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14/09/2012

Essa é do Caralho!


Segundo a Academia Portuguesa de Letras, CARALHO é a palavra com que se denominava aquela pequena cesta no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias perscrutavam o horizonte em busca de sinais de terra.
O CARALHO por ficar no alto do mastro era um local incômodo, que causava enjoos por causa do movimento incessante do mar. Por causa disso, também era considerado um lugar de castigo e punição para aqueles marinheiros que cometiam alguma infração a bordo.
O castigado era enviado para cumprir horas a fio, sem direito praticamente ao convívio dos outros tripulantes, até por dias inteiros no CARALHO e quando descia, ficava tão enjoado que se mantinha tranquilo por um bom par de dias. Daí surgiu a expressão: MANDAR PRO CARALHO.
Hoje em dia a palavra CARALHO é a palavra que define toda a gama de sentimentos humanos e todos os estados de ânimos.
Ao apreciarmos algo de nosso agrado, costumamos dizer: ISTO É BOM PRA CARALHO!
Se alguém fala conosco e não entendemos, perguntamos: MAS QUE CARALHO TU TÁ DIZENDO?
Se nos aborrecemos com alguém ou algo, rapidamente dizemos VAI PRO CARALHO!
Se algo não nos interessa dizemos: NÃO QUERO SABER NEM PELO CARALHO!
Se, pelo contrário, algo chama a nossa atenção, então dizemos: ISSO ME INTERESSA PRA CARALHO.
Quando a mulher é gostosa, dizemos: ESSA MULHER É BOA PRA CARALHO!
Quando a mulher é um canhão, a frase com certeza é essa: EITA MULHER FEIA DO CARALHO!
Se uma coisa é do tempo do Dom Bunda, diz-se: ESSE FILME É VELHO PRA CARALHO!
Se o problema é distância: ESSE CABRA MORA LONGE PRA CARALHO!
Se alguma coisa é digna de nossa admiração, diremos: ESSE JBF É DO CARALHO!
Se os negócios não vão bem, não se diz estou falido, e sim: ESTOU INDO PRO CARALHO!
Se encontrarmos um amigo que não vemos há tempos: PORRA, CARA POR ONDE CARALHO TU TEM ANDADO?
Não há nada que não se possa definir, explicar ou enfatizar sem botar um CARALHO no meio.
É por isso que envio para os companheiros fubânicos este tratado sobre o CARALHO e espero que tenha sido do agrado de todos.  A partir deste momento poderemos dizer CARALHO ou mandar alguém PRO CARALHO com um pouco mais de cultura e autoridade acadêmica.
Newton Silva, in www.bestafubana.com.br, Coluna Aí Dento!

11/05/2012

No dia em que o bode Iôiô virou gente


Iôiô foi um bode mestiço com forte predominância da raça parda alpina que viveu na cidade de Fortaleza no início do século XX. Em 1915 um retirante da seca vendeu o dito cujo para José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, localizada na Praia de Iracema.
O bode perambulava, sem ser molestado pelos fiscais da prefeitura, pelas ruas centrais da cidade, na companhia de boêmios e escritores que frequentavam os bares e cafés ao redor da Praça do Ferreira, centro cultural da capital. Bebia cerveja e cachaça, fumava charuto e gostava de ouvir música e muitas vezes, acompanhava os seresteiros pelas madrugadas. O bicho parecia gente. Era sempre visto no meio das conversas dos boêmios, poetas e intelectuais. Esse nome Iôiô foi lhe dado por ele sempre percorrer o mesmo trajeto, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema, num vai-e-vem danado.
Quem visita Fortaleza poderá ver o bode Iôiô imortalizado como peça de museu. Logo após sua morte, em 1931, foi empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará.
Conta-se que o bode Iôiô era a reencarnação de Paulo de Castro Laranjeira, engenheiro fiscal das obras do Estado e poeta e seresteiro. Laranjeira se apaixonou perdidamente, quando por acaso, na Praça do Ferreira, cruzou o olhar com uma donzela de traços finos, esnobe, esbelta de olhos verdes como o mar de Fortaleza. Nunca mais foi o mesmo! Enlouqueceu. Seu sonho de cortejá-la e casar com ela era impossível. A família da moça jamais permitiria tal consorte. Um boêmio cachaceiro? Nunca, jamais! Teria dito um dia o pai dela.
Destroçado pela paixão suicidou-se bem debaixo do sobrado da moça, no dia 14 de fevereiro de 1897, com um tiro de pistola no ouvido, embriagado pelo champanhe e dizimado pelo fogo da paixão bem logo após cantar em serenata a modinha “Teu Desprezo” que tinha escrito especialmente para ela, cujos versos assim falavam:

“Teu desprezo me arrasta lentamente
 Para a campa solitária vou partir
 E a morte será minha vingança
 Para que serve, ó mulher, eu existir.”

 Se fitares meu sepulcro esquecido
 Ó tu, a quem tanto idolatrei,
Deita sobre meu túmulo uma saudade
Em troca do amor que te jurei.”

Dezoito anos depois do suicídio de Laranjeira, o bode Iôiô vinha calmamente de suas andanças caprinas, quando se aproximou como de costume, de uma roda de seresteiros. Naquele momento falavam da morte trágica do Paulo Laranjeira. Em homenagem póstuma, um boêmio chamado Fetinga então começou a cantar a modinha “Teu Desprezo”. Ao ouvir a música, o bode Iôiô que estava atento à conversa, começou a tremer e desabou no chão, em convulsão epilética, espumando.
O espanto foi grande e o desespero foi geral. O bode estava morrendo, com certeza. Alguns minutos depois, o caprino se levantou incólume, refeito. Tinha sobrevivido àquela terrível e estranha síncope, mas notaram uma evidente e melancólica tristeza no olhar. Passado o susto, os seresteiros voltaram então a cantar a modinha de Paulo Laranjeira. De repente, outra vez, ato contínuo, o bode Iôiô repetiu a cena grotesca e caiu em estado epilético, se estrebuchando no chão.
Os boêmios então não tiveram dúvida, o bode Iôiô era o Laranjeira reencarnado. O boato então se espalhou pelos quatro cantos da cidade e até a Igreja interveio, proibindo que se contasse a tal história, pois intentava contra os princípios sagrados da Igreja.
Mas que o bode parecia ser gente, parecia, dizia o povo. O mistério aumentou ainda mais quando em 1966, misteriosamente o rabo do bode sumiu. Dizem que foi roubado por um turista estrangeiro. Para que alguém iria querer o rabo do bode? Vai ver foi levado pra fazer algum feitiço, afinal o bode era o mesmo que tá vendo uma pessoa.
O bode Iôiô participou de atos políticos em coretos,  praças e saraus literários, foi o segundo mais votado vereador de Fortaleza, comeu a fita inaugural do Cine Moderno, assistiu peça no Theatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal. Segundo o historiador Raimundo Girão, autor do livro “Geografia da Estética Cearense”, o bode Iôiô era um cidadão cearense como outro qualquer.
Newton Silva, in www.bestafubana.com.br

27/04/2012

A morrença dos meus cumpade


Mas como é que pode, dois caba tá vivo
Forgoso, gaboso, da vida se rir
Os coro da testa sem nunca franzir
Disposto na luta, lutando contente
Sem mesmo tá canso de ser um vivente,
Um corre pro sul mode podregir
O outro pogrede mesmo por aqui
A morte carrega os dois indivíduo
Dá uma descurpa: morreu por ter ido
O outro, coitado, morreu de não ir.

Cumpade Coitim bateu a biela
Sem frei nas estrada, em riba dum fó
Pedim defuntou-se no mei dum forró
Honório pifou com a mão na bainha
Quem enviuvou Gorete e Ritinha
Foi João Cascavé e Bento Cotó
Bié de Zé Tôta fechou o paletó
Mudou-se pro céu cumpade Biliu
Cumpade Zé Danta ninguém nunca viu
Mas dizem que foi-se daqui pra mió.

Quem bateu as bota foi Zé Bacamarte,
Findou-se de vez cumpade Zulu,
Quem empacotou-se com tanta pitu
Foi Pinga, Meloso, Meota e Topada
Ginura já tava na última morada
Quando pediu baixa o vaqueiro Zebu
Foi pro beleléu nas bandas do sul
Veúca, Moreno, Ponez e Zezim
Mimosa se foi que nem passarim
Baixou sete palmos, Luiz do Exu.

Deu uma roleta lá no mei da feira
Juntou-se um bocado com seu criador
Deu adeus ao mundo Mané Vendedor
Foi chegada a hora de Biu das Jumenta
Foi pro rol dos bom, cumpade Pimenta
Biu Pêdo Firmino por fim descansou
Disseram que Nino também botoou
Sargento já foi promovido a defunto
Tiraram Cirila de lá de pé junto.

Perdi meus cumpade
Não sei quando eu vou.

Jessier Quirino, in Besta Fubana

21/03/2012

Carro de rico, casa de pobre

O empresário Eike Batista afirmou que o acidente em que se envolveu seu filho Thor ocorreu por imprudência do ciclista, que morreu na ocasião.
“A imprudência do ciclista causou, infelizmente, a sua morte.”, afirmou.
* * *
Me lembrei de uma história acontecida em Palmares, há muitos anos, quando um caminhão, dirigido por um cabra cheio de cachaça, derrubou uma casa.
O motorista, sujeito muito popular e amigo do juiz, conseguiu uma sentença favorável na justiça.
O episódio foi detalhado numas glosas magistrais de um amigo meu, Marco Aurélio, que justificou a decisão do magistrado com este mote:
“A casa se arremexeu
E bateu no caminhão”

 
Desastre na Rua do Limão, em Palmares: a casa saiu do lugar e barruou no caminhão 

Luiz Berto, editor do Besta Fubana

16/03/2012

A máquina do tempo

  

Não, a gente não se contenta.
Quando pode, não quer.
Quando quer, não pode.
E segue querendo sem poder. E podendo sem saber se quer.
Hoje descobri que posso querer e poder misturado. Isso graças a Maria (sobrinha de 6 anos) que ligou para perguntar:
- Tia, estou contruindo uma máquina do tempo. Tu quer vir me ajudar?
Como eu não pensei nisso antes? Tudo que eu preciso nesta breve e superficial existência é uma máquina do tempo! Que venha,  claro, com uma tecnologia by Steve Jobs com direito a tirar fotos com Instagram da semana de arte moderna de 1922.
Tudo indica que Maria (cujo sobrenome deveria ser Jobs) será a responsável por essa inovação tecnológica. Arrumou dois  amiguinhos e está juntando uma caixa de geladeira com clips e chicletes (Magaiver feelings) e jura, com a convicção dos que  mudaram o mundo, que ainda esta semana vai visitar os dinossauros.
- Quando tu voltar, posso dar uma passadinha na minha vida daqui há 10 anos? 2022 está ótimo pra mim! Não vou demorar,  prometo.
Hummm, pensando bem, melhor não. Vai que eu me decepciono com o eu do futuro e corto os pulsos por lá mesmo!
Não, não quero daqui há 10 anos. Muito menos minha vida de 10 anos atrás.
Quero o hoje e quero agora!
Não quero conjugar minha vida do pretérito (mesmo que ele seja o perfeito ou o mais-que-perfeito) nem no futuro do  indicativo. Quero uma vida conjugada toda no presente ou, no máximo, no gerúndio. Estou amando, beijando, abraçando é muito  mais legal do que amarei ou beijarei.
Então, vou deixar Maria planejar o futuro e visitar o passado, enquanto eu me resolvo no presente mesmo!
Téta Barbosa, in Besta Fubana 

11/03/2012

Deglutindo batráquios!

Hoje engoli dois atrasos, quatro metáforas e um subway de rosbife.
No fim do mês, meu médico não entende porque o meu estômago não tá lá uma Brastemp.
Engulo ironias sem sofrer. Pessoas irônicas são, em sua maioria, inteligentes. Então engulo com um fiapo de inveja entre os dentes e bebo um gole de “como eu não pensei nisso antes” para facilitar aquela descida incômoda pela garganta abaixo.
Engulo algumas desculpas esfarrapadas, ideias estranhas e filmes ruins (não engulo livros ruins).
Engulo arte, devoro poemas, lambo fotografias, trago músicas, mastigo silêncios.
Não engulo sapos.
Desculpem!
Téta Barbosa, no Besta Fubana

06/03/2012

Nêga Odete morreu, choram os viúvos saudosistas

Ao entardecer do dia 20 de dezembro de 1928, dentro de uma casa de taipa, porta e janela na Rua São Luiz no Farol, um choro avisava ao mundo, nasceu Odete dos Martírios, a negra mais bonita e charmosa que perambulou por Maceió no século XX. De mãe pobre e pai fujão, foi criada pela avó no bairro da Levada.  Cresceu uma menina alegre, cativante. Tinha o carinho da avó, e as ruas, as praças, a lagoa Mundaú para brincar, pescar e catar sururu. Criou-se livre, sem estudar, correndo e percorrendo toda biboca da cidade.
Tornou-se uma morena bonita, rosto oval, cabelos negros, olhos penetrantes. Corpo roliço, bem moldado, cheio de curvas acentuadas, cintura fina, pele aveludada como jamais alguém teve, segundo Bráulio. Odete despertava desejo nos homens no doce balanço de seu caminhar, era a Nêga Fulô que o poeta Jorge de Lima não conheceu.
Não havia completado 15 anos, quando Floro, um belo rapaz, acadêmico de direito, morador da Rua Pedro Monteiro, filho de um rico comerciante, ficou encantado com a negra bonita cheia de sensualidade. Cantou Odete por mais de um mês, prometendo amor, carinho e agrado. Até que numa noite de lua cheia, seus corpos se uniram embaixo de uma jaqueira no morro do Tom Mix pelas bandas da praia do Sobral. Floro deflorou Odete. A negra gritava como uma selvagem, havia doído, havia gostado. Em casa, sua avó notou o sangue, esbravejou, já não era mais moça, tinha perdido a honra, não queria sua neta quenga! Reclamou da vida de pobre.
Durante a noite Odete chorou lembrando momentos de carinho, sentiu a sensação de seu corpo penetrado. Pela manhã tomou uma decisão, trabalhar, ser independente. Como uma analfabeta podia arranjar emprego?
Soube de uma família que estava precisando de empregada doméstica. Odete bateu na casa na Praça Sinimbu. Foi atendida, a senhora gostou da moça negra, simpática, carne firme, disposta no trabalho. Ensinou-lhe a cozinhar. A menina aprendeu rápido, tornou-se excelente cozinheira. Odete fez parte dessa família por muitos anos.
Sentia-se independente com o pequeno salário. Tinha um quarto na casa, comida, era livre, sozinha, podia fazer o que bem quisesse. Ao anoitecer, depois do dia de trabalho, disposta, cheirosa, dentro de um vestido de chita, se pintava para sair em busca de diversão nas noites da cidade. Entregava-se ao que mais gostava e sabia fazer, amor. Os homens se encantavam, prometiam. Nunca recebeu dinheiro de alguém, selecionava seus parceiros. Gostava de homem novo e bonito. Estudantes ficavam à espreita desde as sete da noite na Praça Sinimbu, desejando Odete. Ela não tinha parceiro certo, escolhia o privilegiado para deitar na morna areia da praia da Avenida ou no gramado do sítio da Sinhá perto do Riacho Salgadinho.
Por ser livre e independente Odete foi confundida como prostituta. Entretanto, jamais aceitou um centavo de algum homem. Viveu solteira pelo resto da vida, saía com quem queria, escolhia seu parceiro, generosa, desvirginou metade de minha geração. Choram muitos sessentões.
Morava em um quartinho perto da Praça da Faculdade, sozinha, como sempre viveu. Morreu essa semana com poucos amigos ao redor. Essa é a história verdadeira de uma lenda urbana, uma mulher forte, cheia de alegria que amou o mundo do jeito que o enxergava, grande Nêga Odete, heroína do povo, mulher valente, mito e fantasia de muitos homens nos anos 50/60 na cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, a bela Maceió.
Carlito Lima, na coluna Epístolas do Cardeal, do Jornal Besta Fubana

04/03/2012

A Morte prega peças


A morte é a única certeza para todos nós, pode ser uma bênção mas às vezes pode ser uma maldição. Veja agora como a morte pode vir quando menos se espera.

COMEU DEMAIS EM UM BANQUETE EM SUA HOMENAGEM
O filósofo francês Julien Offray de La Mettrie morreu em 1751 no meio de um banquete que o embaixador Francês Tirconnel ofereceu em sua homenagem. Além de ser pensador, La Mettrie também era médico e teria curado uma grave doença de Tirconnel. Comenta-se que La Mettrie quis mostrar a sua potência estomacal comendo um monte de patê de trufas. Resultado: desenvolveu uma forte febre que levou-lhe ao delírio e faleceu em seguida.
Ainda existe outro caso: John Kendrick, respeitado capitão da Marinha americana, morreu em 1794 depois de ter vencido a Batalha de Kalauao, no Havaí. Quiseram fazer uma salva de tiros de canhão para comemorar. Um dos tiros acertou o deck do capitão. Triste história.

ENCHENTE DE CERVEJA
Nadar em cerveja pode ser o sonho de muito beberrão, mas a Enchente de Cerveja de Londres (1814) fez estrago. Vários tonéis de cerveja da Meux and Company Brewery estouraram e mais de 1.470.000 litros da bebida formaram uma enxurrada que destruiu duas casas e ainda derrubou uma parede do pub Tavistock Arms, que veio a esmagar a funcionária Eleanor Cooper. Coitada!
Outro caso em 1919 aconteceu em Boston. Um desastre parecido, mas envolvendo melaço – um tanque estourou e um tsunami de melaço vindo a 56 km/h matou 21 pessoas e feriu mais 150. Dizem que até hoje dá para sentir um cheiro de açúcar no ar quando o dia fica mais quente!

UM TIRO EM SI MESMO COMO PROVA
O democrata Clement Vallandigham lutou na Guerra Civil Americana e mesmo assim parece que não levava muito jeito com as armas (ou levava jeito demais, sei lá). Em 1871, aos 50 anos, Clement pegou um caso jurídico no qual defendia um homem acusado de atirar em um rapaz numa briga de bar. Sua alegação dizia que era possível a vítima ter atirado em si mesma por acidente enquanto tentava tirar a pistola do bolso – e quis fazer uma demonstração ao júri. Resultado: Clement realmente provou o seu ponto de vista, mas a que preço! A arma estava carregada e ele não resistiu ao ferimento. o acusado foi inocentado por Clement ter provado que a vítima realmente havia se suicidado por acidente.

DURO DE MORRER
Esta história é mais trágica do que realmente inusitada. Mas vale, porque ninguém gostava mesmo desse cara. O místico russo Grigori Rasputin era odiado entre o povo e entre a nobreza. Em 1916, ele foi vítima de uma trama de parlamentares e aristocratas: envenenaram o coitado num jantar. Mas a úlcera de Rasputin o fez expelir todo o veneno. Então, o suposto bruxo foi fuzilado com onze tiros e não morreu. Foi castrado e continuou vivo. Daí, resolveram espancá-lo e atirá-lo insconsciente em um rio, até que ele morreu – afogado.

OVERDOSE DE SUCO DE CENOURA
Dizem que cenoura faz bem para os olhos. Mas a sabedoria popular também fala que todo excesso faz mal, né? O arqueólogo Basil Brown que o diga! A história conta que lá pelos idos de 1974 o homem virou um viciado em vida saudável e decidiu fazer uma dieta louca para limpar o organismo: beber um galão de suco de cenoura por dia durante dez dias seguidos. Ele até terminou a meta, mas morreu dias depois, vítima de falência renal. Overdose de vitamina A.

ENVENENADO POR UM GUARDA-CHUVA
A história do escritor búlgaro Georgi Markov é muito bizarra. Seus textos que saíam nos jornais não agradaram o governo da época e ele começou a ser perseguido pela polícia secreta da Bulgária e pela KGB em 1978. Tentaram matar o coitado duas vezes, mas só conseguiram na terceira vez. Markov estava atravessando a ponte de Waterloo para pegar o ônibus para a BBC quando sentiu uma dor aguda na coxa, como se fosse uma picada de inseto. Olhou para trás e viu um homem pegando um guarda-chuva do chão, saindo correndo e entrando em um táxi. Horas depois ele começou a ter febre e foi para o hospital passando muito mal, vindo a falecer três dias depois. Causa da morte? Envenenamento por ricina. O assassino? Francesco “Piccadilly” Gullino. A arma do crime? Um guarda-chuva envenenado.

O VIDRO INQUEBRÁVEL
Advogado adora razão. Em 1993, Gary Hoy quis provar a todos os seus colegas de escritório que o vidro da janela do Toronto-Dominion Centre era impossível de ser quebrado. E provou, mas do jeito errado. O homem bateu tanto no vidro que ele pulou (inteiro) para fora da armação da janela. Resultado: Hoy foi junto, despencando do 24º andar. Sua morte foi tão nada a ver que levou um Darwin Award, prêmio concedido àqueles que contribuem para a evolução humana de maneira excepcionalmente negativa.

BOMBA FEITA COM UM BARALHO
William Kogut pode não ter sido esperto na hora de cometer seu crime – ele foi preso em 1930 pelo assassinato de Mayme Guthrie -, mas foi bem inteligente na hora de tomar as rédeas do seu destino. Kogut não queria passar o resto da vida preso na penitenciária San Quentin, então decidiu se matar de modo bem engenhoso. Pegou as cartas vermelhas do baralho e picotou tudo, colocando os pedacinhos em um cano de metal junto com água e madeira. O cano foi colocado no aquecedor da cela e eis a bomba de William – ele sabia que a tinta vermelha das cartas era inflamável. Genial!
Newton Silva, na coluna Aí Dento!, do Besta Fubana

23/02/2012

O encontro entre Sertão e cidade

Este poderia ter sido o título do desfile da Unidos da Tijuca. O sertão de Luiz Gonzaga, com sua sanfona e sua Asa Branca, e a cidade do samba com suas luzes e suas curvas.
Anotei duas considerações sobre o desfile deste ano:
1. A presença cultural do Nordeste. Seis escolas o apresentaram. Desde o cordel ao Maranhão. Passando por Gonzaga. Não é trivial. Nem é por acaso. Porque o Nordeste é invenção. É sonho. O Nordeste é o Brasil de dentro pra fora. Saindo das entranhas sertanejas. Enquanto o Sudeste é o Brasil de fora pra dentro. Vindo da migração de japoneses, alemães, espanhóis, portugueses, italianos.
O Nordeste é cravo e canela de Jorge Amado. É a angústia alagoana de Graciliano. É o cultivo folclórico de Cascudo. É o romantismo de Alencar. É a força mineral de Cabral. É a delicadeza urbana de Bandeira.
2. Há um processo de continuada renovação na organização da arte nas escolas. Que não é fácil de obter. Porque se trata de mais de uma dezena de escolas que anualmente desfilam. Apesar desse número e frequência, ano a ano a inovação surge no talento dos carnavalescos. Penso que existem dois movimentos fluviais na sua criatividade: o primeiro, veio com Joãozinho Trinta. Sua característica principal era a visão social. Apoiada na argila da pobreza e na energia da fé. O segundo movimento vem com Paulo Barros. Seu traço mais aparente é a transformação do real no imaginário popular. E do imaginário popular no colorido da realidade. Ele alça o presente às nuvens do eterno.
O Brasil risonho e musical, mais uma vez, deu seu recado. Que o Brasil sisudo aprenda com ele.
Luiz Otávio Cavalcanti, in Besta Fubana

11/02/2012

Corruptos malditos


Certo dia, recebi um telefonema de um vereador aqui de Fortaleza.
- Um vereador? Pensei – Vixe! – Fiquei imaginando se eu tinha feito alguma charge sobre a atuação pífia de algum vereador ou se tinha criticado a administração falida da prefeita de Fortaleza.
Nem uma coisa nem outra. Logo de cara, o sujeito, do outro lado da linha, começou logo a elogiar as charges, dizendo que eu era um gênio do traço, que já era meu fã desde os tempos em que eu publicava no Diário do Nordeste, que já acompanhava a evolução do meu trabalho agora na internet e que queria encomendar umas cartilhas.
- Tu num é chargista?  Tu faz cartilhas? Aquelas revistinhas…
- Sei o que é. – retruquei. – Faço. – completei.
- É que eu queria distribuir umas cartilhas com os meus eleitores… eu tava pensando em fazer umas cartilhas sobre a camada de ozônio…será que é um tema legal? Quanto é que tu cobra? Dá pra passar aqui na Câmara amanhã? Tá bom às oito horas, antes da sessão?
No dia seguinte cheguei lá na Câmara. O dito cujo me recebeu no gabinete que estava entupetado de gente de todo tipo. Depois de intermináveis abraços e apertos de mão, o vereador me chamou reservadamente no gabinete.
- Cara, tô precisando urgente fazer umas cartilhas pros meus eleitores. – inicou logo a conversa pegando uma garrafa de café e botando em cima do birô. – Eu convidei aquele outro chargista, mas aquele fela da puta me disse que não trabalha pra nenhum político. Que cara chato! Até pensei que tu nem vinha. Pelas charges dá pra ver que vocês não gostam muito de vereador. Quer um cafezinho?
- Pelo contrário, vocês vereadores é que não gostam da gente! – retruquei e ele riu amarelo. Tomou o café goela abaixo e me trouxe uma pasta abarrotada.
- Taqui, ó. Essa é a ideia que eu quero colocar nas cartilhas. – Um monte de papeis impressos da internet, com as mais diversos tipos de cartilhas.
- Eu quero essa aqui! – apontou pra uma cartilha impressa, de outro Estado. – É só a gente apagar o nome do Estado e o nome do vereador e mudar umas coisinhas…
- Só que essa não pode. Tem direitos autorais. A não ser que o senhor peça a permissão do autor. – Ele olhou pra mim com os olhos vagos. Tomou outro café. Coçou a cabeça. Estava ofegante.
- E o que é que tem, macho? – Esbravejou – Ninguém vai saber mesmo! Já tá toda pronta!  É que eu tô com pressa!
- Eu acho melhor a gente criar uma cartilha mais regionalizada, com termos usados aqui no Ceará. Com problemas da Cidade. Essa aí é lá do Rio Grande do Sul. Não tem nada a ver com o Nordeste.
- É mesmo, né? – pois faça lá desse jeito aí que você falou. – refestelou-se na cadeira e tomou outro café. – Ainda bem que eu te chamei. Aquele outro chargista num sabe de nada, não! Aquilo é um baitola!
Confesso que eu não sabia a qual chargista ele se referia, nem perguntei. Tinha minhas suspeitas. Mas o fato é que o cara deixou o vereador puto da vida. Coloquei a pasta em cima da mesa. Ele já estava engolindo mais um café, falou no celular com alguém e se dirigiu a mim já mais calmo. Falou em tom conspiratório:
- E por quanto é que tu faz esse negócio? – sussurrou – Faça um preço camarada pro seu amigo véi! A gente já se deu bem de cara. Vai aparecer outras coisas pra gente fazer e já, já, começa a campanha. Quero que você faça a minha campanha! Gostei de você, cabra! – engolia já o décimo café.
- Eu trouxe a minha tabela de preço. – passei o papel. Ele olhou interessado. Demorou uns minutos. Tomou mais um café.
- Gostei dos preços! – falou guardando a tabela no bolso do paletó. – Agora tem só um detalhezinho de nada. Dá pra gente fazer um esquema?
- Esquema? Tipo o quê? – perguntei. Ele se acomodou na cadeira, engoliu outro café, passou a mão pela careca suada. Levantou-se e conferiu se a porta estava fechada. Voltou-se e servindo-se de outro café, falou:
- Você sabe, né? Tenho que justificar uns gastos do gabinete. Tava pensando se num dá pra tu me passar uma notinha fiscal de serviço com um valorzinho maior, sabe como é. Eu pago o teu valor integral e a gente faz esse esqueminha. Nem precisa imprimir as cartilhas, não. É só de agá. Todo mundo faz isso aqui. Num tem problema não. É normal. O telefone tocou. Era a secretária avisando que a sessão já ia começar. Tomou mais um café e ajeitando o paletó, falou, botando a mão no meu ombro.
- Vou ter que marcar presença lá no plenário. Num sai daí, não. Vamos almoçar comigo hoje? A gente combina o nosso esqueminha no almoço. Pode ficar tranquilo! Vamos fazer uma parceria!
Fiquei alguns minutos na sala. Era tentador. Eu tava liso e a oportunidade de pegar numa grana estava ali, à minha frente. Lembrei de uma frase de Sêneca que meu pai Nemésio Silva, que era também jornalista, sempre me dizia: “Para a ganância, toda a natureza é insuficiente”.
Saí, fui lá fora e não voltei mais.
Newton Silva, na coluna Ai Dento!, do Besta Fubana