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29/02/2020

O abolicionismo

Aqueles que alguma vez, em dias de luta, reclinaram na ternura do seio materno a cabeça preocupada, e conservam no fundo d’alma, como aroma de lírios extintos, essa reminiscência benigna, — esses avaliem a consolação do pobre soldado de tantas lutas contra a injustiça, sentindo hoje, entre duas separações, na fronte experimentada pelo fogo estas carícias de mãe.
As coroas que a glória bafeja, embriagam como o suco da vinha: as que o interesse sobredoira, nodoam como o azinhavre do cobre; as que a condescendência liberaliza, amesquinham como a proteção imerecida; mas aquelas com que o ingênuo desvanecimento da pátria afaga a dedicação obscura dos seus trabalhadores, sabem à sinceridade do primeiro leite da vida, e ameigam o coração magoado com a doçura dos beijos que nos perfumam o berço.
Por entre as trevas que velam a face da nossa Bahia, a mãe forte de tantos heróis, a antiga metrópole do espírito brasileiro, com pés assentados na história do seu passado luminoso e a cabeça a cintilar dos astros ainda não apagados na noite das suas tristezas, como aquela imagem dos livros santos, calçada de lua e coroada de estrelas, — as associações abolicionistas representam a plêiade do futuro, nesse diadema de onde as baixezas da nossa política não conseguiram desengastar as últimas gemas.
Pequeninas são elas, e mal parece deslocarem-se, como tão pequeninos e imóveis esses focos radiantes que descrevem órbitas infinitas pelo espaço celeste; mas a verdade tão certa como a eterna estabilidade das leis que regem o cosmo, é que esses núcleos de condensação e irradiação patriótica assinalam hoje os nossos pontos de orientação, no horizonte das coisas que estão por vir.
Pueril engano realmente, senhores, o dos que veem no abolicionismo o termo de uma aspiração satisfeita, A realidade é que ele exprime apenas o fato inicial da nossa vida na liberdade, o ponto de partida de uma trajetória sideral, que se desdobra incomensuravelmente no campo da nossa visão histórica. Cegos os que supõem na abolição a derradeira página de um livro encerrado, uma fórmula negativa, a supressão de um mal vencido, o epitáfio de uma iniquidade secular. O que ela é, pelo contrário, é um cântico de alvorada, o lema já não misterioso de uma idade que começa, o medir das forças do gigante que se desata. Imaginai Prometeu desencadeado, livre do abutre, ensaiando pela escarpa da montanha os primeiros passos de sua vitória contra a tirania suprema.
Nós éramos um povo acorrentado a um cadáver: o cativeiro. O meio século de nossa existência nacional demarca um período de infecção sistemática do país pelas influências sociais e oficiais interessadas na perpetuidade desse regímen de uma vida abraçada à podridão tumular. Agora, que o tempo acabou de dissolver essa aliança sinistra, vamos encetar a cura da septicemia cadavérica, do envenenamento do vivo pelo morto; trabalho que nos impõe os mais heroicos esforços de reação orgânica, e a que há de presidir o signo redentor do abolicionismo.
Abolicionismo é reforma sobre reforma; abolicionismo é reconstituição fundamental da pátria; abolicionismo é organização radical do futuro; abolicionismo é renascimento nacional. Não se há de indicar por uma sepultura com uma inscrição tumular mas por um berço com um horóscopo de luta.
Os que fizeram esta campanha — não me refiro aos operários da última hora, mas aos que se votaram a ela nos dias de dúvida, de sacrifício e de perigo — esses assumiram para com a sua honra um compromisso, que está por saldar-se: a eliminação progressiva das instituições servis, quero dizer, das instituições que vieram pelo consórcio com a escravidão, que se nutriram de seus vermes, e agora, extinto o cativeiro negro, hão de conspirar tenazmente pela eternidade do cativeiro branco.
Rui Barbosa, in Antologia

14/02/2020

Visita à terra natal

Depois disto... diante disto... não sei como principie...
Aos primeiros sorrisos longínquos de minha terra na curva azul de sua enseada, enquanto o vapor me aproximava rapidamente destas doces plagas, onde minha mãe me embalou o primeiro e meus filhos me velarão, talvez, o último sono, vendo pendurar-se do céu e estremecer para mim o ninho onde cantou Castro Alves, verde ninho murmuroso de eterna poesia debruçado entre as ondas e os astros, parecia-me que a saudade, amado fantasma evocado pelo coração, me estendia os braços de toda a parte, no longo amplexo do horizonte. Minha vida inteira, o remoto passado fugitivo recompunha-se-me nalguns instantes, de uma infinita suavidade triste, como a das grandes afeições tenazes, que lutam contra a volubilidade dos sucessos, e procuram fixar-se à beira da corrente irresistível da vida, abraçando-se aos ramos imortais do ideal. Nesse crescer, porém, de recordações, onde o meu espírito flutuava, anelante, de vaga em vaga, de pensamento em pensamento, de ressurreição em ressurreição, mais vivas, mais insistentes, mais obsessivas entre todas se me debuxavam na memória as impressões da minha última visita a estes lares. Vai por cinco anos. Era em 1888. Corriam os últimos dias de abril. Poucos me eram dados, para respirar estes ares, a cujo oxigênio se formou a minha paixão pela liberdade. Eu vinha só com a minha fé, a única força que a natureza não me recusou, a companheira fiel das minhas provações, o viático de meu caminho acidentado. A atmosfera do império e da escravidão oprimia-nos, abafadiça, de todos os lados. Os partidos monárquicos brigavam, enfezados, na sua rixa de lagartos, na raiva preguiçosa de velhos estélios coriáceos, à luz de uma publicidade indiferente, ou hostil, como os raios do sol que acariciam o torrão próspero, mas flagelam a estepe escalvada, no silêncio, no marasmo, na solidão moral da pátria, calcinada por uma esterilidade maldita.
Quisestes então ouvir-me, amigos meus, bons conterrâneos, meus irmãos... irmãos, porque fomos ninados todos no mesmo berço destas encostas arredondadas e meigas como regaço de fada benfazeja, todos amamentados aos seios da mesma mãe, a alma Bahia, mãe da inteligência, da generosidade e do entusiasmo…
Rui Barbosa, in Antologia

12/01/2020

A oração do filho

Mas, antes de nos deixarmos, vinde comigo depor estas homenagens, estes troféus, estes símbolos no altar que os deve receber.
Espírito supremo daquele que me ensinou a sentir o direito, e querer a liberdade; daquele cuja presença íntima respira em mim nas horas do dever e do perigo; daquele a quem pertence, nas minhas ações, o merecimento da coerência e da sinceridade; emanação da honra, da veracidade e da justiça, espírito severo de meu pai; imagem da bondade e da pureza, que verteste em minha alma a felicidade do sofrer e do perdoar, que me educaste no espetáculo divino do sacrifício coroado pelo sacrifício, carícia do céu na manhã dos meus dias, aceno do céu no horizonte da minha tarde, anjo da abnegação e da esperança, que me sorris no sorriso de meus filhos, espírito sideral de minha mãe se o bem desabotoa alguma vez à superfície agreste de minha vida, vós sois a mão do semeador, que o semeou, vós, cuja energia me criou o coração e a consciência, cuja benção derramou a fecundidade sobre as urzes de minha natureza. Quando, na minha existência, alguma coisa possa inspirar gratidão, ou simpatia, não me tomem senão como o fruto em que se mitiga a sede, e que se esquece. Vós, autores benignos do meu ser, vós sois a árvore dadivosa cujos benefícios sobrevivem no reconhecimento, que não murcha. Estas flores, magia de um jardim instantâneo, onda esparsa de uma alvorada balsâmica, estas flores em que se desentranha, ao contacto da Bahia, o berço, que me afofastes com a vossa ternura, que me guardastes com as vossas vigílias, que me perfumastes com as vossas virtudes, estas flores são vossas: recebeia-as. Que elas envolvam no seu aroma a vossa memória, reabram, em cada geração de vossos netos, aos pés da vossa cruz, e deixem cair o refrigério de seu orvalho sobre as paixões corrosivas, que ulceram a pátria, amofinando-lhe o presente, ameaçando-lhe o futuro.
Rui Barbosa, in Antologia

31/12/2019

Pai e filho

Falei-vos em meu pai. O que eu sou, menos o coração em que minha mãe entrou grandemente, dele nasce quase exclusivamente, como a água que corre da água que já correu. Esta palavra, de que eu uso em mim diminuída, era dele, o maior orador que jamais conheci. Esta cabeça, que eu tenho, não é mais que uma apagada sombra da sua. Esta paixão da liberdade e do direito e da justiça, herdou-ma ele, a mais justa das almas, o mais irredutível liberal que eu nunca vi, liberal à inglesa e à americana. O amor da pátria, a intransigência da honra, a firmeza da vontade, o culto dos princípios, o desprezo dos perigos, o fundo religioso do sentimento e das ideias, isso tudo é seu. De modo que, a cada passo da minha vida, o que eu sinto dentro no mais íntimo de mim mesmo, é meu pai. Ele não morreu: em mim vive, e reviverá, enquanto alguma coisa de mim restar.
Rui Barbosa, in Antologia

23/12/2019

O vício

O vício arrecada sobre a atividade do ocioso quatro espécies de impostos: a perda do tempo, a perda do estímulo, a perda da saúde e a perda do dinheiro. A importância desse quádruplo desfalque poderia ser precisamente computada em algarismos por quem se propusesse a sindicar, pelo sistema das monografias empregado hoje nos inquéritos sociais, a voracidade do parasita multiforme comparando, no orçamento do jogador, ou do dissoluto, o quinhão da família com o das suas abjetas rivais: a batota, a mancebia, a crápula, a taverna.
Uma inexorável maldição lhes mirra a atividade, definhando-lhes os recursos para os deveres mais sagrados. Tudo em torno deles acusa a esterilidade das coisas precitas: o traje é descuidado, a casa nua, o pão raro, servil a condição da esposa, a instrução dos filhos grosseira, as dívidas a monte, frequentes os desaires, as privações infinitas, o cálice da vida azedo, odioso, incomportável. Mas, se pudésseis contar as horas e as somas continuamente absorvidas pela madraçaria viciosa aos chefes dessas colônias de infelizes, verificaríeis que esses prejuízos representam verdadeiras riquezas, opulências incalculáveis, que a providência e o trabalho teriam multiplicado, mas as dissipações criminosas extraviam e devoram.
Rui Barbosa, in Antologia

30/11/2019

A mão do Senhor

Bendita seja, Senhor, a mão, que tantas graças em mim tem derramado. Vós me destes progenitores imaculados, que buscaram ensinar-me a não errar os vossos caminhos. Liberalizastes-me cinquenta anos de atividade ao serviço do meu país. Mais de quarenta me permitistes de união com uma companheira, que tem sido a vida de minha vida, a alma de minha alma, a flor sempre viva da vossa bondade no meu lar. Já me deixastes ver a segunda geração de uma descendência que me não deslustra. Ao cabo de tantas dádivas, me vejo agora cercado, tão assinaladamente pela benquerença dos meus concidadãos. E, sobre essa profusão de benefícios, ainda me cabe a dita, sem preço, de ver, no esboçar-se da vitória dos povos contra os déspotas, na confissão do valor dos pequenos pelos grandes Estados, na próxima União das Nações, o amanhecer desses ideais de legalidade e direito, de tolerância e democracia, de paz e fraternidade, que os vossos Evangelhos nos entremostram há mais de 1.900 anos. É muito, Senhor, para quem tão pouco merece, e, por mais dura que me tenha sido a carga do trabalho, por mais que me haja custado o amargor dos trabalhos, nada me resta, nada se apura do meu escasso crédito, comparado à dívida infinita, de que a vossa misericórdia me acabrunha.
Mas, Senhor, se a quem nada tem com que pagar, ainda será lícita a ousadia de pedir (e tal é, para convosco, a condição de todas as criaturas), dai que hoje, daqui, do alto desta solenidade, cujo esplendor só a vós pode ser tributado, juntemos todos as nossas orações às que há quatro anos se elevam aos vossos pés, de todos os cantos do planeta, num oceano de lágrimas, soluços e vidas, pela regeneração da vossa obra inenarrável, desnaturada hoje totalmente com a renascença do antigo paganismo na política anticristã, que baniu a moral, o direito e a verdade, substituídas pelo interesse, pela servidão e pela mentira.
Da vitória do bem não duvidei jamais, porque nunca me vacilou a crença na vossa justiça.
Rui Barbosa, in Antologia

25/11/2019

Direito e liberdade

A cultura jurídica estabelece um círculo de preservação admirável, nestes períodos retrocessivos de indiferença, medo e sicofantismo, contra a infecção reinante. O trato usual do direito, o hábito do seu estudo, a influência penetrante da sua assimilação, nos acostumam a viver na razão, na lógica, na equidade, na moral, nos ensinam e predispõem a desprezar a força. Quando esta se apodera de uma sociedade, e, sob a pressão do seu contacto, a desmedula, a esvazia, a consome, a prostitui, a cadaveriza, cobrindo-a de vermes, as associações do gênero da vossa abrem, aos refratários, um refúgio abençoado. E, se um dia, após as longas tribulações desse gênero de tifismo, a coletividade em perigo emerge, afinal, desmorrendo, recobra a consciência de si mesma, convalesce na inteligência, na energia, no asseio, na honra, então nestes centros de reação persistente é que ela vem encontrar o tabernáculo das tradições da sua dignidade.
Outras não devem ser as afinidades, que aproximam do meu o vosso espírito, e embebem a solenidade que nos une deste alvoroço, desta efusão, deste suave calor reconfortante. Vinte anos há que me eu mato, clamando aos meus concidadãos contra a imoralidade e a baixeza da força, apostolando-lhes a nobreza e a santidade da lei. Toda a existência do nosso regímen se tem consumido nesse incessante conflito entre o princípio do bem e o do mal, com a prevalência, por derradeiro, do princípio do mal sobre o do bem. O meu papel, nesta fase histórica, espelha, dia a dia, esta luta. Outra coisa não sou eu, se alguma coisa tenho sido, senão o mais irreconciliável inimigo do governo do mundo pela violência, o mais fervoroso predicante do governo do homem pelas leis.
Se de algum modo mereci a fortuna da vossa eleição, de certo não foi por este. Os frutos da minha vida são escassos e tristes, bem que os seus ideais tenham sido grandes e belos. Muito é o bem a que tenho aspirado; mas o colhido, muito pouco. Não será, logo, pelo acervo dos resultados, que me teria feito digno do ingresso ao vosso consórcio. O que eu, aos vossos olhos, realmente valer, só se explicará, já se vê, pela excelência das convicções, que têm moldado o caráter da minha passagem por entre os meus contemporâneos, e determinaram no meio deles a minha posição atual.
Duas profissões tenho amado sobre todas: a imprensa e a advocacia. Numa e noutra me votei sempre à liberdade e ao direito. Nem numa nem noutra conheci jamais interesses, ou fiz distinção de amigos a inimigos, toda vez que se tratava de servir ao direito, ou à liberdade.
Rui Barbosa, in Antologia

21/11/2019

O sino da liberdade

Conta uma tradição cara ao povo americano que o Sino da Liberdade, cujos sons anunciaram, em Filadélfia, o nascimento dos Estados Unidos, inopinadamente se fendeu, estalando, pelo passamento de Marshall. Era uma dessas casualidades eloquentes, em que a alma ignota das coisas parece lembrar misteriosamente aos homens as grandes verdades esquecidas. O maior dos oradores não podia falar mais eloquentemente daquela morte do que o instrumento de alegria, com que se saudara em alvoroço o berço da nação, partindo-se tristemente sobre o túmulo do maior dos seus juízes. É que a existência das repúblicas se mede pela existência da justiça. Abençoada raça a que, ao assentar da sua independência, pôde ter por patriarca da lei o magistrado extraordinário, que, durante 35 anos, foi o comentário vivo e incorruptível da sua constituição. Inflexível na sua cadeira, como a expressão impessoal da legalidade, a ele se deve o não ter sido, ali, o poder judiciário usurpado pelo legislativo, ou desobedecido pelo governo. Era mister uma força, que resistisse a essas tendências, dobrando à autoridade da interpretação constitucional a rebeldia dos presidentes, e as paixões políticas das maiorias parlamentares. Quando ele se sumiu, pois, dentre os vivos, podia-se crer que a república estivesse mortalmente ferida. E, se a república lhe sobreviveu, é porque ele teve sucessores; se a república medrou, é porque esse tribunal tão pouco notado nos seus primeiros anos, antes de Marshall, que ainda se não conseguiu saber ao certo a casa onde funcionava na capital da Pensilvânia até 1801, a tal ponto desenvolveu a soberania da justiça, a reverência popular pelos seus ditames, o prestígio do seu poder sobre os partidos e os governos, que atualmente o fato mais notável do regímen americano é a grandeza da autoridade judiciária, e, se há diferença essencial entre esse sistema político e o das outras democracias, ela consiste no papel dos seus tribunais.
Foi isso que nos fascinou, ao escrevermos a constituição brasileira, porque a república federativa é um absurdo nos povos, que não tiverem a moralidade precisa para imitar, ainda que imperfeitamente, esse padrão. Sem uma justiça mais alta que as coroas dos reis e tão pura quanto as coroas dos santos, esta forma de governo é a expressão mais anárquica da tirania das facções desenfreadas. Se a política não recuar diante desta casa sagrada, em torno da qual marulha furiosa desde o seu começo; se os governos se não compenetrarem de que na vossa independência consiste a sua maior força, a grande força do princípio da autoridade civil; se os homens de estado se não convencerem de que o que se passa aqui dentro é inviolável como os mistérios do culto; se os partidos não cessarem de considerar inocentes e impenetráveis sob o tênue véu dos artifícios políticos as suas conspirações contra a consciência judiciária, ai de nós! porque, em verdade vos digo, não haverá quem nos salve. O sino da liberdade não terá de dobrar sobre o sepulcro dos juízes, mas sobre o ignominioso trespasse da república, contra a qual, nas mãos da nação revoltada pela falta de justiça, se levantarão as pedras das ruas.
Rui Barbosa, in Antologia

13/11/2019

Hino à liberdade

Fora da liberdade, não sonhe ninguém a verdadeira prosperidade, material ou intelectual. Vós os que buscais na terra, amanhada com devoção, os tesouros, que vos oculta o seu seio inexaurível, não acrediteis que o trabalho possa medrar onde uns homens são servos de outros, onde a raça perde a sua virilidade no cativeiro, onde o torrão que se ara com amor se encrava nos desertos estéreis da escravidão. Vós os que vos tendes entregado às artes, às letras, às ciências, não esqueçais que de todas elas a mãe é a liberdade, e que sem esta o desenvolvimento daquelas é uma quimera fatal.
Do mundo antigo só não pereceram, para o cabedal estável do gênero humano, o cristianismo e a civilização grega, de que a romana é um longo reflexo. Mas o primeiro nos trouxe a liberdade no verbo divino da redenção pela justiça, pela tolerância, pela igualdade, e a segunda floresceu com a liberdade na eloquência, na filosofia, nas obras-primas da grande inspiração, nas supremas expressões humanas do belo.
Dezenas de séculos não lograram destruir a ânfora sagrada, que o gênio livre da Grécia inclinou à beira do mar Jônio; e é ainda ali que o pensamento busca hoje as suas origens, que os grandes renovadores da nossa cultura vão achar as fontes eternas, os modelos inimitáveis da transparência luminosa, da sinceridade e da natureza.
Rui Barbosa, in Antologia

09/11/2019

Os clarins da alvorada

Ora bem, senhores; esse oscilante resto do passado, essa mesquinha ruína, essa espécie de mendigo, levou a buzina à boca, soprou de rijo no metal, apelidou a gente, a cidade e o campo, tocou alarma, e toda a terra, ao perto e ao longe, acordou, respondendo. Por essa garganta, em que as cordas vocais devem ter estalado com os anos, pelo instrumento fendido e rechinante dessa traqueia gasta por esse tórax, onde já não borbulham paixões, mas gelam cinzas extintas, — que fôlego misterioso lhe invadiu o seio, lhe dilata o colo, lhe rebenta a boca, lhe enche as roscas do antigo bronze esverdeado, arrancando-lhe esses sons possantes de trombeta, sons desses, a que as almas acorrem, a que as vontades se decidem, a que os corações se arremessam impetuosos, a que se alvoroça a redondeza, buscando nos céus donde vem o clangoroso madrugar da vida?
Não seria, de certo, nem o hálito de um Titão, quanto mais o anélito morrediço de um velhinho, que o peso dos dias averga para a terra, e a que a ferrugem da idade comeu a ressonância da voz.
É o sopro do Senhor, o vento que acorda as águas, agita os oceanos, transporta as areias do deserto, move os baixios das costas, desanuvia ou escurece os horizontes. Só ele poderia desencadear, numa atmosfera de calmaria morta, de inveterada imobilidade, esta correnteza violenta, que sussurra como o tropel de exércitos em marcha, e retumba como o trovejar de cataratas despenhosas.
Escutai o rumor que engrossa e se avizinha. Diríeis que embocou pelas grotas da antiga Vila Rica, pelas velhas galerias abandonadas, e traz o eco das jazidas que se reanimam, o canto dos garimpeiros ao coruscar do oiro nas pepitas do torrão revolvido.
Diríeis que passou pelas bocas do Morro Velho, que se encostou aos vãos hiantes das suas escavações habitadas pelo murmurinho dos mineradores, e hauriu daquelas profundezas os segredos cativos, há séculos de séculos, nas entranhas da terra, para lhe semear deles, e lhe fecundar com eles a superfície cansada.
Diríeis que se espraiou nas chãs de Belo Horizonte, e ali se carregou do bulício festival dos espaços, da orquestra das cores do infinito, das emanações do éter remoto, onde giram os mundos, e vem com a aragem livre das esplanadas, com os sussurros da esperança nos longes do céu.
Diríeis que saiu da virgindade e do silêncio da mata mineira, embebido no rugir da consciência das coisas, testemunha acorrentada e impaciente das misérias do homem.
Diríeis, enfim, que aqui, neste centro de trabalho, nas indústrias de Juiz de Fora, essa torrente de energia em vibração intensa encontrou o seu órgão, o boqueirão, por onde resfolega, por onde ventaneia, por onde atroa, por onde se sente que Minas respira, que Minas vive, que Minas desperta, que Minas se levanta, Minas, a que, onde esteja, leva consigo o peã irresistível, o hino da vitória.
Donde surgiu esta comoção do ambiente? Donde, o aeremoto benfazejo? De uma palavra dita. De uma palavra dita, senhores, de um Fiat, se operou a criação toda. De uma palavra anunciada, um Surrexit, emergiu o mundo cristão. De uma palavra pregada, Reconstrução, vai surgir o futuro brasileiro. Reconstrução pela resistência. Reconstrução pela verdade. Reconstrução pela justiça. Reconstrução pela lei. Reconstrução pela moralidade. Reconstrução pelo civismo. Reconstrução pela fé, origem de todas as coisas, base de todas as reconstruções.
Vai surgir, disse eu. Surgirá, de feito, se o quiserdes. A revolução moral de 1910 hibernou nove anos na vossa mágoa, na vossa decepção, na vossa saudade. Não deixeis hibernar, a que se começa a pronunciar em 1919. Depende só de que vos não esqueçais do exemplo dado, da experiência adquirida.
O “velho”, o “velhinho” toca o termo da sua carreira. Breve terá livrado ele da sua presença odiosa os ostracistas do regímen, que lhe pagou a criação com a proscrição.
Mas, por um que vai, milhares doutros aí se acham para embocar os clarins de alvorada.
Rui Barbosa, in Antologia

03/11/2019

Estadistas sem opinião

Sei que estou fazendo apenas um trabalho para liberais e moralistas políticos, raça suspeita e condenada à desaparição, longe, bem longe da esfera onde o governo descreve esplendidamente a sua órbita vitoriosa. Posso, pois, demorar-me em remirar com amor a imagem das cousas extintas, uma vez que escrevo talvez mais para os que vivem no passado que para os que sonham no futuro, e certamente nada para os que se comprazem no presente.
Coube-nos por fadário viver na era dos estadistas que não têm opiniões. Creio que esta é mesmo a frase sacramental. E essa casta de homens, obrigados a receber cada manhã o santo e a senha da convicção, que hão de advogar nas 12 horas seguintes, passam por exigências de atividade sobre-humanas. Não é para eles que eu traço estes esboços retrospectivos. Vejo a intolerância da força mostrando as unhas nas assembleias deliberantes, a canina facúndia, de que falava Quintiliano, ululando na voz dos amigos do poder; e não me atrevo a perturbar os ideais da época. O homem que atravessa uma quadra de epidemia convulsionária, conservando as qualidades de observador, já não deve pouco ao céu, e por felicíssimo há de dar-se, se não sente converter-se-lhe n’alma a curiosidade em desprezo, em fel a piedade. É preciso tornar o gentio político como ele é, e deixá-lo acabar, de si mesmo, pelos vícios, que paulatinamente vão fazendo recuar ante a civilização o elemento selvagem. Até então deixemo-los retoiçar nas festas da aldeia, agachar-se aos pés dos ídolos da tribo; e, se se julgam livres, porque são bárbaros, se se reputam heroicos, porque são maus, se se gabam de disciplinados, porque são inconscientes, não há mudá-los. Nesses estados embrionários do entendimento, a que o fanatismo chega a degradar os partidistas, a inteligência do degenerado não distingue, às vezes, a lua, que se espelha no pântano, da rã que coaxa na esteira luminosa do astro. Quisquis amat ranam, ranam putat esse Dianam.
Se Voltaire dizia que “basta um tolo para desonrar uma nação”, é naturalmente porque Voltaire acreditava existir alguma relação natural entre o valor das nações e o siso comum dos homens que as representam. Mas Voltaire escrevia para outro hemisfério, e não conhecia a América Meridional. Os progressos da ciência política neste continente inverteram as bases lógicas dessa opinião; e se o filósofo de Ferney não recebe em plena face o epíteto vibrado por ele contra as demências de seu tempo, é que o vingador dos crimes da degradação da justiça naquela época, o homem que se revoltava contra os assassínios judiciários de Calas e La Barre, como nós contra as tentativas de homicídio administrativo dos nossos conterrâneos, perseguidos pela crueldade política, teve o espírito de mudar-se para vida melhor, antes de lhe caber uma vez a palavra, como deputado da oposição, frente a frente com uma maioria republicana de bíceps reforçados.
Eu não me atrevo a dizer, algumas vezes, a verdade, senão porque percebo que estou fora do meu tempo. Os homens práticos, que passam por mim, distraídos nas grandes cogitações, administradores, estadistas, magistrados, hão de fazer-me a justiça de não levar à má parte, isto é, de não tomar estritamente a sério as divagações de um retrógrado, uma espécie de alma do outro mundo, que pretende impor à República a obrigação de ser menos antirrepublicana do que a monarquia. A última das Repúblicas devia apresentar qualquer novidade conspícua, no confronto com as suas irmãs prenascidas. O governo atual salvou, pois, o nosso amor-próprio, depondo solenemente os compromissos liberais, que embaraçam, noutros países, os ademanes do governo democrático. Uma democracia emancipada se moque bien de tout ça. Em política, como em poesia, o nome de decadentes deixou de ser uma depreciação: é o título de uma escola, é a fórmula de um progresso. Deixem-me, pois, terminar o meu quadro histórico neste canto de esquecimento, que eu amurei com três ou quatro ideias velhas para horizonte de minha velhice, que se aproxima. Se a tela for importuna aos olhos dos felizes, creiam que não vale a pena usar dos direitos incontestáveis do governo, confiscando-lhe a propriedade ao autor, ou mandando-o aprender a amar a República, em paragens onde as sentenças de morte não encontrem testemunhas. Deixem a rabugice do antiquário ao pó do tempo. E verão como este justifica os governos de aço.
Rui Barbosa, in Antologia

29/10/2019

Santelmo e fogo-fátuo

Na política brasileira avulta, há muito, a insigne classe dos insultadores, cuja função política se reduz exclusivamente ao ofício de insultar. São os magarefes de certa espécie de açougues, onde se corta, na honra das almas independentes, na fama dos homens responsáveis, no merecimento dos espíritos úteis, nos serviços dos cidadãos moderados, o bife sangrento para o estômago da democracia feroz. Esta divindade alucinada, antípoda da democracia liberal e culta, disciplinada e humana, progressista e capaz, vive deglutindo majestosamente a carniça, que lhe chacina a sua matilha de hienas. O furor difamatório, a vesânia vituperativa, a protérvia de enxovalhar os adversários mais limpos com os aleives mais torpes constituem a sua eloquência, a sua probidade, o seu patriotismo. A decomposição orgânica exala o fogo-fátuo. O ar eletrizado acende o santelmo na ponta das lanças heroicas e no topo dos mastros atrevidos, que desafiam o oceano, Dir-se-ia, contudo, a mesma luz que brilha nos dois meteoros. Mas a claridade do fogo-fátuo nasce da infecção, e atrai para o lodo; a do santelmo lampeja do fluido sublime, que rasga as nuvens, anuncia a glória, e aponta para os céus. Senhores, quando vejo bruxolear um desses pequeninos Demóstenes da diatribe, ergo a vista para o alto, onde quis que a tivéssemos Aquele que deu ao homem a fronte levantada, os homini sublime dedit... e já os não diviso. Há de ser a lamparina dos brejos, concluo então de mim para mim; e espero que o azul da chama rasteira se apague à superfície do charco.
Rui Barbosa, in Antologia

24/10/2019

Política e politicalha

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente. A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de o explorar a benefício de interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou conjunto das funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.
Rui Barbosa, in Antologia

20/10/2019

O eco

Não será, de certo, um nome novo, nem há de pretender ao mérito da originalidade. Mas é, na sua singeleza e brevidade, um nome bem-inspirado, bem-achado e bem-agoirado, um nome de feliz expressão e excelentes promessas: todo um programa numa só palavra.
O eco não mente, nunca mentiu, não pode mentir: estampa, duplica, repercute os sons, os rumores, as vozes; recolhe do ambiente, e transporta, alonga, renova as impressões, as vibrações, as comoções da atmosfera: dá aos contactos e aos choques, às quedas e aos sustos uma enunciação alada, veloz, instantânea como a dos raios luminosos; descobre os ruídos sutis, escava os segredos recônditos, reúne os gemidos esparsos, e das leves ou grandes ondas, abafadas no solo, escondidas nas trevas, disseminadas no ar forma as largas ressonâncias, os brados, os clamores, que animam o espaço, abalam a terra, e anunciam o tempo.
Batizar-se com a denominação de eco o mesmo importa que tomar a verdade, a fidelidade, a imparcialidade, a incorruptibilidade por credo, por vocação e por bandeira. Não se acharia, por mais que se buscasse, para entrar ao jornalismo, a porta de um compromisso mais eloquente, mais preciso, mais severo.
Servir ao público de eco aos fatos, às coisas, às realidades contemporâneas, e ser, do público para com ele mesmo, o eco dos seus sentimentos, das suas aspirações, das suas necessidades: eis aí tudo o que da imprensa poderia reclamar a mais exigente das fórmulas do seu dever. E tudo isto se traduz, isso tudo se condensa na escolha do nome, com que entra à liça este simpático e esperançoso órgão de publicidade, em cuja tenda se agrupam, com vivo amor ao trabalho e ardente fé no ideal, algumas consciências e coragens comprovadas na luta pelas boas reivindicações humanas e pela boa causa brasileira.
Dar todos os ecos ao mal, e extinguir todos os ecos do bem: tal a empresa em que, há quatro anos, se afervora o governo da nossa degradação, e cujo sistema culminou, para a nossa miséria e vergonha nossa, nos oito meses do infame estado de sítio que hoje acaba. Organizou-se a mordaça, a surdez, a calafetagem. Puseram-se ao governo pés de lã, porque se lhe não ouvissem os movimentos; acolchoaram-se-lhe as paredes, para que se lhe não escutassem as conjuras; algodoaram-se-lhe as casas fortes, a fim de se lhe não sentirem as dilapidações; tomaram-se-lhe à estopa os vãos, as frestas, os interstícios, com a censura, a intimidação e a cadeia, para se lhe não saber dos arranjos, das agências, das aventuras mais ou menos escabrosas; e, desta maneira, à força de sigilo e terror, se armou a situação escusa, calada, enigmática, cujas caldeiras, vedadas à menor escapa de vapor ou bulha, acumularam silenciosamente a bancarrota, que nos acaba de estoirar.
Fossem as eleições o eco do voto popular, fosse o congresso nacional o eco da nação, fosse o governo o eco da lei, fossem os tribunais o eco da justiça, fosse a tribuna o eco das consciências, fosse a política o eco do patriotismo, fossem as manifestações públicas o eco das manifestações particulares, fosse a nação o eco de si mesma, não se houvessem abolido os ecos da moralidade e da honra, da indignação e do pudor, recalcados hoje, pela compressão ou pela corrupção, no seio do país, e não teríamos acordado agora ao estupendo fracasso deste desmoronamento, sem saber como lhe conter a voragem nem lhe lavar o opróbrio.
Dura exigência, pois, o que ora se impõe à imprensa, de suprir ela só, em si só concentrar, e extrair de si só todos esses ecos, que emudeceram, que feneceram, que expiraram, dando-nos a sensação de um ataúde bem-pregado, onde se sabe que os vermes estão esfervilhando, mas não se ouve nada senão o silêncio sensível da morte.
O nome, pois, deste jornal nos soa como um símbolo, como a imagem do renascimento que anelamos. Deus o ajude, para se desempenhar da sua tarefa, colaborando na família dos bons, dos sãos, dos fortes, dos que não empalidecem com ameaças, perigos ou sofrimentos, dos que, neste momento, hão de responder aos sussurros do terror agonizante, erguendo bem alto a fronte livre da imprensa.
Rui Barbosa, in Antologia

14/10/2019

A política e a calúnia

O orgulho, a maledicência, a cobiça podem forjar incessantemente no metal dos nossos interesses as suas armaduras mais rijas, mais luzentes, mais artísticas; os corações da multidão humana, adoradora da vitória, podem embevecer-se nos espetáculos da ferocidade e do egoísmo, como os deuses de Homero nos emblemas triunfantes do escudo de Aquiles, cinzelado pelo filho de Zeus; mas, à vossa aparição, caridade soberana, a um sorriso da vossa humildade, os mais duros, os céticos, os mais glaciais sentem que os homens não nasceram para a inimizade, que o mundo não pertence à violência, que a bondade é a mais dominadora de todas as forças. A boca de oiro dos Crisóstomos, a unção dos grandes pregadores são incapazes de exprimir-te. O Evangelho mesmo, na sua singeleza sobrenatural, não te refletiria, se o Evangelho não terminasse no Calvário: um mártir divino morrendo, sem um soluço de queixa, pelos homens que o crucificavam.
Não sei se haverá, neste auditório, quem sorria de semelhante linguagem nos meus lábios. A política semeia, há quase duas décadas, contra mim, a mais malévola reputação de impiedade, materialismo, ateísmo. A política? Não. A calúnia, a velha barregã posta ao serviço de todas as causas pudendas, a comadre imemorial da improbidade e da inveja, a sórdida alcoveta das torpezas do histerismo dos partidos, a ladra concubinária do jornalismo trapeiro, a sinistra envenenadora da honra dos estadistas e dos povos. Há quase vinte anos que ela me segue a pista, me profana o lar, me revolve o coração, me conta, por assim dizer, as pulsações, para as converter noutros tantos delitos.
Não lhe escapou o próprio leito mortuário de meu pai, cujos dedos ainda sinto entre os meus cabelos, nos carinhos com que me abençoava na hora derradeira, afagando-os; cujas mãos se apertaram às minhas, ao exalar o último suspiro; cuja memória recebeu de mim o culto de 12 anos de trabalho, consagrados à sua honra. Quando o Governo Provisório coroou a revolução com o decreto, que veio promulgar a liberdade religiosa, o borborinho das invenções ineptas, divulgadas por essa influência perversa, emprestava-me, entre as classes menos cultas, mais numerosas, mais ingênuas, a intenção de descoroar as imagens nos altares, de reduzir o culto à nudez, roubando-lhe as insígnias veneradas pelos fiéis.
Rui Barbosa, in Antologia

13/10/2019

A esfola da calúnia

Numa série de verrinas firmadas com a assinatura de um coronel do Exército, membro do Senado brasileiro, e dadas a lume em muitos números consecutivos do nosso maior órgão de publicidade, se me atirou à porta um montão de lixo.
Não me admira a mim que invista de novo comigo a velha croia, a esquálida rameira dos podres amores dos políticos da terra, a calúnia impenitente na sua sífilis, gafeira cuja virulência dizem que requinta no sangue do caboclo.
O que me custaria a crer, é que, ainda numa época de envilecimento geral, como esta, possa ocupar a eminência de tais honras a criatura, cuja honra se estampa nessas vilíssimas diatribes, que torpezas e asneiras tais saiam, com efeito, de uns punhos largamente agaloados, ou da venerável cadeira de um senador.
Não posso acreditar que essas cacaborradas impantes de ódio e brutalidade sejam daquele mesmo representante do Amazonas, que, no Senado, onde nos defrontávamos um com o outro, escutou, presente e a pé quedo, sem me atalhar com um aparte, os meus cinco ou seis discursos contra o governo atual daquele Estado. Chegavam-me aos ouvidos, é verdade, as suas ameaças, rosnadas nos corredores. Mas a sessão legislativa durou ainda meses, sobreveio o meu projeto de intervenção no Amazonas, deparando-lhe novo ensejo, não menos azado, para uma desforra solene, e, contudo, as câmaras se encerraram, sem que o bravo militar ousasse tentá-la.
Tudo isso que a minha palavra inflamada lhe dizia de frente a frente, ouviu-o mudo como um canhão encravado. Embatucou todo aquele tempo, quando podíamos liquidar ali, de rosto a rosto, o assunto. Só agora é que viria puxar banzé na imprensa? Só depois desta hibernação de arganaz é que sacudiria, agora, o pelo, sentindo, ao vibrar de algumas frases numa das minhas conferências recém-publicadas, o calor, que lhe não chegou às veias com as longas explosões da minha indignação, lançada às suas faces, durante horas e horas, de uma para outra cadeira, no estreito hemiciclo do Senado? Esses estímulos de rixador, insensíveis à pertinácia dos meus discursos, à sua veemência, ao ataque presencial, à direta audição do orador, à provocação da sua voz, do seu tom, do seu gesto, só hoje é que haviam de espertar, à mera inspeção de três ou quatro linhas acidentarias acerca do Amazonas num vasto estudo sobre as misérias do hermismo? Ou será que a braveza dos descendentes parlamentares dos autóctones das margens do rio Negro, amestrados em política na escola das tartarugas, revista a concha do jabuti, que não se mexe, quando lhe tomba o pau em cima, até que o estadulho apodreça nas costas?
Não, não pode ser. Por mais que me chamem a buscar a solução do estranho caso nas curiosidades e maravilhas da história natural dos reptis aplicada à moral das repúblicas, não acabei comigo, até agora, encabeçar-me de que o ferrabrás dessas grotescas pasquinadas seja a mesma consumada imagem da surdimudez, que, por tantas sessões, me escutou, sem tugir, nem mugir, como se um raio o tivesse fulminado na sua curul, ou uma vareta perdida o atravessasse, ali, dos gorgomilos ao poisadoiro.
Rui Barbosa, in Antologia

10/10/2019

O reino da mentira

Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o padre Vieira (que não chegou a conhecer o sr. Urbano Santos), o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso.
Rui Barbosa, in Antologia

06/10/2019

A boa e a má árvore

Árvores há, de boa semente, boa terra e bons ares, que se criaram, para encantar os olhos com a formosura de sua grandeza, e proteger as criaturas com o benefício do seu abrigo. Um chão de bênção lhes recebeu as raízes. Medraram, enrijando contra as intempéries e os ventos. Filhas de um solo generoso, o tronco lhes cresceu, avultou e subiu, engrossando com os anos, que se lhe enrugam na corcha vigorosa. Da profunda cortiça, atrás da qual lhes circula a exuberância da seiva, bracejam os ramos, carregados de flores, frutos e sombra. As tormentas não as assustam: não lhes atravessam a basta frondescência os aguaceiros da invernia. Dir-se-ia que o tempo repoisa debaixo da sua copa, e a sua majestade se estende por sobre a natureza que as cerca.
Outras, pelo contrário, como se trouxessem maldição desde a semente, vêm à luz mesquinhas e amofinadas, logo ao assomar do primeiro rebento à flor da terra esmarrida. O caule, magro e torturado, se lhes esgalga, definhando. As vergônteas enfezadas se aguentam a custo, parecendo rever tristezas e cansaço. Desflorida, estéril, calva de folhagem, a ramaria agita contra a luz o espetro da sua nudez, que os musgos, os fetos, as parasitas, as lianas mal envolvem nos restos de um sudário esgarçado e roto. Os dias a vão mirrando, em vez de a reviçarem; do lenho esgrouviado e seco se lhe extingue a vida; as últimas sementes da sua inanição lhe juncam por baixo o raizame descoberto, enquanto, pelos galhos, que estalam de aridez, raro se avista ainda um ou outro pomo a cair de carcomido e peco.
Rui Barbosa, in Antologia

30/09/2019

O sertão

O sertão não conhece o mar. O mar não conhece o sertão. Não se tocam. Não se veem. Não se buscam. Mas há em ambos a mesma grandeza, a mesma imponência, a mesma inescrutabilidade. Sobre um e outro se estende esse mesmo enigma das majestades indecifráveis. De um e outro ressalta a mesma expressão de energia, força e poder a que se não resiste. Um e outro se nos antolham, do mesmo modo, como dois reservatórios insondáveis e inesgotáveis de vida.
Ante um e outro nos sentimos nulos, em todo o acanhamento do nosso nada, e temos a visão da imensidade, a sensação do infinito, a impregnação do eterno. É a comoção religiosa, que vibrava entre os primeiros navegadores, quando, ao avistarem a ourela das praias, onde se franja o pélago azulado, lhes saía d’alma todo um hino em um só grito: “O mar!”, “o mar largo!”. Assim me rebentava, há pouco, do seio, ao dar com os olhos na primeira orladura da região das matas e das serras este clamor íntimo de alvoroço: “O sertão! o sertão livre!”.
Não será livre o sertão? É, senhores, como se fizéssemos estoutra pergunta: “Não é livre o mar?”.
A questão, quanto ao mar, não existe, embora a vejamos estabelecida, a outra luz, em termos, que lhe tornem duvidosa a resposta. As potências navais contendem pelo domínio das suas armas nas estradas marítimas. Mas não há tratados, que logrem subjugar o indômito elemento das vagas. Juntasse embora o orgulho humano todos os seus monstros de guerra; e todos eles juntos não conseguiriam abaixar o dorso das águas eternas. Fundisse embora a indústria humana todo o metal, que se acumula nas entranhas da terra; e todo o ferro do planeta, minerado e forjado, não daria cadeias bastantes, para acorrentar a fúria de um maremoto. Cobrissem embora todas as frotas do mundo com o enxame dos seus navios a superfície inteira das ondas; e um movimento destas as poderia sepultar nas profundezas do abismo. Só Deus possui o jugo, a que se curva o oceano.
Mas se o Criador o mandasse calar; se lhe ordenasse às correntes que parassem, e, esfriando-lhe as entranhas, lhe comprimisse debaixo da mão onipotente as ondas remansadas, a vasta massa guardaria na sua imobilidade a imagem do movimento subitamente paralisado, o aspecto de uma grandeza adormecida à espera de outro milagre do céu, que a volvesse ao calor e inconstância de sua existência agitada.
Rui Barbosa, in Antologia

13/04/2011

“De tanto ver triunfar as nulidades, prosperar a desonra, crescer a injustiça, agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Rui Barbosa