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20/10/2015

Sociedade dos Poetas Mortos: a educação como libertação


Nada é mais libertador ou tirânico do que um professor. E como diria John Keating, as palavras podem sim mudar o mundo. Obviamente, o mundo tenta nos convencer de que palavras nada mudam pois nada assusta mais do que a mudança.
Muitos de nós preferimos viver condenados a vidas medíocres do que corrermos o risco de cair em uma vida trágica. Entre a mediocridade e a tragédia, a mediocridade parece menos pior. Será mesmo?


Imaginem um mundo em que as pessoas são preparadas para pensar com suas próprias cabeças e acima de tudo, sentirem. Imaginem um mundo em que cada um escolha seus próprios caminhos? Se nos dias atuais já é complicado falar sobre liberdade para decidir o seu destino e autonomia de pensamento, imaginem o quanto era complexa esta questão nos anos 1950, em que pais e professores tinham o dever moral de preparar os jovens para cumprir ordens e padrões de forma completamente obediente?
O que dizer de um jovem que já tem o destino traçado pelo pai, desafiar todo o projeto de uma vida em nome de um sonho arriscado? Lutar pelos próprios sonhos ou se render à realidade sempre foi um dos dilemas mais complexos do ser humano.
Se para alguém com uma linha mais conservadora de pensamento, o professor provocou o caos e desestruturou a vida daqueles jovens estudantes, para alguém com uma linha de pensamento mais libertária, ele promoveu uma mudança essencial, mesmo que o efeito colateral tenha sido a perda de um jovem.


Se por um lado, muitos podem imaginar que o professor provocou mesmo que sem querer o suicídio, por outro, podemos dizer que quem o detonou foi o pai, mesmo que inconscientemente.
Saber onde reside o equívoco é uma questão de ponto de vista. A situação pode ser lida nos dois sentidos e cabe a cada um escolher o seu lado. Talvez o suicídio possa ser lido com um mero gesto impulsivo de desespero. Por outro lado, talvez, o pior dos suicídios é se condenar a uma vida longa e medíocre. Neste sentido, o suicídio do garoto foi uma libertação de uma sociedade sufocante em que o teatro e o professor Keating eram as únicas lufadas de ar fresco.
Eu, particularmente, fico com o professor e sua pedagogia afetiva e criativa que desconsidera métodos fechados. Eu fico com a poesia. Com a arte. Com o amor. Com a irreverência inteligente e criativa. Eu rasgaria com gosto aquelas páginas ridículas e inúteis que “ensinam” a mensurar a beleza e a emoção. Eu fico com o direito que cada um deveria ter de escolher o próprio caminho. Fico com a escola que prepara homens e mulheres e não robôs. Fico com escola que prepara cidadãos e não consumidores. Fico com a escola que não prepara a vida, mas que já é a própria vida.



Sociedade dos poetas mortos faz uma bela homenagem à Shakespeare, mostrando uma montagem teatral da peça Sonho de uma noite de verão. O interessante da escolha desta comédia romântica do cultuado dramaturgo inglês é o fato desta peça apresentar um tom irônico quando mostra todos os personagens encontrando a felicidade no final. A vida real é bem diferente de Sonho de uma noite de verão e Shakespeare parece debochar da nossa triste realidade por meio de uma ficção idílica.
O personagem de Neil vive Puc e um grande sonho durante a montagem teatral. Mas encerrada à apresentação, a realidade se impõe duramente e de forma inegociável e implacável. E da mesma forma que os irmãos do filme Os sonhadores não suportam a realidade, Neil opta por aquilo que para ele era um sonho e renuncia ao pesadelo vislumbrado por seu severo pai, que já traçou todo o seu destino nos mínimos detalhes.
Sociedade dos poetas mortos é uma aula de filosofia e um retrato vigoroso do professor que quase todos nós gostaríamos de ter. Do professor que todos nós deveríamos ter.
Sílvia Marques, in www.obviousmag.org 

22/09/2015

Sem papas na língua

Todo mundo é viciado de algum modo. Uns por cigarro, outros por álcool. Uns por drogas ilícitas, outros por medicamentos. Alguns por comida, outros por alimentação saudável. Uns por dinheiro, outros por consumismo. Uns por preguiça, outros por trabalho. Uns por melancolia, outros por falsa alegria. Por isso não se sinta superior aos outros só porque o teu vício é politicamente correto e está na moda.

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Sim, caro leitor. É duro, mas é verdade. Chega um momento da vida em que descobrimos algumas realidades meio perversas.
1. Não adianta explicar algo cuidadosamente 602 vezes para quem não quer entender.
2. Não adianta abrir o coração para os hipócritas. Toda tentativa de uma conversa franca e assertiva se reverterá num emaranhado de falácias.
3. Amor e amizade não se mendigam. Não é se humilhando que as pessoas vão passar a gostar de você.
4. Por mais simpático que você seja, sempre tem alguém que te achará falso.
5. Esperar pelo bom senso de determinadas pessoas é utopia.
6. Ser bom é diferente de ser bonzinho. Ajudar os outros faz bem ao coração. Se deixar pisar, jamais.
6. Quem adora criticar e levantar os pontos negativos do trabalho e personalidade alheia , normalmente não suporta a menor das críticas.
7. Ninguém muda a personalidade de ninguém. Mas quando amamos verdadeiramente, aprendemos a pegar mais leve em alguns defeitos.
8. Todo mundo é viciado de algum modo. Uns por cigarro, outros por álcool. Uns por drogas ilícitas, outros por medicamentos. Alguns por comida, outros por alimentação saudável. Uns por dinheiro, outros por consumismo. Uns por preguiça, outros por trabalho. Uns por melancolia, outros por falsa alegria. Por isso não se sinta superior aos outros só porque o teu vício é politicamente correto e está na moda.
9. Falando em vícios, a hipocrisia me parece o mais corrosivo deles.
10. Alegria é como remédio de manipulação. Cada um tem a sua receita.
11. Não insista em fórmulas que já falharam mais de uma vez. Algumas coisas e pessoas nasceram para dar defeito e insistir nelas é investir na própria ruína.
12. Não alimente a raiva por quem te faz mal, mas sempre que possível evite estas pessoas.
13. Ninguém erra por amar. A gente erra por não se amar.
14. Nem sempre existe uma explicação razoável para determinadas babaquices que fazemos ou nos fazem. Não tente entender tudo. Vida real não é filme comercial americano com uma clara lição de moral no final. A vida é mistério. Tentar entender o que não nos foi revelado é o atalho para o hospício.
15. Falando em hospícios, às vezes penso que os ditos loucos estão fechados ali dentro para serem protegidos dos normais que estão do lado de fora.
Sílvia Marques, in www.obviousmag.org

03/09/2015

Às vezes é preciso odiar

Ilustração de Beto Janz, designer brasileiro

O título do post pode soar pesado demais ou até mesmo agressivo. Mas quanto mais passa o tempo, percebo que em alguns casos precisamos odiar. Odiar o que nos faz mal, o que nos limita a liberdade, o que nos rouba o sorriso de nossos lábios, o que arranca do nosso peito a esperança.
É preciso odiar quem rouba a esperança dos outros. É preciso odiar sistemas injustos, estratégias manipulatórias, uma vida vazia e sem sentido. É preciso odiar quem nos agride gratuitamente, quem nos boicota por inveja, quem nos nega por mesquinharia, quem trucida nossos sentimentos sem dó nem piedade.
É preciso odiar a futilidade, a ganância, a soberba, a hipocrisia, a exploração. É preciso odiar o fato de pessoas dormirem nas ruas. É preciso odiar que algumas pessoas se comprazem com a tristeza alheia e enriquecem à custa da miséria dos outros. É preciso odiar a modorra, a mesmice, o desperdício da vida.
Sem a experimentação do ódio, ficamos inertes, parados no mesmo lugar, imbecilizados, atropelados pelos acontecimentos. Sem a experimentação do ódio viramos personagens coadjuvantes ou, até mesmo, figurantes da nossa própria vida.
É preciso indignar-se, revoltar-se. É preciso dizer não a uma vida mecânica. É preciso rebelar-se contra nossos algozes. É no silêncio do omisso que o mal se fortalece. É na indiferença das pessoas e do dia a dia que o mundo não muda.
O omisso crê que não prejudica ninguém porque nada realiza ou diz. Mas sem o omisso, não haveria o bullying, o assédio moral, as injustiças sociais, os preconceitos, as pequenas corrupções cotidianas. É preciso odiar os déspotas. É preciso parar de justificar e entender quem passa por cima dos outros como um trator gigante. É preciso parar de se apiedar de quem não tem piedade por ninguém. Sim, às vezes, é preciso odiar.
Sílvia Marques, in obviousmag.org