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15/08/2026

Factótum


21

O expediente na fábrica de biscoitos para cachorro era das quatro e meia da tarde até uma da manhã.
Me deram um avental branco encardido e luvas de lona pesadas. As luvas estavam queimadas e tinham buracos, eu conseguia ver meus dedos aparecendo. Recebi instruções de um elfo banguela com uma película sobre o olho esquerdo, branca e verde, com linhas azuis parecendo teias de aranha.
Ele fazia aquele trabalho há uns dezenove anos.
Fui até o meu lugar. Um apito soou e a maquinaria entrou em ação. Os biscoitos para cachorro começaram a se mover. A massa era moldada com uma prensa e depois colocada em telas de metal pesado com bordas de ferro.
Eu peguei uma tela e a coloquei no forno atrás de mim. Me virei. Lá estava a próxima. Não tinha como diminuir a velocidade. A única hora que elas paravam era quando algo enguiçava a máquina. Isso não acontecia com frequência. Quando acontecia, o Elfo resolvia rapidinho.
As chamas saltavam uns cinco metros de altura. O interior do forno era como uma roda-gigante. Cada plataforma aguentava doze telas. Quando o homem do forno (eu) preenchia uma plataforma, chutava uma alavanca que fazia da roda girar um nível, trazendo a próxima saliência vazia para baixo.
As telas eram pesadas. Levantar uma já deixava o cara cansado. Se você pensasse que devia fazer aquilo por oito horas, levantando centenas de telas, nunca ia conseguir. Biscoitos verdes, biscoitos vermelhos, biscoitos amarelos, biscoitos marrons, biscoitos roxos, biscoitos azuis, biscoitos de vitamina, biscoitos de vegetais.
Nesse tipo de emprego a gente fica cansado. Sofremos de um cansaço que ultrapassa a fadiga. Dizemos coisas loucas e brilhantes. Eu soltei palavrões, conversei, contei piadas e cantei. O inferno fervia de risadas. Até o Elfo riu de mim.
Trabalhei lá por algumas semanas. Eu chegava bêbado todas as noites. Não importava; eu tinha o emprego que ninguém queria. Depois de uma hora no forno eu ficava sóbrio. Minhas mãos estavam cheias de bolhas e queimaduras. Todos os dias eu sentava no quarto com dores e estourava as bolhas com alfinetes, que eu primeiro esterilizava com fósforos.

Uma noite, cheguei mais bêbado do que o normal e me recusei a bater o ponto.
— Chega — disse a eles.
O Elfo ficou em choque.
— Como vamos conseguir, Chinaski?
— Ah.
Só mais uma noite!
Coloquei a cabeça dele no meu braço e apertei; as orelhas dele ficaram rosadas.
— Seu merdinha — falei. Depois o soltei.

Charles Bukowski, em Factótum

02/08/2026

Factótum




20

Dois coroas estavam me esperando. Encontrei eles dentro do metrô, onde os trens estavam estacionados. Me deram um monte de cartazes de papelão e um pequeno instrumento de metal que parecia um abridor de latas. Nós três entramos em um dos vagões estacionados.
Presta atenção — disse um dos velhos.
Ele pulou nos assentos empoeirados e começou a andar por eles, rasgando cartazes antigos com o abridor de latas. Ah, então era assim que essas coisas iam parar lá em cima, pensei. As pessoas que colocam lá.
Cada cartaz era preso por duas tiras de metal que precisavam ser removidas para colocar um novo. As tiras eram apertadas por molas e curvadas para se adaptarem ao contorno da parede.
Eles me deixaram tentar. As tais tiras de metal resistiram aos meus esforços. Nem se mexiam. As pontas afiadas cortaram minhas mãos enquanto eu trabalhava. Comecei a sangrar. Para cada cartaz que era retirado, tinha um novo para colocar no lugar. E isso levava uma eternidade. Não tinha fim.
Tem insetos verdes por toda Nova York — disse um dos coroas depois de um tempo.
Tem, é?
Aham. Você é novo em Nova York?
Sim.
Você não sabe que todo mundo em Nova York tem esses bichos verdes?
Não.
Pois é. Uma mulher quis transar comigo ontem à noite. Eu disse: “Não, querida, sem chance”.
Sério?
Sério. Eu disse que toparia se ela me desse cinco dólares. São cinco dólares de bife para repor o esperma.
Ela te deu os cinco dólares?
Não. Me ofereceu uma lata de sopa de cogumelo da Campbell’s.
Seguimos até o final do vagão. Os dois coroas desceram pela traseira e começaram a caminhar em direção ao vagão seguinte estacionado a uns quinze metros dali. Estávamos a uns doze metros do chão, caminhando sobre dormentes de madeira. Eu percebi que seria muito fácil escorregar e cair lá embaixo.
Saí do vagão com cuidado e comecei a caminhar devagar de trilho em trilho, com o abridor de latas em uma mão e os cartazes de papelão na outra. Um trem cheio de passageiros parou, e as luzes dos vagões mostraram o caminho.
O trem seguiu; fiquei na escuridão total. Não conseguia ver nem as tábuas do trilho e nem os espaços entre elas. Esperei.
Os dois coroas gritaram lá do outro vagão:
Vem logo! Anda! Temos muito trabalho para fazer!
Esperem! Não consigo enxergar!
Não temos a noite toda!
Meus olhos começaram a se ajustar. De passo a passo fui avançando, devagar. Quando cheguei no vagão, coloquei os cartazes no chão e me sentei. Minhas pernas estavam bambas.
Qual é o problema?
Não sei.
Qual é!?
Uma pessoa pode morrer aqui em cima.
Ninguém caiu ainda.
Sinto que eu poderia.
Isso é coisa da sua cabeça.
Eu sei. Como é que eu saio daqui?
Tem uma escada logo ali. Mas você tem que atravessar um monte de trilhos e ficar de olho nos trens.
Tá.
E não pise no trilho condutor.
O que é isso?
É a energia. O trilho dourado. Parece ouro. Você vai ver.
Desci até os trilhos e comecei a andar por eles. Os coroas me observavam. Achei o tal trilho dourado e dei um passo bem alto por cima dele.
Aí eu meio que corri e meio que escorreguei pela escadaria. Tinha um bar do outro lado da rua.

Charles Bukowski, em Factótum

28/07/2026

Cerveja no bar da esquina



Não sei há quantos anos foi, quinze ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas, levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam. Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por três ou quatro minutos; depois disse:
Oi, como vai?
Vou indo bem.
Novo no bairro?
Não.
Não vi você aqui antes.
Não respondi.
De Los Angeles? – ele perguntou.
Principalmente.
Acha que os Dodgers ganham este ano?
Não.
Não gosta dos Dodgers?
Não.
De quem você gosta?
Ninguém. Não gosto de beisebol.
De que é que gosta?
Boxe. Tourada.
Tourada é cruel.
É, tudo é cruel quando a gente perde.
Mas o touro não tem uma chance.
Nenhum de nós tem.
Você é negativo pra caralho. Acredita em Deus?
Não no seu tipo de deus.
Que tipo?
Não sei ao certo.
Eu vou à igreja desde que me lembro.
Não respondi.
Posso lhe pagar uma cerveja? – ele perguntou.
Claro.
Vieram as cervejas.
Leu os jornais hoje? – ele perguntou.
Li.
Leu sobre as cinquenta meninas que morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
Li.
Não foi horrível?
Acho que foi.
Você acha que foi?
É.
Não sabe?
Se eu estivesse lá, acho que teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente apenas lê sobre a coisa nos jornais.
Não sente pena das cinquenta meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas gritando.
Acho que foi horrível. Mas a gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
Quer dizer que não sentiu nada?
Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um gole de sua cerveja. Depois gritou:
Ei, aqui tem um cara que diz que não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de peruca vermelha disse:
Se eu fosse homem, chutava a bunda dele por toda a rua acima e abaixo.
Ele também não acredita em Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol. Adora touradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões de ar, tentando tornar o peito maior.
Isso aqui é um bom bar. A gente não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas. Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado desceu de seu banquinho e afastou-se.
O filho da puta é negativo – ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
Se eu fosse homem – disse a mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto esses sacanas.
É assim que falam caras tipo Hitler – disse alguém.
Verdadeiros panacas cheios de ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
Canalha, canalha... você é um verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard, peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas. Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro, mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e dormi.

Charles Bukowski, em Numa Fria

25/07/2026

Factótum


19

Parecia uma loja abandonada. Tinha um letreiro na janela: “Precisa-se de ajudante”. Entrei. Um homem com um bigode fino sorriu para mim.
Sente-se. — Ele me deu uma caneta e um formulário. Preenchi o formulário.
Humm, faculdade?
Não exatamente.
Somos do ramo da publicidade.
Ah, é?
Não está interessado?
Bom, olha, eu tenho pintado. Sou pintor, sabe? Acabei ficando sem dinheiro. Não consigo vender o meu material.
Recebemos muita gente assim por aqui.
Eu também não gosto delas.
Anime-se. Talvez você fique famoso depois de morto.
Ele continuou falando que era um trabalho noturno no começo, mas que sempre havia uma chance de progredir na carreira.
Falei que gostava de trabalhar à noite. Ele disse que eu poderia começar no metrô.

Charles Bukowski, em Factótum

20/07/2026

Factótum


18


Fiquei quatro ou cinco dias andando por aí, então permaneci bêbado por mais dois. Saí de onde estava e fui para o Greenwich Village. Li na coluna do Walter Winchell que O. Henry* costumava escrever em um bar que era famoso por ser frequentado por gente que escreve. Achei o bar e entrei procurando o quê?
Era meio-dia. Apesar da coluna do Winchell, o lugar estava vazio. Fiquei ali sozinho com um grande espelho, o balcão e o atendente.
Sinto muito, senhor, não podemos atendê-lo.
Fiquei atordoado e nem consegui responder. Esperei por uma explicação.
Você está bêbado.
Era provável que eu estivesse com cara de ressaca, mas não bebia fazia já umas doze horas. Murmurei algo sobre O. Henry e saí.
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Nota:
*Walter Winchell (1897-1972) foi um jornalista e comentarista estadunidense, considerado o inventor da coluna social moderna, juntando notícias com fofocas. Na época em que a história se passa, ele tinha grande influência. Já O. Henry (1862-1920), pseudônimo de William Sydney Porter, foi um contista, também estadunidense, que influenciou muitos escritores homens da geração de Charles Bukowski — era naturalista, com boas sacadas de humor —, por isso o grande interesse de conhecer o bar que ele frequentava em Nova York. [N.T.]

Charles Bukowski, em Factótum

05/07/2026

Factótum — 17



17

Trabalhei tempo suficiente para juntar dinheiro e comprar uma passagem para longe daquele lugar, mais uns dólares para poder me estabelecer. Pedi demissão, peguei um mapa dos Estados Unidos e dei uma boa olhada. Decidi ir para Nova York.
Coloquei cinco garrafinhas de uísque na minha mala e peguei o ônibus. Sempre que alguém sentava do meu lado e começava a falar, eu pegava uma garrafa e tomava um longo gole. Enfim, cheguei.
A rodoviária de Nova York ficava perto da Times Square. Andei pela rua com minha mala velha. Estava anoitecendo. As pessoas saíam das estações do metrô como um enxame. Tipo insetos, sem rosto e enlouquecidos, se apressavam na minha direção, contra mim e por todos os lados, de forma intensa. Se empurravam e faziam sons horríveis.
Me encostei no batente de uma entrada e terminei a última garrafinha de uísque.
Aí segui andando, sendo empurrado, acotovelado, até que vi um letreiro anunciando quartos vagos na Third Avenue. A responsável era uma senhora judia idosa.
Eu preciso de um quarto — disse a ela.
Você precisa de um bom terno, meu rapaz.
Estou liso.
Eu tenho um, quase de graça. Meu marido tem uma alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei pelo quarto e coloquei a mala no andar de cima. Atravessei a rua com a senhora.
Herman, mostre o terno ao rapaz.
Ah, é um terno bonito. — Herman o trouxe; era azul-escuro, um pouco gasto.
Parece pequeno.
Não, não, vai ficar bom.
Ele saiu de trás do balcão com o terno.
Pegue, experimente. — Herman me ajudou a vestir o paletó. — Viu só? Serviu… Quer experimentar a calça? — Segurou a calça na minha frente, da cintura até os pés.
Parece bom.
Dez dólares.
Estou liso.
Sete.
Dei os sete dólares ao Herman e levei o meu terno para o quarto. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Quando voltei, tranquei a porta, tirei a roupa e me preparei para a primeira noite de sono decente depois de um bom tempo.
Fui para a cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas, respirei fundo e fiquei sentado no escuro, olhando pela janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um cara que me dava bem na solidão; sem isso eu era como outro qualquer sem comida ou água. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Eu não tinha orgulho da minha solidão, mas era dependente dela. A escuridão do quarto era como luz do sol para mim. Tomei um gole do vinho.
De repente o quarto se iluminou. Ouvi um estrondo metálico. O metrô elevado passava na frente da minha janela. Um dos trens parou ali. Olhei para uma fileira de rostos nova iorquinos que me encaravam. O trem ficou um pouco ali, depois partiu. Escureceu. Então o quarto se iluminou de novo. Outra vez, olhei para os rostos. Parecia uma visão do inferno se repetindo de forma infinita. Cada carga de gente era mais feia, demente e terrível do que a anterior. Outro gole.
Seguiu assim: escuro, depois claro; claro, depois escuro. Terminei o vinho e fui comprar mais. Voltei, tirei a roupa e fui para a cama. A chegada e partida dos rostos continuava; senti que aquilo era como uma visão. Estava recebendo a visita de centenas de demônios que nem o Diabo queria. Mais outro gole.
Aí resolvi levantar e tirei o terno novo do armário. Ao tentar me enfiar no paletó, percebi que estava apertado; parecia menor que o do alfaiate. De repente, ouvi um som de rasgo. O paletó abriu por completo nas costas. Tirei o que havia restado dele. Pelo menos ainda tinha as calças. Enfiei as pernas. Em vez de zíper na frente, a calça tinha botões; enquanto eu tentava fechá-los, a costura abriu no traseiro. Passei a mão por trás, e senti a cueca.

Charles Bukowski, em Factótum

30/06/2026

Factótum


16

Nessa época a minha conta do quarto, comida e roupa lavada etc. estava tão alta que precisei de vários adiantamentos para saldar a dívida. Fiquei em casa até fechar a conta e me mudei logo depois. Eu não tinha como pagar aquelas despesas.
Achei uma pensão perto do meu trabalho. A mudança foi fácil. Eu tinha só o suficiente para encher metade de uma mala…
A proprietária era Mama Strader, uma falsa ruiva de boa aparência que tinha um monte de dentes de ouro na boca e um namorado idoso. Na primeira manhã ela me chamou na cozinha e disse que me daria uma dose de uísque se eu fosse até o quintal alimentar as galinhas. Fui, depois fiquei na cozinha bebendo com ela e Al, o namorado. Cheguei uma hora atrasado no trabalho.
Na noite seguinte bateram na minha porta. Era uma mulher gorda, de uns quarenta e poucos anos. Ela segurava uma garrafa de vinho.
Moro no final do corredor, meu nome é Martha. Faz uns dias que eu escuto você ouvindo música boa. Pensei em lhe trazer uma bebida.
Martha entrou. Ela vestia uma bata verde folgada e, depois de alguns vinhos, começou a me exibir as pernas.
Eu tenho pernas bonitas.
Eu sou um cara que gosta de pernas.
Então veja mais de perto.
As pernas dela eram bem brancas, roliças, flácidas, com veias roxas saltando. Martha me contou a história dela.
Ela era prostituta. Rodava os bares. A principal renda vinha do proprietário de uma loja de departamentos.
Ele me dá grana. Eu entro na loja e pego o que quero. Quem trabalha lá nem me incomoda. Ele mandou me deixarem em paz. Não quer que a esposa saiba que eu trepo melhor que ela.
Martha levantou e ligou o rádio. Bem alto.
Eu sou uma boa dançarina — disse. — Olha pra mim!
Ela rodopiou aquela barraca verde que vestia, dando chutinhos. Não era muito sexy. Com rapidez ela ergueu a bata até a cintura e começou a balançar a bunda na minha direção. A calcinha rosa tinha um buraco grande na nádega direita. Depois, a bata foi parar no chão e ela ficou só de calcinha. Em seguida, a calcinha também foi fazer companhia à bata e ela começou a rebolar. O chumaço de pelos da periquita estava quase escondido pela barriga que balançava, pendurada.
O suor fazia o rímel dela escorrer. De repente, os olhos dela se encolheram. Eu estava sentado na beirada da cama. Ela pulou em cima de mim antes que eu pudesse fazer qualquer movimento. A boca aberta dela pressionava a minha. Tinha gosto de cuspe, cebola, vinho amanhecido e (na minha cabeça) o esperma de quatrocentos caras. Ela enfiou a língua toda babada para dentro da minha boca. Tive ânsia, e a empurrei para longe. Ela ficou de joelhos, puxou meu zíper, e em um segundo o meu pinto mole estava na boca dela. Ela chupou e balançou. Martha usava uma fitinha amarela no cabelo curto e acinzentado. Tinha verrugas e grandes pintas marrons no pescoço e nas bochechas.
Meu pênis subiu; ela gemeu e deu uma mordida. Eu gritei, peguei ela pelos cabelos e a afastei. Fiquei no meio do quarto, ferido e aterrorizado. Tocava uma sinfonia de Mahler no rádio. Antes que eu pudesse me mexer, Martha se ajoelhou e veio de novo para cima de mim. Sem dó, ela agarrou as minhas bolas com as duas mãos. Abriu a boca e foi de novo; a cabeça sacudia, chupava e balançava. Ela deu um baita puxão nas minhas bolas ao mesmo tempo que quase arrancou metade do meu pinto, me forçando a ir pro chão. Sons de sucção tomaram conta do quarto enquanto tocava Mahler no rádio. Era como se eu estivesse sendo devorado por um animal impiedoso. Meu pinto levantou, coberto de saliva e sangue. Ver aquilo a deixou em um frenesi. Já eu, me sentia sendo comido vivo.
Desesperado, pensei que jamais me perdoaria se eu gozasse.
Assim que me abaixei para tentar puxá-la pelos cabelos, ela agarrou as minhas bolas de novo e apertou sem dó alguma. Os dentes foram direto para o meio do pênis, como tesouras, tentando me partir em dois. Gritei, soltei o cabelo dela e caí de costas. A cabeça dela balançava de maneira impiedosa. Com certeza o som da chupada podia ser ouvido por toda a pensão.
Não! — gritei.
Ela insistia naquela fúria desumana. Eu comecei a gozar. Era como se ela estivesse sugando as entranhas de uma cobra encurralada. Era uma fúria misturada com loucura; ela sugou o esperma e engoliu.
E seguia sacudindo e chupando.
Martha! Chega! Já deu!
Não parou. Era como se ela tivesse se transformado em uma enorme boca devoradora. Continuava chupando e sacudindo. Sem parar.
Não! — gritei de novo. Então, ela fez como se estivesse tomando um vanilla malt de canudinho.
Desmaiei. Ela se levantou e começou a se vestir, cantando.

When a New York baby says goodnight
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
it’s early in the morning
goodnight, sweetheart
milkman’s on his way home…

Cambaleei até o chão, apertando os bolsos da frente da calça até achar a carteira. Tirei cinco dólares e dei para ela. Ela pegou a grana, enfiou dentro do vestido, entre os seios e, brincando mais uma vez, agarrou minhas bolas, apertou, soltou e saiu do quarto valsando.

Charles Bukowski, em Factótum

26/06/2026

Factótum



14

Meu pai chegou com os trinta dólares à noite. Ao sairmos, os olhos dele estavam marejados.
Você arruinou os seus pais — disse. Parece que eles conheciam um dos policiais que lhe perguntou: “Sr. Chinaski, o que seu filho está fazendo aqui?”.
Eu fiquei tão envergonhado. Nunca poderia imaginar o meu próprio filho preso.
Fomos até o carro dele e entramos. Ele arrancou. Ainda estava chorando.
Já é ruim o suficiente você não querer servir o próprio país na guerra…
O psicólogo disse que eu era inadequado.
Meu filho, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial, eu nunca teria conhecido sua mãe e você nunca teria nascido.
Tem cigarro?
Agora você foi preso. Uma coisa dessas poderia matar sua mãe.
Passamos por alguns bares baratos na baixa Broadway.
Vamos entrar e beber alguma coisa.
O quê? Você quer dizer que teria coragem de beber logo depois de sair da cadeia por embriaguez?
É justamente quando mais se precisa de uma bebida.
Não ouse contar para sua mãe que você queria beber logo depois de sair da cadeia — ele me alertou.
Preciso dar umazinha também.
Quê?
Eu disse que também preciso dar umazinha.
Ele quase passou o sinal vermelho. Seguimos em silêncio.
A propósito — disse ele, enfim —, acho que você sabe que a multa da prisão será adicionada ao seu quarto, comida e roupa lavada, né?

Charles Bukowski, em Factótum

20/06/2026

Cerveja no bar da esquina



Não sei há quantos anos foi, quinze ou vinte. Eu estava sentado em minha casa. Era uma quente noite de verão e eu me sentia embotado.
Saí pela porta e desci a rua. Passara da hora do jantar para a maioria das famílias, e elas se sentavam vendo suas TVs. Fui até o boulevard. Do outro lado da rua tinha um bar de bairro, construção antiga, com um balcão de madeira pintado de verde e branco. Entrei.
Após quase uma vida inteira passada em bares, eu perdera inteiramente o gosto por eles. Quando queria alguma coisa para beber, geralmente pegava numa loja de bebidas, levava para casa e bebia sozinho.
Entrei e encontrei um banquinho distante da turma. Não estava constrangido, apenas me sentia deslocado. Mas se queria sair, não havia nenhum outro lugar aonde ir. Em nossa sociedade, os lugares interessantes, em sua maioria, ou são ilegais ou muito caros.
Pedi uma garrafa de cerveja e acendi um cigarro. Era mais um barzinho de bairro. Todos se conheciam. Contavam piadas pesadas e viam TV. Só havia uma mulher, velha, num vestido preto, peruca ruiva. Tinha uma dúzia de colares e acendia um cigarro atrás do outro. Comecei a desejar estar de volta ao meu quarto, e decidi ir para lá depois de acabar a cerveja.
Entrou um sujeito e pegou o banquinho junto ao meu. Não ergui o olhar, não estava interessado, mas pela voz imaginei que fosse mais ou menos da minha idade. Conheciam-no no bar. O garçom do balcão chamou-o pelo nome e uns dois fregueses o cumprimentaram. Ele ficou sentado junto a mim com sua cerveja por três ou quatro minutos; depois disse:
Oi, como vai?
Vou indo bem.
Novo no bairro?
Não.
Não vi você aqui antes.
Não respondi.
De Los Angeles? – ele perguntou.
Principalmente.
Acha que os Dodgers ganham este ano?
Não.
Não gosta dos Dodgers?
Não.
De quem você gosta?
Ninguém. Não gosto de beisebol.
De que é que gosta?
Boxe. Tourada.
Tourada é cruel.
É, tudo é cruel quando a gente perde.
Mas o touro não tem uma chance.
Nenhum de nós tem.
Você é negativo pra caralho. Acredita em Deus?
Não no seu tipo de deus.
Que tipo?
Não sei ao certo.
Eu vou à igreja desde que me lembro.
Não respondi.
Posso lhe pagar uma cerveja? – ele perguntou.
Claro.
Vieram as cervejas.
Leu os jornais hoje? – ele perguntou.
Li.
Leu sobre as cinquenta meninas que morreram queimadas naquele orfanato de Boston?
Li.
Não foi horrível?
Acho que foi.
Você acha que foi?
É.
Não sabe?
Se eu estivesse lá, acho que teria pesadelos o resto da vida. Mas é diferente quando a gente apenas lê sobre a coisa nos jornais.
Não sente pena das cinquenta meninas que morreram queimadas? Elas se penduravam das janelas gritando.
Acho que foi horrível. Mas a gente vê isso apenas como uma manchete de jornal, uma matéria de jornal. Na verdade não pensei muito nisso. Virei a página.
Quer dizer que não sentiu nada?
Na verdade, não.
Ele ficou um momento calado e tomou um gole de sua cerveja. Depois gritou:
Ei, aqui tem um cara que diz que não sentiu porra nenhuma quando leu sobre aquelas cinquenta órfãs que morreram queimadas em Boston!
Todos olharam para mim. Baixei o olhar para meu cigarro. Fez-se um minuto de silêncio. Então a mulher de peruca vermelha disse:
Se eu fosse homem, chutava a bunda dele por toda a rua acima e abaixo.
Ele também não acredita em Deus! – disse o cara junto a mim. – Odeia beisebol. Adoratouradas, e gosta de ver menininhas morrerem queimadas!
Pedi outra cerveja ao garçom, para mim. Ele me empurrou a garrafa com repugnância. Dois rapazes jogavam sinuca. O mais jovem, um garotão grande de camiseta branca, largou o taco e aproximou-se de mim. Ficou atrás de mim enchendo os pulmões de ar, tentando tornar o peito maior.
Isso aqui é um bom bar. A gente não gosta de babacas por aqui, a gente cobre eles de porrada.
Eu o sentia parado às minhas costas. Peguei a garrafa, servi no copo, bebi e acendi um cigarro. A mão perfeitamente firme. Ele ficou ali parado por algum tempo, depois acabou voltando para a mesa de sinuca. O homem sentado a meu lado desceu de seu banquinho e afastou-se.
O filho da puta é negativo – ouvi-o dizer. – Odeia as pessoas.
Se eu fosse homem – disse a mulher de peruca vermelha – fazia ele pedir o penico. Não suporto esses sacanas.
É assim que falam caras tipo Hitler – disse alguém.
Verdadeiros panacas cheios de ódio.
Tomei a cerveja, pedi outra. Os dois caras jovens continuavam jogando sinuca. Algumas pessoas saíram e os comentários sobre mim começaram a morrer, exceto no caso da mulher de peruca vermelha. Ela ficava cada vez mais bêbada.
Canalha, canalha... você é um verdadeiro canalha. Fede como uma fossa! Aposto que odeia seu país também, não odeia? Seu pais, sua mãe e todo mundo mais. Ah, eu conheço vocês! Canalhas, canalhas covardes vulgares.
Acabou saindo lá pela uma e meia da manhã. Um dos garotos que jogavam sinuca saiu. O de camiseta branca sentou-se na ponta do balcão e falou com o cara que tinha pago a cerveja para mim. Às cinco para as duas, eu me levantei devagar e saí.
Ninguém me seguiu. Subi o boulevard, peguei minha rua. As luzes das casas e apartamentos estavam apagadas. Havia uma cerveja na geladeira. Abri e bebi.
Depois tirei a roupa, fui ao banheiro, mijei, escovei os dentes, apaguei a luz, fui para a cama, me deitei e dormi.

Charles Bukowski, em Numa Fria

11/06/2026

Harry Ann Landers




O telefone tocou. Era o escritor, Paul. Estava deprimido. Estava em Northridge.
Harry!
Sim?
Nancy e eu rompemos.
Sim?
Escuta, eu quero voltar com ela. Você pode me ajudar? A não ser que você queira voltar com ela.
Harry sorriu para o telefone.
Não quero voltar com ela, Paul.
Não sei o que deu errado. Ela começou com o papo do dinheiro. Começou a berrar sobre dinheiro. Sacudia contas de telefone em minha cara. Escuta, andei me prostituindo. Fiz um número. Barney e eu vestidos de pinguim... Ele diz um verso do poema, eu digo o outro... quatro microfones... um grupo de jazz tocando no fundo...
As contas de telefone, Paul, às vezes são irritantes – disse Harry. – Você devia ficar longe da linha dela quando está mamado. Você conhece gente demais no Maine, Boston e New Hampshire. Nancy é um caso de neurose-ansiedade. Não pode ligar o carro sem ter um ataque. Se amarra com o cinto, começa a tremer e a buzinar. Maluca como um chapeleiro. E isso se estende a outras áreas. Não pode entrar numa mercearia sem se ofender com um servente mastigando uma barra de doce.
Ela diz que sustentou você durante três meses.
Ela sustentou meu pau. Sobretudo com cartões de crédito.
Você é tão bom quanto dizem?
Harry deu uma risada.
Eu dou alma a elas. Isso não pode ser medido em centímetros.
Eu quero voltar com ela. Me diga o que fazer.
Ou você chupa xoxota como um homem ou procura um emprego.
Mas você não trabalha.
Não se meça por mim. Esse é o erro que a maioria comete.
Mas onde posso arranjar alguma grana? Me prostituí mesmo. Que vou fazer?
Sugue ar.
Você não tem nenhuma piedade?
As únicas pessoas que sabem de piedade são as que precisam dela.
Você vai precisar de piedade um dia.
Eu preciso agora... só que eu preciso de uma forma diferente da sua.
Preciso de grana, Harry, como vou conseguir?
Pegue um trabuco. Trêsoitão. Se conseguir, está limpo. Se não, consegue uma cela de cadeia: nada de contas de luz, telefone, gás, megeras. Pode aprender um ofício e ganhar quatro centavos a hora.
Você sabe mesmo massacrar um cara.
Tudo bem, deixa de frescura que eu lhe digo uma coisa.
Certo.
Eu diria que o motivo de Nancy ter largado você é outro cara. Negro, branco, vermelho ou amarelo. Guarde essa regra e vai sempre estar protegido: uma fêmea raramente se afasta de uma vítima sem ter outra à mão.
Cara – disse Paul –, eu preciso de ajuda, não de teoria.
Se não entender a teoria, vai sempre precisar de ajuda...
Harry pegou o telefone, discou o número de Nancy.
Alô? – ela atendeu.
É Harry.
Oh.
Eu soube que você foi passada pra trás no México. Ele pegou tudo?
Ah, isso...
Um toureiro espanhol desbotado, não foi?
Com os olhos mais lindos. Não como os seus. Ninguém pode ver seus olhos.
Não quero que ninguém veja meus olhos.
Por que não?
Se vissem o que estou pensando, eu não podia enganar ninguém.
Então, me ligou pra dizer que está andando de viseira?
Você sabe disso. Eu liguei pra dizer que Paul quer que você volte. Isso lhe ajuda de algum modo?
Não.
Foi o que eu pensei.
Ele ligou mesmo pra você?
Ligou.
Oh, eu estou com um novo cara agora. É maravilhoso!
Eu disse a Paul que você provavelmente estava interessada em outra pessoa.
Como você sabia?
Eu sabia.
Harry?
Sim, boneca?
Vai te foder...
Nancy desligou.

Ora veja, ele pensou, eu tento bancar o pacificador e os dois ficam putos. Harry entrou no banheiro e olhou seu rosto no espelho. Deus do céu, tinha um rosto bondoso. Será que ninguém via isso? Compreensivo. Nobreza. Localizou um cravo perto do nariz. Espremeu. Ele saiu, negro e lindo, trazendo uma cauda amarela de pus. A grande sacada, pensou, está em compreender homens e mulheres. Rolou o cravo e o pus entre os dedos. Ou talvez estivesse na capacidade de matar sem ligar. Sentou-se para dar uma cagada enquanto pensava no assunto.

Charles Bukowski, em Numa Fria