artista livreeee” (sic). Às vezes diz que só precisa de um tempo para “apertar unzinho enquanto a inspiração não baixa”.
Uma vez, nos escreveu um e-mail que deixou a todos mais calmos: “Estou em frente ao computador, vou mandar agora mesmo”, mas logo abaixo estava escrito “enviado do meu iPhone”. Alguns minutos mais tarde, publicava em seu Facebook que tinha passado de fase no Candy Crush. O texto veio só no dia seguinte.
Nesta semana, foi diferente. Gregorio disse que não mandaria o texto pois estava muito “pegado de trabalho” (sic). Descobrimos através do seu Instagram que ele está na Grécia. Uma foto dos seus pés na areia revela que ele estaria “recarregando as baterias”. Em outra foto, abraçando uma estátua em Delos, ele diz: “Obrigado Apolo, continue a me iluminar”. Procurada, sua assessoria afirmou que ele está viajando em um ato de “protesto contra a Copa”.
Por isso, precisei escrever a coluna no lugar dele. Pedi à Natália que ilustrasse a coluna com um desenho bem horroroso do seu rosto, enquanto eu tento replicar seu estilo. É fácil de imitar: em geral a adversativa vem introduzida por dois pontos. A temática também é sempre a mesma: basta aproveitar este espaço pra divulgar causas pessoais e se autopromover. Seguinte: tô vendendo um Corsa 2003 sedã quatro portas única dona favor ligar para a Folha e tratar com Heloísa Helvécia.

Gregório Duvivier, em Put some farofa