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03/02/2026

Paixão

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando solta no espaço.
Eu fico feia, olhando espelhos com provocação,
batendo a escova com força nos cabelos,
sujeita à crença em presságios.
Viro péssima cristã.
Todo dia a essa hora alguém soca um pilão:
em vem o Manquitola, eu penso e entristeço de medo.
Que dia é hoje?’, a mãe fala,
sexta-feira é mistérios dolorosos.’
A lamparina bruxuleia sua luz já humílima,
estreita de vez o pretume da noite.
Comparece, no acalmado da hora,
o zoado da fábrica em destacado contínuo.
E meu cio que não cessa,
continuo indo ao jardim atrair borboletas
e a lembrança dos mortos.
Me apaixono todo dia,
escrevo cartas horríveis, cheias de espasmos,
como se tivesse um piano e olheiras,
como se me chamasse Ana da Cruz.
Fora os olhos dos retratos,
ninguém sabe o que é a morte.
Sem os trevos no jardim,
não sei se escreveria esta escritura,
ninguém sabe o que é um dom.
Permaneço no alpendre olhando a rua,
vigiando o céu entristecer de crepúsculo.
Quando eu crescer vou escrever um livro:
Pirilampos é vaga-lume?’, me perguntavam admirados.
Sobre um resto de brasas,
o feijão incha na panela preta.
Um pequeno susto, ia longe a cauda da reza.
Os pintos franguinhos
não cabiam todos debaixo da galinha,
ela repiava em cuidados.
Este conto ameaça parar, represado de pedras.
Só quaresmal ninguém suporta ser.
Uma dor tão roxa desmaia,
uma dor tão triste não há.
A cantina das escolas
e a ginástica musicada transmitida no rádio
sustêm a ordem do mundo, à revelia de mim.
Mesmo os grossos nódulos extraídos do seio,
o cobalto e seu raio sobre a carne em dores,
mesmo esses sobre os quais eu lançara a maldição:
não lhes farei um verso; mesmo esses
acomodam-se entre as achas de lenha,
querem um lugar na crucificação.
Foi cheia de soberba que comecei esta carta,
sobrestimando meu poder de gritar por socorro,
tentada a acreditar que algumas coisas,
de fato, não têm páscoa.
Mas o sono venceu-me e esta história dormiu,
uma letra depois da outra. Até que o sol nasceu
e as moscas acordaram.
A vizinha passou mal dos nervos
e me chamaram do muro, com urgência.
A morte deixa retratos, peças de roupa,
remédios pela metade, insetos desorientados
no mar de flores que recobre o corpo.
Este poema visgou-se. Não se despega de mim.
Enfaro dele, de sua cabeça grande;
pego a sacola de compras,
vou passear no mercado.
Mas lá está ele, os cuspos grossos de pinga,
os calcanhares rachados das mulheres,
tostões na palma da mão.
Não é uma vida exemplar esta que tira de um velho
o doce modo de ser um homem com netos.
Minha tristeza nunca foi mortal,
renasce a cada manhã.
O óbito não obsta o repinicado da chuva na sombrinha,
as gotículas,
incontáveis como constelações.
Vou atrás do pio cortejo,
misturo-me às santas mulheres,
enxugo a Sagrada Face.
Vós todos que passais, olhai e vede,
se há dor tão grande como a minha dor.”
Que dia é hoje?’, a mãe fala,
domingo é mistérios gloriosos.’
O que tem corpo é a alegria.
Só ela fica pendida,
de olhos turvos e boca.
Peito e membros magoados.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

10/11/2018

Um mundo em que nada é resoluto

Existe, nesta terra, algo que escape à dúvida, à exceção da morte? - à única coisa que é certa no mundo? Continuar a viver duvidando de tudo - eis um paradoxo que não é dos mais trágicos, uma vez que a dúvida é bem menos intensa, bem menos difícil do que o desespero. A mais frequente dúvida é aquela abstrata, em que se compromete apenas uma parte do ser, contrariamente ao desespero, em que a participação é orgânica e total. Um certo diletantismo, um tanto quanto superficial caracteriza o ceticismo em visto do desespero, este fenômeno tão estranho e complexo. Eu faço bem em duvidar de tudo e em encarar o mundo com um sorriso de desprezo - e isto não me impedirá de comer, de dormir tranquilamente ou de me casar. No desespero, do qual somente vivendo se extrai a profundidade, esses atos somente são possíveis pagando o preço de esforços e sofrimentos. Nos cumes do desespero, ninguém tem mais direito ao sono. Assim, um desesperado autêntico não esquece jamais sua tragédia: sua consciência preserva a dolorosa atualidade de sua miséria subjetiva. A dúvida é uma inquietude ligada aos problemas e às coisas, e procede do caráter insolúvel de toda grande questão. Se os problemas essenciais pudessem ser resolvidos, o cético voltaria a um estado normal. Que diferença em relação à situação do desesperado, que nem mesmo a resolução de todos os problemas tornaria menos inquieto, uma vez que sua inquietude brota da própria estrutura da existência. Não são os problemas, então, mas as convulsões e chamas interiores que torturam. Pode-se lamentar que nada se resolva aqui na terra; ninguém, apesar disso, suicida-se devido a isto - a inquietude filosófica influi muito pouco na inquietude total de nosso ser. Eu prefiro mil vezes uma existência dramática, atormentada pelo seu destino e submetida ao suplício das chamas mais ardentes, à existência do homem abstrato, atormentado por questões não menos abstratas e que somente lhe afetam superficialmente. Eu desprezo a ausência do risco, da loucura e da paixão. Quão fecundo, em vista disto, é um pensamento vivo e apaixonado, irrigado pelo lirismo! Quão dramático e interessante é o processo por meio do qual espíritos inicialmente atormentados por problemas puramente intelectuais e impessoais, espíritos objetivos a ponto de esquecerem-se de si, são, uma vez surpreendidos pela doença e sofrimento, fatalmente levados a refletir sobre sua subjetividade e sobre as experiências a afrontar. Os homens objetivos e ativos não encontram neles mesmos recursos suficientes para fazer de seu destino um problema. Para que estes se tornem subjetivos e universais a uma só vez, eles devem descer, um a um, todos os degraus de um inferno interior. Enquanto não se está reduzido a cinzas, não se pode obter a filosofia lírica - uma filosofia em que a ideia tem raízes tão profundas quanto a poesia. Acessa-se, então, uma forma superior de existência, onde o mundo e seus problemas inextrincáveis não merecem sequer mais desprezo. Não é uma questão de excelência nem de valor particular do indivíduo; fato é, simplesmente, que nada, fora de nossa agonia pessoal, nos interessa mais.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

07/01/2018

Paixão

Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força.”

La Rochefoucauld

16/06/2017

Paixão e literatura

Sua condição de “apaixonado-pela-primeira-vez” o encheu de impulsos literários. Você sentiu que uma experiência tão linda e única como a do seu amor merecia ser transformada em livro. E agora você me envia o seu manuscrito, pedindo minha opinião.
A condição de “apaixonado-pela-primeira-vez” é perigosa, tornando o apaixonado, frequentemente, tolo. Assim, quero adverti-lo do perigo de tentar fazer literatura num surto de paixão. A paixão, divina para os apaixonados, pode ficar piegas para o leitor que não está apaixonado. A doce condição de apaixonado tende a lambuzar as palavras com o seu melado, tornando o texto enjoativo. Segundo o testemunho de Gabriel García Márquez no seu livro O amor nos tempos do cólera, foi isso que fez com que Fiorentino Ariza perdesse o emprego. Fiorentino era um escriturário numa companhia de navegação. Além disso, era apaixonado pela Firmina Dazza, adolescente. Aconteceu, entretanto, que, obedecendo às determinações do pai, Firmina foi obrigada a se casar com o doutor Urbino. Fiorentino quase enlouqueceu. O resultado foi que suas cartas de escriturário, que deveriam ser inodoras cartas comerciais, passaram a ter um indisfarçável perfume de paixão. Fiorentino foi despedido.
Apaixonados-pela-primeira-vez” só deveriam escrever cartas de amor. E isso porque, havendo-os a paixão privado da lucidez exigida pela literatura, tudo o que escrevem parece maravilhoso para eles, sendo ridículo aos olhos dos outros. “Todas as cartas de amor são ridículas”, disse Álvaro de Campos. Ridículas para os que não estão apaixonados. Para os apaixonados, obra-prima literária.
A paixão mergulha as pessoas num mar de sentimentos, resultando daí que tudo o que escrevem é pura emoção. Mas literatura e poesia não se fazem com emoção. Quem o diz é Fernando Pessoa:
A emoção não é a base da poesia. [...]
A poesia é superior à prosa porque exprime não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela.
Para se escrever sobre a paixão é preciso estar na praia. É só da praia que se pode contemplar o oceano. São poucos os que conseguem escrever literariamente sobre a paixão enquanto mergulhados nas funduras do oceano da paixão.
Aconselho-o, portanto, por enquanto, a deixar de lado suas pretensões literárias e a se dedicar à aprendizagem. Eu o aconselharia a ler o que dizem da paixão duas mulheres que, havendo vivido paixões avassaladoras, foram capazes de escrever sobre ela de forma comovedora e lúcida, sem que a sua condição de apaixonadas tivesse diminuído o seu vigor literário.
Leia o livro da Lya Luft, O lado fatal: é sobre a paixão que ela e o Hélio Pelegrino viveram. É impossível ler O lado fatal sem chorar.
E não deixe de ler Esse amor, esta dor, da Lenir Santos. O livro é sobre a paixão que ela e o Guido Ivan de Carvalho viveram. Uma vez escrevi uma crônica sobre um amigo muito querido que morrera. Muitas pessoas ficaram tristes comigo pela morte do meu amigo. Mas uma delas me disse: “Choro, não pela morte do seu amigo. Choro porque sei que não chorarei como você chorou pela morte de nenhum dos meus amigos...” Esse é o perigo da leitura do livro da Lenir: chorar, não pela dor que ela teve e tem; chorar por saber que é possível que a gente nunca chorará como ela, por não ter tido, não ter e não vir a ter uma paixão parecida com a que ela e o Guido viveram. Nos casos da Lya e da Lenir, a razão por que a paixão não perturbou a literatura talvez se deva ao fato de a morte lhes ter dado lucidez. “Tenho a lucidez de quem está para morrer” (Fernando Pessoa). O Hélio Pelegrino e o Guido Ivan de Carvalho morreram. Ao escreverem, elas estavam diante do Vazio. A literatura e a poesia são as palavras que colocamos no Vazio – um gesto: no lugar da ausência, um ramo de hortênsia (Cassiano Ricardo)... Os apaixonados felizes não podem produzir literatura por não estarem diante do Vazio. Estão diante do Pleno. E o Pleno não precisa de palavras. Parodiando o Chico: “Literatura é escrever uma carta para o amante que já morreu...” Literatura é sempre sobre o que não é. É um bruxedo para o retorno do que já foi.
Lendo o livro da Lenir, vi a volta acontecer. O passado ressuscitou: vi os dois rindo, de mãos dadas, se amando. Você também verá.
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

10/08/2016

Amor e desejo

O amor não é senão o desejo; e assim, o desejo é o princípio original de que todas as nossas paixões decorrem, como os riachos da sua origem; por isso, sempre que o desejo de um objeto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo e somos levados a mil desordens.”
Miguel de Cervantes, in A Galateia

13/10/2015

Só a paixão importa

Não se amassa o barro apenas com águas puras, mas com tudo o que a correnteza traz, limos e detritos. Isto é o que transforma o líquido comum em húmus, e garante no final a solidez das construções. Além do mais, palavras são palavras – só a paixão importa.
Lúcio Cardoso, in Diários

05/10/2015

Paixão verdadeira

Toda paixão verdadeira é sem esperança, do contrário não seria uma paixão mas um simples pacto, um acordo sensato, uma troca de interesses banais.”
Sándor Márai, in As brasas

30/09/2015

Paixão

É aí que eu me pergunto: a paixão é de fato tão profunda, tão má, tão grandiosa, tão desumana?”
Sándor Márai, in As brasas

27/07/2015

Com paixão

Comovo-me em excesso, por natureza ou ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.”
Graciliano Ramos

24/04/2015

Atrás de cada arte, há uma paixão

Contei a Kafka que meu pai se opunha a que eu estudasse música.
- Você respeitará essa proibição? - perguntou-me Kafka.
- Nem pense nisso – respondi. - Sou teimoso.
Kafka olhou-me com um ar muito grave e disse:
- É quando se é teimoso que se perde mais facilmente a cabeça. Dizendo isso, não quero de modo algum criticar seus estudos de músico, naturalmente. Pelo contrário! Só a paixão que resiste à prova da razão tem energia e profundida.
- Mas a música não é uma paixão, é uma arte – falei.
Mas Kafka sorriu.
- Atrás de cada arte, há uma paixão. Por isso você sofre e luta por sua música. Por isso você não se dobra à proibição materna, porque ama a música e o que está ligado à música mais do que seus próprios pais. Mas é sempre assim em matéria de arte. É preciso rejeitar a vida, para ganhá-la.”
Gustav Janouch, in Conversas com Kafka

27/03/2015

Paixão e amor

Na juventude temos a inclinação de nos apaixonarmos pelo amor.”
Umberto Eco, in Baudolino

02/08/2013

Paixões

“As paixões são como ventanias que sopram as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens, nem aventuras, nem novas descobertas.”
Voltaire