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O expediente na fábrica de biscoitos
para cachorro era das quatro e meia da tarde até uma da manhã.
Me deram um avental branco encardido e
luvas de lona pesadas. As luvas estavam queimadas e tinham buracos,
eu conseguia ver meus dedos aparecendo. Recebi instruções de um
elfo banguela com uma película sobre o olho esquerdo, branca e
verde, com linhas azuis parecendo teias de aranha.
Ele fazia aquele trabalho há uns
dezenove anos.
Fui até o meu lugar. Um apito soou e
a maquinaria entrou em ação. Os biscoitos para cachorro começaram
a se mover. A massa era moldada com uma prensa e depois colocada em
telas de metal pesado com bordas de ferro.
Eu peguei uma tela e a coloquei no
forno atrás de mim. Me virei. Lá estava a próxima. Não tinha como
diminuir a velocidade. A única hora que elas paravam era quando algo
enguiçava a máquina. Isso não acontecia com frequência. Quando
acontecia, o Elfo resolvia rapidinho.
As chamas saltavam uns cinco metros de
altura. O interior do forno era como uma roda-gigante. Cada
plataforma aguentava doze telas. Quando o homem do forno (eu)
preenchia uma plataforma, chutava uma alavanca que fazia da roda
girar um nível, trazendo a próxima saliência vazia para baixo.
As telas eram pesadas. Levantar uma já
deixava o cara cansado. Se você pensasse que devia fazer aquilo por
oito horas, levantando centenas de telas, nunca ia conseguir.
Biscoitos verdes, biscoitos vermelhos, biscoitos amarelos, biscoitos
marrons, biscoitos roxos, biscoitos azuis, biscoitos de vitamina,
biscoitos de vegetais.
Nesse tipo de emprego a gente fica
cansado. Sofremos de um cansaço que ultrapassa a fadiga. Dizemos
coisas loucas e brilhantes. Eu soltei palavrões, conversei, contei
piadas e cantei. O inferno fervia de risadas. Até o Elfo riu de mim.
Trabalhei lá por algumas semanas. Eu
chegava bêbado todas as noites. Não importava; eu tinha o emprego
que ninguém queria. Depois de uma hora no forno eu ficava sóbrio.
Minhas mãos estavam cheias de bolhas e queimaduras. Todos os dias eu
sentava no quarto com dores e estourava as bolhas com alfinetes, que
eu primeiro esterilizava com fósforos.
Uma noite, cheguei mais bêbado do que
o normal e me recusei a bater o ponto.
— Chega — disse a eles.
O Elfo ficou em choque.
— Como vamos conseguir, Chinaski?
— Ah.
— Só mais uma noite!
Coloquei a cabeça dele no meu braço
e apertei; as orelhas dele ficaram rosadas.
— Seu merdinha — falei. Depois o
soltei.
Charles Bukowski, em Factótum

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