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24/10/2017

Quem é?

Se Nelson Rodrigues tinha as estagiárias da PUC, Mario tinha as jovens repórteres de TV.
Em 1978, o Planetário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul resolveu misturar poesia e astronomia. Os poemas de Quintana integravam o projeto e ele foi convidado para dar uma entrevista coletiva a respeito lá mesmo, no belo prédio futurista do planetário. Depois de toda a badalação dos 70 anos, já estava mais ou menos amaciado para essas coisas de entrevistas.
Falou com repórteres de jornais e agora, pacientemente, esperava que a equipe da TV Gaúcha se organizasse para gravar com ele. Teste daqui, luz dali, liga, desliga, microfone, contraplano, ok?, e ele olhando, quieto.
Lançada no Brasil pela TV Globo, estava na moda aquela história de o repórter encostar o microfone na boca do entrevistado e perguntar: “Quem é o Fulano de Tal?”. E o Fulano respondia: “Sou um ator, um homem do povo, que compra em supermercado, entra em ônibus, acredita no mundo novo, patati, patatá”. Deu pra lembrar? A repórter da TV Gaúcha precisava estar na onda e foi de primeira:
Quem é Mario Quintana?
Surpreso, quase incrédulo diante da pergunta, ele só achou uma saída:
Sou eu, minha filha.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

16/08/2016

Boato

Saguão do Hotel Presidente, na Avenida Salgado Filho, um dos tantos endereços do poeta. O dono do hotel encontra Mario com as mãos no bolso do paletó, parado daquele seu jeito, olhando sem olhar, à espera de nada. E resolve interferir com uma brincadeira.
Seu Mario, me disseram que o senhor vive dando em cima das moças que se hospedam no hotel...
Foi o que bastou para animar-se o velho sorriso ao mesmo tempo malicioso e ingênuo, quase adolescente:
Olha, Pedrinho, não é verdade. Mas pode espalhar.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – o humor de Mario Quintana

29/07/2016

Shakespeare

A Coletânea era um corredor ocupado por livros, revistas e jornais, em um ponto nobre da Rua da Praia, diante da Praça da Alfândega e ao lado do Largo dos Medeiros. Lugar de encontro de intelectuais e leitores que marcou época na Porto Alegre dos anos 60, tinha em Quintana um visitador diário.
Arnaldo Campos, o dono, um dos livreiros mais respeitados da cidade, colecionador de edições históricas, estava por perto no dia em que uma jovem senhora ficou radiante ao reconhecer Quintana como o ilustre folheador ao seu lado. Observou-o algum tempo, aproximou-se. Aparentemente sem saber de que forma fazer a melhor abordagem, identificou-se como professora e foi fundo:
Poeta, o que devo ler para entender Shakespeare?
Com o dedo indicador preso no meio do livro que estava examinando, Quintana orientou, imperturbável e honestamente:
Shakespeare, minha filha!
Juarez Fonseca, in Ora bolas! - O humor de Mário Quintana

04/07/2016

Perguntadeiras

Ele [Quintana] tinha que o maior chato é o “chato perguntativo”. E apesar de toda a admiração que nutria pelas mulheres, às vezes nem elas escapavam dessa classificação. Carlos Nejar lembra do dia em que ambos foram a Bento Gonçalves para autografar seus livros e conversar com estudantes. No pergunta daqui, pergunta dali, uma universitária, bonita e espevitada, não resistiu e quis saber:
Mario, por que não te casaste?
Deu uma de suas respostas feitas:
Porque as mulheres são muito perguntadeiras.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

27/05/2016

Chatos metafísicos

A conversa continua e a moça, apoiada nos tantos poemas de Quintana sobre a morte, insiste em interrogá-lo sobre essas questões de céu, infinito, eternidade.
Ele [Quintana] aproveita:
Acho que o céu deve ser muito chato, porque lá tem chatos de todos os séculos. Talvez seja melhor aqui, pois aqui a gente só aguenta os chatos da geração da gente.
Juarez Fonseca, in Ora bolas - O humor de Mário Quintana

14/03/2016

Problema

Depois de construir a fama de recluso e avesso a exposições, por volta dos 70 ele [Quintana] se deixou descobrir explicitamente. Virou atração turística, como avalia o jornalista Ivo Stigger. “Sou a falta de assunto predileta das professoras de Português da Grande Porto Alegre”, divertia-se. Quando não podia fugir, desaparecendo nos corredores do prédio da Caldas Júnior ou enfiando-se num cinema, aceitava o sacrifício estoicamente.
Naquela tarde, um bando de normalistas do Instituto de Educação (ainda usavam o uniforme tradicional, saia plissada azul-marinho, blusa listrada em vermelho e branco, gravatinha) invadiu a redação e foi direto à mesa do poeta, tema involuntário de um trabalho em grupo.
Apegando-se ao fato de que ele sempre vivera sozinho, uma magrelinha loira faz a primeira pergunta:
O senhor poderia falar sobre o problema da solidão?
Ele, dirigindo-se ao grupo:
O maior problema da solidão, minhas filhas, é preservá-la.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

13/02/2016

Palavrão

Em outra visita a São Paulo [Mário Quintana] é levado a conhecer uma livraria muito especial, repleta de obras raras e dirigida por uma senhora culta e elegante. Vaidosa e envaidecida, ela recebe o poeta gaúcho entre elogios e rapapés. Faz sua propaganda:
Meu caro poeta, temos aqui incunábulos legítimos, a sua disposição.
Quintana:
Meu Deus, uma senhora tão distinta fazendo essa proposta tão estranha...
Juarez Fonseca, in Ora bolas

10/01/2016

Sorte

http://www.lpm-blog.com.br/wp-content/uploads/2013/05/ora_bolas.jpg 

[Quintana] era um jogador inveterado. Jogo do bicho, loto, sena, loteria – certamente seria “cliente” dos futuros bingos. Tinha até assinatura de bilhetes em uma tabacaria e agência lotérica da Rua Marechal Floriano. Acabou fazendo amizade com a balconista da tabacaria, Mara.
Algum tempo depois do atropelamento, precisou de alguém para cuidar dele o dia todo. Lembrou de Mara. Elena Quintana foi sondá-la, pois afinal seria um trabalho completamente diferente. Mas Mara topou na hora, e permaneceu ao lado do poeta durante mais de dez anos.
Ele costumava apresentá-la aos outros com a seguinte informação:
Essa foi a única coisa que eu ganhei na loteria…
Juarez Fonseca, in Ora bolas

16/12/2015

Vocação

Quando [Mário Quintana] esteve pela primeira vez no Rio de Janeiro e em São Paulo, os repórteres perguntavam por que não tinha saído do Rio Grande do Sul. Respondia: “Não saio de lá pelo mesmo motivo que vocês não saem daqui”.
Antes, bem antes disso, quiseram saber em Porto Alegre por que saíra de Alegrete.
Lá quem não é estancieiro é boi. Como não tenho vocação para nenhuma das duas coisas, vim para Porto Alegre.
Juarez Fonseca, in Ora bolas

24/11/2015

Primo Borges

Um amigo de Mario viajou para Buenos Aires e foi visitar Jorge Luis Borges na Biblioteca Nacional. Conversa vai, conversa vem, falaram no poeta brasileiro e Borges disse que já havia lido alguma coisa dele. O amigo mencionou o nome completo, Mario de Miranda Quintana. Borges interessou-se: “Então é meu parente, eu tenho Miranda na família”.
Quintana, claro, ficou sabendo da história. Quando Borges morreu, ele comentou com Sergio Faraco: “Morreu feliz, morreu pensando que era meu primo”.
Juarez Fonseca, in Ora bolas

17/11/2015

Esquina perigosa

Depois do almoço, Mario Quintana e o jornalista J. Prado Magalhães, da Folha da Tarde, fazem a digestão caminhando pela Rua da Praia. Ao chegarem à Rua da Ladeira, que até hoje ninguém entende por que continua com o nome de General Câmara, Mario tem sua atenção despertada por uma nova placa de trânsito colocada ali: “Esquina perigosa”. Num tom irônico, quase distante, observa:
Como se a esquina pudesse ser perigosa. Perigosos são os motoristas, ora bolas…
Juarez Fonseca, in Ora bolas

06/11/2015

Vales

Na época em que [Mario Quintana] trabalhava na Editora Globo ele andava sempre duro. Como o salário terminava antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Até que um dia o caixa chiou:
Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!
Quis saber, com aquele sorriso maroto:
Afinal, são vales ou são montes?
Juarez Fonseca, in Ora bolas

16/10/2015

As três

No Bar do Ari, situado no segundo andar da Companhia Jornalística Caldas Júnior, um acima do Correio (do Povo), alguém falava sobre a mudança dos costumes.
- Antigamente, se o sujeito queria dançar, só tinha o cabaré ou o baile do clube. Agora não, agora tem a boate, onde o cara pode ir com a amante ou com a mulher, pode levar até a mãe que tudo bem…
Mario (Quintana) que ouvia quieto, não perdeu a oportunidade:
- O Édipo levaria todas no mesmo dia. A mulher, a amante e a mãe…
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

08/10/2015

Rimas

Em um atropelamento, Quintana quebrara o fêmur esquerdo e deveria submeter-se a uma cirurgia para colocação de prótese. Os médicos preocupavam-se com a idade dele, 79 anos, e anteciparam que a recuperação poderia ser lenta. Ele permaneceria alguns dias no hospital.
Paciência, ora bolas.
- Lá vou ter bastante tempo para trabalhar. Só que agora meus poemas vão sair de pé-quebrado…
e ao saber que a prótese seria de platina:
- Ah! Agora sim, vou ser um poeta de valor…
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

06/10/2015

O melhor poeta

Em certa época, Mario Quintana e Athos Damasceno Ferreira moravam na Rua do Rosário – a atual Vigário José Inácio. E um provocava o outro, se dizendo “o melhor poeta da rua”. Até o dia em que Quintana chegou para Athos e concedeu:
- Olha, cheguei à conclusão de que tu és o melhor poeta da Rua do Rosário.
Athos ficou sério, e em seguida elogiou a honestidade e a humildade do poeta rival.
- Não é nada disso – debochou Quintana – é que acabo de me mudar para a Riachuelo…
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana