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01/01/2026

Só como processo

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas 

25/07/2024

Verdade ou não?

Quando era garoto, Bertrand Russell sonhou que entre os papéis que havia deixado sobre a mesinha de seu quarto de colégio encontrava um onde se lia: “O que diz do outro lado não é verdade”. Virou o papel e leu: “O que diz do outro lado não é verdade”. Apenas acordou, procurou o papel na mesinha. O papel não estava ali.

Rodericus Bartius, Los que son números y los que no lo son, em O Livro dos Sonhos, de Jorge Luís Borges

23/10/2023

Mentir, pensar

O pior de mentir é que cria falsa verdade. (Não, não é tão óbvio como parece, não é um truísmo: sei que estou dizendo uma coisa e que apenas não sei dizê-la do modo certo, aliás o que me irrita é que tudo tem de ser do modo certo, imposição muito limitadora.) O que é mesmo que eu estava tentando pensar? Talvez isso: se a mentira fosse apenas a negação da verdade, então este seria um dos modos, por negação, de provar a verdade. Mas a pior mentira é mentira criadora. (Não há dúvida: pensar me irrita, pois antes de começar a tentar pensar eu sabia muito bem o que eu sabia.)

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

17/08/2023

Verdade, justiça e benevolência

Contemple regularmente homens de todas as linhagens, ofícios e nações que morreram, até chegar em Filistio, Febo e Origânio. Em seguida, prossiga para outros. Iremos para aquele lugar, para onde foram tantos grandes oradores e nobres filósofos, como Heráclito, Pitágoras e Sócrates; heróis da antiguidade e, posteriormente, generais e tiranos; homens com talentos naturais, como Eudoxo, Hiparco e Arquimedes; grandes mentes e amantes do trabalho, versáteis, confiantes e zombadores até mesmo da vida perecível e efêmera do homem, como Menipo e outros parecidos.
Considere há quanto tempo já são somente poeira. Qual dano isso lhes causou? Qual prejuízo sofreram aqueles cujos nomes são desconhecidos? Há uma única coisa valiosa: transpassar a vida com a verdade, a justiça e uma disposição benevolente inclusive no tocante aos mentirosos e injustos.

Marco Aurélio, in Meditações

16/04/2023

Procuro a verdade

Se algum homem for capaz de me convencer e mostrar que não penso ou ajo corretamente, mudarei de bom grado, pois procuro a verdade, pela qual nenhum homem jamais foi ferido. Fere-se aquele que continua errado e ignorante.

Marco Aurélio, in Meditações

17/09/2022

Mentira, verdade

Na véspera da eleição presidencial nos Estados Unidos, não parece que esta breve observação venha a despropósito. Há tempos, um político português, então com responsabilidades de governo, declarou para quem o quis ouvir que a política é, em primeiro lugar, a arte de não dizer a verdade. O pior foi que depois de tê-lo dito não apareceu, que eu saiba, um só político, desde a esquerda até à direita, que o corrigisse, que não senhor, que a verdade terá de ser o objectivo único e último da política. Pela simples razão que apenas desta maneira poderão salvar-se ambas: a verdade pela política, a política pela verdade.
Dia 4 de novembro de 2008.

José Saramago, in O caderno

24/03/2022

Verdades descobertas

            “Todas as verdades são fáceis de entender uma vez que são descobertas; o objetivo é descobri-las.”

Galileo Galilei, in 1001 frases de grandes pensadores

15/10/2021

A justiça, a verdade, a temperança e a fortaleza

Caso encontre na vida humana algo melhor do que a justiça, a verdade, a temperança e a fortaleza — e do que uma mente satisfeita com aquilo que a possibilita agir racionalmente dentro das condições impostas—, abrace-o com toda sua alma e o aproveite ao máximo.
Caso não se depare com nada supremo em relação à deidade plantada em você — aquela que submete os impulsos a si própria, que examina cuidadosamente as impressões, que se subordina aos deuses, que se preocupa com a humanidade e que, como Sócrates costumava dizer, está livre da persuasão dos sentidos—, não dê lugar a mais nada, pois, se o fizer, perderá a competência de priorizar os bens em sua posse.
É errado rivalizar o aplauso, o poder, o prazer ou similares com aquilo que é racional e politicamente bom. Esses, de repente, elevam-se e nos arrastam — ainda que, em um pequeno grau, possam parecer compatíveis com o que é supremo.
Escolha aquilo que é superior e nada mais.
“Mas o que é útil é superior.”
Caso algo lhe tenha utilidade enquanto ser racional, mantenha-o. Caso lhe seja útil somente enquanto animal, esteja ciente e reconheça sem arrogância. De qualquer jeito, tenha cautela e investigue-o por meio de um método confiável.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

29/09/2021

A morte da verdade – Notas sobre a mentira da era Trump (Introdução)

A morte da verdade (1814), de Francisco Goya

Dois dos regimes mais abomináveis da história da humanidade chegaram ao poder no século XX, e ambos se estabeleceram com base na violação e no esfacelamento da verdade, cientes de que o cinismo, o cansaço e o medo podem tornar as pessoas suscetíveis a mentiras e falsas promessas de líderes determinados a alcançar o poder incondicional. Como Hannah Arendt escreveu em seu livro de 1951, Origens do totalitarismo: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).”
O alarmante para o leitor contemporâneo é que as palavras de Arendt soam cada vez menos como um comunicado do século passado e mais como um terrível reflexo do panorama cultural e político em que vivemos hoje — um mundo no qual as fake news e as mentiras são divulgadas em escala industrial por “fábricas” de trolls russos, lançadas num fluxo ininterrupto pela boca e pelo Twitter do presidente dos Estados Unidos, e espalhadas pelo mundo todo na velocidade da luz por perfis em redes sociais. O nacionalismo, o tribalismo, a sensação de estranhamento, o medo de mudanças sociais e o ódio aos estrangeiros estão novamente em ascensão à medida que as pessoas, trancadas nos seus grupos partidários e protegidas pelo filtro de suas bolhas, vêm perdendo a noção de realidade compartilhada e a habilidade de se comunicar com as diversas linhas sociais e sectárias.
No entanto, não quero fazer uma analogia direta entre as circunstâncias atuais e os horrores opressivos da época da Segunda Guerra Mundial, apenas olhar para determinadas condições e atitudes — ao comentar as obras de George Orwell 1984 e A revolução dos bichos, Margaret Atwood as chamou de “sinais de alerta” — que tornam um povo suscetível à demagogia e à manipulação política, e transformam uma nação numa presa fácil para os aspirantes a autocratas. Quero examinar como o descaso pelos fatos, a substituição da razão pela emoção, e a corrosão da linguagem estão diminuindo o valor da verdade, e o que isso significa para os Estados Unidos e para o mundo.
“O historiador sabe o quão frágil é a tessitura dos fatos no cotidiano em que vivemos”, escreveu Arendt em 1971, no ensaio “A mentira na política”. “Ela está sempre correndo o risco de ser perfurada por uma única mentira ou despedaçada pela mentira organizada de grupos, países ou classes, ou negada e distorcida, muitas vezes cuidadosamente acobertada por calhamaços de mentiras, ou simplesmente autorizada a cair no esquecimento. Fatos necessitam de testemunhos para serem lembrados, e de testemunhas confiáveis para serem oficializados, de modo a encontrar um lugar seguro para habitar o domínio dos interesses humanos.”
O termo “declínio da verdade” (usado pelo think tank Rand Corporation para descrever “o enfraquecimento do papel dos fatos e análises” na vida pública norte-americana) entrou para o léxico da era da pós-verdade, que inclui também expressões agora corriqueiras como “fake news” e “fatos alternativos”. E não só as notícias são falsas: também existe a ciência falsa (produzida por negacionistas das mudanças climáticas e anti-vaxxers, os ativistas do movimento antivacina), a história falsa (promovida por revisionistas do Holocausto e supremacistas brancos), os perfis falsos de norte-americanos no Facebook (criados por trolls russos) e os seguidores e “likes” falsos nas redes sociais (gerados por bots).
Trump, o 45º presidente dos Estados Unidos, mente de forma tão prolífica e com tamanha velocidade que o The Washington Post calculou que ele fez 2.140 alegações falsas ou enganosas no seu primeiro ano de governo — uma média de quase 5,9 por dia. As mentiras dele — sobre absolutamente tudo, desde as investigações sobre a interferência russa nas eleições, passando por sua popularidade e suas conquistas, até o tempo que passa vendo TV — são apenas o mais espalhafatoso entre os vários sinais de alerta acerca de seus ataques às instituições democráticas e normas vigentes. Ele ataca rotineiramente a imprensa, o sistema de justiça, as agências de inteligência, o sistema eleitoral e os funcionários públicos responsáveis pelo bom funcionamento do governo norte-americano.
Entretanto, os ataques à verdade não estão limitados aos Estados Unidos. Pelo mundo todo, ondas de populismo e fundamentalismo estão fazendo com que as pessoas recorram mais ao medo e à raiva do que ao debate sensato, corroendo as instituições democráticas e trocando os especialistas pela sabedoria das multidões. Alegações falsas sobre as relações financeiras do Reino Unido com a União Europeia (em anúncios da campanha do partido Vote Leave num ônibus) ajudaram a mudar a votação em favor do Brexit; e a Rússia intensificou a propagação da sua dezinformatsiya durante as campanhas eleitorais na França, na Alemanha, na Holanda e em outros países, em esforços orquestrados de propaganda para desacreditar e desestabilizar democracias.
O papa Francisco nos lembra: “Não existe desinformação inofensiva; acreditar na falsidade pode ter consequências calamitosas.” O ex-presidente Barack Obama comentou que “um dos maiores desafios que temos em nossa democracia é o fato de não compartilharmos a mesma base de fatos” — atualmente as pessoas estão “operando em universos de informação completamente diferentes”. E o senador republicano Jeff Flake fez um discurso no qual alertou que “2017 foi o ano em que nós vimos a verdade — objetiva, empírica, baseada em evidências — ser mais agredida e atacada do que em qualquer outro período da história norte-americana, por meio das mãos da figura mais poderosa do nosso governo”.9

Como isso aconteceu? Quais são as raízes da falsidade na era Trump? Como a verdade e o bom senso se tornaram espécies ameaçadas de extinção, e o que sua morte iminente sugere para o futuro do nosso discurso público, da nossa política e dos nossos governantes? Esse é o tema deste livro.

* * *

É muito fácil encarar Trump — um candidato que baseou sua carreira política no pecado original do nascimentismo (ou birtherism) — como um cisne negro que conquistou seu cargo graças a uma soma perfeita de fatores: um eleitorado frustrado ainda se recuperando da ressaca da crise financeira de 2008; a interferência dos russos na eleição com uma enxurrada de fake news a favor dele nas redes sociais; uma oponente altamente polarizada que simbolizava a elite de Washington, acusada pelos populistas; e uma publicidade espontânea estimada em 5 bilhões de dólares graças à cobertura dos veículos de imprensa obcecados com as visualizações e os cliques gerados pelo ex-astro de reality show.
Se um escritor criasse um vilão como Trump — uma personificação megalomaníaca e extravagante do narcisismo, mendacidade, ignorância, preconceito, grosseria e demagogia com impulsos tirânicos (isso sem falar que é alguém que consome até uma dúzia de Coca-Cola diet por dia) —, seria acusado de ter produzido um personagem muito fantasioso ou sem nenhuma verossimilhança. Na verdade, o presidente dos Estados Unidos frequentemente se apresenta como um personagem menos convincente do que seria uma mistura de Ubu Rei, Triumph the Insult Comic Dog e um personagem descartado de Molière.
No entanto, por mais que a personalidade de Trump possua traços cômicos, não devemos nos cegar diante das consequências tremendamente sérias de seus ataques à verdade e ao Estado de direito, que evidenciam a vulnerabilidade de nossas instituições e comunicações digitais. Um candidato tão exposto durante a campanha por seu histórico de mentiras e práticas comerciais enganosas dificilmente conseguiria tanto apoio popular se setores do público não tivessem adotado uma postura um tanto quanto blasé em relação à verdade. É inegável que existem problemas sistêmicos em relação ao modo como as pessoas obtêm as informações e como passaram a pensar de forma cada vez mais polarizada.
Com Trump, a esfera pessoal é política e, em muitos sentidos, ele é menos uma anomalia caricata e mais um bizarro epítome de uma série de atitudes mais amplas e interligadas que corroem lentamente a verdade nos dias de hoje, desde a mistura do noticiário e da política com o entretenimento até a polarização tóxica que tomou conta da política norte-americana, passando pelo crescente desprezo populista em relação ao conhecimento especializado.
Essas atitudes, por sua vez, são símbolos das dinâmicas que foram ganhando corpo por anos a fio, criando um ambiente perfeito no qual Veritas, a deusa da Verdade (conforme foi retratada por Goya na famosa gravura Murió la Verdad), poderia adoecer e cair morta.
Já faz décadas que a objetividade — ou mesmo a ideia de que as pessoas desejam conhecer a melhor verdade disponível — está fora de moda. A famosa frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan — “Todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos” — é mais atual do que nunca: a polarização se tornou tão extrema nos Estados Unidos que os eleitores dos estados de maioria republicana e dos de maioria democrata estão tendo dificuldades para entrar em consenso sobre os mesmos fatos. Isso vem acontecendo desde que um verdadeiro sistema solar de sites de notícias de direita passou a orbitar a Fox News e o Breitbart News e consolidou sua força gravitacional sobre a base republicana. E esse cenário vem sendo exponencialmente acelerado pelas redes sociais, que conectam usuários que pensam da mesma forma e os abastecem com notícias personalizadas que reforçam suas ideias preconcebidas, permitindo que eles vivam em bolhas, ambientes cada vez mais fechados e sem comunicação com o exterior.
Quanto a isso, o relativismo está em ascensão desde o início das guerras culturais, na década de 1960. Naquela época, ele foi abraçado pela Nova Esquerda, ansiosa para expor os preconceitos do pensamento ocidental, burguês e primordialmente masculino; e por acadêmicos que pregavam o evangelho do Pós-modernismo, que argumentava que não existem verdades universais, apenas pequenas verdades pessoais — percepções moldadas pelas forças sociais e culturais de um indivíduo. Desde então, o discurso relativista tem sido usurpado pela direita populista, incluindo os criacionistas e os negacionistas climáticos, que insistem que suas teorias sejam ensinadas junto com as teorias “baseadas na ciência”.
O relativismo, é claro, combina perfeitamente com o narcisismo e a subjetividade que estão em expansão, desde “A década do eu”, de Tom Wolfe, até a autoestima na era das selfies. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o efeito Rashomon — o ponto de vista de que tudo depende do seu ponto de vista — venha permeando nossa cultura, desde livros de sucesso como Destinos e Fúrias, de Lauren Groff, até séries de TV como The Affair, baseados na ideia de realidades conflitantes e narradores em quem não se pode confiar.
Tenho lido e escrito sobre muitos desses assuntos nas últimas quatro décadas, desde a ascensão do conceito de desconstrução e das batalhas acerca do cânone literário nos campi universitários; debates sobre a releitura ficcional de fatos históricos em filmes como JFK, de Oliver Stone, e A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow; esforços feitos pelos governos Clinton e Bush para se furtar à transparência e definir a realidade em seus próprios termos; a guerra de Donald Trump contra a linguagem e seus esforços para normalizar o anormal; e a influência da tecnologia na forma como processamos e compartilhamos informações. Nestas páginas pretendo recorrer à leitura de livros e da realidade atual para ligar alguns pontos acerca dos ataques à verdade e situá-los num quadro mais amplo de dinâmicas sociais e políticas que vêm se infiltrando em nossa cultura há anos. Também pretendo chamar a atenção para alguns livros e artigos proféticos do passado, que ajudam a entender melhor o dilema em que nos encontramos hoje.
A verdade é um dos pilares da democracia. Como observou a ex-procuradora-geral interina Sally Yates, a verdade é uma das coisas que nos separam de uma autocracia: “Nós podemos — e devemos — debater políticas e questões, mas esses debates devem se basear em fatos em comum, e não em apelações baratas à emoção e ao medo na forma de mentiras e de uma retórica polarizante.”
“Não apenas existe uma verdade objetiva, como deixar de dizê-la é uma questão importante. Não temos como controlar se os agentes públicos mentem para nós. Mas temos como controlar se eles devem responder por essas mentiras ou se então, seja por exaustão ou para proteger nossos interesses políticos, vamos olhar para o outro lado e igualar a indiferença à verdade.”

Michiko Kakutani, in A morte da verdade – Notas sobre a mentira da era Trump

04/05/2021

Acerca da verdade

“A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruína-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.”

Franz Kafka, in Conversas com Kafka

14/03/2021

Apelo a uma autoridade irrelevante

 


Embasar um argumento na opinião de uma autoridade é um apelo à modéstia das pessoas, ao senso de que sempre haverá outros com maior conhecimento do que nós (Engel) – o que pode até ser verdade, mas nem sempre. Claro que é correto citar uma autoridade competente, como os cientistas e acadêmicos costumam fazer. A grande maioria das coisas em que acreditamos, como os átomos e o sistema solar, são confirmadas por autoridades confiáveis, assim como todos os fatos históricos (na acepção de C.S. Lewis). Mas é muito mais provável que o argumento seja falacioso quando há um apelo à opinião de uma autoridade irrelevante, que não é especializada no assunto em questão. Uma falha de argumentação nessa linha é o apelo a uma autoridade vaga, em que uma ideia é atribuída a um coletivo indefinido. Por exemplo: “Professores na Alemanha demonstraram que isso é verdadeiro.”
Um tipo comum de apelo a autoridades irrelevantes é o apelo à sabedoria antiga, onde uma ideia é presumida como verdadeira somente porque foi originada num passado distante. Por exemplo: “A astrologia era praticada há milênios na China, uma das civilizações tecnologicamente mais avançadas da Antiguidade.” Esse tipo de apelo costuma ignorar o fato de que o conhecimento científico atual é muito superior e que muitos costumes e normas podem mudar ao longo do tempo. Por exemplo: “Nós não dormimos o suficiente hoje em dia. Poucos séculos atrás, as pessoas costumavam dormir nove horas por noite.” Havia uma série de razões pelas quais elas dormiam mais horas no passado. O simples fato de que dormiam mais não oferece evidências suficientes para sustentar o argumento de que devemos fazer o mesmo hoje em dia.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

20/06/2020

Vida e verdade

“A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruína-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.”
Franz Kafka, in Conversas com Kafka

27/05/2020

Da verdade

A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruína-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.
Franz Kafka, in Conversas com Kafka

12/04/2020

Acerca da verdade

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.
Friedrich Nietzsche, in Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral

20/11/2019

O outro lado

“Ninguém deve se contentar com o que lhe dizem. É necessário checar se é verdade, saber se é a única verdade e cotejá-la com a verdade dos outros. Deve-se sempre ir atrás do outro lado de tudo.”
José Saramago, in As palavras de Saramago

28/07/2019

Acredite na verdade


“Como na era da internet todos nós somos editores, cada um de nós arca com uma certa responsabilidade privada pelo senso de verdade do público. Se adotarmos uma postura de seriedade na busca dos fatos, cada um de nós pode fazer uma pequena revolução na forma como a internet funciona. Se procurar por fatos comprovados, você não enviará informações falsas a outras pessoas.”
Timothy Snyder, in Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente

Segundo o autor, é impossível existir eleições democráticas, julgamentos em tribunais, formulação e cumprimento de leis, quando outras organizações que não seja o Estado tenha o direito de usar de violência(?).
Os grupos armados primeiro corroem a ordem política para depois transformá-la. Por exemplo, a Guarda de Ferro, na Romênia, a Cruz Flechada húngara, e as tropas de choque nazistas. O autor também faz uso de um exemplo, (sem citar o nome de Trump, mesmo ficando implícito), de um candidato americano que impediu a presença de um adversário em um comício seu, expulsando-o, mas com sua guarda pessoal.
Para Snyder, para a violência transformar não somente o clima político mas também o sistema, as emoções dos comícios e a ideologia de exclusão precisam ser incorporadas ao treinamento dos guardas armados.
“Esses guardas primeiro desafiam a polícia e as Forças Armadas, depois se infiltram nessas organizações e por fim as transformam.”

29/06/2019

Da mentira e da verdade

“Muito tempo há que a mentira se tem posto em pés de verdade, ficando a verdade sem pés e com dobradas forças a mentira; e é força que, sustentando-se em pés alheios, ande no mundo a mentira muito de cavalo; e se houve filósofo que com uma tocha numa mão buscava na luz do meio-dia um sábio, hoje, por mais que se multipliquem luzes às do Sol, não se descobrirá um afeto verdadeiro. Buscava-se então a ciência com uma vela, hoje pode-se buscar a verdade com a candeia na mão, que apenas se acha nos últimos paroxismos da vida.”
Padre Antônio Vieira, in As sete propriedades da alma

24/05/2019

Verdade

“A verdade é o sapato sem sola de quem não sabe mentir.”
José Eduardo Agualusa, in Teoria Geral do Esquecimento

21/05/2019

A verdade dividida

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade