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26/04/2023

Cosmogonia | O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z.

SEGUNDA E DEFINITIVA CARTA AO TIMES

(Com vista ao Sr. redator da Seção Necrológica)

Escrevo-lhe esta em prantos, não para comunicar-lhe a morte de um ente querido, mas a minha própria morte. Como tudo que parece estranho, isto que acabo de anunciar tem na realidade uma explicação muito simples: é que resolvi suicidar-me e o senhor foi (à falta de um parente ou amigo, que não tenho) a única pessoa a quem me ocorreu dar, de antemão, a dolorosa notícia. Ao chegar esta à sua mesa repleta de avisos fúnebres e convites de missa de 7.° dia, já meu corpo, se foi encontrado, estará repousando no lugar que lhe compete dentro da imensidão da terra, ao lado de outros corpos de indigentes anônimos e esquecidos do mundo, com os quais possivelmente me comunicarei nas noites de tédio infinito.
Ainda uma hora atrás eu não sabia que hoje iria dormir em companhia dos mortos — hoje ou amanhã, conforme o tempo que levem para descobrir meu corpo franzino entres estes enormes eucaliptos e sob este cipreste que espero venha a cobrir um dia minha sepultura rasa. Como tudo que tenho feito na vida, decidi realizar minha morte sem pensar muito tempo no assunto, mesmo porque sempre me pareceu que a morte não é tão importante quanto querem fazer crer os vivos, dada a nossa perfeita insignificância dentro do universo. A morte de um mosquito é tão importante quanto a minha própria morte, digo-o sem falsa modéstia, e disso o senhor mesmo terá prova ao ficar sabendo do meu suicídio, que o afetará tanto quanto a morte de um dos milhões de perus sacrificados à véspera do Natal. A comunhão dos mortos ainda pode ser uma realidade, pelo menos para os que nela creem piamente, à sombra da necrofilia católica ou que outro nome tenha; a comunhão dos vivos, porém, ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.
Sei que é de praxe o suicida invocar grandes razões, e se possível belas, para justificar seu gesto tresloucado, como dizem — e sinto ter que decepcioná-lo não invocando nenhuma razão maior para explicar esta minha fuga prematura de um mundo que afinal é o único mundo com o qual podemos contar honestamente. Se eu quisesse, certamente poderia encontrar uma dúzia ou mesmo duas de belas razões (metafísicas, econômicas, políticas etc. etc.) capazes de justificar não apenas o meu suicídio como o suicídio de toda a humanidade, nos dias que correm como em todos os tempos. Prefiro, porém, ser honesto e dizer que me mato pelo prazer único de matar-me, como existem casos de sujeitos que matam um desconhecido qualquer (não falando da guerra) pelo simples prazer de vê-lo cair morto ou para experimentar uma arma nova. Sei que é raro isto acontecer, mas acontece; e o meu caso é exatamente um desses. Enjoei de mim, como poderia ter enjoado da cara de um vizinho que nunca me tivesse feito mal em sua vida — e como não sou obrigado a viver de enjoo, cortei simplesmente o mal pela raiz, eliminando-me da minha vista. É possível que num dia de primavera e com os bolsos cheios de dinheiro eu não pensasse em eliminar-me com tanta facilidade, mesmo porque o homem é suficientemente tolo para contentar-se com pouca coisa, eterna criança que é; acontece que hoje não é primavera, nem tenho os bolsos abarrotados de notas de mil francos, de sorte que me sinto decididamente disposto ao suicídio, como o estaria para o homicídio também. O certo mesmo seria chamar a este meu suicídio de homicídio, já que em mim eu mato o homem que não me agrada e não o meu eu verdadeiro, que é até simpático.
E já que falo em simpatia, devo deixar claro que morro tão antipático como sempre vivi, tomando-se por base naturalmente a opinião dos outros a meu respeito, não a minha própria. A náusea que venho de sentir pelo meu corpo cheio de esperma, lágrimas e outros humores trágicos, é uma náusea que, bem ou mal, eu poderia superar com ajuda de alguma filosofia, desde que me dispusesse a praticar a necessária ginástica mental diante do espelho; ao passo que a antipatia que me inspiram os outros, e vice-versa, é algo que nasceu comigo e será hoje comigo assassinado, e que só pode ter explicação na perfeita dessemelhança existente entre mim e os meus semelhantes, entre o meu EU e o que se convencionou chamar o homem comum. Todas as normas de educação que me tentaram impingir no cérebro tinham por objetivo convencer-me de que eu e o meu vizinho éramos feitos da mesma massa e consequentemente da mesma qualidade de alma, havendo mesmo alguns exagerados que chegavam a proclamar que ambos éramos filhos do mesmo pai celestial, a cuja imagem e semelhança havíamos sido feitos em nove meses; a experiência, porém, convenceu-me exatamente do contrário, e não foi preciso muito tempo para eu descobrir que não passava de um pequeno monstro dentro da minha espécie, de alguém que não se parecia nem sequer consigo mesmo nos diversos momentos e que já nascera fatalmente marcado para a solidão. E como eu não podia andar metido num escafandro todas as horas do dia, embora já tenha exercido a profissão de escafandrista na penúltima guerra, deu-se o entrechoque fatal entre a minha multidão de almas e a alminha dos meus pseudossemelhantes, com consequentes ódios e ressentimentos de parte a parte, como ficou provado nas páginas de meu Diário íntimo e que um dia ainda serão publicadas. Nesse livro aparentemente triste, eu me situo na posição de antípoda de todos os seres com os quais vivo esbarrando-me pelas ruas ou mesmo dentro de casa — o que talvez em parte explique meu contínuo peregrinar pelos quatro cantos do mundo, à procura de outro polo no qual certamente houvesse um outro antípoda à minha espera.
Mas, Sr. redator de assuntos fúnebres, nada mais tenho a dizer, por ora, neste in extremis que já se vai fazendo longo e sem graça, e que certamente será tido por V. S. na devida consideração, atirando-o simplesmente à cesta de papéis velhos. Desconhecendo-me como o Sr. me desconhece, é justo que não queira levar-me a sério e nem sequer se dê ao trabalho de procurar no mapa onde fica San Juan de Ia Sierra, onde dentro em pouco entregarei a alma ao Criador ou a quem lhe faça as vezes, como quem restitui um guarda-chuva que apenas lhe foi dado em empréstimo. E para que o Sr. me acredite em parte, e bem assim não se sinta de todo roubado em seu precioso tempo, deixo-lhe de presente o meu relógio de estimação, que pertenceu a um enforcado das minhas relações e que marca todos os minutos da vida com uma precisão realmente cronométrica, apesar de também já ter sido enforcado com o seu dono.

Funereamente seu,
...................................................................…

FIM

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

09/04/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

N

Madrugada. Hora em que os fantasmas e as baratas retornam aos seus pagos. Pelo meu relógio (do enforcado) são exatamente 5 horas, vinte e seis minutos e trinta segundos. Ou, para ser mais exato, trinta e um. Agora, trinta e dois.
A palma da minha mão é uma carta geográfica em que leio o desencontro de todos os caminhos que palmilhei até aqui, neste mundo que é um emaranhado de estradas e de rios que não levam a ponto algum, apesar de tantas tabuletas de Chegada e de Partida e de tantos portos atravancados de navios. Houve um chinês que disse, resumindo tudo numa frase de uma clareza meridiana e que no entanto desnorteia os ingênuos ledores de bússola e seus fiéis discípulos: O caminho que é um caminho não é o verdadeiro caminho. Eu, quando percebo que o meu caminho vem assinalado nos manuais de geografia ou nos tratados de filosofia de vinte shillings, trato logo de desviá-lo para a esquerda ou para a direita, quando não simplesmente para as nuvens, tão certa é a minha certeza de que o caminho aberto por outro não pode guiar meus passos de boêmio errante, como seria absurdo um leão (por espírito de comodidade) preferir uma picada aberta na selva pelo explorador, em vez da própria selva que para ele é um caminho permanente, sem riscos e sem mistérios. Nosso caminho tem que ser como nosso esquife, único e individual, a menos naturalmente que prefiramos desintegrar-nos no ar, numa explosão de misticismo barato e de grande efeito, às barbas de Deus inexistente.
Vendo o sol que nasce pela vulva da janela entreaberta — ele, de regra tão orgulhoso, que gosta de nascer do grande mar ou do pico dos arranha-céus lembro-me de súbito de que passei a noite em claro, devido aos uivos da louca sob os meus pés, e de que necessito mudar-me para um hospício mais sossegado, onde os loucos tenham pelo menos que respeitar o sossego noturno, seja ele de lua cheia ou não. Para velar o cadáver dos que dormem o sono da inocência basta-me a minha própria insônia, não necessito de acompanhamento de vozes estranhas e muito menos de uivos estranhos — eu que também tenho o meu uivo próprio, como já o provei a mim mesmo numa noite de grande angústia. A dona desta pensão suspeita deveria ter-me prevenido de que sua irmã tinha alergia a luas de qualquer espécie, ou quando menos deveria tê-la obrigado a estudar canto para não azucrinar com suas desafinações o ouvido dos pensionistas. Uma noite que se perde sem sono, como esta de hoje, deveria ser descontada do aluguel mensal, pois não me consta que dormir seja coisa menos importante do que comer ou do que defecar, coisas que aqui são levadas muito a sério, com o devido respeito de todos os demais.
Mas o que vale é que aproveitei esta minha vigília forçada justamente para pôr em ordem alguns pensamentos que me andavam fora do lugar, e bem assim criar alguns pensamentos novos, capazes de desentediar-me pelo menos por uma semana. Isso de criar pensamentos novos é sempre tarefa muito delicada, porque antibíblica. (Os pensamentos dos mortais são tímidos, lê-se no falso Livro da Sabedoria) e conheço o caso de dois sujeitos que, à força de quererem criar pensamentos novos, acabaram, um no manicômio, e o outro nas estepes da Sibéria, onde ainda se encontram até hoje. Não há realmente pior forma de terrorismo do que não aceitar o terrorismo implantado há milênios pela máquina do Estado — e bem faz essa máquina em triturar sem piedade os utopistas renitentes e os profetas de novos tempos, como nos bons tempos da Inquisição fazia a Santa Madre Igreja contra os que lhe dispensavam a maternidade e preferiam caminhar sobre dois pés em vez de quatro.
Meus novos pensamentos, que são de virar o mundo pelo avesso, em que pese à maldição bíblica, eu não os revelarei aqui pelo preço de duas patacas, como o faria um Galileu qualquer, amedrontado e pronto a renegar-se na primeira oportunidade. Vamos deixar que o baile ainda continue por algum tempo, o baile dos que só sabem dançar ao som de músicas alheias e devidamente censuradas pela prefeitura; no momento azado eu subo numa cadeira e, de batuta à mão, ponho os músicos todos malucos com a partitura que arrancarei do bolso, ainda quente do calor do meu corpo. Os pares que se danem, que virem ímpares, se quiserem continuar dançando, ou que se enforquem numa das mil cordas que porei à sua disposição pelos cantos do salão, com direito a confessor e tudo. Ao som da minha Cacofonia sem dó — primeiro trecho lírico em que o sol implacável tomará a si o encargo de substituir de fond en comble qualquer espécie de dó, como o faria um Nietzsche que ao mesmo tempo fosse um Wagner — os que tiverem uma alma se sentirão envergonhados de terem vivido sem ela até então, e recuperarão a infância num abrir e fechar de olhos: a infância de antes das primeiras letras, evidentemente. A nova sarabanda, dançada mais ao som de atabaques do que violinos, acabará por ser chamada Dança Macabra, como lhe convém, e se algum precursor lhe pode ser apontado será sem dúvida o autor da dança de são Guido, o coreógrafo de minha predileção. Dança e motivo musical farão um quadro dissonante único, como nas velhas gravuras de Callot, e sob a égide da minha Cacofonia Anti-Sinfônica os miasmas da estupidez tenderão a desaparecer a pouco e pouco da face da terra, substituídos pelo cheiro do absinto e do esperma, que darão o tom da nova primavera.

(Uma furtiva lágrima. Mais outra. Mais outra.)

Mas tudo isso são desvarios de um espírito tresnoitado, dirão meus inimigos eternos, que vivem dentro e fora de mim — e bastará que você calce os sapatos para que a realidade volte a funcionar sob os seus pés, a dura e feia realidade de todos os dias, inclusive feriados e dias santos. É bem possível que assim seja, respondo calado, e por isso mesmo tratarei de não pôr os sapatos tão cedo, e se preciso não os porei nunca mais, a fim de pousar sobre os meus próprios alicerces e ter os sonhos que quiser ter, e que para mim serão certezas. O mundo se divide em duas partes bem definidas: eu e o resto do mundo, e a minha defesa está justamente nos meus sonhos, ou desvarios como queiram, em cujas asas voo a alturas que vocês nunca atingirão de foguete, e de onde avisto as cúpulas dos edifícios como se fossem cabeças de alfinetes, como o são realmente. Se não posso mudar o mundo, tampouco permitirei que o mundo me mude a mim, arrancando-me esse câncer de mistérios e heresias que é toda a minha riqueza e que faz com que minha voz não seja apenas o grunhido de um porco, nem meu olhar apenas o olhar de um peixe dentro do aquário. Aos mil professores que tentaram deseducar-me respondo-lhes com um piparote no cocuruto, exatamente como fiz ao médico que não soube descobrir a causa do meu pranto, e a toda a sua ciência oficial e cheirando a naftalina eu oponho a onisciência do meu instinto indomável e sem máscara, mesmo porque não existe (que eu saiba) nenhuma máscara de mil faces. Aos que me chamem de bárbaro eu lhes respondo com uma barbaridade de légua e meia, e lanço-lhes à face o epíteto de sifilizados de que eles tanto parecem orgulhar-se, eles e seus antepassados barões, condes e arcebispos.
Agora é dia claro, embora tudo continue escuro como dantes, apesar de meus novos pensamentos que me fazem fosforescente e ígneo. Quanto mais claro eu me torno por dentro, mais obscuro se torna o mundo e o dia dentro dele — descubro-o agora. É por isso que os moribundos se tornam quase translúcidos em sua onividência, minutos antes de morrerem: eles são um foco de luz dentro do mundo opaco. E eu sou moribundo cada vez mais convicto da sua morte, queira-o ou não.
Saudemos o dia com um pranto espesso, com os gemidos da louca como música de fundo.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

03/04/2023

Cosmogonia | M

Até que esta semana não posso queixar-me da sorte. Veio um diretor de cinema francês filmar nos arredores de San Juan e, sem que eu nada pedisse, vi-me contratado como extra para uma das cenas mais importantes do filme, aquela que justamente dá o título à película e lhe serve de clímax: L’Explosion. Faço parte da explosão, a princípio de corpo inteiro, depois sem uma perna.
Eu me achava chorando à mesa de um bar, tendo às mãos uma revista licenciosa, repleta de fotos lúbricas, quando de mim se aproximou sorrateiramente, sob pretexto de pedir-me fósforos, o próprio diretor do filme, um tal Christian Jaque, que, ao ver-me debulhado em lágrimas, me perguntou se eu havia perdido algum membro importante da minha família e se necessitava de algum adiantamento para o enterro. Fiz-lhe ver que o meu mal era apenas dor de dentes (deslavada mentira) e aproveitei a oportunidade para mostrar-lhe uma fotografia de um sensualismo feroz que justamente estava vendo naquele instante e que pareceu tê-lo impressionado vivamente. Dois minutos depois, e sem que se tivesse tocado em questão de dinheiro, eu já estava contratado para participar da tal cena superexplosiva, a vinte quilômetros mais ou menos do ponto em que nos encontrávamos. A única exigência que lhe fiz foi a de que o meu cipreste também participasse do filme, nem que fosse de relance apenas, o que ele, após fitar-me meio de lado, aceitou prontamente. E eu lhe mostrei então outra foto escabrosa da revista, para selar o nosso acordo.
A cena em que eu aparecia durava uma fração de minuto apenas, mas era importantíssima. No meio da estrada, com o meu cipreste ao fundo, durante a passagem de uma procissão de que eu participava com o ar mais contrito deste mundo — com uma vela acesa numa das mãos e um rosário imenso na outra — ocorria a explosão de uma mina deixada pelo inimigo na última guerra, e tudo ia lindamente pelos ares, num espetáculo pirotécnico digno dos maiores encômios. (Pena que o filme não fosse em cores, para se ter uma ideia exata do sangue derramado e das postas de carne espalhadas num raio de duzentos metros). Eu, após o estrondo formidável, captado em som perspecta-estereofônico, via-me obrigado a recolher uma das pernas às costas e a simular a mais horripilante das dores, dando vazão, para gáudio do diretor e de seus assistentes, a um dos berros mais bem dados em toda a história do cinema universal, com a câmara funcionando a dois palmos de meu ensanguentado nariz. Foi tão real e convincente o meu grito de pavor, e tão autênticas as lágrimas que me desciam dos olhos e me inundavam a camisa e as calças, indo desaguar sobre um pseudodefunto ao meu lado, que, finda a filmagem, todos vieram correndo saudar-me pelo meu êxito espetacular, inclusive o citado pseudodefunto, que era um dos astros principais do filme. Ali mesmo recebi a proposta de fazer catorze filmes na França e dois na Inglaterra — com ou sem ciprestes, à minha escolha — o que todavia recusei sem entrar em maiores detalhes, mesmo porque eu continuava chorando e os soluços não me permitiam uma conversa muito longa.
A cena calamitosa valeu-me a bagatela de trinta mil francos (sem contar a vela e o terço, que me foram dados como lembrança) e um retraio de corpo inteiro, já com as duas pernas, tirado ao lado do diretor e de seus trezentos assistentes, e que foi publicado no dia seguinte em todos os jornais da cidade, com louvores unânimes à minha imprevista atuação. O rosário e a vela doei-os à Santa Casa para serem distribuídos a algum defunto pobre, e os trinta mil francos estou acabando de gastá-los ao meu modo, isto é, como se fossem trezentos mil ou três milhões, dado que sempre vivi aujourlejour e não me interessa levar nem um cêntimo para o inferno.
De tudo isso o que me desagrada é a popularidade que de súbito se fez em torno do meu nome — eu, até ontem um desconhecido nesta desconhecida cidade — e que me obriga a conceder entrevista cada vez que me surpreendem chorando pelos cantos, com se estivesse posando não apenas para um filme mas para a própria posteridade. A glória, que já tantas vezes me bafejou com seu bafo nauseabundo, e que já parecia haver-me esquecido nestes últimos tempos, atirou-me de novo e sem piedade à fúria dos caçadores de escândalo (mesmo que esse escândalo seja apenas uma manifestação inusitada de arte, como no caso) expondo-me ao ridículo de ter que responder a perguntas ridículas e a aceitar sem um revide os maiores elogios à queima-roupa, como se eu fosse um quadro de Picasso. Houve um imbecil, de uma coluna especializada em cinema, que me comparou a um cometa fulgurante que só passa pela terra de mil em mil anos — o que, apesar de conter certo exagero, deixa-me pelo menos a esperança de só vir a relê-lo daqui a mil anos, quando certamente ele já não estará escrevendo para o mesmo jornal. Outro, citando Platão e os druidas, e com a mesma ponta de exagero do seu colega, achou de considerar-me um caso de verdadeiro Milagre (a maiúscula é dele) dentro da 7ª Arte, propondo ao Senado da República que faça lavrar em ata um voto de Louvor (ainda é dele a maiúscula) à minha importantíssima contribuição à arte dramática universal, num papel que outro qualquer teria deixado passar despercebido, apesar de todo o barulho causado pela explosão. E, no instante mesmo em que escrevo isto, uma senhora aparentemente decente e que usa uma verruga na ponta do nariz pede-me humildemente um autógrafo para o seu álbum de autógrafos célebres, tendo sem dúvida me reconhecido pelas centenas de fotografias minhas que os jornais estamparam esta semana, sobretudo chorando.
A esses beócios todos de nada adiantaria eu lhes dizer que o meu pranto nada tem de cinematográfico, sendo como é puramente humano e de todo alheio à minha vontade — e que, se a passagem explosiva de L’Explosion vai ficar realmente antológica (como, sem a menor sombra de dúvida, há de ficar) culpa ou mérito nenhum disso me caberá, como tampouco caberá ao diretor ou ao cameraman que me surpreenderam em meu paroxismo de angústia, em meio a mortos e feridos. Para todos os efeitos sou o próprio Zanconi redivivo, queira-o ou não, e nem eu mesmo conseguiria convencê-los do contrário, como de resto ocorre a todos os falsos profetas e criadores de mitos, sejam artísticos ou simplesmente religiosos.
E agora vou chorar mais um pouco.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

28/03/2023

Cosmogonia

L

Tenho chorado muito ultimamente, mais do que de costume. E, o que é pior, sem motivo.
Fui ao médico e ele me perguntou: O senhor tem fígado? Tinha, respondi, quando era criança; agora já nem sei mais. A vida me tem roubado tanta coisa! O senhor tem tuberculose na sua família? Tuberculosos não tenho, não senhor, nem tampouco tenho família. Sou órfão por todos os lados, como se pode ver perfeitamente. E loucos? Houve algum caso de loucura entre os seus antepassados? Que eu saiba, só três tios e vinte e sete tias. Mas, se me permite, eu vim aqui saber o que tenho e não o que tiveram ou deixaram de ter meus avós e tataravós, o macaco de Darwin inclusive. O senhor é uma besta!
E assim fiquei sem saber exatamente o que tenho, ou mesmo se tenho, graças à enciclopédica ignorância do doutorzinho que me atendeu e que na sua placa dizia trazer longa prática dos hospitais de Berlim, Roma, Tejucupapo, Hollywood, Cannes e Punta del Este. (Esquecia-me de dizer que não lhe paguei a consulta, que era caríssima, mas lhe dei em troca um piparote no cocuruto, no instante mesmo em que ele se abaixava para examinar-me o sexo com o ar mais cínico deste mundo. É sempre assim que pago a esses professores de meia-tigela, quando os pego distraídos e com a mão na massa, em flagrante delito de autossuficiência.) Mas, para não dizer que havia perdido o dia, entrei numa farmácia e comprei um tubo de comprimidos de qualquer coisa, e saí chupando-os pela rua afora, ainda com um resto de lágrimas entre as pálpebras para não perder o hábito.
Entre os vários motivos de pranto que conheço, e que suponho sejam os mesmos de todo mundo, não há nenhum que eu possa legitimamente invocar como fonte deste choro convulso que me tem visitado nestes últimos tempos e que ainda agora, neste banco de jardim, me arrebata por inteiro, como se eu fora o mais triste dos assassinos. Seja ao pé do meu cipreste funéreo — o que ainda seria uma justificativa — seja durante o banho ou quando estou simplesmente à mesa esperando pelo meu almoço, vem-me de súbito, com uma força incoercível, a necessidade de chorar todas as lágrimas que trago guardadas dentro de mim, exatamente como se eu sentisse necessidade de esvaziar a bexiga ou os intestinos, naquele mesmo instante e não dez minutos depois. Ainda ontem à noite, quando me encontrava num bordel copulando com uma bela desconhecida, e no instante mesmo em que o espasmo final se aproximava, em meio a uma farândola de pernas e braços entrelaçados — subiu-me de súbito à cabeça, e daí aos olhos, uma torrente de lágrimas quentes e amargas, que não só me tirou de pronto todo o entusiasmo exigido pelas circunstâncias como ainda molhou por inteiro as costas e a nuca da minha companheira, a ponto de causar-lhe um começo de resfriado. Da quase plenitude do gozo passei, sem transição, ao cúmulo da angústia física e moral, para grande pasmo e surpresa da tresnoitada mulher, que a essa altura já se preparava para cobrar-me o preço da viagem. A custo conseguiu ela safar as nádegas de sob o meu corpo convulso e desgovernado, e quando dei por mim ela já havia fugido do quarto e deixado a porta escancarada, o que fez aumentar ainda mais minha situação de pânico e de vergonha. Esse insucesso carnal, regado a pranto de desespero, foi que me fez procurar hoje mesmo a tal sumidade médica de várias nações — charlatão internacional, fichado em hospitais e universidades do Velho e do Novo Mundo — o qual, como ficou dito, não contente de imiscuir-se na vida íntima dos meus avós e bisavós, ainda teve o desplante de querer examinar-me o sexo como se o meu mal fora destempero de urina e não de pranto.
Aos que só choram quando há motivos para chorar, e não costumam bancar carpideiras sobre a nudez ardente da bem amacia ou mesmo de uma simples rameira (quando toda a nossa atenção deve estar concentrada num único ponto, como o arqueiro no instante de visar o centro do alvo) eu formulo aqui um apelo ao mesmo tempo simples e desesperado, como o formularia ao próprio Deus caso ele existisse e estivesse presente, já que não tenho um só amigo que me possa valer nesta angústia infinita. Dai-me, eu vos peço, a receita de não chorar à toa sobre as mazelas e as incongruências deste mundo tão cotidiano, e de ver com olhos de cego, como vós fazeis, as aparentes belezas deste vasto cemitério sobre o qual caminhamos e que, de tão repleto de mortos, já está até cheirando mal, apesar da primavera que há no céu e nas flores. Dai-me a fórmula de sabedoria que me permita, aos quarenta anos — idade da minha imagem no espelho — contentar-me com o efêmero espetáculo do dinheiro e da mulher nua, e com os fugidios prazeres que nos podem advir do corpo ou do espírito, QUANDO sobre nossas cabeças paira, cada vez mais densa, a gigantesca sombra da morte, com a sua certeza que não admite sofismas nem tergiversações, por mais que a queiramos ignorar em nossos instantes de sono ou mesmo de vigília. Se a morte para a qual caminhamos a passos rápidos — e que ainda hoje pode colher-nos de surpresa, como nos colhe um raio em meio à tempestade — se essa morte é, cada dia mais, de minuto a minuto, a grande verdade contra a qual não prevalece nenhuma filosofia do homem nem tampouco seu incomensurável orgulho, dizei-me como e sobretudo por que devo eu ignorá-la com um sorriso nos lábios, como se este mundo fora o paraíso terrestre e não a terra deserta e sem caminho de que fala a Bíblia, livro que em tudo mais não merece grande crédito. Eu que sempre levei uma vida aventurosa, modéstia à parte, rindo-me de tudo e de todos sem pedir licença ao papa nem ao chefe de polícia, sempre fui no íntimo um pobre espantalho dentro da noite, mais triste do que o palhaço mais triste, com o riso da caveira à guisa de gargalhada. É que o meu riso, que a muitos parecia louco, era em verdade e apenas um pranto disfarçado, como só agora me dou conta de todo, em face desta lacrimorreia aparentemente absurda em que me afogo. Em suma: nada mais vos peço senão que afugenteis a morte da minha vista, já que não podeis afugentá-la das minhas costas, e que me deis o segredo desse filtro que vos faz tão tranquilos e ao mesmo tempo tão vivos, mesmo com o cheiro de cadáver já exalando de vossas narinas. Dai-me, enfim, a arte de mentir a mim mesmo, eu que não sei mentir nem aos outros, e fazei com que eu pise sobre os mortos como se pisasse apenas sobre esqueletos antediluvianos, que não me dissessem respeito e muito menos desrespeito, dada a minha alta qualidade de ser imortal e indiferente aos abismos.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

12/03/2023

Cosmogonia

K

Sempre desejei possuir um cipreste; posso, enfim, satisfazer esse meu desejo.

O cipreste que comprei fica no campo, mas daqui até a cidade a distância não é grande e posso vir vê-lo todas as tardes, ao pôr do sol, e sentar-me sob os seus ramos para meditar sabiamente. Houve até uma noite, plena madrugada, em que vim vê-lo sob um luar esplêndido, e em razão justamente desse luar: é que sob o meu quarto mora agora uma pobre louca, que não suporta a lua cheia e se põe a uivar desesperadamente — e eu não suporto o uivo dos loucos, sobretudo dos que não conheço. (Sempre ouvi falar dessa história de loucos ladrarem à lua cheia como se fossem cães desesperados, mas nunca lhe dei maior atenção; agora sei que é verdade.)
Mas o meu cipreste, modéstia à parte, é um mimo de cipreste e bem mereceria estar num cemitério, ao lado de outros fantasmas de sua espécie, povoando a solidão dos mortos e velando o seu sono tranquilo e eterno. A princípio pareceu-me um pouco baixo, mas nessa noite em que a lua cheia refletiu seu vulto trágico por sobre o campo pude capacitar-me de que era o cipreste que me convinha, e passei a amá-lo perdidamente. Hoje somos um só corpo e uma só alma, e passo horas recostado ao seu tronco amigo como um filho nos braços de sua mãe verdadeira, o olhar perdido na imensidão do campo e o coração pulsando suave e sem remorsos.
Aliás, foi para filosofar, mais do que tudo, que eu adquiri este cipreste solitário e perdido no campo, aos pés dessa cidade que não é a minha e que um dia terei que abandonar repentinamente, como tenho abandonado a tudo e a todos, antes que me abandonem. À falta de um pórtico grego ou romano, no puro estilo da Acrópole, a sombra de um cipreste sempre me pareceu o lugar ideal para divagações profundas sobre o eterno e o efêmero no destino humano, sobretudo quando se é solitário por natureza como eu sou e não se tem necessidade de espaço maior para cantar em surdina sua milenar angústia. Cipreste lembra morte — isto é, o inelutável, a única certeza que salta aos olhos até dos mais tolos e inocentes — e que melhor conselheiro e guia para os nossos pensamentos de grandeza mas sem grandeza, e nossos temores e angústias construídos de fumaça e que por isso mesmo nos intoxicam e nos turvam a visão?
Isto mesmo que estou escrevendo, está sendo escrito à luz do crepúsculo, nesta réstia de terra que é minha propriedade como o é o próprio cipreste que a cobre como consta, aliás, da escritura de venda que me passou o comerciante Nicanor, estabelecido com secos e molhados no cais do porto. Esta noite a louca sob os meus pés uivou muito e impediu-me de conciliar o sono, embora não fosse lua cheia, mas eu não pude vir porque chovia muito e a chuva molha a alma mais do que o corpo. Agora, porém, na paz deste campo ainda úmido e cheirando a cemitério, eu e o meu cipreste voltamos a unir-nos numa união perfeita e total, como se eu fora a sua sombra ou simplesmente a sua alma visível e taciturna. O vento é o nosso intérprete, o vento que vem do mar distante e agita os meus cabelos de eterno viúvo e os seus ramos em eterna prece, voltados para o infinito.
Um chinês bêbado é muito difícil de distinguir-se de um chinês sóbrio. Ambos têm os olhos fechados, embora abertos, e sorriem tranquilamente para o nada, como é do seu hábito. Há instantes em que eu me sinto um chinês perfeito — Chiang O’Lyi, por sinal — e me ponho a rememorar todos os meus antepassados milenários, com rabicho e bigodes em forma de antena, captando o mistério que vem dos subterrâneos do mundo. Cada dia, aliás, eu pertenço a uma raça diferente, negra, amarela, roxa ou simplesmente furta-cor, e já me tem acontecido despertar sob a pele de uma raça ainda inexistente e de que só darão notícia os etnólogos dentro de mil anos, se até lá chegar a raça humana. Sob a máscara unicápita que reflete o meu espelho jazem os milhões de rostos que formam o meu homo multiplex, e é em vão que tento iludir-me a mim mesmo quando me faço a barba, como se fora um ser único e cotidiano. O próprio Cristo, que se dizia unigênito, era em verdade tríplice e muito mais do que tríplice, tanto que o desconheciam os seus próprios irmãos e os desconhecia ele por sua vez numa humanidade que abrangia toda a humanidade, sem distinção de tempo ou espaço. Eu e meu irmão somos apenas uma partícula ínfima do meu todo onímodo e universal, que de fato compreende toda uma multidão incalculável, e é com pasmo que nos vejo a todos sentados sobre este metro quadrado de terra e de sombra, sem que sequer nos esmaguemos com nossos mil braços e pernas, quando porventura levamos a mão aos olhos para chorar um pouco.
Se você chama um avestruz de pássaro, está implicitamente fazendo-lhe o maior dos elogios, e ele ficará eternamente grato por isso. (E, para ser sincero, não é mais justo que se chame de pássaro ao avestruz, em vez do gavião ou da águia, que envergonham a espécie e mereceriam antes ser humanos?). Mas o avestruz a que você chamasse de pássaro estaria, por sua vez, implicitamente obrigado a proceder como tal, nem que isso lhe custasse todos os riscos de vida e a própria vida — como sei de um que, para provar sua condição de pássaro, se atirou do alto de um penhasco e foi morrer lá em baixo espatifado, sem tempo sequer para um gemido. Morreu como um pássaro, esta é que é a verdade, e como pássaro foi enterrado.
Quanto a mim, apetecer-me-ia ser chamado de santo, ou, melhor ainda, de fantasma, para ser obrigado a agir como tal, com esta força de convicção que emprego em tudo quanto faço, quando faço. Santo ainda seria um pouco difícil mas como fantasma eu me sentiria inteiramente à vontade, tanto me sinto fantasma em meus momentos de devaneio e me sinto deslocado em meio aos homens movidos a intestinos e testículos. Por vezes me sinto tão fantasma — em meio à noite, sobretudo que chego a erguer-me do solo, por um espaço de tempo que varia entre cinco a dez segundos, num puro fenômeno de levitação — o que me custa, é bem verdade, uma terrível dor nos rins e uma copiosa exsudação, logo refletidas numa dor de cabeça insuportável, que por pouco não me leva ao desespero. Bastaria, porém, (disso estou convicto) que alguém me tomasse sinceramente por um fantasma e me chamasse por esse belo nome, os cabelos eriçados de pavor como acontece no cinema — para que eu, sem o menor esforço, não só me pusesse a flutuar no espaço como ainda começasse a atravessar portas e paredes, com o ar mais displicente deste mundo. A confiança que os outros têm em nós é mais importante do que a que nós mesmos temos, e disso dou testemunho exatamente pela minha vocação frustrada de fantasma, à qual faltou apenas alguém que acreditasse cegamente em mim e me transmitisse essa crença inabalável.
Mas já se faz noite, ou quase, a esta altura de minhas lucubrações metapsíquicas, e eu não trouxe vela nem lanterna para iluminar meu caderno de notas e meu lápis de ponta vermelha, como deveria ter feito e cuidarei de fazer para o futuro.
Adeus, pois, cipreste amigo, por hoje pelo menos — e ficarei na expect..........................................

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

02/03/2023

Cosmogonia | J

San Juan de Ia Sierra (12 de maio) — Puxa, como passa depressa o tempo, e a gente dentro dele!

O peripatetismo, doutrina que abracei não só por causa do peri como sobretudo do patetismo, fez-me circular nestes últimos tempos pelas ruas as mais diversas e pelos caminhos mais ínvios, sempre acompanhado da minha sombra e do meu irmão dentro de mim, e tendo por única bússola a flor do meu umbigo, pobre mas exata. Esquecia-me do meu relógio, é verdade, mais meu do que nunca, e no qual eu vejo passar os segundos como poderia, se quisesse, ver passar os dias e os anos, desde que dispusesse de uma cadeira para sentar e de uma caderneta em que fosse anotando a evolução do tempo.
Devo adiantar, aliás, que o meu peripatetismo nada tem a ver com o Aristóteles grego ou com qualquer outro Aristóteles vivo ou morto que porventura tenha chegado ao meu conhecimento; sou orgulhoso demais para seguir a doutrina de quem quer que seja, e, se eu tivesse que seguir alguma doutrina algum dia, seria certamente uma doutrina criada inteiramente à minha imagem e semelhança, e que não admitiria mestres como tampouco admitiria discípulos, a não ser eu mesmo em meus diversos momentos históricos. Fiz-me peripatético porque a palavra se ajusta como uma luva ao meu temperamento proteico e sonambúlico — da mesma forma como me considero funâmbulo, clown, sacripanta, autóctone e outras palavras igualmente belas, cujo único defeito é o de figurarem nos dicionários. E para preservar minha própria autonomia, minha plena liberdade de espírito dentro da frágil carcaça do meu esqueleto, faço questão de ignorar até o meu próprio nome de batismo — pois em verdade nunca fui batizado, nem o serei jamais — chamando-me pelo primeiro nome que me ocorra à cabeça e sempre da forma a mais estapafúrdia possível, com espanto inclusive para mim mesmo. (Estapafúrdia, aliás, não é bem o termo, pois, sendo como sou uma legião de criaturas, como o louco do Evangelho, qualquer nome que eu me dê será sempre um nome adequado a um dos mil espectros que compõem o meu EU fabuloso — ou, para ser mais modesto, o meu pobre universo.)
Mas vamos aos fatos:
1 — Vítima de insidiosa moléstia, que os mais abalizados médicos do bairro não souberam identificar qual fosse (o atestado de óbito trazia apenas um muito bem desenhado (como deveria ocorrer aliás com todos os atestados de óbito honestos) padre Balbino morreu tranquilamente nos meus braços, não sem antes ter tentado confessar-se várias vezes, em seus momentos de maior aflição e arrependimento, sem que o permitisse porém minha vigilante filosofia. Ao morrer, aliás, padre Balbino já não era mais padre Balbino, mas apenas o modesto professor de latim Pelópidas Regina Coeli, em trânsito para Saragoça, e que aceitava aulas particulares para grupos de cinco a dez alunos, à razão de 150 florins por cabeça. Não chegou a aceitá-las, porém, por muito tempo, já que os desígnios da Providência, contra os quais nada pode a humana valia, decidiram convocá-lo para lecionar gratuitamente seu latim em plenos Campos Elísios, em proveito das almas recém-desencarnadas que necessitassem urgentemente aprender a língua oficial da Eternidade.
II — Privado do meu melhor amigo, vendi-lhe as preciosas relíquias a um judeu que antes já lhe havia comprado a batina e um par de sapatos imprestáveis — e apropriei-me, como de direito, dos 25 mil rublos que ele trazia sempre guardados dentro de um cofre e que tive a agradável surpresa de constatar que não eram 25 mil e sim 120 mil. Com esse dinheiro, dos mais honestos que tenho ganho até aqui, mudei-me para um hotel de melhor qualidade — o antigo chamava-se Hotel dos Aflitos, e de fato o era — onde me registrei com um nome tcheco-eslovaco que já nem sei mais como se escreve e que, por seu comprimento, me fez imediatamente respeitado de todos os meus vizinhos de mesa e sobretudo dos garçons e do maître-d’hotel, que me julgaram um príncipe europeu disfarçado de astro do cinema americano, ou vice-versa. Graças a esse nome quilométrico consegui, em pouco tempo, dormir (não dormindo) com uma dama da alta sociedade de Castelnuovo de Vilarino, condado de Brescia, que se achava hospedada no mesmo hotel em companhia do fóssil do seu marido (102 anos) e que uma noite errou de porta e veio cair justamente em cima da minha cama, assustando-me relativamente. Não sendo propriamente uma mulher bela — muito pelo contrário, dados os seus 75 anos bem vividos — acabei enamorando-me do seu charme de ex-mulher fatal e sobretudo de uma inconfundível distinção que se irradiava de todo o seu porte de alta dama, mesmo das partes menos nobres e ditas inconfessáveis.
III — Transferindo-me para Castelnuovo etc., a convite e em companhia da minha veneranda admiradora e do seu venerandíssimo marido, ali fui desde logo acolhido pela melhor sociedade do país, sempre com o meu nome quase impronunciável e esse ar de mistério que me descubro no fundo do espelho e que talvez seja mais do meu irmão do que meu. Falando o italiano divinamente, e escrevendo-o melhor ainda, acabei — por simples diletantismo, embora regiamente pago — por assinar, com o pseudônimo de Volpone, a coluna social do jornal mais importante da cidade, o qual teve em consequência sua tiragem decuplicada em menos de uma semana. Frequentador obrigatório dos salões mais aristocráticos e mais blasés, onde quem ostentava menos títulos ostentava no mínimo uma dúzia deles, tornei-me em pouco tempo, graças ao meu arquivo secreto e ao meu serviço de cartas anônimas executado em larga escala, um dos sujeitos mais bem informados (e, por isso mesmo, mais temidos) em todo o hemisfério ocidental, com consequentes vantagens monetárias, nobiliárquicas, políticas, etc., etc. Nenhuma mulher era suficientemente honesta ou elegante a menos que eu expressamente o declarasse em minha coluna de alto custo, redigida em puro argot aristocrático, ininteligível quase aos pobres leitores comuns que se abalançassem a ler-me pelo simples fato de terem comprado o jornal; e nenhum cavalheiro, fosse ele príncipe ou simples fabricante de doces em conserva, poderia ser considerado um gentleman e usar honestamente este título, a menos que eu expressamente assim o chamasse, duas, três, quatro vezes seguidas, sobretudo ao lado de seu retraio de casaca e gravata borboleta, os olhos opacos voltados para a objetiva.
Uma bela noite, porém, após ter passado toda a tarde em companhia de minha vetusta e ardente protetora, e como me houvesse excedido um pouco em minhas doses habituais de whisky e de champagne, deu-se o imprevisto e o inevitável: em pleno salão de Mme. Martínez y Viola, descendente direta da papisa Joana, quando declamava uns versos fesceninos e grandiloquentes o laureado poeta Silvano dal Monte, eu não me contive e bradei com todas as forças do meus pulmões algumas duras verdades que, mais cedo ou mais tarde, teria mesmo que lançar no rosto de toda aquela gente reunida em torno de mim e vivendo à custa de meus elogios diários ou hebdomadários. Algo assim neste estilo, se não me falha a memória: — “Nem parece que todos vós tendes intestinos e, na ponta desses intestinos, um lamentável eu, exatamente igual ao que têm vosso açougueiro, vosso chofer, vosso camareiro, vossos cachorros e vossos cavalos de raça. Vosso eu é a melhor arma que tendes para afugentar os maus pensamentos, que são aqueles que os afastam da simplicidade humana e da humana aceitação da vida — e é para o vosso eu que vos conclamo olheis diante do espelho, se preciso de joelhos e com uma vela na mão para enxergar melhor, toda vez que vos sentirdes possuídos de um orgulho oceânico e vos julgardes tão poderosos quanto vosso Deus, que pelo menos (que eu saiba) não tinha nenhum eu à vista.”
IV — Escorraçado da mais alta sociedade como elemento pernicioso e indesejável, e com ordem para abandonar o país emanada do próprio chefe de polícia — que, no entanto, devia ter seu próprio eu, tanto quanto os outros — comprei uma bicicleta e transpus a fronteira da Venezuela em menos de cinco horas, tendo como única bagagem meus milhões de liras honestamente ganhos no jornalismo e um velho papagaio poliglota, que fora o único a aceitar sem protesto minha veemente filosofia anorretal, de origem visivelmente freudiana. Em Caracas fiz-me fabricante de esquifes de luxo, com larga exportação para todos os países da América Latina, depois me envolvi numa complicada história de petróleo com os norte-americanos, que por pouco não me custou a vida e a miséria, e finalmente deixei-me cair de amores por uma porto-riquenha muito linda e muito pura, de nome Alzira, e em cujo ventre plantei a semente de uma frondosa árvore humana, de que certamente ainda terei notícia algum dia.
V — A minha velha dor de cabeça acompanhando-me em todos os passos, e sobretudo quando me ponho a caminhar deitado, com o auxílio da imaginação. Dir-se-ia que trago um feto dentro do cérebro, algo que eu deveria ter posto no mundo há muito tempo e cujo cadáver envenena-me as paredes do crânio e ameaça-me sair um dia pelas narinas e pelos ouvidos, como a lava de um vulcão.
VI — Morte inglória do meu papagaio. Suas últimas palavras: — Et, ubicumque fueris, extraneus es et peregrinas.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

17/02/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

I

Não sou quadro para viver preso numa moldura e dependurado na parede. E que são as fronteiras de uma cidade, eu pergunto, senão os limites estreitos de uma moldura mais ou menos de luxo, na qual pretendem sufocar a imensidão de minha alma imortal, como diria um grande poeta ou qualquer seminarista, em tarde de primavera?
Os grandes perfumes cabem nos pequenos frascos, não resta a menor dúvida, mas aí a história já é completamente diferente: é como um morto que cabe todo num pequeno caixão de apenas dois metros de comprido, embora a morte seja a coisa mais importante que possa acontecer neste mundo e o seu mistério não tenha limites. Arcanos, arcanos!... — como dizia um tio metafísico, que morreu de câncer.
Mas, voltando ao que interessa, foi levado por meu espírito de globe-trotter ou de pulga que esta manhã pedi carona a um enorme caminhão de carga que ia saindo da cidade e que me levou em pouco tempo para uma estrada muito ampla e muito limpa, cercada de espessa mata por ambos os lados.
Por uma dessas estranhas coincidências que só a mim me acontecem, logo no começo da estrada o caminhão parou e o motorista fez subir para o meu lado (esquecia-me de dizer que eu estava confortavelmente instalado sobre pacotes e mais pacotes de papel higiênico, de marca por sinal não muito conhecida) justamente um dos padres que ajudaram a prender-me por ocasião do meu êxtase nudista na Igreja de Santa Úrsula: — um sujeitinho baixo, mirrado, de olhos ariscos e traiçoeiros, e que, ao reconhecer-me, logo se pôs envergonhadíssimo e não sabia se se atirava do caminhão ou não, e acabou cumprimentando-me duas vezes seguidas e se deitando de comprido sobre os pacotes de Fina Flor. Meu primeiro impulso foi de esganá-lo e de atirá-lo à estrada, mas depois fiquei com receio de amarrotar minha roupa nova, (comprada num belchior com o dinheiro do meu irmão afogado) e me pus calmamente a mascar chiclete, com um sorriso de escárnio no canto direito da boca.
Com o tempo fui percebendo que o meu companheiro de viagem — que subira com mala e tudo, como se estivesse a pegar um comboio de estrada de ferro procurava esquivar-se não só da minha vista como de quaisquer outras vistas possíveis num raio de duzentos quilômetros, metendo-se entre os fardos de papel higiênico e pondo mesmo alguns deles sobre o corpo, como se cumprisse um rito cabalístico. Passei a fitá-lo então com maior interesse, mesmo porque podia tratar-se de algum espião a serviço do Vaticano, incumbido de eliminar-me da face da terra na primeira oportunidade, se necessário com sacrifício do caminhão e de todos os seus ocupantes.
Na primeira parada, quando o padrezinho desceu para urinar num botequim da estrada, segui-o de perto, entrei com ele no pequeno compartimento infecto onde se aliviavam os viajantes, e, enquanto ele urinava, eu do meu canto urinava também mas sem tirar-lhe os olhos de cima, a ponto de deixá-lo visivelmente encabulado. O homem tremia como vara verde, que tem fama de tremer muito, quando pouco depois nos esbarramos por acaso na porta de saída e eu por acaso lhe desferi um violento soco à altura do ouvido, que o fez beijar o chão em atitude de profunda humildade. Ajudei-o a levantar-se, sempre com o chiclete e o escárnio no canto da boca, e, sem lhe dar tempo para quaisquer perguntas, convidei-o gentilmente a tomar uma garrafa de vinho no balcão, já que não dispúnhamos de muito tempo para sentar-nos. Mas o chofer e o seu ajudante, a essa altura, já se dispunham a partir de novo, e a solução foi levar duas garrafas de vinho para cima do caminhão, para irmos bebendo devagar durante a viagem, sob o céu primaveril e o canto dos pássaros.
E foi assim que, bebendo e fazendo o outro beber à força, eu fiquei sabendo que ele de fato estava um tanto ou quanto apavorado, não só por causa do nosso encontro casual na estrada como, e principalmente, por causa de um marido ciumento que o ameaçara de morte na véspera e o obrigara a fugir de casa em plena madrugada, sem tempo sequer para avisar o Sr. bispo. Do crime que lhe imputava o dito marido ele se dizia absolutamente inocente (simples intriga dos comunistas e anarquistas, como sempre) mas nunca era demais tomar as precauções devidas, pois um marido enganado, quer dizer, desconfiado, é mais temível do que todas as trombetas de Jericó e do que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse juntos, como o prova a história da Igreja através dos tempos, e a história das Cruzadas de um modo particular.
Já meio bêbado, como eu, confessou-me ainda que trazia dentro da mala, a par de algumas relíquias religiosas de pequeno valor, a quantia aproximada de 25 mil rublos, que era tudo quanto lhe fora possível arrecadar dos cofres da sua igreja, na pressa da partida. In vino veritas..., já diziam os antigos, e essa verdade dita assim por um padre no alto de um caminhão, entre os rolos de papel higiênico e sob a ameaça sempre próxima de um marido ultrajado, foi a mais grata das surpresas que me poderiam ocorrer a essa altura dos acontecimentos, pois em verdade eu estava banhado, penteado e trajado decentemente, mas continuava tão pobre quanto antes, se não mais ainda, já que os planos de um sujeito bem vestido são sempre mais astronômicos do que os de um simples mendigo.
Meus restantes quinhentos francos aliados aos 25 mil rublos do reverendo dariam bem (deixem-me fazer as contas) uns cinquenta mil ou sessenta mil pesos argentinos, já descontado o imposto de renda — mais do que o suficiente para dois sujeitos sem escrúpulos, embora honestos, recomeçarem de novo suas vidas em qualquer recanto deste mundo, de preferência em algum país recentemente devastado pela guerra ou assolado por uma epidemia de vastas proporções, já que os terremotos são mais raros e não se pode encomendá-los segundo a conveniência de nossos interesses. E, assim, pensando, tratei logo de beijar na face o pavoroso padre Balbino — este o nome do meu fugitivo — em sinal de perfeita identidade entre o seu destino e o meu daqui por diante, nesse novo mercado de ladrões para o qual nos está conduzindo o caminhão neste instante, e cujo nome tanto pode ser Cartago como Yorkshire, Valparaíso, Havana ou simplesmente San Juan de la Sierra.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

11/02/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

H

Quando acordo de manhã, molhado até o umbigo pelo mar calmo, tenho ao meu lado, deitado em decúbito dorsal, o cadáver de um afogado. Certamente o trouxe o mar para a minha companhia enquanto eu dormia o sono da inocência, pois não me lembro de tê-lo visto pela madrugada, quando me estirei na areia, morto de fadiga, após haver enfrentado a fúria dos soldados armados de baioneta calada.
Os mortos estão começando e me dar sorte — raciocino comigo mesmo, enquanto me aproximo de meu companheiro para examinar-lhe as feições transfiguradas pela água salgada do mar, povoada de peixes e mistérios. É, ao que tudo indica, um homem muito gordo e de seus cinquenta anos, e apesar do frio veste apenas um calção de fustão barato, de cor indefinida. (Algum pescador de pérolas ou um contrabandista foragido da polícia, concluo após um exame minucioso do nariz do sujeito, ainda cheio de sal marinho e de uma gosma que à primeira vista parece manteiga mas que não tem o gosto de manteiga. Quando lhe ausculto o peito, ainda ouço nitidamente o barulho do mar dentro dele, como se fora uma concha.)
A praia — e não o cais, como eu supunha — ainda está deserta a esta hora matutina, e apenas algumas gaivotas voam placidamente sobre as nossas cabeças, contra o céu plúmbeo e ameaçador. Minhas mãos tiritam de frio, e um pouco também de fome, e é com certo desagrado que constato que o meu companheiro ainda é mais pobre do que eu, pois nem sequer lhe resta a vida dentro do corpo — a vida que por certo não vale grande coisa, mas sempre serve para viver.
O calção do homem, no estado em que se encontra, não deverá valer grande coisa, nem sequer dará para uma refeição decente, com café e sobremesa. A solução, portanto, será vender o próprio homem à faculdade de medicina ou a quem quer que se interesse por semelhantes carcaças — fazendo-me passar, para evitar suspeitas, por seu irmão necessitado e abnegado, pronto a servir à ciência e ao bem-estar da humanidade. Será preciso porém, antes, deixar secar o corpo do naufragado, pois não me consta que na faculdade de medicina comprem corpos encharcados a esse ponto, com dois dedos a menos na mão direita e um dos pés atacado de elefantíase, com se se tratasse efetivamente de um aleijado. Enfim, não custará nada tentar, mesmo porque hoje em dia os cadáveres só costumam dar debaixo da terra, e não é comum alguém ir oferecê-los de porta em porta, como quem oferece peixe fresco ou verduras ainda molhadas de orvalho.
Para garantir meu sustento destes próximos dias, trato pois, antes de mais nada, de esconder bem escondido — sob umas obras de madeira, aparentemente abandonadas, a uns dez passos de onde me encontro — o novo membro da minha família, novo e provisório, de que terei que desfazer-me o mais breve possível, se não quiser vê-lo devorado pelos urubus e pelos cães da noite. Arrasto-o cautelosamente, para não vê-lo reduzir-se a postas de carne inúteis, até o canto mais escondido da suposta construção, e ali o ponho a secar como um pedaço de charque destinado a longa viagem, sem perigo de que o venha a alcançar de novo a maré alta, caso eu não volte a tempo.
Feito isto, lavo as mãos na água do mar, urino assobiando de pura felicidade, e subo em direção à rua mais próxima, que certamente há de levar-me a alguém que me dará as informações de que preciso.
Quanto poderá valer um cadáver hoje em dia — já não digo pelo câmbio negro, mas às claras, em plena luz do dia e sem intermediários inescrupulosos? Certamente valerá mais do que um homem vivo, que não está valendo nada, sobretudo se se sabe usar de certa lábia ao vendê-lo e não se aceita imediatamente a primeira oferta, como se se estivesse a morrer de fome. Nunca vendi antes um cadáver, em toda a minha vida, nem mesmo nos piores tempos de guerra, e não tenho base segura para julgar do valor da minha mercadoria, agora que a tenho em mãos e para pronta entrega. É possível que me acabem tapeando, dada a minha inexperiência no assunto, e me ofereçam um preço que não corresponda nem à décima parte do valor exato do artigo, como de praxe ocorre em todos os negócios em que se envolvem interesses pecuniários, seja entre os homens como entre as nações. (Um dia ainda escreverei um livro sobre isso, um livro de quinhentas páginas no mínimo, no qual terei oportunidade de revelar meus grandes conhecimentos de economia política ou de política econômica, adquiridos ao longo de minha vida de cidadão do mundo — ou de cidadão do universo, para ser mais exato.)
Que o meu afogado, mesmo com dois dedos a menos e o começo de elefantíase, deve valer um bom preço, não tenho a menor dúvida, pois trata-se de um exemplar ainda em bom estado de conservação e pesando seus setenta ou oitenta quilos no mínimo. Além do mais, na faculdade de medicina o que vão fazer dele não exige que seja nenhum tipo de beleza nem que esteja com as unhas bem aparadas ou com a barba escanhoada a capricho — sendo, ao contrário, importante apenas que as suas vísceras estejam todas nos seus devidos lugares, como suponho que ainda estejam, e que nenhum parente importuno venha reclamá-lo no instante mesmo da dissecação, com lágrimas nos olhos e um ar arrependido. Cadáveres que não devem valer nada são esses em que o trem passou por cima ou que resultaram de alguma tragédia passional, com muitas facadas pelas costas e pelo ventre, com vísceras à mostra como num balcão de açougue. Ou então esses que, embora perfeitos na aparência, são por dentro um amontoado de ossos e órgãos sem a menor ordem ou simetria — o fígado no lugar do rim, o estômago no lugar do fígado, o coração à altura dos testículos e vice-versa — por terem os seus donos se atirado de grande altura ou simplesmente caído num precipício, sem auxílio de paraquedas ou com a intenção visível de morrer. Em que adiantará a um estudante de medicina abrir um desses corpos tão bem conservados por fora — alguns ainda trazendo até um laço de gravata perfeito ou os sapatos recém-polidos, como dois espelhos — se por dentro eles são como que um verdadeiro saco de gatos ou como que uma casa de orates, os órgãos todos (e o esqueleto primeiro) brigando entre si numa legítima guerra intestina, sem preocupação de trocadilho?
Mas eis que, depois de muito perguntar e caminhar, acabo chegando finalmente diante de um grande portão de ferro onde duas tíbias cruzadas (como nos cemitérios) me fazem ver claramente que outro não é o meu destino — e onde também leio, para dissipar quaisquer dúvidas, o seguinte aviso escrito em latim: Faculdade de Medicina da Universidade Católica de...
Ao porteiro vesgo que está na entrada anuncio candidamente o objetivo da minha visita, e o homem, nem bem me ouve, sai imediatamente em disparada rumo aos fundos do velho edifício, não sem antes pedir-me pelo amor de Deus que não me afaste um passo sequer de onde me encontrava. (Deve ter-me tomado pelo próprio presidente da República, sem dúvida, ou então por alguma outra personagem ainda mais importante, a julgar pelo afobamento com que desapareceu da minha vista, sem ao menos esperar que eu acabasse minha comovente história.) Um segundo depois, se tanto, ei-lo porém que reaparece, tão esbaforido quanto antes, ao lado de um cavalheiro que anda a passos largos na minha direção e que, por seus gestos largos e atitudes de louco, por pouco não me faz fugir em disparada pela rua fora, sob risco de que me tomem por um ladrão. É o diretor do estabelecimento, como fico sabendo logo em seguida, e que, com requintes de gentileza, me convida a entrar imediatamente numa espécie de sala fria e cheirando a necrotério, onde uma vez sentados, passamos desde logo ao seguinte diálogo:
Eu — O Sr. não quer comprar um cadáver?
O Diretor — Um cadáver?! Onde está?
Eu — Está enxugando; mas eu trago logo.
O Diretor — E de quem é o cadáver?
Eu — É meu, ora essa. Ou antes, é do meu irmão que morreu afogado esta manhã, quando pescava lagosta na entrada da barra. (Voz lacrimosa).
O Diretor — Meus pêsames. E quanto é que o Sr. quer pelo seu irmão?
Eu — O Sr. não quer vê-lo primeiro?
O Diretor — (Impaciente) Não precisa. Ele não está em bom estado de conservação?
Eu — Excelente. Apenas faltam dois dedos da mão e, se não me engano, um pedaço do pé esquerdo ou direito.
O Diretor — Ótimo! Quer dizer, lamento profundamente, mas serve assim mesmo.
Eu — (De repente) Cinco mil francos, está bem?
O Diretor — É muito. Um irmão, depois de morto, não vale tanto. Se ainda fosse um pai...
Eu — Está bem, faço um abatimento. Três mil e quinhentos francos, nem um franco a menos. (Voz lacrimosa, novamente).
O Diretor — Está fechado o negócio! O Sr. tem o atestado de óbito?
Eu — Não é preciso; o homem está morto mesmo.
O Diretor — Não é isso. É a polícia, o Sr. compreende...
Eu — Mande às favas a polícia! Eu tenho pressa de fechar o negócio e não posso estar perdendo tempo com essas bobagens.
O Diretor — Está bem. Não precisa zangar-se por tão pouco, que diabo! Onde está o cadáver?
Eu — Passe os cobres primeiro.
E assim, em menos de dez minutos, muito menos tempo do que eu esperava, eis-me de posse do dinheiro e o homem de posse do meu irmão, sem necessidade de estampilhas nem de outras formalidades de qualquer espécie, como deveriam ser realizados todos os negócios neste mundo, se houvesse seriedade de parte a parte. Já na rua, sentado no rabecão ao lado do motorista que é o mesmo porteiro que me atendera pouco antes, ponho-me a contar cuidadosamente as notas de cem francos que me foram entregues em confiança e que me permitirão, louvado seja Deus, sair um pouco desta negra miséria em que me encontro desde que me roubaram vergonhosamente na delegacia de polícia.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

05/02/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

G

O melhor lugar para se comer, quando não se tem onde comer, ainda é um bom velório — em casa de família modesta e decente.
Esta filosofia da fome levou-me ontem à noite, debaixo de chuva e tudo, a procurar pela cidade, de bairro em bairro, uma porta aberta por onde pudesse divisar algum defunto sobre uma mesa, já que todos os restaurantes me batiam com a porta na cara e os dois ou três transeuntes a quem pedi uma esmola nem sequer se dignaram a fitar-me no fundo dos olhos.
Depois de muito perambular, com o estômago às costas para pesar-me menos, acabei descobrindo um velório mais ou menos no estilo do que eu desejava, num canto de uma rua escura e sem bondes, onde as casas eram todas iguais e não traziam sequer um número para identificá-las. Se eu tivesse procurado, talvez houvesse encontrado mais adiante algo melhor e mais convidativo, mas confesso que a essa altura minhas pernas já não me aguentavam mais e tive que contentar-me com o que tinha pela frente.
Era uma casa modesta, sem nenhum quadro na parede — a não ser um espelho, que refletia o morto — e na pequena sala havia quando muito umas oito pessoas, sem contar o morto evidentemente. Havia também um cachorro junto à porta, um vira-lata como eu, mas penso que não fazia parte da família, pois nem sequer se aventurava a entrar dentro da casa, como eu fiz com o ar mais respeitoso deste mundo. Coloquei-me de início junto a um canto mais escuro, para estudar a situação, e depois, vendo quem é que chorava mais e tinha o ar mais compungido, aproximei-me e apresentei os pêsames, com uma ligeira entonação de luto na voz. Logo em seguida, e como mandam as boas maneiras, cheguei até a beira do caixão, levantei o pequeno lenço que encobria a cara do defunto, e dei com um sujeito de má catadura mas de fisionomia serena, que nunca antes havia visto em minha vida. À primeira vista pareceu-me um funcionário público aposentado, mas depois, observando melhor, cheguei à conclusão de que devia tratar-se de algum domador de circo, pela cicatriz bem visível que trazia numa das faces e que me lembrou um domador que eu conhecera, havia muitos anos, num subúrbio de Ankara.
Feitas as apresentações, e como o estômago já começasse a roncar-me mais forte do que um motor de cem cavalos, voltei discretamente ao meu canto e pus-me a aguardar a marcha dos acontecimentos, sentindo (talvez fosse apenas uma ilusão do olfato) um cheiro de café que vinha dos fundos da casa, na direção dos pés do morto.
Os circunstantes eram todos pessoas muitos distintas, embora vestidos pobremente e com o ar visivelmente cansado, e logo entabulei conversação, em voz baixa, com um senhor que se achava à minha direita e que fumava um charuto de péssima qualidade, a julgar pela fumaça que me jogava na cara e que por pouco não me obrigou a vomitar sobre o caixão e sobre algumas senhoras presentes, que pareciam dormir sobre a barriga do morto. Se não vomitei é que não havia mesmo o que vomitar, como pude concluir daí a um segundo, quando o referido senhor voltou a falar-me a menos de um palmo do meu nariz, envolvendo-me numa espessa cortina de fumo, como se estivéssemos num campo de batalha.
Sob pretexto de ir urinar, deixei meu enfumaçado interlocutor e dirigi-me na ponta dos pés para o fundo da casa, onde de fato havia uma cozinha e, na cozinha, um casal de namorados se bolinando e uma criança dormindo num berço a um canto. A moça fingia que fazia o café, ou talvez mesmo fizesse, mas o rapaz sem a menor cerimônia lhe passava as mãos pelos seios e pelas nádegas, apertando-a ainda de encontro ao sexo, numa espécie de cópula fictícia; ao me verem ficaram um pouco encabulados, mas logo se recompuseram e me ofereceram gentilmente uma xícara de café, com a condição de que eu esperasse que o mesmo fosse feito. Sempre detestei interromper a cópula dos outros, mesmo quando fictícia, e só mesmo para corresponder à gentileza dos dois foi que acedi em aceitar o café, indo para junto do pequeno berço para despistar. A pequena era uma garota de seus quinze anos, se tanto, mas de seios potentíssimos, e o rapaz em estado de ereção me pareceu apenas mais velho do que ela, ainda imberbe e com um enorme furúnculo à altura do ouvido. Eu mesmo, que não sou muito sensual, senti-me imediatamente ereto diante daquela cena de imprevista libidinagem junto ao cheiro do café e do morto, e não perdi vaza para lançar à menina o meu olhar mais luxurioso, que ela parece ter compreendido instantaneamente.
Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que o morto era nada menos do que o pai legítimo da jovem bolinada, e que o rapaz furunculoso era seu primo e por conseguinte sobrinho direto do dono da casa, o que em parte justificava o afã com que os dois se entregavam à liberdade dos seus instintos, agora que não tinha mais quem os vigiasse por detrás das portas. Quanto à criança, que me pareceu um tanto ou quanto japonesa, nada tinha a ver com a história, estando ali como Pilatos no Credo, com eu mesmo ali estava sentado no meu canto e à espera do café.
Pronto o café, pedi delicadamente um pedaço de pão e o devorei quase que de uma só dentada, embora procurando disfarçar minha fome de três dias, e aceitei como sobremesa três bananas e quatro laranjas que a jovem órfã me ofereceu, sempre com o seu par de seios apontando em ar de desafio. Ainda ereto, pedi um copo d’água para ajustar a digestão e me levantei cheio de dignidade, palitando os dentes com um palito de fósforo que encontrei sobre a mesa e que me pareceu relativamente limpo; depois tomei o rumo da sala de visitas, com as mãos nos bolsos, dando a entender que não voltaria ali tão cedo e que eles poderiam continuar bolinando-se à vontade, desde que o japonesinho o permitisse.
Nem bem passaram uns quinze minutos, e um barulho infernal de buzinas e foguetes subiu de todo o bairro circundante e entrou pela porta aberta, chegando até os ouvidos do morto, que todavia manteve sua atitude impassível e absolutamente compenetrada. Como eu me mostrasse surpreso, quase tanto quanto o cachorro que agora se achava dentro da sala e se pusera a latir, um sujeito de óculos e que até então me passara despercebido explicou-me que estávamos entrando no Ano Novo (menos o morto, evidentemente) e que não se tratava, por conseguinte, de nenhuma nova revolução, embora o barulho fosse exatamente o mesmo. Arranquei do bolso meu relógio, que fez grande efeito entre os presentes, e verifiquei que realmente era meia-noite em ponto, nem um minuto a mais nem a menos, o que veio demonstrar que o meu enforcado era um sujeito metódico e geralmente bem informado, e que a pontualidade para ele era uma questão muito séria, pela qual teria que pautar todos os seus atos.
Após chorar um pouco mais, para não dar na vista, despedi-me da viúva e de um sujeito que me pareceu ser seu amante, e ganhei discretamente a porta da rua, por onde justamente nesse instante ia passando um bloco carnavalesco de pretos e mulatos, vestidos a caráter e entoando aos berros um sucesso para o próximo carnaval, que me pareceu de melodia muito fácil e agradável.
O bloco levou-me, aos gritos, até o centro da cidade, onde alguns soldados, de arma embalada, mantinham a ordem e faziam ver aos mais exaltados que o Ano Novo era exatamente igual ao Ano Velho, apesar das buzinas, dos sinos e dos foguetes pirotécnicos, e espancavam sem a menos cerimônia a torto e a direito, como se essa fosse a sua função estrita dentro do mundo. (Vi cair um velho fantasiado de palhaço, com um enorme rombo no meio da testa, bem como assisti a um golpe de baioneta que levou bem no meio das nádegas uma matrona sem compostura, que só por estar vestida de Maria Antonieta se julgara com força suficiente para invectivar o governo e xingar dos piores nomes Sua Excelência o presidente da República.)
Como não tinha nada a ver com a história, e mesmo porque o 1.° de janeiro sempre me pareceu apenas o dia seguinte ao 31 de dezembro, tratei de pôr-me a salvo o quanto antes, numa rua que se abriu exatamente à minha frente e que, como pude verificar depois, ia dar justamente à beira de um cais deserto, que eu nunca vira antes em nenhuma tela de cinema e nem mesmo no meu manual de geografia, em geral tão bem informado.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

01/02/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

D

Sentado à mesa de um bar, como é do meu hábito. Diante de mim um copo de cerveja, loiro e cheio de dignidade. No muro em frente um filósofo escreveu, em grandes letras, a palavra suprema: MERDA, que vibra ao sol da manhã como um grande sino convocando os infiéis a um sabbat sem precedentes, com baionetas caladas em vez de vassouras e o bode preto substituído pela face mansa e apostólica de um buda de marfim.
Estou mais lúcido do que uma nota tocada ao piano, e meus dedos são dez antenas voltadas para os dez mandamentos da lei antimosaica e que um dia dominarão o mundo, no verdadeiro dia do Juízo Final. Estou mais bíblico do que são João em Patmos, e o meu silêncio é uma harpa eólia que o vento da manhã só torna audível aos que sintam comigo a gravidade da hora presente, banhada de sangue inocente e do pranto das viúvas e dos órfãos.
A um passo de minha sombra, o rio dos transeuntes subindo e descendo a rua ardente, rumo ao sul, rumo ao norte, desorientados apesar do guarda de trânsito que na esquina lhes aponta o bom caminho, servindo-se para isso de um cassetete. Um cavalo cego, puxado por um velho de barbas proféticas, estaca por um instante diante dos meus dedos transformados em signos do zodíaco, mas o velho lhe dá com o chicote no meio da testa e ele se esquece de sua nobre condição de cavalo, seguindo o outro com o andar quase marcial que lhe impõem as pedras da rua. Seria tão mais fácil cair morto sobre as botinas do seu dono e algoz, aos olhos estupefatos dos sobreviventes da última mas não derradeira revolução, em vez de...
A cerveja sabe-me a urina de defunto, mas não sou suficientemente rico para jogá-la à cara do garçom e pedir em troca uma garrafa de champanha, com rolha e tudo, embora tenha vendido a um camelo de esquina meu fuzil-metralhadora com apenas uma cápsula deflagrada. Em tempos normais eu teria enriquecido facilmente, com um argumento tão bom como é e sempre foi um fuzil-metralhadora a tiracolo, mas o dia de hoje é claro e quase pacífico, e nem sequer é carnaval para eu andar vestido de anarquista feroz pelas ruas policiadas e dedetizadas de uma metrópole, muito embora...
Devo ter meus cinquenta anos, a julgar pela carne flácida que sinto quando passo as mãos pelo rosto e em volta do pescoço, num gesto muito meu e que também foi de meu pai. (Aliás, copio meu pai em muitos gestos e atitudes impensadas, e até mesmo na entonação da minha voz, como penso ocorrer com a maioria dos filhos legítimos e ilegítimos, inclusive entre os ratos e os gafanhotos.) Mas a minha idade não tem muita importância, contanto que eu não me olhe ao espelho, e o que vale é esta juventude perene e esse contínuo assombro em que me vejo diante das coisas do mundo, sobretudo das coisas invisíveis e mais certas, como Deus por exemplo e seu partenaire, o diabo. Com cinquenta ou cem anos sinto-me mais jovem do que uma criança recém-nascida, e disso dão prova minha gargalhada fácil e meus dedos ágeis sobre a mesa, mais ágeis do que as formigas de Maeterlinck. Só me sentirei velho depois de morto, e assim mesmo por causa dos vermes e das mãos atadas por sobre o ventre, esse mesmo ventre já não me pertencerá mais e sim ao diabo, ao qual vendi minha alma antes dos vinte anos. (De passagem: conheço velhos que têm apenas doze anos no registro civil e que se envergonhariam se vissem minha juventude cinquentenária e cheia de blasfêmias, eles que nunca blasfemaram em sua vida, nem mesmo em sonho.)
O garçom tem cara de mentecapto, mas isto não me afeta grande coisa, como de resto não me afeta nada de nada neste mundo, e espero também no outro. Cara de mentecapto tem todo mundo, com perdão da palavra, sobretudo se se está apaixonado ou simplesmente faminto, como é o meu caso nesta manhã azul. O homem é por natureza mentecapto, como o é o galo e mais precisamente ainda o zangão diante da abelha-rainha, e o que o faz assim é principalmente o seu poderoso sexo, com cabelo e tudo. Enquanto a fêmea for fêmea e o macho for macho, a inteligência do homem será apenas uma figura de retórica, e a sua imagem no espelho será isto que estou vendo na cara do garçom, por mais penoso que me seja dizê-lo. Resta o recurso do suicídio, se é que isso seja realmente uma solução.
Preciso escrever uma infinidade de livros para desintoxicar-me, e as minhas espinhas são os livros que não escrevi até hoje, embora já tenha escrito muitos. A palavra foi dada ao homem para blasfemar contra o seu destino, e a palavra escrita é a verdadeira palavra, como o defunto é o único homem verdadeiro, em sua mudez total. (Mudez ou nudez, leiam como quiserem).
O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio — exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda n.° 1, Merda n.° 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a capital de todas as merdas, como de fato eles o são.
Que o otimismo é uma grande coisa não resta a menor dúvida, como o é também a santidade, dentro ou fora da Igreja Católica Apostólica Romana. Só que não é otimista quem quer, ao contrário do que pregam os norte-americanos, como não se é santo pela simples extirpação dos testículos ou pelo desejo acirrado de servir ao próximo, mesmo quando se trate de nosso maior inimigo. Ou se nasce inocente ou não se nasce, e a inocência, que rima com inconsciência, é a chave de todo o segredo do santo como do otimista, e nem toda a riqueza do mundo é capaz de pagar o seu preço. Se não consigo ser otimista é porque igualmente não consigo ser menos calvo do que sou, ou menos baixo de estatura, ou ainda menos feio do que pareço diante do espelho. O resto é psicologia de ginásio e receita de milagreiros que nem sequer sabem do que é feita a alma do homem, confundindo-a com o ar dos seus pulmões ou dos seus intestinos, invisível aos raios X.
Se o otimismo se vendesse a peso de ouro, eu o compraria por todo o ouro do mundo e ainda daria de contrapeso o destino de minha alma imortal, já que por muito menos a entreguei um dia ao diabo, que tem fama de bom cobrador. O que me enfeia é justamente este ar de repugnância e tédio que, digam o que quiserem, já trago de nascença e que ficará estampado na face do meu cadáver, como o ficou em Leopardi e em outros cidadãos que nem depois de mortos se traíram. Ao sacerdote que me venha encomendar o corpo peço que respeite ao menos esse ricto de pura náusea que por certo lhe há de causar escândalo, e que os parentes, se os tenho, atribuirão ao lenço amarrado no queixo ou a simples ilusão de óptica, mesmo porque não lhes poderei cuspir no rosto em prova do contrário.
Mas a manhã é azul demais, e eu, sem o meu fuzil, sinto-me impotente diante da beleza do céu e da feiura dos homens que impudicamente se exibem aos meus olhos, sobretudo do guarda armado de cassetete e com ar de soberano pontífice, que dirige o trânsito das almas no meio da rua. E como o lugar do covarde é debaixo da cama, junto do urinol e das baratas, vou procurar um albergue da boa vontade onde me possa deitar no lugar que me compete, enquanto não passe este pessimismo doentio de que me sinto possuído, tal como um xifópago que de repente se dispusesse a meter uma bala na cabeça sem ao menos consultar seu companheiro adormecido.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

17/01/2023

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

F

De novo o ar livre da manhã — só que desta vez não é o sol, é a chuva, com trovões e relâmpagos para completar. (Não deveriam nunca soltar os presos em dias de tempestade, é uma maldade gratuita que não se justifica, como de resto não se justifica nada neste mundo bárbaro.)
O delegado condoeu-se da minha sorte justamente quando eu menos esperava que se condoesse, e aqui estou de novo às voltas com o meu destino, sem cama e sem comida grátis para ajudar, nesta fase de recuperação moral de que tanto estou necessitado. Prenderam-me apenas por 52 horas, pelo meu relógio suíço, e se eu não quisesse descansar certamente me teriam prendido por 52 dias ou por 52 anos, como sei de um velho que até hoje está esquecido numa masmorra da Tunísia por haver roubado um pedaço de pão sem manteiga. Enfim…
Consta que amanhã é o Ano-Bom e que por isso nos soltaram, a mim e a uns dez outros sujeitos menos ferozes, em honra do dia da Fraternidade Universal, que é uma coisa que eu não sabia ainda existir a esta altura dos acontecimentos. Foi o velho Astolfo, que também saiu comigo, quem me pôs a par da novidade, mas pode ser que se trate apenas de um boato e que voltemos a ser presos ainda hoje, para regozijo das beatas e dos pederastas de todo o mundo. Esse velho Astolfo, aliás, não me pareceu muito certo da cabeça, e a primeira coisa que me propôs, ao nos vermos na rua, foi que assaltássemos o cofre da igreja matriz da cidade, que segundo ele está a ponto de arrebentar, com pôde verificar no instante mesmo em que foi preso. Mas eu de igreja quero distância, mesmo que seja apenas para roubar, e preferirei assaltar a própria central de polícia a ter que enfrentar de novo o farisaísmo das falsas devotas e a santa indignação dos ministros de Deus, implacáveis em seus domínios.
Não que eu não precise de dinheiro, evidentemente; preciso e muito. Na delegacia roubaram-me os últimos tostões, não sei a pretexto de que imposto, e só me deixaram mesmo o meu relógio porque me pus a gritar como um desesperado, ameaçando até levar o caso ao conhecimento do presidente da República, se necessário. O delegado ainda quis insinuar que o relógio fora roubado, por lhe parecer esdrúxulo que um sujeito tão pobre como eu pudesse ter um relógio de tão boa qualidade; mas gritei mais forte do que nunca, ameacei céus e terra com o meu potentíssimo timbre de voz, e deixaram-me sair com o meu precioso talismã, não sem alguns conselhos paternais que tratei logo de mandar às favas. Na rua, porém, sob a chuva implacável, de nada me adiantou saber as horas quase que de minuto a minuto, sob os olhares cobiçosos de Astolfo e de outro prisioneiro político cujo nome ignoro e que nos acompanhou pela rua fria e deserta — e eu teria preferido que, em vez de um relógio, o enforcado me houvesse deixado em herança uma bússola, em que eu pudesse descobrir qual o melhor rumo a tomar, neste mundo tão cheio de descaminhos.
Falando quase todas as línguas vivas, e algumas já mortas ou moribundas, sinto-me em verdade incapaz de procurar um trabalho que atenda às minhas necessidades mais imediatas — comer e dormir — sobretudo numa cidade que me é inteiramente desconhecida e onde o cheiro de pólvora ainda paira no ar, em consequência da última intentona pseudobolchevista. Já exerci quase todos os misteres deste mundo, desde o de deputado até o de cáften profissional, mas ainda me falta encontrar aquele que assente como uma luva ao meu temperamento profundamente humano e que talvez ainda esteja por inventar: algo assim como o de um descobridor de terras e de mares que não fosse obrigado a sair da cama, já que o ócio me parece ser a primeira das virtudes teologais.
Meu pai, que era um homem esperto, queria que eu fosse general ou papa, mas fugi de casa muito cedo e aprendi a ser apenas eu mesmo, sem nenhum título permanente — o que, de resto, não considero nenhuma virtude de minha parte, mas simples obrigação. No dia em que não puder ser eu mesmo eu me matarei de vergonha; aliás, nem será preciso que me mate: morrerei simplesmente. Já tentei o suicídio três vezes por esse motivo — mas, no instante mesmo em que me suicidava, compreendia que afinal voltara a ser eu mesmo, e desistia do intento. (Conheci também um sujeito que um dia chegou em casa, olhou a mulher, os filhos, a sogra, os retratos pregados na parede e uma Última ceia pendurada em cima do piano, e de repente compreendeu que nada daquilo lhe pertencia nem poderia pertencer-lhe nunca — e de vergonha se fechou no quarto e se cortou os pulsos com uma gilete usada, sem soltar um gemido sequer e como se cumprisse apenas uma obrigação muito importante. Quando o chamaram para o jantar ele não pôde atender, pois já era um cadáver muito digno e de fisionomia muito serena, não obstante todo o escândalo que essa atitude sua provocou entre os seus, entre os vizinhos e em todo o quarteirão em que morava, e que até hoje comentam o fato como sendo uma coisa inexplicável, só concebível num acesso de loucura ou em face de algum segredo de amor que o morto teria levado para o túmulo.)
Mas a chuva está insidiosa, como dizia um meu tio, e, já que não tenho o que fazer, e o melhor nesses casos é exatamente não fazer nada, ponho-me de cócoras junto a um cinema que está exibindo um filme de Charlie Chaplin e cujo porteiro (de libré) me olha com um ar assustado e desconfiado, como se nunca antes houvesse visto um vagabundo maltrapilho e faminto, com a barba de uma semana na face esquálida e sem esperança.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia