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31/10/2025

1. Uma festa inesperada


[…]


E é claro que eles não fizeram nenhuma dessas coisas horríveis, mas foram limpando tudo e guardando a louça em segurança, rápidos feito raio, enquanto o hobbit ficava de lá para cá na cozinha tentando ver o que estavam fazendo. Então voltaram para a sala de estar e encontraram Thorin, com os pés esticados perto da lareira, fumando um cachimbo. Estava bafejando enormíssimos anéis de fumaça, e, aonde quer que ele mandasse um deles ir, o anel ia — subia a chaminé, ou passava atrás do relógio na cornija da lareira, ou debaixo da mesa, ou dava voltas no teto; mas, aonde quer que fosse, não era rápido o suficiente para escapar de Gandalf. Puff! mandava ele um anel de fumaça menor, saído de seu cachimbo curto de barro, que atravessava cada um dos anéis de Thorin. Então o anel de fumaça de Gandalf ficava verde e voltava a pairar sobre a cabeça do mago. Já havia uma nuvem desses em volta dele e, naquela luz fraca, faziam-no parecer estranho e cheio de feitiçaria. Bilbo ficou parado, observando aquilo — ele adorava anéis de fumaça — e então enrubesceu ao pensar como ficara orgulhoso, na manhã do dia anterior, dos anéis de fumaça que lançara ao vento sobre A Colina.
“Agora, um pouco de música!”, disse Thorin. “Peguem os instrumentos!”
Kili e Fili se apressaram a pegar suas sacolas e tiraram delas pequenas rabecas; Dori, Nori e Ori tiraram flautas de algum lugar dentro de seus casacos; Bombur veio do salão de entrada com um tambor; Bifur e Bofur também saíram e voltaram com clarinetas que tinham deixado junto com seus bastões de viagem. Dwalin e Balin disseram: “Com licença, deixamos as nossas na entrada!” “Aproveitem e tragam a minha com vocês!”, disse Thorin. Voltaram com violas de gamba tão grandes quanto eles e com a harpa de Thorin embrulhada num tecido verde. Era uma linda harpa dourada e, quando Thorin a tangeu, a música começou de improviso, tão repentina e doce que Bilbo esqueceu todo o resto e foi arrastado para terras escuras sob luas estranhas, muito além d’O Água e muito longe de sua toca de hobbit sob A Colina.
A escuridão chegava à sala vinda da pequena janela que se abria na encosta d’A Colina; o fogo bruxuleava — era abril —, e eles continuavam a tocar, enquanto a sombra da barba de Gandalf oscilava contra a parede.
A escuridão encheu toda a sala, e o fogo foi morrendo, e as sombras se perderam, e eles continuavam a tocar. E, de repente, primeiro um deles e depois outro e mais outro começaram a cantar enquanto tocavam, o canto vindo do fundo da garganta dos anãos, nos lugares fundos de seus antigos lares; e este é como que um fragmento de sua canção, se é que pode ser como a canção deles sem sua música.

Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Buscar nosso ouro feiticeiro.

De anãos antigos a magia
Em seus martelos se fazia
Numa cava a treva sonhava,
No oco salão da encosta fria.

Pro nobre elfo e rei antigo
Ao brilho belo do ouro amigo
Deram forma, co’ a luz que adorna
Joias que em arma têm abrigo.

Em colar de prata puseram
Astros em flor, laurel fizeram
Com luz feroz de draco atroz,
O sol e a lua em fio trançaram.

Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Lembrai-vos d’ouro feiticeiro!

No breu moldaram muitos cálices,
Harpas d’ouro; canções multíplices
Feitas ali, sem gente ouvir,
Elfo ou homem, só os aurífices.

Pinhais rugiam nas alturas,
Ventos gemiam nas lonjuras.
Rubro o fogo, sem desafogo,
Fez de tochas as copas duras.

Sinos soaram no valão
E os homens viram o clarão;
Do draco a ira, fera pira,
Torres e casas pôs no chão.

Ardeu o monte sob a lua;
Aos anãos coube a sina sua.
Foi-se o salão de supetão
Aos pés do monstro sob a lua.

Além dos frios montes escuros
Pros grandes calabouços duros
Vamos embora, antes da aurora,
Recobrar ouro em nossos muros!

Enquanto cantavam, o hobbit sentia o amor pelas coisas belas feitas por mão e por engenho e por magia atiçando-se em suas entranhas, um amor feroz e ciumento, o desejo dos corações dos anãos. Então alguma coisa típica dos Tûks despertou dentro de Bilbo, e ele desejou partir, e ver as grandes montanhas, e ouvir os pinheiros e as quedas-d’água, e explorar as cavernas, e usar uma espada em vez de um bastão de caminhada. Olhou para fora pela janela. As estrelas tinham aparecido no céu escuro acima das árvores. Pensou nas joias dos anãos brilhando em cavernas escuras. De repente, na mata além d’O Água, uma chama saltou — provavelmente alguém acendendo uma fogueira — e ele imaginou dragões saqueadores pousando em sua Colina tranquila e devorando-a com suas chamas. Estremeceu; e, mais do que depressa, voltou a ser o simples Sr. Bolseiro de Bolsão, Soto-Monte, outra vez.
Levantou-se tremendo. Tinha menos que meia intenção de pegar a lamparina, e mais do que meia intenção de fingir que ia fazer isso e se esconder atrás dos barris de cerveja na adega, e não sair dali até que todos os anãos tivessem ido embora. De repente, percebeu que a música e o canto tinham parado e que todos estavam olhando para ele com olhos que luziam no escuro.
“Aonde está indo?”, disse Thorin, num tom que parecia mostrar que adivinhara ambas as meias intenções do hobbit.
“Que tal um pouco de luz?”, disse Bilbo, como quem se desculpa.
“Gostamos do escuro”, disseram todos os anãos. “Escuro para negócios obscuros! Ainda há muitas horas antes da aurora.”
“É claro!”, disse Bilbo, e se sentou apressado. Não mirou direito no banco e acabou se apoiando na grade da lareira, derrubando o atiçador e a pá com estardalhaço.
“Silêncio!”, disse Gandalf. “Deixe Thorin falar!” E foi assim que Thorin começou.
“Gandalf, anãos e Sr. Bolseiro! Estamos reunidos na casa de nosso amigo e companheiro conspirador, este mui excelente e audacioso hobbit — que os cabelos de seus dedos dos pés nunca caiam! Todo louvor a seu vinho e cerveja!” Ele fez uma pausa para tomar fôlego e para que o hobbit fizesse um comentário educado, mas os elogios praticamente foram jogados fora no caso do pobre Bilbo Bolseiro, que estava mexendo a boca em protesto por ser chamado de audacioso e, pior de tudo, de companheiro conspirador, embora nenhum som saísse, já que ele estava tão desacorçoado. Assim, Thorin continuou:
“Encontramo-nos para discutir nossos planos, nossos métodos, meios, abordagens eestratégias. Havemos de começar em breve, antes que rompa a manhã, nossa longa jornada, uma jornada da qual alguns de nós, ou talvez todos nós (exceto nosso amigo e conselheiro, o engenhoso mago Gandalf), podem nunca retornar. É um momento solene. Nosso objetivo é, creio eu, bem conhecido de todos nós. Para o estimado Sr. Bolseiro, e talvez para um ou dois dos anãos mais jovens (acho que seria correto mencionar Kili e Fili, por exemplo), a situação exata neste momento pode requerer uma brevíssima explicação…”
Esse era o estilo de Thorin. Ele era um anão importante. Se lhe tivesse sido permitido, provavelmente continuaria nessa toada até ficar sem fôlego, sem contar a ninguém ali nada que já não fosse sabido. Mas foi rudemente interrompido. O pobre Bilbo não conseguia mais suportar a conversa. Ao ouvir aquele podem nunca retornar, começou a sentir um grito subindo de dentro dele, e logo o grito explodiu feito o apito de uma locomotiva saindo de um túnel. Todos os anãos se puseram de pé, derrubando a mesa. Gandalf acendeu uma luz azul na ponta de seu cajado mágico e, naquela luz de fogo de artifício, o pobre hobbit podia ser visto ajoelhado no tapete da lareira, tremendo feito geleia que está derretendo. Então desabou no assoalho e ficou repetindo “Atingido por relâmpago, atingido por relâmpago!” sem parar; e isso foi tudo o que conseguiram extrair dele durante muito tempo. Então o pegaram, e o puseram no sofá da sala de visitas com uma bebida a seu lado, e voltaram a seus negócios obscuros.
“Camaradinha agitado”, disse Gandalf quando se sentaram de novo. “Tem esses ataques esquisitos e engraçados, mas é um dos melhores, um dos melhores — tão feroz quanto um dragão encurralado.”
Se você já viu um dragão encurralado, vai perceber que isso era só exagero poético se aplicado a qualquer hobbit, até mesmo no caso do tio-bisavô do Velho Tûk, Berratouro, que era tão enorme (para um hobbit) que conseguia montar um cavalo. Ele lançou uma investida contra as fileiras dos gobelins do Monte Gram na Batalha dos Campos Verdes e arrancou a cabeça do rei deles, Golfimbul, com um taco de madeira. A cabeça saiu voando pelos ares por cem jardas3 e caiu num buraco de coelho, e desse modo a batalha foi vencida, e o jogo de golfe foi inventado no mesmo momento.
Enquanto isso, entretanto, o descendente mais gentil de Berratouro estava voltando a si na sala de visitas. Depois de algum tempo, após tomar uma bebida, ele se esgueirou nervosamente até a porta da sala de estar. Isto foi o que ouviu. Gloin fez “Humpf!” (ou algum grunhido mais ou menos desse tipo). “Vocês acham que ele vai servir? Gandalf pode muito bem dizer que esse hobbit é feroz, mas um só grito daqueles num momento de empolgação seria suficiente para despertar o dragão e todos os seus parentes e matar a todos nós. Acho que soou mais como pânico do que como empolgação! Aliás, se não fosse pelo sinal na porta, eu teria certeza de que tínhamos chegado à casa errada. Assim que botei os olhos no camaradinha balançando e bufando no tapete tive minhas dúvidas. Parece mais um quitandeiro que um gatuno!”
Então o Sr. Bolseiro girou a maçaneta e entrou. O lado Tûk tinha vencido. De repente, sentiu que toparia ficar sem dormir e sem o café da manhã para que o achassem feroz. Quanto a camaradinha balançando no tapete, isso quase o fez ficar feroz de verdade. Muitas vezes, mais tarde, o lado Bolseiro, arrependido do que ele fez naquela hora, costumava lhe dizer: “Bilbo, você foi um bobo; entrou de cabeça e se deu mal.”
“Perdão,” disse, “se fiquei ouvindo o que vocês estavam dizendo. Não posso dizer que entendi do que estavam falando, ou as suas referências a gatunos, mas acho que não erro se acreditar” (isso é o que ele chamava de manter sua dignidade) “que vocês acham que eu não valho nada. Pois vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta — ela foi pintada faz uma semana — e estou bastante certo de que vieram à casa errada. Assim que vi suas caras engraçadas na soleira da porta tive minhas dúvidas. Mas podem considerar que vieram à casa certa. Digam-me o que querem que eu faça, e vou tentar, mesmo se tiver de andar daqui até o Leste do Leste e lutar com as Grãs-Serpes4 Selvagens no Último Deserto. Certa vez, o meu tio-tataravô Berratouro Tûk…”
“Sim, sim, mas isso foi há muito tempo”, disse Gloin. “Eu estava falando de você. E lhe asseguro que há uma marca nesta porta — a marca comum nesse ramo, ou costumava ser. Gatuno deseja um bom trabalho, um bocado de Empolgação e Recompensa razoável é como essa marca normalmente é lida. Pode dizer Caçador de Tesouros Especializado em vez de Gatuno, se preferir. Alguns deles preferem. Dá na mesma para nós. Gandalf nos contou que havia um sujeito desse tipo nestas partes procurando um trabalho imediato e que ele tinha arrumado um encontro com ele na hora do chá nesta quarta-feira.”
“Claro que há uma marca”, disse Gandalf. “Eu mesmo a pus lá. Por razões muito boas. Vocês me pediram para achar o décimo-quarto homem da sua expedição, e eu escolhi o Sr. Bolseiro. Quero só ver alguém dizendo que escolhi o homem errado ou a casa errada, e vocês podem ficar com apenas treze homens e ter toda a má sorte que quiserem, ou então voltar a minerar carvão.”
Olhou tão feio para Gloin que o anão se encostou de novo na sua cadeira; e, quando Bilbo tentou abrir a boca para fazer uma pergunta, Gandalf se virou para ele, e franziu o cenho, e projetou suas sobrancelhas frondosas, até que Bilbo fechou bem a boca com um estalo. “É isso mesmo”, disse Gandalf. “Chega de discussão. Escolhi o Sr. Bolseiro, e isso deveria ser suficiente para todos vocês. Se digo que ele é um Gatuno, um Gatuno é o que ele é, ou será, quando a hora chegar. Há muito mais nele do que vocês acham, e um bocado mais do que ele próprio imagina. Vocês todos ainda hão de viver (possivelmente) para me agradecer por isso. Agora, Bilbo, meu rapaz, pegue a lamparina, e lancemos alguma luz sobre isto!”
Sobre a mesa, à luz de uma grande lamparina com um anteparo vermelho, ele abriu um pedaço de pergaminho que lembrava um mapa.

J. R. R. Tolkien,em O Hobbit

19/10/2025

1 — Uma festa inesperada

 


Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca nojenta, suja, úmida, cheia de pontas de minhocas e um cheiro de limo, nem tampouco uma toca seca, vazia, arenosa, sem nenhum lugar onde se sentar ou onde comer: era uma toca de hobbit, e isso significa conforto.
Ela tinha uma porta perfeitamente redonda feito uma escotilha, pintada de verde, com uma maçaneta amarela e brilhante de latão exatamente no meio. A porta se abria para um corredor em forma de tubo, feito um túnel: um túnel muito confortável, sem fumaça, de paredes com painéis e assoalhos azulejados e acarpetados, com cadeiras enceradas e montes e montes de cabideiros para chapéus e casacos — o hobbit apreciava visitas. O túnel seguia em frente, continuando quase (mas não totalmente) em linha reta pela encosta da colina — A Colina, como toda a gente por muitas milhas ao redor a chamava —, e muitas portinhas redondas se abriam a partir dele, primeiro de um lado e depois do outro. Nada de segundo andar para o hobbit: quartos, banheiros, adegas, despensas (muitas dessas), armários (ele tinha cômodos inteiros dedicados a roupas), cozinhas, salas de jantar, todos ficavam no mesmo andar e, de fato, na mesma passagem. Os melhores cômodos estavam todos do lado esquerdo (de quem entrava), pois esses eram os únicos a ter janelas, janelas fundas e redondas que davam para o jardim dele e para os prados mais distantes, que desciam até o rio.
Esse era um hobbit muito bem de vida, e seu nome era Bolseiro. Os Bolseiros tinham vivido na vizinhança d’A Colina desde tempos imemoriais, e as pessoas os consideravam muito respeitáveis, não apenas porque a maioria deles era rica, mas também porque nunca participavam de aventuras nem faziam nada inesperado: dava para saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer questão sem o incômodo de perguntar a ele. Esta é a história de como um Bolseiro participou de uma aventura e se descobriu fazendo e dizendo coisas de todo inesperadas. Ele pode ter perdido o respeito dos vizinhos, mas ganhou... Bem, você vai ver se ele ganhou alguma coisa no final.
A mãe desse nosso hobbit em particular — o que é um hobbit? Suponho que os hobbits exijam algum tipo de descrição hoje em dia, já que se tornaram raros e arredios em relação ao Povo Grande, como nos chamam. Eles são (ou eram) um povo pequeno, com cerca de metade da nossa altura, e menores do que os anãos barbados. Hobbits não têm barba. Há pouca ou nenhuma mágica neles, exceto a do tipo comum e cotidiano que os ajuda a desaparecer em silêncio e rapidamente quando gente estúpida e grande como você e eu chega desengonçada, fazendo um barulho feito o de elefantes, que eles conseguem escutar a uma milha de distância. Têm inclinação a serem gordos na barriga; vestem-se com cores vivas (principalmente verde e amarelo); não usam sapatos, porque seus pés têm solas cascudas naturais e pelos grossos, quentinhos e castanhos como os cabelos da cabeça deles (que são encaracolados); possuem dedos compridos, hábeis e morenos, rostos bem-humorados, e dão risadas profundas e animadas (especialmente depois do jantar, que consomem duas vezes por dia, quando conseguem). Agora você sabe o suficiente para continuar. Como eu ia dizendo, a mãe desse hobbit — isto é, de Bilbo Bolseiro — era a famosa Beladona Tûk, uma das três impressionantes filhas do Velho Tûk, chefe dos hobbits que viviam do outro lado d’O Água, o pequeno rio que corria aos pés d’A Colina. Dizia-se com frequência (em outras famílias) que, muito tempo antes, um dos ancestrais dos Tûks devia ter se casado com uma fada. Isso era, é claro, um absurdo, mas certamente ainda havia algo de não inteiramente hobbit quanto a eles, e, de vez em quando, membros do clã Tûk acabavam se metendo em aventuras. Desapareciam discretamente, e a família abafava o caso; mas isso não mudava o fato de que os Tûks não eram tão respeitáveis quanto os Bolseiros, embora fossem indubitavelmente mais ricos.
Não que Beladona Tûk jamais tenha se metido em aventuras depois que se tornou a Sra. Bungo Bolseiro. Bungo, que era o pai de Bilbo, construiu para ela (e, em parte, com o dinheiro dela) a toca de hobbit mais luxuosa que podia ser encontrada sob A Colina, ou do outro lado d’A Colina, ou atravessando O Água, e ali permaneceram até o fim de seus dias. Mesmo assim, é provável que Bilbo, único filho de Beladona, embora tivesse aparência e comportamento exatamente iguais a uma segunda edição de seu pai sólido e acomodado, houvesse herdado alguma coisa esquisita do lado Tûk, algo que estava só esperando uma chance para aparecer. A chance nunca chegava, e nisso Bilbo cresceu, chegou a uns cinquenta anos de idade e continuou vivendo na linda toca de hobbit construída por seu pai, que eu acabei de descrever a você, até que, na verdade, parecia ter sossegado a ponto de ficar imóvel.
Por algum acaso curioso, em certa manhã muito tempo atrás, na quietude do mundo, quando havia menos barulho e mais verde e os hobbits ainda eram numerosos e prósperos, e Bilbo estava de pé à porta depois do café da manhã, fumando um cachimbo de madeira enormemente comprido que quase chegava aos seus dedos dos pés peludos (cuidadosamente escovados) — Gandalf apareceu. Gandalf! Se você tivesse ouvido só um quarto do que já ouvi sobre ele, e eu só ouvi muito pouco do que há para se ouvir, estaria preparado para qualquer tipo de história impressionante. Histórias e aventuras brotavam por todo lado aonde quer que ele fosse, da maneira mais extraordinária. Ele não tinha passado por aquelas partes sob A Colina por anos e anos, não desde que seu amigo, o Velho Tûk, tinha morrido, e os hobbits quase haviam se esquecido de sua aparência. Tinha viajado para o outro lado d’A Colina e cruzado O Água para resolver assuntos seus desde que todos eram pequenos meninos-hobbits e meninas-hobbits.
Tudo o que o desavisado Bilbo viu naquela manhã foi um velho com um cajado. Tinha um chapéu azul alto e pontudo, um longo manto cinzento, um cachecol prateado por cima da qual sua longa barba branca chegava até abaixo da cintura e imensas botas pretas.
“Bom dia!”, disse Bilbo, e era verdade. O sol estava brilhando, e a grama estava muito verde. Mas Gandalf olhou para ele debaixo de sobrancelhas longas e frondosas, que se projetavam mais para a frente do que a aba de seu grande chapéu.
“O que quer dizer?”, perguntou. “Está me desejando um bom dia, ou quer dizer que é um bom dia quer eu queira ou não; ou que você se sente bem neste dia; ou que é um bom dia para ser bom?”
“Tudo isso de uma vez”, disse Bilbo. “E é um dia muito bom para encher o cachimbo de tabaco ao ar livre, de quebra. Se trouxe um cachimbo, sente-se e pegue um pouco do meu tabaco! Não há pressa, temos o dia inteiro diante de nós!” Então Bilbo se sentou num banco ao lado da porta, cruzou as pernas e soprou um belo anel cinzento de fumaça, que saiu navegando pelo ar sem se desfazer e flutuou para longe, sobre A Colina.
“Muito bonito!”, disse Gandalf. “Mas não tenho tempo para soprar anéis de fumaça nesta manhã. Estou procurando alguém para tomar parte numa aventura que estou arranjando e é muito difícil achar gente.”
“Imagino que sim — nestas partes! Somos gente simples e quieta e não queremos saber de aventuras. Coisas desagradáveis, perturbadoras e desconfortáveis! Fazem o sujeito se atrasar para o jantar! Não consigo imaginar o que alguém vê nelas”, disse nosso Sr. Bolseiro, e enfiou um dedão embaixo dos suspensórios, e soprou outro anel de fumaça ainda maior. Então pegou suas cartas da manhã e começou a ler, fingindo não prestar mais atenção ao velho. Tinha decidido que ele não era bem da sua turma e queria que fosse embora. Mas o velho não se mexeu. Ficou apoiado no seu bastão, olhando para o hobbit sem dizer nada, até que Bilbo começou a se sentir desconfortável e até um pouco contrariado.
“Bom dia!”, disse ele por fim. “Não queremos nenhuma aventura por aqui, obrigado! Pode tentar do outro lado d’A Colina ou atravessando O Água.” Com isso queria dizer que a conversa estava acabada.
“Você usa esse Bom dia para um monte de coisas!”, disse Gandalf. “Agora significa que quer se livrar de mim e que o dia não vai ser bom até eu sair daqui.”
“De modo algum, de modo algum, meu caro senhor! Deixe-me ver, não acho que eu saiba seu nome?”
“Sim, sim, meu caro senhor — e eu sei seu nome, Sr. Bilbo Bolseiro. E você sabe meu nome sim, embora não se lembre de que eu pertenço a ele. Eu sou Gandalf, e Gandalf quer dizer eu! E pensar que eu haveria de viver para receber um bom dia do filho de Beladona Tûk como se eu estivesse vendendo botões de porta em porta!”
“Gandalf, Gandalf! Ora viva! Não o mago viajante que deu ao Velho Tûk um par de abotoaduras mágicas de diamante que se prendiam sozinhas e nunca se soltavam a não ser que fosse ordenado? Não o camarada que costumava contar tantas histórias maravilhosas em festas sobre dragões, e gobelins, e gigantes, e o resgate de princesas, e a sorte inesperada de filhos de viúvas? Não o homem que costumava fazer fogos de artifício tão particularmente excelentes! Eu me lembro desses! O Velho Tûk costumava soltá-los na Véspera do Meio-do-verão. Esplêndidos! Costumavam explodir feito grandes lírios, e bocas-de-leão, e laburnos de fogo e ficar pendurados no crepúsculo por todo o anoitecer!” Você já deve estar notando que o Sr. Bolseiro não era tão banal quanto gostava de acreditar, e também que tinha um forte apreço por flores. “Que coisa!”, continuou. “Não o Gandalf que foi responsável por levar tantos rapazes e raparigas tranquilos a desaparecer na Lonjura em aventuras desvairadas? Todo tipo de coisa, de escalar árvores a visitar elfos — ou navegar em navios, navegar para outras costas! Minha nossa, a vida costumava ser bem interes... digo, você costumava bagunçar as coisas demais nestas partes tempos atrás. Perdoe-me, mas não tinha ideia de que ainda estava em serviço.”
“Onde mais eu estaria?”, disse o mago. “De todo modo, agrada-me descobrir que você recorda algo a meu respeito. Parece recordar meus fogos de artifício com carinho, de qualquer modo, e isso não é mau sinal. De fato, em consideração a seu avô Tûk e à pobre Beladona, vou dar a você o que pediu.”
“Perdoe-me, não pedi nada!”
“Sim, pediu! Duas vezes já. Meu perdão. Está dado. De fato, irei mais longe e vou incluí-lo nessa aventura. Muito divertida para mim, muito boa para você — e lucrativa também, muito provavelmente, se chegar a concluí-la.”
“Desculpe! Não quero aventura nenhuma, obrigado. Hoje não. Bom dia! Mas por favor apareça para o chá — na hora que quiser! Por que não amanhã? Venha amanhã! Adeus!” Com isso o hobbit se virou, e passou rapidinho por sua porta verde e redonda, e a trancou tão velozmente quanto era possível sem parecer rude. Magos, afinal, são magos.
“Por que raios eu o convidei para o chá?”, disse a si mesmo enquanto ia para a despensa. Tinha acabado de fazer o desjejum, mas achou que um bolo ou dois e algo para beber iam lhe fazer bem depois daquele susto.
Gandalf, nesse meio-tempo, ainda estava de pé do lado de fora da porta, rindo baixinho sem parar. Depois de algum tempo, chegou mais perto e, com o esporão de seu cajado, rabiscou um sinal esquisito na linda e verde porta da frente do hobbit. Então foi embora, bem no momento em que Bilbo estava terminando seu segundo bolo e começando a achar que tinha escapado muito bem das tais aventuras.
No dia seguinte, tinha quase se esquecido de Gandalf. Não se lembrava das coisas muito bem, a não ser que as anotasse em sua Tabela de Compromissos, deste jeito: Gandalf Chá Quarta-feira. No dia anterior ele ficara atabalhoado demais para fazer qualquer coisa do tipo.
Pouco antes da hora do chá, veio um tremendo toque na campainha da porta da frente, e então ele se lembrou! Apressou-se a colocar o bule no fogo, e ajeitou mais uma xícara e um pires, e um ou dois bolos extras, e correu até a porta.
“Sinto tanto por fazê-lo esperar!”, já ia dizendo, quando viu que não era Gandalf de jeito nenhum. Era um anão com uma barba azul enfiada num cinto dourado e olhos muito brilhantes debaixo de seu capuz verde-escuro. Assim que a porta se abriu ele foi entrando, exatamente como se estivesse sendo esperado.
Pendurou sua capa com capuz no cabideiro mais próximo e “Dwalin, a seu serviço” disse ele, fazendo uma profunda reverência.
“Bilbo Bolseiro, ao seu!”, disse o hobbit, surpreso demais para fazer qualquer pergunta no momento. Quando o silêncio que se seguiu já tinha ficado desconfortável, acrescentou: “Estou prestes a tomar chá; por favor, venha tomar comigo.” Um pouco desajeitado, talvez, mas a intenção era boa. E o que você faria se um anão não convidado aparecesse e pendurasse suas coisas no seu corredor sem uma só palavra de explicação?
Não fazia muito tempo que estavam à mesa, de fato mal tinham chegado ao terceiro bolo, quando veio outro toque ainda mais alto da campainha.
“Com licença!”, disse o hobbit, e lá se foi para a porta.
“Então você chegou aqui afinal!” Isso era o que ia dizer a Gandalf dessa vez. Mas não era Gandalf. Em vez dele, havia um anão que parecia muito velho na soleira, com uma barba branca e um capuz escarlate; e também ele pulou para dentro assim que a porta se abriu, como se tivesse sido convidado.
“Vejo que eles já começaram a chegar”, disse quando reparou no capuz verde de Dwalin pendurado ali. Pendurou o seu capuz vermelho do lado e “Balin, a seu serviço!” disse ele, com a mão no peito.
“Obrigado!”, disse Bilbo, engasgando. Não era a coisa correta a se dizer, mas o já começaram a chegar o deixara muito atabalhoado. Gostava de visitantes, mas também gostava de conhecê-los antes que chegassem e preferia que ele próprio os convidasse. Passara-lhe pela cabeça a horrível ideia de que os bolos pudessem não dar para todos e então ele — como anfitrião, conhecia seu dever e o seguia à risca, por mais que fosse doloroso — poderia ter de ficar sem nenhum.
“Vamos entrando, venha tomar um pouco de chá!”, conseguiu dizer depois de tomar bastante fôlego.
“Um pouco de cerveja me cairia melhor, se não houver problema, meu bom senhor”, disse Balin, com sua barba branca. “Mas não seria mal comer um pouco de bolo — bolo de sementes, se você tiver algum.”
“Vários!”, Bilbo se ouviu respondendo, para sua própria surpresa; e se viu sair correndo, também, rumo à adega para encher uma caneca de cerveja, e depois até uma das despensas para pegar dois lindos bolos de sementes redondos que tinha assado naquela tarde para beliscar depois da ceia.
Quando voltou, Balin e Dwalin estavam conversando à mesa como velhos amigos (na verdade, eles eram irmãos). Bilbo botou a cerveja e os bolos na frente deles, quando veio outro toque alto na campainha de novo, e depois mais um.
“Gandalf, com certeza, dessa vez”, pensou enquanto bufava pelo corredor. Mas não era. Eram mais dois anãos, ambos com capuzes azuis, cintos prateados e barbas louras; e cada um deles carregava um saco de ferramentas e uma pá. Foram entrando assim que a porta começou a se abrir — Bilbo mal ficou surpreso.
“O que posso fazer por vocês, meus anãos?”, disse ele.
“Kili, a seu serviço!”, disse o primeiro. “E Fili!”, acrescentou o outro; e ambos arrancaram seus capuzes azuis e se inclinaram.
“Ao seu e ao de sua família!”, replicou Bilbo, recordando suas boas maneiras dessa vez.
“Dwalin e Balin já estão aqui, pelo que vejo”, disse Kili. “Vamos nos juntar ao bando!”
“Bando!”, pensou o Sr. Bolseiro. “Não gosto de como isso soa. Preciso realmente me sentar por um minuto, e organizar as ideias, e beber alguma coisa.” Tinha acabado de beber um gole — no cantinho, enquanto os quatro anãos se sentavam ao redor da mesa e falavam de minas e ouro, e problemas com os gobelins, e das depredações de dragões, e de montes de outras coisas que ele não entendia e não queria entender, pois soavam aventurosas demais — quando, blém-blóm-lím-dém, a campainha tocou de novo, como se algum menininho-hobbit levado estivesse tentando arrancar a corda.
“Alguém está à porta!”, disse ele, piscando.“
“Alguéns — uns quatro, eu diria, pelo som”, comentou Fili. “Além disso, nós os vimos chegando atrás de nós, de longe.”
O pobre hobbit se sentou no corredor, e colocou a cabeça entre as mãos, e se perguntou o que tinha acontecido, e o que ia acontecer, e se todos eles iam ficar para a ceia. Então a campainha tocou de novo, mais alta do que nunca, e ele teve de correr até a porta. Não eram quatro, afinal, eram cinco. Outro anão tinha chegado enquanto ele ficara matutando no corredor. Mal tinha virado a maçaneta quando viu todos entrarem, curvando-se e dizendo “a seu serviço”, um depois do outro. Dori, Nori, Ori, Oin e Gloin eram seus nomes; e logo dois capuzes roxos, um cinza, um marrom e um branco estavam pendurados nos cabideiros, e lá se foram eles, com suas mãos largas enfiadas em seus cintos dourados e prateados, a se juntar aos outros. Aquilo já tinha quase virado um bando mesmo. Alguns pediam cerveja clara, outros, cerveja escura, um queria café, e todos queriam bolos; de modo que o hobbit ficou muito ocupado por um tempo.
Uma grande jarra de café tinha acabado de ser colocada na lareira, os bolos de sementes tinham acabado e os anãos estavam começando a atacar uns pães doces amanteigados quando se ouviu uma batida forte na porta. Não um toque de campainha, mas um “pá-pá” duro na linda porta verde do hobbit. Alguém estava batendo nela com um pau!
Bilbo saiu correndo pela passagem, muito bravo e totalmente desnorteado e desacorçoado — essa era a quarta-feira mais desagradável de que conseguia se lembrar. Abriu a porta com um tranco, e eles todos caíram para dentro, um em cima do outro. Mais anãos, quatro mais! E lá estava Gandalf atrás deles, apoiando-se em seu cajado e rindo. Tinha aberto um buraco daqueles na bonita porta de Bilbo; também tinha, aliás, apagado a marca secreta que fizera nela na manhã anterior.
“Cuidado! Cuidado!”, disse ele. “Não é do seu feitio, Bilbo, deixar amigos esperando na soleira e aí abrir a porta como se fosse uma rolha! Permita-me apresentar Bifur, Bofur, Bombur e especialmente Thorin!”
“A seu serviço!”, disseram Bifur, Bofur e Bombur, ficando de pé em fila. Então penduraram dois capuzes amarelos e um verde-claro no cabideiro; e também um azul-celeste com uma comprida borla prateada. Este último pertencia a Thorin, um anão enormemente importante; de fato, ninguém menos que o grande Thorin Escudo-de-carvalho em pessoa, que não estava nada contente por ter desabado no tapete de Bilbo com Bifur, Bofur e Bombur em cima dele. Para começo de conversa, Bombur era imensamente gordo e pesado. Thorin, de fato, tinha um ar muito arrogante e não disse nada sobre serviço; mas o pobre Sr. Bolseiro disse que sentia muito tantas vezes que, por fim, o anão resmungou “não por isso” e parou de franzir o cenho.
“Agora estamos todos aqui!”, disse Gandalf, olhando para o rol de treze capuzes — os melhores capuzes destacáveis de festa — e para seu próprio chapéu pendurado no cabideiro. “Isso é que é reunião alegre! Espero que tenha sobrado algo para os retardatários comerem e beberem! O que é isso? Chá? Não, obrigado! Um pouco de vinho tinto para mim, creio.”
“E para mim”, disse Thorin.
“E geleia de framboesa e torta de maçã”, disse Bifur.
“E torta de frutas secas e queijo”, disse Bofur.
“E torta de carne de porco e salada”, disse Bombur.
“E mais bolos — e cerveja clara — e café, se não se importa”, gritaram da porta os outros anãos.
“Ponha mais uns ovos para cozinhar, meu bom camarada!”, gritou Gandalf atrás dele, enquanto o hobbit saiu pisando duro rumo às despensas. “E veja se traz o frango e os picles!”
“Parece que ele sabe tanto sobre o interior da minha cozinha quanto eu mesmo!”, pensou o Sr. Bolseiro, que estava se sentindo positivamente destemperado e começava a temer que uma aventura das mais danadas tivesse chegado justamente à sua casa. Quando enfim conseguiu colocar todas as garrafas, e pratos, e facas, e garfos, e copos, e pires, e colheres e coisas empilhadas em grandes bandejas estava ficando muito suado, de cara vermelha e irritado.
“Que embrulhada e que apoquentação são esses anãos!”, disse em voz alta. “Por que eles não vêm me dar uma mãozinha?” Não mais que de repente, eis que Balin e Dwalin apareceram à porta da cozinha, com Fili e Kili atrás deles, e antes que Bilbo conseguisse dizer faca eles já tinham levado as bandejas e um par de pequenas mesas para a sala de visitas e arrumado tudo.
Gandalf se sentou na cabeceira com os treze anãos à sua volta, enquanto Bilbo ficou sentado num banco ao lado do fogo, mordiscando um biscoito (seu apetite tinha praticamente sumido) e tentando agir como se tudo isso fosse perfeitamente normal e de modo algum uma aventura. Os anãos comeram e comeram, e conversaram e conversaram, e o tempo foi passando. Enfim empurraram suas cadeiras para trás, e Bilbo fez menção de recolher os pratos e copos.
“Suponho que todos vocês vão ficar para a ceia?”, disse no tom mais educado e despreocupado possível.
“Claro!”, disse Thorin. “E até depois. Não vamos resolver nossos negócios até bem tarde e precisamos de um pouco de música antes. E agora, hora da limpeza!”
Com isso, os doze anãos — menos Thorin, que era importante demais e ficou conversando com Gandalf — puseram-se de pé num salto e fizeram grandes pilhas das várias coisas. Lá se foram eles, sem esperar as bandejas, equilibrando colunas de pratos, cada um deles com uma garrafa no alto, enquanto o hobbit corria atrás quase gritando de susto: “Por favor, cuidado!” e “Por favor, não se incomodem! Eu me viro.” Mas os anãos apenas começaram a cantar:

Bata copo e prato na porta!
Sem gume a faca e torto o garfo!
Eis o que Bilbo não suporta —
Nas garrafas desça o sarrafo!

Rasgue o pano e pise na banha!
Derrame o leite no assoalho!
Ossos no chão ninguém apanha!
E o vinho no piso eu espalho!

Jogue as xícaras nas panelas;
Bata tudo com um pilão;
E se enfim sobrar uma delas,
É só girá-la até o salão!

Eis o que Bilbo não suporta!
Alto lá com os pratos na porta!
[...]

J. R. R. Tolkien, em O Hobbit